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domingo, 8 de março de 2026

O agente secreto não merece o Oscar

 

O filme foi premiador em Cannes

A cerimônia de entrega do Oscar acontece no domingo, 15 de março próximo. Espero que o filme “O agente secreto”, dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho, estrelado e coproduzido por Wagner Moura, não ganhe a estatueta.

O filme tem um ritmo lento, arrastado. Em vários momentos, dá vontade de parar a exibição para voltar a vê-lo outra hora, quando a gente não tiver nada de bom para fazer.

“O agente secreto” ganhou o prêmio de melhor diretor e melhor ator no Festival de Cannes. O que revela que a safra 2025 não é das melhores.

O maior problema do filme é a falta de coragem. Em 1977, ano em que se passa o filme, o Brasil ainda vivia sob a Ditadura Militar. O presidente Ernesto Geisel tinha fechado o Congresso, depois de o partido do governo (Arena) ser derrotado nas eleições pelo MDB. Para não correr mais o risco de perder, Geisel criou um certo “colégio eleitoral”, com políticos simpatizantes da ditadura, que davam maioria para o governo no Congresso, quando este fosse reaberto. Também em 1977, o então secretário de Segurança de São Paulo, o coronel Erasmo Dias, invadiu a PUC (Pontifícia Universidade de São Paulo), espancou milhares de estudantes e prendeu 900. Na época, eu trabalhava em uma publicação na rua Monte Alegre e testemunhei a pancadaria.  

Quando se fala em Ditadura Militar, significa que as três armas – Exército, Aeronáutica e Marinha – atuavam de maneira ostensiva, para controlar os opositores. No filme de Kléber Mendonça Filho, não se vê os militares torturando e matando opositores. Não aparece um integrante do Exército, um oficial graduado da Marinha e da Aeronáutica usando a violência para calar aqueles que resistiam ao regime.

Só para citar um exemplo simbólico, o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, o “dr. Tibiriçá”, foi condenado pela Justiça, em 2008, como torturador. Era Brilhante Ustra quem comandava o Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, onde 500 pessoas foram torturadas e o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog foi assassinado, durante uma sessão de espancamento.

Em “O agente secreto”, não se vê um jipe do Exército ou de outras forças capturando pessoas. Quem faz a violência no filme são policiais corruptos e ex-integrantes das forças armadas. Um deles teria sido expulso do Exército. Ou seja, de certa forma, o filme “pega leve” com os “milicos”. Onde estavam Brilhante Ustra e outros militares torturadores?

Parece que a violência no filme é extemporânea, no sentido de vir de alguns criminosos inoportunos, quando, na realidade, a repressão contra a oposição, durante a Ditadura Militar, era exercida pelo Exército, Marinha e Aeronáutica.

Assim como fez em “Bacurau”, Kléber Mendonça destaca um personagem do Sudeste, para ser o grande vilão. Esse personagem corrupto, instalado na Eletrobrás, destrói pesquisas importantes, que eram feitas no Nordeste (Universidade Federal de Pernambuco), para buscar benefícios próprios. O personagem é racista, misógino e extremamente violento, “descendente de italianos de Gênova”.

Mais uma vez, fica sugerido que o diretor Kléber Mendonça tem uma espécie de aversão aos descendentes de italianos, que vivem no Sudeste (São Paulo, principalmente), reputando-lhes os principais flagelos, ocorridos no Brasil.

“O Agente secreto” - bem parecido com filmes anteriores do mesmo cineasta “O som ao redor” e “Aquarius” – tem um andamento quase preguiçoso, devagar, que é sempre interrompido por um êxtase de violência extrema. Os diálogos parecem cordiais, mas escondem sempre uma perspectiva de morte e agressão.

Se dependesse do meu voto, “O agente secreto” não levaria a estatueta careca para casa.

    


domingo, 16 de abril de 2023

Filme sueco coloca privilégios em debate


"Triângulo da tristeza" é uma produção sueca

O ser humano adora privilégios. Desde criança, o privilegiado sempre me incomodou. É o carro da madame com chofer. É a melhor mesa do restaurante para o "comendador". É a barraca situada no melhor local da praia, para aquele pessoal do hotel...

Os privilegiados adoram usufruir dessas regalias. Uma vez, quando fazia um curso de filosofia oriental na Nova Acrópole, fomos visitar um local de retiro no interior de São Paulo. O responsável pelo "ashram" era um tipo entojado, metido a guru. Havia no lugar uma sala de meditação e o guru nos levou até lá, mas apenas o dono da Nova Acrópole teve a entrada permitida. Os demais - alunos e participantes da visita - foram barrados.

