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sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Luiz Roberto Alves

 

O professor Luiz Roberto Alves morreu aos 78 anos

A gente vai envelhecendo e ficando órfão. São vários níveis de orfandade. Perdemos os avós, os tios e os pais. E vamos perdendo as pessoas que tiveram relevância em nossa vida. Vamos ficando mais sós, mais entregues a um vazio existencial. O professor Luiz Roberto Alves morreu na terça-feira, em razão de um câncer. Somente hoje, três dias depois, consegui sentar diante do computador. 

Conheci o professor Luiz Roberto em 1982, quando ingressei na pós-graduação (mestrado) na Universidade Metodista de São Paulo. Sentia falta de preparo intelectual para exercer a minha profissão (jornalista). Buscava direcionamento de leituras. Via a pós-graduação como uma alternativa para a minha formação, que julgava precária, apesar de vir de duas faculdades (letras e jornalismo). 

Houve um sorteio entre os professores que iriam dirigir os mestrandos e o professor Luiz Roberto ficou sendo meu orientador de mestrado. Foi assim... casual. Ele não me conhecia e eu estava chegando no mundo acadêmico naquele momento.

As aulas do professor Luiz Roberto eram deliciosas. Ele esbanjava erudição, didática e tornava atraentes os textos e autores mais difíceis. Para mim, aquelas aulas eram momentos de entrega e afeição ao conhecimento.   

Entre os livros que o professor Luiz Roberto me indicou, estava o "Pesquisador participante", de Carlos Rodrigues Brandão, editado pela Brasiliense. Esse livro foi fundamental, porque mostrava que o pesquisador não devia apenas ser aquele sujeito de bloco e caneta na mão, sugando todo o conhecimento dos entrevistados. A pesquisa participante ia além de recolher dados, transcrevê-los e analisá-los. O pesquisador ouvia, recolhia as reivindicações e trabalhava para agregar a população e ir em busca de melhorias para o povo da localidade, pressionando as autoridades.

Foi graças a esse livro, indicado pelo professor Luiz Roberto, que comecei a fazer pesquisas em comunidades e agir como alguém disposto a lutar por melhorias. 

Em 1982, vivia-se o ocaso da Ditadura Militar. Após a decretação da Anistia em 1979, era possível fazer reuniões comunitárias, discutir os problemas e buscar soluções, sem ir para a cadeia por causa disso. Como pesquisador participante, trabalhei junto aos moradores da Vila Clementino para trocar as caldeiras a óleo diesel dos hospitais São Paulo e Cruz Verde por caldeiras elétricas, menos poluentes. Saímos vitoriosos. A mesma estratégia seria repetida, anos mais tarde, para conseguir fechar a fábrica da Companhia União dos Refinadores de Açúcar e Café, do bairro da Mooca, em São Paulo.

Nessa mesma época, iniciei a pesquisa para a dissertação de mestrado, em Piedade do Paraopeba (MG). Em acordo com o professor Luiz Roberto iria produzir um estudo de comunidade, a exemplo do que o professor Antonio Candido, havia feito em Bofete (SP), que resultou na sua obra celebrada "Os parceiros do Rio Bonito". Como pesquisador participante, ao final da coleta de dados, montei uma comissão de moradores e fomos até a sede do distrito, em Brumadinho, pleitear melhorias. Fomos recebidos com espanto pelas autoridades, não acostumadas a ouvir reivindicações. 

Dois anos depois, em 1984, quando escrevia uma monografia sobre a Vila Clementino, também para o mestrado, veio a notícia da possível destruição da primeira casa modernista construída no Brasil. Era um terreno de 24 mil metros quadrados, com área verde ampla e a casa histórica, erguida pelo arquiteto Gregori Warchavchik Houve processo semelhante: agregar os moradores, buscar alternativas para salvar a casa e a área verde, correr atrás das autoridades. Na época, fomos auxiliados por três vereadores: Luiza Erundina, Irede Cardoso e Marcos Mendonça. Foi Marcos Mendonça quem me arrumou um advogado, porque fui processado pela construtora (o juiz me absolveu e até me elogiou na sentença). Graças ao então prefeito Mario Covas e ao então governador Franco Montoro, a Casa Modernista foi salva. Virou parque e hoje recebe a visita de famílias e estudantes de arquitetura. Concluí a monografia - Vila Clementino - e ela foi premiada pela Prefeitura de São Paulo e virou livro. 

No dia que o livro foi lançado, durante a noite de autógrafos, apareceu o professor Luiz Roberto. A gente se abraçou muito, porque aquela conquista era igual, era como se ambos tivéssemos escrito o livro. Eu o abracei e disse: "Conseguimos, professor. Conseguimos".

