Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Freud. Mostrar todas as postagens
sábado, 4 de abril de 2020
Série sobre Freud mistura desinformação com oportunismo
Pobre Sigmund Freud (1856-1939)! Se você cair na bobagem de assistir à série sobre ele, em cartaz na Netflix, produzida por três moleques (Marvin Kren, Benjamin Hessler e Stefan Brunner) vai achar que o criador da psicanálise era um drogado, pilantra, que transava com suas pacientes, e trabalhava meio período ajudando a polícia capturar serial-killers.
É inacreditável que as Freud Foundations, tanto as sediadas na Áustria como nos EUA, permitissem que essa série sensacionalista e oportunista passasse batida. Por muito menos, nos anos 1980, a Fundação Kurt Weill proibiu a exibição de uma peça encenada pelo grupo brasileiro Ornitorrinco, em Nova York. Os absurdos da montagem tupiniquim eram tantos e tão grotescos que a Fundação Weill perdeu a paciência com Cacá Rosset e companhia.
A série Freud é tão mal-intencionada que mistura acontecimentos reais com roteiro de sujas intenções. Freud, vivido por Georg Friedrich, que fisicamente é a cara de Freud quando moço (as semelhanças se encerram aí), está iniciando a carreira em 1886, na Viena, sob o domínio do Império Austro-Húngaro. Ele mora em um apartamento mal-assombrado, erguido sobre as cinzas do Teatro Ring, que pegou fogo em 1881 e deixou 384 mortos.
É verdade. Freud morou mesmo nesse local, logo depois de se formar e fazer um estágio na França, onde descobriu uma nova forma de tratar os doentes mentais com o médico Jean-Martin Charcot (1825-1893). Charcot hipnotizava seus pacientes, para fazer aflorar traumas que poderiam ter levado o doente a enlouquecer. Só que o inquilino Freud nunca se queixou de fenômenos extrassensoriais como pianos que tocam sozinhos ou gritos apavorantes de almas penadas.
O Freud da série não paga aluguel. Foge do senhorio. É um caloteiro, que usa cocaína no ritmo do drogadito da Cracolândia e que passa as noites em botecos, com o amigo, médico e escritor Arthur Schnitzler (1862-1931).
Schnitzler e Freud, na realidade, nunca foram amigos de copo, nem dividiram mesas de boteco. Em uma de suas correspondências, datada de 1922, Freud confessava que havia resistido ser apresentado ao escritor, porque sentia que Schnitzler seria "seu duplo". Ou seja, ambos (Freud e Schnitzler) investigavam o abismo do inconsciente. Schnitzler em suas obras (De olhos bem fechados, virou até filme sob a batuta de Stanley Kubrick) e Freud deixando seus pacientes à vontade no divã e ouvindo seus sonhos e desejos mais profundos.
Em uma dessas noitadas malucas, drogado e bêbado, Freud conhece a médium Fleur Salomé. Aí surge outra imbricação picareta. Na vida de Freud, tinha mesmo uma Salomé. Ela se chamava Lou Andreas-Salomé (1861-1937). Mulher atraente, admirava Freud e era autora e psicanalista. Nenhuma das vários biografias de Freud (Ernest Jones e Peter Gay, só para citar dois biógrafos acima de qualquer suspeita) observa qualquer intimidade entre Freud e Andreas-Salomé. Os dois trocavam cartas. Eram afetuosos, mas nada de ir para cama.
Na série, Salomé (interpretada por Ella Rumpf) é uma médium, que vive com a família de nobres húngaros, os Szápary. Os Szápary existiram de fato, mas a série mostra a matriarca da família com discutíveis superpoderes. É só ela encostar a mão no sujeito, para dominá-lo. Imediatamente, o coitado entra em um estado hipnótico capaz de fazer qualquer estupidez. Inclusive, saltar do andar mais alto do prédio.
Freud e Salomé consomem cocaína. Transam adoidado, mesmo Salomé sendo paciente de Freud e estar sob seus cuidados médicos. Onde fica a ética de médico-paciente? Afundou-se no esgoto de ideias dos criadores dessa produção meia boca.
Surge em cena o mentor de Freud, o médico Josef Breuer que também começou a investigar as profundezas do inconsciente, mas pisou no freio, diante do desafio que a repressão sexual representava na época. Freud foi além e criou a psicanálise, desvinculando-se, mais tarde, de Breuer. Na produção, um Breuer idoso e sábio mostra-se preocupado com um Freud inseguro, desacreditado, viciado em drogas, humilhado pelos colegas da clínica psiquiátrica de Theodor Meynert. No início de sua carreira médica, Freud fez mesmo um estágio - não remunerado - na clínica de Meynert, apresentado pelos roteiristas como um vilão presunçoso e arrogante.
