Mostrando postagens com marcador Kafka. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kafka. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Governo Bolsonaro padece da síndrome Dunning-Kruger



Zezinho chega da escola e fala para a mãe: "Descobri que sou mais inteligente que a professora". "Por quê?". "Passei de ano e ela continua no mesmo".

Lembrei dessa piada ao ler a notícia que o nosso querido ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), tirou nota zero em sociologia na USP.  

Weintraub não deixa por menos. Confunde o autor Kafka com o prato árabe kafta. Com uma bela caneta Bic, assina o que ele chama de "contingenciamento" e tira 30% da grana das universidades federais. Vai explicar o corte, usando chocolates, e erra ao confundir 30% com 3% (uma tristeza). Paralisa pesquisas. Corta bolsas de estudo. Interrompe mestrados e doutorados. Destrói carreiras. Mata o conhecimento. O governo Bolsonaro é um devastador incêndio cultural de consequências nefastas. 

Um psicoterapeuta freudiano diria que Weintraub está se vingando do mundo acadêmico. Está dando um tapa na cara daqueles velhos professores universitários que lhe deram zero na faculdade. "Cheguei ao poder. Agora, vocês vão ver o que é bom pra tosse".

Não acredito nessa versão. Li toda a obra de Freud e de autores neofreudianos, durante o doutorado, feito na USP com bolsa do CNPq. Graças ao CNPq, pude fazer o que se chama de "bolsa sanduíche" e estudei na Sorbonne, em Paris, tendo como orientador o renomado sociólogo francês Michel Maffesoli.

Nasci em uma família de classe média. Nos anos 60, tínhamos TV, fogão, geladeira e até carro (DKW). Aos 15 anos, a empresa onde meu pai trabalhava faliu e tive de ir à luta. Arrumei emprego em uma adega. Carregava caixas de bebida. Entre 16 e 18 anos, fui pesquisador de um instituto do tipo Ibope, indo de casa em casa, para saber o que os telespectadores tinham assistido na noite anterior. Aos 19, era auxiliar administrativo no Bradesco Vila Mariana.

Nunca parei de trabalhar, nem de estudar. Fiz duas faculdades à noite: letras e jornalismo. Achava meu conhecimento extremamente limitado, por isso fui para a pós-graduação, fazendo mestrado na Universidade Metodista, e posteriormente o doutorado na USP. 

Sem bolsa de estudo, não poderia ter cursado a pós-graduação. Sem bolsa de estudo, não teria feito minha tese Espreme que sai sangue; hoje, felizmente, referência acadêmica na área de comunicações.

Esse pessoal, que ocupou o governo, não está se vingando dos acadêmicos. Como o Zezinho da piada, eles padecem da síndrome de Dunning-Kruger.

Aliás, lendo o jornal, com as últimas notícias do governo - sempre angustiantes - me sinto cercado desse pessoal. 

Os efeitos de Dunning-Kruger parecem se espalhar como as sementes de dente de leão. Na semana passada, assisti a um documentário na Netflix sobre gente que acredita que a Terra seja plana. Os terraplanistas. Outros me param na rua e me explicam que o mundo foi construído em seis dias por um ser superior, o Criador, que descansou no sétimo dia. Tem aqueles que ficam no YouTube e querem me influenciar "digitalmente", vendendo porcarias que eles ganham para veicular. É o famoso jabá normatizado.

Simultaneamente, indiferente aos terraplanistas, um robô chinês planta algodão em solo lunar. E o carro da Tesla já passou pelo planeta Marte.

Estou lendo A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser. Ele faz um levantamento interessante sobre o conhecimento humano. Cita os gregos que fundaram a filosofia ocidental, como Tales de Mileto e seus seguidores Anaximandro e Anaxímenes, entre outros. 

Quinhentos anos antes de Cristo, esse pessoal já falava do universo, da evolução das espécies pela água, previam eclipses solares, discorriam sobre o movimento das estrelas, mencionavam  a existência de planetas ("viajantes do espaço", em grego) e ensinavam seus discípulos que toda a matéria era constituída de átomos ("aquilo que não pode ser dividido"). 

Filósofo, matemático, astrônomo, Tales de Mileto fez fortuna, prevendo com um ano de antecipação uma safra recorde de azeitonas. Tales comprou dezenas de prensas e, quando as azeitonas se multiplicaram nas colheitas, ele enriqueceu alugando as prensas para os proprietários de terras. 

Gleiser escreve que "se assumirmos que 'algo' criou 'tudo', caímos em uma regressão infinita; quem criou o 'algo' que criou o 'tudo'?" Ele observa que a necessidade de entender a nossa origem e a do Universo é inerente a todas as culturas. 

Todos os agrupamentos humanos fizeram o que ele chama de "A Pergunta": De onde viemos, que pode se multiplicar em centenas de outras perguntas complementares: estamos sós no Universo? há outras vidas inteligentes em outros mundos? e por aí em diante.

O que estou querendo dizer com esse papo todo é que em determinados momentos da existência humana convivemos com homens e mulheres de inteligência acima da média. Gente que foi atrás de respostas e levou o conhecimento até onde ninguém jamais estivera, parafraseando Jornada nas Estrelas

Ocorre que, na maior parte do tempo, somos obrigados a conviver com gente muito burra, antiquada, ultrapassada, conservadora, tacanha, que faz a sociedade regredir e não avançar. 

Tenho pena daquele rapaz, que quer estudar e precisa de uma bolsa de estudos, e hoje vai dar de cara com a porta dos recursos universitários fechada. 

Enquanto Weintraub fechava a porta para o conhecimento, na Alemanha, houve o repasse de 160 bilhões de euros para as universidades e pesquisadores.

