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quarta-feira, 4 de março de 2026

Vereadora lésbica soma votos em campanha contra LGBTs

 

Vereadora Jessica Ramos Moreno, a Jéssicão

Ela se chama Jessica Ramos Moreno. Gosta de ser chamada de “Jéssicão, a opressora” e também de “sapatão raiz”. Casada com uma mulher, teve gêmeos recentemente. Filiada ao Partido Progressistas, foi eleita vereadora de Londrina (PR), com 15 mil e 57 votos, cidade onde nasceu em 3 de fevereiro de 1993.

 Aos 33 anos, “idade de Cristo”, como se dizia, chamou a atenção da mídia nacional ao aprovar uma lei que proíbe a participação de atletas trans em sua cidade.

Ocorre que Londrina sediou a final de uma competição de vôlei, envolvendo as equipes de Osasco e Minas. E a equipe de Osasco tem uma atleta trans em seu plantel: Tiffany.

De acordo com a lei número 13.770, de autoria da vereadora Jéssicão, aprovada pela Câmara de Londrina, em 26 de abril de 2024, “fica expressamente proibida a participação de atleta cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento”. Do ponto de vista legal, Londrina proibia a participação de Tiffany na final.

Acontece que a lei foi além e proibiu todas as pessoas de praticar esportes. Veja o que diz o texto: “Para efeito de aplicação desta Lei define-se como sexo biológico de seu nascimento ‘feminino’ ou ‘masculino’, prevalecendo assim a proibição da participação de atleta cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento: gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”.

Na ânsia de arrebanhar eleitores, a vereadora conservadora de direita incluiu o termo “cisgênero” na lei restritiva. São pessoas cisgênero aquelas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo biológico atribuído no nascimento. Por exemplo: alguém nascido com características femininas que se identifica como mulher; ou com características masculinas que se identifica como homem.

Provavelmente, sem recorrer à pesquisa, sem buscar informação, a vereadora Jéssicão proibiu a prática do esporte para todos os seres humanos do planeta. Manchete do jornal “Plural”:

“Londrina proíbe todo mundo de competir em esportes”.

 Para justificar seu posicionamento contrário às pautas LGBTs, Jéssicão disse que Londrina é uma cidade conservadora e que ela não moveria uma palha sequer pelos LGBTs.

Em sua campanha incansável contra os LGBTs, Jéssicão defendeu o atleta de vôlei Maurício Souza, campeão olímpico, que atacou o novo Super-Homem que seria bissexual. “Aonde vamos parar?”, questionou o atleta, demitido depois pelo seu time. Jessicão postou nas redes sociais apoio incondicional a Maurício Souza.

A vereadora, que tem um boneco de Jair Bolsonaro, de terno e com a faixa de presidente na sua mesa de trabalho, teve outro projeto polêmico também aprovado pela Câmara de Londrina. O projeto proíbe a presença de pessoas sem-teto na cidade. A vereadora do Partido Progressistas não estava preocupada em acabar com a miséria, nem com a situação vulnerável dos sem-teto. Ela só não queria vê-los por perto. Segundo Jéssicão, os sem-teto “cerceiam a liberdade de ir e vir e integralidade moral das pessoas”.

Em outro episódio polêmico, Jéssicão anunciou nas redes sociais que havia encontrado um livro erótico em uma creche. O título do livro: “A mamãe vai ter um bebê”. Teria sido escrito por Henry Miller?

Gabriel Darcin, doutorando em filosofia pela Universidade Estadual de Londrina e André Justus, doutorando em comunicação pela Universidade Federal do Paraná, escreveram um artigo para a revista “Cor LGBTQIA+”, intitulado “Jéssicão a opressora – desafio às políticas trans e LGBTQIA+ em Londrina”, onde mencionam o impacto dessa política sobre a população LGBT. Eles escrevem:

“A vereadora Jéssica Ramos Moreno, mais conhecida como ‘Jessicão, a opressora’, tem proposto diversos projetos de lei para conter uma suposta ‘ideologia de gênero’ na cidade de Londrina. Essas iniciativas têm impactado diretamente os direitos da população LGBTI+, em especial de pessoas transexuais e não binárias, que são as mais afetadas pelas mudanças na legislação municipal”.

