Danilo Angrimani - Jornalista independente
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
sábado, 10 de janeiro de 2026
Tiago Leifert me enganou
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
O péssimo serviço prestado pelas concessionárias de energia
| Gastar dinheiro em rede de energia aérea é investir no passado |
A cidade onde moro no interior de São Paulo é abastecida com energia elétrica por uma concessionária, chamada CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Na realidade, não é uma companhia paulista, porque é uma estatal chinesa, com nome inglês – State Grid Corporation of China. A SGCC assumiu a concessão de fornecimento de energia em 2017. Quase toda semana, a luz acaba em casa. Assim, sem mais nem menos, você está trabalhando no computador, o ar-condicionado ligado, e puf! Acabou a luz. Espera aí: voltou! Não, acabou de novo. Um momento... Voltou. É uma CPFL vagalume. Às vezes, demora horas para normalizar o serviço. Na cidade, as reclamações são muitas. A dona da pizzaria reclama que em um dos apagões o frigorífico dela foi pro vinagre. Outro diz que a geladeira morreu; um terceiro fala que foi o micro-ondas.
Em São Paulo, o fornecimento de energia é oferecido pela
italiana Enel. A sigla significa: Ente Nazionale per l’Energia Eletttrica
(entidade nacional de energia elétrica). A Enel está ameaçada de perder a
concessão, por causa dos problemas causados aos paulistanos. Uma chuva mais
forte, caem árvores sobre a rede elétrica, fios entram em combustão... Puf!
Milhares de domicílios e comércios no escuro. As pessoas se revoltam,
protestam, os meios de comunicação vão até os consumidores e levam à TV, aos
jornais, rádios as reclamações. Recentemente, enquanto milhares estavam no
escuro, um grupo de funcionários da CPFL fazia uma dancinha, em plena avenida
Paulista. Disseram que seria um clipe de fim de ano. Um acinte ao consumidor
que paga e toma prejuízo na cabeça.
Há um clamor intercontinental, podemos dizer assim, contra a
privatização de certos serviços essenciais. Nos Estados Unidos, França, Reino
Unido e Alemanha, 884 empresas de saneamento e fornecimento de água foram reestatizadas.
O motivo é elementar: as concessionárias não davam conta do recado.
Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os serviços de
telefonia no Brasil foram privatizados. Foi uma benção dos céus. Na época, um
simples telefone custava quase o preço de um carro zero quilômetro. Tinha gente
que vivia de alugar e vender telefone. Ganhava uma nota preta. Com a
privatização, acabou a mamata e todo brasileiro pôde ter direito ao seu
telefone. Hoje, são 272 milhões de celulares de posse de cada cidadão desta
Terra Brasilis. Ou seja, 1,3 celular para cada brasileiro.
Então, a privatização não é necessariamente errada, mas
quando um determinado serviço é privatizado – porque o governo não consegue dar
conta – a empresa proprietária da concessão deveria oferecer um serviço
perfeito. Sem críticas, sem esse mal-estar generalizado que os consumidores sentem
em relação às concessionárias, como CPFL e Enel.
Um erro elementar é o investimento em postes na rede aérea.
Foi por volta de 1920 que as ruas das principais cidades brasileiras começaram
a ser eletrificadas. O sistema é o mesmo: finca-se um poste na rua, sobre ele
colocam-se uns varões e passam-se os fios lá por cima. Acontece que as ruas
sempre têm árvores e as árvores têm galhos e os galhos nunca se deram bem com a
rede elétrica. Eles costumam se enroscar nos fios, eles quebram e desabem sobre
a fiação, gerando explosões e interrupção do fornecimento de energia. Para
evitar o problema, que é crônico, porque chove, porque os galhos vão arrebentar
mesmo a rede elétrica, vários países optaram pela eletrificação subterrânea. É
o caso da França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Estados Unidos e até a
Argentina (Buenos Aires). Os motivos são
vários: estética (as cidades ficam mais bonitas sem toda aquela “fiarada” em
cima da cabeça da gente), confiabilidade (ventos fortes e tempestades não
interrompem o fornecimento de energia) e mais segurança (milhares de pessoas
são vítimas de descargas elétricas provocadas por fios tombados nas ruas e
avenidas).
Aqui onde moro, ocorre um acúmulo de erros. A CPFL está
trocando os postes. Ou seja, investindo no passado. Ao invés de enterrar a
fiação, prefere enterrar postes. Acontece que sobre os postes não há apenas os
fios da CPFL. Não, não, não...Tem também a fiação das empresas que fornecem
internet. Essas empresas, como a Zaaz, por exemplo, colocam suas fibras óticas
nos postes da CPFL. E a CPFL odeia isso. Entende que a fibra ótica seria uma
espécie de parasita enroscado em seu poste querido. Então, observei os
eletricistas da CPFL trocando os postes velhos pelos novos e de quebra
arrebentavam toda a fiação da internet. Eles faziam isso com ódio mesmo, com
muita raiva. Vi um eletricista pegar um tipo de machadinho e lascar o negócio
sobre a fibra ótica. Quem dependia da Zaaz para ter internet em casa ficou até
cinco dias sem o serviço. Hoje, a internet virou um serviço essencial. Sem
internet, a gente não consegue mais ter controle sobre a própria vida. Cadê o
meu saldo no banco, cadê a família, onde estão os amigos e os clientes? Todo
mundo sumiu, por causa da internet que se foi.
Então, a Zaaz demorou, mas veio e recolocou os cabos no
lugar. E alguns dias depois, os eletricistas da CPFL retornaram para trocar
novos postes e voilà: os pobres dos cabos da internet foram atirados com
violência extrema no chão (alguns continuam até hoje por aí). Novamente, a Zaaz
e outras empresas de internet voltaram e foi uma luta para restabelecer o serviço.
Em meados deste mês de janeiro, outros postes serão trocados e mais uma vez os cabos
de fibra ótica vão ser atirados no chão. É um sistema, como vou dizer, meio
burro de trabalho, porque o pessoal da internet poderia conversar com a CPFL e
trabalhar em conjunto, mas isso não acontece.
