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quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Saber da desgraça yanomami por visita oficial dá saudades de "Realidade"

Esta imagem reflete a realidade do abandono dos yanomami

Não tinha ideia da dimensão da tragédia. Foi só depois de uma visita oficial do atual presidente que tomei conhecimento da desgraça yanomami. Índios morrendo de fome. Esqueléticos, doentes, abandonados à própria sorte, circundados pelos criminosos do garimpo, 99 crianças mortas de subnutrição e doenças diversas no ano passado. 

Com o devido respeito às vitimas do holocausto, parecia que estava vendo aqueles documentários de soldados aliados, chegando em Auschwitz. Gente tão fraca, com tanta fome, que era incapaz de ficar em pé sozinha. Cenário de horror. 

Era adolescente quando comecei a ler "Realidade", uma revista mensal, publicada pela editora Abril de 1966 a 1976. Foi por causa de "Realidade" que decidi ser repórter. Esperava impaciente a chegada da revista nas bancas para comprar o exemplar e lê-la do início ao fim.

A revista trazia grandes reportagens, histórias sensacionais, abordava assuntos delicados e apostava todas as suas fichas no repórter que muitas vezes narrava os fatos, que tinha vivido, em primeira pessoa. As fotos eram excepcionais e formavam uma dupla imbatível com a narrativa. 

A matéria de maior impacto para mim foi a de José Hamilton Ribeiro, que perdeu parte da perna, com a explosão de uma granada, durante uma cobertura da guerra do Vietnã. Com o Ato Institucional Número 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, pela Ditadura Militar, a censura quebrou as pernas da publicação. Toda a edição era obrigada a passar por censura prévia.

Passados quase 60 anos, ainda me recordo de reportagens marcantes: os caçadores de caranguejos, uma excursão frango com farofa na Praia Grande, o dia a dia de um trabalhador de fábrica. 

Estou falando da revista "Realidade", porque fiquei pensando em como decaiu a produção de reportagens especiais. Como pode o público saber da situação dos yanomami somente depois de uma visita oficial de um presidente? Como esse assunto não entrou antes em pauta? Por que as empresas jornalísticas importantes não enviaram repórteres a esse local, para trazer a informação do que ocorria com os indígenas? 

Temos exemplos mais recentes dessa falta de apetite jornalístico. O caso mais emblemático da política recente brasileira; a reportagem mais contundente e corrosiva publicada sobre os desvios da Lava Jato, mostrando que havia um juiz parcial em conluio com promotores para condenar, sem provas, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que concorria à Presidência em 2018; esta reportagem excepcional não foi produzida por um jornalista brasileiro. 

Seu autor é o americano Glenn Greenwald, ganhador do Prêmio Pulitzer. Greenwald baseou-se nas informações obtidas por um hacker, que interceptou conversas telefônicas entre os promotores e o juiz da Lava Jato. As conversas mostravam que o juiz orientava, instruía, direcionava a ação dos promotores, visando a condenação de Lula. A série de reportagens publicadas por Greenwald foi apelidada de Vaza Jato, numa brincadeira semântica com a Lava Jato.

Não é apenas a mídia impressa que atravessa fase de restrições, com limitações de viagens e cobertura localizada. A mídia eletrônica vai pelo mesmo caminho. Narradores e comentaristas de futebol passaram a fazer seu trabalho diretamente do estúdio de TV, acompanhando as partidas por um telão. Nem sempre foi assim. Em 2002, o jornalista Tim Lopes foi assassinado por traficantes. Produtor emérito, Tim Lopes trouxe imagens escandalosas de traficantes fazendo uma "feirinha" das drogas na entrada de uma favela. Foi capturado pelos criminosos ao realizar reportagem sobre exploração sexual na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro.

Como faz falta o grande texto. A matéria de impacto. A foto extraordinária. Saudades da "Realidade".     

 

sábado, 9 de novembro de 2019

O PT saiu da cadeia junto com Lula



A saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem da prisão, em Curitiba (PR), foi apoteótica. Teve discurso, homenagens, abraços, beijos e felicitações mil. Não foi só Lula que saiu da cadeia. O PT, também. 

