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sábado, 24 de fevereiro de 2024

Lula e a prisão das ideologias

Lula e Zelensky posam para a foto

 A invasão da Rússia na Ucrânia completa dois anos. São cerca de 700 mil mortos e 730 dias de imagens de prédios destruídos, movimentação de tropas e veículos blindados, gente chorando, gente morta, o presidente ucraniano Volodymir Zelensky de pires na mão pedindo ajuda à Europa e aos Estados Unidos, para tentar impedir a ocupação total de seu território. 

Gostaria que o presidente do meu país transformasse em palavras o que eu sinto. O que eu sinto é uma aversão ao autocrata russo Vladimir Putin, presidente de 2000 a 2008 e de 2012 até agora (no curto intervalo entre 2008 e 2012 ele foi primeiro ministro), que invadiu a Crimeia, em 2014 e em 2022, a Ucrânia. 

Vladimir Putin invadiu a Ucrânia, porque precisava "defender" o território russo da "ameaça ocidental". Qual "ameaça"? Quando o ocidente iria atacar a Rússia? Essas perguntas sem resposta indicam que a Ucrânia está sendo vítima de um valentão ("bully" para usar a palavra inglesa da moda). Ao assumir a presidência, Zelensky sabia que o vizinho gigante era uma ameaça real. Foi em busca da Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte). Pediu para a Ucrânia ser admitida no grupo de países que antigamente se opunham à União Soviética. A Otan era uma organização, quase em declínio, quase pronta para ser desmantelada. Coube a Putin a primazia de "reerguer" a Otan.

Em 1982, eu morava no interior da França e a Guerra Fria ainda era uma realidade. Muito distante, é verdade, mas presente no dia a dia. A gente andava na rua e quase toda semana o céu era riscado por caças bombardeiros, em treinamento da Otan. Os caças e tropas iam até a fronteira da antiga URSS e retornavam a suas bases. Em determinados dias, eram acionadas sirenes, que alertavam para possível ataque "inimigo". Era um ambiente de tensão constante. 

A União Soviética acabou. Veio abaixo com a derrubada do Muro de Berlim, em 1989. A Rússia trocou as cores da bandeira vermelha com a foice e o martelo, pela tricolor branco, azul e vermelho. Atualmente, nas cerimônias em Moscou, predomina o azul. Estranhamente, mesma cor do Partido Democrata norte-americano. 

Por que o presidente do meu país não se posiciona contra a invasão da Ucrânia, criticando de maneira feroz a Rússia e Vladimir Putin? Por que não usa o mesmo tom de indignação que empregou para criticar a destruição da Faixa de Gaza pelos israelenses?

Por causa de uma presença fantasmagórica chamada "ideologia". Li recentemente vários comunicados da esquerda na América Latina e em outros países e existe um termo comum, entre eles, que é o desejo de "proteger" a Rússia da "ameaça capitalista ocidental". Um desses comunicados menciona derrubar o governo eleito de Zelensky, substituindo-o por um governo "popular", da "classe trabalhadora".

Como assim? Zelensky foi eleito pela "classe trabalhadora" ucraniana, pelos aposentados e estudantes. É um mandatário legítimo, escolhido pela maioria dos eleitores.

Supostamente, preso a esse posicionamento ideológico perturbador, Luiz Inácio Lula da Silva prefere atacar Israel e se omite em relação à Ucrânia. Reiterou que Israel está cometendo "genocídio" ao "matar mulheres e crianças palestinos". 

Não é genocídio. Esta palavra implica em extermínio deliberado de um grupo étnico, racial ou religioso. As tropas israelenses não saíram de seus quartéis para exterminar palestinos. O exército de Israel reagiu a um ataque absurdo, cometido por um grupo terrorista, em 7 de outubro do ano passado, contra idosos, crianças, bebês, adolescentes, adultos. Os terroristas saíram matando a torto e direito. Vi na TV a imagem de uma senhora judia, de cerca de 80 anos, sendo levada pelos terroristas em um carro aberto (parece um Jeep). A multidão aplaudindo, como se fosse um grande feito heroico raptar uma idosa, que devia estar em casa, preparando o chá da tarde.

Israel iniciou uma guerra reativa contra os vizinhos. Só deve encerrar as hostilidades, quando formar uma faixa de segurança extensa, que antecederá em quilômetros os limites de seu território.

Como eu me sinto ao ver corpos de mulheres e crianças, em meio a escombros de prédios destruídos pelo bombardeio israelita?
Atualmente, tenho mudado de canal. Não consigo mais assistir essas imagens. Considero terrível essas 30 mil mortes de palestinos. Existe uma guerra em curso e é dilacerante presenciar tanta desgraça, ver tantas vidas destruídas, casas e apartamentos que viraram escombros, famílias esfaceladas. Filhos sem pais. Mães sem filhos. 

Grupos extremistas, como o Hamas (que covardemente atacou e matou pessoas desarmadas), não querem selar tratados de paz. Não querem conviver pacificamente com o vizinho. Não importa para esses grupos extremos que os palestinos tenham um país. O Hamas, a Jihad Islâmica, o Hezbollah só tem um único propósito: destruir Israel. Esses extremistas - se forem liquidados amanhã - serão substituídos no dia seguinte por outros, com os mesmos propósitos, a mesma deliberação ensandecida.

Voltando à Ucrânia, talvez o real motivo que faça com que o presidente Lula se omita em relação à violência russa seja menos uma questão ideológica, como os analistas internacionais supõe, e mais o fator econômico e político. O Brasil exporta produtos agropecuários para a Rússia e esta vende para o Brasil, principalmente, fertilizantes nitrogenados. Os dois países são parceiros de negócios. Em outubro, haverá encontro dos Brics (acrônimo que designa Brasil, Rússia, Índia e China) e Lula viajará para a Rússia, onde terá encontro privado com Vladimir Putin. Deve aparecer na foto dando a mão ao autocrata russo.

É a economia, imbecil. 

 


     
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

PT precisa de autocrítica e expurgo para sua redenção

 

Em plena greve dos metalúrgicos, em 1978, eu fazia frila para um jornal de esquerda, que era impresso todo em vermelho. Eles não costumavam pagar os colaboradores. Havia uma lógica nisso, mas nunca entendi bem qual era. Eu sei que, para cobrir uma pauta, fui parar no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Tarde fria, com a neblina característica daquela cidade.  

Ditadura militar, as greves estavam proibidas, livros de autores como Érico Veríssimo, Rubem Fonseca, Jorge Amado foram censurados, filmes vetados, atores de teatro espancados, gente torturada e morta e mesmo assim os metalúrgicos, que trabalhavam nas grandes montadoras, em um ato político de coragem invejável, desafiaram os militares e paralisaram as fábricas. 

Na época, Lula não usava barba. Apenas, um bigode. Havia ali no sindicato, grevistas, muita agitação nos corredores e Lula era um polo magnético, um buraco negro atraindo e puxando tudo em volta dele. Nos anos 70, falava-se muito em aura. Então, havia uma aura de celebridade ao redor do líder metalúrgico, que ganhava as manchetes no Brasil e no exterior.

Eu estava ao lado de Lula, anotando suas declarações, quando surge alguém e dá uma caixa de sapato para ele. Lula para de falar. Abre a caixa e seu rosto fica iluminado por um sorriso de satisfação. Dentro, um par de sapatos de cor escura. Lula perguntou para a pessoa, que tinha lhe dado o agrado: "É mesmo cromo alemão?". O outro confirmou. 

Não sei por que, achei aquilo um mau presságio. Maior greve, milhares de trabalhadores iam perder o emprego, um momento de ruptura institucional e o cara que estava por trás de tudo aquilo ficava feliz, como uma criança, ao receber um presente...Um par de sapatos?

Nos meus anos de jornalista, em empresas de comunicação, nunca aceitei presentes, que os colegas chamavam de "jabaculê". Passei por situações constrangedoras, com assessor me ligando, xingando, por eu ter recusado um presente. "Você acha que estou querendo te comprar com essa porra?", um assessor gritou comigo no telefone. 