A CPFL pede para a gente baixar o aplicativo dela e informar
quando deu algum problema no fornecimento de energia. Acontece que, sem
energia, a internet não funciona e consequentemente também o aplicativo não
pode ser colocado pra funcionar. Não pega nem no tranco. Aí cabe a você sair
andando pelo mundo, em busca de um sinal salvador.
O aplicativo nem sempre funciona direito. Como é um robô que
está lhe atendendo, às vezes ele não entende o que você quer. Você passa o
número da instalação para o robô e ele diz: “Não encontrei seu documento em
nosso sistema. Qual seu nome completo?” Você digita o nome e ele pergunta
novamente: “qual seu nome completo?”. E outra vez, e outra vez, e outra vez. É
um robô burrinho, coitado.
A Zaaz marca visita técnica para tal dia e tal horário e não
aparece. Você reclama e é informado que tem uma visita técnica marcada para
dali a pouco. Você não sai de casa, fica aguardando e ninguém aparece. Reclama
novamente. Eles marcam para outro dia. E não aparecem. Finalmente, você
consegue falar com um atendente da Zaaz. Ele pede uma foto do roteador. Explico
que ele não precisa ver a foto, porque os cabos da internet foram jogados no
chão, por isso que a internet não funciona. “Estão no chão”, eu grito, meio
fora de controle. Mesmo assim, ele pede a foto. Tiro a foto e mando pra ele,
com aquela demora básica de vários minutos, porque, afinal, estou sem internet
em casa.
Um festival de incompetência. Depois de oito dias sem
internet, reclamei no Reclame Aqui e apareceu uma funcionária que conseguiu
mandar uma equipe em casa e o serviço foi normalizado. Mas é uma luta. Uma luta
inglória. Fica sempre a sensação que você está perdendo. Parece até título do
livro do Walter Mostley, “Sempre em desvantagem”.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
São Silvestre, a corrida
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| A mais tradicional corrida de rua do País completou cem anos |
Quem exibia a prova era a TV Gazeta. Acompanhar a disputa, na época, era complicado, porque a transmissão se interrompia a todo momento. A imagem tremia. Entrava um sinal do prefixo da TV. Os recursos técnicos da Gazeta deixavam a desejar. O narrador falava com a voz tremida, meio aos solavancos e frequentemente sumia. Mesmo assim, no meio daquela precariedade da transmissão, a gente torcia. O último brasileiro vencedor tinha sido Sebastião Alves Monteiro, em 1946.
Depois, vieram lendas do atletismo, como Emil Zatopek - "a locomotiva humana" - um tcheco que elevou o padrão de disputas e tornou a competição brasileira conhecida nos grandes centros. Meu pai foi assistir e ficou assombrado com a velocidade de Zatopek. "Enquanto os outros estavam virando a primeira esquina, o Zatopek estava próximo da linha de chegada", meu pai exagerava.
Eu era criança, quando vi o belga Gaston Roelants se sagrar tetracampeão. Roelants me deu vontade de participar da prova. Parecia fácil. Até então, a corrida tinha 8 quilômetros e 700 metros.
Mas quando chegou a minha vez de participar da São Silvestre o trajeto havia sido ampliado e eram agora 15 longos quilômetros. Mesmo velho e cansado, achei que estava na hora de participar, de sentir o "glamour" da mais tradicional corrida de rua do País. Treinei bastante, para evitar morrer no meio da rua. Enquanto os vencedores, faziam a prova em 45 minutos, em média, eu demorava duas horas para completar os malditos 15 quilômetros. É claro que, com o passar dos anos, o tempo tende a baixar. Meu melhor tempo foi de uma hora e cinquenta. Se corresse mais uns cem anos, talvez chegasse nos 45 minutos dos finalistas.
A São Silvestre, que tem esse nome obviamente em homenagem ao santo do dia, é uma competição difícil, porque no dia 31 de dezembro está quente e abafado. Quando chove, é pior, porque sobe um vapor do chão que deixa a gente sem respirar. A chuva bate no asfalto fervente e aquela evaporação é insuportável. Além do calor, o que me incomodava muito eram os folclóricos. Gente pintada, gente fantasiada. Tinha um cidadão vestido de noiva, com buquê e tudo que corria conosco. Para mim, corrida de São Silvestre era uma coisa séria. Nada a ver com aqueles folclóricos irritantes.
A largada acontecia em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). Comecei a prova e quando cheguei na rua Augusta senti uma dor lancinante no músculo adutor da perna esquerda. Pus a mão na coxa. Doía muito. Justamente nessa hora, um fotógrafo me flagrou e o jornal da São Silvestre relatou: "Danilo Angrimani com cara de dor já nos primeiros 300 metros da prova". Dedo-duro sacana! O que o infeliz não contou é que completei os 15 quilômetros. Cada quilômetro com uma dor terrível na coxa. Mas completei. Sabe-se lá por quê.
Em 2011, uma tarde assustadoramente quente, com muito sol, estava no final do Minhocão, virando à direita para pegar a avenida Pacaembu, quando vi o ganhador da São Silvestre do ano anterior - era um brasileiro - vomitando tudo que tinha direito. O coitado estava apoiado no guard-rail do Minhoão e dava adeus à corrida. Pensei: "Putz, se o vencedor de 2010 está desse jeito, imagine o que vai acontecer comigo quando chegar na Brigadeiro?".
A avenida Brigadeiro Luís Antônio é uma subida cruel. Você está com a língua de fora, pedindo para Jesus vir lhe buscar, quando chega na Brigadeiro e olha aquela subida interminável. As pernas querem parar. O cérebro insiste em parar. O corpo todo pede pelo amor de deus para você entrar na rua Maria Paula e esquecer aquilo tudo. Mesmo assim, você continua. Vai subindo. Dos dois lados da rua, grupos de pessoas acenam para você. Estendem as mãos. Eles o incentivam a morrer. A melhor hora é quando você chega no final da Brigadeiro, vira à direita na avenida Paulista e vê o marco da chegada ali na frente. Você conseguiu. Superou seus limites. Não morreu (ao contrário do que imaginava) e agora é correr para o abraço da rapeize.
