quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

São Silvestre, a corrida

 

A mais tradicional corrida de rua do País completou cem anos
A São Silvestre é a corrida de rua mais tradicional de São Paulo e do Brasil. Completou 100 anos ontem. Em 1924, o jornalista Cásper Libero esteve na França e ficou deslumbrado com uma competição de rua, disputada à noite. Decidiu trazer a novidade para São Paulo. Deu certo. A passagem de ano e a corrida de São Silvestre completavam-se. Os vencedores da prova costumavam chegar por volta de meia-noite, quando o novo ano tinha início, entre rojões, fogos de artifício e o delírio da multidão na avenida Paulista, diante do prédio da Gazeta. Era emocionante. 

Quem exibia a prova era a TV Gazeta. Acompanhar a disputa, na época, era complicado, porque a transmissão se interrompia a todo momento. A imagem tremia. Entrava um sinal do prefixo da TV. Os recursos técnicos da Gazeta deixavam a desejar. O narrador falava com a voz tremida, meio aos solavancos e frequentemente sumia. Mesmo assim, no meio daquela precariedade da transmissão, a gente torcia. O último brasileiro vencedor tinha sido Sebastião Alves Monteiro, em 1946. 

Depois, vieram lendas do atletismo, como Emil Zatopek  - "a locomotiva humana" - um tcheco que elevou o padrão de disputas e tornou a competição brasileira conhecida nos grandes centros. Meu pai foi assistir e ficou assombrado com a velocidade de Zatopek. "Enquanto os outros estavam virando a primeira esquina, o Zatopek estava próximo da linha de chegada", meu pai exagerava.

Eu era criança, quando vi o belga Gaston Roelants se sagrar tetracampeão. Roelants me deu vontade de participar da prova. Parecia fácil. Até então, a corrida tinha 8 quilômetros e 700 metros. 

Mas quando chegou a minha vez de participar da São Silvestre o trajeto havia sido ampliado e eram agora 15 longos quilômetros.  Mesmo velho e cansado, achei que estava na hora de participar, de sentir o "glamour" da mais tradicional corrida de rua do País. Treinei bastante, para evitar morrer no meio da rua. Enquanto os vencedores, faziam a prova em 45 minutos, em média, eu demorava duas horas para completar os malditos 15 quilômetros. É claro que, com o passar dos anos, o tempo tende a baixar. Meu melhor tempo foi de uma hora e cinquenta. Se corresse mais uns cem anos, talvez chegasse nos 45 minutos dos finalistas.

A São Silvestre, que tem esse nome obviamente em homenagem ao santo do dia, é uma competição difícil, porque no dia 31 de dezembro está quente e abafado. Quando chove, é pior, porque sobe um vapor do chão que deixa a gente sem respirar. A chuva bate no asfalto fervente e aquela evaporação é insuportável. Além do calor, o que me incomodava muito eram os folclóricos. Gente pintada, gente fantasiada. Tinha um cidadão vestido de noiva, com buquê e tudo que corria conosco. Para mim, corrida de São Silvestre era uma coisa séria. Nada a ver com aqueles folclóricos irritantes. 

A largada acontecia em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). Comecei a prova e quando cheguei na rua Augusta senti uma dor lancinante no músculo adutor da perna esquerda. Pus a mão na coxa. Doía muito. Justamente nessa hora, um fotógrafo me flagrou e o jornal da São Silvestre relatou: "Danilo Angrimani com cara de dor já nos primeiros 300 metros da prova". Dedo-duro sacana! O que o infeliz não contou é que completei os 15 quilômetros. Cada quilômetro com uma dor terrível na coxa. Mas completei. Sabe-se lá por quê.

Em 2011, uma tarde assustadoramente quente, com muito sol, estava no final do Minhocão, virando à direita para pegar a avenida Pacaembu, quando vi o ganhador da São Silvestre do ano anterior - era um brasileiro - vomitando tudo que tinha direito. O coitado estava apoiado no guard-rail do Minhoão e dava adeus à corrida. Pensei: "Putz, se o vencedor de 2010 está desse jeito, imagine o que vai acontecer comigo quando chegar na Brigadeiro?". 