Quer saber, sim, você estava tentando me comprar com o seu presentinho. "Quem presenteia quer seduzir", dizia o camarada Marx. Hoje, o "jacabulê" institucionalizou-se. Os tais "influencers" ganham para divulgar produtos. Qual é a ética desse procedimento? Talvez, não haja ética alguma. As pessoas esqueceram esse comprometimento, em determinado momento da caminhada.

Dois anos depois, em 1980, o PT era criado e nascia espalhando-se vertical e horizontalmente por todo o País. O PT era uma marca de sucesso. A estrela vermelha de cinco pontas, idealizada pelo jornalista Julinho de Grammont no Bar da Rosa (vizinho ao Sindicato dos Metalúrgicos), era vendida em broches, em bandeirinhas, em adesivos de plástico. Um sucesso! 

(Em conversa comigo, Grammont falou que estava com colegas no Bar da Rosa, tomando conhaque Domecq, quando desenhou um esboço da estrela em cima da mesa de madeira. A Rosa, dona do bar, guardou durante alguns anos a mesa, até a peça ser substituída por mobiliário moderno. A estrela ganharia contornos mais definidos com a ajuda de Hélio Vargas, ilustrador, que fazia um personagem de muito sucesso no jornal do sindicato, chamado João Ferrador. "Muitos metalúrgicos achavam que João Ferrador existia mesmo", me contou Grammont, pouco antes de falecer em um acidente de carro na via Anchieta.)

O crescimento do PT começa de forma exponencial crescente. Nove anos depois da fundação do partido, Lula disputa a Presidência e vai para o segundo turno com Collor. Erundina conquista a prefeitura de São Paulo, em uma virada incrível sobre Paulo Maluf. A campanha de Collor é rasteira, fedorenta. Traz uma ex-mulher de Lula para atingir o candidato petista no seu lado mais vulnerável: a intimidade. Surge uma filha de Lula, "bomba bomba", como um asteroide fumegante, que desaba sobre o telhado dos eleitores. No outro dia, Lula aparece com a filha, que fica muda diante da TV (por que ela ficou muda?), enquanto Lula fala que era ele quem cuidava da menina.  

No debate na TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então todo poderoso executivo da TV de Roberto Marinho, pega pastas e enche de papéis em branco e as entrega a Collor, como se ele fosse fazer alguma grande denúncia contra o ex-metalúrgico. No debate, Collor menciona, com inveja simulada, que Lula tinha um "três em um" em sua casa. Três em um, na época, era vitrola, rádio e toca-fitas. Lula fica constrangido, responde de forma enviesada, esquecendo de mencionar no debate que Collor não tinha apenas um prosaico "três em um", mas era dono de uma gigantesca retransmissora de TV em Alagoas, filiada da Rede Globo.

Como sempre, o surrado discurso anticomunista da direita tornava-se próximo das pessoas comuns. Lembro de levar minha mãe votar no Liceu Pasteur, na Vila Clementino, e na porta do colégio eleitoral um brucutu agitava a bandeira do Brasil e gritava para nós: "Não vamos deixar os comunistas tomar o poder. Vote em Collor". 

O governo Collor acaba, desmanchado pela corrupção. Assume o vice, Itamar Franco, que faz um "mandato tampão" excepcional, enfiando uma estaca de madeira no coração da inflação, que era de seis ou mais dígitos. Viriam oito anos de Fernando Henrique Cardoso, que tinha, sem dúvida, a liturgia do cargo. Era um presidente educado, gentil, inteligente, sociólogo, acadêmico, ex-professor, na Universidade de Nanterre, do líder da revolta estudantil de 1968, em Paris, Daniel Cohn-Bendit, o "Danny le rouge". 

Diante daquilo que temos hoje no Palácio do Planalto, sinto muita falta da polidez ilustrada de FHC.

Na campanha eleitoral de 1998, FHC é exibido com terno, gravata, asseado e bem disposto, sentado ao lado de um cardeal (ou equivalente), no que parecia ser um jardim edílico; enquanto Lula e dona Marisa faziam uma caminhada cansativa, de doer os calos, dar bolhas nos pés, pelo abandonado Caminho do Mar. 

Nos anos seguintes, a campanha do PT torna-se profissional ("brilha uma estrela, Lula lá") e vai garantir a eleição de Lula em 2002; sua reeleição em 2006; a eleição de Dilma Roussef, em 2010; e também a reeleição de Dilma, em 2014.

O PT não era apenas uma marca de sucesso. O PT tinha conquistado o poder. Dominava estados e prefeituras. Em 2002, eu estava no luxuoso Hotel Intercontinental, em São Paulo, fazendo a cobertura do discurso de vitória de Lula. A emoção era contagiante. Vinte e dois anos depois de fundar o PT, Lula chegava à Presidência e rebatia Regina Duarte e direitistas, apavorados diante do "perigo vermelho": "A esperança venceu o medo". 

Os governos Lula até a derrocada de Dilma Roussef foram de crescimento econômico, elevação do IDH, investimento em educação, saúde e estabilidade econômica. O País ia bem. A cada nova eleição, Lula e os políticos, que tinham sua benção, eram sacramentados pelos votos.

Em relação aos inimigos, Lula agia de forma pragmática. Deixava o fígado de lado. No apoio a Fernando Haddad, que venceu a eleição para a prefeitura de São Paulo, chegou a ir com o seu candidato dar a mão a Paulo Maluf. Por mais que você limpe com álcool, passe desinfetante, não tem como ficar realmente limpo, depois de dar a mão a Paulo Maluf. 

Velhos oligarcas como José Sarney, Fernando Collor viravam aliados. A Rede Globo ia bem, obrigado, ganhando verbas do poder público, se municiando, esperando a hora de atacar e derrubar o governo petista. 

Então, desabaram os escândalos. O primeiro "Mensalão", com Roberto Jefferson que, entrevistado por Renata Lo Prete, da "Folha de S.Paulo", contou que o PT comprava deputados por 30 mil reais, para votar projetos de interesse do governo. Veio o "Petrolão", gigantesco esquema de corrupção, denunciado pela operação Lava Jato, que revelou - finalmente - as entranhas das negociatas entre empreiteiras, partidos políticos, operadores, que deram um prejuízo estimado de 42 bilhões de reais à Petrobras. Políticos, empreiteiros, doleiros, funcionários foram presos e condenados. A Lava Jato conseguiu recuperar cerca de 6 bilhões de reais. 

O esquema era simples: a empreiteira era contratada pela Petrobras e cobrava um valor superfaturado pela obra. A quantia "extra" paga pelos empresários, para conseguir fazer a obra, ia para os cofres dos partidos e de políticos corruptos.

Nesse momento, a estrela do PT começou a perder o brilho. Foi se desfazendo aos poucos. Foi se descolorindo. 

Até então, era impensável que o PT, um partido de trabalhadores, pudesse estar envolvido em tanta coisa suja, imoral, antiética. Como um partido, que se pretendia ser diferente dos demais, podia ter caído nas mesmas artimanhas dos partidos tradicionalmente corruptos? Era um descalabro. Tudo bem, o PT não havia inventado a corrupção, mas o partido não tinha o direito de mergulhar no mesmo jogo sujo.

A Lava Jato foi atrás de Lula. O promotor Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro fecharam o cerco. Em setembro de 2016, Dallagnol convoca a imprensa e exibe um "power point" amador e pouco convincente com flechas apontando para o "chefão do crime" (Lula). 

Lula seria condenado e preso por Sergio Moro. Ficaria na prisão por 580 dias. Investigado pelo apartamento no Guarujá e pelo sítio em Atibaia, não havia realmente provas de que os imóveis pertencessem a Lula, nem que o dinheiro de propina da Petrobras fora usado como favorecimento ao ex-presidente. 

A Vaza Jato, série de documentos revelados pelo site "The Intercept Brasil", com colaboração do premiado jornalista Glenn Greenwald, revelou que os promotores da Lava Jato mantinham uma relação "incestuosa" com o juiz Sergio Moro, que orientava e aconselhava a acusação, em uma inédita - e preocupante - demonstração de parcialidade entre acusador e juiz.  

Moro conquistou a simpatia do público e deu um tiro no pé ao aceitar o Ministério da Justiça, oferecido pelo recém-eleito Jair Bolsonaro. Moro, que havia abandonado sua carreira de juiz federal, encerraria sua passagem-relâmpago no Ministério da Justiça, depois de 15 meses ou 480 dias. Moro saiu atirando. Acusou Bolsonaro de interferir nas investigações da Polícia Federal.

