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sábado, 30 de novembro de 2024

Pendências brasileiras

 


O Brasil tem essa particularidade: demora para resolver seus

 problemas. Em geral, não resolve. Deixa para depois. Procrastina.

 Empurra com a barriga. Joga a sujeira para debaixo do tapete.


O Jogo do Bicho é uma contravenção. Bicheiros são milionários.

 Vivem luxuosamente e, nas horas vagas, patrocinam escolas de

 samba. A juíza Denise Frossard até que tentou acabar com essa

 malandragem. Em 1993, ela condenou 14 principais chefões do Jogo

 do Bicho. Depois, veio o silêncio. O Jogo do Bicho continua em

 plena atividade. A gente pode jogar até pela internet. É normal um país coabitar com esse tipo de  escroqueria? No Brasil, é normal. A gente convive bem com a irregularidade, com a falta de educação, com a fartura dos privilegiados, com a incompetência do poder público, com a sujeira na rua, com o som alto. É normal.


No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem de Córrego do Feijão, no

 vale do Paraopeba (Minas Gerais), rompeu e matou 270 pessoas

 (inclusive duas grávidas e dois bebês), soterradas pela lama, rejeitos,

 pedras e restos das construções. Os rios foram poluídos por causa da

 lama tóxica. Até hoje, ninguém da empresa Vale foi preso.

No dia 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da empresa

 Samarco, no município de Mariana (MG), rompeu e matou 19

 pessoas. Ninguém foi preso.

Em 8 de janeiro de 2019, um incêndio no Ninho do Urubu, matou 10

 jogadores da base do Flamengo. Até hoje, ninguém foi punido.

Em relação aos políticos, a sociedade brasileira tem um caso

 exemplar: o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Condenado a

 oitos anos e dez meses de cadeia por corrupção passiva e lavagem

 de dinheiro, sua possível prisão paira no ar como uma borboleta

 colorida no plenário do STF (Supremo Tribunal Federal). Tudo ia na

 direção de botar Collor em um camburão, mas – e sempre tem um

 “mas”, como dizia Plínio Marcos – o honorável ministro André

 Mendonça pediu para o julgamento sair do plenário virtual e seguir

 seu curso interminável no plenário físico. Em outras palavras, vai

 tudo começar do zero.

O STF, por sinal, na semana passada, decidiu manter símbolos 

religiosos em prédios públicos, o que é um retrocesso impensável em 

um país que separou seu governo da igreja. Foi no dia 7 de janeiro

 de 1890 que o Brasil oficialmente separou-se da igreja, graças a um 

decreto de Rui Barbosa. A partir desse dia, registros de casamento, 

nascimento e óbitos passaram a ser de responsabilidade do estado. E 

agora, 134 anos depois, o STF mantém símbolos religiosos em

 prédios públicos. É o famoso não ata e nem desata. O governo está

 separado da igreja, desde 1890, mas nem tanto assim.


Quem circula por São Paulo de carro ou a pé convive com um

 inimigo quase invisível. Esse inimigo é um centauro. Ele circula em

 velocidade incalculável, por ser imperceptível aos radares. Os

 centauros de São Paulo (imitados em outras cidades) têm seu próprio

 código de trânsito. Esse código chama-se desobediência civil. Os

 centauros podem tudo: subir nas calçadas, passar nos sinais

 vermelhos, andar na contramão, não sinalizar mudanças de faixa,

 buzinar de forma repetida e colérica... Todos os dias morrem um,

 dois ou três centauros em São Paulo. Todos os dias um, dois ou mais

 centauros vão parar no hospital com fraturas e contusões

 gravíssimas. O primeiro semestre de 2024 fechou com 521 óbitos.

 Nenhuma medida viária até agora conseguiu reduzir o número de

 mortos e feridos. Nada se faz e vamos deixar os centauros se

 extinguirem por conta própria.

O aborto é liberado no Brasil, para quem tem dinheiro e pode pagar

 uma clínica exclusiva. Quem não tem dinheiro vai atrás de algum ou

 alguma curiosa que fará bobagem e a paciente terminará sua jornada

 no SUS, quem sabe viva, talvez morta. O aborto é proibido no Brasil,

 porque a religião e os religiosos não permitem. Mas, quem tem

 dinheiro, aborta.

O Brasil tem 12 mil favelas, onde vivem 16 milhões de pessoas.