Assisti a São Silvestre de 1958 a 1979, torcendo para ver um brasileiro cruzar em primeiro na linha de chegada. Não fui feliz. Ganhava sempre um estrangeiro. Em 1980, decidi que iria fazer outra coisa no dia 31 de dezembro, mas não veria a São Silvestre. "Não adianta", falei para a família, "nenhum brasileiro ganha mesmo". Só que ganhou. José João da Silva, atleta do São Paulo, chegou em primeiro e quebrou aquele jejum que já durava longos 34 anos. "Fizemos uma festa tremenda", meu pai contou, "pena que você não estava aqui". Pois é...
Este ano assisti a São Silvestre pela TV. Recentemente, estava treinando, correndo 14 quilômetros e estourei o tendão de aquiles da perna esquerda. Muito gelo e compressa quente. Vi ganhar um etíope e uma atleta da Tanzânia, porque faltam investimentos para os atletas brasileiros.
O terceiro colocado, o brasileiro Fábio de Jesus, declarou para o Uol: "O atletismo está acabando, indo água abaixo. Os atletas precisam se virar, se quiserem competir: Às vezes a gente treina na rua, com carro atrapalhando, cachorro passando, correndo risco de torcer o pé. Muitas vezes a gente chega na pista e é barrado". Até os 14 anos, informou a reportagem, Jesus corria descalço, em Monte Santo, na Bahia. Foi coletor de lixo e mudou-se para São Paulo, para se dedicar exclusivamente ao atletismo.
Além da falta de incentivo, destacada por Fábio de Jesus, o jejum de brasileiros no primeiro lugar do pódio já incomoda novamente. Faz 15 anos que um brasileiro não ganha a prova.
Depois de ter participado de algumas provas da São Silvestre, posso dizer que seria muito melhor se a prova fosse disputada à noite. É mais fresco, mais saudável, mais humano. Em 1982, a TV Globo passou a transmitir a prova, com toda a técnica e a competência que lhe é habitual, nos livrando do quase amadorismo da TV Gazeta. Em 1989, no entanto, a mesma Globo mudou o horário da disputa, passando para a tarde. Essa alteração tirou todo o glamour e a emoção da São Silvestre.
Durante uma cobertura noturna da São Silvestre, antes da mudança de horário, lembro de um repórter, muito emocionado. Os atletas estavam chegando na Paulista, os rojões estouravam em volta, o público delirava e o repórter, que era carioca, começou a chorar. "Isso é lindo, meu deus", ele falou para os jornalistas próximos dele.
A São Silvestre mudou para a tarde e agora é disputada de manhã. Por causa de sua grade de programação, que deixa aqueles shows insossos, com artistas que a gente mal lembra o nome, para serem transmitidos na hora da virada, a Globo conseguiu fazer mais uma vítima. É uma pena, porque tem eventos tradicionais que não deveriam ser deformados. Imagine se a BBC sugerir que Wimbledon troque suas quadras de grama por grama artificial. Acho que até o rei Charles iria se engasgar com o chá.
domingo, 28 de dezembro de 2025
Alexandre de Moraes, Banco Master, Sergio Moro e 2025 que não acaba
| O então juiz Sergio Moro à frente de jornalistas. A seta aponta para a jornalista Malu Gaspar, de "O Globo" |
Quem é Galipolo? Ele é o presidente do Banco Central. Seria
ele quem teria condições de “salvar” o Banco Master da liquidação. Mas não foi
isso que aconteceu. O Banco Central liquidou o Banco Master e Daniel Vorcaro,
que era presidente da instituição na ocasião, foi preso pela PF (Polícia
Federal), em novembro.
O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal
Federal) fez lobby para salvar o Banco Master, como afirma o jornal “O Globo”?
O ministro garante que não.
No dia seguinte da publicação de “O Globo”, Moraes emitiu
nota dizendo que não telefonou para Galípolo, para tratar do Banco Master.
Veja a nota do ministro:
"O Ministro Alexandre de Moraes esclarece que realizou, em seu
gabinete, duas reuniões com o Presidente do Banco Central para
tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnistiky. A primeira no dia
14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/08; e a segunda no dia
30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no dia
22/09. Em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou
realizada qualquer pressão referente a aquisição do BRB (Banco de
Brasília)
pelo Banco Master.
“Esclarece,
ainda, que jamais esteve no Banco Central e que inexistiu qualquer ligação
telefônica entre ambos, para esse ou qualquer outro assunto. Por fim, esclarece
que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de
aquisição BRB-Master perante o Banco Central",
As mesmas fontes, que teriam tido conhecimento do suposto lobby de
Moraes sobre o Banco Central, disseram que o ministro do STF foi
além e pressionou também a PF.
A articulista da “Folha”, Monica Bergamo, questionou o diretor geral
da PF, Andrei Rodrigues, sobre o suposto encontro de Moraes com
ele. Rodrigues disse que isso não aconteceu e que tinha ouvido esses
boatos.
O caso continuou repercutindo. Em 27 de dezembro, o
colunista da “Folha” Demétrio Magnoli escreveu um texto, desafiando o ministro
Alexandre de Moraes a provar que não tinha feito lobby sobre o presidente do
Banco Central, Gabriel Galípolo.
As redes antissociais foram à loucura, porque a afirmação de
Magnoli era realmente um disparate. A pessoa acusada é quem deveria provar que
não tem culpa; e não o acusador mostrar as suas provas. Na Justiça,
normalmente, ao acusador cabe o ônus da prova, a gente aprendia no primário.
O ministro Alexandre de Moraes notabilizou-se pela salvaguarda
da democracia brasileira. As suas atitudes, a sua firmeza, a sua coragem foram
determinantes para expor, julgar e condenar os golpistas, que tentaram demolir
a nossa ainda frágil democracia. O Brasil tem uma dívida histórica para com o
ministro Alexandre de Moraes.
Ocorre, no meio desse caminho, um problema de ordem ética. O
ministro é casado com a advogada Viviane Barci de Moraes. O escritório de
advocacia dela tinha fechado um contrato de 129 milhões de reais com o Banco
Master (remuneração mensal de 3 milhões e 600 mil por três anos, de acordo com
o Uol).