Houve reparação de uma injustiça. Na quinta-feira, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por 6 votos a 5 que a Constituição deve ser respeitada. Em seu artigo 5º, a Constituição ordena que a prisão só deve ocorrer depois de "trânsito em julgado". Significa que, enquanto houver instância jurídica a ser percorrida, o acusado não pode ser preso.

A Lava Jato atropelou a Constituição. Prendeu opositores. Guardou Lula na cadeia, para não participar da eleição de 2018. Mesmo debaixo de uma avalanche sempiterna de acusações, com a mídia oficial descendo o cacete, Lula venceria o pleito. A solução foi enquadrá-lo. Em abril de 2018, com voto decisivo da então presidente do STF, Cármen Lúcia, foi negado habeas corpus a Lula. Pouco depois, o líder do Partido dos Trabalhadores seria preso e levado à "República de Curitiba".

A prisão de Lula foi uma excrescência jurídica. Não havia provas contra ele. Veja o que diz o então "comandante supremo" da Lava Jato, Deltan Dallagnol, a um grupo de WhatsApp, antes de apresentar o power point, que ligaria todas as flechas da corrupção a Lula:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”    


Graças à Vaza Jato, perpetrada pelo site The Intercept Brasil, ficamos sabendo aquilo que já imaginávamos. Não havia mesmo provas factuais contra Lula. Era um movimento político para "quebrar as pernas" do ex-presidente. 

Tem o outro lado. O artigo 5º precisa ser modificado. Não dá mais para suportar a impunidade. Político corrupto tem de ir pra cadeia. Esse "trânsito em julgado" é um atraso de vida. Quem tinha bons advogados, como era o caso de Paulo Maluf, corrupto sacramentado, nunca ia preso. Recorria aqui. Recorria acolá. E ficava livre, leve e solto até o processo prescrever. 

Se a Lava Jato não conseguiu encontrar o "batom na cueca", expressão preferida do inesquecível Ricardo Boechat, isso não significa que não havia corrupção no governo petista. No primeiro mandato de Lula na Presidência, o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, subornava parlamentares para aprovar projetos, no esquema chamado de Mensalão. Depois, viria o PetrolãoMilhões de recursos da Petrobras foram desviados. Foi tanta grana que quase quebrou a Petrobras

O esquema - descoberto pela Lava Jato de Dallagnol, Sergio Moro & cia. - revirava as entranhas da corrupção política. Empresários pagavam propina a políticos. Conseguiam faturar milhões em obras. E devolviam essas facilidades, repassando recursos para os partidos. Recursos públicos eram drenados e voavam para o exterior, graças a uma bem orquestrada indústria de doleiros. Na cara dura, políticos ligavam para empresários e pediam dinheiro. O ex-presidenciável Aécio Neves foi pilhado em uma gravação, com o pires na mão, querendo 2 milhões de reais.    

A Lava Jato buscou os holofotes e os encontrou. Do dia para noite, procuradores e juízes anônimos viraram celebridades. A mídia oficial transformou esse pessoal da toga e terno cinza de pastor evangélico nos heróis da resistência. Os políticos - praticamente todos eles, sem exceção - eram os bandidos da história.

No meio desse torvelinho, a pobre presidente Dilma Roussef foi derrubada. Graças a um problema contábil, chamado de "pedalada", dois advogados - o circunspecto Miguel Reale Jr. e a psicodélica Janaína Paschoal - abriram processo de impeachment, que ganhou sinal verde do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Dilma desceu a ladeira do Palácio do Planalto. Depois, seria a vez do corrupto Cunha cair em desgraça e ser enjaulado. 

Enquanto ocorriam as prisões de políticos, empresários, empreiteiros, doleiros, o vai e vem de advogados aos tribunais, para libertar os corruptos, ganhava ares de romaria perdida, em que os fiéis andam milhares de quilômetros e, ao chegar ao destino, não encontram mais o santo no lugar devido.

Os advogados de defesa nunca tinham visto nada parecido. A Lava Jato prendia e não soltava. Para isso, os procuradores se transformaram em Batman, na comparação feliz do jornalista da direita conservadora Reinaldo Azevedo. Batman e bandidos têm muito em comum. Todos atropelam a lei. Batman combate os criminosos, sem se importar com direitos civis e constitucionais. O juiz Sergio Moro comandava os procuradores da Lava Jato, dando dicas, fazendo sugestões, sendo tudo, menos um juiz imparcial. 

Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão, baseado em "convicção". Não havia o "batom na cueca". Apenas a convicção de que Lula era corrupto. A mídia oficial delirou. Moro ganhou as manchetes. No maniqueísmo de ocasião, os petistas eram bandidos e os justiceiros de toga, os mocinhos.

Como prêmio pelos bons serviços prestados, Moro foi guindado, no início deste ano, a ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro. Eleito na esteira do ódio ao PT, Bolsonaro obteve 57 milhões de votos. 89 milhões de eleitores não votaram nele. 47 milhões preferiram o candidato petista, Fernando Haddad, apoiado por Lula. E 42 milhões decidiram não votar em ninguém, enojados com tanta corrupção política.

 Veio a Vaza Jato, do The Intercept Brasil, e a opinião pública entendeu que a Lei maior, a Constituição, havia sido desrespeitada pelos "heróis" da Lava Jato. Imensamente felizes com a fama súbita, os procuradores lavajatistas faturavam os tubos em palestras bem remuneradas. 

Com a Lava Jato sob escrutínio, os ministros deuses do STF reuniram-se na quinta-feira e fizeram o que se espera deles: preservaram a Constituição. Assim, o famoso artigo 5º acabou prevalecendo e com ele, a libertação de Lula, preso injustamente. 

Dizem que Lula percorrerá novamente o País em uma reedição da "caravana da esperança". Antes disso, o PT - que saiu finalmente da cadeia - pode retornar às atividades. A começar, deveria fazer um mea culpa. É preciso pedir desculpas a seus eleitores, àquela gente ingênua que colocava adesivo da estrela petista na porta de suas casas e pendurava broches na lapela. O PT deve pegar um caixote de madeira, subir nele nas praças das cidades e gritar alto e bom som: 

"Pessoal, o PT errou. O PT permitiu que houvesse corrupção. O PT foi um partido igual aos outros. Nos desculpem. Isso não vai ocorrer novamente.

É isso que os eleitores de Lula esperam que ocorra. Não dá para fingir que nada ocorreu. Porque ocorreu. E o que aconteceu sujou a estrela petista. É preciso limpá-la. Fazer um rebranding da marca. Ano que vem haverá eleições municipais e o PT precisa estar preparado, porque senão vai levar outro cacete monumental das urnas.  

          

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Democracia em vertigem e o poço sem fundo





O documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, exibido pela Netflix, foi selecionado pelo The New York Times como um dos melhores filmes do ano. Cabe informar ao leitor, que nem o Times nem a Netflix são comunistas.

Petra Costa, 36 anos, realizou, talvez, a sua grande obra. A Grande Beleza. Cineasta jovem, talentosa, ela reuniu em seu documentário todas as imbricações contraditórias de sua vida.

Nela, cruzam-se e sobrepõem-se a herança maldita de ser a neta de um dos fundadores da construtora multinacional Andrade Gutierrez (empresa corruptora, obrigada a fazer acordos de leniência) e seus pais guerrilheiros, presos e exilados, durante a Ditadura Militar.

O tom do documentário não poderia ser outro, senão o de alguém narrando com uma voz magoada, cheia de dor, o golpe que derrubou o governo Dilma Roussef; seguida pela posse de Michel Temer; e, na sequência, a eleição do capitão autoritário, favorável ao armamentismo, aos agrotóxicos, inimigo número 1 dos LGBTs, das reservas indígenas e dos quilombolas.

Vinte e cinco pessoas fizeram parte da equipe que realizou Democracia em Vertigem. Além de Petra, outros três co-roteiristas assinam a produção. Mas a gente só ouve a voz sofrida de Petra, narrando as desgraças da política brasileira. Deixa a gente com a sensação de que o poço, em que fomos mergulhados, não tem mesmo mais fim.