Eles prosseguem:

“Evidencia-se, assim, como a democracia deliberativa tem sido corroída pela ausência de debate racional em torno das propostas e pela exclusão sistemática de vozes opositoras, configurando um desafio à construção de políticas públicas inclusivas. Destaca-se, ainda, que pessoas transexuais e não binárias têm sido as mais atacadas por Jessicão, em uma estratégia para manter e ampliar seu eleitorado conservador”.

Por ser lésbica, “sapatão raiz”, o observador comum poderia imaginar que a vereadora pudesse, pelo menos, acolher com boa vontade as pautas LGBTs. Mas não. Ela faz questão de se opor e, se pudesse, certamente tiraria o L do acrônimo LGBT. Além da mera estratégia política para arrebanhar eleitores conservadores, parece que a vereadora tem algum ressentimento, algum rancor contra a população LGBT. E sua atuação legislativa seria um “acerto de contas”.

Se Freud fosse ouvido, diria que a vereadora nutre uma ambivalência afetiva em relação aos LGBTs, de maneira que o amor e o ódio não estariam em polos opostos, mas ocupando sua libido. É como a criança que ama e odeia os pais. Ama, quando os pais a satisfazem e odeia, quando se sente frustrada por uma interdição.

Para não dizer que não falei das flores, Tiffany – a atleta trans – pôde jogar em Londrina, graças a uma liminar, concedida pela ministra Carmen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), que acatou pedido da Confederação Brasileira de Vôlei. Tiffany brilhou na final, foi eleita a melhor da partida e Osasco sagrou-se campeã da Copa do Brasil contra Minas.


sexta-feira, 19 de março de 2021

Vossa excelência faltou com o decoro

 


Estamos mal de representantes políticos. Muito mal. Quando a gente mais necessitava de lideranças, caímos em um cadafalso de luminares da mediocridade. Lá em Brasília... Ah, Brasília... Nosso querido presidente fez o possível e o impossível para destruir sua popularidade. E conseguiu. Parabéns. Pesquisas mostram que ele é o mandatário com a pior avaliação, em apenas um ano e três meses de governo. 40% dos brasileiros o consideram “ruim” ou “péssimo”. “Os outros não entenderam a pergunta”, brincou o colunista José Simão.

Aqui, em São Paulo, de onde teclo para os meus três seguidores (oi mãe, oi filhos), em meio à pandemia, tivemos um momento de “falta de decoro”. Decoro, de acordo com o dicionário, seria “decência no agir e no falar”; “seriedade nas maneiras”; “compostura”.

O nobre deputado Fernando Cury (Cidadania), eleito com 100 mil votos, assumiu seu segundo mandato em 15 de março de 2019. Em meio a uma sessão legislativa, ele alisou (apalpou?) os seios da deputada Isa Penna. Deu o maior bafafá. A nobre deputada pediu a cassação do mandato de Cury. O caso foi para a Comissão de Ética que decidiu suspender o deputado por 111 dias. Se fossem 120 dias, ele não poderia manter o gabinete aberto na Assembleia Legislativa.

Cury é filho do ex-prefeito de Botucatu Antonio Jamil Cury. O irmão dele, João Cury, também foi prefeito de Botucatu. A cidade é uma espécie de capitania hereditária.

Por onde a gente andava, em Botucatu, em época de eleição, tinha poste com banner do então candidato a deputado Fernando Cury (veja foto). Eu o conheci pessoalmente em reunião, durante um evento esportivo/cultural daquela região. Ele discursou. Foi aplaudido. Abraçado (na época, a gente podia abraçar e até beijar os candidatos). E foi embora. Não levou com ele o meu voto. Sinceramente, não senti firmeza, como se diz no boteco do seu Jair.

Durante a pugna que antecedeu a suspensão do nobre deputado Fernando Cury, os colegas do parlamentar chamaram a atenção para momentos do que eles consideraram “falta de decoro” da deputada Isa Penna, eleita pelo PSOL, representando a Mandata Coletiva e Feminista.