Em novembro de 2020, o PT foi varrido das urnas. Não conseguiu eleger nem um único candidato a prefeito nas capitais. Cansados, os eleitores derrotaram Lula e também Bolsonaro. 

O que fazer agora com a estrela do PT? Em uma postagem recente, pré-eleições municipais, o jornalista Ricardo Kotscho escreveu, em sua coluna no Uol: "Aos 40 anos, PT chega às eleições envelhecido, sem votos e sem rumo". Como se tivesse bola de cristal, Kotscho previa que o PT dificilmente elegeria algum candidato nas capitais. O PT pediu direito de resposta, mas a resposta principal veio das urnas. O Partido dos Trabalhadores naufragou de fato na eleição municipal. Kotscho foi secretário de imprensa do Governo Lula, de 2003 a 2004, portanto devia saber o que estava escrevendo.

O PT conta com 1 milhão e 500 mil filiados. É uma força política considerável. Mas parece ter perdido o magnetismo. Enquanto nos anos 80, o partido crescia, a marca brilhava intensamente, era um centro de atração irrefreável (lembro das barraquinhas de feira do PT, vendendo broches, bandeiras e adesivos; lembro das militantes de minissaia, batendo na porta dos eleitores; lembro dos patrões proibindo os jornalistas de usar o broche estrelado do PT); hoje, as pessoas querem distância da estrela. 

Talvez, uma solução possível fosse um expurgo, semelhante ao célebre discurso de Nikita Kruschev, em 1956, diante de 1.500 estupefatos dirigentes do Partido Comunista da URSS, denunciando a prisão de 1 milhão e 500 mil pessoas e assassinatos de outras 690 mil, todas vítimas do ditador soviético Josef Stalin, "o guia genial de todos os povos". Kruschev lavou roupa suja em público. Jogou merda no ventilador. 

O PT deveria fazer o mesmo, uma rigorosa autocrítica, um expurgo cortando na própria carne, em busca de sobrevivência e redenção.     

 

       


 

   

   

     

  


sábado, 9 de novembro de 2019

O PT saiu da cadeia junto com Lula



A saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem da prisão, em Curitiba (PR), foi apoteótica. Teve discurso, homenagens, abraços, beijos e felicitações mil. Não foi só Lula que saiu da cadeia. O PT, também. 

Houve reparação de uma injustiça. Na quinta-feira, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por 6 votos a 5 que a Constituição deve ser respeitada. Em seu artigo 5º, a Constituição ordena que a prisão só deve ocorrer depois de "trânsito em julgado". Significa que, enquanto houver instância jurídica a ser percorrida, o acusado não pode ser preso.

A Lava Jato atropelou a Constituição. Prendeu opositores. Guardou Lula na cadeia, para não participar da eleição de 2018. Mesmo debaixo de uma avalanche sempiterna de acusações, com a mídia oficial descendo o cacete, Lula venceria o pleito. A solução foi enquadrá-lo. Em abril de 2018, com voto decisivo da então presidente do STF, Cármen Lúcia, foi negado habeas corpus a Lula. Pouco depois, o líder do Partido dos Trabalhadores seria preso e levado à "República de Curitiba".

A prisão de Lula foi uma excrescência jurídica. Não havia provas contra ele. Veja o que diz o então "comandante supremo" da Lava Jato, Deltan Dallagnol, a um grupo de WhatsApp, antes de apresentar o power point, que ligaria todas as flechas da corrupção a Lula:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”    


Graças à Vaza Jato, perpetrada pelo site The Intercept Brasil, ficamos sabendo aquilo que já imaginávamos. Não havia mesmo provas factuais contra Lula. Era um movimento político para "quebrar as pernas" do ex-presidente. 

Tem o outro lado. O artigo 5º precisa ser modificado. Não dá mais para suportar a impunidade. Político corrupto tem de ir pra cadeia. Esse "trânsito em julgado" é um atraso de vida. Quem tinha bons advogados, como era o caso de Paulo Maluf, corrupto sacramentado, nunca ia preso. Recorria aqui. Recorria acolá. E ficava livre, leve e solto até o processo prescrever. 

Se a Lava Jato não conseguiu encontrar o "batom na cueca", expressão preferida do inesquecível Ricardo Boechat, isso não significa que não havia corrupção no governo petista. No primeiro mandato de Lula na Presidência, o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, subornava parlamentares para aprovar projetos, no esquema chamado de Mensalão. Depois, viria o PetrolãoMilhões de recursos da Petrobras foram desviados. Foi tanta grana que quase quebrou a Petrobras

O esquema - descoberto pela Lava Jato de Dallagnol, Sergio Moro & cia. - revirava as entranhas da corrupção política. Empresários pagavam propina a políticos. Conseguiam faturar milhões em obras. E devolviam essas facilidades, repassando recursos para os partidos. Recursos públicos eram drenados e voavam para o exterior, graças a uma bem orquestrada indústria de doleiros. Na cara dura, políticos ligavam para empresários e pediam dinheiro. O ex-presidenciável Aécio Neves foi pilhado em uma gravação, com o pires na mão, querendo 2 milhões de reais.    

A Lava Jato buscou os holofotes e os encontrou. Do dia para noite, procuradores e juízes anônimos viraram celebridades. A mídia oficial transformou esse pessoal da toga e terno cinza de pastor evangélico nos heróis da resistência. Os políticos - praticamente todos eles, sem exceção - eram os bandidos da história.

No meio desse torvelinho, a pobre presidente Dilma Roussef foi derrubada. Graças a um problema contábil, chamado de "pedalada", dois advogados - o circunspecto Miguel Reale Jr. e a psicodélica Janaína Paschoal - abriram processo de impeachment, que ganhou sinal verde do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Dilma desceu a ladeira do Palácio do Planalto. Depois, seria a vez do corrupto Cunha cair em desgraça e ser enjaulado. 

Enquanto ocorriam as prisões de políticos, empresários, empreiteiros, doleiros, o vai e vem de advogados aos tribunais, para libertar os corruptos, ganhava ares de romaria perdida, em que os fiéis andam milhares de quilômetros e, ao chegar ao destino, não encontram mais o santo no lugar devido.

Os advogados de defesa nunca tinham visto nada parecido. A Lava Jato prendia e não soltava. Para isso, os procuradores se transformaram em Batman, na comparação feliz do jornalista da direita conservadora Reinaldo Azevedo. Batman e bandidos têm muito em comum. Todos atropelam a lei. Batman combate os criminosos, sem se importar com direitos civis e constitucionais. O juiz Sergio Moro comandava os procuradores da Lava Jato, dando dicas, fazendo sugestões, sendo tudo, menos um juiz imparcial. 

Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão, baseado em "convicção". Não havia o "batom na cueca". Apenas a convicção de que Lula era corrupto. A mídia oficial delirou. Moro ganhou as manchetes. No maniqueísmo de ocasião, os petistas eram bandidos e os justiceiros de toga, os mocinhos.

Como prêmio pelos bons serviços prestados, Moro foi guindado, no início deste ano, a ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro. Eleito na esteira do ódio ao PT, Bolsonaro obteve 57 milhões de votos. 89 milhões de eleitores não votaram nele. 47 milhões preferiram o candidato petista, Fernando Haddad, apoiado por Lula. E 42 milhões decidiram não votar em ninguém, enojados com tanta corrupção política.

 Veio a Vaza Jato, do The Intercept Brasil, e a opinião pública entendeu que a Lei maior, a Constituição, havia sido desrespeitada pelos "heróis" da Lava Jato. Imensamente felizes com a fama súbita, os procuradores lavajatistas faturavam os tubos em palestras bem remuneradas. 

Com a Lava Jato sob escrutínio, os ministros deuses do STF reuniram-se na quinta-feira e fizeram o que se espera deles: preservaram a Constituição. Assim, o famoso artigo 5º acabou prevalecendo e com ele, a libertação de Lula, preso injustamente. 