Próxima da presidente, Petra conseguiu imagens inéditas de Dilma e sua equipe nos momentos pré e pós-impeachment. A câmera de Petra faz voos vertiginosos sobre Brasília. Caminha, lentamente, lambendo os corredores, os salões do Palácio Alvorada. “Repleto de fantasmas”, segundo Temer.

O filme relembra diálogos do golpista Romero Jucá, ensaiando a derrubada de Dilma e a posterior posse de Temer, com Sergio Machado, ex-dirigente da Transpetro:

“MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.”
    
 Cita as gravações de Joesley Batista, que diz ao então recém-empossado Temer que estava comprando o silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. E Temer, aliviado, comenta: “Tem que manter isso, viu”.

Vem Aécio Neves, inconformado com a derrota, e iniciando um movimento pelo impeachment de Dilma. O mesmo Aécio que, mais tarde, cairia mais ainda em desgraça ao pedir R$ 2 milhões à JBS.

Vemos a Lava Jato em ação, convocando os jornalistas, para informar que não tinha provas, mas suas suposições indicavam que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia levado um tríplex na praia do Guarujá como pagamento de suborno.

Mais uma vez, nos deparamos com Lula diante do então implacável juiz Sergio Moro, dizendo o que todo mundo sabia – inclusive os promotores da Lava Jato. Ele estava sendo processado por um apartamento, que nunca havia sido dele, e onde ele nunca havia morado. “Me mostre uma escritura”, implora Lula, “me mostre uma prova que o apartamento era meu”.

O legal do documentário é que Petra não deixa barato. Cutuca as feridas do Partido dos Trabalhadores. Para assomar ao poder, o PT aliou-se às pútridas oligarquias da política nacional.

Ela poderia ter exibido as cenas, que embaralham o estômago dos mais sensíveis. Como perdoar Lula abraçado com Paulo Maluf, pedindo o apoio desnecessário para a eleição de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo?

Para a autocrítica “de dentro”, ela entrevista Gilberto Carvalho, ex-ministro de Lula e, nos anos 90, braço-direito do então prefeito de Santo André Celso Daniel, barbaramente assassinado em janeiro de 2002. Carvalho faz uma análise interessante, indicando os caminhos tortuosos que levaram o PT a perder sua virgindade moral.

As imagens mostram Dilma reeleita, tomando posse, ao lado de Lula e dona Marisa, acompanhados por um tipo obscuro, vampiresco, suspeito, que os segue de perto e não sabe onde se posicionar para a foto. Era Michel Temer...

 A câmera de Petra vai às ruas. Entrevista os apoiadores do impeachment de Dilma que gritam: “Fora comunistas!”. Mostra o ódio espumando, escorrendo pelos cantos da boca dos manifestantes. Aparece Janaína Paschoal, então uma professora universitária, que havia sido uma das autoras do processo de impeachment, discursando no centenário Largo de São Francisco, diante da vetusta Faculdade de Direito da USP.

“Cabelo ao vento, gente jovem reunida”, Janaína, em um discurso meio messiânico, meio amalucado, fala em “república das cobras”, "cortar as asas das cobras", de olhos arregalados e assustadores, enquanto gira um pano, como se fosse uma hélice que poderia carregá-la sabe-se lá aonde.

Do alto, a câmera de Petra Costa traz a vertigem do Brasil dividido, esquizofrênico, “eu sou o dr. Breuer, eu não sou o dr. Breuer”, subdesenvolvido, miserável. País religioso como um cruzado medieval, analfabeto funcional, ocupado pela elite de sempre que elegeu um Kaspar Hauser crescido, para eliminar direitos da classe trabalhadora e manter privilégios da cínica classe dominante.

Imperdível.

