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quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Nas redes sociais, predomina o caos e a censura

 


O tempo passa mais rápido. Uma espera de 30 minutos voa, enquanto o dedo vai deslizando as imagens. Uma fila de alpinistas aguarda para chegar ao topo do monte Everest; Ministério Público pede arquivamento de processos; quadrinhos coloridos contam uma piada sobre o caos climático; dengue e a vacina; dois lutadores se golpeiam, um deles nocauteia o outro; imagem de Paris; carro manobrando; imagem de Veneza e as gôndolas; dicas para deixar seus utensílios de prata brilhando; pressão alta; convite para visitar uma cidade; imagem de uma vila paradisíaca na Suíça...

A "linha do tempo" é uma sequência "linear" de imagens que se sucedem interminavelmente. A pessoa passa horas deslizando pela "linha do tempo". A própria pessoa contribui para alimentá-la. Posta imagens de um prato de comida, de um evento que participou, encena uma situação supostamente engraçada, compartilha cenas de desastres.

A rede social é um caos informativo. Embora se diga que os algoritmos reproduzem aquilo que seu perfil exige, acredite, isso é uma bobagem. Os algoritmos são sem noção. Durante anos, recebi vídeos de consumo rápido (chamados de "reels") com cavalos. Cavalos sendo amestrados, cavalos desfilando, cavalos comendo, cavalos, cavalos e cavalos. Tenho horror de andar a cavalo. Não tenho cavalo e mesmo assim o algoritmo acreditava piamente que eu era apaixonado por cavalos. 

Mesmo assim, a gente passa horas, dias, semanas, deslizando pela tela. A gente ri. Comenta algo com alguém. Encaminha uma informação. Digita, reclama, posta... É um turbilhão informativo, sem qualquer ordem ou classificação. Somos arrastados por ela, dominados por ela, a famosa "rede social".

Aparentemente, é um espaço democrático, onde você pode postar suas opiniões, divulgar suas ideias, expor seus ideais. Só que não é bem assim. A rede social é um espaço de vigilância constante. Se você publica algo que uma determinada maioria se posiciona de forma contrária, pode aguardar, você terá suas postagens censuradas.

No meio do caos informativo, prepondera a censura. Essa censura vem de "cima". Cai verticalmente sobre a sua cabeça. Você pode até tentar se defender. Envia e-mails, liga para conhecidos, procura o sindicato da sua categoria. Ao final, você será derrotado. A rede social não vai lhe dar ouvidos. Eles estão em um patamar superior à humanidade.

Você teve o seu blogue censurado pelo Facebook? Tudo bem, por que isso aconteceu? Difícil saber. O Facebook não tem telefone, não tem uma pessoa que vai ouvir seus reclamos. É uma parede. Rígida, imóvel, que não lhe deve qualquer satisfação. Embora a Constituição brasileira diga que todos os brasileiros têm direito à liberdade de expressão, o artigo quinto, parágrafo quarto é solenemente ignorado pela rede social. Basta um grupo reclamar em peso e seu pensamento será varrido pelo Facebook, Instagram et caetera.

Em 1º de outubro de 2023, publiquei neste blogue um texto, intitulado "Precisamos falar sobre o aborto". Provavelmente, grupos religiosos, que se opõem ao aborto, reclamaram em massa ao Facebook, que, sem sequer ler o artigo, sem entrar em contato comigo, simplesmente, proibiu a divulgação de minhas postagens. O texto teria ferido suscetibilidades. Na realidade, acredito que esse pessoal não se deu ao trabalho de ler o texto. Diante do título, foi correndo protestar e atendido, sem reservas e de forma imediata, pela rede social.

A rede social não é apenas caótica. É um organismo perigoso que fere a liberdade de expressão e não deve satisfação a qualquer organismo de classe. Mesmo assim, o mecanismo é hipnotizante. A gente não cansa de rolar a tal da "linha do tempo": imagem de Amsterdã com neve nas ruas; um hipopótamo briga com um tigre; um castelo; propaganda de uma montadora de veículos; entrevista de 1986 com Zeca Pagodinho; pauta do Noturno número 9 de Chopin; corrida de Fórmula 1; maestro regendo orquestra...

        

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Facebook me faz uma pessoa pior


O Facebook me transforma. Acordo bem disposto, feliz da vida, o sol brilha, os pássaros cantam e aí abro o Facebook. Como na novela de Robert Louis Stevenson, Dr. Jeckyll vai se transformar em Mr. Hyde. A boa disposição vai embora. Minhas mãos começam a se encurvar. As unhas se transformam em garras. Nascem pelos em abundância no meu rosto e no corpo. Nas costas, se eleva uma corcunda. Começo a babar. Virei um monstro. 

A postagem mostra um grupo de pessoas, todas suadas, debaixo de sol forte no que parece ser uma casa de periferia. Eles vestem bermudas, camisetas e chinelos. O suor brilha e escorre pelas barrigas. Nem leio o tópico. Já vou sentenciando: "Bando de gordo!". Assim, sem mais nem menos. Sem ser politicamente correto: "Bando de gordo!".

