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quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Vizinhos chatos

Nunca dei sorte com vizinho. Era criança. Morava em um prédio na rua Senador Feijó, centro (muito) velho de São Paulo. A rua era ocupada apenas por prédios de escritórios. Só havia uma exceção. Na rua Quintino Bocaiúva, em um prédio de três andares, quase em ruínas, funcionava aos sábados uma gafieira. Começava às 20h e varava a madrugada. Era impossível dormir. O som chegava "alto e claro", como diria um PM. 

Não estava só na minha agonia. O proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, morava ali perto e também não dormia. Na biografia, escrita por Fernando Moraes, está lá registrada a queixa. 

Vizinho, em geral, é chato. O melhor vizinho do mundo é aquele que morreu há três anos e você nem desconfia. Por isso, a personagem do livro Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, me deu uma inveja danada. A mulher mora em um cemitério. 

Na Mooca, os vizinhos chatos reproduzem-se aos milhares. Tinha o rapaz que organizava festas de fim de semana. O evento começava na sexta-feira e terminava na segunda. Som em volume enlouquecedor. Tinha o buffet, cujo modelo de negócio, visava incomodar a vizinhança, com karaokê. Não faltava a moça que fazia ovos de Páscoa, com a janela aberta, para conversar com qualquer figura que estivesse passando na rua. "Olha que bonito que ficou..." Na casa ao lado, registrou-se uma briga familiar, que demorou uns dois meses para ser concluída. Toda noite, a família se reunia e discutia. Em altos brados. Como discutiam, meu deus. O problema era uma gravidez não desejada. Até eles decidirem ter o bebê, a gente ficou algumas madrugadas de olhos bem arregalados. Sem esquecer aquele pessoal que conversava embaixo da janela da gente, às 3h da madrugada, como se estivesse na praça de alimentação do shopping.

Na Vila Clementino, na época da minha adolescência, o meu vizinho chato chamava-se Hélio Coração. Ele comprava um carro usado e fazia o possível para transformar o veículo em um amontoado de ferro-velho. Ele martelava, martelava, martelava. Não era Thor, mas adorava um martelo. Depois de destruir o carro e torná-lo sucata, o bom e velho Hélio Coração atacava a casa. Começava uma reforma, sem data e ano para ser concluída. Antes, era preciso passar o aspirador de pó em toda a casa. De madrugada. 

Em termos de vizinhos chatos, o pessoal da Granja Viana batia qualquer recorde. Como eles eram malas, cristo rei. Dois rapazes órfãos e maconheiros usavam a noite de sábado para criar uma filial do lolapalooza. A casa deles se metamorfoseava em boate. Cobravam ingressos. Queimavam fumo a dar com pau. A rua ficava lotada de carros. Era um Carnaval alucinado. Uma balbúrdia amaldiçoada. Na casa ao lado, a vizinha chata, que gostava de ostentar, chamava os amigos, ligava o som e era aquela zoada. Eu saía no quintal e via o pessoal, em uma espécie de puxadinho, todos suados, sem camisa, jogando bilhar. Sem outra opção, aumentei o muro em pelo menos mais três metros. Na casa em frente, outro vizinho chato ligava o som, todo domingo, religiosamente, por volta de 11h. Eram músicas tipo Antena 1. Ele almoçava fora - isto é, punha a mesa diante da casa. A gente saía na varanda e ficava vendo tudo que eles comiam. Era legal. Você acha que terminou? O que é isso... Um piauiense ocupou um terreno vazio (provavelmente, com a ajuda de alguém da prefeitura) e construiu piscina e edícula. Dava festas, que deixariam Neymar morrendo de inveja. O local era frequentado por moças de reputação ilibada. A polícia era chamada. Havia discussões acaloradas. Sucursal do inferno. Sem esquecer do maluquete que tocava bateria quatro casas abaixo. Sem esquecer das festas que aconteciam toda semana em alguma casa próxima ou distante (a gente, mesmo sem querer, participava).

No interior e na praia, não é diferente. Há sempre um funkeiro, um sertanejo, que o obriga a ouvir a música, que você não gostaria de ouvir. Esses equipamentos de som foram criados para invadir o seu espaço privativo. Você não tem mais direito de privacidade. A música indesejada vem até você e destrói sua capacidade cognitiva, seu raciocínio lógico, sua razão de existir. Pitágoras só fez o teorema de Pitágoras, porque não tinha um vizinho chato. Einstein, que dizia que os brasileiros eram macacos, só pensou a Teoria da Relatividade, porque não tinha um vizinho chato.      

Não é só o refrigerante que deva se tratado como cigarro. O aparelho de som também causa problemas graves de saúde. Parece brincadeira, mas a IA acaba de me dizer que som alto causa doenças cardíacas, distúrbios psíquicos, insônia, labirintite e - acrescento eu - ódio. Se você estiver sem fazer nada - nada mesmo - faça o seguinte: acesse o senhor de todos os saberes, o Google, e pergunte para ele: "Briga por som alto causa morte?". Os resultados serão assustadores. "Briga por som alto acaba em morte", "Mulher é morta por vizinho, após reclamar de som alto", "Homem é morto após reclamar com casal por causa de som alto"...