Segundo o “Estadão”, Viviane Barci tinha 27 casos a serem julgados no STF, antes da posse de seu marido no Supremo. Após a posse dele, o
total de casos subiu para 152. Não é ilegal a esposa de Moraes ter 152
processos em julgamento no STF.
Em 2023, o STF julgou que a regra que impedia juízes de
julgar casos, em que clientes de escritórios de seus parentes (até terceiro
grau) atuavam, era inconstitucional, pois era impossível o juiz saber de todos
os clientes de todos os escritórios de seus familiares.
Não é ilegal para a esposa do ministro ter 152 processos em
julgamento no STF, é fato, no entanto, não pega bem para a imagem do ministro.
Dá impressão de favorecimento, de uma espécie de nepotismo enviesado. Entendo
que a esposa do ministro tem direito de exercer sua profissão e que seria
inconstitucional impedi-la de advogar para seus clientes no STF. Mas, se eu
fosse o ministro, pediria para ela passar para outro escritório, de algum
advogado parceiro, esses casos que dependem de julgamento no Supremo. O
escritório de advocacia dela vai perder dinheiro? Sim, vai perder, mas a imagem
do ministro não pode ser prejudicada. A democracia brasileira é devedora de
Moraes. Por isso, tudo que possa macular sua imagem precisa ser retirado do
quadro.
Em relação à articulista de “O Globo” Malu Gaspar, ela tem
sido “metralhada” nas redes antissociais. Dizem que ao contrário do ex-juiz da
Lava-Jato Sergio Moro que lhe passava “quentinhas exclusivas” (notícias que
ninguém tinha, só ela), Moraes nunca lhe passou qualquer furo jornalístico. Por
isso, ela teria uma dívida de “ingratidão”, em relação ao ministro do Supremo.
As postagens no Instagram (etc.) cobram de Malu Gaspar “as provas” de que
Moraes teria feito mesmo lobby a favor do Banco Master. E a maioria diz que ela
é “amiguinha” de Moro. Tem até uma foto de Malu ao lado de Moro, sentado como
se fosse um rei, cercado por uma corte de "admiradores" (na realidade, jornalistas). A foto refere-se, na realidade, a uma entrevista de Moro concedida ao programa "Roda Viva", em 20 de janeiro de 2020.
A informação da articulista de “O Globo”, colocando Moraes
na linha de fogo como lobista, veio quando mais se falava do senador Sergio
Moro pelo partido União Brasil.
Acontece que a Polícia Federal fez uma busca e apreensão na
13ª Vara Federal de Curitiba, em 3 de dezembro último, descobrindo que o
ex-juiz Sergio Moro grampeava autoridades com foro privilegiado. A ação da PF foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli do
Supremo.
Os grampos eram ilegais.
Nessa mesma operação, a PF descobriu um vídeo, intitulado “Festa
da cueca”. A filmagem, segundo noticiaram os veículos de comunicação, mostrava
garotas de programa com autoridades do judiciário, em nível hierárquico superior
ao do então juiz Sergio Moro. De acordo com analistas políticos, Moro usaria
esse vídeo dos magistrados com as putas para chantagear desembargadores que
deveriam analisar seus procedimentos jurídicos.
Depois da “bomba” jornalística, lançada por Malu Gaspar
contra Moraes, as notícias da “Festa da cueca” e as acusações contra Moro foram
caindo em “esquecimento” provisório. Será que foi uma simples coincidência?
Nunca um ano demorou tanto pra acabar. Vou te contar...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Luiz Roberto Alves
| O professor Luiz Roberto Alves morreu aos 78 anos |
A gente vai envelhecendo e ficando órfão. São vários níveis de orfandade. Perdemos os avós, os tios e os pais. E vamos perdendo as pessoas que tiveram relevância em nossa vida. Vamos ficando mais sós, mais entregues a um vazio existencial. O professor Luiz Roberto Alves morreu na terça-feira, em razão de um câncer. Somente hoje, três dias depois, consegui sentar diante do computador.
Conheci o professor Luiz Roberto em 1982, quando ingressei na pós-graduação (mestrado) na Universidade Metodista de São Paulo. Sentia falta de preparo intelectual para exercer a minha profissão (jornalista). Buscava direcionamento de leituras. Via a pós-graduação como uma alternativa para a minha formação, que julgava precária, apesar de vir de duas faculdades (letras e jornalismo).
Houve um sorteio entre os professores que iriam dirigir os mestrandos e o professor Luiz Roberto ficou sendo meu orientador de mestrado. Foi assim... casual. Ele não me conhecia e eu estava chegando no mundo acadêmico naquele momento.
As aulas do professor Luiz Roberto eram deliciosas. Ele esbanjava erudição, didática e tornava atraentes os textos e autores mais difíceis. Para mim, aquelas aulas eram momentos de entrega e afeição ao conhecimento.
Entre os livros que o professor Luiz Roberto me indicou, estava o "Pesquisador participante", de Carlos Rodrigues Brandão, editado pela Brasiliense. Esse livro foi fundamental, porque mostrava que o pesquisador não devia apenas ser aquele sujeito de bloco e caneta na mão, sugando todo o conhecimento dos entrevistados. A pesquisa participante ia além de recolher dados, transcrevê-los e analisá-los. O pesquisador ouvia, recolhia as reivindicações e trabalhava para agregar a população e ir em busca de melhorias para o povo da localidade, pressionando as autoridades.
Foi graças a esse livro, indicado pelo professor Luiz Roberto, que comecei a fazer pesquisas em comunidades e agir como alguém disposto a lutar por melhorias.
Em 1982, vivia-se o ocaso da Ditadura Militar. Após a decretação da Anistia em 1979, era possível fazer reuniões comunitárias, discutir os problemas e buscar soluções, sem ir para a cadeia por causa disso. Como pesquisador participante, trabalhei junto aos moradores da Vila Clementino para trocar as caldeiras a óleo diesel dos hospitais São Paulo e Cruz Verde por caldeiras elétricas, menos poluentes. Saímos vitoriosos. A mesma estratégia seria repetida, anos mais tarde, para conseguir fechar a fábrica da Companhia União dos Refinadores de Açúcar e Café, do bairro da Mooca, em São Paulo.