A avenida Brigadeiro Luís Antônio é uma subida cruel. Você está com a língua de fora, pedindo para Jesus vir lhe buscar, quando chega na Brigadeiro e olha aquela subida interminável. As pernas querem parar. O cérebro insiste em parar. O corpo todo pede pelo amor de deus para você entrar na rua Maria Paula e esquecer aquilo tudo. Mesmo assim, você continua. Vai subindo. Dos dois lados da rua, grupos de pessoas acenam para você. Estendem as mãos. Eles o incentivam a morrer. A melhor hora é quando você chega no final da Brigadeiro, vira à direita na avenida Paulista e vê o marco da chegada ali na frente. Você conseguiu. Superou seus limites. Não morreu (ao contrário do que imaginava) e agora é correr para o abraço da rapeize.

Assisti a São Silvestre de 1958 a 1979, torcendo para ver um brasileiro cruzar em primeiro na linha de chegada. Não fui feliz. Ganhava sempre um estrangeiro. Em 1980, decidi que iria fazer outra coisa no dia 31 de dezembro, mas não veria a São Silvestre. "Não adianta", falei para a família, "nenhum brasileiro ganha mesmo".  Só que ganhou. José João da Silva, atleta do São Paulo, chegou em primeiro e quebrou aquele jejum que já durava longos 34 anos. "Fizemos uma festa tremenda", meu pai contou, "pena que você não estava aqui". Pois é...

Este ano assisti a São Silvestre pela TV. Recentemente, estava treinando, correndo 14 quilômetros e estourei o tendão de aquiles da perna esquerda. Muito gelo e compressa quente. Vi ganhar um etíope e uma atleta da Tanzânia, porque faltam investimentos para os atletas brasileiros. 

O terceiro colocado, o brasileiro Fábio de Jesus, declarou para o Uol: "O atletismo está acabando, indo água abaixo. Os atletas precisam se virar, se quiserem competir: Às vezes a gente treina na rua, com carro atrapalhando, cachorro passando, correndo risco de torcer o pé. Muitas vezes a gente chega na pista e é barrado". Até os 14 anos, informou a reportagem, Jesus corria descalço, em Monte Santo, na Bahia. Foi coletor de lixo e mudou-se para São Paulo, para se dedicar exclusivamente ao atletismo.

Além da falta de incentivo, destacada por Fábio de Jesus, o jejum de brasileiros no primeiro lugar do pódio já incomoda novamente. Faz 15 anos que um brasileiro não ganha a prova. 

Depois de ter participado de algumas provas da São Silvestre, posso dizer que seria muito melhor se a prova fosse disputada à noite. É mais fresco, mais saudável, mais humano. Em 1982, a TV Globo passou a transmitir a prova, com toda a técnica e a competência que lhe é habitual, nos livrando do quase amadorismo da TV Gazeta. Em 1989, no entanto, a mesma Globo mudou o horário da disputa, passando para a tarde. Essa alteração tirou todo o glamour e a emoção da São Silvestre. 

Durante uma cobertura noturna da São Silvestre, antes da mudança de horário, lembro de um repórter, muito emocionado. Os atletas estavam chegando na Paulista, os rojões estouravam em volta, o público delirava e o repórter, que era carioca, começou a chorar. "Isso é lindo, meu deus", ele falou para os jornalistas próximos dele. 

A São Silvestre mudou para a tarde e agora é disputada de manhã. Por causa de sua grade de programação, que deixa aqueles shows insossos, com artistas que a gente mal lembra o nome, para serem transmitidos na hora da virada, a Globo conseguiu fazer mais uma vítima. É uma pena, porque tem eventos tradicionais que não deveriam ser deformados. Imagine se a BBC sugerir que Wimbledon troque suas quadras de grama por grama artificial. Acho que até o rei Charles iria se engasgar com o chá. 

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