terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Um verão para ser esquecido

 

Imagem de uma praia carioca, depois da chuva

A nossa relação com o mar, com a praia e a bela área verde que a cerca é de encantamento. Chega o final de ano, começa o verão, tem início as férias letivas; vem finalmente aquele momento de relaxar, de usufruir a beleza da natureza em todo seu esplendor. Na praia, ficamos corados, comemos pratos típicos, com muito camarão, lagosta e peixes recém-pescados. As mulheres, com roupas sumárias, passam diante dos nossos olhos, despertando pensamentos lascivos. No ar, tem aquele odor típico da maresia. Mudamos nosso ritmo. Deixamos as preocupações de lado, aquela rotina chata de acordar cedo com o despertador, fazer higiene, tomar o café da manhã e ir para o trabalho, para retornar 12 horas depois, cansados, exauridos. Na praia, parece que renascemos, parece que nos tornamos uma outra espécie humana, alguém mais feliz, menos preocupado, mais atencioso com os outros e menos egoísta.

Só que não. Nos últimos 40 anos, os brasileiros fizeram o possível para tornar a praia idílica em um lugar insuportável. Este verão, ainda em curso, deve ter batido algum recorde de mal-estar, de apanágio da ganância. É desesperador ver como em tão pouco tempo praias que eram templos de tranquilidade se transformaram em portais do inferno.
Em Porto de Galinhas (PE), o casal Johnny Andrade e Cleiton Zanatta foi atacado por barraqueiros, por causa de uma cobrança de taxa extorsionária. Os dois levaram socos e pontapés de uns 15 homens, "donos" de barracas de praia. Outro turista - Rafael Ventura Martins - foi assassinado em um restaurante, por causa de uma suposta dívida. O recado parece claro: não vá a Porto de Galinhas, você vai correr riscos. Porto de Galinhas tem esse nome, por causa do passado escravagista. Quando ancorava um navio negreiro, os fazendeiros comentavam entre si: "Chegaram as galinhas", que era um código local para avisar da chegada dos escravos. A fiscalização britânica impedia o tráfico. Porto de Galinhas é dominado por uma máfia que espalha cadeiras pela praia e cobra "taxa mínima" para sua utilização.
Não é só lá, infelizmente. Uma moradora de Cabo Frio (RJ) foi às redes sociais para denunciar ter sido extorquida na Barraca do Forte. Em Maresias (SP), condomínios espalham barracas na praia e ocupam a área pública. É uma privatização violenta do bem público. Na praia da Baleia, em São Sebastião (SP), por exemplo, o acesso era impedido por um portão, fechado com cadeado. Isso ocorre por todo lado. Geralmente, grandes condomínios particulares constroem muros no melhor estilo Trump para fechar o acesso às praias. Para burlar a vigilância (porque a praia deveria ser pública e não privada), eles deixam apenas uma minúscula passagem escondida (tem de ser arqueólogo para descobrir), que dá acesso à praia. 