Só para você ver como tem privilegiado em tudo quanto é buraco, até mesmo em um "ashram" caipira. O filme "Triângulo da tristeza", que, infelizmente, só pude assistir na semana passada pela Amazon Prime, é um discurso contundente sobre os privilégios. 

Diferente da linguagem de roteiro característica da indústria americana, que sempre arruma um vilão na história e um "mocinho" ou "mocinha", o filme sueco, dirigido por Ruben Östland, conquistou os jurados de Cannes e levou a Palma de Ouro, sem recorrer a esses recursos mais do que batidos.

Deveria ter levado o Oscar também, mas a Academia de Hollywood preferiu entregar a estatueta aos alemães que fizeram "Nada de novo no front". Por sinal, se você leu o livro de Erich Maria Remarque, vai achar que o pessoal que fez o filme não leu o livro. A obra de Remarque é absolutamente pacifista. Os melhores momentos do livro é quando os soldados estão longe do campo de batalha. Em uma das cenas, dois amigos combatentes refugiam-se em uma agrícola abandonada. Matam um pato e o cozinham lentamente, aproveitando cada segundo desse momento em que não precisam dar tiros em alguém. Um amigo oferece o melhor pedaço para o outro e eles se divertem, felizes, podendo matar a fome e se alimentar com algo que não seja a ração insossa oferecida pelo exército. Remarque era alemão e combateu na primeira guerra mundial. Diante da ascensão de Hitler e dos nazistas, fugiu para os Estados Unidos, por entender que viria mais um conflito gigantesco na Europa. 

O termo "Triângulo da tristeza" refere-se àquele espaço entre a sobrancelha e o nariz. O filme começa com uma seleção de rapazes para um desfile. E um dos selecionadores dos modelos não escolhe um deles, por causa do acentuado triângulo da tristeza. 

Esse modelo, que não foi escolhido, e a namorada, que é uma "influencer", ganham passagens para uma viagem de navio, por locais paradisíacos. A embarcação é uma réplica da estrutura social: tem os privilegiados, que comem do bom e do melhor; tem os funcionários (classe média?) que puxam o saco dos ricaços; os tripulantes e os trabalhadores do "chão de fábrica", a quem cabe limpar o chão do vômito e da merda.

Em um dos momentos mais hilários do filme, o jantar é interrompido por uma tempestade. Os bilionários começam a vomitar por tudo quando é canto; as privadas entopem e um rio de merda escorre pelos corredores e quartos da embarcação. Uma das ricaças perde os sentidos, pondo o jantar para fora, sofrendo com a diarreia, enquanto é arrastada pelo rio de cocô.

Alheios aos que estão pondo as tripas pra fora, o capitão do navio, interpretado pelo ótimo Woody Harrelson, e um russo, que enriqueceu vendendo fertilizante ("eu vendo merda", ele proclama aos quatro ventos), travam um debate ideológico divertido. O russo, que foi educado na antiga União Soviética, odeia marxistas, leninistas trotskistas, comunistas etc. E o capitão do navio, que é americano, é comunista convicto. O russo cita frases do mundo capitalista, nem sempre modelo de inteligência, como Ronald Reagan. E o capitão elenca bordões comunas. Nem o capitão, nem o russo parecem sofrer com o balanço do navio. Se você pensar bem, é uma metáfora inteligente.

Acontece um ataque de piratas incompetentes, o navio vai a pique e meia dúzia de sobreviventes conseguem chegar a uma ilha. Lá, os papéis vão se inverter. A responsável pela faxina sabe pescar, sabe acender uma fogueira e chegou à ilha a bordo de um escaler, do qual não abre mão para uso exclusivo.

Invertem-se os papéis. A privilegiada é agora a ex-faxineira, que dorme bem protegida em seu escaler e escolhe para uso sexual o modelo do triângulo da tristeza, que ela chama de "bonitinho". Uma tripulante, que era líder dos funcionários puxa-sacos, passa a servir a ex-faxineira e se coloca à disposição para o que der e vier.

Na Suécia, os lixeiros costumam passar suas férias em viagens pela Europa. Não é que os lixeiros sejam privilegiados e ganhem mais do que outros trabalhadores. É que naquele país a distância entre os salários é mínima.

