Mostrando postagens com marcador Roma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Roma. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

"La vita in diretta" é um "Aqui agora" italiano

 

108, via Spartaco, Roma: prédio é refém da "senhora dos pombos"

Telejornais policialescos são deliciosos. A gente assiste com um sorriso nos lábios, dando graças a deus por aquela desgraça não ter acontecido com a gente. Há também aqueles que gostam de ver para se colocar na pele dos vilões, dos transgressores. É ser bandido de forma vicária. Ou justiceiro, a salvo, na sala de casa. "Se fosse eu, também tinha metido uma 'azeitona' naquele vagabundo".

Na Itália, transmitido diariamente pela Rai (Radio Audizioni Italiane) - a TV e a Rádio públicos - chama atenção o programa "La vita in diretta". Apresentado por um barbudo, cara de malvado, chamado Alberto Matano, o telejornal traz uma enxurrada de crimes que não acabam mais. É a mãe que matou e cortou em pedaços o filho violento ("ucciso e fatto in pezzi"), ajudada - veja você - pela nora. É a esposa napolitana que deu 50 facadas no marido. Sem esquecer do senegalês que é suspeito de ter matado uma senhora de 78 anos, com 29 facadas na garagem da casa onde ela vivia. O senegalês quase que tem nome de brasileiro: Louis DaSilva e - se descobriu posteriormente - era amante da nora da executada. Tem a garota de 22 anos que matou o filho recém-nascido e o enterrou. Não falta o suicida de 70 anos que saltou do balcão do prédio onde vivia e caiu em cima da vizinha de 83 anos, que andava pela rua. O suicida matou a vizinha e ficou vivo para contar a história. 

Durante semanas, "La vita in diretta" colocou uma lente de aumento sobre o endereço 108 da via Spartaco, em Roma. É um prédio simpático, com varandas amplas, em um quarteirão residencial. Ocorre que uma das moradores é ativista de proteção às aves. Todos os dias, ela dá comida - muita comida - para os pombos. As aves aglomeram-se em volta da janela onde ela vive e se multiplicam, com a comida farta e a ausência de predadores naturais. O resultado, como é fácil de se prever, provoca uma dor de cabeça danada nos vizinhos. Os pombos não ficam apenas diante da casa da ativista. Eles se espalham pelas outras janelas, pelas ruas, pelos outros prédios. É cocô por tudo quanto é lado. Tem cocô de pombo no asfalto, em cima dos carros, nas calçadas e - principalmente - nas belas varandas romanas. Se você morasse lá e quisesse tomar um aperitivo em uma romântica tarde de primavera, seria bombardeado de maneira implacável pela merda. Mesmo no verão, as janelas precisam ficar fechadas, porque o cheiro do cocô é insuportável. A história foi até reproduzida pelo jornal inglês "The Guardian", para quem "os pombos do inferno", lembravam uma cena hitchcockiana. O cineasta Alfred Hitchcock, no filme "Os pássaros", conta uma história de terror em que os pássaros (todos eles) começam a atacar os humanos. Sem mais nem menos, assim por pura maldade ou - talvez - desejo de vingança. "La vita in diretta" tanto fez que até o prefeito de Roma entrou na jogada e mandou a "senhora dos pombos" parar de alimentar os bichos. Segundo repetia o apresentador Alberto Matano, era "todo um quarteirão refém da senhora dos pombos".

E a ESPN conseguiu matar o seu melhor programa de esportes da TV. Chamava-se "Futebol 360" e era transmitido diariamente a partir das 9h, apresentado pelo jornalista Abel Neto, que foi demitido pela emissora.

Abel Neto, filho do craque e ponta esquerda santista Abel, é um excepcional apresentador. Tem tarimba, jogo de cintura, é experiente. Ele conduzia o "Futebol 360" de maneira leve e rigorosamente informativa, apoiado por comentaristas sérios e equilibrados como Eugênio Leal, Breiller Pires, Celso Unzelte. Era um programa sem gritaria, sem palhaçada, do tipo "Jogo aberto" e "Os donos da bola".

 "Futebol 360" não era dedicado ao Flamengo, como costuma ser o "Redação sportv". Os "gênios" da ESPN mudaram a grade, demitiram o apresentador competente e colocaram no lugar um pessoalzinho engraçado e moderninho no melhor estilo Leifert de ver futebol.   

  

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ainda bem que Roma não levou o Oscar de melhor filme


Sinto antipatia pelo filme Roma, escrito, dirigido e produzido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Já sabia o que me aguardava, quando entrei na Netflix e comecei a assistir este drama sobre uma empregada doméstica de origem indígena, vivendo na casa de uma família de classe média alta, no bairro Colonia Roma, na cidade do México. 

Durante longas duas horas e 15 minutos, acompanhamos a vida de muito trabalho e poucas alegrias da doméstica Cleo, que tem uma relação de irmã mais velha com os filhos de seus patrões. É ela quem cuida das crianças, que conta histórias na hora de dormir e que os acorda de manhã. 

Na prática, Cleo é uma Escrava Isaura, que não ganha o suficiente para se manter (alugar um apartamento, comprar um carro, cursar a faculdade), assim como acontece com grande parte dos trabalhadores brasileiros, sejam eles empregados domésticos ou não.