Na praia da Figueira, município de Governador Celso Ramos (SC), os proprietários de restaurantes costumam ocupar a faixa de areia e ai de você se quiser estender uma esteira e um guarda-sol por lá. Eles simplesmente proíbem. Uma turista gravou bate-boca com proprietário de restaurante para denunciar o caso. 
O problema da privatização da área pública e cobrança de taxas se repete na praia de Cabeçudas, em Itajaí (SC); em Barra Velha (SC); na praia de Bombinhas (SC), que cobra 200 reais por "taxa ambiental" e tem disparada de casos de diarreia e onde a partir das 7h não tem mais lugar na faixa de areia, porque foi toda privatizada.
Aliás, tomar banho de mar hoje em dia, nas praias brasileiras, parece sinônimo de mergulhar no cocô. Somente em Santa Catarina, houve o registro de 10 mil casos de diarreia. Na capital, Florianópolis, foram mil casos de viroses diversas e diarreia. No Guarujá (SP), 2 mil pessoas foram atendidas nos postos de saúde com virose e diarreia.
Os pobres turistas, sem ter a quem apelar, gravam vídeos e publicam nas redes antissociais. Em João Pessoa (PB), um cidadão, armado com seu celular, mostra o esgoto preto correndo livre pela praia. Passam umas moças, pisando descalças sobre a imundície e ele avisa: "Vocês estão pisando no esgoto". Uma delas agradece: "Valeu, obrigada" e continuam andando sobre a sujeira. O cocô escorre também pela praia da Boa Viagem, em Salvador (BA). É esgoto jorrando direto. Imagens daquela que era uma belíssima beleza natural de Santa Catarina, a Lagoa da Conceição, mostram a água coberta de esgoto e material poluente. Alguém comentou no Instagram: "É muito cheiro de cocô".
Tomar banho de mar e de cocô é uma coisa; agora, depois não conseguir se lavar em casa no chuveiro é outra e bem pior. Os infelizes turistas e moradores de Itanhaém sofrem com a falta d'água desde o mês passado. Não é só falta d'água. A prefeitura também não estava recolhendo o lixo. Em desespero, moradores foram até a prefeitura e fizeram um protesto barulhento. A pobre Itanhaém quase foi submersa, depois de uma tempestade. O portal da entrada da cidade, ao invés de dizer "bem-vindo", parecia gorgolejar "glub-glub". 
Ao lado da destruição do recurso natural, caminha a ganância. Os locais resolvem explorar ao máximo os turistas, arrancar tudo que for possível. Na praia do Francês, em Marechal Deodoro, próxima de Maceió (AL), tomar duas cervejas e uma água de coco sai por meros 185 reais. Em Búzios (RJ), parar o carro em um estacionamento significa "morrer" com 100 "pilas". Sem esquecer o pastel, vendido a 40 reais em Florianópolis. Um pastel: 40 reais! No Rio, alugar itens básicos de praia (guarda-sol, esteira, cadeira) sai por uma bagatela de 800 reais. A campeã, em preços abusivos, parece ser a Barraca Tropical, na praia de Geribá, Armação dos Búzios (RJ), que tasca na testa da freguesia 470 reais por um prato de filé de frango, fritas e salada; e 580 reais por um pratinho de iscas de peixe e camarão. Foi até alvo de comentário no programa "Balanço Geral", da TV Record. E na Paraíba, flagraram uma garrafa fake de Coca-Cola. Parece Coca-Cola, tem embalagem grudada de Coca-Cola, mas não é. Sabe deus o que tem ali dentro.
Afora a privatização, a cobrança ilegal, os preços extorsivos, tem o barulho. O insuportável ruído de milhões e milhões de caixas de som, arruinando a paz da coitada que quer descansar na praia. Uma senhora, sentada na praia das Canasvieiras, em Florianópolis (SC), gravou uma mensagem singela: "Gente, não aguento tanto barulho. É som que não acaba mais. Um barulho ensurdecedor, é ambulante vindo a cada minuto, vendendo canga, relógio, comida até faca vieram me vender. Faca! Não tenho um momento de paz. Florianópolis nunca mais".
Em São Paulo, as caixas de som foram proibidas nas praias. Na Praia Grande (SP), teve até tumulto quando a guarda municipal recolheu caixas de som de turistas arruaceiros. No Rio, também houve grande apreensão de caixas de som.
E quando os turistas vão embora, eles deixam atrás de si um mar de detritos. São garrafas de plástico, latinhas, embalagens, restos de comida e bebida. Na praia do Capão da Canoa, litoral norte gaúcho, não tinha mais areia na praia, depois das comemorações de Ano Novo. Era só lixo. A pessoa caminhava sobre detritos. A praia da Enseada, no Guarujá (SP), também registrou grande acúmulo de lixo.
Isso tudo sem esquecer os turistas que param os carros em Peruíbe (SP), vão à praia e, quando voltam, descobrem que seus veículos ficaram sem as rodas. E o tradicional arrastão em São Vicente (SP), sentido Praia Grande...
Está sendo um verão com tantos ocorrências lamentáveis que o jornal "O Globo" escreveu em editorial: "Brigas, superlotação e desordens acendem alerta para os riscos do turismo de massa predatório nas principais praias do país". A solução, segundo "O Globo" dá a entender, seria manter os pobres longe das praias. Na realidade, o ideal seria fechar as portas das praias aos condomínios e prédios, que destroem as belezas naturais, não tratam seu esgoto e resolvem o problema jogando o cocô diretamente na praia. O ideal seria que o acesso às praias tivesse sido feito por trem e não por veículos - igualmente predatórios - e ao invés de milhões de casas, apartamentos e mansões à beira-mar houvesse apenas alguns hotéis e pousadas para receber os turistas de verão. O mal já está feito. O Brasil destrói sempre suas riquezas e vai chegar um dia que isso não terá mais volta, se é que já não chegou esse dia.  

 
   
  

sábado, 10 de janeiro de 2026

Tiago Leifert me enganou

 

Tiago Leifert está feliz da vida com a Claro e me convidou para ser feliz também; só que não

Atualmente, estou no interior de São Paulo. Para me conectar com o mundo, comprei uma TV Box da Claro. A TV me oferece vários canais. Tem canal italiano, inglês, espanhol até brasileiro. Só não tem canal de São Paulo. Hoje, a TV Box escolheu uma certa "TV Integração" de Juiz de Fora. No SBT, é um pessoal de Minas. Na Bandeirantes e na Record, igualmente. É tudo trem bão. O problema é que não moro em Minas. Estou em São Paulo. Gostaria de me informar sobre como estão as coisas em... São Paulo. 
Antes dos mineiros, a TV Box me ofereceu os cariocas. Todos os telejornais - da Bandeirantes, SBT, Rede Vida, Globo, Record - todos eles eram do Rio de Janeiro. Se eu fosse para o Rio, dar um passeio por lá, tomando cuidado para não levar tiro no Complexo do Alemão, até seria legal ter informações sobre os fluminenses, só que não. Não tenho a menor vontade de passear no Rio. Vou sempre preferir São Paulo, apesar de Vinícius Moraes criticar a cidade, dizendo que você anda em São Paulo, anda, anda e anda e nunca chega na praia. Graças a Deus, Vinícius. Felizmente! Odeio praia. Odeio gente melecada de óleo, repelente, hidratante. Detesto aquelas barracas com som no último volume. Muita gente barriguda, cheia de pelanca, engordurada e areia grudenta no corpo. Aquele cheiro de cerveja quente e farofa. Sem esquecer do mar poluído e das viroses. 