 Somente em Paraisópolis, em São Paulo, vivem quase 60 mil

 pessoas. Dez por cento da população de Dublin (Irlanda). 

Em São Paulo há 590 mil imóveis abandonados. Repetindo: 590 mil

 imóveis abandonados, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de

 Geografia e Estatística). Isso – sempre de acordo com o IBGE –

 permitiria que toda a população de rua de São Paulo multiplicada

 por 20 encontraria abrigo nesses imóveis, que ninguém usa e –

 parece – que ninguém quer.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

PT precisa de autocrítica e expurgo para sua redenção

 

Em plena greve dos metalúrgicos, em 1978, eu fazia frila para um jornal de esquerda, que era impresso todo em vermelho. Eles não costumavam pagar os colaboradores. Havia uma lógica nisso, mas nunca entendi bem qual era. Eu sei que, para cobrir uma pauta, fui parar no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Tarde fria, com a neblina característica daquela cidade.  

Ditadura militar, as greves estavam proibidas, livros de autores como Érico Veríssimo, Rubem Fonseca, Jorge Amado foram censurados, filmes vetados, atores de teatro espancados, gente torturada e morta e mesmo assim os metalúrgicos, que trabalhavam nas grandes montadoras, em um ato político de coragem invejável, desafiaram os militares e paralisaram as fábricas. 

Na época, Lula não usava barba. Apenas, um bigode. Havia ali no sindicato, grevistas, muita agitação nos corredores e Lula era um polo magnético, um buraco negro atraindo e puxando tudo em volta dele. Nos anos 70, falava-se muito em aura. Então, havia uma aura de celebridade ao redor do líder metalúrgico, que ganhava as manchetes no Brasil e no exterior.

Eu estava ao lado de Lula, anotando suas declarações, quando surge alguém e dá uma caixa de sapato para ele. Lula para de falar. Abre a caixa e seu rosto fica iluminado por um sorriso de satisfação. Dentro, um par de sapatos de cor escura. Lula perguntou para a pessoa, que tinha lhe dado o agrado: "É mesmo cromo alemão?". O outro confirmou. 

Não sei por que, achei aquilo um mau presságio. Maior greve, milhares de trabalhadores iam perder o emprego, um momento de ruptura institucional e o cara que estava por trás de tudo aquilo ficava feliz, como uma criança, ao receber um presente...Um par de sapatos?

Nos meus anos de jornalista, em empresas de comunicação, nunca aceitei presentes, que os colegas chamavam de "jabaculê". Passei por situações constrangedoras, com assessor me ligando, xingando, por eu ter recusado um presente. "Você acha que estou querendo te comprar com essa porra?", um assessor gritou comigo no telefone. 

Quer saber, sim, você estava tentando me comprar com o seu presentinho. "Quem presenteia quer seduzir", dizia o camarada Marx. Hoje, o "jacabulê" institucionalizou-se. Os tais "influencers" ganham para divulgar produtos. Qual é a ética desse procedimento? Talvez, não haja ética alguma. As pessoas esqueceram esse comprometimento, em determinado momento da caminhada.

Dois anos depois, em 1980, o PT era criado e nascia espalhando-se vertical e horizontalmente por todo o País. O PT era uma marca de sucesso. A estrela vermelha de cinco pontas, idealizada pelo jornalista Julinho de Grammont no Bar da Rosa (vizinho ao Sindicato dos Metalúrgicos), era vendida em broches, em bandeirinhas, em adesivos de plástico. Um sucesso! 

(Em conversa comigo, Grammont falou que estava com colegas no Bar da Rosa, tomando conhaque Domecq, quando desenhou um esboço da estrela em cima da mesa de madeira. A Rosa, dona do bar, guardou durante alguns anos a mesa, até a peça ser substituída por mobiliário moderno. A estrela ganharia contornos mais definidos com a ajuda de Hélio Vargas, ilustrador, que fazia um personagem de muito sucesso no jornal do sindicato, chamado João Ferrador. "Muitos metalúrgicos achavam que João Ferrador existia mesmo", me contou Grammont, pouco antes de falecer em um acidente de carro na via Anchieta.)