Dizem que Lula percorrerá novamente o País em uma reedição da "caravana da esperança". Antes disso, o PT - que saiu finalmente da cadeia - pode retornar às atividades. A começar, deveria fazer um mea culpa. É preciso pedir desculpas a seus eleitores, àquela gente ingênua que colocava adesivo da estrela petista na porta de suas casas e pendurava broches na lapela. O PT deve pegar um caixote de madeira, subir nele nas praças das cidades e gritar alto e bom som: 

"Pessoal, o PT errou. O PT permitiu que houvesse corrupção. O PT foi um partido igual aos outros. Nos desculpem. Isso não vai ocorrer novamente.

É isso que os eleitores de Lula esperam que ocorra. Não dá para fingir que nada ocorreu. Porque ocorreu. E o que aconteceu sujou a estrela petista. É preciso limpá-la. Fazer um rebranding da marca. Ano que vem haverá eleições municipais e o PT precisa estar preparado, porque senão vai levar outro cacete monumental das urnas.  

          

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Machado de Assis, esse chato



Em 1978, comecei a trabalhar em uma empresa jornalística, chamada Proal (Programação e Assessoria Empresarial). Fazíamos house organs, jornais de empresa. A Proal ficava em um sobrado na rua Chuí, travessa da rua do Paraíso, na Aclimação. Ao lado da minha mesa, dominada por uma robusta máquina de escrever Olivetti, sentava-se o então repórter em início de carreira André Singer. 

André é filho do ilustre economista Paul Singer (1932-2018), nascido na Áustria e radicado no Brasil. Provavelmente por influência do pai, intelectual respeitado, André amava literatura e foi ele quem me emprestou um volumoso livro de Dostoievsky, intitulado Os Demônios

A obra antecede a Revolução Russa de 1917. Na prática, revela um clima pré-revolução. Os jovens perdem  a paciência com a gerontocracia, que afundava o país, e começam a questionar o sistema. Em uma das cenas capitais de Os Demônios, um velho discursa bobagens, escutado com atenção por outros velhos. Um rapaz, presente na reunião, levanta-se. Pega o velhote pelo nariz e o arrasta pelo salão. Vai de um lado para o outro, puxando o velhote pelo nariz, como se o ancião fosse um boi de carga. Uma espécie de premonição do que estava por vir - a queda dos czares, a vitória dos soviets e a implantação do comunismo. Amei Os Demônios. Até hoje, lembro do André, por causa desse livro.

André amava também Machado de Assis. Era Deus no céu e Machado na terra. Eu tinha feito uma faculdade de Letras e não tinha mais paciência em ouvir alguém falar de Machado de Assis. Desde o colégio, quando era obrigado a ler suas obras, estava saturado de Machado de Assis. Na faculdade, um grupo de alunas fez "o julgamento de Capitu". Tinha advogada de defesa. Tinha promotora acusando. A professora era a juíza. Tudo muito chato. Será que Capitu tinha traído Bentinho? 

Além dos muros da faculdade, a escritora Lygia Fagundes Telles defendeu a tese de que Capitu tinha de fato traído Bentinho. Já alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco absolveram Capitu por "falta de provas". Dá um tempo, gente. 

Uma manhã, mal-humorado, ao ouvir André Singer elogiar Machado de Assis, mais uma vez, não aguentei e falei que os livros dele eram chatos. Todos eles. Toda a fornada. Dom Casmurro, O Alienista, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Helena, A Mão e a Luva. Disse que, quando era estudante, abria Machado de Assis e bocejava. A prosa de Machado me dava sono. Era melhor que narcótico. Os personagens de Machado de Assis me faziam dormir. Eram livros catalépticos. Foi um choque de 2 mil volts. Acho que se André tivesse um volume de Memorial de Aires na mão, ele atiraria o volume na minha cabeça. 

André sairia da Proal, tempos depois, e nunca mais voltamos a nos encontrar. Anos mais tarde, ele trabalharia na Folha como repórter e chegaria ao poder, a Brasília, ganhando os holofotes como porta-voz do recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva.    

 Essa surpresa iconoclástica diante de alguém que não aprecia o texto de Machado de Assis me acompanharia o resto da vida. Perdi amigos, por causa de Machado. Criei desavenças sérias. Fui ameaçado e perseguido. No meu pesadelo recorrente, vejo uma multidão, ostentando livros de Machado de Assis, a me perseguir por ruas mal iluminadas e cobertas por névoa densa. 

Talvez a minha bronca com Machado de Assis esteja na obrigatoriedade de lê-lo. Ninguém devia ser obrigado a nada. Na escola, desde criança, somos submetidos a Machado. Fazer resumo de suas obras. Interpretar seus textos. Em minhas lembranças, Capitu, Bentinho, Escobar, Helena, Brás Cubas, Simão Bacamarte são lentos, movimentam-se em câmara lenta. É aquela sensação sonâmbula que deve anteceder ao sono Rem.

Somente na Faculdade de Letras vim conhecer Rubem Fonseca. Foi um desbunde. Fiquei maravilhado com a prosa. Aquele conto Lúcia MacCartney era uma das obras mais modernas, que já havia lido. A linguagem corria solta, serpenteava. Cada parágrafo parecia algo inovador e surpreendente. 

Para usar uma expressão comparativa favorita de Heningway, o meu "general" da Literatura Brasileira era Érico Veríssimo. Li toda a obra de Veríssimo, que minha tia guardava em uma estante de madeira, com frente envidraçada. O melhor Veríssimo é Incidente em Antares. Excepcional.

Outro "general" era Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas, Sagarana, são obras de impacto profundo. A hora e a vez de Augusto Matraga, um dos contos de Sagarana, é literatura fina, saborosa, para ser lida e relida.    

Entre as autoras - Lygia Fagundes Telles e Carolina de Jesus - são as minhas preferidas. As Meninas, de Lygia, me trazem recordações vivas, a flor da pele. 

Gostava de Fernando Sabino, mas ele se tornou antipático ao fazer um livro para uma ex-ministra odiosa da Economia. Nunca mais li Fernando Sabino, por causa do governo Collor. São esses ódios que duram até a eternidade. 

 Cristóvão Tezza e Caio Fernando Abreu são paixões, relativamente, recentes. O filho eterno, de Tezza, é aquele livro que eu gostaria de ter "fichado" na escola. Tanta coisa a dizer sobre ele. Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, é delicado, penetrante, uma joia.

Vou desligar. A livraria me espera. 
Beijos.        


       

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Eu já sabia, Intercept

Deltan Dallagnol
Sergio Moro

Foi um grande furo de reportagem. O site The Intercept Brasil, credenciado pelo premiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, publicou neste domingo, 9 de junho, uma matéria especial, dizendo tudo aquilo que a gente já sabia, mas não tinha como provar. Greenwald conquistou fama mundial ao divulgar, no The Guardian, os documentos vazados por Edward Snowden.

O que a gente já sabia? Que o juiz Sergio Moro e os promotores da Lava Jato trabalhavam em sintonia fina. Moro lançava a bola. O promotor Deltan Dallagnol matava no peito e fazia o gol. Dallagnol fazia um lançamento de 60 metros, em profundidade, deixando Moro na frente do gol para marcar mais um. 

No caso, não se tratava de futebol. Era a incansável labuta da Lava Jato em conseguir provas que conseguissem mandar para a cadeia os principais integrantes do Partido dos Trabalhadores, entre eles, o principal "inimigo" o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Com toda essa sinergia entre juiz e promotores, o processo foi bem-sucedido. Lula foi julgado e condenado, por causa de um apartamento no Guarujá, no qual ele nunca morou, nem nunca foi dele (o próprio Dallagnol dizia: "tô com receio da história do apto".). E também em razão de um sítio, de propriedade do empresário Fernando Bittar (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/dono-do-sitio-de-atibaia-pede-a-justica-para-vender-imovel.shtml

O objetivo da Lava Jato - segundo o site - era óbvio: tirar Lula da disputa presidencial e limpar o caminho para o então candidato Jair Bolsonaro:

"A Lava Jato foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente confirmada em segunda instância, o tornando inelegível no momento em que todas as pesquisas mostravam que Lula – que terminou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprovação – liderava a corrida eleitoral de 2018. Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro". 

Assim que foi eleito, Bolsonaro "pagou a dívida" de campanha e indicou Moro para o Ministério da Justiça.

