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| Manifestantes tentam ruptura institucional |
A era contemporânea começou em 1789. A monarquia foi derrubada. O rei, a rainha, os nobres, os fidalgos, os cortesãos, os puxa-sacos perderam a cabeça. Literalmente. Na guilhotina. Surgiu uma nova forma de governar. O povo passou a ter representantes nos centros de poder. O coitado, sem lenço e documento, passou a ter status de "cidadão". Em 1789, houve de fato uma revolução. Quem estava "embaixo" derrubou o pessoal "de cima" e criou uma nova ordem institucional.
Em 1968, a França viveu outro terremoto. Estudantes e trabalhadores viraram o país de cabeça pra baixo. Paris foi sitiada. Os paralelepípedos, que calçavam as ruas foram arrancados, e formaram barricadas. Era um movimento, onde não faltavam slogans: "A imaginação ao poder", "É proibido proibir", "Sob as pedras da calçada, a praia", "A barricada fecha a rua, mas abre o caminho". Os manifestantes ocuparam até a Sorbonne. A imprensa de direita comentava, com um misto de inveja e pudor, que quem circulasse pelos corredores da universidade escorregaria em sêmen.
Maio de 1968 começou na França e se espalhou pelo mundo. Nos Estados Unidos, o foco foi para pôr fim à guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã. No Brasil, a mobilização foi voltada, evidentemente, contra a Ditadura Militar. O movimento, em forma de onda, acabou com a história da moça casar virgem, a repressão sexual foi implodida, a pílula anticoncepcional proporcionou à mulher novos direitos sobre o próprio corpo. Tudo que a geração anterior mais prezava - ir na missa aos domingos, fazer sexo só depois de casar, arrumar um emprego e ficar nele até a morte - foi deixado de lado pela nova geração, pós maio de 1968.
Agora, nas últimas semanas de outubro, a Europa tem vivido sábados de muita quebradeira e agitação. No meio da confusão, surgiu um slogan daqueles que a gente gostaria de ter criado: "Mettre fin à l'époque contemporaine" (pôr fim à época contemporânea). A frase, em si, diz praticamente tudo. A gente está cansado de trabalhar pra caramba e conseguir muito pouco. A gente não suporta mais estudar tanto e não saber se vai ter emprego no final da faculdade. Vivemos mal e em piores condições que as gerações anteriores. Os empregos são voláteis. A qualidade de vida é precária. O mundo passou a ser dominado por bilionários e até - pasme - trilionários, que dominam as novas tecnologias. Esse pessoal criou as "playlists" (seleção de músicas), organizada por uma plataforma online que pegou a criação de alguém, vende o produto que não lhe pertence e paga míseros centavos aos verdadeiros criadores. Idem para aquela plataforma online de venda de livros, que igualmente atira centavos na cara dos autores. Sem esquecer da inteligência artificial que vai sepultar os empregos de tradutores, historiadores, redatores, programadores, atendentes de telemarketing, analistas de dados, representantes de vendas, agentes de viagem...
O mundo virou um lugar estranho e mal frequentado. No mês que passou, a sensação era a de ser um personagem do filme mortos-vivos. Estava cercado por zumbis. Era gente da convivência diária (colegas de trabalho, amigos de longa data, prestadores de serviço) que abraçavam uma candidatura inexplicável. Era o filho daquele cara incompetente, um golpista preso, concorrendo à Presidência do Brasil. O candidato tinha mais enrosco que rede de pescador. Era investigação por lavagem de dinheiro e apostas online; era investigação por rachada e rachadinha; conexão com milicianos; corrupção; financiamento milionário de um filme com nome inglês, aquisição de mansões de altíssimo padrão, imóveis pagos com dinheiro vivo...
Se fosse ser indelicado, alguém poderia dizer que esse candidato estaria mais sujo que o famoso pau de galinheiro. Mesmo assim os zumbis foram às urnas e votaram nele. Mesmo sabendo de tudo. Foram 59 milhões de zumbis. Todos bem informados, todos sabendo quem era o sujeito. Como disse um eleitor, envergando a camisa da Seleção, que desgraçadamente virou uniforme direitista: "Estou pouco me importando com o tal do (Daniel) Vorcaro. Vou votar nele (Flávio) e acabou".
Felizmente, outros 64 milhões votaram contra e mantiveram o País na ordem democrática, porque, na prática, era isso que estava em risco. Não adiantava conversar com os zumbis. Tentar convencê-los. Eles tinham aquele olhar parado, imóvel, cristalizado. Havia também os filhos dos zumbis. O professor entrava na classe e interrompia a cantoria zumbi: "Lula, ladrão, teu futuro é a prisão". Uma aluna, supostamente inteligente, supostamente bem informada, vinha dizer, bastante preocupada, que não poderia mais ir ao banheiro, porque eles seriam mistos no futuro, caso Lula vencesse. Notícia falsa de 2022 que ganhava corpo quatro anos depois. Outro aluno, que se negava a fazer qualquer atividade em classe, falava que "quem apoia o Lula é só gente que não presta, como os LGBTs, os travecos, os gays..."
Os aliados eram poucos, quase improváveis. Uma professora aproximou-se, certo dia, e segredou, olhando desconfiada para os lados, com receio de ser ouvida: "Professor, eu sou lulista. Sempre fui".
O que mais se ouvia era a frase que resumia tudo: "Lula ladrão". Qual era a origem dessa sentença de morte política? A operação Lava-Jato do então juiz Sergio Moro. Ele investigou o esquema de corrupção, envolvendo a Petrobras e empresas prestadoras de serviço ao governo. Condenou empresários, políticos e até o então ex-presidente Lula. A operação recuperou 25 bilhões de reais. Só que Moro condenou Lula sem provas. A condenação foi "por convicção". Sem o "batom na cueca". Supostamente, Lula teria comprado um apartamento no Guarujá e um sítio em Atibaia, com o dinheiro da corrupção. Não havia, no entanto, evidências de que Lula seria o proprietário real desses dois imóveis. Pior: havia a suspeita que Moro estivesse sendo parcial no julgamento. Essa tese viria a ser comprovada quando hackers invadiram os celulares de Moro e dos promotores Deltan Dallagnol, Rodrigo Janot, Januário Paludo, entre outros. As conversas mostravam que Moro e os promotores combinavam ações para incriminar Lula, transformando o julgamento em uma ação extremamente parcial. Esta ação dos hackers ficou conhecida como Vaza-Jato e culminou com o STF (Supremo Tribunal Federal) absolvendo Lula e criando a possibilidade dele se candidatar à Presidência em 2022, o que de fato ocorreu, vencendo Jair Bolsonaro, que concorria à reeleição.
Agora, no frigir dos ovos, como dizia Freud, Sergio Moro foi eleito governador do Paraná; um pessoal da quinta série - Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano (ela conseguiu ser reprovada em curso de ensino à distância) - ocupa cadeiras importantes no Legislativo. E como queríamos demonstrar (C.Q.D.), é o fim da era contemporânea e o início da Zumbilândia.