Trabalhei em vários jornais, publicações e, em 1993, fui contratado pelo Diário do Grande ABC, na época dirigido pelo muito competente Alexandre Polesi. Polesi idealizou um projeto para fiscalizar o trabalho dos vereadores do Grande ABC. Chamava-se "Raio X das Câmaras". Representantes da sociedade civil eram reunidos pelo jornal, para analisar os projetos de lei, criados pelos vereadores, e identificar aqueles que eram relevantes e os que não tinham qualquer importância. 

Eu era um dos repórteres escolhidos para acompanhar as reuniões e fui buscar o professor Luiz Roberto, que era um dos convidados para fazer parte daquele "júri", que iria analisar os projetos dos vereadores. Na época, estava finalizando meu doutorado pela USP e havia reencontrado o professor Luiz Roberto, que era docente da Eca (Escola de Comunicações e Artes) e tinha voltado a ser meu professor (felizmente). 

A Redação do Diário do Grande ABC tinha gente experiente, mas a maior parte era uma garotada recém-saída das faculdades. Lembro da reação do professor Luiz Roberto ao ver os rostos dos jornalistas: "Nossa, Danilo, eles são meninos e meninas", comentou surpreso. "Seria preciso ter mais gente de cabelo branco na Redação", ele avaliou, com acerto.

O professor Luiz Roberto foi secretário municipal em São Bernardo e Mauá. Me recordo de um político de Mauá, queixando-se do professor, que era um intelectual e por isso usava termos nem sempre permeáveis aos ouvidos menos capazes. "Não entendo nada do que ele diz", dizia o político, de ascensão breve e desaparecimento igual.

O professor Luiz Roberto também redescobria termos esquecidos. Lembro certa vez que saíamos da Metodista e precisávamos chegar em algum local, com urgência. O professor, ao meu lado, vinha de carona. Cortei o trânsito. Zanzei pela esquerda e direita. Acelerei. Freei. Até que conseguimos chegar a tempo para o compromisso. Meio zonzo, o professor comentou: "Danilo, você é bem vivaldino no trânsito, hein". Vivaldino, pensei, de onde o professor tirou essa?

Terminado o doutorado, passaram-se anos. Tinha aberto uma empresa de comunicação com o amigo James Capelli, quando recebi um convite inusitado do professor Luiz Roberto. Fui até a Metodista e enquanto tomávamos um café o professor me convidou a trabalhar novamente com ele, desta vez no pós-doutorado, que a Metodista havia recém-criado. 

Renovamos nossa parceria e retornei à Piedade do Paraopeba, 25 anos depois, para nova coleta de pesquisa. Foi emocionante.  O território estava mudado para melhor. Os anos de democracia haviam feito um bem danado para aquele pessoal, que, em 1982, não tinha transporte, escolas, postos de saúde e empregos. Duas décadas e meia depois, as estradas tinham sido pavimentadas, havia muita oferta de empregos, além de postos de saúde, escolas e melhoria considerável na qualidade de vida. Em 2013, apresentei o resultado da nova pesquisa, intitulado "A cultura rústica urbaniza-se: um estudo sobre os caboclos de Piedade do Paraopeba, em intersecção com os caipiras do Rio Bonito". 

Enquanto apresentava o relatório final e entregava o calhamaço com 161 páginas com fotos dos entrevistados, para a banca do pós-doc, observei o professor Luiz Roberto e comecei a lembrar de tudo que havíamos feito em conjunto, desde aquele longínquo 1982, e me deu uma tristeza profunda, porque percebi que nunca mais iríamos trabalhar juntos. Aquela era a nossa despedida. E de fato foi.

     

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

DGABC (2) - reportagens especiais


No Diário do Grande ABC, dirigido por Alexandre Polesi, produzi reportagens especiais, algumas delas de longa metragem. Lembro de uma matéria investigativa sobre um vereador da bancada evangélica de Santo André, que levou seis meses para ser concluída.

O parlamentar tinha criado uma "indústria de araras", que são empresas criadas para aplicar fraudes mercantis, causando danos nos fornecedores. As "empresas" estavam nos nomes de "laranjas", pessoas próximas ao vereador. Essas "empresas" realizavam diversas compras. Os produtos eram depois revendidos e - quando o fornecedor tentava receber - a "empresa" e seu "laranja" já haviam sumido no ar.

