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segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Uma Bienal assexuada


A 33ª Bienal de São Paulo - Afinidades afetivas deve ter sido feita para marcianos. Tem pedra, pedregulho, pedra em pé, pedra deitada, pedra pendurada, pedra que não acaba mais. Você se sente o robô Curiosity, passeando pelo solo arenoso e pelos pedregulhos de Marte.

Não tem seio, pênis, vagina, beijo, casal...Nada! Só pedra sobre pedra. 

A Bienal parece ter ficado com medo de ofender aquele pessoal que tentou proibir a exposição Queermuseu, cancelada em Porto Alegre e reaberta no Rio. "Vamos colocar um monte de pedra, assim ninguém enche o saco", devem ter pensado os organizadores. 

Você vê um quadro interessante. Vai dar uma olhada e parece que faltou inspiração para a autora, que escreveu: "Sem título", "Sem título", "Sem título", em todas as suas obras. Se ela não sabe o que está fazendo, pobres de nós que estamos ali para apreciar o trabalho dela. 

No passado, a Bienal era fonte inspiradora. Pelo menos para mim. Devo confessar que tive empregos pouco criativos na vida. Aos 15 anos, trabalhei em uma adega, carregando caixas de refrigerantes e bebidas. Entre os 16 e os 18 anos, fui pesquisador de institutos de pesquisa. Tocava a campainha na casa das pessoas e o cidadão aparecia com o humor de quem precisa pôr um supositório de purgante. As primeiras dez perguntas ele até que respondia bem. Dali em diante, o sujeito falava: "Escreve qualquer coisa aí. Põe o que você quiser. Se algum perguntar, eu confirmo. Pelamordedeus, me dá licença que preciso fechar a porta". 

Trabalhei em banco. Fui também "auxiliar de contabilidade 4" na Varig, uma empresa de aviação poderosa entre os anos 1950 e 70. Na Varig, a gente passava o dia fazendo lançamentos contábeis. Éramos uns 100 auxiliares. O trabalho era repetitivo, monótono, insuportável.

Como diz o professor de filosofia Merli, na série homônima: "Alguns, os que tiverem sorte, trabalharão em algo que os agrada. Mas a maioria apenas contará os dias que faltam para tirar férias". 

Era assim no Departamento de Contabilidade da Varig: contávamos os dias, as horas, os minutos, os segundos para a sexta-feira, para o próximo feriado. 

Saí da Varig e fui trabalhar em outra empresa de contabilidade, chamada Augustus. O espaço era menor, apertado, claustrofóbico. Sem janelas!

Então, fui visitar a Bienal. Lembro de uma instalação que mostrava um escritório coberto por teias de aranha, com muito pó, onde figuras mumificadas, imóveis, tinham sido congeladas, enquanto batiam carimbo, assinavam documentos, escreviam a máquina. O tempo tinha parado naquele escritório, que lembrava a empresa escura e sufocante de Scrooge, personagem de Dickens que inspirou Tio Patinhas. A rotina de um dia qualquer havia sido preservada para a eternidade. E era um dia sem inspiração, um dia absolutamente comum, sem qualquer importância. Era exatamente assim que eu me sentia. 

Não era mais o mesmo, quando saí da Bienal. Na segunda-feira, a primeira providência que tomei foi pedir demissão do emprego. 

Dias depois, estava trabalhando na Revista Escrita de Literatura, dirigida por Wladyr Nader. Começava aí a minha outra vida, meu renascimento. 

Em todos os anos seguintes, atuando em jornais, nunca mais "contei os dias que faltam para tirar férias". E tudo graças à Bienal.

Lembro de uma Bienal que trazia um projeto individual com cerca de 50 telas exibindo pênis. Havia naquele espaço pintos de todos os tipos, cores e formatos. Imagine o que diriam esses caras do MBL diante de tantas jebas? 

A Bienal me apresentou Gregório Gruber, com seus óleos sobre telas que retratam melhor do que ninguém a solidão da pessoa diante da monumentalidade de São Paulo.

A gente saía satisfeito da Bienal ou, em outros momentos, pensativo, tentando entender determinada peça; em dúvida sobre certa manifestação artística.

Esta última Bienal assexuada, "afinidades afetivas", me deixou com gosto de pó na boca. Não alterou a minha frequência cardíaca. Não me fez rir, nem chorar, nem questionar. É mais ou menos assim que deve ser dar um passeio temático pelo deserto.

Em tempo, a 33ª Bienal vai até 9 de dezembro e é "de grátis".     