Na eleição para a Prefeitura de São Paulo, Isa Penna fez um vídeo para levantar a candidatura de Guilherme Boulos, seu colega do PSOL. No vídeo em questão  (https://www.youtube.com/watch?v=XD7B8k1hNIg), assistido com vivo interesse pelos parlamentares e por outros 66 mil 150 mortais, a deputada Isa Penna dança um funk. Está com uma roupa de ficar em casa (talvez um pijama). Durante a música, ela rebola e mostra a bunda, em close, para a câmera. Se minha querida avozinha viva estivesse (que a terra lhe seja leve), diria que a deputada foi “indecorosa”.

Devo constatar aos que me conhecem na intimidade, que não sou uma pessoa que apoia o decoro. Sou mesmo indecoroso. Todos os dias. A maior parte do tempo. O fato é que não sou deputado, ninguém votou em mim, nem nunca irá votar, porque candidato jamais serei. Portanto, danço mesmo funk em casa, mas não gravo vídeo, nem mando minha bunda para o restante da humanidade, que já tem desgraças demais para aturar, além do meu traseiro sofrido.

Na rede social, não faltaram comentários:

“Caraiiiii nobre deputada.....tá sensualizando bem hein! Quebra tudo...quebra tudo!”

“Eita que aqui em Pernambuco não tem uma deputada dessa”.

“Muito legal a pessoa gostar de dançar. Eu também faço isso, porém não dá pra entender a mensagem que se passa com relação à proposta política do candidato”.

“Vossa excelência está um regasso (sic) nesse vídeo. Gostei.”

Não foi o único momento de “falta de decoro”, apontado com o dedo duro pelos nobres parlamentares. Eles lembraram um momento constrangedor, para eles, em que Isa Penna decidiu homenagear as putas e leu um poema da jovem poetisa Helena Ferreira, então com 18 anos, intitulado "Sou puta, sou mulher":

Quando uso a boca vermelha

Meu salto agulha E meu vestido preto.

Sou puta: Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
E nem me escondo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo às 6:30
Pego ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
Sou uma puta com P maiúsculo
Dispenso o compromisso
Opto pela independência
Não morro de amor
Acordo sozinha
Cresço sozinha
Vivo na minha
Bebo em um bar de esquina
Vomito no chão da cozinha.
Sou uma putinha
Passo a noite em seus braços
Mas não me prendo no laço
Que você quer me prender.
Sou puta
Você tem o meu corpo
Porque eu quis te dar
E quando essa noite acabar
Eu não vou te pertencer
E se de mim você falar
Eu não vou me importar
Porque um homem que não me faz gozar
Nunca terá meu endereço.
E não é gozo de buceta
É gozo de alma
É gozo de vida
É me fazer sentir amada
Valorizada
E merecida
E se de puta você me chamar
Eu vou agradecer.
Porque a puta aqui foi criada
Por uma puta brasileira
Que ralava pra sustentar os filhos
E sofria de racismo na feira
Foi espancada e desmerecida
E mesmo sofrida
Sorria o dia inteiro
Uma puta mulher ela foi
E puta também eu quero ser.
Porque ser mulher independente
Resolvida
Segura
Divertida
Colorida
E verdadeira
Assusta os homens
E os machos
Faz acontecer um alvoroço.
Onde já se viu mulher com voz?
Tem que ser prendada e educada
E se por acaso for "amada"
Tem direito de ser morta pelo parceiro
Cachorra adestrada pelo povo brasileiro
Sai pelada na revista
Excita
Dança
Bate uma
Cai de boca
Mama ele e os amigos
E depois vai ser encontrada num bueiro
Num beco
Estuprada
Porque tava de batom vermelho
Tava pedindo
Foi merecido
E se foi crime "passional"
Pobre do rapaz
Apaixonado estragou a própria vida.
Por isso que eu sou puta
Porque sou forte
Sou guerreira
Não sou reprimida
Nem calada
Sou feminista
Sou revoltada
Indignada
E sou rotulada assim
Como PUTA!
Então que eu seja puta
E não menos do que isso”.

A leitura foi feita na casa das leis, em uma sessão normal, onde se discutia aquelas coisas chatas de sempre: verbas, projetos, orçamentos...

De camiseta vermelha (vermelha mesmo, do tipo comunista, confira a foto), com a inscrição no peito “Lute como uma garota”, Isa Penna pegou o microfone e mandou bala na poesia. Foi um deus nos acuda. O presidente apertava a campainha. Vossas excelências reclamavam, pediam que ela ficasse quieta, que parasse de falar tanta putaria naquela casa séria, de leis e trabalho honesto.