Depois de meio ano de apuração, conseguimos chegar no resultado final, que apontava a existência de várias "araras", com os respectivos nomes dos "laranjas" - todos eles convergindo para o nobre vereador. Até o pai do parlamentar aparecia como "presidente" de uma das "empresas". A diagramação ficou excelente.Texto e fotos foram dispostos em duas páginas.

Estava de plantão no sábado, um dia antes desta reportagem especial ser publicada. Lembro da hesitação de um editor executivo, que estava de plantão. Ele queria que fossem feitas novas entrevistas, totalmente desnecessárias, uma vez que todos os relacionados haviam sido procurados e dado suas versões dos fatos. Felizmente, também estava de plantão o então editor de Política, Célio Franco, que encerrou a discussão e mandou as páginas fechadas para as rotativas.

A reportagem caiu como uma bomba na Câmara de Santo André. Na segunda-feira, o clima estava tão tenso no Legislativo que se cortava o ar com uma faca (para usar uma expressão nova). De prático mesmo, como resultado final, o vereador não conseguiu a reeleição no pleito seguinte. Ele seria reeleito anos depois, porque a memória do eleitorado é sempre precária. Mesmo assim, fiquei com aquele sabor amargo na boca por ele não ter sido processado devidamente, nem ser obrigado a pagar os prejuízos causados aos fornecedores.

Em dupla com o amigo Irineu Masiero, fizemos grandes matérias. Uma delas, em especial, sobre drogas foi bastante divertida. Lembro que nós fomos ao Deic, em São Paulo, para levantar quantos pontos de venda de drogas estavam demarcados pela polícia especializada. Um delegado nos levou até um mapa gigante e mostrou seis alfinetes, espetados em cidades do Grande ABC. "A região tem seis pontos de venda de drogas", informou o policial. 

Nós voltamos para o ABC e iniciamos a pesquisa "de campo". Em 15 dias, tínhamos cerca de 115 pontos de venda de drogas, nas sete cidades. A reportagem especial, publicada com o alarde indispensável, trazia um mapa da região, dando o nome ou o apelido do traficante e o endereço exato onde a droga podia ser adquirida. Os colegas e - alguns leitores - ironicamente diziam que tínhamos feito uma "matéria de serviço" e não investigativa. "Chega de ficar zanzando por aí procurando maconha e cocaína", eles diziam, "é só pegar a matéria do Danilo e do Irineu e ir no endereço", eles brincavam.

Em outra reportagem, em dupla com o Irineu, descobrimos um esquema de corrupção que existia na Câmara de São Caetano. Os vereadores da situação utilizavam carros fornecidos por uma empreiteira, podendo colocar gasolina a vontade (várias vezes ao dia, inclusive). O jornal fez a denúncia, mostrando fotos dos veículos de cor branca, zero quilômetro, nas casas dos vereadores. O caso foi parar nas mãos do Ministério Público e por lá ficou, onde dorme placidamente até hoje.

Lembro que nós saíamos para cobrir uma determinada pauta e, no meio do caminho, descobríamos algo mais interessante. Irineu ria muito e dizia que sentia pena de nossa editora. "Ela vai ficar muito chateada, mas vai ser obrigada a nos dar a manchete", ele comentava. Às vezes, estávamos de madrugada na avenida Industrial, em Santo André, conhecido ponto de prostituição de travestis, onde um informante nos levava ao local exato de venda de drogas. Em outro momento, entrávamos em uma viela escura, sem saída, onde alguém nos esperava com uma história excepcional. Dava medo. Dava adrenalina e a gente adorava cada segundo. Nas tardes frias de maio e junho, íamos em uma padaria que servia um pão de torresmo excepcional. No início da noite de sexta-feira, comíamos pizza em pedaço na Padaria Central. Uma pizza quentinha, recém-saída do forno. Deliciosa. Engordei uns 10 quilos, fazendo dupla com Irineu, que conhecia cada ponto gourmet na região. 

Às vezes, eu pegava carona em reportagens importantes. Foi assim com o companheiro Vanderlei França, que descobriu um informante, que trazia sérias denúncias sobre corrupção em uma empreiteira de São Caetano do Sul. Fizemos a apuração e, por um motivo que não me lembro (Alexandre Polesi já não estava mais à frente do jornal), a matéria acabou não sendo publicada. O informante falava em propina, malas de dinheiro, sendo entregues em órgãos públicos.  Algo novo naquela época.

Chateado com o DGABC que não publicou a história, o informante procurou outros veículos e o escândalo acabou explodindo, fazendo um barulho danado. Assim, depois que o caso foi publicado pelos veículos de São Paulo, lá fui eu cobrir uma coletiva do Gaeco. O informante, acompanhado pelo promotor José Carlos Blat, me parou no corredor e disse para Blat: "Dr., eu tinha contado tudo para esse moço e ele não quis publicar a matéria". Foi assim, eu diria, bem constrangedor.

