Mostrando postagens com marcador Tarantino. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tarantino. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Filme Whisky, Tarantino, Coringa e que tais

Esta é a imagem que vai dar título ao filme

Todos os dias ajoelho e agradeço Reed Hastings e Marc Randolph por terem inventado a Netflix. A TV por streaming nos permite assistir joias como esse filme Whisky. Realizado pelos cineastas uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, em 2004, foi considerado pelos críticos como "o melhor filme latino-americano dos últimos 20 anos". Rebella morreu jovem, aos 32 anos. Suicidou-se e não concluiu o roteiro do que seria seu próximo filme, em parceria com o colega da faculdade Pablo Stoll.

A Netflix tem uma vantagem sobre a TV por assinatura. Não exibe comerciais. Quando você assina a TV por assinatura, assina também seu atestado de imbecilidade. Além de pagar uma vez, você engole comerciais, que, em tese, não deveriam ser exibidos, porque são os comerciais que pagam a TV aberta. Se você paga pela TV por assinatura, com que direito eles lhe enfiam, goela abaixo, os comerciais? Só mesmo sendo um imbecil para não fazer nada a respeito.

Graças à Netflix também nunca mais assisti a uma novela da Globo.  O único defeito da Netflix é ser conservadora e moralista. Falta na programação a pimenta, o ardido. Quem sabe um dia... Duvido.

Whisky fala de três pessoas que se juntam, em determinado momento da vida, sem ter nada em comum. Bem produzido, roteiro excelente, direção impecável, você mergulha de cabeça na história. O solitário dono de uma fábrica de meias, caindo aos pedaços, precisa se preparar para receber o irmão, que também produz meias, e vive no Brasil. Para não parecer o que é - um velhote ranzinza e solteirão - pede para uma funcionária fazer o papel de sua esposa. A decadente fábrica de meias espelha o seu proprietário: é sombria, áspera e a caminho da esterilidade. Os três seres díspares vão parar no balneário de Piriápolis, fora de temporada, desértico. 

Se você gosta de perseguição de carros, tiroteios, violência sanguinolenta, não assista Whisky. Se você quiser qualidade, roteiro de excelência e interpretação nota dez, veja Whisky.

Por falar em violência, Quentin Tarantino está no pedaço com Era uma vez em Hollywood. Queria saber o que ele quis dizer com essa produção? Tarantino tem um problema psíquico grave. Ele não consegue aceitar a história. Quer mudá-la. Descontente com a Segunda Guerra Mundial, a barbárie dos campos de extermínio, e o nazismo, Tarantino decide matar Hitler no pior filme de guerra (Bastardos inglórios) já produzido pelo cinema. Imagine o Führer, em território inimigo (França), indo a uma exibição teatral em Paris, guardado por DOIS guarda-costas. Somente uma mente infantil para imaginar algo parecido. 

Em Era uma vez..., Tarantino, inconformado com o assassinato brutal de Sharon Tate, revê a história e salva todo mundo do maluco Charles Manson. Freud diria que, assim como os sonhos são a realização de um desejo, Tarantino faz filmes que concretizam, de forma vicária, seus desejos de menino mimado. 

O Coringa foi percebido por incautos como "um filme de esquerda". Sinto muito. Não há nada mais direitista que O Coringa. Se fosse feito um paralelo com Chê Guevara, a gente entenderia melhor por que O Coringa é um filme conservador e de direita. 

Chê era médico, guerrilheiro e viveu a sua vida a serviço dos pobres e explorados. Combateu ditaduras. Ajudou a derrubar Fulgêncio Batista, em Cuba. Participou de lutas semelhantes na África e foi executado na Bolívia no dia 8 de outubro de 1967. Chê Guevara é um legítimo herói da esquerda. Há algo de cristão em sua existência. "Morreu por nós". 

O Coringa é um sujeito maluco, idolatrado pela massa. O herói dos fracos e oprimidos é doido de carteirinha. Como se o filme dissesse: os pobres, os famintos, os miseráveis só podem mesmo idolatrar os loucos. 

O Coringa seria um filme "de esquerda" se seu protagonista fosse um médico, por exemplo, esclarecido e sensível à exploração do capital, capaz de pegar em armas e iniciar uma revolução. Como disse alguém outro dia nas redes sociais: "a cada nova revelação de conquistas econômicas, tropeço em mais gente vivendo na rua". 

Por falar em gente louca, ainda pela Netflix, assisti no dia da estreia ao novo filme de David Lynch, O que Jack fez? São 17 minutos de loucura plena. Lynch é um agente do FBI interrogando o macaco de Ross (Friends), que teria cometido um crime. 

Os dois supostos candidatos ao Oscar pelo Brasil, em 2019, eram Bacurau - indigesto, violento, inverossímil -  e A vida invisível (um amigo me disse ser o filme mais chato desde Lumière. Talvez seja exagero da parte dele).
  
Para encerrar, fica a pergunta: por que será que o Brasil não consegue criar uma geração de cineastas que façam filmes como esse Whisky uruguaio ou o argentino ganhador do Oscar O segredo dos seus olhos, estrelado pelo excepcional Ricardo Darin? Pode ser que o problema seja esse pessoal das comédias. Coisas do tipo Minha mãe é uma peça... Ou, quem sabe, o problema é mesmo o Brasil. A falta de educação, a incapacidade, a omissão, a elite obtusa...Por aí afora. 