Todo esse imbróglio jurídico está repleto de irregularidades. É de conhecimento comum que um juiz não pode se misturar com a acusação. Está previsto na Constituição brasileira. O artigo 95 diz claramente que é "vedado ao juiz participação em processo". 

O juiz deveria ser imparcial. Na prática, a gente percebe que aconteceu o inverso. Moro estava mergulhado até o tutano em uma missão estratégica, que visava colher provas, obter confissões e condenar.

Questionado a respeito, Moro sempre refutou essa hipótese. Cansou de dizer que não tinha estratégia, que quem investigava e decidia o que fazer era o Ministério Público. 

Na realidade, Moro aconselha, cobra, questiona, repreende, se intromete, pede para que as investigações sejam apressadas. É uma tabelinha estilo Pelé/Coutinho. Moro passa para Dallagnol, Dallagnol devolve para Moro, Moro para Dallagnol...É gol!

Qual é a base para se comprovar essa relação ilícita entre acusador e julgador? São as conversas, feitas em aplicativos, entre Moro e os promotores da Lava Jato. Um hacker  interceptou esses arquivos secretos e os encaminhou ao site The Intercept, que os publicou. Houve um crime. Os arquivos secretos não poderiam ter sido interceptados. O hacker agiu de forma criminosa. 

O crime, no entanto, não foi cometido pelo site. O artigo 5º da Constituição brasileira, em seu parágrafo 14, deixa claro que "é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Os arquivos secretos foram entregues ao site, que os publicou, amparado no que diz a Constituição.

A ampla reportagem do The Intercept traz ainda informações sobre o famoso tríplex, atribuído a Lula pela Lava Jato. Em seu Imposto de Renda, Lula afirmava ter participação em uma cooperativa habitacional no Guarujá, desde maio de 2005, tendo pago até aquele momento R$ 47 mil. Ocorre que não era um tríplex, mas uma unidade simples, que ficaria na torre B. 

Uma reportagem do jornal O Globo, publicada em 2010, mencionava que o casal Lula e Letícia perderiam a vista para o mar, em razão da construção de uma outra torre. A torre A. 

Segundo The Intercept, a denúncia da Lava Jato tinha inconsistências:

"Na denúncia feita pela Lava Jato, no entanto, os procuradores afirmam que o triplex de Lula fica na torre A, que ainda não existia quando a reportagem (do Globo) foi publicada. Mas, no item 191 da denúncia assinada pelos 14 procuradores, há o seguinte trecho (citando a reportagem do Globo): 'Essa matéria dava conta de que o então Presidente LULA e MARISA LETÍCIA seriam contemplados com uma cobertura triplex, com vista para o mar, no referido empreendimento'".

Ou seja, a denúncia estava errada. Era outro apartamento. E não o tríplex.

Esse envolvimento entre o acusador e o julgador é ilegal. Não poderia ter ocorrido. Por causa disso, a Lava Jato deve ser descartada? Não. A Lava Jato conseguiu algo inédito na história do País. Conseguiu 244 condenações contra 159 pessoas. Contabilizou R$ 6,4 bilhões em pagamentos de propinas. Veja o invejável resultado da Lava Jato até hoje: http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-lava-jato/atuacao-na-1a-instancia/parana/resultado

O público sente simpatia pelo ex-presidente Lula. É inegável que ele fez dois mandatos excepcionais à frente do Brasil. A aprovação popular era ampla e quase irrestrita. Tanto assim que ele foi reeleito três vezes. Uma vez, por ele mesmo. Nas outras, duas "incorporando" Dilma Roussef.

É inaceitável o PT ter se envolvido em tantos casos de corrupção, entre eles, o Mensalão e o Petrolão. O PT tinha a obrigação de ser um partido diferente e não ter incorrido nos mesmos desmandos dos partidos tradicionais. Foi uma pena. Uma traição àqueles que acreditavam no símbolo da estrela, que colavam os adesivos do partido nas janelas de suas casas e ostentavam com orgulho o broche do partido no peito.   

Lula será solto? Valerá votar novamente nele, sabendo que o fantasma da corrupção petista irá acompanhá-lo?

Quando o PT vai pedir desculpas a seus eleitores? Quando o partido passará por um rebranding ético e moral?

Moro será despojado de seu Ministério? Moro deu adeus à sua vaga no Supremo? 

Essas perguntas serão respondidas nos próximos dias ou meses. O que interessa agora é passar o País a limpo, algo que parece cada vez mais distante e improvável.  



   



       

terça-feira, 9 de abril de 2019

Os comunistas estão na ordem do dia


Os comunistas estão na moda. Nunca se falou tanto em comunismo e comunistas como agora, em 2019. No século passado, em 1946, durante a Assembleia Constituinte, o Brasil contava com 14 deputados comunistas - entre eles, o escritor baiano Jorge Amado (eleito por São Paulo). 

Luiz Carlos Prestes (1898-1990), senador pelo Partido Comunista Brasileiro, era sua liderança mais carismática e mitológica. Prestes ficaria apenas dois anos no Senado, tendo seus direitos cassados. As eleições de 1946 foram, talvez, o apogeu do PCB, o Partidão, no Brasil.

De lá para cá, o Partidão só tem perdido espaço político. Em outubro do ano passado, os jornais noticiaram que o PCB e o PC do B (Partido Comunista do Brasil) entrariam na "cláusula de barreira". Sem o total de parlamentares eleitos, exigido pela lei eleitoral, ficariam sem tempo na TV e sem a grana do fundo partidário.

Para um observador com recursos parcos de inteligência, isso seria um indicativo que os partidos comunistas registrados no Brasil estariam enfrentando séria crise existencial. 

Mas, para o governo Bolsonaro, os comunistas estão na ordem do dia. Tem comunista em tudo quanto é lugar. "Olha lá, atrás daquela porta...Um comunista escondido". Tem comunista em banco, em grandes empresas. Tem comunista até dono de jornal. Acredite...

O discurso do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), segue nessa linha. Weintraub enxerga comunas em monopólios, instituições financeiras e - pelo que se depreende de sua fala - os esquerdistas estão localizados, principalmente, dentro das grandes empresas jornalísticas. 

Assim, de acordo com Weintraub, João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu - filhos herdeiros do poderoso magnata da mídia brasileira Roberto Marinho – seriam “comunistas”, comandando a Rede Globo, tendo um patrimônio de 29 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes.

Também seriam “comunistas” Johnny Saad (Bandeirantes), Luiz Frias (Folha de S.Paulo), a família Mesquita (Estadão), a família Sirotsky (Grupo RBS).

O comunismo, como se aprende no Ensino Fundamental, é estatizante. Grandes empresas, monopólios, bancos, tudo isso deixa de pertencer a seus sócios, suas famílias, e passa para o controle do governo (comunista). Depois da Revolução Russa, em 1917, não havia mais industriais, banqueiros, fazendeiros. Existia apenas o controle dos meios de produção pelo estado bolchevique.

Seguindo o raciocínio do novo ministro da Educação, as famílias Frias, Marinho, Mesquita, Saad, Sirotsky, fariam parte de um majoritário plano marxista/bolchevique que visaria dar um tiro em seus próprios pés, entregando suas propriedades e suas fortunas de características planetárias para o estado comunista. Assim, eles ficariam de mãos abanando, indo trabalhar, quem sabe, em uma fábrica de automóveis New Trabant.

Faz algum sentido essa ladainha?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, onde leciona na Universidade de Berlim, escreve em seu livro Sociedade do Cansaço sobre as enfermidades que marcaram as épocas da humanidade.

Até o século 20, vivia-se o temor das epidemias virais e bacteriológicas. Descobertos os antibióticos, afastados os riscos das pandemias, entramos no século 21 em que prevalecem as doenças neuronais, como depressão, transtorno de déficit de atenção, transtorno de personalidade limítrofe, síndrome de burnout.

“O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo (...) Mesmo a Guerra Fria seguiu esse esquema imunológico”, escreve Chul Han.

O governo Bolsonaro e seus ministros do calibre de um Weintraub frequentam os anos cinzentos da Guerra Fria. Para eles, os comunistas são o inimigo a ser derrotado. 