Os telejornais, quase que diariamente, reportam festas funk, os pancadões, realizadas na rua. Em 2019, na favela de Paraisópolis, nove pessoas morreram depois de a polícia entrar no local, em busca de ladrões de motocicleta. Houve correria. Os participantes da festa entraram em pânico. Muitos acabaram pisoteados e mortos. Os 13 policiais ainda estão sendo julgados, mas o que chama também a atenção é que ninguém fala do organizador da festa funk, do pancadão. Quem é essa pessoa que organiza uma festa na rua, sem a menor condição de sgurança? Faz uma arruaça imensa, provoca mortes e nunca é citado, quem é ele? Ou eles? Será que o setor de inteligência da polícia não consegue descobrir quem são esses organizadores de pancadões?

As ruas são interditadas. As pessoas não conseguem se locomover. Há consumo de drogas lícitas e ilícitas pela garotada. A bagunça começa na sexta-feira e vai até a manhã de segunda. Estranho é que já existe lei. A multa prevista é de até 200 mil reais, com direito à apreensão do equipamento de som. 

Bom mesmo é na Suíça. Para proteger a sanidade de seus habitantes, o governo suíço determinou restrições severas de redução de ruído. Aos domingos e feriados, não é permitido fazer barulho; de segunda a sábado, entre 22h e 6h, todo mundo tem de ficar bem quieto; alguns edifícios proíbem até os homens de urinar em pé (quer fazer xixi de madrugada? senta na privada). Também entram no rol de proibições noturnas: usar aspirador de pó, cortador de grama, secador de cabelo, bater a porta do carro, dar descarga. Na Suíça, Pitágoras teria condições de fazer o seu teorema em paz.

Aí você se muda para o interior. Compra um sítio, mais ou menos isolado. Fecha-se em seu escritório e...descobre que tem mais um vizinho chato. É um casal. Eles moram bem em cima da sua cabeça. Mais exatamente, no forro da casa. É um casal de cor esverdeada, que grita muito, se mexe sem parar, anda pra lá e pra cá, derruba coisas, corre e tudo isso para pôr um ovo. Será que a senhora, dona Maritaca, não consegue chocar esse maldito ovo, sem tanto rebuliço?

Durma-se com um barulho desse.  

  

         

    

 

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Adeus à Granja

 

    Foto extraída do site saopauloinfoco.com.br/historia-granja-viana


As indicações eram temerárias. Meu orientador - Ciro Marcondes Filho - tinha avisado: "Dificilmente, você vai encontrar a minha casa. É muito complicado chegar lá". 

Lembro que saí da rodovia Raposo Tavares, na altura do quilômetro 23,8 e entrei em uma avenida silenciosa e vazia. Era como estar na avenida Paulista, com os carros zunindo em volta, e passar por um portal mágico e entrar numa estrada interiorana, vazia e parecendo abandonada. 

Ao sair da rodovia barulhenta e caótica, entrei na avenida São Camilo. Era só seguir reto e chegar em condomínio chamado Fazendinha. Deveria passar por um portão, com acesso controlado, e entrar por um emaranhado de ruas pequenas e particulares até chegar na rua Cambuquira, onde Ciro morava.

Ele tinha de assinar uns papéis, para eu concorrer a uma bolsa-sanduíche, oferecida por um organismo de pesquisa. 

Entrei e saí, me perdi, até encontrar a casa do Ciro. Ele pareceu não acreditar que eu tinha conseguido localizar seu endereço, mas assinou a papelada, que meses mais tarde representariam minha passagem para Paris. Na época, não havia Waze, GPS. A gente parava em um bar, ou pedia indicação para um pedestre, ou ainda usava um guia de ruas, quase sempre desatualizado.

A Fazendinha era um condomínio com poucas casas, tranquilo, quase idílico. Descobri que fazia parte de uma região chamada Granja Viana, verdejante, pouco habitada. Quase uma cidadezinha do interior a poucos 24 quilômetros da avenida Francisco Morato, no Butantã. 

Em casa, falei para a família: se eu ganhar a bolsa, na volta, vamos morar na Granja Viana. É um lugar delicioso. Tranquilo. Sossegado. Um paraíso.

Demorou quatro anos para o sonho se realizar. Voltamos de Paris. Defendi a tese de doutorado. Arrumei emprego em um jornal. Tive um livro publicado. Foi por acaso: um colega de trabalho, Delmar Marques, tinha se separado e precisava vender urgentemente sua casa. Ele morava na Granja, ao lado da Fazendinha. Quando ele disse que morava na Granja, acendeu uma luz dentro da minha cabeça. Fomos ver a casa dele e fechamos o negócio.

Falando assim parece que foi fácil, mas não foi. A advogada da ex-mulher do Delmar achava que fazíamos parte de um complô qualquer e dificultava o fechamento do negócio. Em desespero, sabendo que ia perder a oportunidade, liguei para a mãe da ex-mulher dele, uma senhora simples, que morava no interior de Minas Gerais (a ex-mulher tinha se mudado para os Estados Unidos). 

Falei: senhora, estou querendo comprar a casa que era da sua filha e a advogada dela só complica a situação. A sra. poderia nos ajudar, por favor?