Para encerrar, felizmente, temos uma boa notícia no Brasil: os nossos amados juízes do STF vão continuar comendo lagosta e tomando champagne. A Justiça liberou a licitação para a compra desses alimentos, sem dúvida, essenciais para o bom funcionamento das togas e paramentos dos deuses que habitam o Supremo.   

   





   

  



  

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Como é viver na cadeia


No exterior, um amigo que vivia em Brighton (Inglaterra) costumava me perguntar: "Quando você vai voltar para a cadeia?". A cadeia, no caso, era o Brasil. Corria o ano de 1982. Eu tinha me autoexilado e trabalhava como general help em um bed & breakfast. General help era o sujeito que fazia um pouco de tudo no hotel. Chegava às 7h. Ajudava a preparar o café da manhã. Arrumava as camas. Passava aspirador. Fazia as reservas dos hóspedes. Levava as malas pra cima e pra baixo. Às 13h, pontualmente, descia ao subsolo, onde tomava uma pint morna com o dono. Saía do trabalho e ia almoçar um sanduíche com a minha mulher no parque, se o tempo estivesse bom. Às 14h, entrava na escola. À noite, no apartamento que havíamos alugado, assistia à programação da BBC, sempre excepcional. Era uma vida gostosa a que eu levava no exílio. Era estranho, mas eu vivia melhor como faxineiro na Inglaterra do que como jornalista no Brasil. Não era só o salário que era melhor. Na época, sentia uma sensação de liberdade indescritível por ter saído de um país sob jugo de uma Ditadura Militar.


Terminado o autoexílio, voltei para a "cadeia". Em outros anos, tive a oportunidade de viver novamente no exterior, mas sempre retornei para a "cadeia", expressão que nunca me saiu da cabeça.

Fazendo um retrospecto, não me lembro de uma época boa, passada no Brasil. Às vezes, você está feliz, de bem com a vida, sorridente e é só andar na rua para a realidade brutal acabar com seu bom humor. O cordão de miséria envolve nossas cidades, envolve nossas ruas, nossos pescoços. A miséria não é somente opressora, ela é dominadora. Mesmo nos governos bem-sucedidos de FHC (primeiro mandato) e Lula (os dois mandatos), a miséria continuou prevalecendo, embora tenha sido minimizada.

Como jornalista, a serviço da FT, ganhava um salário ridículo, mas pelo menos os proprietários do grupo jornalístico conseguiam manter uma conta polpuda na Suíça, fiquei sabendo anos mais tarde, pós-escândalo do HSBC. Sorte deles, azar o meu que nunca tive conta na Suíça e nem polpuda.

Não é só a miséria da exploração do trabalhador que nos aflige. Existem outras misérias, maiores e mais robustas. Começa nas periferias das cidades. São bairros novos que surgem de um dia para o outro, sem planejamento, sem infraestrutura. As casas vão se amontoando, o esgoto circulando pelas vielas, a criançada crescendo no meio do caos urbano, sem lazer, sem perspectiva. O poder público se omite - como sempre - e a criminalidade impera.

Tem a miséria crônica das prefeituras que nunca cumprem com seus deveres. Enquanto você paga o IPTU e as multas de trânsito, as prefeituras obrigam você a trafegar por ruas esburacadas, escuras, a caminhar por calçadas impróprias (pobre do deficiente que anda de cadeira de rodas). As prefeituras brasileiras não fazem o elementar, que é a zeladoria. Tapem os buracos pelo menos já que não conseguem fazer o resto, bando de incompetentes!

Tem a miséria da educação...Essa é imperdoável. Outro dia, fui em uma escola estadual de um bairro periférico e me vi cercado de grades. O portões eram fechados com cadeados e correntes. Falei para a diretora: "Isso aqui parece uma cadeia e não uma escola". Ela me respondeu: "É para eles irem se acostumando. A maioria vai ser presa mesmo".

Agora, vivemos em um momento de miséria extrema. Ela é purgativa. Temos um presidente que é apoiado pela esposa dele, pelos ministros e o Congresso e por um jornalista. São os 3%, indicados pela pesquisa da CNI/Ibope. Temos milhares de políticos que foram eleitos a dedo pelo poder econômico e - portanto, descobrimos do alto de nossa imensa ingenuidade - não nos representam.

Como naquele livro famoso de Kafka, existe um processo em curso, que parece longe do final. Quem circula pelas ruas - e não a bordo de carros blindados ou de helicópteros - topa diariamente com a miséria dos 13 milhões de sem-emprego, com os zumbis da Cracolândia, com os pedintes e miseráveis de sempre limpando os para-brisas nos faróis.

A miséria tem o som ensurdecedor do funk, que é ditatorial e opressivo, porque obriga você a ouvi-lo, mesmo contra a sua vontade. É uma miséria totalitária, difusa, capilar, que coloca como preferido na lista de prováveis candidatos um político que defende torturadores.

Nesse país, que se diz laico, o dinheiro em circulação estabelece que "Deus seja louvado". A TV aberta é um show de horrores, aceito passivamente pelo telespectador embrutecido, molenga, apático, sonolento, embriagado de suas próprias limitações intelectuais.

Lembro da polêmica sobre uma perfomance em um museu. Um artista peladão atraiu ondas de ódio, que espumavam repressão e censura. Esse pessoal não está preocupado com os bairros da periferia, ocupados pela desgraça dos sem-dinheiro. Está pouco se lixando para as escolas cercadas de grades por todos os lados e para os professores agredidos e humilhados. Não dá a mínima para o trabalhador explorado - os 99% que sustentam o 1%. Não, nada disso! Eles querem proibir o pinto. O pinto à mostra é hoje o maior problema do Brasil. E naquele restaurante onde o pinto e a pinta foram jantar...Adivinhe quem pagou a conta? A pinta. O pinto estava duro.        


A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...