 Estaria tudo certo se a nobre deputada estivesse naqueles cafés concertos, que existiam antigamente no Bexiga, onde gente jovem, cabelo ao vento, reunia-se para ler poesias, textos teatrais e ouvir música MPB de qualidade. Talvez os 53.838 votos eleitores de Isa Penna quisessem que a deputada, ao invés de ler poesia em sessão plenária, optasse por criar leis que defendessem os transgêneros, sempre ameaçados, em um País que mais mata LGBTs no mundo. Leis que defendessem melhor as mulheres, vítimas de feminicídio. A deputada Isa Penna poderia também usar melhor o tempo na Assembleia para fiscalizar se o nosso querido governador João Doria está trabalhando direitinho, se não está favorecendo esta ou aquela empreiteira, naquele jogo sujo do toma lá dá cá.

Foi um momento de afronta, é claro. Ela fez questão de criar constrangimento, para atacar a hipocrisia dos homens que ali estavam e que, talvez, quem sabe, em algum momento de sua existência viril, tivessem usado os préstimos de garotas de programas, de mulheres de vida fácil, ou como a poesia simplificou, com o perdão da palavra, putas mesmo.

Ao reagir à agressão sexual do deputado Fernando Cury, Isa Penna protestou:

“Sou uma autoridade e mesmo assim eles não me respeitam”.

Por 5 a 4 (votação apertada), o Conselho de Ética da Assembleia Legislativa votou pela pena mais branda, mantendo as benesses do cargo para Fernando Cury, “pai, deputado, que é família, que é marido de uma só mulher, uma pessoa que ama sua esposa, um cara carinhoso”, como bem disse vossa excelência o deputado Wellington Moura, ao sair em defesa do colega.

Em artigo publicado no Uol, Isabela Del Monde, advogada da rede feminista de juristas, defendeu a parlamentar apalpada e atacou os integrantes do Conselho de Ética da Assembleia Legislativa:  

“Um já foi apontado por violência doméstica e intimidação de colega deputada; outro votou pela punição de Isa Penna por ter recitado um poema em homenagem a trabalhadoras sexuais; o terceiro é pastor evangélico, quer impedir que se fale de gênero nas escolas e teve suas contas das eleições de 2018 reprovadas; já o quarto responde a três ações na Justiça de São Paulo por improbidade administrativa; e o último já foi investigado por nada mais nada menos que tortura! Esse é um breve resumo, feito aleatoriamente, de parte da trajetória de Adalberto Freitas (PSL), Alex de Madureira (PSD), Delegado Olim (PP), Estevam Galvão (DEM) e Wellington Moura (Republicanos), os cinco deputados que votaram para diminuir a pena de Fernando Cury”.

Os quatro parlamentares que votaram pela condenação de Cury e saíram derrotados foram: o relator Emídio Souza (PT), a deputada Erica Malunguinho (PSOL), Barros Munhoz (PSDB) e a presidente Maria Lúcia Amaray (PSDB).

Em sua análise, a advogada feminista Isabela Del Monde discutia os argumentos dos deputados, que haviam votado pela punição mais leve, que apregoavam: “Como ela pode exigir respeito, se não se dá o respeito”. Era uma referência de suas excelências, é claro, ao vídeo funkeiro e à insólita homenagem às putas.

Isabela Del Monde afirmava:

“No mundo da masculinidade, torturar, intimidar e tocar sem consentimento o corpo de uma mulher são condutas corriqueiras”.

Nesse ponto, com a devida vênia, a nobre advogada Isabela Del Monde generaliza e pisa no tomate. Ela situa todos os homens “no mundo da masculinidade” e coloca todos os integrantes do sexo masculino como adeptos da tortura e da intimidação.

E os homens de bem, doutora? E os Amélios da vida? Aqueles homens que amam suas mulheres, que cozinham para elas, que as tratam com carinho e devoção. Onde eles estão, doutora? Como a senhora pode ter se esquecido deles? Ah, doutora, quantos crimes a gente comete quando generaliza.

Enfim, como me disse certa vez Bob Marley, “política não me interessa, política é negócio do demônio”.

  

  


A primeira travesti do Bois de Boulogne

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