E antes dos cariocas, a TV Box me dava de presente o pessoal do Espírito Santo. Não conheço ninguém no Espírito Santo. Nos próximos dez anos, tenho certeza de que não irei a Vitória, nem a trabalho, nem a passeio.

E aí era um revezamento: um dia, eram os telejornais cariocas; no outro dia, os do Espírito Santo; os de Minas. Uma manhã, apareceu até um telejornal de Pernambuco, veja você. Quase todos os estados do Brasil apareciam na minha TV, menos os do estado onde eu moro. Uma pena. 
Me senti logrado pelo Tiago Leifert. Ele parecia tão feliz com a Claro. Ele me convidava a ser feliz também. Venha pra a Claro, ele falava, você merece o novo. Eu queria o novo, queria ser feliz.
 
Então, tem início o sofrimento. A tentativa desesperada de entrar em contato com a Claro e reclamar da TV Box. A Claro tem um aplicativo que não funciona. Foram dezenas de tentativas em pedir assistência técnica. O aplicativo perguntava:
"Olá, bom dia!
Hum, deixa eu ver como eu posso te ajudar 🤔
Eu consigo te ajudar com diversos serviços da Claro 😊
Escolha uma das opções:
Fatura
Suporte técnico
Outros assuntos".
Aí tinha início a romaria. Eu clicava em "suporte técnico". Mencionava problema nos canais da TV e depois de várias perguntas e respostas, saía a sentença devastadora:
"Desculpa, houve uma falha no nosso sistema 😳
Volta mais tarde que eu consigo te ajudar!"

Acho legal esses imojis. Eles tornam a mensagem incompetente mais incompetente ainda. É como se uma criança meio aparvalhada ficasse em dúvida na hora de somar dois mais dois e desenhasse uma carinha engraçada, para o professor exigente riscar com caneta vermelha e lhe meter um zero na cabeça.

Desisti do aplicativo, Tiago Leifert. Liguei para o telefone da Claro. Atendeu uma pessoa. Felizmente. Não era um robô burro. Era uma pessoa. Expliquei o problema. Ela demorou para entender, mas conseguiu. E me perguntou: "A sua TV Box não está funcionando?". "Está", falei. "A TV Box funciona normalmente, mas os telejornais que são exibidos vêm de outros estados e não de São Paulo." Ela resolveu o problema. O problema dela. Desligou o telefone na minha cara, Tiago Leifert.

Enfim, peguei o carro. Fui tipo "on the road", estrada afora. Percorri quarenta quilômetros. Paguei o pedágio caro do nosso querido governador Tarcísio. Cheguei nessa outra cidade, onde tem uma lojinha da Claro. 
Um rapaz, muito solícito, me atendeu. Ligou para algum lugar misterioso e disse: "Vamos trocar a sua TV Box. Amanhã, de manhã, irá um técnico na sua residência e vamos substituir o aparelho". Saí da lojinha, feliz da vida, cantando e saltitando, como Dorothy, depois de conhecer o Homem de Lata. Percorri outros quarenta quilômetros. Paguei novo pedágio para o nosso amado governador. E cheguei em casa.

Pena que, no dia seguinte, ninguém apareceu, Tiago Leifert. Ninguém. Aí chorei muito, como o pequeno Simba ao se deparar com o corpo sem vida de Mufasa.     
   

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O péssimo serviço prestado pelas concessionárias de energia

 

Gastar dinheiro em rede de energia aérea é investir no passado 

A cidade onde moro no interior de São Paulo é abastecida com energia elétrica por uma concessionária, chamada CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Na realidade, não é uma companhia paulista, porque é uma estatal chinesa, com nome inglês – State Grid Corporation of China. A SGCC assumiu a concessão de fornecimento de energia em 2017. Quase toda semana, a luz acaba em casa. Assim, sem mais nem menos, você está trabalhando no computador, o ar-condicionado ligado, e puf! Acabou a luz. Espera aí: voltou! Não, acabou de novo. Um momento... Voltou. É uma CPFL vagalume. Às vezes, demora horas para normalizar o serviço. Na cidade, as reclamações são muitas. A dona da pizzaria reclama que em um dos apagões o frigorífico dela foi pro vinagre. Outro diz que a geladeira morreu; um terceiro fala que foi o micro-ondas.

Em São Paulo, o fornecimento de energia é oferecido pela italiana Enel. A sigla significa: Ente Nazionale per l’Energia Eletttrica (entidade nacional de energia elétrica). A Enel está ameaçada de perder a concessão, por causa dos problemas causados aos paulistanos. Uma chuva mais forte, caem árvores sobre a rede elétrica, fios entram em combustão... Puf! Milhares de domicílios e comércios no escuro. As pessoas se revoltam, protestam, os meios de comunicação vão até os consumidores e levam à TV, aos jornais, rádios as reclamações. Recentemente, enquanto milhares estavam no escuro, um grupo de funcionários da CPFL fazia uma dancinha, em plena avenida Paulista. Disseram que seria um clipe de fim de ano. Um acinte ao consumidor que paga e toma prejuízo na cabeça.