No dia seguinte, a advogada me ligou e não me tratou com civilidade forense. Ao contrário, reclamou de falta de ética, disse que fui desrespeitoso ao passar por cima de sua autoridade, enfim, eu ficava ouvindo e contando "um, dois, três, quatro..." aguardando pela capitulação, que finalmente veio ao final da descompostura:

Tudo bem, vamos vender a casa, ela cuspiu no aparelho, com indignação de rábula ultrajada. 

A casa ficava enfiada em uma mata. Muitas árvores majestosas em volta. Cheiro de planta. Mesmo no calor, a construção era fresca. 

Sonhos realizados podem virar pesadelos contínuos? 

No meu caso, virou um pesadelo daqueles que a gente demora para acordar. 

A vizinhança era barulhenta. Quando eu digo barulhenta, me refiro a dois irmãos maconheiros que ouviam música em volume mais do que insuportável, enlouquecedor, eu diria. Eles faziam festas que varavam a madrugada. Era como se eles estivessem sozinhos no mundo. Sem qualquer respeito ou civilidade pelo vizinho. 

O sujeito que morava na frente de casa punha músicas dos anos 1960, 1970 e 1980, para embalar o almoço que seria servido no jardim, sempre aos domingos. 

Uma vizinha, que morava ao lado da minha casa, uma noite, me acordou fazendo karaokê com amigos. Era uma terça-feira, quarta-feira, não me recordo. Um pouco mais abaixo, na mesma rua, onde eu morava, um adolescente aprendia tocar bateria.

Um vizinho, que veio morar nesta mesma casa, ergueu uma espécie de laje, coberta para fazer churrasco e ficava com seus amigos sem camisa e suados olhando para dentro da minha casa. Fui obrigado a erguer o muro, subindo uns quatro metros para não vê-lo.

Quem era essa gente? De que planeta eles tinham saído?

A situação não melhorou com o tempo. Foi só piorando. As árvores majestosas que ficavam em volta de casa foram sendo derrubadas. Uma a uma. Impiedosamente. A gente ligava para os órgãos de controle (Polícia Florestal) e nada era efetivamente feito. 

Atrás de casa, surgiu uma moradia. Para não ver a construção, plantei meia dúzia de ficus. Eles cresceram rapidamente e taparam o imóvel recém-construído. A nova vizinha apareceu em casa e me mandou cortar as árvores, porque caíam folhas em seu quintal ou ela não conseguiu sintonizar o satélite. Sei lá. Algo nessa linha argumentativa. Expliquei para ela que não iria fazer o que ela estava me pedindo, porque o objetivo das árvores era muito simples: eu não queria ver a casa dela e, por tabela, não gostaria de vê-la, tomando banho, se trocando, tossindo.

Descobri que o pior lugar do mundo para alguém que gosta de natureza morar era a Granja Viana. Todo dia, uma árvore era derrubada. 

Depois que as árvores morriam, vinha uma sequência de horrores. Casas eram erguidas com o barulho previsível: bate estacas, marteladas, serras, gritos dos operários, caminhões que chegavam com cimentos, tijolos. E árvores vinham pra baixo. Caíam sem parar.

Lembro quando o condomínio Alphaville da Granja começou a ser construído a gente dormia ao som de motosserras e o barulho, aquele silvo que o tronco faz com o deslocamento de ar, vindo de encontro ao chão, se estatelando, morrendo repentinamente. 

Nessa época, estava chegando em casa, quando os faróis do meu carro focalizaram um pobre saruê, perdido, desalojado, caminhando sem rumo. Saí do carro. Ele olhou para mim, de um jeito tão desesperado, tão desconsolado, que não consegui dormir à noite. Era como se ele me dissesse: o que vocês fizeram com a minha casa? Para onde eu vou agora? Cadê os meus amigos? A minha mulher, meus filhos?

Um dia, chego em casa e minha mulher me avisa que estão cortando as árvores no terreno vizinho. Chamamos a Polícia Florestal e quando o veículo chegou fomos até lá. 

O policial perguntou para o homem, que segurava a motosserra: o sr. tem autorização para cortar as árvores.

Tenho, sim senhor, respondeu o homem da motosserra, e estendeu um papel para o policial.

O policial leu e disse: Aqui diz que o sr. tem autorização para cortar três árvores, mas outras vinte foram cortadas.

O homem da motosserra explicou: Então, eu cortei três, não sei quem cortou as outras dezessete.

O policial deu o caso por encerrado e foi embora. Minha mulher foi ameaçada de morte pelo invasor e fizemos um BO, que seria o primeiro de uma longa e interminável série de BOs inúteis.

Esse novo "vizinho", descobrimos depois, era um grileiro, invasor. O terreno pertencia a uma senhora inglesa, que ficou anos sem pagar o IPTU. Possivelmente, alguém na Prefeitura de Carapicuíba sabia que o terreno estava vago e fez a negociação por fora.

É claro que fomos atrás, em busca de Justiça. Uma promotora do Meio Ambiente disse que não poderia nos ajudar: Gente, o Brasil inteiro foi feito assim, na base da grilagem. Deixa pra lá. 

Fomos atrás de um outro promotor, acho que era da Ação Civil Pública, não me recordo. Esse foi em frente e descobriu que o terreno grilado havia sido comprado com documentos falsos.