Nessa mesma época, iniciei a pesquisa para a dissertação de mestrado, em Piedade do Paraopeba (MG). Em acordo com o professor Luiz Roberto iria produzir um estudo de comunidade, a exemplo do que o professor Antonio Candido, havia feito em Bofete (SP), que resultou na sua obra celebrada "Os parceiros do Rio Bonito". Como pesquisador participante, ao final da coleta de dados, montei uma comissão de moradores e fomos até a sede do distrito, em Brumadinho, pleitear melhorias. Fomos recebidos com espanto pelas autoridades, não acostumadas a ouvir reivindicações.
Dois anos depois, em 1984, quando escrevia uma monografia sobre a Vila Clementino, também para o mestrado, veio a notícia da possível destruição da primeira casa modernista construída no Brasil. Era um terreno de 24 mil metros quadrados, com área verde ampla e a casa histórica, erguida pelo arquiteto Gregori Warchavchik. Houve processo semelhante: agregar os moradores, buscar alternativas para salvar a casa e a área verde, correr atrás das autoridades. Na época, fomos auxiliados por três vereadores: Luiza Erundina, Irede Cardoso e Marcos Mendonça. Foi Marcos Mendonça quem me arrumou um advogado, porque fui processado pela construtora (o juiz me absolveu e até me elogiou na sentença). Graças ao então prefeito Mario Covas e ao então governador Franco Montoro, a Casa Modernista foi salva. Virou parque e hoje recebe a visita de famílias e estudantes de arquitetura. Concluí a monografia - Vila Clementino - e ela foi premiada pela Prefeitura de São Paulo e virou livro.
No dia que o livro foi lançado, durante a noite de autógrafos, apareceu o professor Luiz Roberto. A gente se abraçou muito, porque aquela conquista era igual, era como se ambos tivéssemos escrito o livro. Eu o abracei e disse: "Conseguimos, professor. Conseguimos".
Trabalhei em vários jornais, publicações e, em 1993, fui contratado pelo Diário do Grande ABC, na época dirigido pelo muito competente Alexandre Polesi. Polesi idealizou um projeto para fiscalizar o trabalho dos vereadores do Grande ABC. Chamava-se "Raio X das Câmaras". Representantes da sociedade civil eram reunidos pelo jornal, para analisar os projetos de lei, criados pelos vereadores, e identificar aqueles que eram relevantes e os que não tinham qualquer importância.
Eu era um dos repórteres escolhidos para acompanhar as reuniões e fui buscar o professor Luiz Roberto, que era um dos convidados para fazer parte daquele "júri", que iria analisar os projetos dos vereadores. Na época, estava finalizando meu doutorado pela USP e havia reencontrado o professor Luiz Roberto, que era docente da Eca (Escola de Comunicações e Artes) e tinha voltado a ser meu professor (felizmente).
A Redação do Diário do Grande ABC tinha gente experiente, mas a maior parte era uma garotada recém-saída das faculdades. Lembro da reação do professor Luiz Roberto ao ver os rostos dos jornalistas: "Nossa, Danilo, eles são meninos e meninas", comentou surpreso. "Seria preciso ter mais gente de cabelo branco na Redação", ele avaliou, com acerto.
O professor Luiz Roberto foi secretário municipal em São Bernardo e Mauá. Me recordo de um político de Mauá, queixando-se do professor, que era um intelectual e por isso usava termos nem sempre permeáveis aos ouvidos menos capazes. "Não entendo nada do que ele diz", dizia o político, de ascensão breve e desaparecimento igual.
O professor Luiz Roberto também redescobria termos esquecidos. Lembro certa vez que saíamos da Metodista e precisávamos chegar em algum local, com urgência. O professor, ao meu lado, vinha de carona. Cortei o trânsito. Zanzei pela esquerda e direita. Acelerei. Freei. Até que conseguimos chegar a tempo para o compromisso. Meio zonzo, o professor comentou: "Danilo, você é bem vivaldino no trânsito, hein". Vivaldino, pensei, de onde o professor tirou essa?
Terminado o doutorado, passaram-se anos. Tinha aberto uma empresa de comunicação com o amigo James Capelli, quando recebi um convite inusitado do professor Luiz Roberto. Fui até a Metodista e enquanto tomávamos um café o professor me convidou a trabalhar novamente com ele, desta vez no pós-doutorado, que a Metodista havia recém-criado.
Renovamos nossa parceria e retornei à Piedade do Paraopeba, 25 anos depois, para nova coleta de pesquisa. Foi emocionante. O território estava mudado para melhor. Os anos de democracia haviam feito um bem danado para aquele pessoal, que, em 1982, não tinha transporte, escolas, postos de saúde e empregos. Duas décadas e meia depois, as estradas tinham sido pavimentadas, havia muita oferta de empregos, além de postos de saúde, escolas e melhoria considerável na qualidade de vida. Em 2013, apresentei o resultado da nova pesquisa, intitulado "A cultura rústica urbaniza-se: um estudo sobre os caboclos de Piedade do Paraopeba, em intersecção com os caipiras do Rio Bonito".
Enquanto apresentava o relatório final e entregava o calhamaço com 161 páginas com fotos dos entrevistados, para a banca do pós-doc, observei o professor Luiz Roberto e comecei a lembrar de tudo que havíamos feito em conjunto, desde aquele longínquo 1982, e me deu uma tristeza profunda, porque percebi que nunca mais iríamos trabalhar juntos. Aquela era a nossa despedida. E de fato foi.
terça-feira, 4 de novembro de 2025
Violência no Brasil e lentidão governamental
É um desafio: criminosos ocuparam as favelas do Rio de Janeiro e criaram um país à parte. Não é mais o Brasil. É um país dominado por bandidos que cobram taxas para fornecimento de gás, água, combustível, internet e outros serviços. A população que mora nessas favelas é refém do crime e apoia qualquer ação que aniquile fisicamente seus opressores, mostram pesquisas recentes.