Há um clamor intercontinental, podemos dizer assim, contra a privatização de certos serviços essenciais. Nos Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha, 884 empresas de saneamento e fornecimento de água foram reestatizadas. O motivo é elementar: as concessionárias não davam conta do recado.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os serviços de telefonia no Brasil foram privatizados. Foi uma benção dos céus. Na época, um simples telefone custava quase o preço de um carro zero quilômetro. Tinha gente que vivia de alugar e vender telefone. Ganhava uma nota preta. Com a privatização, acabou a mamata e todo brasileiro pôde ter direito ao seu telefone. Hoje, são 272 milhões de celulares de posse de cada cidadão desta Terra Brasilis. Ou seja, 1,3 celular para cada brasileiro.

Então, a privatização não é necessariamente errada, mas quando um determinado serviço é privatizado – porque o governo não consegue dar conta – a empresa proprietária da concessão deveria oferecer um serviço perfeito. Sem críticas, sem esse mal-estar generalizado que os consumidores sentem em relação às concessionárias, como CPFL e Enel.

Um erro elementar é o investimento em postes na rede aérea. Foi por volta de 1920 que as ruas das principais cidades brasileiras começaram a ser eletrificadas. O sistema é o mesmo: finca-se um poste na rua, sobre ele colocam-se uns varões e passam-se os fios lá por cima. Acontece que as ruas sempre têm árvores e as árvores têm galhos e os galhos nunca se deram bem com a rede elétrica. Eles costumam se enroscar nos fios, eles quebram e desabem sobre a fiação, gerando explosões e interrupção do fornecimento de energia. Para evitar o problema, que é crônico, porque chove, porque os galhos vão arrebentar mesmo a rede elétrica, vários países optaram pela eletrificação subterrânea. É o caso da França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Estados Unidos e até a Argentina (Buenos Aires).  Os motivos são vários: estética (as cidades ficam mais bonitas sem toda aquela “fiarada” em cima da cabeça da gente), confiabilidade (ventos fortes e tempestades não interrompem o fornecimento de energia) e mais segurança (milhares de pessoas são vítimas de descargas elétricas provocadas por fios tombados nas ruas e avenidas).

Aqui onde moro, ocorre um acúmulo de erros. A CPFL está trocando os postes. Ou seja, investindo no passado. Ao invés de enterrar a fiação, prefere enterrar postes. Acontece que sobre os postes não há apenas os fios da CPFL. Não, não, não...Tem também a fiação das empresas que fornecem internet. Essas empresas, como a Zaaz, por exemplo, colocam suas fibras óticas nos postes da CPFL. E a CPFL odeia isso. Entende que a fibra ótica seria uma espécie de parasita enroscado em seu poste querido. Então, observei os eletricistas da CPFL trocando os postes velhos pelos novos e de quebra arrebentavam toda a fiação da internet. Eles faziam isso com ódio mesmo, com muita raiva. Vi um eletricista pegar um tipo de machadinho e lascar o negócio sobre a fibra ótica. Quem dependia da Zaaz para ter internet em casa ficou até cinco dias sem o serviço. Hoje, a internet virou um serviço essencial. Sem internet, a gente não consegue mais ter controle sobre a própria vida. Cadê o meu saldo no banco, cadê a família, onde estão os amigos e os clientes? Todo mundo sumiu, por causa da internet que se foi.

Então, a Zaaz demorou, mas veio e recolocou os cabos no lugar. E alguns dias depois, os eletricistas da CPFL retornaram para trocar novos postes e voilà: os pobres dos cabos da internet foram atirados com violência extrema no chão (alguns continuam até hoje por aí). Novamente, a Zaaz e outras empresas de internet voltaram e foi uma luta para restabelecer o serviço. Em meados deste mês de janeiro, outros postes serão trocados e mais uma vez os cabos de fibra ótica vão ser atirados no chão. É um sistema, como vou dizer, meio burro de trabalho, porque o pessoal da internet poderia conversar com a CPFL e trabalhar em conjunto, mas isso não acontece.

A CPFL pede para a gente baixar o aplicativo dela e informar quando deu algum problema no fornecimento de energia. Acontece que, sem energia, a internet não funciona e consequentemente também o aplicativo não pode ser colocado pra funcionar. Não pega nem no tranco. Aí cabe a você sair andando pelo mundo, em busca de um sinal salvador.

O aplicativo nem sempre funciona direito. Como é um robô que está lhe atendendo, às vezes ele não entende o que você quer. Você passa o número da instalação para o robô e ele diz: “Não encontrei seu documento em nosso sistema. Qual seu nome completo?” Você digita o nome e ele pergunta novamente: “qual seu nome completo?”. E outra vez, e outra vez, e outra vez. É um robô burrinho, coitado.

A Zaaz marca visita técnica para tal dia e tal horário e não aparece. Você reclama e é informado que tem uma visita técnica marcada para dali a pouco. Você não sai de casa, fica aguardando e ninguém aparece. Reclama novamente. Eles marcam para outro dia. E não aparecem. Finalmente, você consegue falar com um atendente da Zaaz. Ele pede uma foto do roteador. Explico que ele não precisa ver a foto, porque os cabos da internet foram jogados no chão, por isso que a internet não funciona. “Estão no chão”, eu grito, meio fora de controle. Mesmo assim, ele pede a foto. Tiro a foto e mando pra ele, com aquela demora básica de vários minutos, porque, afinal, estou sem internet em casa.