Resumo da ópera: ninguém foi preso. O grileiro invasor continua lá. Não é incomodado pelos órgãos competentes, nem pela associação de moradores. E ele gosta de ouvir funk no último volume. Reúne os "bons companheiros" para encontros noturnos, com moças de fino trato ostentando vestidos curtos e brilhantes. É uma festa permanente. São pessoas felizes, que têm muito a comemorar todos os dias.

Esse grileiro fez coisa do arco da velha, para usar uma expressão nova. Chegou a passar trator na rua e erguer uma espécie de paredão de barro, fechando a via. E lá vem prefeitura, e lá vamos nós reclamar, corre de um lado, corre de outro, até a prefeitura aparecer com um trator para remover o paredão e refazer a rua "interditada". Uma bagunça.

Começaram os assaltos. Os criminosos entravam na vila, que não possuía entrada controlada, e faziam reféns. Roubavam casas. Ameaçavam crianças. A situação chegou a tal ponto que um grupo de moradores decidiu se reunir e buscar solução para o problema.

Fui participar de uma reunião e saí sem esperança. O pessoal conversava um pouco e passava o resto do tempo tomando vinho e comendo queijo. Era uma reunião gourmet (termo da moda, não pode ficar de fora).

Em um novo encontro, a moça que presidia a reunião disse que não queria mais saber de nada. Ela estava com "o saco cheio" de ir atrás das pessoas para tentar montar uma associação e ninguém queria saber de nada. 

Quem quer ficar com esse abacaxi? - ela perguntou.

Sobrou pra mim. Eu tinha participado de outras lutas, quase tão inglórias como aquela, e o meu currículo era favorável, modéstia às favas. 

Começamos a nos reunir semanalmente - sem distribuição de queijo e vinho. A associação de moradores foi criada e, em seguida, conseguimos aprovar na prefeitura a criação de um bolsão, que permitia fechar a vila e criar uma entrada com a presença de seguranças. Nesse período, a participação de Malu Rocha Leão foi fundamental. Ela cedeu a casa dela para algumas reuniões, percorreu as ruas em busca de futuros associados, nunca perdeu a esperança de conseguir montar a associação. Infelizmente, morreu recentemente, muito jovem, deixando muitas saudades e lembranças positivas.

Em 2011, tínhamos um saldo de dez ocorrências de roubo à mão armada. Dois anos depois, com a criação da associação e a presença das guaritas na entrada, o saldo caiu para zero ocorrência.

Para manter a segurança, era preciso que os moradores contribuíssem com uma quantia mensal. Quem pudesse pagar, pagava; quem não pudesse, pagaria quando fosse possível. O importante era ter um pouco de paz no lugar.

Fui presidente da associação de moradores por dois anos (2013 a 2015), durante os quais conseguimos efetivar a associação propriamente dita e criar o bolsão, fechando o condomínio. Minha casa era usada como sede da associação. Fazíamos reuniões. Trabalhávamos até altas horas. Depois desse período, deixei o cargo, porque estava com sérios problemas e não teria cabeça para continuar à frente da associação. 

Acabei vendendo a casa da Granja. Fui morar em São Paulo. Um belo dia, bate na porta um oficial de Justiça. Descobrimos que eu e a minha mulher estávamos sendo processados pela associação de moradores por não pagamento de mensalidades.

Você já levou um tapa na cara? Se levou, sabe exatamente como eu me senti naquela hora.

Enfim, dei adeus à Granja. Meu sonho virou um pesadelo daqueles bem ruins de se ter de madrugada. Espero nunca mais voltar para lá e tenho pena daquele sonhador que hoje está enfiando seus recursos em um lugar que é vendido como idílico, mas na realidade é mais um bairro periférico de São Paulo.

Viver na Granja, hoje, é muito complicado. O trânsito impede o morador de ir e vir. As estradas que dão acesso - Raposo Tavares e Castello Branco - estão sempre travadas. Para piorar a situação, a passa pela entrada da Granja, quilômetro 23,8 (por onde entrei naquela tarde memorável), o conturbado Rodoanel. Praticamente, toda semana um caminhoneiro se mata ou se arrebenta no Rodoanel paralisando o tráfego por horas a fio. A pobre avenida São Camilo é intrafegável. 

Fui em busca de qualidade de vida e acabei entrando em uma guerra de BOs, processos, idas e vindas à morosa e omissa prefeitura, idas e vindas ao fórum (sem qualquer resultado prático). Algo que desejaria, sim, ao meu pior inimigo. 

Um grande abraço.    

     

 

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Eleições em São Paulo - Entra prefeito, sai prefeito e a cidade continua suja e esburacada


Bruno Covas, neto do competente prefeito e governador Mario Covas, quer ser reeleito. Não sei por quê. Antes dele, a cidade estava suja e esburacada. Hoje, continua suja e esburacada. Ele quer a reeleição para manter a sujeira e os buracos, suponho. 

São Paulo deve ser um desafio sobre-humano para seus administradores. Eles não conseguem transformar a cidade. Dar uma cara de primeiro mundo. São Paulo é sempre um lugar muito sujo, empobrecido, com um miserável em cada farol.

