| O filme foi premiador em Cannes |
A cerimônia de entrega do Oscar acontece no domingo, 15 de
março próximo. Espero que o filme “O agente secreto”, dirigido e escrito por
Kleber Mendonça Filho, estrelado e coproduzido por Wagner Moura, não ganhe a
estatueta.
O filme tem um ritmo lento, arrastado. Em vários momentos,
dá vontade de parar a exibição para voltar a vê-lo outra hora, quando a gente
não tiver nada de bom para fazer.
“O agente secreto” ganhou o prêmio de melhor diretor e
melhor ator no Festival de Cannes. O que revela que a safra 2025 não é das
melhores.
O maior problema do filme é a falta de coragem. Em 1977, ano
em que se passa o filme, o Brasil ainda vivia sob a Ditadura Militar. O
presidente Ernesto Geisel tinha fechado o Congresso, depois de o partido do
governo (Arena) ser derrotado nas eleições pelo MDB. Para não correr mais o
risco de perder, Geisel criou um certo “colégio eleitoral”, com políticos
simpatizantes da ditadura, que davam maioria para o governo no Congresso,
quando este fosse reaberto. Também em 1977, o então secretário de Segurança de
São Paulo, o coronel Erasmo Dias, invadiu a PUC (Pontifícia Universidade de São
Paulo), espancou milhares de estudantes e prendeu 900. Na época, eu trabalhava
em uma publicação na rua Monte Alegre e testemunhei a pancadaria.
Quando se fala em Ditadura Militar, significa que as três
armas – Exército, Aeronáutica e Marinha – atuavam de maneira ostensiva, para
controlar os opositores. No filme de Kléber Mendonça Filho, não se vê os
militares torturando e matando opositores. Não aparece um integrante do
Exército, um oficial graduado da Marinha e da Aeronáutica usando a violência
para calar aqueles que resistiam ao regime.
Só para citar um exemplo simbólico, o coronel do Exército Carlos
Alberto Brilhante Ustra, o “dr. Tibiriçá”, foi condenado pela Justiça, em 2008,
como torturador. Era Brilhante Ustra quem comandava o Doi-Codi (Destacamento de
Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo,
onde 500 pessoas foram torturadas e o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog
foi assassinado, durante uma sessão de espancamento.
Em “O agente secreto”, não se vê um jipe do Exército ou de
outras forças capturando pessoas. Quem faz a violência no filme são policiais
corruptos e ex-integrantes das forças armadas. Um deles teria sido expulso do
Exército. Ou seja, de certa forma, o filme “pega leve” com os “milicos”. Onde
estavam Brilhante Ustra e outros militares torturadores?
Parece que a violência no filme é extemporânea, no sentido
de vir de alguns criminosos inoportunos, quando, na realidade, a repressão
contra a oposição, durante a Ditadura Militar, era exercida pelo Exército,
Marinha e Aeronáutica.
Assim como fez em “Bacurau”, Kléber Mendonça destaca um
personagem do Sudeste, para ser o grande vilão. Esse personagem corrupto,
instalado na Eletrobrás, destrói pesquisas importantes, que eram feitas no
Nordeste (Universidade Federal de Pernambuco), para buscar benefícios próprios.
O personagem é racista, misógino e extremamente violento, “descendente de
italianos de Gênova”.
Mais uma vez, fica sugerido que o diretor Kléber Mendonça
tem uma espécie de aversão aos descendentes de italianos, que vivem no Sudeste
(São Paulo, principalmente), reputando-lhes os principais flagelos, ocorridos
no Brasil.
“O Agente secreto” - bem parecido com filmes anteriores do
mesmo cineasta “O som ao redor” e “Aquarius” – tem um andamento quase preguiçoso,
devagar, que é sempre interrompido por um êxtase de violência extrema. Os
diálogos parecem cordiais, mas escondem sempre uma perspectiva de morte e
agressão.
Se dependesse do meu voto, “O agente secreto” não levaria a
estatueta careca para casa.
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