Em outra reportagem, que entrei de "carona", fiz dupla com Célio Franco, que, além de editor de política, era também repórter investigativo. Célio levantou uma história interessante sobre uma empresa de Bauru que recolhia dinheiro de empresas de Diadema para montar uma biblioteca na cidade. A empresa contava com o aval do então prefeito Gilson Menezes. Fui a Bauru investigar a existência da empresa e acabei achando uma moradia da periferia, com um tipo descamisado de maus bofes. Célio conseguiu comprovantes dos depósitos, com empresários de Diadema. Montamos a matéria e fomos falar por último com o prefeito. Estávamos na sala de reunião, cara a cara com Gilson. Lembro que, em determinado momento, fiz uma pergunta que não agradou ao prefeito. Ele levantou-se da cadeira e veio vindo lentamente na minha direção. Ex-metalúrgico, de porte considerável, Gilson vinha como um trator para passar por cima de mim. Quando chegou ao meu lado, ergueu o punho e enfiou um potente murro na direção dos meus óculos. Vindo do nada, um assessor conseguiu saltar e segurou o punho do prefeito a dois centímetros da minha cara. A entrevista foi encerrada. A história publicada e Gilson teve seus bens bloqueados pela Justiça, a pedido do Ministério Público.

Meu relacionamento com Célio Franco era sempre muito turbulento. Discutíamos muito. Ele assumia posições extremamente conservadoras, "à direita de Gengis Khan", como gostava de pontuar Paulo Francis. Mesmo assim, acredito que gostávamos um do outro, nos respeitávamos e fazíamos uma dupla que trazia resultados positivos para o jornal. A última vez que conversei com Célio foi na Kopenhagen da avenida Antártico, em São Bernardo do Campo. Não trabalhávamos mais em jornal. Ficamos tomando café e batendo papo por umas três horas. Ele me dizia que sonhava muito com o jornal. Sonhava que estava editando matérias, brigando comigo, brigando com outros repórteres, naquele sufoco que é sempre o fechamento de um jornal. Na época, ele trabalhava como assessor de uma empresa de TI. Sentia muita falta da Redação. Dois dias depois, veio a notícia de sua morte. Em uma crise depressiva, ele trancou-se no quarto de sua casa no Jabaquara, e enfiou uma bala na cabeça. 
(Foto do filme The Power of the Press, 1928)               

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DGABC (1) - A tarde em que encontrei Pelé


Em dezembro de 1992, estava de volta ao Brasil, com a tese de doutorado escrita, aguardando uma data para a defesa. Arrumei um frila fixo na FT novamente, com a ajuda do amigo Wladyr Nader, que ainda editava o caderno de Cultura. Fui ao Ibirapuera para uma pauta e diante do prédio da Bienal encontrei Orlando Margarido, crítico talentoso, dono de um texto construído sempre com engenho e arte. Ele ficou sabendo que eu estava na base do frila e me deu uma dica importante. Era para eu conversar com Antonio Prada, o Toninho, editor de Cultura do Diário do Grande ABC, o DGABC. O jornal estava em uma fase de crescimento importante, investindo forte na infraestrutura e na Redação. Fui até o DGABC, na rua Catequese, em Santo André. Tive uma reunião breve com Antonio Prada, o Toninho, e fui contratado.