Eles continuam imersos na “época imunológica”. Seus discursos são antigos, seus inimigos foram desgastados pelo tempo, sua visão de mundo é velha. Eles pertencem ao século 20. Aos anos 50 do século 20. Ainda não chegaram na Revolução Estudantil de maio de 1968. Não viveram a liberação sexual dos anos 60. É um pessoal que usa um vocabulário secular, ultrapassado.

O Brasil, entra século e sai século, sempre retorna a esse jogo mentiroso. Em 1964, os militares derrubaram o governo João Goulart, em razão da “ameaça comunista”.

Goulart era proprietário rural. Ele faria a Revolução Comunista e entregaria seus 14 mil hectares de terra e suas 30 mil cabeças de gado, que pastavam nos pampas de São Borja (RS), para os bolcheviques tupiniquins?

Em 1989, na primeira eleição para presidente que participou Luiz Inácio Lula da Silva pelo PT, seus adversários o chamavam de “comunista”.

“Não vamos deixar os comunistas vencer”, gritavam os partidários de Fernando Collor de Mello, diante dos colégios eleitorais.

Durante o governo Dilma, lembro de um amigo de infância, apavorado, me informando que vivíamos sob uma “ditadura comunista”.

Até quando vamos aturar tanta ignorância? Não é uma ignorância do não saber, do desconhecer, mas uma ignorância forjada, proposital, que visa a confusão, que cria “inimigos bacteriológicos” e os chama de “comunistas”.

Precisamos de palavras novas. Sinceramente, precisamos também de um novo governo, sem esses discípulos de Olavo maluquete de Carvalho, e por aí afora.


   
      

  

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Bullying - valentões e bodes expiatórios



Lula terá novo julgamento hoje no STF. Conforme previsões de analistas, o habeas corpus que pede a sua soltura será negado. A defesa do ex-presidente argumenta que a condenação partiu de um juiz, indicado para ocupar cargo no governo Bolsonaro. 

Assim, o juiz teria agido parcialmente, mandando para a cadeia um adversário político que poderia derrotar Bolsonaro na eleição presidencial. Para os ministros do STF, esse argumento é impróprio por estabelecer uma ligação até então inexistente (na época da condenação, Bolsonaro não era candidato). 

Na realidade, qualquer analista, sem apego ideológico-partidário, sabe que a condenação de Lula não tem base legal. Ele foi preso e condenado, por causa de um apartamento, onde nunca morou, nem nunca foi dele. O mesmo acontece com o sítio famoso. Não há escritura que prove o pertencimento. Logo, não há prova material. Há suposições. 

Mas isso não importa. Lula é o nosso bode expiatório. O termo vem da Bíblia e significa aquele animal que era deixado para trás, para ser atacado pelos predadores, como forma de sacrifício, para aplacar a ira dos deuses. 

Na Grécia antiga, havia também uma cerimônia que sacrificava seres humanos, os pharmakos. Quando tudo ia mal, quando havia fome, seca, doença, fazia-se o sacrifício dos pharmakos. Pessoas doentes, com deformidade física, deficientes mentais ou simplesmente "muito feias", eram linchadas pela população. 

Perseguidos pela turba, apedrejados, esfaqueados, os pharmakos eram executados, durante um ritual catártico. Quando a "festividade" terminava, a vida voltava ao normal e a cidade garantia a sua sobrevivência, em paz com os deuses. Daí vem o termo fármaco (remédio), farmácia (antigamente, se escrevia pharmácia). 

Quando era garoto, não existia ainda o termo "bullying", que significa aquele ato de violência física e psicológica intencional, gratuita e repetida, praticada por um ou vários valentões sobre uma vítima. 

Na escola e nas ruas, a gente estava sempre às voltas com os valentões, com o bullying. Diferente de hoje, nenhuma vítima pensaria em denunciar um agressor, porque isso significa ser um "dedo duro", um "alcaguete", personagem tão depreciado como o "flozô" (como se chamava o gay na época). 

Quem apanhava precisava aprender a se defender. Era uma aprendizagem dolorida e traumática. O pior efeito do bullying era transformar a vítima em agressor, que, por sua vez, faria outra vítima, em efeito avalanche. 

Isso, infelizmente, aconteceu comigo. Naquela espiral de violência, lembro de episódios grotescos em que esmurrei o rosto de um amigo até tirar sangue. Você bate com força, com muito ódio, e quando vê o resultado algo se quebra por dentro. Você não é mais o mesmo. Você se transformou neles. Esse, acredito, é o pior efeito do bullying. A vítima torna-se algoz. A violência gera violência.    

Fui criado na cultura cristã. Ateu depois de adulto, me recordo com carinho dos valores religiosos que me foram passados na infância. Solidariedade, fraternidade, amizade, carinho dos familiares, saber perdoar, não guardar mágoa e rancor no coração...Tudo isso vinha embalado pela cultura cristã. 

E esses valores eram jogados no lixo, cotidianamente, pela violência que a gente presenciava, sofria ou praticava na escola e nas ruas.

De volta ao início dessa postagem, o Brasil caiu na mãos dos valentões. O presidente eleito posa ao lado do jogador Felipe Melo, durante a entrega da taça ao campeão brasileiro, e ambos apontam as mãos, em forma de arma, para nós, pacíficos telespectadores de um jogo de futebol.

Para o valentão, a melhor forma de acabar com a violência é usar mais violência ainda. Morrem anualmente no Brasil 60 mil pessoas assassinadas. 

Parece não ser suficiente. 

A Polícia Civil carioca usa uma metralhadora MAG, belga, calibre 7.62, capaz de disparar 650 tiros por minuto. Em setembro, a polícia apreendeu na favela da Rocinha uma metralhadora capaz de derrubar aviões e perfurar carros-forte. 

Acabar com a violência no Brasil ou reduzi-la a níveis finlandeses parece óbvio. O difícil será convencer os valentões a não correr atrás dos bodes expiatórios, não imolar pharmakos em praça pública, e promover a tão sonhada distribuição de renda. 

Mas essa solução objetiva não passa pela cabeça desse pessoal formado na Escola de Chicago e arredores. O que vem por aí não cheira bem. 

Em Paris, por sinal, já há fumaça densa e escura e carcaças de carros queimando nas ruas. É a revolta dos coletes amarelos (gilets jaunes).      

    



  

   

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O fantasma do anticomunismo



1989. Entrei na rua Mairinque, na Vila Clementino, para levar meus pais ao colégio eleitoral, que ficava no Liceu Pasteur. Ao estacionar  o carro, avançou em nossa direção um sujeito, soltando fumaça pelas orelhas e nariz. Achei que fosse um guardador de carros, um flanelinha parasita, mas era outro tipo de parasita. Ele nos entregou panfletos, que alertavam para a ameça comunista que pairava sobre o Brasil, caso Lula fosse eleito. "Não vamos deixar o comunismo vencer", ele gritava. "Votem em Collor."

Em 1960, lembro de um primo, anticomunista ferrenho, fazendo campanha pró-Jânio Quadros. Esse primo ia com a sua romiseta para a boca de urna e chamava o opositor de Jânio - Marechal Lott - de "comunista". Acredite, se quiser...

Em 1964, Jango Goulart é deposto. Um presidente eleito democraticamente é tirado do poder pelos militares, porque haveria uma ameaça comunista. Não havia. Jango queria fazer "reformas de base". Ou seja, reduzir as diferenças entre os muito ricos e os miseráveis. Não conseguiu. 

Lula perdeu a eleição, porque a classe média achava que, se eleito, ele transformaria o Brasil em uma Cuba. E, principalmente, por causa da manipulação do debate, feito pelo Boni, pelo Armando Nogueira & Cia. da Rede Globo. 

Lula seria eleito em 2002 ("a esperança venceu o medo"), novamente reeleito em 2006, outra vez eleito em 2010 (desta feita, indicando uma candidata) e ainda uma quarta vez, com a reeleição de Dilma. Nesses 13 anos e meio, até o impeachment, o Brasil não virou Cuba, nem Venezuela. Ao contrário, muita gente ganhou dinheiro, muita gente pobre pôde entrar na universidade, a dívida "impagável" com o FMI foi paga, enfim, foram anos bem-sucedidos, voltados para a redução da miséria e das diferenças sociais.