Ficha técnica:
Democracia em vertigem
Roteiro, direção e produção: Petra Costa
Produzido por: Joanna Natasegara, Shane Boris, Tiago Pavan
Co-roteiristas: Carol Pires, David Barker, Moara Passoni
Diretor de fotografia: João Atala
Diretor de fotografia, imagens exclusivas: Ricardo Stuckert
Montadores: Karen Harley, Tina Baz, Jordana Berg, David Barker, Joaquim Castro, Felipe Lacerda
Colaboração de roteiro: Antonia Pellegrino, Virginia Primo, Daniela Capelato
Música original: Rodrigo Leão, Lucas Santtana, Gilberto Monte, Vitor Araújo
Música original adicional: Fil Pinheiro, Jaques Morelenbaum, Thomas Rohrer


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Eu já sabia, Intercept

Deltan Dallagnol
Sergio Moro

Foi um grande furo de reportagem. O site The Intercept Brasil, credenciado pelo premiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, publicou neste domingo, 9 de junho, uma matéria especial, dizendo tudo aquilo que a gente já sabia, mas não tinha como provar. Greenwald conquistou fama mundial ao divulgar, no The Guardian, os documentos vazados por Edward Snowden.

O que a gente já sabia? Que o juiz Sergio Moro e os promotores da Lava Jato trabalhavam em sintonia fina. Moro lançava a bola. O promotor Deltan Dallagnol matava no peito e fazia o gol. Dallagnol fazia um lançamento de 60 metros, em profundidade, deixando Moro na frente do gol para marcar mais um. 

No caso, não se tratava de futebol. Era a incansável labuta da Lava Jato em conseguir provas que conseguissem mandar para a cadeia os principais integrantes do Partido dos Trabalhadores, entre eles, o principal "inimigo" o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Com toda essa sinergia entre juiz e promotores, o processo foi bem-sucedido. Lula foi julgado e condenado, por causa de um apartamento no Guarujá, no qual ele nunca morou, nem nunca foi dele (o próprio Dallagnol dizia: "tô com receio da história do apto".). E também em razão de um sítio, de propriedade do empresário Fernando Bittar (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/dono-do-sitio-de-atibaia-pede-a-justica-para-vender-imovel.shtml

O objetivo da Lava Jato - segundo o site - era óbvio: tirar Lula da disputa presidencial e limpar o caminho para o então candidato Jair Bolsonaro:

"A Lava Jato foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente confirmada em segunda instância, o tornando inelegível no momento em que todas as pesquisas mostravam que Lula – que terminou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprovação – liderava a corrida eleitoral de 2018. Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro". 

Assim que foi eleito, Bolsonaro "pagou a dívida" de campanha e indicou Moro para o Ministério da Justiça.

Todo esse imbróglio jurídico está repleto de irregularidades. É de conhecimento comum que um juiz não pode se misturar com a acusação. Está previsto na Constituição brasileira. O artigo 95 diz claramente que é "vedado ao juiz participação em processo". 

O juiz deveria ser imparcial. Na prática, a gente percebe que aconteceu o inverso. Moro estava mergulhado até o tutano em uma missão estratégica, que visava colher provas, obter confissões e condenar.

Questionado a respeito, Moro sempre refutou essa hipótese. Cansou de dizer que não tinha estratégia, que quem investigava e decidia o que fazer era o Ministério Público. 

Na realidade, Moro aconselha, cobra, questiona, repreende, se intromete, pede para que as investigações sejam apressadas. É uma tabelinha estilo Pelé/Coutinho. Moro passa para Dallagnol, Dallagnol devolve para Moro, Moro para Dallagnol...É gol!

Qual é a base para se comprovar essa relação ilícita entre acusador e julgador? São as conversas, feitas em aplicativos, entre Moro e os promotores da Lava Jato. Um hacker  interceptou esses arquivos secretos e os encaminhou ao site The Intercept, que os publicou. Houve um crime. Os arquivos secretos não poderiam ter sido interceptados. O hacker agiu de forma criminosa. 

O crime, no entanto, não foi cometido pelo site. O artigo 5º da Constituição brasileira, em seu parágrafo 14, deixa claro que "é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Os arquivos secretos foram entregues ao site, que os publicou, amparado no que diz a Constituição.

A ampla reportagem do The Intercept traz ainda informações sobre o famoso tríplex, atribuído a Lula pela Lava Jato. Em seu Imposto de Renda, Lula afirmava ter participação em uma cooperativa habitacional no Guarujá, desde maio de 2005, tendo pago até aquele momento R$ 47 mil. Ocorre que não era um tríplex, mas uma unidade simples, que ficaria na torre B. 

Uma reportagem do jornal O Globo, publicada em 2010, mencionava que o casal Lula e Letícia perderiam a vista para o mar, em razão da construção de uma outra torre. A torre A. 