A série tem muito sangue. Rituais sanguinolentos incompreensíveis. Uma mistura doidivanas de psicanálise, com mediunidade, feitiçaria, rituais de matança e sabe-se lá mais que outra barbaridade.
Se alguém quiser conhecer a importância de Freud, suas descobertas fundamentais (Complexo de Édipo, interpretação dos sonhos, divisão do inconsciente, atos falhos como forma de manifestação do reprimido, entre tantas outras), por favor, não assista esta série.
Em relação à cocaína, não embarque no sensacionalismo. No final do século 19, novas drogas para atenuar a dor estavam sendo pesquisadas. Uma delas era a cocaína. Freud chegou a usar a droga experimentalmente. Numa carta endereçada àquela que seria sua futura esposa, a jovem Martha, afirmou que a droga a estimularia favoravelmente. O mais importante biógrafo de Freud - Ernest Jones - relatou este e outros episódios, em que mostrava o criador da psicanálise como um pesquisador sério, em busca de aliviar o sofrimento. Muito longe do psicodélico amalucado da série.
Freud é talvez um dos últimos expoentes do iluminismo. Coube a Copérnico e Galileu mostrarem que a Terra era apenas um pequeno planeta de um sistema solar, orbitando em torno do Sol. A Terra deixava de ser plana e centro do universo, para ser rebaixada a planetinha sem qualquer importância sideral. Veio Charles Darwin e jogou mais água na fervura religiosa. Os homo sapiens eram singulares primos dos macacos, com os quais dividiam 99 por cento de DNA. Freud surgiu em cena no crepúsculo do século 19 para dizer que os humanos tinham um inconsciente sobre o qual não tinham qualquer domínio. Pedra de cal no homem todo poderoso, suposto "filho de Deus".
Freud escreveu livros fundamentais: A interpretação dos sonhos, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, O caso Schereber, O ego e o id, O mal-estar na civilização, só para citar alguns. Em Três ensaios...muita bobagem que ainda é falada sobre sexo - principalmente sobre homossexualismo - desceria pelo ralo se a pessoa tivesse lido essa obra, lançada em 1905.
Quer aproveitar melhor a quarentena? Por que não descobrir o universo freudiano? A maior parte (talvez a totalidade) de suas obras está disponível, gratuitamente, on line. Deixe um pouco a Netflix e besteiras como essa série Freud de lado e mergulhe fundo no divã de Freud. Vai ser uma experiência reveladora.
terça-feira, 4 de junho de 2019
Viagens de motocicleta
Sonhei com a minha tia. Ela usava um vestido azul (não me lembro na vida
real de tê-la visto com esse vestido; no dia a dia, ela raramente usava vestido).
Estava no fundo de uma sala ou salão. Abriu os braços e nos abraçamos
emocionados. Eu e ela dizíamos: “Que saudades! Que saudades!”. Minha tia morreu
há muito tempo. Câncer.
Gostava muito da minha
tia. Ela tinha uma biblioteca limitada, com algumas coleções (Érico Veríssimo, Monteiro
Lobato, José de Alencar). Os livros, que eu mais gostava, estavam lá no alto.
Na parte proibida para menores. Foi naquela prateleira superior que encontrei O Poço da Solidão, de Radcliffe Hall.
Edição de 1951 da Livraria José Olympio Editora, tradução de José Geraldo
Vieira e uma nota explicativa de Havelock Ellis.
![]() |
| A autora de O Poço da Solidão, Radcliffe Hall |
Também na parte de cima da prateleira, minha tia colocara os livros de
Harold Robbins, com tradução de Nelson Rodrigues; Henry Miller (Sexus) e, por uma questão de
nacionalidade talvez, Ernest Hemingway (Por
Quem os Sinos Dobram).
Spoonhandle, de Ruth Moore, tinha a capa
azul dilacerada, presa por uma fita adesiva. Na tradução em português,
chamava-se Capitão do Cabo da Colher.
Foi o meu grande livro da adolescência. O futuro estava todo lá: a luta pela
preservação, os gananciosos de sempre, os predadores, os parentes ligados à
escória.