O Partido dos Trabalhadores, criado por Lula, não é comunista. Ao contrário. Quando Lula almejava criar um partido, nos anos 80, não faltaram sondagens para ele ingressar nos partidos comunistas, como o PCB e o PC do B. No entanto, ele insistiu na criação de um partido, voltado para os trabalhadores, sem se ater à ideologia comunista, que é a estatização completa dos meios de produção, a abolição da propriedade privada e o fim das classes sociais. 

Mesmo não sendo um partido comunista, o PT é alvo frequente dos anticomunistas. "A bandeira do Brasil nunca será vermelha!", eles esbravejam. "Vai pra Cuba!", gritam. O anticomunismo é uma marca de campanha política. É ferro quente sobre o couro.  

Há uns quatro anos, ainda durante os estertores do governo Dilma, reencontrei um amigo de infância muito querido que estava assustado, porque imaginava, em sua ingenuidade, que o Brasil tinha se tornado "um país comunista". Estávamos em um jantar, com outro amigo de infância, que esclareceu didaticamente que o Brasil continuava um país democrático, com as instituições funcionando normalmente. Os bancos ainda eram dos banqueiros; as indústrias estavam nas mãos dos industriais e das multinacionais, haveria eleições normalmente e assim por diante.

Chegamos a 2018. Outra eleição presidencial. E lá vem ele de novo o parasita do anticomunismo. Ele grita, esperneia, publica barbaridades nas redes sociais...O parasita anticomunista é bem-sucedido. As pessoas o escutam. Acreditam nele. Divulgam suas mentiras. Passam adiante. Há uma incapacidade bovina de raciocinar. 

Além da pecha anticomunista, paira sobre os eleitores um desalento, motivado pelos erros cometidos pelo Partido dos Trabalhadores, enquanto exercia o poder. Se o PT era "diferente dos outros", o partido que viria "trazer a ética para a política", as denúncias do Mensalão e do Petrolão indicaram que a ética havia sido esquecida em alguma gaveta do governo Lula.

Quem usava a estrelinha vermelha no peito, quem grudava adesivos do PT na janela de casa e do carro, se sentiu traído, quando as denúncias ocuparam as manchetes da mídia. As corporações empresariais, que dominam os meios de comunicação, bateram firme e forte no governo Dilma até abalar as estruturas e fazer o edifício petista ruir com estrondo. 

Sem cometer nenhum crime no exercício do cargo, Dilma desabou no impeachment, mas ganhou de Lewandowski o direito de ser derrotada na eleição para senadora. 

O PT deveria ter reconhecido seus erros. Deveria ter feito uma autocrítica, mas o partido agiu como se não fosse com ele, como se a pulverização de sua ética fosse um equívoco menor. 

A derrocada do PT trouxe à luz personagens diversos. Surgiu o jornalista partidário, melhor representado por Reinaldo Azevedo, que cunhou o bordão "petralhas". Veio essa professora Janaína Paschoal, que pronunciava discursos no Largo de São Francisco, como se estivesse tomada por algum espírito subterrâneo, e que encontrou um atalho jurídico para o impeachment golpista. Apareceu o jovem Kim Kataguiri, do MBL (Movimento Brasil Livre), bolsista da fundação norte-americana mantida pelos irmãos Koch (fique esperto Monteiro Lobato, 'o petróleo era nosso'). Vieram os juízes e promotores partidários, preocupados em condenar integrantes de legendas específicas e esquecer os demais (Aécio Neves está livre e solto e inacreditavelmente eleito com 100 mil votos). Os eleitores elegeram Janaína e Kataguiri para cargos parlamentares. Articuladores do golpe foram premiados pelas urnas. Para os eleitores, eles teriam agido corretamente em derrubar uma presidenta eleita, para "pôr fim à corrupção". 

Só que a corrupção continuava bem de saúde. O ex-ministro de Temer Geddel Vieira Lima tinha R$ 51 milhões em um apartamento. Aécio Neves pedia R$ 2 milhões a Joesley Batista. E o próprio presidente Temer era acusado de liderar organização criminosa, que teria desviado R$ 587 milhões.

Sem provas efetivas para condenar Lula, o ex-presidente acabou na cadeia por causa de um apartamento, que nunca foi dele e onde ele nunca morou. Sob as acusações de "corrupção passiva" e "lavagem de dinheiro", o juiz Sergio Moro condenou Lula a 12 anos de prisão. Na realidade, a condenação de Lula foi motivada pela suposição de que, quando era presidente, ele teria conhecimento da corrupção que grassava na Petrobrás e que quase levou a petrolífera para o buraco. Prova mesmo - uma escritura, por exemplo - não havia. 

Dia 28 de outubro, um domingo, o Brasil elege seu próximo presidente. O jornal francês Libération, em sua edição de 5 de outubrocolocou a foto de Bolsonaro ocupando toda a primeira página e o texto proclamou: "Racista, homofóbico, misógino, pró-ditadura e mesmo assim ele seduziu o Brasil". 

Então, precisamos escolher entre o candidato de um partido que errou muito, quando esteve no poder, mas mesmo assim trouxe esperança para quem não tinha nenhuma esperança; e outro candidato que vai de encontro a todos os valores democráticos saudáveis, "uma folha seca que vai com o vento e a ventania está forte", como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre Bolsonaro. 

A escolha não é simples, mas, para quem foi em todos aqueles memoráveis atos pela volta das Eleições Diretas, a decisão parece óbvia. Será difícil conquistar corações e mentes, rendidos ao "mito", ao "anticomunismo", mas tem luta que vale a pena ser travada. E esta é, sem dúvida, uma delas.   
         



       

terça-feira, 10 de abril de 2018

Trecho do livro Complexo de Servo - um romance sobre a submissão


       