Mario Covas, quando foi prefeito, também não conseguiu deixar São Paulo reluzente, mas era um homem público diferente, tocador de obras. Lembro de uma visita que fizemos à prefeitura, para pedir a inclusão da Casa Modernista em área de proteção, evitando a sua destruição. Covas foi muito sincero. Disse que ia salvar a casa, mas que a gente não contasse com recursos municipais para mantê-la. Era preciso correr atrás do governo estadual. E foi o que fizemos. 

Antes de Bruno Covas, tivemos a presença relâmpago de João Doria na prefeitura, que utilizou a administração municipal como trampolim para o governo estadual. A herança de Doria foi tapar os muros da avenida 23 de Maio com plantas. Quebrou as pernas dos pichadores. Pelo menos, fez uma coisa certa. Doria prometeu acabar com a Cracolândia. Promessa não cumprida. A Cracolândia vai bem, obrigado. O centro de São Paulo virou, definitivamente, cenário da franquia "A noite dos mortos vivos". Sem falar no PSDB, partido de Bruno Covas, protagonista de inúmeras acusações de corrupção (https://www.huffpostbrasil.com/news/corrupcao-no-psdb/).

Com uma certa vergonha, lembro de ter feito boca de urna, em 1988, para a eleição de Luíza Erundina, então quadro do Partido dos Trabalhadores. Houve uma virada inacreditável e ela foi eleita prefeita, superando o corrupto Paulo Maluf. A herança deixada por Erundina foi o Sambródomo, construção gigantesca, às margens do imundo rio Tietê, usado cinco dias por ano, passando o restante dos 360 dias na mais completa solidão. Um ermitão rodeado de carros, ônibus e caminhões.

Pessoalmente, Erundina me causou um grave problema. Em 1991, meu pai morreu e os "papa-defuntos" municipais estavam em greve. Erundina negociava lentamente com os grevistas, claudicava, enquanto isso os mortos ficavam sem sepultura. Precisava transportar o corpo do meu pai do hospital, onde ele havia falecido, até onde seria realizado o velório. Por causa da greve, não tinha carro funerário. Fui até o Cemitério da Vila Mariana. Havia ali meia dúzia de papas-defuntos reunidos. Puxei um deles de lado e negociei o transporte do corpo do meu pai. Paguei uma espécie de "táxi funerário".

Meu livro sobre a Vila Clementino tinha sido premiado no concurso de história dos bairros de São Paulo. Seria editado durante a gestão de Luiza Erundina. Mas isso não ocorreu. Uma das gestoras da área de cultura entendia que investir na memória da cidade seria um gasto desnecessário. Por isso, as publicações foram suspensas. O livro só seria editado, por ironia, na gestão de Celso Pitta, talvez o mais corrupto prefeito da história de São Paulo. 

Erundina fechou seu caixão à frente da administração paulistana ao não concluir obras deixadas pelo seu antecessor, Jânio Quadros. A iniciativa que trouxe mais polêmica foi o enterramento (literal) do túnel que ligava a avenida Juscelino Kubitscheck aos bairros do Morumbi e Cidade Jardim. Com Erundina, São Paulo continuava suja e esburacada.

Agora, Erundina está de volta como vice de Guilherme Boulos, presidente do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Boulos é uma metonímia de Lula ("vão surgir milhões de Lulas Brasil afora"). Usa a mesma camiseta vermelha de trabalhador em luta. A mesma barba. O mesmo discurso contundente. Boulos, no entanto, não chegou a São Paulo de pau de arara, nem passou fome no Nordeste. Boulos tem mestrado, é professor e filho de médico bem de vida.

A foto que ilustra esta postagem é de 2014. Foi tirada em um terreno, localizado na Granja Viana, nas proximidades da rua Ouro Preto. Na época, eu morava no bairro e tive meu primeiro contato direto com o MTST. A história desta invasão é estranha. 

Segundo apurei, em conversa com invasores, o proprietário do terreno de 93 mil metros quadrados devia impostos atrasados à Prefeitura de Carapicuíba. A prefeitura cobrava e o proprietário dizia que não ia pagar. Carapicuíba, então, era administrada pelo prefeito Sérgio Ribeiro Silva, o "Serjão", do PT. 

Eu era presidente da Associação dos Moradores da Vila Diva, vizinha da ocupação do MTST. Por isso, fui até lá, na rua Ouro Preto, saber o que estava ocorrendo. Esse invasor, que conversou comigo, disse para eu não me preocupar: "O senhor fique tranquilo que a invasão tem data para acabar. Mais alguns dias, e a gente vai embora. A prefeitura está resolvendo o problema dos impostos com o proprietário". 

Havia no terreno umas 800 barracas de lona. Panfletos pediam para a população, que não tivesse teto, que fosse até lá e ocupasse um lote. A invasão foi batizada de "Carlos Marighella".

De fato, como o invasor havia me dito, do dia para noite, o pessoal do MTST desapareceu. As 800 barracas de lona evaporaram. 

Teria sido tudo uma armação do prefeito Serjão, que contou com o apoio do MTST, para resolver o problema dos impostos atrasados? Será que aqueles sem-teto foram usados como massa de manobra?