Spoonhandle contava a história de uma colônia de pescadores no Maine e como o lugar ia ser ameaçado pela especulação imobiliária. Dois irmãos pescadores tentavam manter o lugar intacto, enquanto um terceiro irmão, gordo e burocrata, queria fazer dinheiro, matando a natureza. A cena em que o irmão pescador dá um tapa na cara do gordinho é deliciosa. Ruth Moore fez sucesso nos anos 50. Frequentou a lista dos mais vendidos do New York Times. Tentei inúmeras vezes descobrir seu endereço, mas não obtive sucesso. Queria escrever uma carta para ela, falando o quão importante tinha sido seu livro para mim.
![]() |
| Ruth Moore, autora de Spoonhandle |
Em 1986, citei Ruth Moore, durante um curso na Fairleigh Dickinson, em Nova York, e os professores não sabiam de quem se tratava (talvez isso explique por que a universidade fosse considerada, anos depois, uma das piores dos EUA). A carta nunca foi escrita. Com o advento da internet, soube que Ruth Moore havia falecido em 1989.
Freud
estava certo. Os sonhos são a realização de um desejo. O problema é que eles
são atravessados, veem na forma de reflexo do inconsciente. São tortos,
caleidoscópicos. É difícil interpretá-los. Por isso, as pessoas procuram ajuda.
Contam seus sonhos para alguém de fora, que ouve, anota e mata a charada.
Li toda a obra de Freud
(inclusive a correspondência), por isso, às vezes, consigo decifrar meus
sonhos. Sonhei com a minha tia na véspera do aniversário da minha mãe. Obviamente,
teria que ligar para ela, cumprimentando-a pelos quase 100 anos de vida.
Minha mãe teve uma
tarefa difícil na vida, que foi me ter como filho. Aos 17 anos, pus uma mochila
nas costas e fui de carona até o Rio Grande do Sul. Meu cabelo era comprido.
Usava jeans surrados e lia Demian, de Hermann
Hesse, leitura obrigatória de todo mochileiro da época.
Lembro de chegar na
Lagoa da Conceição, em Florianópolis, e me deparar com uma beleza natural de
perder a fala. Caminhava pelas dunas de areia branca, a lagoa limpa e
transparente ao fundo, aqui e ali, barraquinhas de ambulantes, vendendo
camarões rosa gigantes fritos.
Caminhei pela ponte
Hercílio Luz (hoje, ameaçada de desabar, incapaz de se sustentar por conta
própria). Encontrei outros mochileiros na ilha. Florianópolis, na época, era
uma cidade pequena, acolhedora, repleta de verde e sombra.
Anos depois, retornei a
Floriá e não reconheci mais a lagoa, nem a cidade. Não havia sinal daquele lugar
que eu tinha amado no início dos anos 70. O crescimento imobiliário havia implodido as
belezas naturais. Como sempre, a destruição e o dinheiro falaram mais forte.
Descendo pela BR 101, estacionei em Criciúma, onde fui perseguido por mineiros, roupas e rostos enegrecidos pela extração do carvão, que não gostaram do
meu cabelo comprido.
Lembro deles em cima de uma caminhão mambembe, gritando ofensas. Xinguei de volta. Fiz sinais obscenos. O caminhão parou. Uns 30 mineiros desceram do veículo e me perseguiram por uma estrada de terra esburacada. É claro que eu corri mais rápido, senão não estaria aqui, contando a história.
Lembro deles em cima de uma caminhão mambembe, gritando ofensas. Xinguei de volta. Fiz sinais obscenos. O caminhão parou. Uns 30 mineiros desceram do veículo e me perseguiram por uma estrada de terra esburacada. É claro que eu corri mais rápido, senão não estaria aqui, contando a história.
Em Porto Alegre, caminhei até a casa de Érico Veríssimo. Parei diante da porta, mas não tive coragem de tocar a campainha.
Aos 19 anos, comprei
uma moto. No verão, acompanhado por um amigo também motociclista, fiz a viagem
de volta ao Rio Grande do Sul. Fomos pela BR 116 e também pela BR 101, que eu
já conhecia. As motos quebraram. Em meio às tempestades de verão, escapamos de
ser atropelados por caminhões gigantes pelo menos umas cem vezes.
Em casa, minha mãe não
conseguia dormir. Varava as madrugadas, assistindo TV, preocupada com o filho
motoqueiro.