Estive a trabalho na Favela do Jacarezinho. Para chegar ao local do evento, que cobriria, não pude chamar um uber ou táxi qualquer. Era preciso encontrar um motorista de aplicativo da própria favela, senão não conseguiria entrar. Subi no carro, dirigido por uma moça. Ela conduziu até um dos pontos da entrada da favela, onde havia uma carcaça carbonizada de carro. Atrás dessa barricada improvisada, havia dois homens armados de fuzis. A motorista do aplicativo fez um sinal específico e os "guardas" arrastaram a carcaça e pudemos passar. Felizmente, não precisei mostrar passaporte, embora estivesse ingressando em "outro país", com outros "governantes" e "leis" ultrajantes.
Se há um "país" à parte, dentro do Brasil, não estava na hora de haver uma ação governamental, que envolvesse federação, estado, município para reocupar esse enclave criminoso, libertar os reféns e reinstaurar a ordem? Por que se demora tanto para criar um plano simples de reocupação do espaço ocupado? Todas as favelas cariocas têm entradas pontuais e muitas têm saídas na mata, por onde os bandidos procurados costumam fugir. É tão difícil assim imaginar um plano que possa bloquear os acessos e sufocar a criminalidade? Não algo momentâneo, com prazo curto de duração, mas permanente, incansável e edificante.
Além dessa ação de resposta ao crime, os governos deveriam investir maciçamente na eliminação da favela, substituindo-a por moradias decentes, com ruas planejadas, áreas verdes, infraestrutura completa, pondo um ponto final na degradação e na miséria urbana desses territórios. Gasta-se tanto no Brasil com o que não interessa, por que não "queimar" dinheiro no bom sentido numa operação plástica urbana de resultados palpáveis?
Nos últimos dias, cansei de ouvir especialistas, dizendo que operações policiais nos morros cariocas não levam a nada, porque os verdadeiros criminosos não estão nos morros, mas na Faria Lima. Pode até ser verdade que as lideranças do crime não precisem necessariamente morar na favela. Operações recentes de inteligência demonstraram como o crime organizado tem utilizado fundos de investimento da Faria Lima para lavar dinheiro. Ocorre que existe um fato concreto: as favelas cariocas foram ocupadas pela criminalidade e seus moradores continuam sendo reféns dos bandidos. Além de acertar o crime organizado no "bolso", revelando as operações de lavagem de dinheiro (combustíveis, fundos de investimento), é urgente também reocupar o território ocupado e libertar as pessoas.
É inadmissível alguém ser condenado à morte por trafegar pela avenida Brasil e ser levado pelo aplicativo a uma entrada de favela, onde um "guarda" - desse "país inimigo" dentro do Brasil - não vai hesitar em erguer o fuzil e disparar contra uma família, um casal, um viajante. Quanto tempo mais o Brasil vai conviver com esse "país" à parte, espécie de câncer em suas entranhas?
terça-feira, 7 de outubro de 2025
Jardim de Napoli
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| O verde e branco palmeirense sempre predominou na decoração |
Meu avô era zelador de um prédio que ficava na rua Senador Feijó, a dois passos da lendária praça da Sé, marco zero de São Paulo, de onde se marcam todas as distâncias. Nos anos 60, a gente podia sair à noite, dar uma volta pelo centro paulistano, sem voltar pra casa com história de violência para contar. Era assim: saíamos meu pai, minha mãe, minha irmã, minha tia e eu no sábado à noite (às vezes, muito raramente, o avô e a avó acompanhavam - morávamos todos juntos em um apartamento imenso). O prédio era comercial e estava completamente vazio àquele horário. Descíamos pelo elevador, que não era automático. Era necessário guiar o maquinário, mexendo na alavanca e freando quando chegava no andar desejado. Eu tinha aprendido com um ascensorista a mexer naquele comando desafiante e conseguia parar direitinho, sem deixar degrau. A porta do prédio tinha uns três metros de altura e era de ferro. Para abri-la, além de vários movimentos certeiros com a chave, era necessário ter força bruta para conseguir movê-la. Lá fora, o ar era habitualmente gelado e volta e meia caía uma garoa. Saíamos da rua Senador Feijó, entrávamos à esquerda na rua Cristóvão Colombo, cruzávamos a Riachuelo e descíamos pelo viaduto Brigadeiro Luís Antônio. Como a rua Cristóvão Colombo devia ter apenas uns 50 metros, alguém da família lembrava que dar o nome do grande navegador genovês para uma rua minúscula como aquela era um desaforo. Em cima do viaduto, olhávamos lá para baixo, onde havia uma rua pouco movimentada. Meu pai alertava: "Eles vão construir uma avenida que vai se chamar 23 de Maio, para ligar o centro ao aeroporto de Congonhas".
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
"La vita in diretta" é um "Aqui agora" italiano
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| 108, via Spartaco, Roma: prédio é refém da "senhora dos pombos" |
Telejornais policialescos são deliciosos. A gente assiste com um sorriso nos lábios, dando graças a deus por aquela desgraça não ter acontecido com a gente. Há também aqueles que gostam de ver para se colocar na pele dos vilões, dos transgressores. É ser bandido de forma vicária. Ou justiceiro, a salvo, na sala de casa. "Se fosse eu, também tinha metido uma 'azeitona' naquele vagabundo".
Na Itália, transmitido diariamente pela Rai (Radio Audizioni Italiane) - a TV e a Rádio públicos - chama atenção o programa "La vita in diretta". Apresentado por um barbudo, cara de malvado, chamado Alberto Matano, o telejornal traz uma enxurrada de crimes que não acabam mais. É a mãe que matou e cortou em pedaços o filho violento ("ucciso e fatto in pezzi"), ajudada - veja você - pela nora. É a esposa napolitana que deu 50 facadas no marido. Sem esquecer do senegalês que é suspeito de ter matado uma senhora de 78 anos, com 29 facadas na garagem da casa onde ela vivia. O senegalês quase que tem nome de brasileiro: Louis DaSilva e - se descobriu posteriormente - era amante da nora da executada. Tem a garota de 22 anos que matou o filho recém-nascido e o enterrou. Não falta o suicida de 70 anos que saltou do balcão do prédio onde vivia e caiu em cima da vizinha de 83 anos, que andava pela rua. O suicida matou a vizinha e ficou vivo para contar a história.