O crescimento do PT começa de forma exponencial crescente. Nove anos depois da fundação do partido, Lula disputa a Presidência e vai para o segundo turno com Collor. Erundina conquista a prefeitura de São Paulo, em uma virada incrível sobre Paulo Maluf. A campanha de Collor é rasteira, fedorenta. Traz uma ex-mulher de Lula para atingir o candidato petista no seu lado mais vulnerável: a intimidade. Surge uma filha de Lula, "bomba bomba", como um asteroide fumegante, que desaba sobre o telhado dos eleitores. No outro dia, Lula aparece com a filha, que fica muda diante da TV (por que ela ficou muda?), enquanto Lula fala que era ele quem cuidava da menina.  

No debate na TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então todo poderoso executivo da TV de Roberto Marinho, pega pastas e enche de papéis em branco e as entrega a Collor, como se ele fosse fazer alguma grande denúncia contra o ex-metalúrgico. No debate, Collor menciona, com inveja simulada, que Lula tinha um "três em um" em sua casa. Três em um, na época, era vitrola, rádio e toca-fitas. Lula fica constrangido, responde de forma enviesada, esquecendo de mencionar no debate que Collor não tinha apenas um prosaico "três em um", mas era dono de uma gigantesca retransmissora de TV em Alagoas, filiada da Rede Globo.

Como sempre, o surrado discurso anticomunista da direita tornava-se próximo das pessoas comuns. Lembro de levar minha mãe votar no Liceu Pasteur, na Vila Clementino, e na porta do colégio eleitoral um brucutu agitava a bandeira do Brasil e gritava para nós: "Não vamos deixar os comunistas tomar o poder. Vote em Collor". 

O governo Collor acaba, desmanchado pela corrupção. Assume o vice, Itamar Franco, que faz um "mandato tampão" excepcional, enfiando uma estaca de madeira no coração da inflação, que era de seis ou mais dígitos. Viriam oito anos de Fernando Henrique Cardoso, que tinha, sem dúvida, a liturgia do cargo. Era um presidente educado, gentil, inteligente, sociólogo, acadêmico, ex-professor, na Universidade de Nanterre, do líder da revolta estudantil de 1968, em Paris, Daniel Cohn-Bendit, o "Danny le rouge". 

Diante daquilo que temos hoje no Palácio do Planalto, sinto muita falta da polidez ilustrada de FHC.

Na campanha eleitoral de 1998, FHC é exibido com terno, gravata, asseado e bem disposto, sentado ao lado de um cardeal (ou equivalente), no que parecia ser um jardim edílico; enquanto Lula e dona Marisa faziam uma caminhada cansativa, de doer os calos, dar bolhas nos pés, pelo abandonado Caminho do Mar. 

Nos anos seguintes, a campanha do PT torna-se profissional ("brilha uma estrela, Lula lá") e vai garantir a eleição de Lula em 2002; sua reeleição em 2006; a eleição de Dilma Roussef, em 2010; e também a reeleição de Dilma, em 2014.

O PT não era apenas uma marca de sucesso. O PT tinha conquistado o poder. Dominava estados e prefeituras. Em 2002, eu estava no luxuoso Hotel Intercontinental, em São Paulo, fazendo a cobertura do discurso de vitória de Lula. A emoção era contagiante. Vinte e dois anos depois de fundar o PT, Lula chegava à Presidência e rebatia Regina Duarte e direitistas, apavorados diante do "perigo vermelho": "A esperança venceu o medo". 

Os governos Lula até a derrocada de Dilma Roussef foram de crescimento econômico, elevação do IDH, investimento em educação, saúde e estabilidade econômica. O País ia bem. A cada nova eleição, Lula e os políticos, que tinham sua benção, eram sacramentados pelos votos.

Em relação aos inimigos, Lula agia de forma pragmática. Deixava o fígado de lado. No apoio a Fernando Haddad, que venceu a eleição para a prefeitura de São Paulo, chegou a ir com o seu candidato dar a mão a Paulo Maluf. Por mais que você limpe com álcool, passe desinfetante, não tem como ficar realmente limpo, depois de dar a mão a Paulo Maluf. 

Velhos oligarcas como José Sarney, Fernando Collor viravam aliados. A Rede Globo ia bem, obrigado, ganhando verbas do poder público, se municiando, esperando a hora de atacar e derrubar o governo petista. 

Então, desabaram os escândalos. O primeiro "Mensalão", com Roberto Jefferson que, entrevistado por Renata Lo Prete, da "Folha de S.Paulo", contou que o PT comprava deputados por 30 mil reais, para votar projetos de interesse do governo. Veio o "Petrolão", gigantesco esquema de corrupção, denunciado pela operação Lava Jato, que revelou - finalmente - as entranhas das negociatas entre empreiteiras, partidos políticos, operadores, que deram um prejuízo estimado de 42 bilhões de reais à Petrobras. Políticos, empreiteiros, doleiros, funcionários foram presos e condenados. A Lava Jato conseguiu recuperar cerca de 6 bilhões de reais. 