Nos anos seguintes, faria várias viagens de motocicleta. A pior delas foi para a Bahia. Chovia sem parar. Lembro de estar parado em uma estrada, um caminho - meio de terra, meio de asfalto - nas proximidades da usina nuclear de Angra dos Reis, quando vi aquele caminhão do tamanho de um prédio de três andares vir se aproximando, chegando cada vez mais perto, tomando conta de tudo até parar a uns dez centímetros da minha perna, com as rodas escorregando na lama.
O caminhoneiro desceu o vidro. Pôs a cabeça para fora da porta e perguntou se eu não tinha medo de morrer. Estranhamente, não tinha. Era jovem e como todo jovem me achava imortal.
Nos anos seguintes, faria várias viagens de motocicleta. A pior delas foi para a Bahia. Chovia sem parar. Lembro de estar parado em uma estrada, um caminho - meio de terra, meio de asfalto - nas proximidades da usina nuclear de Angra dos Reis, quando vi aquele caminhão do tamanho de um prédio de três andares vir se aproximando, chegando cada vez mais perto, tomando conta de tudo até parar a uns dez centímetros da minha perna, com as rodas escorregando na lama.
O caminhoneiro desceu o vidro. Pôs a cabeça para fora da porta e perguntou se eu não tinha medo de morrer. Estranhamente, não tinha. Era jovem e como todo jovem me achava imortal.
Aos 20 anos, saí da casa de meus pais. Aluguei um
quarto em uma casa no bairro de Moema e fui morar sozinho. A casa, um sobrado
simpático com jardim na frente, era de um alemão, que viera ao Brasil, depois
do fim da 2ª Guerra Mundial. Era viúvo. Morava só. Por isso, alugava os quartos
para jovens, como eu. Ele lia livros sobre a Luftwaffe, blitzkrieg, tanques Panzer. Cozinhava repolho e outras barbaridades
malcheirosas.
Minha mãe não entendia
por que eu tinha saído de casa. Uma vez, de manhã, saí correndo para ir
trabalhar. Estava atrasado. Enquanto tirava a corrente da moto, ela aparece ao
meu lado, chorando, segurando um lencinho. Pedia para eu voltar para casa. Gritei
com ela. Pedi para ela sumir da minha vida. Nunca mais me procurar. "Me esqueça", pedi.
Enfim, não era fácil ser minha mãe.
Enfim, não era fácil ser minha mãe.
Com 30 e poucos anos, uma reviravolta na vida pessoal fez com que eu baixasse na casa da minha mãe às 23h. Não tinha para onde ir. Carregava duas malas com peças de roupa, naquela situação "sem eira nem beira'.
Lembro do meu pai, com aquele casaco de tweed de sempre, chinelos de estilo franciscano que nunca combinaram com as meias escuras, mexendo no porta-chaves e vindo em minha direção com algo na mão. Ele me entregou a chave de casa e disse: "Seja bem-vindo". Foi um "tapa com luva de pelica", como se dizia no tempo em que as mulheres elegantes usavam luvas.
Meses depois, aluguei uma casa, próxima de onde moravam meus pais. Era um sobrado confortável, com um jardim minúsculo nos fundos, onde meus filhos, milagrosamente, colhiam morangos.
Lembro do meu pai, com aquele casaco de tweed de sempre, chinelos de estilo franciscano que nunca combinaram com as meias escuras, mexendo no porta-chaves e vindo em minha direção com algo na mão. Ele me entregou a chave de casa e disse: "Seja bem-vindo". Foi um "tapa com luva de pelica", como se dizia no tempo em que as mulheres elegantes usavam luvas.
Meses depois, aluguei uma casa, próxima de onde moravam meus pais. Era um sobrado confortável, com um jardim minúsculo nos fundos, onde meus filhos, milagrosamente, colhiam morangos.
Voltando ao sonho, tendo em vista o histórico conturbado mãe-filho, posso
imaginar que quem eu gostaria de cumprimentar no aniversário da minha mãe era,
na realidade, minha tia. Que está morta. Então, o sonho fez a parte dele, realizando um desejo inconsciente. Freud, como sempre, está de parabéns.
quinta-feira, 9 de maio de 2019
Governo Bolsonaro padece da síndrome Dunning-Kruger
Zezinho chega da escola e fala para a mãe: "Descobri que sou mais inteligente que a professora". "Por quê?". "Passei de ano e ela continua no mesmo".
Lembrei dessa piada ao ler a notícia que o nosso querido ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), tirou nota zero em sociologia na USP.