Um festival de incompetência. Depois de oito dias sem internet, reclamei no Reclame Aqui e apareceu uma funcionária que conseguiu mandar uma equipe em casa e o serviço foi normalizado. Mas é uma luta. Uma luta inglória. Fica sempre a sensação que você está perdendo. Parece até título do livro do Walter Mostley, “Sempre em desvantagem”.     


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

São Silvestre, a corrida

 

A mais tradicional corrida de rua do País completou cem anos
A São Silvestre é a corrida de rua mais tradicional de São Paulo e do Brasil. Completou 100 anos ontem. Em 1924, o jornalista Cásper Libero esteve na França e ficou deslumbrado com uma competição de rua, disputada à noite. Decidiu trazer a novidade para São Paulo. Deu certo. A passagem de ano e a corrida de São Silvestre completavam-se. Os vencedores da prova costumavam chegar por volta de meia-noite, quando o novo ano tinha início, entre rojões, fogos de artifício e o delírio da multidão na avenida Paulista, diante do prédio da Gazeta. Era emocionante. 

Quem exibia a prova era a TV Gazeta. Acompanhar a disputa, na época, era complicado, porque a transmissão se interrompia a todo momento. A imagem tremia. Entrava um sinal do prefixo da TV. Os recursos técnicos da Gazeta deixavam a desejar. O narrador falava com a voz tremida, meio aos solavancos e frequentemente sumia. Mesmo assim, no meio daquela precariedade da transmissão, a gente torcia. O último brasileiro vencedor tinha sido Sebastião Alves Monteiro, em 1946. 

Depois, vieram lendas do atletismo, como Emil Zatopek  - "a locomotiva humana" - um tcheco que elevou o padrão de disputas e tornou a competição brasileira conhecida nos grandes centros. Meu pai foi assistir e ficou assombrado com a velocidade de Zatopek. "Enquanto os outros estavam virando a primeira esquina, o Zatopek estava próximo da linha de chegada", meu pai exagerava.

Eu era criança, quando vi o belga Gaston Roelants se sagrar tetracampeão. Roelants me deu vontade de participar da prova. Parecia fácil. Até então, a corrida tinha 8 quilômetros e 700 metros. 

Mas quando chegou a minha vez de participar da São Silvestre o trajeto havia sido ampliado e eram agora 15 longos quilômetros.  Mesmo velho e cansado, achei que estava na hora de participar, de sentir o "glamour" da mais tradicional corrida de rua do País. Treinei bastante, para evitar morrer no meio da rua. Enquanto os vencedores, faziam a prova em 45 minutos, em média, eu demorava duas horas para completar os malditos 15 quilômetros. É claro que, com o passar dos anos, o tempo tende a baixar. Meu melhor tempo foi de uma hora e cinquenta. Se corresse mais uns cem anos, talvez chegasse nos 45 minutos dos finalistas.

A São Silvestre, que tem esse nome obviamente em homenagem ao santo do dia, é uma competição difícil, porque no dia 31 de dezembro está quente e abafado. Quando chove, é pior, porque sobe um vapor do chão que deixa a gente sem respirar. A chuva bate no asfalto fervente e aquela evaporação é insuportável. Além do calor, o que me incomodava muito eram os folclóricos. Gente pintada, gente fantasiada. Tinha um cidadão vestido de noiva, com buquê e tudo que corria conosco. Para mim, corrida de São Silvestre era uma coisa séria. Nada a ver com aqueles folclóricos irritantes. 

A largada acontecia em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). Comecei a prova e quando cheguei na rua Augusta senti uma dor lancinante no músculo adutor da perna esquerda. Pus a mão na coxa. Doía muito. Justamente nessa hora, um fotógrafo me flagrou e o jornal da São Silvestre relatou: "Danilo Angrimani com cara de dor já nos primeiros 300 metros da prova". Dedo-duro sacana! O que o infeliz não contou é que completei os 15 quilômetros. Cada quilômetro com uma dor terrível na coxa. Mas completei. Sabe-se lá por quê.

Em 2011, uma tarde assustadoramente quente, com muito sol, estava no final do Minhocão, virando à direita para pegar a avenida Pacaembu, quando vi o ganhador da São Silvestre do ano anterior - era um brasileiro - vomitando tudo que tinha direito. O coitado estava apoiado no guard-rail do Minhoão e dava adeus à corrida. Pensei: "Putz, se o vencedor de 2010 está desse jeito, imagine o que vai acontecer comigo quando chegar na Brigadeiro?". 