O esquema era simples: a empreiteira era contratada pela Petrobras e cobrava um valor superfaturado pela obra. A quantia "extra" paga pelos empresários, para conseguir fazer a obra, ia para os cofres dos partidos e de políticos corruptos.

Nesse momento, a estrela do PT começou a perder o brilho. Foi se desfazendo aos poucos. Foi se descolorindo. 

Até então, era impensável que o PT, um partido de trabalhadores, pudesse estar envolvido em tanta coisa suja, imoral, antiética. Como um partido, que se pretendia ser diferente dos demais, podia ter caído nas mesmas artimanhas dos partidos tradicionalmente corruptos? Era um descalabro. Tudo bem, o PT não havia inventado a corrupção, mas o partido não tinha o direito de mergulhar no mesmo jogo sujo.

A Lava Jato foi atrás de Lula. O promotor Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro fecharam o cerco. Em setembro de 2016, Dallagnol convoca a imprensa e exibe um "power point" amador e pouco convincente com flechas apontando para o "chefão do crime" (Lula). 

Lula seria condenado e preso por Sergio Moro. Ficaria na prisão por 580 dias. Investigado pelo apartamento no Guarujá e pelo sítio em Atibaia, não havia realmente provas de que os imóveis pertencessem a Lula, nem que o dinheiro de propina da Petrobras fora usado como favorecimento ao ex-presidente. 

A Vaza Jato, série de documentos revelados pelo site "The Intercept Brasil", com colaboração do premiado jornalista Glenn Greenwald, revelou que os promotores da Lava Jato mantinham uma relação "incestuosa" com o juiz Sergio Moro, que orientava e aconselhava a acusação, em uma inédita - e preocupante - demonstração de parcialidade entre acusador e juiz.  

Moro conquistou a simpatia do público e deu um tiro no pé ao aceitar o Ministério da Justiça, oferecido pelo recém-eleito Jair Bolsonaro. Moro, que havia abandonado sua carreira de juiz federal, encerraria sua passagem-relâmpago no Ministério da Justiça, depois de 15 meses ou 480 dias. Moro saiu atirando. Acusou Bolsonaro de interferir nas investigações da Polícia Federal.

Em novembro de 2020, o PT foi varrido das urnas. Não conseguiu eleger nem um único candidato a prefeito nas capitais. Cansados, os eleitores derrotaram Lula e também Bolsonaro. 

O que fazer agora com a estrela do PT? Em uma postagem recente, pré-eleições municipais, o jornalista Ricardo Kotscho escreveu, em sua coluna no Uol: "Aos 40 anos, PT chega às eleições envelhecido, sem votos e sem rumo". Como se tivesse bola de cristal, Kotscho previa que o PT dificilmente elegeria algum candidato nas capitais. O PT pediu direito de resposta, mas a resposta principal veio das urnas. O Partido dos Trabalhadores naufragou de fato na eleição municipal. Kotscho foi secretário de imprensa do Governo Lula, de 2003 a 2004, portanto devia saber o que estava escrevendo.

O PT conta com 1 milhão e 500 mil filiados. É uma força política considerável. Mas parece ter perdido o magnetismo. Enquanto nos anos 80, o partido crescia, a marca brilhava intensamente, era um centro de atração irrefreável (lembro das barraquinhas de feira do PT, vendendo broches, bandeiras e adesivos; lembro das militantes de minissaia, batendo na porta dos eleitores; lembro dos patrões proibindo os jornalistas de usar o broche estrelado do PT); hoje, as pessoas querem distância da estrela. 

Talvez, uma solução possível fosse um expurgo, semelhante ao célebre discurso de Nikita Kruschev, em 1956, diante de 1.500 estupefatos dirigentes do Partido Comunista da URSS, denunciando a prisão de 1 milhão e 500 mil pessoas e assassinatos de outras 690 mil, todas vítimas do ditador soviético Josef Stalin, "o guia genial de todos os povos". Kruschev lavou roupa suja em público. Jogou merda no ventilador. 