1979
        
"O chefe do Departamento Fotográfico chamava-se Lambari. Tinha a pele escamosa, os cabelos como nadadeiras e um olhar viciado, de peixe morto. Na realidade, Lambari era o apelido, mas ninguém o conhecia pelo nome de batismo. Foi o próprio Lambari quem deu um armário enferrujado para Beto guardar suas câmaras e lentes. Lambari ofereceu-lhe também um filme rebobinado, “com umas 30 poses”, e o despachou para São Bernardo.
         “Os milicos vão matar o Lula e fazer uma faxina. Vai ser legal”, avisou Lambari.
         Lula era o apelido de Luiz Inácio da Silva, o líder sindical de São Bernardo. Lambari não tinha ódio ideológico de Lula, ou algo assim parecido. Era apenas o desejo de ver sangue escorrendo.
Era o acontecimento mais importante daquele dia. Por que destinar uma pauta tão preferencial para um iniciante? “Eles querem me queimar, por causa do meu tio”, Beto concluiu. Queriam testá-lo. A bem da verdade, mais provavelmente, fritá-lo.
No instante seguinte, Beto já estava em São Bernardo, sob a cor de chumbo daquela cidade que reunia as principais montadoras do país. No ABC – região formada pelas cidades Santo André, São Bernardo e São Caetano – eram feitos os carros, as peças dos carros e os acessórios. Os operários vinham do Nordeste, principalmente. Moravam em favelas, em casas precárias edificadas sobre áreas invadidas de mananciais. Destruíam as sobras da Mata Atlântica. Viviam nas ventosas dos tentáculos do Monstro.
         Com a responsabilidade esmagando sua cabeça, preocupado com o tio, Beto circulava pelo Paço Municipal de São Bernardo. Eram 14h. O lugar estava cheio de gente. Chegavam notícias confusas: “Lula foi preso”, “Lula está com o prefeito”, “A polícia cercou a casa do Lula”.
         No Teatro Cacilda Becker, a peça em cartaz chamava-se Quando as Máquinas Param.
         Uma coincidência temporal. Há 10 dias, os metalúrgicos mantinham sua greve, enfrentavam a Ditadura Militar com bravura e determinação. Eram um anacronismo histórico. Ressuscitavam a luta de classes, numa época em que ninguém mais acreditava nisso.
         Beto tinha lido na Newsweek que o líder dos metalúrgicos, o Lula, era “o herói da classe operária brasileira”.
         Mas onde estava o Lula?
         Os operários chegavam cada vez em maior número. Tomavam conta da praça. Gritavam em coro: “A greve continua! A greve continua!” e “Lula! Lula! Lula!” Beto encontrava-se no olho do furacão com um filme rebobinado. Tinha chance de fazer umas 30 fotos, sendo que as duas primeiras e as duas últimas quase sempre queimavam em um filme rebobinado. No cômputo geral, eram 26 fotos, apenas.
         Chegavam mais informações desencontradas. Lula tinha sido cassado e o Sindicato dos Metalúrgicos caíra sob intervenção federal.
         Havia 20 mil operários na praça. Vinte mil expressões diferentes e Beto  com um filme rebobinado na máquina. 26 poses. A informação agora era confirmada: Lula tinha sido realmente cassado e o Sindicato dos Metalúrgicos seria ocupado por interventores. A greve poderia acabar naquela tarde.
         Sob o céu de chumbo, chegaram cem peruas C-14 da polícia. Elas rodearam a praça com as sirenes ligadas e as luzes piscando. Vieram também os cavalos, os cães pastores e os caminhões espinha-de-peixe, trazendo a tropa de choque.
         Um helicóptero sobrevoou o Paço Municipal de São Bernardo. Dentro do helicóptero dava para ver um soldado do exército armado de metralhadora.
         Um carro de som servia de palanque. Líderes metalúrgicos diziam que a manifestação era pacífica, que ninguém deveria reagir à provocação.
         A polícia cercava a praça. Um metalúrgico com chapéu da Volks circulava impaciente. Era um cara baixinho, forte, híbrido de índios e negros. Ele andava com o peito estufado, os braços em curva como se fosse uma xícara de duas asas.
         De onde Beto se encontrava, era possível ver os carros de choque Brucutu se aproximando, ao lado dos carros dos bombeiros, dos cavalarianos e dos cães pastores da Polícia Militar.
         A tropa de choque preparava as bombas de gás lacrimogêneo, aprumando os escudos e os cassetetes.
         Os metalúrgicos comprimiam-se, tentando ficar nas proximidades do prédio da Prefeitura. Naquele momento, a polícia já tinha cercado toda a praça. Não havia mais para onde fugir.
         Uma repórter da legendária TV Tupi gravava uma passagem para a sua matéria. Ela explicava que a praça estava cercada, que o ato público ia começar naquele momento e dizia que os metalúrgicos estavam tensos e apreensivos. “Com o cu na mão”, Beto completou, em pensamento.
         A praça tinha um estilo modernoso, repleto de concreto, com esqueletos de árvores e grama encaixados nos vãos do cimento. O céu de chumbo ficou mais escuro. Começou a garoar e a ventar forte. Fazia frio.
         Os uniformes dos policiais eram cinzentos, assim como os prédios em volta.
         Beto fez umas quatro ou cinco fotos dos policiais avançando. Bateu a câmara na cabeça de um operário. O sujeito gritou de dor. Anos e anos fotografando noivos de bolo atrapalham a gente muito mais do que se imagina.
         O vento estava mais forte agora. A garoa descia suja e ácida. Ele limpou a lente com uma flanela. Usava uma capa plástica vermelha, fechada até o pescoço e com um capuz de frade capuchinho sobre a cabeça. Era o chapeuzinho vermelho da fotografia. Um atirador louco, entre os policiais, fatalmente o escolheria como alvo. Era a própria capa do toureiro.
         “Vou tomar um tiro na espinha e ficar aleijado”, Beto pensou.
         O cadáver...Aquela cueca sobressaindo-se...A perda da dignidade e do orgulho...
         Ordens confusas partiam de lideranças esporádicas: “O governador Paulo Maluf, que deu ordem para reprimir a manifestação, vai ser o responsável pelo que ocorrer hoje nessa praça”, gritava o carro de som.
         Os operários berravam: “Abaixo a Ditadura! Abaixo a Ditadura!” E também: “A greve continua! A greve continua!”. E ainda: “Lula! Lula! Lula!”
         A primeira bomba foi disparada. A gritaria generalizou-se. As palavras de ordem foram substituídas por frases partidas:
         “Calma, gente, calma.”
         “Não pisa na moça.”
         “Abaixa a cabeça.”
         “Eles estão disparando contra a gente.”
         “Eles vêm vindo.”
         Beto viu a repórter da TV Tupi falando no microfone e, em seguida, viu uma fumaça na parte debaixo da saia dela. A repórter começou a voar pela praça.
         Ela foi deslocada por uns 10 metros e caiu sentada, ainda segurando o microfone, tentando entender o que tinha acontecido.
         O cinegrafista botou a câmara no chão e começou a enfiar o dedo no ouvido.
         Beto fez umas dez fotos da correria. Os operários tentavam escapar do cerco. As C-14 com as sirenes ligadas entravam na praça. Gente caía, gente era pisoteada.
         O operário com o chapéu da Volks apareceu dentro da câmara de Beto com o rosto ensangüentado.
 “Quebraram a minha cabeça”, ele gritava. Os braços em xícara estavam agora na cabeça, tentando estancar o sangue.
        
Os fotógrafos casamenteiros jamais acreditariam naquilo.
         Os policiais a cavalo empurraram os metalúrgicos para o meio da praça. A maioria dos operários corria em direção ao prédio da Prefeitura. A passagem era apertada. Não daria vazão para tanta gente.
         Beto encontrou uma grade e passou o braço esquerdo ao redor dela. Ficou ali em cima, empoleirado.
         Sua lente viu vinte homens envoltos por uma nuvem branca, proveniente das bombas. A fuga dos grevistas era desordenada. Os guardas batiam em tudo que se movia. Cavalos, cães e viaturas eram jogados sobre os metalúrgicos.
         O fotógrafo olhou para a repórter da TV e viu que ela ainda não tinha se levantado. O cinegrafista, sentado no chão, esfregava os olhos. Devia estar momentaneamente cego e surdo por causa da bomba.
         Beto saltou do poleiro e foi em busca de uma posição melhor. “Devo ter ainda umas três fotos”, calculou, enquanto corria.
         Um metalúrgico, próximo de Beto, levantou a mão e gritou. Beto parou de correr. Olhou para o operário e virou a cabeça. Havia uma “parede” marrom ao seu lado. O ar foi riscado por um instrumento cortante e um negócio duro bateu com força no rosto do fotógrafo do Jornal Falido.
         Beto viu literalmente estrelas. Uma constelação de pequenos pontos luminosos. Levantou a cabeça e viu o guarda a cavalo ao seu lado. O policial armado com um cassetete gigante.
         Beto gritou:
         “Eu sou jornalista! Não faço greve!”
         O guarda decidiu procurar outra vítima e se afastou com seu cavalo. Beto pegou a flanela no bolso e botou em cima do ferimento. Lembrou-se do sindicalista morto pela manhã, diante da Metalforjado. Andava e repetia: “Eu sou jornalista. Não faço greve”.
 Sangue por todo lado.
         Os homens gastavam todas as bombas. Era uma liquidação. Queima de estoque. O gás lacrimogêneo espalhava-se pelo ar frio, daquele dia sujo.
         A manifestação tinha terminado.
         Beto sentou-se ao lado da repórter. A perna da moça tinha se transformado em uma das chagas de Cristo. Apesar do ferimento, ela continuava trabalhando, escrevia sem parar.
         “O que me fode é saber que os caras vão cortar tudo na edição”, dizia a repórter para o cinegrafista, que não podia ouvi-la, porque ainda esfregava os ouvidos. Beto entrou na Prefeitura. Procurou um banheiro e se lavou. O ferimento era superficial. “Mas dói pra caramba.”
         Preocupado com o corte, o fotógrafo perdia a dimensão do que acabara de presenciar. Aquele tinha sido o maior confronto entre a Ditadura Militar e a classe operária. Uma luta campal. Um massacre. Aquele pessoal esmagado reuniria forças e se aglutinaria em um partido político, que passaria a representar a esquerda, ou o que sobraria dela dez anos depois, quando caísse o Muro de Berlim. Mas o que importava naquele momento era o corte na cabeça.

“Batismo de fogo”, disse Lambari, quando ele chegou no jornal, com o crânio remendado, e o filme rebobinado para ser revelado."

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...