O filme não permite ao público nenhum tipo de evasão. Tobey Maguire não entrará voando pelo janela, vestido de Homem Aranha, para salvar Cleo. Também Michael Fox e Christopher Lloyd não virão do futuro e não arrombarão a porta da casa, com seu DeLorean, para resgatá-la. Desde o início do filme, a gente pressente que o destino de Cleo será medíocre e inexorável.

Para deixar claro a que veio, o filme é em preto e branco. Remete, é claro, ao neorealismo italiano. Em 1948, Vittorio De Sica dirigiu o filme clássico dessa época - Ladrões de Bicicleta -, que era em preto e branco. Na época, o processo de colorização do celuloide ainda encarecia de maneira proibitiva as produções cinematográficas. 

Ladrões de Bicicleta se passa no pós-guerra, em Roma, quando havia milhões de desempregados nas ruas. O protagonista consegue uma colocação de pregador de cartazes. Para manter o emprego, precisa de uma bicicleta. Ele penhora a roupa de cama da família. Arruma uma bicicleta e começa a trabalhar. O veículo é roubado. Ele e o filho iniciam um desesperado perambular pelas ruas da cidade, em busca da bicicleta roubada. O filme é emocionante. Impossível não se sentir tocado pela interpretação dos atores. 

Vittorio De Sica contou certa vez que para filmar a cena final necessitava que o garoto Enzo Staiola chorasse. Sem chance. O menino não chorava. De Sica teve então uma sacada. Escondeu um pacote de cigarros no bolso do paletó do garoto e o acusou de estar fumando em segredo.

Enzo disse que os cigarros não eram dele, que não sabia como o pacote tinha ido parar em sua roupa e...começou a chorar. Sem perder tempo, De Sica ligou as câmeras, os holofotes e gravou a última sequência de Ladrões de Bicicleta. Filme memorável, inesquecível, mesmo sendo em preto e branco. 

Hoje, Enzo iria processar De Sica por assédio moral. 

Talvez a minha antipatia por Roma, de Alfonso Cuarón, seja por essa rastejante vontade de criar empatia pelo sofrimento dos menos favorecidos, dos miseráveis. 

Acontece o mesmo com os filmes de Walter Salles. Refiro-me a Central do Brasil (1998) e Linha de Passe (2008). Linha de Passe, por exemplo, é um filme sobre fracassados. Ninguém ali vai ter sucesso, ninguém conseguirá realizar seus sonhos. A família de Linha de Passe terá 113 minutos para afundar lentamente seu barquinho, submergindo todos no naufrágio previsível.

É possível criar essa mesma empatia pelo destino dos despossuídos usando a evasão, que a gente tanto procura quando vai ao cinema. Woody Allen fez isso em Rosa Púrpura do Cairo

A garçonete pobre, que sustenta o marido grosseiro e incompetente, durante a depressão de 1935, tem raros momentos de felicidade. Um deles é quando está no cinema, assistindo aos filmes B de Hollywood. Seu filme preferido é Rosa Púrpura do Cairo. Ela assiste ao filme tantas vezes, mas tantas vezes, que, em determinado momento, o personagem não aguenta mais, se volta para ela e começa a interagir com a garçonete pobre. Ela terá chance de entrar dentro do seu filme favorito e até se apaixonar pelo protagonista.

Apesar da minha torcida contra, Roma levou três Oscar: melhor direção, melhor fotografia e melhor filme estrangeiro. Com a estatueta na mão, Cuarón fez o que se esperava dele. Discursou em defesa das "70 milhões de empregadas domésticas sem direitos trabalhistas". 

A cerimônia do Oscar é uma das muitas maneiras que Hollywood encontrou para divulgar e promover a venda de seus produtos. Cuarón é uma velho conhecido da casa, tendo sido contratado pela Warner algumas vezes, levando em 2013 o Oscar de melhor direção por Gravidade.

O premiado Roma, de Cuarón, não é um desses filmes que a gente gostaria de rever, de retornar a ele. Quanto terminam as intermináveis duas horas e 15 minutos de sua duração, a gente levanta as mãos aos céus em agradecimento. Terminou. Ainda bem. Dá alívio desligar a TV e a Netflix.

Outro filme que também se chama Roma foi feito por Federico Fellini, em 1972. Este Roma eu, certamente, teria muito prazer em rever. Faz muito tempo que assisti Roma de Fellini no falecido Cine Bijou, que ficava na Praça Roosevelt, centro de São Paulo. Devo ter assistido ao filme de Fellini em 1973, há inacreditáveis 46 anos. Só o vi uma única vez e saí da sala de exibição iluminado. 

Quatro décadas e seis anos depois, lembro, perfeitamente, de várias cenas. O jovem caipira Fellini desembarcando em Roma na estação Termini. Um desfile muito louco de moda para padres, bispos e cardeais. Uma obra subterrânea (provavelmente, devia ser o metrô) encontra um tesouro arqueológico e os afrescos começam a se desfazer em contato com a modernidade. Hippies tomam banho nas fontes milenares romanas. Um congestionamento monstro em meio ao trânsito enlouquecido. A chuva de verão tombando sobre uma movimentada artéria da capital italiana. O bordel antigo com as prostitutas andando de um lado para o outro. A então esposa de Fellini aparece, chegando cansada do trabalho e tentando entrar em casa. O final antológico com as motocicletas - milhares delas - correndo livres e soltas pela Roma, cidade eterna. O filme é monumental, como Fellini o era. 
           

     

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...