O PT deveria fazer o mesmo, uma rigorosa autocrítica, um expurgo cortando na própria carne, em busca de sobrevivência e redenção.     

 

       


 

   

   

     

  


terça-feira, 9 de abril de 2019

Os comunistas estão na ordem do dia


Os comunistas estão na moda. Nunca se falou tanto em comunismo e comunistas como agora, em 2019. No século passado, em 1946, durante a Assembleia Constituinte, o Brasil contava com 14 deputados comunistas - entre eles, o escritor baiano Jorge Amado (eleito por São Paulo). 

Luiz Carlos Prestes (1898-1990), senador pelo Partido Comunista Brasileiro, era sua liderança mais carismática e mitológica. Prestes ficaria apenas dois anos no Senado, tendo seus direitos cassados. As eleições de 1946 foram, talvez, o apogeu do PCB, o Partidão, no Brasil.

De lá para cá, o Partidão só tem perdido espaço político. Em outubro do ano passado, os jornais noticiaram que o PCB e o PC do B (Partido Comunista do Brasil) entrariam na "cláusula de barreira". Sem o total de parlamentares eleitos, exigido pela lei eleitoral, ficariam sem tempo na TV e sem a grana do fundo partidário.

Para um observador com recursos parcos de inteligência, isso seria um indicativo que os partidos comunistas registrados no Brasil estariam enfrentando séria crise existencial. 

Mas, para o governo Bolsonaro, os comunistas estão na ordem do dia. Tem comunista em tudo quanto é lugar. "Olha lá, atrás daquela porta...Um comunista escondido". Tem comunista em banco, em grandes empresas. Tem comunista até dono de jornal. Acredite...

O discurso do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), segue nessa linha. Weintraub enxerga comunas em monopólios, instituições financeiras e - pelo que se depreende de sua fala - os esquerdistas estão localizados, principalmente, dentro das grandes empresas jornalísticas. 

Assim, de acordo com Weintraub, João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu - filhos herdeiros do poderoso magnata da mídia brasileira Roberto Marinho – seriam “comunistas”, comandando a Rede Globo, tendo um patrimônio de 29 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes.

Também seriam “comunistas” Johnny Saad (Bandeirantes), Luiz Frias (Folha de S.Paulo), a família Mesquita (Estadão), a família Sirotsky (Grupo RBS).

O comunismo, como se aprende no Ensino Fundamental, é estatizante. Grandes empresas, monopólios, bancos, tudo isso deixa de pertencer a seus sócios, suas famílias, e passa para o controle do governo (comunista). Depois da Revolução Russa, em 1917, não havia mais industriais, banqueiros, fazendeiros. Existia apenas o controle dos meios de produção pelo estado bolchevique.

Seguindo o raciocínio do novo ministro da Educação, as famílias Frias, Marinho, Mesquita, Saad, Sirotsky, fariam parte de um majoritário plano marxista/bolchevique que visaria dar um tiro em seus próprios pés, entregando suas propriedades e suas fortunas de características planetárias para o estado comunista. Assim, eles ficariam de mãos abanando, indo trabalhar, quem sabe, em uma fábrica de automóveis New Trabant.

Faz algum sentido essa ladainha?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, onde leciona na Universidade de Berlim, escreve em seu livro Sociedade do Cansaço sobre as enfermidades que marcaram as épocas da humanidade.

Até o século 20, vivia-se o temor das epidemias virais e bacteriológicas. Descobertos os antibióticos, afastados os riscos das pandemias, entramos no século 21 em que prevalecem as doenças neuronais, como depressão, transtorno de déficit de atenção, transtorno de personalidade limítrofe, síndrome de burnout.

“O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo (...) Mesmo a Guerra Fria seguiu esse esquema imunológico”, escreve Chul Han.

O governo Bolsonaro e seus ministros do calibre de um Weintraub frequentam os anos cinzentos da Guerra Fria. Para eles, os comunistas são o inimigo a ser derrotado. 

Eles continuam imersos na “época imunológica”. Seus discursos são antigos, seus inimigos foram desgastados pelo tempo, sua visão de mundo é velha. Eles pertencem ao século 20. Aos anos 50 do século 20. Ainda não chegaram na Revolução Estudantil de maio de 1968. Não viveram a liberação sexual dos anos 60. É um pessoal que usa um vocabulário secular, ultrapassado.

O Brasil, entra século e sai século, sempre retorna a esse jogo mentiroso. Em 1964, os militares derrubaram o governo João Goulart, em razão da “ameaça comunista”.