Durante semanas, "La vita in diretta" colocou uma lente de aumento sobre o endereço 108 da via Spartaco, em Roma. É um prédio simpático, com varandas amplas, em um quarteirão residencial. Ocorre que uma das moradores é ativista de proteção às aves. Todos os dias, ela dá comida - muita comida - para os pombos. As aves aglomeram-se em volta da janela onde ela vive e se multiplicam, com a comida farta e a ausência de predadores naturais. O resultado, como é fácil de se prever, provoca uma dor de cabeça danada nos vizinhos. Os pombos não ficam apenas diante da casa da ativista. Eles se espalham pelas outras janelas, pelas ruas, pelos outros prédios. É cocô por tudo quanto é lado. Tem cocô de pombo no asfalto, em cima dos carros, nas calçadas e - principalmente - nas belas varandas romanas. Se você morasse lá e quisesse tomar um aperitivo em uma romântica tarde de primavera, seria bombardeado de maneira implacável pela merda. Mesmo no verão, as janelas precisam ficar fechadas, porque o cheiro do cocô é insuportável. A história foi até reproduzida pelo jornal inglês "The Guardian", para quem "os pombos do inferno", lembravam uma cena hitchcockiana. O cineasta Alfred Hitchcock, no filme "Os pássaros", conta uma história de terror em que os pássaros (todos eles) começam a atacar os humanos. Sem mais nem menos, assim por pura maldade ou - talvez - desejo de vingança. "La vita in diretta" tanto fez que até o prefeito de Roma entrou na jogada e mandou a "senhora dos pombos" parar de alimentar os bichos. Segundo repetia o apresentador Alberto Matano, era "todo um quarteirão refém da senhora dos pombos".
E a ESPN conseguiu matar o seu melhor programa de esportes da TV. Chamava-se "Futebol 360" e era transmitido diariamente a partir das 9h, apresentado pelo jornalista Abel Neto, que foi demitido pela emissora.
Abel Neto, filho do craque e ponta esquerda santista Abel, é um excepcional apresentador. Tem tarimba, jogo de cintura, é experiente. Ele conduzia o "Futebol 360" de maneira leve e rigorosamente informativa, apoiado por comentaristas sérios e equilibrados como Eugênio Leal, Breiller Pires, Celso Unzelte. Era um programa sem gritaria, sem palhaçada, do tipo "Jogo aberto" e "Os donos da bola".
"Futebol 360" não era dedicado ao Flamengo, como costuma ser o "Redação sportv". Os "gênios" da ESPN mudaram a grade, demitiram o apresentador competente e colocaram no lugar um pessoalzinho engraçado e moderninho no melhor estilo Leifert de ver futebol.
sexta-feira, 15 de agosto de 2025
Um ressentido escreve sobre os ressentidos
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Novo livro de Vladimir Safatle mantém proposta revolucionária
“Enquanto houver sofrimento, haverá política revolucionária
possível”, afirma Vladimir Safatle, em seu livro recém-lançado pela editora
Planeta, A esquerda que não teme dizer
seu nome.
Em suas 111 páginas, Safatle tece críticas ao “socialismo
real, vencedor”, põe em dúvida os números de vítimas do comunismo, prioriza a
defesa de vida de “entidades não humanas” (natureza), desmitifica o que chama
de “limitação antropológica da política” (uma política de esquerda não pode
funcionar, porque o ser humano é naturalmente egoísta) e tenta explicar “o que
aconteceu conosco”, referindo-se à atual militância esquerdista.
Afinal, o comunismo fez quantas vítimas: 60, 65, 93, 110, 148 milhões de pessoas? Segundo o autor, essa “leviandade no uso dos números” indica que “precisão não é o forte nessa discussão”. Por que, ele questiona, “não lembramos também de todas as vítimas do colonialismo, do imperialismo, das guerras expansionistas, da miséria e fome operária, das ditaduras, da repressão policial”.
Em defesa das “entidades não humanas”, Safatle chama atenção
para a Constituição do Equador que garante “a existência da Natureza, sua
preservação e a regeneração de seus ciclos vitais”. Ele assegura que esta é uma
forma de dar também uma categoria de sujeito para entidades não humanas. E isso
precisa ser feito com rapidez, porque vivemos em um mundo “que desmorona muito
rápido”.
O autor sugere que “a soberania popular” possa ser “a força
deliberativa de um estado de emergência” que impediria medidas tomadas contra
os interesses da preservação da natureza. Por exemplo, quando se fala em
prospecção de petróleo na foz do Amazonas, essa “soberania popular” passaria
por cima de qualquer decisão governamental e impediria a extração do óleo
naquela região.
Safatle lembra que, em 2017, o governo de Michel Temer fez
uma reforma trabalhista que derrubou direitos consolidados. Pós-Temer, grávidas
podiam ser obrigadas a trabalhar em locais insalubres, as jornadas de trabalho
de 12 horas por dia, com demissão, descanso e férias radicalmente
flexibilizadas. Na ação trabalhista, se o trabalhador fosse derrotado teria de
arcar com as despesas do processo. Assim que a reforma foi aprovada o que se
viu nas ruas?
“Nenhuma manifestação de rua. Famílias todas de olho no
final do BBB”, recorda o autor, questionando:
“O que aconteceu conosco?”
Em seguida veio a eleição de Bolsonaro. Era o candidato não
apenas das famílias de deputados de cinco gerações, mas também “de gente
periférica, negra e evangélica”.
“Votavam na direita”, observa Safatle, “por se sentirem
traídos, por não se verem mais como objetos reais das preocupações reais das
práticas no poder”.
O autor refere-se aos empreendedores isolados, a uberização
do trabalhador. Gente que não pode mais contar com instituições e redes de
solidariedade para defesa coletiva, como sindicatos e associações.
Eles são “vendedores de si mesmos”. “Nada têm – nem garantias
trabalhistas, nem meios de produção, nem tempos e estão sempre endividados”.