Weintraub não deixa por menos. Confunde o autor Kafka com o prato árabe kafta. Com uma bela caneta Bic, assina o que ele chama de "contingenciamento" e tira 30% da grana das universidades federais. Vai explicar o corte, usando chocolates, e erra ao confundir 30% com 3% (uma tristeza). Paralisa pesquisas. Corta bolsas de estudo. Interrompe mestrados e doutorados. Destrói carreiras. Mata o conhecimento. O governo Bolsonaro é um devastador incêndio cultural de consequências nefastas.
Um psicoterapeuta freudiano diria que Weintraub está se vingando do mundo acadêmico. Está dando um tapa na cara daqueles velhos professores universitários que lhe deram zero na faculdade. "Cheguei ao poder. Agora, vocês vão ver o que é bom pra tosse".
Não acredito nessa versão. Li toda a obra de Freud e de autores neofreudianos, durante o doutorado, feito na USP com bolsa do CNPq. Graças ao CNPq, pude fazer o que se chama de "bolsa sanduíche" e estudei na Sorbonne, em Paris, tendo como orientador o renomado sociólogo francês Michel Maffesoli.
Nasci em uma família de classe média. Nos anos 60, tínhamos TV, fogão, geladeira e até carro (DKW). Aos 15 anos, a empresa onde meu pai trabalhava faliu e tive de ir à luta. Arrumei emprego em uma adega. Carregava caixas de bebida. Entre 16 e 18 anos, fui pesquisador de um instituto do tipo Ibope, indo de casa em casa, para saber o que os telespectadores tinham assistido na noite anterior. Aos 19, era auxiliar administrativo no Bradesco Vila Mariana.
Nunca parei de trabalhar, nem de estudar. Fiz duas faculdades à noite: letras e jornalismo. Achava meu conhecimento extremamente limitado, por isso fui para a pós-graduação, fazendo mestrado na Universidade Metodista, e posteriormente o doutorado na USP.
Sem bolsa de estudo, não poderia ter cursado a pós-graduação. Sem bolsa de estudo, não teria feito minha tese Espreme que sai sangue; hoje, felizmente, referência acadêmica na área de comunicações.
Esse pessoal, que ocupou o governo, não está se vingando dos acadêmicos. Como o Zezinho da piada, eles padecem da síndrome de Dunning-Kruger.
Aliás, lendo o jornal, com as últimas notícias do governo - sempre angustiantes - me sinto cercado desse pessoal.
Os efeitos de Dunning-Kruger parecem se espalhar como as sementes de dente de leão. Na semana passada, assisti a um documentário na Netflix sobre gente que acredita que a Terra seja plana. Os terraplanistas. Outros me param na rua e me explicam que o mundo foi construído em seis dias por um ser superior, o Criador, que descansou no sétimo dia. Tem aqueles que ficam no YouTube e querem me influenciar "digitalmente", vendendo porcarias que eles ganham para veicular. É o famoso jabá normatizado.
Simultaneamente, indiferente aos terraplanistas, um robô chinês planta algodão em solo lunar. E o carro da Tesla já passou pelo planeta Marte.
Estou lendo A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser. Ele faz um levantamento interessante sobre o conhecimento humano. Cita os gregos que fundaram a filosofia ocidental, como Tales de Mileto e seus seguidores Anaximandro e Anaxímenes, entre outros.
Quinhentos anos antes de Cristo, esse pessoal já falava do universo, da evolução das espécies pela água, previam eclipses solares, discorriam sobre o movimento das estrelas, mencionavam a existência de planetas ("viajantes do espaço", em grego) e ensinavam seus discípulos que toda a matéria era constituída de átomos ("aquilo que não pode ser dividido").
Filósofo, matemático, astrônomo, Tales de Mileto fez fortuna, prevendo com um ano de antecipação uma safra recorde de azeitonas. Tales comprou dezenas de prensas e, quando as azeitonas se multiplicaram nas colheitas, ele enriqueceu alugando as prensas para os proprietários de terras.
Gleiser escreve que "se assumirmos que 'algo' criou 'tudo', caímos em uma regressão infinita; quem criou o 'algo' que criou o 'tudo'?" Ele observa que a necessidade de entender a nossa origem e a do Universo é inerente a todas as culturas.
Todos os agrupamentos humanos fizeram o que ele chama de "A Pergunta": De onde viemos, que pode se multiplicar em centenas de outras perguntas complementares: estamos sós no Universo? há outras vidas inteligentes em outros mundos? e por aí em diante.