Goulart era proprietário rural. Ele faria a Revolução Comunista e entregaria seus 14 mil hectares de terra e suas 30 mil cabeças de gado, que pastavam nos pampas de São Borja (RS), para os bolcheviques tupiniquins?

Em 1989, na primeira eleição para presidente que participou Luiz Inácio Lula da Silva pelo PT, seus adversários o chamavam de “comunista”.

“Não vamos deixar os comunistas vencer”, gritavam os partidários de Fernando Collor de Mello, diante dos colégios eleitorais.

Durante o governo Dilma, lembro de um amigo de infância, apavorado, me informando que vivíamos sob uma “ditadura comunista”.

Até quando vamos aturar tanta ignorância? Não é uma ignorância do não saber, do desconhecer, mas uma ignorância forjada, proposital, que visa a confusão, que cria “inimigos bacteriológicos” e os chama de “comunistas”.

Precisamos de palavras novas. Sinceramente, precisamos também de um novo governo, sem esses discípulos de Olavo maluquete de Carvalho, e por aí afora.


   
      

  

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O fantasma do anticomunismo



1989. Entrei na rua Mairinque, na Vila Clementino, para levar meus pais ao colégio eleitoral, que ficava no Liceu Pasteur. Ao estacionar  o carro, avançou em nossa direção um sujeito, soltando fumaça pelas orelhas e nariz. Achei que fosse um guardador de carros, um flanelinha parasita, mas era outro tipo de parasita. Ele nos entregou panfletos, que alertavam para a ameça comunista que pairava sobre o Brasil, caso Lula fosse eleito. "Não vamos deixar o comunismo vencer", ele gritava. "Votem em Collor."

Em 1960, lembro de um primo, anticomunista ferrenho, fazendo campanha pró-Jânio Quadros. Esse primo ia com a sua romiseta para a boca de urna e chamava o opositor de Jânio - Marechal Lott - de "comunista". Acredite, se quiser...

Em 1964, Jango Goulart é deposto. Um presidente eleito democraticamente é tirado do poder pelos militares, porque haveria uma ameaça comunista. Não havia. Jango queria fazer "reformas de base". Ou seja, reduzir as diferenças entre os muito ricos e os miseráveis. Não conseguiu. 

Lula perdeu a eleição, porque a classe média achava que, se eleito, ele transformaria o Brasil em uma Cuba. E, principalmente, por causa da manipulação do debate, feito pelo Boni, pelo Armando Nogueira & Cia. da Rede Globo. 

Lula seria eleito em 2002 ("a esperança venceu o medo"), novamente reeleito em 2006, outra vez eleito em 2010 (desta feita, indicando uma candidata) e ainda uma quarta vez, com a reeleição de Dilma. Nesses 13 anos e meio, até o impeachment, o Brasil não virou Cuba, nem Venezuela. Ao contrário, muita gente ganhou dinheiro, muita gente pobre pôde entrar na universidade, a dívida "impagável" com o FMI foi paga, enfim, foram anos bem-sucedidos, voltados para a redução da miséria e das diferenças sociais.

O Partido dos Trabalhadores, criado por Lula, não é comunista. Ao contrário. Quando Lula almejava criar um partido, nos anos 80, não faltaram sondagens para ele ingressar nos partidos comunistas, como o PCB e o PC do B. No entanto, ele insistiu na criação de um partido, voltado para os trabalhadores, sem se ater à ideologia comunista, que é a estatização completa dos meios de produção, a abolição da propriedade privada e o fim das classes sociais. 

Mesmo não sendo um partido comunista, o PT é alvo frequente dos anticomunistas. "A bandeira do Brasil nunca será vermelha!", eles esbravejam. "Vai pra Cuba!", gritam. O anticomunismo é uma marca de campanha política. É ferro quente sobre o couro.  

Há uns quatro anos, ainda durante os estertores do governo Dilma, reencontrei um amigo de infância muito querido que estava assustado, porque imaginava, em sua ingenuidade, que o Brasil tinha se tornado "um país comunista". Estávamos em um jantar, com outro amigo de infância, que esclareceu didaticamente que o Brasil continuava um país democrático, com as instituições funcionando normalmente. Os bancos ainda eram dos banqueiros; as indústrias estavam nas mãos dos industriais e das multinacionais, haveria eleições normalmente e assim por diante.