Segundo The Intercept, a denúncia da Lava Jato tinha inconsistências:

"Na denúncia feita pela Lava Jato, no entanto, os procuradores afirmam que o triplex de Lula fica na torre A, que ainda não existia quando a reportagem (do Globo) foi publicada. Mas, no item 191 da denúncia assinada pelos 14 procuradores, há o seguinte trecho (citando a reportagem do Globo): 'Essa matéria dava conta de que o então Presidente LULA e MARISA LETÍCIA seriam contemplados com uma cobertura triplex, com vista para o mar, no referido empreendimento'".

Ou seja, a denúncia estava errada. Era outro apartamento. E não o tríplex.

Esse envolvimento entre o acusador e o julgador é ilegal. Não poderia ter ocorrido. Por causa disso, a Lava Jato deve ser descartada? Não. A Lava Jato conseguiu algo inédito na história do País. Conseguiu 244 condenações contra 159 pessoas. Contabilizou R$ 6,4 bilhões em pagamentos de propinas. Veja o invejável resultado da Lava Jato até hoje: http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-lava-jato/atuacao-na-1a-instancia/parana/resultado

O público sente simpatia pelo ex-presidente Lula. É inegável que ele fez dois mandatos excepcionais à frente do Brasil. A aprovação popular era ampla e quase irrestrita. Tanto assim que ele foi reeleito três vezes. Uma vez, por ele mesmo. Nas outras, duas "incorporando" Dilma Roussef.

É inaceitável o PT ter se envolvido em tantos casos de corrupção, entre eles, o Mensalão e o Petrolão. O PT tinha a obrigação de ser um partido diferente e não ter incorrido nos mesmos desmandos dos partidos tradicionais. Foi uma pena. Uma traição àqueles que acreditavam no símbolo da estrela, que colavam os adesivos do partido nas janelas de suas casas e ostentavam com orgulho o broche do partido no peito.   

Lula será solto? Valerá votar novamente nele, sabendo que o fantasma da corrupção petista irá acompanhá-lo?

Quando o PT vai pedir desculpas a seus eleitores? Quando o partido passará por um rebranding ético e moral?

Moro será despojado de seu Ministério? Moro deu adeus à sua vaga no Supremo? 

Essas perguntas serão respondidas nos próximos dias ou meses. O que interessa agora é passar o País a limpo, algo que parece cada vez mais distante e improvável.  



   



       

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Essa gente ingênua mostrou o seu valor


Lula foi condenado a 12 anos de prisão, por causa de um apartamento onde ele nunca morou, nem nunca foi dele. Dilma foi afastada da Presidência, levando o carimbo do impeachment na testa, não por ser corrupta, mas por culpa de um erro burocrático, chamado "pedalada". Os golpistas seguiram Maquiavel ipsis litteris: "Aos amigos os favores, aos inimigos, a lei".

A mídia arregimentou as massas, saturando telespectadores, ouvintes, leitores, com notícias sobre corrupção. Grupos de extrema-direita, como o MBL, promoveram manifestações.

Indignado com as denúncias da mão grande agindo na Petrobrás, o povo foi para as ruas. Carregou cartazes. Entoou gritos de ordem. "Fora Dilma!", gritavam, com toda a força de seus pulmões.

Esse MBL, que estava por trás das manifestações, seria um movimento de jovens, que tinham assistido à série da Globo Anos Rebeldes e se entusiasmado com formas de protagonismo político?

Tudo indica que não. O MBL, segundo o jornal The Guardian, é um braço tupiniquin do norte-americano Students for Liberty: 

"A Students for Liberty e a Atlas Network receberam financiamento de Charles Koch, que com seu irmão David controla a Koch Industries – a gigante de energia, combustíveis fósseis e petroquímicos dos EUA. 

"Fabio Ostermann, cientista político independente de Porto Alegre, no sul do Brasil, ajudou a fundar o MBL e também foi membro do ramo brasileiro da Students for Liberty. Ele teve aulas no Koch Institute for Human Studies na Virgínia por três meses", informa o The Guardian.