O todo poderoso “mercado” é uma “instância antipolítica,
anti-igualitária e organizada a partir da lógica de concentração e do monopólio”.
“O capitalismo nunca foi concorrencial, sempre foi
monopolista”.
Cita o bilionário Warren Buffet, que afirmou:
“É verdade. Existe uma guerra de classes, mas é a minha
classe que está fazendo a guerra e ganhando”.
“O capitalismo”, escreve Safatle, “é um sistema de guerra
permanente, que usa a violência como regime normal de funcionamento”.
O autor critica o apoio da esquerda às lutas identitárias
(movimentos feministas, negros, LGBT), afirmando que “a esquerda se serviu
dessas lutas para esconder de si mesma sua impotência”.
E dispara contra o antigo regime comunista: “O socialismo real conheceu a violência estatal, a brutalidade social, o autoritarismo, os privilégios da burocracia, entre tantas degradações”.
Safatle vê com bons olhos “a legalidade da violação política”.
Cita como exemplos pacifistas, ecologistas, ativistas (que ateiam fogo em estátuas
de bandeirantes), piqueteiros, cidadãos que protegem imigrantes sem papéis e
militantes do MST que invadem fazendas improdutivas.
Sobre desigualdade salarial, Safatle chama atenção para o
fato de que nos países nórdicos (Islândia, Noruega, Suécia e Dinamarca) a
diferença entre o menor salário e o maior não ultrapassa a proporção de um para
quatro. “No Brasil, o salário numa empresa a diferença pode ser até 120 vezes entre
o maior e o mais baixo”.
Ao se perguntar “o que é ser de esquerda hoje?”, ele
responde: “É defender a igualdade radical e a soberania popular”.
O que é essa soberania popular, como ela se organizaria,
como efetivá-la? Safatle diz que “não há nada neste livro sobre organização
política”, mas caberá à esquerda acelerar o desabamento do mundo em outra
direção.
“Revoluções são sempre improváveis, fruto de uma série
contingente de acontecimentos. O que devemos fazer é não recusar esses processos
inesperados que têm a força de romper o tempo. Não recusar já é muita coisa”.
In its 111 pages, Safatle criticizes ‘real, victorious socialism,’ questions the numbers of communism’s victims, prioritizes the defense of life for ‘non-human entities’ (nature), demystifies what he calls the ‘anthropological limitation of politics’ (the idea that leftist politics cannot work because humans are naturally selfish), and attempts to explain ‘what happened to us,’ referring to today’s leftist activism.
After all, how many victims did communism claim: 60, 65, 93, 110, or 148 million? According to the author, this ‘frivolity in using numbers’ indicates that ‘precision is not the strong point in this discussion.’ Why, he asks, ‘don’t we also remember all the victims of colonialism, imperialism, expansionist wars, worker poverty and hunger, dictatorships, and police repression?’
In defense of ‘non-human entities,’ Safatle highlights Ecuador’s Constitution, which guarantees ‘the existence of Nature, its preservation, and the regeneration of its vital cycles.’ He argues that this is a way to grant subjectivity to non-human entities—and that it must be done quickly because we live in a world ‘that is collapsing very fast.’
The author suggests that ‘popular sovereignty’ could act as ‘the deliberative force of a state of emergency,’ preventing measures against nature’s preservation. For example, regarding oil drilling at the mouth of the Amazon, this ‘popular sovereignty’ would override any government decision and block extraction in the region.
Safatle recalls that in 2017, Michel Temer’s government passed a labor reform that dismantled long-standing rights. Post-Temer, pregnant women could be forced to work in hazardous conditions, workdays extended to 12 hours, and dismissals, rest periods, and vacations became drastically flexible. In labor lawsuits, if the worker lost, they would have to pay legal fees. And what happened in the streets after the reform passed?
‘No street protests. Families glued to the finale of Big Brother Brasil,’ the author notes, asking:
‘What happened to us?’
Then came Bolsonaro’s election. He was the candidate not only of families with five generations of congressmen but also of ‘peripheral, Black, and evangelical people.’
‘They voted for the right,’ observes Safatle, ‘because they felt betrayed, no longer seeing themselves as the real objects of the ruling power’s concerns.’
The author refers to isolated entrepreneurs, the ‘Uberization’ of workers—people who can no longer rely on institutions or solidarity networks for collective defense, like unions and associations.
They are ‘sellers of themselves.’ ‘They have nothing—no labor rights, no means of production, no time, and are always in debt.’
The all-powerful ‘market’ is an ‘anti-political, anti-egalitarian entity, organized under the logic of concentration and monopoly.’
‘Capitalism was never competitive; it was always monopolistic.’
He quotes billionaire Warren Buffett, who once said:
‘There’s class warfare, all right, but it’s my class, the rich class, that’s making war, and we’re winning.’
‘Capitalism,’ writes Safatle, ‘is a system of permanent war, using violence as its normal mode of operation.’
The author criticizes the left’s support for identity struggles (feminist, Black, LGBT movements), arguing that ‘the left used these struggles to hide its own impotence from itself.’
And he takes aim at the old communist regime: ‘Real socialism knew state violence, social brutality, authoritarianism, bureaucratic privileges, and so many other degradations.’
Safatle looks favorably upon ‘the legality of political violation.’ He cites pacifists, ecologists, activists (who burn statues of bandeirantes), picketers, citizens protecting undocumented immigrants, and MST militants invading unproductive farms as examples.
On wage inequality, Safatle points out that in Nordic countries (Iceland, Norway, Sweden, Denmark), the gap between the lowest and highest salaries does not exceed a 1:4 ratio. ‘In Brazil, the difference within a company can be up to 120 times.’
When asking, ‘What does it mean to be left-wing today?’, he answers: ‘It means defending radical equality and popular sovereignty.’
What is this popular sovereignty, how would it organize itself, how could it be implemented? Safatle admits that ‘there is nothing in this book about political organization,’ but it will be up to the left to steer the world’s collapse in another direction.
‘Revolutions are always improbable, the result of a contingent series of events. What we must do is not reject these unexpected processes that have the power to break time. Not rejecting them is already a lot.’
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