Chegamos a 2018. Outra eleição presidencial. E lá vem ele de novo o parasita do anticomunismo. Ele grita, esperneia, publica barbaridades nas redes sociais...O parasita anticomunista é bem-sucedido. As pessoas o escutam. Acreditam nele. Divulgam suas mentiras. Passam adiante. Há uma incapacidade bovina de raciocinar. 

Além da pecha anticomunista, paira sobre os eleitores um desalento, motivado pelos erros cometidos pelo Partido dos Trabalhadores, enquanto exercia o poder. Se o PT era "diferente dos outros", o partido que viria "trazer a ética para a política", as denúncias do Mensalão e do Petrolão indicaram que a ética havia sido esquecida em alguma gaveta do governo Lula.

Quem usava a estrelinha vermelha no peito, quem grudava adesivos do PT na janela de casa e do carro, se sentiu traído, quando as denúncias ocuparam as manchetes da mídia. As corporações empresariais, que dominam os meios de comunicação, bateram firme e forte no governo Dilma até abalar as estruturas e fazer o edifício petista ruir com estrondo. 

Sem cometer nenhum crime no exercício do cargo, Dilma desabou no impeachment, mas ganhou de Lewandowski o direito de ser derrotada na eleição para senadora. 

O PT deveria ter reconhecido seus erros. Deveria ter feito uma autocrítica, mas o partido agiu como se não fosse com ele, como se a pulverização de sua ética fosse um equívoco menor. 

A derrocada do PT trouxe à luz personagens diversos. Surgiu o jornalista partidário, melhor representado por Reinaldo Azevedo, que cunhou o bordão "petralhas". Veio essa professora Janaína Paschoal, que pronunciava discursos no Largo de São Francisco, como se estivesse tomada por algum espírito subterrâneo, e que encontrou um atalho jurídico para o impeachment golpista. Apareceu o jovem Kim Kataguiri, do MBL (Movimento Brasil Livre), bolsista da fundação norte-americana mantida pelos irmãos Koch (fique esperto Monteiro Lobato, 'o petróleo era nosso'). Vieram os juízes e promotores partidários, preocupados em condenar integrantes de legendas específicas e esquecer os demais (Aécio Neves está livre e solto e inacreditavelmente eleito com 100 mil votos). Os eleitores elegeram Janaína e Kataguiri para cargos parlamentares. Articuladores do golpe foram premiados pelas urnas. Para os eleitores, eles teriam agido corretamente em derrubar uma presidenta eleita, para "pôr fim à corrupção". 

Só que a corrupção continuava bem de saúde. O ex-ministro de Temer Geddel Vieira Lima tinha R$ 51 milhões em um apartamento. Aécio Neves pedia R$ 2 milhões a Joesley Batista. E o próprio presidente Temer era acusado de liderar organização criminosa, que teria desviado R$ 587 milhões.

Sem provas efetivas para condenar Lula, o ex-presidente acabou na cadeia por causa de um apartamento, que nunca foi dele e onde ele nunca morou. Sob as acusações de "corrupção passiva" e "lavagem de dinheiro", o juiz Sergio Moro condenou Lula a 12 anos de prisão. Na realidade, a condenação de Lula foi motivada pela suposição de que, quando era presidente, ele teria conhecimento da corrupção que grassava na Petrobrás e que quase levou a petrolífera para o buraco. Prova mesmo - uma escritura, por exemplo - não havia. 

Dia 28 de outubro, um domingo, o Brasil elege seu próximo presidente. O jornal francês Libération, em sua edição de 5 de outubrocolocou a foto de Bolsonaro ocupando toda a primeira página e o texto proclamou: "Racista, homofóbico, misógino, pró-ditadura e mesmo assim ele seduziu o Brasil". 

Então, precisamos escolher entre o candidato de um partido que errou muito, quando esteve no poder, mas mesmo assim trouxe esperança para quem não tinha nenhuma esperança; e outro candidato que vai de encontro a todos os valores democráticos saudáveis, "uma folha seca que vai com o vento e a ventania está forte", como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre Bolsonaro. 

A escolha não é simples, mas, para quem foi em todos aqueles memoráveis atos pela volta das Eleições Diretas, a decisão parece óbvia. Será difícil conquistar corações e mentes, rendidos ao "mito", ao "anticomunismo", mas tem luta que vale a pena ser travada. E esta é, sem dúvida, uma delas.   
         



       

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...