Não sei responder essas perguntas. Caberia à Polícia Federal ter investigado na ocasião. A herança dessa invasão foi ter me deixado com o pé atrás, em relação a Boulos. O candidato a prefeito de São Paulo pelo PSOL, quando fala de invasões, costuma dizer que "quem toma as casas das pessoas são os bancos". Nisso, está coberto de razão. Quem faz empréstimo, dando a casa como garantia, sobe no cadafalso e coloca a corda no pescoço. Sinceramente, eu não compraria um carro usado de Boulos.

Eu sei que é considerado uma coisa pedante falar de outras cidades, mas morei em Paris, Londres e Nova York e não sei como, o que os prefeitos fazem, para manter as ruas limpas e sem buracos. Em Paris, não se vê um único buraco do tamanho de uma tampa de cerveja. As ruas são impecáveis. Limpíssimas. Iluminadas. 

Por que será que nossos homens públicos são tão incompetentes? Não conseguem fazer o básico. Diante da campanha de Bruno Covas e Guilherme Boulos, em sua lutar para vencer o segundo turno, tenho só um sentimento: desalento. 

           


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Ciro Marcondes Filho (1948-2020)


Algumas pessoas na vida da gente são fundamentais. Têm efeito transformador. Podem mudar nosso percurso. Podem ser a diferença entre a realização de um trabalho medíocre ou de excelência. Ciro Marcondes Filho, que faleceu domingo passado, aos 72 anos, de câncer, era uma dessas pessoas.

Ciro foi meu professor, quando fazia mestrado na Universidade Metodista, entre 1982-1985. Ciro havia retornado recentemente da Alemanha, com o título de doutor na bagagem. Vivíamos ainda sob a Ditadura Militar, que estava em seus estertores. Em uma das aulas, lembro que mencionei a possibilidade de aproveitar o momento para iniciar a Revolução. 

A Revolução era o sonho mais acalentado pela nossa geração. Queríamos fazer igual a Fidel Castro, aos sandinistas. Sonhávamos em tomar as ruas, como os estudantes da Sorbonne haviam feito em 1968. Chê Guevara era a nossa referência de mártir a serviço dos desvalidos. 

A gente se vestia como se estivéssemos prontos para o grande chamado. Calçava coturno, usava calça jeans e sempre, em todas as ocasiões, me enfiava em um surrado casaco verde militar.

Com essa vestimenta, que me caracterizava como alguém de esquerda, como um combatente anônimo da Ditadura Militar, acompanhava as aulas de pós-graduação na Metodista. 

Naquela aula em questão, quando mencionei dar início à Revolução, Ciro me deu um banho de realidade. Faz 38 anos e lembro como se estivesse agora, com ele, na sala de aula. Ele me disse: "Danilo, não vai ter Revolução. Esquece. Isso não vai mais acontecer. Você está preso em 1968. Precisa sair daí".

Veio a defesa do mestrado, em 1985, e eu tive uma discussão maluca com José Marques de Mello, que fazia parte da banca. Tinha certeza que ele havia lido superficialmente minha tese, que fazia um estudo de comunidade em Piedade do Paraopeba/Palhano/Minas Gerais, com foco na chegada da televisão naquele vilarejo. 

Marques de Mello dizia que a dissertação era igual a "Paraíso via Embratel", de Luiz Augusto Milanesi. Na realidade, embora o foco fosse parecido, eu tinha feito um estudo comunitário, atuando como pesquisador participante, seguindo a lógica do livro de autoria de Carlos Rodrigues Brandão. Seguindo à risca Brandão, havia até reunido a comunidade, em um salão paroquial e levado uma pauta de reivindicações às autoridades locais. 

Para falar a verdade, Marques de Mello estava comigo atravessado na garganta, por causa de um episódio, envolvendo um professor, amigo dele, que sofrera uma decepção amorosa.

Águas passadas.

O fato é que a briga com um integrante da banca, que quase me fez ser reprovado (Mello me deu nota 7, mas fui salvo pelos outros dois professores que me agraciaram com 10, média final 9), me deixou com um gosto amargo da vida acadêmica. 

Fiquei três anos longe da universidade. Em 1988, estava na Escola de Comunicações de Artes da USP, sendo entrevistado pelo Ciro Marcondes Filho. As inscrições para o doutorado tinham sido abertas e eu desejava fazer um estudo sobre a imprensa sensacionalista, mas não queria seguir a abordagem semiótica, que, no meu entender, não dava conta do recado. Tinha de ser algo com base na psicanálise, no estudo da violência e da psiquê. Era exatamente esta a linha de pesquisa de Ciro na ocasião. 

Melhor ainda: Ciro e Marques de Mello eram rivais acadêmicos. Ciro defendia mergulhos profundos em teoria da comunicação, enquanto Marques de Mello queria um curso mais prático, tipo Senac. 

Quando Ciro me perguntou por que tinha demorado tanto tempo para fazer o doutorado, falei da briga com Marques de Mello e como aquilo havia me afetado emocionalmente. Lembro do sorriso dele, da empatia e pressenti que ele seria meu orientador no doutorado.

Foi o que fato ocorreu. Foram cinco anos (1988-1993) memoráveis. De muito estudo, de muita pesquisa e envolvimento com teóricos do quilate de Dieter Prokop, Alfred Lorenzer, Otto Fenichel e Freud, é claro, entre tantos outros. 