   

       

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Essa gente ingênua mostrou o seu valor


Lula foi condenado a 12 anos de prisão, por causa de um apartamento onde ele nunca morou, nem nunca foi dele. Dilma foi afastada da Presidência, levando o carimbo do impeachment na testa, não por ser corrupta, mas por culpa de um erro burocrático, chamado "pedalada". Os golpistas seguiram Maquiavel ipsis litteris: "Aos amigos os favores, aos inimigos, a lei".

A mídia arregimentou as massas, saturando telespectadores, ouvintes, leitores, com notícias sobre corrupção. Grupos de extrema-direita, como o MBL, promoveram manifestações.

Indignado com as denúncias da mão grande agindo na Petrobrás, o povo foi para as ruas. Carregou cartazes. Entoou gritos de ordem. "Fora Dilma!", gritavam, com toda a força de seus pulmões.

Esse MBL, que estava por trás das manifestações, seria um movimento de jovens, que tinham assistido à série da Globo Anos Rebeldes e se entusiasmado com formas de protagonismo político?

Tudo indica que não. O MBL, segundo o jornal The Guardian, é um braço tupiniquin do norte-americano Students for Liberty: 

"A Students for Liberty e a Atlas Network receberam financiamento de Charles Koch, que com seu irmão David controla a Koch Industries – a gigante de energia, combustíveis fósseis e petroquímicos dos EUA. 

"Fabio Ostermann, cientista político independente de Porto Alegre, no sul do Brasil, ajudou a fundar o MBL e também foi membro do ramo brasileiro da Students for Liberty. Ele teve aulas no Koch Institute for Human Studies na Virgínia por três meses", informa o The Guardian.

"Meu Deus! Então houve dinheiro norte-americano por trás do solapamento do governo Dilma Roussef?", perguntaria o ingênuo da bermuda, chinelo de dedo e barrigão de fora no churrasco, enquanto beberica o copo de cerveja. 

Para aqueles que usaram broche da estrela vermelha petista na lapela, que colocaram adesivos do PT nas janelas de suas casas, que agitaram bandeiras e participaram de boca-de-urna em prol de candidatos do Partido dos Trabalhadores, o Mensalão e o Petrolão tiveram o mesmo impacto que a facada de Brutus em Júlio César. Para um partido que pregava a ética na política, foi imperdoável. 

Surgiu em cena o juiz Sérgio Moro, que copiou o programa italiano Mãos Limpas, no comando de caça aos corruptos. No Brasil, a operação ganhou o nome de Lava Jato. Coube à Lava Jato processar e prender toda a cúpula petista (Lula, José Dirceu, Delúbio Soares, Palocci, João Vaccari Neto, entre outros). Empresários do porte de Marcelo Odebrecht e dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, também foram alcançados pelo "longo braço da lei". 

O juiz Sérgio Moro deixou de ser um integrante do Judiciário para ganhar perspectiva de super-herói. Moro e o ministro Joaquim Barbosa (que condenou os réus do Mensalão) viraram uma espécie de Vingadores. Eles deixaram a categoria humana para se transformar em personagens de filmes e séries. Barbosa era chamado de "Batman", por causa da toga, que lembrava a capa do homem-morcego.

Vieram as eleições presidenciais de 2018 e o PT construiu um muro de erros. Foi tijolo sobre tijolo de decisões equivocadas. O PT errou ao procrastinar a candidatura de Fernando Haddad. Até o último momento, a última hora, o último minuto, o candidato seria Lula. Só que Lula estava na cadeia. Até o habitante do exoplaneta Ross 128b sabia que Lula não iria concorrer, por causa da Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, o partido insistiu no erro. 

Quem anda nas ruas; quem toma ônibus, trem, uber; quem entra em boteco; quem vai em campo de futebol, na igreja, no shopping; em suma, quem estava vivo e morava no Brasil, sabia que o PT seria um ímã que atrairia o ódio de milhões de eleitores, inconformados com os escândalos de corrupção. 

Se ao invés de Bolsonaro, o PSL tivesse escolhido o Coringa para ser adversário de Haddad, o Coringa se elegeria fácil com 57 milhões de votos. Isto porque o PT está atravessado na garganta. 

A opção mais lógica e sensata seria abrir mão de ter um candidato à Presidência e fechar acordo com alguém mais palatável ao eleitorado, como Ciro Gomes, o Cirão da Massa. Na construção de seu muro de erros, o PT apostou no candidato único, um vice, alçado às pressas para a posição de majoritário. Boi de piranha a ser consumido no pleito.

O PT precisa agora reconstruir sua imagem. Fazer um rebranding. Pedir desculpas. Vestir as sandálias da humildade. Tirar Lula da cadeia e começar de novo. "A luta continua."  

