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| O professor Luiz Roberto Alves morreu aos 78 anos |
A gente vai envelhecendo e ficando órfão. São vários níveis de orfandade. Perdemos os avós, os tios e os pais. E vamos perdendo as pessoas que tiveram relevância em nossa vida. Vamos ficando mais sós, mais entregues a um vazio existencial. O professor Luiz Roberto Alves morreu na terça-feira, em razão de um câncer. Somente hoje, três dias depois, consegui sentar diante do computador.
Conheci o professor Luiz Roberto em 1982, quando ingressei na pós-graduação (mestrado) na Universidade Metodista de São Paulo. Sentia falta de preparo intelectual para exercer a minha profissão (jornalista). Buscava direcionamento de leituras. Via a pós-graduação como uma alternativa para a minha formação, que julgava precária, apesar de vir de duas faculdades (letras e jornalismo).
Houve um sorteio entre os professores que iriam dirigir os mestrandos e o professor Luiz Roberto ficou sendo meu orientador de mestrado. Foi assim... casual. Ele não me conhecia e eu estava chegando no mundo acadêmico naquele momento.
As aulas do professor Luiz Roberto eram deliciosas. Ele esbanjava erudição, didática e tornava atraentes os textos e autores mais difíceis. Para mim, aquelas aulas eram momentos de entrega e afeição ao conhecimento.
Entre os livros que o professor Luiz Roberto me indicou, estava o "Pesquisador participante", de Carlos Rodrigues Brandão, editado pela Brasiliense. Esse livro foi fundamental, porque mostrava que o pesquisador não devia apenas ser aquele sujeito de bloco e caneta na mão, sugando todo o conhecimento dos entrevistados. A pesquisa participante ia além de recolher dados, transcrevê-los e analisá-los. O pesquisador ouvia, recolhia as reivindicações e trabalhava para agregar a população e ir em busca de melhorias para o povo da localidade, pressionando as autoridades.
Foi graças a esse livro, indicado pelo professor Luiz Roberto, que comecei a fazer pesquisas em comunidades e agir como alguém disposto a lutar por melhorias.
Em 1982, vivia-se o ocaso da Ditadura Militar. Após a decretação da Anistia em 1979, era possível fazer reuniões comunitárias, discutir os problemas e buscar soluções, sem ir para a cadeia por causa disso. Como pesquisador participante, trabalhei junto aos moradores da Vila Clementino para trocar as caldeiras a óleo diesel dos hospitais São Paulo e Cruz Verde por caldeiras elétricas, menos poluentes. Saímos vitoriosos. A mesma estratégia seria repetida, anos mais tarde, para conseguir fechar a fábrica da Companhia União dos Refinadores de Açúcar e Café, do bairro da Mooca, em São Paulo.
Nessa mesma época, iniciei a pesquisa para a dissertação de mestrado, em Piedade do Paraopeba (MG). Em acordo com o professor Luiz Roberto iria produzir um estudo de comunidade, a exemplo do que o professor Antonio Candido, havia feito em Bofete (SP), que resultou na sua obra celebrada "Os parceiros do Rio Bonito". Como pesquisador participante, ao final da coleta de dados, montei uma comissão de moradores e fomos até a sede do distrito, em Brumadinho, pleitear melhorias. Fomos recebidos com espanto pelas autoridades, não acostumadas a ouvir reivindicações.
Dois anos depois, em 1984, quando escrevia uma monografia sobre a Vila Clementino, também para o mestrado, veio a notícia da possível destruição da primeira casa modernista construída no Brasil. Era um terreno de 24 mil metros quadrados, com área verde ampla e a casa histórica, erguida pelo arquiteto Gregori Warchavchik. Houve processo semelhante: agregar os moradores, buscar alternativas para salvar a casa e a área verde, correr atrás das autoridades. Na época, fomos auxiliados por três vereadores: Luiza Erundina, Irede Cardoso e Marcos Mendonça. Foi Marcos Mendonça quem me arrumou um advogado, porque fui processado pela construtora (o juiz me absolveu e até me elogiou na sentença). Graças ao então prefeito Mario Covas e ao então governador Franco Montoro, a Casa Modernista foi salva. Virou parque e hoje recebe a visita de famílias e estudantes de arquitetura. Concluí a monografia - Vila Clementino - e ela foi premiada pela Prefeitura de São Paulo e virou livro.