Sem falar das obras de Ciro, que eu devorava: "Televisão, a vida pelo vídeo", "Quem manipula quem", "O que todo cidadão precisa saber sobre ideologia", "A linguagem da sedução", "Imprensa e capitalismo", "O discurso sufocado", "O capital da notícia". 

Por volta do terceiro ano, em 1991, Ciro sugeriu que eu fosse para a Europa aproveitar a possibilidade de uma bolsa sanduíche. Ele entendia que essa experiência, em locais de pesquisa mais avançados, seria fundamental para a conclusão de meu trabalho. 

Escrevi uma carta para Dieter Prokop, mas ele recusou, porque eu precisaria ser fluente em alemão. Já o professor Michel Maffesoli, do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, da Universidade Sorbonne, me respondeu positivamente. Ele seria meu orientador na França.

Preparei toda a documentação necessária para o CNPq. Faltava apenas a assinatura do Ciro. Liguei para ele e anotei as indicações para chegar em sua casa (na época, não havia Waze).

Ele me disse: "Vai ser difícil você achar. Eu moro no fim do mundo".

Peguei a rodovia Raposo Tavares. Na altura do km 22,8, em Cotia, saí à direita, rodando pela avenida São Camilo, por um lugar chamado Granja Viana. 

Fiquei maravilhado com o que via. Era tão perto de São Paulo, mas, ao mesmo tempo, a falta de outros veículos, a densa vegetação, as casas baixas, a ausência total de prédios...Parecia que eu estava chegando em alguma cidadezinha do interior. 

Cheguei no condomínio Fazendinha e me perdi umas trinta vezes até conseguir chegar na rua Cambuquira, onde Ciro morava. Uma coincidência feliz, porque a nossa família passava as férias em Cambuquira (pacata cidade "das águas" de Minas Gerais). 

Ciro me recebeu em casa, acompanhado pela mulher e filha. Ele assinou toda a documentação e balançou a cabeça, tentando me preparar para o pior: "Eles (o CNPq, a Capes) não têm aprovado as bolsas dos meus orientandos". 

Quando voltei para casa, falei para a minha mulher: "No futuro, nós vamos morar na Granja Viana. É um lugar inacreditável. Parece uma cidade do interior. Super tranquilo. Um sonho".

Dias depois, no dia 13 de agosto daquele ano (1991), recebi a carta do CNPq me informando que havia ganho a bolsa sanduíche, com duração de um ano. Poderia pegar o avião e ir para a França.

Corri para a USP e mostrei a carta de aceitação para o Ciro. Ele comemorou como se ele tivesse sido premiado. Ficou imensamente feliz com a nossa conquista. 

O ano que passei na França foi decisivo para escrever a tese de doutorado. Tenho certeza que, se tivesse ficado no Brasil, não teria conseguido produzir um trabalho com o mesmo aparato epistemológico, obtido nos seminários da Sorbonne e na completa e invejável biblioteca de sociologia e comunicação do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica). 

Outra coincidência feliz: a biblioteca ficava a 30 passos do apartamento que eu havia alugado na rua Pouchet, no 17º "arrondissement", que é o nome francês para "bairro".

De volta ao Brasil, com a tese pronta, levei para o Ciro dar uma olhada. Ele me devolveu sem mexer em uma vírgula. Só me disse uma frase, na base da brincadeira: "Vamos pras cabeças".

Como forma de preparação para a defesa, Ciro promoveu um debate comigo, com alunos da pós-graduação e convidados, publicado, em seguida, pela revista "Atrator Estranho", que ele editava. 

Minha tese "Espreme que sai sangue - um estudo sobre a imprensa sensacionalista, tendo como objeto o jornal Notícias Populares" foi aprovada, em 1993. Um editor que estava publicando vários livros do Ciro me pediu a tese, mas houve mudança na linha editorial e ele não pôde editar meu livro, que acabou sendo publicado pela Summus, em 1995.

No ano seguinte, nossa família conseguiu comprar uma casa na Granja Viana, nas proximidades do condomínio Fazendinha. Realizei meu sonho. Infelizmente, apesar de estar muito próximo, nunca encontrei o Ciro no mercado, no posto de combustível, no restaurante ou em qualquer ponto da Granja.

Como jornalista, cheguei a entrevistá-lo algumas vezes. Em outros momentos, a gente se encontrava, em debates, na Eca. A última vez que nos vimos ele me perguntou se eu gostaria de voltar a trabalhar com "violência".

 A imagem que ficou dele é esta da foto, que ilustra a postagem. Bigode e cavanhaque grisalhos, óculos de aro fino, cabelo denso, expressão séria, profunda. Não cheguei a vê-lo sem barba. Acho que não o reconheceria.

Tentei escrever essa postagem ontem, mas não consegui. Quando morre um professor, que teve tanta ascendência sobre a gente, morremos também um pouco junto com ele. 

Queria voltar no tempo. Queria estar de novo naquele momento da entrevista, naquele segundo memorável, inesquecível, quando ele sorriu para mim e eu senti que as portas da USP tinham sido abertas para mim. 