A avenida Brigadeiro Luís Antônio é uma subida cruel. Você está com a língua de fora, pedindo para Jesus vir lhe buscar, quando chega na Brigadeiro e olha aquela subida interminável. As pernas querem parar. O cérebro insiste em parar. O corpo todo pede pelo amor de deus para você entrar na rua Maria Paula e esquecer aquilo tudo. Mesmo assim, você continua. Vai subindo. Dos dois lados da rua, grupos de pessoas acenam para você. Estendem as mãos. Eles o incentivam a morrer. A melhor hora é quando você chega no final da Brigadeiro, vira à direita na avenida Paulista e vê o marco da chegada ali na frente. Você conseguiu. Superou seus limites. Não morreu (ao contrário do que imaginava) e agora é correr para o abraço da rapeize.

Assisti a São Silvestre de 1958 a 1979, torcendo para ver um brasileiro cruzar em primeiro na linha de chegada. Não fui feliz. Ganhava sempre um estrangeiro. Em 1980, decidi que iria fazer outra coisa no dia 31 de dezembro, mas não veria a São Silvestre. "Não adianta", falei para a família, "nenhum brasileiro ganha mesmo".  Só que ganhou. José João da Silva, atleta do São Paulo, chegou em primeiro e quebrou aquele jejum que já durava longos 34 anos. "Fizemos uma festa tremenda", meu pai contou, "pena que você não estava aqui". Pois é...

Este ano assisti a São Silvestre pela TV. Recentemente, estava treinando, correndo 14 quilômetros e estourei o tendão de aquiles da perna esquerda. Muito gelo e compressa quente. Vi ganhar um etíope e uma atleta da Tanzânia, porque faltam investimentos para os atletas brasileiros. 

O terceiro colocado, o brasileiro Fábio de Jesus, declarou para o Uol: "O atletismo está acabando, indo água abaixo. Os atletas precisam se virar, se quiserem competir: Às vezes a gente treina na rua, com carro atrapalhando, cachorro passando, correndo risco de torcer o pé. Muitas vezes a gente chega na pista e é barrado". Até os 14 anos, informou a reportagem, Jesus corria descalço, em Monte Santo, na Bahia. Foi coletor de lixo e mudou-se para São Paulo, para se dedicar exclusivamente ao atletismo.

Além da falta de incentivo, destacada por Fábio de Jesus, o jejum de brasileiros no primeiro lugar do pódio já incomoda novamente. Faz 15 anos que um brasileiro não ganha a prova. 

Depois de ter participado de algumas provas da São Silvestre, posso dizer que seria muito melhor se a prova fosse disputada à noite. É mais fresco, mais saudável, mais humano. Em 1982, a TV Globo passou a transmitir a prova, com toda a técnica e a competência que lhe é habitual, nos livrando do quase amadorismo da TV Gazeta. Em 1989, no entanto, a mesma Globo mudou o horário da disputa, passando para a tarde. Essa alteração tirou todo o glamour e a emoção da São Silvestre. 

Durante uma cobertura noturna da São Silvestre, antes da mudança de horário, lembro de um repórter, muito emocionado. Os atletas estavam chegando na Paulista, os rojões estouravam em volta, o público delirava e o repórter, que era carioca, começou a chorar. "Isso é lindo, meu deus", ele falou para os jornalistas próximos dele. 

A São Silvestre mudou para a tarde e agora é disputada de manhã. Por causa de sua grade de programação, que deixa aqueles shows insossos, com artistas que a gente mal lembra o nome, para serem transmitidos na hora da virada, a Globo conseguiu fazer mais uma vítima. É uma pena, porque tem eventos tradicionais que não deveriam ser deformados. Imagine se a BBC sugerir que Wimbledon troque suas quadras de grama por grama artificial. Acho que até o rei Charles iria se engasgar com o chá. 

domingo, 28 de dezembro de 2025

Alexandre de Moraes, Banco Master, Sergio Moro e 2025 que não acaba

 

O então juiz Sergio Moro à frente de jornalistas. A seta aponta para a jornalista Malu Gaspar, de "O Globo"

 A manchete do jornal “O Globo” de 22 de dezembro jogou uma nuvem de pólvora sobre o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. O título gritava com toda força: “Alexandre de Moraes procurou Galipolo para pedir pelo Master junto ao Banco Central”.

Quem é Galipolo? Ele é o presidente do Banco Central. Seria ele quem teria condições de “salvar” o Banco Master da liquidação. Mas não foi isso que aconteceu. O Banco Central liquidou o Banco Master e Daniel Vorcaro, que era presidente da instituição na ocasião, foi preso pela PF (Polícia Federal), em novembro.

O ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal) fez lobby para salvar o Banco Master, como afirma o jornal “O Globo”? O ministro garante que não.

No dia seguinte da publicação de “O Globo”, Moraes emitiu nota dizendo que não telefonou para Galípolo, para tratar do Banco Master.

Veja a nota do ministro:

"O Ministro Alexandre de Moraes esclarece que realizou, em seu

 gabinete, duas reuniões com o Presidente do Banco Central para

 tratar dos efeitos da aplicação da Lei Magnistiky. A primeira no dia

 14/08, após a primeira aplicação da lei, em 30/08; e a segunda no dia

 30/09, após a referida lei ter sido aplicada em sua esposa, no dia

 22/09. Em nenhuma das reuniões foi tratado qualquer assunto ou

 realizada qualquer pressão referente a aquisição do BRB (Banco de

 Brasília) pelo Banco Master.