Para muita gente que via Moro como um paladino da Justiça, ao aceitar cargo no governo Bolsonaro, o símbolo maior da Lava Jato parece ter despencado do Céu. Tornou-se humano como nós. Perdeu o grau angelical. Ele era alguém que dizia que jamais entraria para a política e, veja só, foi mudar o governo para ele entrar correndo pela primeira porta aberta. 

Como escrevi em posts anteriores, há jornalistas partidários, que fazem seu nome e sobrevivem na mídia golpista, atacando determinado partido. E há também representantes do Judiciário que fazem política, ocultos pela toga. 

Ao comentar a escolha de Moro para o Ministério da Justiça, Ciro Gomes foi enfático: "Sérgio Moro não é um juiz. É um político que tem fraudado sua toga com intrusões na política".

De fato, ainda não me mostraram a escritura que mostra que Lula é o proprietário do tríplex no Guarujá. Para 47 milhões de eleitores, que votaram em Haddad, a prisão de Lula parece injusta, por ter sido condenado - é sempre bom repetir - por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou.    

    





       

    

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O conservadorismo da Netflix



Assisti ontem na Netflix Jogo Perigoso. Casal apimenta a relação com encontro sadomasô. Algemas, casa isolada, Viagra, clima permissivo. Quando terminou, lembrei de uma série de filmes produzidos pela conservadora Hollywood em fins dos anos 70 e 80. Em Vestida para matar, a mulher casada faz sexo casual com um desconhecido e descobre, depois da transa, que o parceiro tem doença venérea. À procura de mr. Goodbar, com a ótima Diane Keaton, uma professora que à noite frequenta bares para sair com vários homens é assassinada brutalmente por um ex-homossexual. Atração Fatal mostra o pobre Michael Douglas sofrendo o diabo nas mãos da maluca personagem de Glenn Close. Tudo porque ele era casado e foi arrumar uma amante.

Em todos esses filmes, a gente percebe o conservadorismo norte-americano pronto a castigar quem sai fora dos trilhos. Os anos 80 foram uma época de sexualidade exacerbada e repressão violenta. Em junho de 1983, Notícias Populares dava a manchete: Peste gay já apavora São Paulo, referindo-se aos primeiros casos de Aids, registrados na cidade, informando mal e porcamente, como o NP sempre fez.

De um lado, nos anos 80, estavam aqueles que gostariam de prolongar indefinidamente a revolução sexual, iniciada nos anos 60; e no lado oposto, um muro conservador, tentando sufocar os libertários. Hollywood fazia a parte dela, produzindo filmes, como os descritos acima.

Em 2017, a bilionária Netflix, com seus 100 milhões de assinantes, mantém esse ranço conservador. Jogo Perigoso é na prática uma advertência do velho superego freudiano: "Não faça essas coisas proibidas, menino, que você vai se dar mal". Outro filme produzido pela mesma Netflix, Eu, tu e ela, brinca com a possibilidade de um ménage à trois. Mas acontece tanto imprevisto, tanta situação constrangedora, que a brincadeira nos deixa com um gosto amargo. Se Eu, tu e ela fosse uma produção francesa nem te conto o que iria rolar.

O documentário Lady Gaga Five foot two mostra uma cantora enferma, com dores insuportáveis no corpo, sendo assistida por um séquito de massagistas, médicos, enfermeiros, paramédicos, padres, parentes, pai, mãe, avó. É tudo, menos aquela imagem sensual, alta moda, que a intérprete de Bad Romance nos passava  lá atrás no distante passado de 2009. Lady Gaga, descobrimos, é uma coitada de shortinho rampeiro que diz frases sem o menor sentido.

Rita, uma produção interessante, vinda da Dinamarca, mostra uma professora mãe solteira, que fuma, bebe, transa com o diretor, transa com imigrantes sem nome, mas - apesar desse comportamento pouco educativo - é excelente profissional, a melhor professora do colégio. Rita termina a série numa boa? Ou será punida? Precisa responder?

Como estamos nas mãos dos algoritmos desses conservadores norte-americanos, somos obrigados a conviver com uma rede social que censura quadros centenários, obras de arte célebres, que se encontram à vista de milhões de visitantes nos museus mais visitados do mundo. Refiro-me à página Todo dia uma obra de arte para ofender o MBL que sofre a tesoura puritana periódica do Facebook.  No domingo, o autor desta página, que bate de frente com o MBL, fez um pedido desesperado: "Facebook removeu (mais) uma publicação e me impediu de usar a caixa de mensagens da página. Mandem um e-mail no arteofensiva@gmail.com. Também estou em twitter.com/arteofensiva."

 Dar murro em ponta de faca machuca, mas faz um bem danado para a alma da gente.


 

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...