"Meu Deus! Então houve dinheiro norte-americano por trás do solapamento do governo Dilma Roussef?", perguntaria o ingênuo da bermuda, chinelo de dedo e barrigão de fora no churrasco, enquanto beberica o copo de cerveja. 

Para aqueles que usaram broche da estrela vermelha petista na lapela, que colocaram adesivos do PT nas janelas de suas casas, que agitaram bandeiras e participaram de boca-de-urna em prol de candidatos do Partido dos Trabalhadores, o Mensalão e o Petrolão tiveram o mesmo impacto que a facada de Brutus em Júlio César. Para um partido que pregava a ética na política, foi imperdoável. 

Surgiu em cena o juiz Sérgio Moro, que copiou o programa italiano Mãos Limpas, no comando de caça aos corruptos. No Brasil, a operação ganhou o nome de Lava Jato. Coube à Lava Jato processar e prender toda a cúpula petista (Lula, José Dirceu, Delúbio Soares, Palocci, João Vaccari Neto, entre outros). Empresários do porte de Marcelo Odebrecht e dos irmãos Joesley e Wesley Batista, da JBS, também foram alcançados pelo "longo braço da lei". 

O juiz Sérgio Moro deixou de ser um integrante do Judiciário para ganhar perspectiva de super-herói. Moro e o ministro Joaquim Barbosa (que condenou os réus do Mensalão) viraram uma espécie de Vingadores. Eles deixaram a categoria humana para se transformar em personagens de filmes e séries. Barbosa era chamado de "Batman", por causa da toga, que lembrava a capa do homem-morcego.

Vieram as eleições presidenciais de 2018 e o PT construiu um muro de erros. Foi tijolo sobre tijolo de decisões equivocadas. O PT errou ao procrastinar a candidatura de Fernando Haddad. Até o último momento, a última hora, o último minuto, o candidato seria Lula. Só que Lula estava na cadeia. Até o habitante do exoplaneta Ross 128b sabia que Lula não iria concorrer, por causa da Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, o partido insistiu no erro. 

Quem anda nas ruas; quem toma ônibus, trem, uber; quem entra em boteco; quem vai em campo de futebol, na igreja, no shopping; em suma, quem estava vivo e morava no Brasil, sabia que o PT seria um ímã que atrairia o ódio de milhões de eleitores, inconformados com os escândalos de corrupção. 

Se ao invés de Bolsonaro, o PSL tivesse escolhido o Coringa para ser adversário de Haddad, o Coringa se elegeria fácil com 57 milhões de votos. Isto porque o PT está atravessado na garganta. 

A opção mais lógica e sensata seria abrir mão de ter um candidato à Presidência e fechar acordo com alguém mais palatável ao eleitorado, como Ciro Gomes, o Cirão da Massa. Na construção de seu muro de erros, o PT apostou no candidato único, um vice, alçado às pressas para a posição de majoritário. Boi de piranha a ser consumido no pleito.

O PT precisa agora reconstruir sua imagem. Fazer um rebranding. Pedir desculpas. Vestir as sandálias da humildade. Tirar Lula da cadeia e começar de novo. "A luta continua."  

Para muita gente que via Moro como um paladino da Justiça, ao aceitar cargo no governo Bolsonaro, o símbolo maior da Lava Jato parece ter despencado do Céu. Tornou-se humano como nós. Perdeu o grau angelical. Ele era alguém que dizia que jamais entraria para a política e, veja só, foi mudar o governo para ele entrar correndo pela primeira porta aberta. 

Como escrevi em posts anteriores, há jornalistas partidários, que fazem seu nome e sobrevivem na mídia golpista, atacando determinado partido. E há também representantes do Judiciário que fazem política, ocultos pela toga. 

Ao comentar a escolha de Moro para o Ministério da Justiça, Ciro Gomes foi enfático: "Sérgio Moro não é um juiz. É um político que tem fraudado sua toga com intrusões na política".

De fato, ainda não me mostraram a escritura que mostra que Lula é o proprietário do tríplex no Guarujá. Para 47 milhões de eleitores, que votaram em Haddad, a prisão de Lula parece injusta, por ter sido condenado - é sempre bom repetir - por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou.    

    





       

    

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...