“Esclarece, ainda, que jamais esteve no Banco Central e que inexistiu qualquer ligação telefônica entre ambos, para esse ou qualquer outro assunto. Por fim, esclarece que o escritório de advocacia de sua esposa jamais atuou na operação de aquisição BRB-Master perante o Banco Central",

As mesmas fontes, que teriam tido conhecimento do suposto lobby de

 Moraes sobre o Banco Central, disseram que o ministro do STF foi

 além e pressionou também a PF.

A articulista da “Folha”, Monica Bergamo, questionou o diretor geral

 da PF, Andrei Rodrigues, sobre o suposto encontro de Moraes com

 ele. Rodrigues disse que isso não aconteceu e que tinha ouvido esses

 boatos.

O caso continuou repercutindo. Em 27 de dezembro, o colunista da “Folha” Demétrio Magnoli escreveu um texto, desafiando o ministro Alexandre de Moraes a provar que não tinha feito lobby sobre o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

As redes antissociais foram à loucura, porque a afirmação de Magnoli era realmente um disparate. A pessoa acusada é quem deveria provar que não tem culpa; e não o acusador mostrar as suas provas. Na Justiça, normalmente, ao acusador cabe o ônus da prova, a gente aprendia no primário.

O ministro Alexandre de Moraes notabilizou-se pela salvaguarda da democracia brasileira. As suas atitudes, a sua firmeza, a sua coragem foram determinantes para expor, julgar e condenar os golpistas, que tentaram demolir a nossa ainda frágil democracia. O Brasil tem uma dívida histórica para com o ministro Alexandre de Moraes.

Ocorre, no meio desse caminho, um problema de ordem ética. O ministro é casado com a advogada Viviane Barci de Moraes. O escritório de advocacia dela tinha fechado um contrato de 129 milhões de reais com o Banco Master (remuneração mensal de 3 milhões e 600 mil por três anos, de acordo com o Uol).

Segundo o “Estadão”, Viviane Barci tinha 27 casos a serem julgados no STF, antes da posse de seu marido no Supremo. Após a posse dele, o total de casos subiu para 152. Não é ilegal a esposa de Moraes ter 152 processos em julgamento no STF.

Em 2023, o STF julgou que a regra que impedia juízes de julgar casos, em que clientes de escritórios de seus parentes (até terceiro grau) atuavam, era inconstitucional, pois era impossível o juiz saber de todos os clientes de todos os escritórios de seus familiares.

Não é ilegal para a esposa do ministro ter 152 processos em julgamento no STF, é fato, no entanto, não pega bem para a imagem do ministro. Dá impressão de favorecimento, de uma espécie de nepotismo enviesado. Entendo que a esposa do ministro tem direito de exercer sua profissão e que seria inconstitucional impedi-la de advogar para seus clientes no STF. Mas, se eu fosse o ministro, pediria para ela passar para outro escritório, de algum advogado parceiro, esses casos que dependem de julgamento no Supremo. O escritório de advocacia dela vai perder dinheiro? Sim, vai perder, mas a imagem do ministro não pode ser prejudicada. A democracia brasileira é devedora de Moraes. Por isso, tudo que possa macular sua imagem precisa ser retirado do quadro.

Em relação à articulista de “O Globo” Malu Gaspar, ela tem sido “metralhada” nas redes antissociais. Dizem que ao contrário do ex-juiz da Lava-Jato Sergio Moro que lhe passava “quentinhas exclusivas” (notícias que ninguém tinha, só ela), Moraes nunca lhe passou qualquer furo jornalístico. Por isso, ela teria uma dívida de “ingratidão”, em relação ao ministro do Supremo. As postagens no Instagram (etc.) cobram de Malu Gaspar “as provas” de que Moraes teria feito mesmo lobby a favor do Banco Master. E a maioria diz que ela é “amiguinha” de Moro. Tem até uma foto de Malu ao lado de Moro, sentado como se fosse um rei, cercado por uma corte de "admiradores" (na realidade, jornalistas). A foto refere-se, na realidade, a uma entrevista de Moro concedida ao programa "Roda Viva", em 20 de janeiro de 2020.

A informação da articulista de “O Globo”, colocando Moraes na linha de fogo como lobista, veio quando mais se falava do senador Sergio Moro pelo partido União Brasil.

Acontece que a Polícia Federal fez uma busca e apreensão na 13ª Vara Federal de Curitiba, em 3 de dezembro último, descobrindo que o ex-juiz Sergio Moro grampeava autoridades com foro privilegiado. A ação da PF foi autorizada pelo ministro Dias Toffoli do Supremo.

Os grampos eram ilegais. 

Nessa mesma operação, a PF descobriu um vídeo, intitulado “Festa da cueca”. A filmagem, segundo noticiaram os veículos de comunicação, mostrava garotas de programa com autoridades do judiciário, em nível hierárquico superior ao do então juiz Sergio Moro. De acordo com analistas políticos, Moro usaria esse vídeo dos magistrados com as putas para chantagear desembargadores que deveriam analisar seus procedimentos jurídicos.

Depois da “bomba” jornalística, lançada por Malu Gaspar contra Moraes, as notícias da “Festa da cueca” e as acusações contra Moro foram caindo em “esquecimento” provisório. Será que foi uma simples coincidência?