No dia que o livro foi lançado, durante a noite de autógrafos, apareceu o professor Luiz Roberto. A gente se abraçou muito, porque aquela conquista era igual, era como se ambos tivéssemos escrito o livro. Eu o abracei e disse: "Conseguimos, professor. Conseguimos".
Trabalhei em vários jornais, publicações e, em 1993, fui contratado pelo Diário do Grande ABC, na época dirigido pelo muito competente Alexandre Polesi. Polesi idealizou um projeto para fiscalizar o trabalho dos vereadores do Grande ABC. Chamava-se "Raio X das Câmaras". Representantes da sociedade civil eram reunidos pelo jornal, para analisar os projetos de lei, criados pelos vereadores, e identificar aqueles que eram relevantes e os que não tinham qualquer importância.
Eu era um dos repórteres escolhidos para acompanhar as reuniões e fui buscar o professor Luiz Roberto, que era um dos convidados para fazer parte daquele "júri", que iria analisar os projetos dos vereadores. Na época, estava finalizando meu doutorado pela USP e havia reencontrado o professor Luiz Roberto, que era docente da Eca (Escola de Comunicações e Artes) e tinha voltado a ser meu professor (felizmente).
A Redação do Diário do Grande ABC tinha gente experiente, mas a maior parte era uma garotada recém-saída das faculdades. Lembro da reação do professor Luiz Roberto ao ver os rostos dos jornalistas: "Nossa, Danilo, eles são meninos e meninas", comentou surpreso. "Seria preciso ter mais gente de cabelo branco na Redação", ele avaliou, com acerto.
O professor Luiz Roberto foi secretário municipal em São Bernardo e Mauá. Me recordo de um político de Mauá, queixando-se do professor, que era um intelectual e por isso usava termos nem sempre permeáveis aos ouvidos menos capazes. "Não entendo nada do que ele diz", dizia o político, de ascensão breve e desaparecimento igual.
O professor Luiz Roberto também redescobria termos esquecidos. Lembro certa vez que saíamos da Metodista e precisávamos chegar em algum local, com urgência. O professor, ao meu lado, vinha de carona. Cortei o trânsito. Zanzei pela esquerda e direita. Acelerei. Freei. Até que conseguimos chegar a tempo para o compromisso. Meio zonzo, o professor comentou: "Danilo, você é bem vivaldino no trânsito, hein". Vivaldino, pensei, de onde o professor tirou essa?
Terminado o doutorado, passaram-se anos. Tinha aberto uma empresa de comunicação com o amigo James Capelli, quando recebi um convite inusitado do professor Luiz Roberto. Fui até a Metodista e enquanto tomávamos um café o professor me convidou a trabalhar novamente com ele, desta vez no pós-doutorado, que a Metodista havia recém-criado.
Renovamos nossa parceria e retornei à Piedade do Paraopeba, 25 anos depois, para nova coleta de pesquisa. Foi emocionante. O território estava mudado para melhor. Os anos de democracia haviam feito um bem danado para aquele pessoal, que, em 1982, não tinha transporte, escolas, postos de saúde e empregos. Duas décadas e meia depois, as estradas tinham sido pavimentadas, havia muita oferta de empregos, além de postos de saúde, escolas e melhoria considerável na qualidade de vida. Em 2013, apresentei o resultado da nova pesquisa, intitulado "A cultura rústica urbaniza-se: um estudo sobre os caboclos de Piedade do Paraopeba, em intersecção com os caipiras do Rio Bonito".
Enquanto apresentava o relatório final e entregava o calhamaço com 161 páginas com fotos dos entrevistados, para a banca do pós-doc, observei o professor Luiz Roberto e comecei a lembrar de tudo que havíamos feito em conjunto, desde aquele longínquo 1982, e me deu uma tristeza profunda, porque percebi que nunca mais iríamos trabalhar juntos. Aquela era a nossa despedida. E de fato foi.