      

    

sábado, 31 de agosto de 2019

"Bacurau" é um Tarantino genérico e piorado


Chegou Bacurau! Toquem as trombetas. Estreou o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Podem desligar as trombetas. Bacurau é um exemplar genérico tarantinesco e bem piorado. 

A grande metáfora do filme: nós, os povos miseráveis do Nordeste, precisamos nos unir contra os malfeitores imperialistas. Nesse rol da bandidagem incluem-se os norte-americanos, propriamente ditos, e nós, os moradores aqui do Sudeste brasileiro.

Bacurau tem buracos de roteiro, que são incompreensíveis para um filme premiado em festival internacional. Começa o filme. Chega a um povoado miserável, feio e seco, uma assistente social com uma mala cheia de vacinas e remédios. A gente imagina que essa assistente social terá algum papel preponderante no cenário. Nada disso. A mulher se evapora. Ficamos na expectativa que ela vá fazer algo útil ou surpreendente. Mas não. Os roteiristas simplesmente se esqueceram dela ao longo da história. 

O pior é o personagem do prefeito. Ele é odiado pela população. As pessoas se escondem dele, quando o político pisa no lugarejo. Só que, eu, humilde espectador, gostaria de saber por quê. O que ele fez de tão grave para os moradores o detestarem tanto? Será que o crime dele é ser político? Então, todo político precisa ser defenestrado? É esse o recado? Vai saber. 

De repente, você acha que já viu esse filme em algum lugar. E viu mesmo. Vai na mesma toada de Jogos Vorazes. Não me venha falar em spoiler. Arrume uma palavra em português, antes de me encher o saco. 

Os heróis do filme são os bandidos. Tem um tipo, chamado Lunga, com visual andrógino, unhas pintadas de preto e a calça presa acima do umbigo. Ele é procurado pela Justiça. Deve ser a patrulha da moda que anda atrás dele. Outro criminoso, o Pacote, matou várias pessoas, de maneira covarde, assassinando-as a sangue frio. Os vídeos das execuções dele são reproduzidas em um misto de trio elétrico e carro alegórico para a população local, que assiste à noite, sem ter coisa melhor para fazer naquele fim de mundo. O roteiro dá a Pacote um protagonismo importante. Ele é um executor covarde, mas vai liderar a resistência aos imperialistas. É um assassino com espírito de liderança campesina.  Assim, lá vamos nós idolatrar, mais uma vez, o cangaço, Lampião, Maria Bonita e seus derivados. 

Aparecem dois representantes do Sul maravilha. No caso, Sudeste maravilha. É um casal. Eles querem ser iguais aos americanos psicopatas. Esses dois são assassinos frios, mas com ligeiro atraso mental. Não conseguem pressentir que estão correndo risco de vida, tratando com malucos armados para uma guerra particular. Os malucos xingam os representantes do Sudeste, dizendo que eles são "latinos", não são brancos como os verdadeiros norte-americanos. 

Ah, sim. O filme tem Sonia Braga. Ela é aquela maluquete, bêbada, suja, irreconhecível com o cabelo sem cor definida e sem qualquer participação no desenrolar da história. Se a personagem dela - chamada Domingas - não existisse, não faria a menor falta. Por que Sonia Braga está em Bacurau? O que ela foi fazer ali, meu deus? Eu que vi Sonia Braga nua, em Hair, bem ali na minha frente no teatro Bela Vista, com o então jovem e talentoso Ney Matogrosso, senti vontade de chorar em vê-la tão deplorável, tão sem razão de ser. 

Cuidado quando você for assistir a Bacurau. Tem sangue pra tudo quanto é lado. Leve uma roupa reserva, senão você vai sair com a camisa manchada da sala de exibição. E cuidado com as balas. Voam balas também pra tudo quanto é lugar. É bom se apresentar com colete a prova de balas. Tem personagem com cabeça arrancada. Tem criança assassinada. É um pesadelo, manchado de vermelho. 

Se a proposta da produção fosse fazer um libelo contra as armas, o armamentismo, então, deu errado. A ameaça não é derrotada pela inteligência ou argumentação. Quem destrói a ameaça, que paira sobre a cidade, são as armas.

O diretor e roteirista Kleber Mendonça tem dois longas excepcionais em seu currículo: O som ao redor e Aquarius. Não sei que história ele quis contar com esse Bacurau, mas não chegou lá. A gente não sente empatia pelos miseráveis. Não consegue entender os norte-americanos malucos. Kleber Mendonça deveria voltar a fazer filmes brasileiros. Imitar Hollywood não é a praia dele. Aliás, filme brasileiro made in Hollywood nem sempre dá certo. Padilha acertou na mosca com Tropa de Elite, que não é um filme brasileiro, mas hollywoodiano. Enfim, são 131 minutos da mais pura e completa exaustão. 

Na sala de exibição, onde assisti Bacurau, estava sendo exibida, na sala vizinha, o novo filme de Tarantino. A versão genérica parece a verdadeira, mas não realiza o efeito prometido. Prefira o Tarantino original. E tenho dito.

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...