 

  


                          

segunda-feira, 18 de março de 2019

Prefeituras preguiçosas, concessionárias incompetentes, reestatização e salve-se quem puder

Não sei onde é, mas a minha rua é igual 


Você sabe que está no Brasil ao trafegar pelas ruas de suas cidades. Sobram buracos, espalham-se armadilhas invisíveis, imperam o descaso, a omissão, a ausência do poder público. 

Fico pensando o trabalho que deve dar ser eleito prefeito de algum burgo... 

Precisa fazer campanha, correr atrás de eleitores, pegar criancinha chata no colo, comer coxinha de boteco. Não é para qualquer um. O sujeito tem que ter muita disposição e foco. 

Na primeira semana, eu já desistia. Os eleitos vão em frente. Conseguem os votos necessários. Sentam naquela cadeira, onde está escrito "prefeito" e...

O que será que eles ficam fazendo o dia inteiro?  

No meu dia a dia, sou obrigado a trafegar por ruas e avenidas da região metropolitana de São Paulo, inclusive dentro da própria capital. E todos os dias me pergunto o que esses prefeitos preguiçosos ficam fazendo que não conseguem o mínimo, que é fazer a manutenção das ruas. Se fizessem só isso, já seria uma realização notável.

Não queira estar no meu lugar, caríssima leitora, nem pense em circular de carro por cidades como São Paulo, Carapicuíba, Cotia, São Bernardo, Santo André, Osasco, Diadema. É deprimente topar com tanta irresponsabilidade do poder público. 

Caro prefeito, será tão difícil assim asfaltar uma rua? Tapar buraco? Refazer o asfaltamento? Manter as ruas sinalizadas, iluminadas, adequadas do ponto de vista da cidadania?

São anos e anos convivendo com essa tragédia. Sim, é também uma tragédia você pagar seu IPTU, seu IPVA, e não receber a retribuição mais elementar que é a garantia de trafegar com segurança e tranquilidade. 

Todos os dias caio em buracos. Buracos grandes, imensos, pequenos, médios, de grave e baixa intensidade. Buracos, buracos e buracos... Não é só na época de chuva, não senhora. Os buracos estão ali nas quatro estações do ano. 

Em Sorocaba (SP), moradores têm sinalizado os buracos da cidade com a foto do prefeito José Crespo (DEM), em plaquinhas (ver abaixo).


Em Sorocaba, moradores colocam fotos do prefeito nos buracos

Não adianta falar em privatizar a prefeitura, porque estamos até aqui desses serviços públicos privatizados, que prestam um lamentável serviço à população. 

A Enel (a nova Eletropaulo) é incapaz de manter por uma semana inteira - de domingo a domingo - a luz. Quase todo dia, acontece uma falha, uma queda súbita no fornecimento de energia. 

A CPFL, no interior, é uma bagunça. Você paga a conta e eles mandam avisar que a conta não foi paga. Envia o comprovante e eles não respondem. 

De onde veio tanta gente incompetente assim? 

Veio da privatização, da entrega dos serviços públicos a gente incapaz de fazer o que se espera deles. Na Europa, já se aplica a reestatização, por motivos óbvios: a empresa privada presta um serviço imprestável. 

Trafego também pelo Rodoanel Mario Covas, caríssima leitora. Para ter direito a isso, sou obrigado a pagar pedágio. Na ida e na volta, gasto 11 reais e oitenta centavos para dirigir em ritmo de rally, desviando da buracada. É buraco na ida e buraco na volta. 

As concessionárias (CCR e SPMar), que administram a buraqueira,  não são incomodadas. Os fiscais da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) estariam dormindo? Basta dar uma volta pelo Rodoanel e constatar a buraqueira, a ausência de serviços elementares de manutenção. 

Vamos enviar despertadores, daqueles antigos que faziam um barulho desgraçado, para acordar a fiscalização da Artesp.  


Acorda, Artesp!!!


Ontem, naquela chuva implacável, achei que o pneu tinha furado. Parei o carro no acostamento e - surpresa - fiquei ensopado até os ossos e os pneus estavam nos conformes. O falso barulho de pneu furado era mesmo o piso defeituoso do Rodoanel. 

Se fosse colocar fotos do governador João Doria (PSDB) em todos os buracos do Rodoanel, acho que ficaria mais barato asfaltar os 172 quilômetros da rodovia. Haja foto do Doria para tanto buraco. 

A rua onde moro na Granja Viana é de terra. Gosto que a rua seja de terra. Durante o verão, não transmite calor como o asfalto. Gosto desse jeito rústico de morar. Só não acho legal a prefeitura não fazer a manutenção das ruas. Quando a situação torna-se limite, com buracos, lama, deixando as vias intransitáveis, é preciso implorar para as "autoridades competentes":

"Por favor, passem uma máquina na nossa rua, que aliás nem é mais rua, é só buraco".  

Como se a gente morasse de graça... 

Aliás, como estamos no mês de março e o carnê do IPTU não veio, acho que a prefeitura entregou os pontos. "Vamos parar de fingir, pessoal. Não temos capacidade de arrumar e iluminar as ruas. Por isso, não vamos mais cobrar IPTU. Fica por conta de vocês agora. Boa sorte".

E salve-se quem puder.  

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...