A "linha do tempo", como se chama aquela prática de ir descendo pelas postagens, mostra uma velhinha. Alguém deu um presente para ela. Algo do tipo. Penso na hora: "Velhota antipática". E o pior é que ela parece mesmo antipática. Não é a Dona Benta que vai fazer bolinho coberto com açúcar e canela para a gente. Tem jeito daquela velhinha que, quando aparece o filho pra visitar, ela vai logo dizendo: "Escovou os dentes? Põe uma blusa que está fazendo frio. Essa camisa não combina com você". 

Aí vem o pessoal da política. Deus do céu, esses caras são incansáveis. Tem a turma do Bolsonaro que ainda está querendo prender o Lula. Gente, o Lula está preso. Helôôô! O PT perdeu a eleição e vocês ganharam. Comecem a trabalhar. Tirem as pessoas da miséria. Metade do Brasil ganha menos de 500 reais por mês. Não quero mais saber de palanque. Quero que vocês façam qualquer coisa que mude essa desgraceira que o País está mergulhado. As indústrias quebrando. O setor de serviços afundado na crise. Sem dinheiro para educação, sem verba para pesquisa, corte nisso, corte naquilo. E os Alfa continuam comendo lagosta e camarão, andando de carro oficial, com direito a sirene para fugir do trânsito. Os 90 por cento restantes pertencem à casta Épsilon. São os desgraçados de que fala Huxley. Você acha que Huxley exagerava? Se esqueceu que ele previu o nascimento do bebê de proveta em 1931, 47 anos antes do fato real? Exagerava nada, menino. 

E tem o pessoal do outro lado, que é contra o Bolsonaro e seus asseclas... É todo dia postando uma bobagem que a Damares falou. O que vocês querem dessa coitada que vê Jesus em goiabeira? Ela vai falar bobagem mesmo. E o ministro da Educação, nota zero em Sociologia, que comete um erro de português por minuto. É o maior índice de erros de português da história, desde Cabral. Tem a história do Queiroz. Onde está o Queiroz? "Vai perguntar para a sua mãe", respondeu o presidente, educadamente. Todo dia alguém pergunta onde está o Queiroz. A Veja já esclareceu: "O Queiroz mora no Morumbi e se trata no Einstein". Só precisa alguém levar a reportagem até a  Polícia Federal. O Queiroz tem de explicar direitinho essa história da "rachadinha", que envolve o Flávio "01". Sem falar do Moro, o Batman, que a Vaza Jato transformou em Coringa.

E aquele pessoal que quer causar inveja? Outro dia uma amiga postou: "Estou aqui na Padaria Bella Paulista. Uma delícia!". O monstro que habita em mim, quando entro no Facebook, escreveu, de forma ríspida e malcriada: "Estive aí no domingo. Eles me serviram um croissant, cortado ao meio. Frio e molenga. Na França, o chef da Bella Paulista seria decapitado, por causa desse crime contra o croissant". 

Os algoritmos do Facebook, por algum defeito genético, têm certeza que sou um frequentador assíduo de hípicas e que não posso passar um dia sem montar em um cavalinho. Gente, tenho medo de cavalo. Nunca andei a cavalo na vida. Nem sei como se sobe naquilo, que eles chamam de sela. Mesmo assim, todos os dias, não falha um singular dia, o Facebook me manda imagens e vídeos de cavalos. São cavalos felizes, que saltam e pulam e se alimentam regularmente.

Um amigo, que nunca assistiu a uma luta de MMA, nem nunca irá assistir, recebe também diariamente notícias sobre lutadores de MMA. Há algo de podre no reino dos algoritmos, diria Shakespeare, se, quando vivia, houvesse redes sociais.   

E as pessoas felizes? Elas estão sempre sorrindo, contentes. O meu monstro olha para elas e grita: "Está rindo do que, babaca? Vai andar de metrô e de trem da CPTM do Doria pra ver o que é bom pra tosse".

Sem falar dos cachorrinhos, dos gatinhos, dos peixinhos, todos eles engraçados, meigos, despertando meu monstro que geme entredentes: "Vou mandar vocês pra China". Esse país asiático, como se sabe, volta e meia, promove festivais de consumo de carne de gato e cachorro.  

Então, quando saio da rede social, apago o Facebook, começo a sentir uma metamorfose humanitária. Os pelos que cresceram em profusão desaparecem. As garras viram unhas normais. A corcunda de Quasimodo fica reduzida ao bico de papagaio normal que tenho nas costas. A baba seca. Saio na rua e sorrio para as crianças. Levo meu cachorro passear. Se me pedem informação, trato com carinho e atenção. Aproveito o sol, a chuva, a garoa, o vento. Aceno para os vizinhos. No armazém, brinco com as atendentes. 

Então, ao retornar para casa, ao abrir novamente o Facebook, nada poderá evitar o ressurgimento do monstro. 

Por falar nisso, por que você não desliga essa m...e vai ler um livro, filhote de Netflix.  

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...