O que estou querendo dizer com esse papo todo é que em determinados momentos da existência humana convivemos com homens e mulheres de inteligência acima da média. Gente que foi atrás de respostas e levou o conhecimento até onde ninguém jamais estivera, parafraseando Jornada nas Estrelas.
Ocorre que, na maior parte do tempo, somos obrigados a conviver com gente muito burra, antiquada, ultrapassada, conservadora, tacanha, que faz a sociedade regredir e não avançar.
Tenho pena daquele rapaz, que quer estudar e precisa de uma bolsa de estudos, e hoje vai dar de cara com a porta dos recursos universitários fechada.
Enquanto Weintraub fechava a porta para o conhecimento, na Alemanha, houve o repasse de 160 bilhões de euros para as universidades e pesquisadores.
Para encerrar, felizmente, temos uma boa notícia no Brasil: os nossos amados juízes do STF vão continuar comendo lagosta e tomando champagne. A Justiça liberou a licitação para a compra desses alimentos, sem dúvida, essenciais para o bom funcionamento das togas e paramentos dos deuses que habitam o Supremo.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
A mulher por trás da cura gay
O foco da polêmica sobre a "cura gay" está equivocado. As câmeras voltam-se para a decisão judicial, quando deveriam apontar para a origem do problema. A psicóloga carioca Rozangela Alves Justino, CRP 05/4917, entrou na Justiça, depois de ter sido chamadas às falas, em 2009, pelo Conselho Federal de Psicologia. Rozangela deseja "garantir o direito das pessoas de deixar a homossexualidade". Ela afirma ser um "direito constitucional" de toda biba deixar de ser biba.
A Justiça pela caneta do juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho concedeu uma liminar, permitindo o "aprofundamento de estudos científicos". O magistrado entendeu que a proibição do Conselho Federal de Psicologia impedia a investigação da sexualidade humana.
O título de psicóloga de Rozangela, na realidade, oculta sua vocação de fato. Ela é religiosa, missionária. Segundo o site The Intercept, Rozangela está lotada no gabinete do deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), recebendo R$ 3.346,34 mensais.
Esse deputado, segundo o The Intercept, é apadrinhado do líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, Silas Malafaia.
Malafaia e o âncora da Bandeirantes Ricardo Boechat envolveram-se recentemente em polêmica. Boechat mandou Malafaia "procurar uma rola". O âncora chamou ainda Malafaia de "idiota", "paspalhão", "tomador de grana de fiel" e "explorador da fé alheia".
O que se observa pela postura "científica" da missionária e psicóloga é que dona Rozangela teve uma formação profissional precária. Se ela tivesse pelo menos lido Freud...Em seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905, Freud apregoava que homossexualidade não era uma doença
A OMS (Organização Mundial da Saúde) demorou, mas finalmente retirou o homossexualismo da lista de distúrbios mentais, em 1990.
Dona Rozangela, pelo visto, desconhece isso.
Então, estamos diante de uma pessoa muito mais religiosa que acadêmica. Ela está a serviço da sua igreja, propagando sua crença e influindo desta maneira em toda a sociedade brasileira. É nesse sentido que deve ser desferido o ataque.
O Conselho Federal de Psicologia advertiu Rozangela, depois dela ser denunciada por duas pessoas, em 2009. O erro ocorreu aí. O Conselho deveria ter aproveitado a oportunidade e cassado a licença de Rozangela. O CRP foi brando e se omitiu.
Outro ponto que deve ser destacado é o direito de qualquer pessoa de buscar ajuda para resolver o problema que a aflige. A garota quer saber se vai casar, se o namorado a está traindo e procura uma cartomante. A viúva deseja se comunicar com o falecido no além e procura um médium. O sujeito acorda com 40 graus de homossexualismo e vai atrás da psicóloga para amenizar a "febre".
Pode ser que a pessoa aflita se sinta enganada pela cartomante, pelo suposto médium e pela psicóloga. Contra a cartomante e o médium há pouco a ser feito. Já contra a profissional de psicologia é outra história. A cassação do certificado da profissional é a melhor profilaxia para limpar a área dos lobos em peles de cordeiro. No caso, de religiosos protegidos pelo escudo do CRP.
Assinar:
Postagens (Atom)
A primeira travesti do Bois de Boulogne
Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...
-
O filme foi premiador em Cannes A cerimônia de entrega do Oscar acontece no domingo, 15 de março próximo. Espero que o filme “O agente sec...
-
Tiago Leifert está feliz da vida com a Claro e me convidou para ser feliz também; só que não Atualmente, estou no interior de São Paulo. P...