Assim, no dia 1º de janeiro de 1993, no primeiro dia daquele ano, comecei a trabalhar. Nesse primeiro dia no DGABC aconteceu um fato inusitado. Quando retornava para casa, o freio do Chevette 1983 falhou, durante uma tempestade de verão. Essas pancadas rápidas de fim de tarde. Eu estava na avenida Presidente Wilson, tão esburacada e abandonada como ainda é hoje, quando vi aquele Mercedes do ano na minha frente. Pensei na hora: "Não posso bater nesse Mercedes. Não no meu primeiro dia de trabalho no emprego novo". Não deu outra. Apertei o freio. O pedal desceu até o fundo e entrei com tudo na traseira do Mercedes. Desceu um sujeito corpulento, misto de boxeur com esmagador de crânios profissional, para olhar o prejuízo. O céu estava escuro, com raios caindo a nossa volta. A chuva havia parado momentaneamente, mas a tempestade ia recomeçar a qualquer instante. O sujeito olhava, olhava e avaliava a desgraça. Desci do carro para dizer que a culpa tinha sido minha e que ia arcar com o prejuízo, ainda que demorasse uns vinte anos para fazê-lo. Desceu do carro o passageiro...Não acreditei no que estava vendo. Eu tinha simplesmente esmagado a traseira do Mercedes do meu maior ídolo, Pelé. Passei a mão na cabeça e disse: "Puxa, Pelé, com tanto carro para bater fui escolher justo o seu..." Ele pôs a mão nas minhas costas e disse: "Você está bem? Machucou alguma coisa? Quer tomar um café; uma água com açúcar?" Falei que estava bem, mas inconformado. "Justo o seu carro, Pelé. Que droga!" Ele se ofereceu para pagar o prejuízo. "Arrebentou muito seu carro? Eu pago. Não tem problema." O meu velho Chevette estava apenas com o para-choque de metal entortado. O Mercedes novinho tinha um rombo na lataria. Lamentável. A gente se despediu. Pelé e o segurança/motorista foram embora. Cheguei em casa, em estado de graça. "Como foi no seu primeiro dia?", minha sogra perguntou, assim que estacionei o carro. "Foi bem diferente", falei, "bati até no carro do Pelé".   

O Diário do Grande ABC foi o jornal onde eu consegui me realizar plenamente como profissional. Escrevi artigos, produzi matérias especiais que conquistavam a manchete da edição de domingo (a principal da semana) e - principalmente - foi onde eu mais me diverti na profissão, apesar de varar inúmeras madrugadas trabalhando arduamente.

Era muito bom e recompensador trabalhar no Diário. Quem estava à frente da Redação era Alexandre Polesi, que fazia naquela época uma revolução bem-sucedida no jornal. Sob o comando de Alexandre, em breve, o Diário iria se tornar o melhor jornal regional do País. Havia muito investimento em novas tecnologias, novos equipamentos. O Diário deixava de ser um jornal limitado, com uma gráfica antiquada, para se transformar em um veículo moderno, que pautava inclusive os grandes veículos nacionais. Alexandre era inquieto, buscava sempre o melhor, a melhor história, a informação mais contundente e rebatia aqueles conceitos antigos de "sou amigo de Fulano, derruba essa matéria aí".

Lembro de uma reunião com o então diretor administrativo Wilson Ambrósio, conhecido no jornal como "dr. Wilson". Ele reuniu os repórteres e editores e perguntou quais eram os funis do jornal. Levantei a mão e falei: "Os telefones. A gente demora muito tempo para conseguir uma linha." Dias depois, o problema havia sido resolvido, com a aquisição de inúmeras novas linhas telefônicas.

No Diário, o que eu mais gostava era da facilidade em fechar uma pauta. Por exemplo, saía do jornal. Atravessava a rua e chegava no Paço Municipal de Santo André. Entrava no prédio da Prefeitura. Saía e ia para a Câmara Municipal e - em muitos casos - seguia até o Fórum, para entrevistar algum integrante do Ministério Público. Os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) estavam concentrados em uma praça. Tudo parecia muito próximo. Bem diferente de São Paulo, onde um repórter perde horas e horas de seu precioso tempo, tentando atravessar o trânsito intransitável. Também naquela época, o trânsito ainda não era o vilão que é hoje em cidades como Santo André, São Bernardo e São Caetano. 

Quando nasceu com o nome de News Seller, o jornal era um Shopping News do Grande ABC. Trazia algumas matérias de interesse e o restante eram milhares de páginas preenchidas com anúncios de empregos e serviços. Em 1968, o News Seller mudaria de nome e passaria se chamar Diário do Grande ABC.

O projeto bem-sucedido rendeu aos proprietários Mauri Dotto, Edson Danilo Dotto, Fausto Polesi e Angelo Puga um bom retorno financeiro, investido também na construção de prédio próprio, o imponente edifício da rua Catequese.

Depois, Angelo Puga sairia do Diário, para tocar empreendimento próprio. Edson Danilo Dotto criaria a Rádio Diário do Grande ABC (mais tarde Scala FM). E os Dotto e os Polesi comandariam o Diário. A segunda geração das duas famílias assumiria novas responsabilidades. Assim, Alexandre, filho de Fausto Polesi, iria tocar a Redação e Evenson Dotto, filho de Mauri, ficaria com a gestão publicitária.

Nos anos seguintes, o Diário enfrentaria uma briga intestina entre as duas famílias no melhor estilo Montecchio/Capuleto, com o jornal sendo comprado pelo ex-cobrador de ônibus e empresário do ramo de transporte Ronan Maria Pinto. Mas isso é uma outra história que fica para uma outra vez.       


  

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...