No Brasil, com seus 30 milhões de miseráveis que mal conseguem completar as três refeições, o que não falta são privilegiados. Eles se escondem em mansões de milhões de dólares, cercadas por muros medievais, concertina a dar com pau e câmeras de vigilância. Andam a bordo de carros blindados e nunca - nunca mesmo - "usufruíram" do deteriorado e fedorento transporte público. 

Nesse País, que remunera mal seus trabalhadores e aposentados, não faltam estamentos de privilegiados de primeiro escalão. São representantes do judiciário, do executivo, do legislativo, das forças armadas sempre ganhando mais do que o povo poderia lhes pagar. Mas eles não abrem mão de seus privilégios. Eles vão morrer agarrados às benesses, aos seus tronos dourados, vomitando e cagando e - para sorte deles e nossa inveja - o que vão expelir será a soberba refeição à base de medalhões de lagosta ao molho de manteiga, bacalhau à Gomes de Sá, arroz de pato, tudo regado, é claro, a vinho tinto Merlot da melhor safra. Bom demais morrer assim.

     
  

    

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Nem tão ruim, nem extraordinário, Green Book segue a cartilha

Viggo Mortensen e Mahershala Ali são os protagonistas de Green Book
Li artigos demolidores sobre o filme ganhador do Oscar, Green Book. São críticas que buscam muito mais chamar a atenção do leitor para o texto (e indiretamente para seu autor) do que, propriamente, fazer uma análise imparcial do filme. Um crítico qualificou Green Book como "o pior ganhador do Oscar". A maioria foi nessa linha destemperada.

Quem fizer uma análise equilibrada dos ganhadores do Oscar vai entender que estava na cara que o filme iria levar a estatueta. A academia de Hollywood não gosta de surpresas. Costuma seguir a cartilha convencional. Se Conduzindo Miss Daisy ganhou o Oscar em 1990, era mais do que normal que Green Book (um Miss Daisy com o farol invertido) fosse o ganhador. 

Dirigido por Peter Farrely e protagonizado por Viggo Mortensen e Mahershala Ali, Green Book conta a história de um pianista negro que contrata um motorista italianão para conduzi-lo Estados Unidos afora, durante uma turnê. 

Em Conduzindo Miss Daisy, uma senhora tradicional tinha como motorista um negro (o excepcional Morgan Freeman). Como se vê, o roteiro de Green Book fez um 69 com os personagens. 

Green Book está longe de ser um filme chato, que a gente não tem paciência de assistir até o filme, como é o caso de Roma, do mexicano Alfonso Cuarón. 

A direção de Peter Farrely é impecável. A gente nem lembra que Viggo Mortensen é o Aragorn de Senhor dos Anéis. Ele parece mesmo um italianão grosseiro, disposto a encher de porrada alguém que lhe chame de carcamano. 

Mahershala Ali, que se destacou em House of Cards como um consultor arrivista, vai bem na pele do pianista excêntrico, que viaja no banco traseiro do cadilac, com as pernas cobertas por um cobertozinho protetor. 

A reconstituição de época (o filme se passa em 1962) é detalhista, rigorosa e cede até espaço para um merchant sutil do KFC. Nada grosseiro e varejão ao estilo Milton Merchant Neves.

Ao longo dessa vida de filmes e estatuetas, já vi muito abacaxi levando prêmio. Entre Dois Amores, vencedor em 1986, é talvez um dos filmes mais chatos e arrastados que tive o desprazer de assistir, em uma época que estava no papel de crítico de cinema. 

Nesse tempo, passava as tardes em salas escuras, assistindo filme atrás de filme. Era estranho: quando saía da sala, topava com a luminosidade da vida lá fora. Um choque de realidade.

O musical Chicago, ganhador em 2003, também me traz recordações de muita dor e sofrimento. Sabe aquela hora que você não tem mais posição na poltrona do cinema? As pernas doem. Não consegue mais cruzá-las e descruzá-las. O corpo começa a formigar. Os olhos começam a se fechar contra a sua vontade...

Argo, premiado em 2013, dirigido e interpretado por Ben Affleck, é o mais Sessão da Tarde dos ganhadores da geração millennial. Mas nada se compara ao chatíssimo, interminável e claustrofóbico A Forma da Água, que levou a estatueta no ano passado. Este último, felizmente, não precisei assistir até o final.     






  

    

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...