Nunca um ano demorou tanto pra acabar. Vou te contar...  

 

 

 

 

 


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Luiz Roberto Alves

 

O professor Luiz Roberto Alves morreu aos 78 anos

A gente vai envelhecendo e ficando órfão. São vários níveis de orfandade. Perdemos os avós, os tios e os pais. E vamos perdendo as pessoas que tiveram relevância em nossa vida. Vamos ficando mais sós, mais entregues a um vazio existencial. O professor Luiz Roberto Alves morreu na terça-feira, em razão de um câncer. Somente hoje, três dias depois, consegui sentar diante do computador. 

Conheci o professor Luiz Roberto em 1982, quando ingressei na pós-graduação (mestrado) na Universidade Metodista de São Paulo. Sentia falta de preparo intelectual para exercer a minha profissão (jornalista). Buscava direcionamento de leituras. Via a pós-graduação como uma alternativa para a minha formação, que julgava precária, apesar de vir de duas faculdades (letras e jornalismo). 

Houve um sorteio entre os professores que iriam dirigir os mestrandos e o professor Luiz Roberto ficou sendo meu orientador de mestrado. Foi assim... casual. Ele não me conhecia e eu estava chegando no mundo acadêmico naquele momento.

As aulas do professor Luiz Roberto eram deliciosas. Ele esbanjava erudição, didática e tornava atraentes os textos e autores mais difíceis. Para mim, aquelas aulas eram momentos de entrega e afeição ao conhecimento.   

Entre os livros que o professor Luiz Roberto me indicou, estava o "Pesquisador participante", de Carlos Rodrigues Brandão, editado pela Brasiliense. Esse livro foi fundamental, porque mostrava que o pesquisador não devia apenas ser aquele sujeito de bloco e caneta na mão, sugando todo o conhecimento dos entrevistados. A pesquisa participante ia além de recolher dados, transcrevê-los e analisá-los. O pesquisador ouvia, recolhia as reivindicações e trabalhava para agregar a população e ir em busca de melhorias para o povo da localidade, pressionando as autoridades.

Foi graças a esse livro, indicado pelo professor Luiz Roberto, que comecei a fazer pesquisas em comunidades e agir como alguém disposto a lutar por melhorias. 

Em 1982, vivia-se o ocaso da Ditadura Militar. Após a decretação da Anistia em 1979, era possível fazer reuniões comunitárias, discutir os problemas e buscar soluções, sem ir para a cadeia por causa disso. Como pesquisador participante, trabalhei junto aos moradores da Vila Clementino para trocar as caldeiras a óleo diesel dos hospitais São Paulo e Cruz Verde por caldeiras elétricas, menos poluentes. Saímos vitoriosos. A mesma estratégia seria repetida, anos mais tarde, para conseguir fechar a fábrica da Companhia União dos Refinadores de Açúcar e Café, do bairro da Mooca, em São Paulo.

Nessa mesma época, iniciei a pesquisa para a dissertação de mestrado, em Piedade do Paraopeba (MG). Em acordo com o professor Luiz Roberto iria produzir um estudo de comunidade, a exemplo do que o professor Antonio Candido, havia feito em Bofete (SP), que resultou na sua obra celebrada "Os parceiros do Rio Bonito". Como pesquisador participante, ao final da coleta de dados, montei uma comissão de moradores e fomos até a sede do distrito, em Brumadinho, pleitear melhorias. Fomos recebidos com espanto pelas autoridades, não acostumadas a ouvir reivindicações. 

Dois anos depois, em 1984, quando escrevia uma monografia sobre a Vila Clementino, também para o mestrado, veio a notícia da possível destruição da primeira casa modernista construída no Brasil. Era um terreno de 24 mil metros quadrados, com área verde ampla e a casa histórica, erguida pelo arquiteto Gregori Warchavchik Houve processo semelhante: agregar os moradores, buscar alternativas para salvar a casa e a área verde, correr atrás das autoridades. Na época, fomos auxiliados por três vereadores: Luiza Erundina, Irede Cardoso e Marcos Mendonça. Foi Marcos Mendonça quem me arrumou um advogado, porque fui processado pela construtora (o juiz me absolveu e até me elogiou na sentença). Graças ao então prefeito Mario Covas e ao então governador Franco Montoro, a Casa Modernista foi salva. Virou parque e hoje recebe a visita de famílias e estudantes de arquitetura. Concluí a monografia - Vila Clementino - e ela foi premiada pela Prefeitura de São Paulo e virou livro. 

No dia que o livro foi lançado, durante a noite de autógrafos, apareceu o professor Luiz Roberto. A gente se abraçou muito, porque aquela conquista era igual, era como se ambos tivéssemos escrito o livro. Eu o abracei e disse: "Conseguimos, professor. Conseguimos".

Trabalhei em vários jornais, publicações e, em 1993, fui contratado pelo Diário do Grande ABC, na época dirigido pelo muito competente Alexandre Polesi. Polesi idealizou um projeto para fiscalizar o trabalho dos vereadores do Grande ABC. Chamava-se "Raio X das Câmaras". Representantes da sociedade civil eram reunidos pelo jornal, para analisar os projetos de lei, criados pelos vereadores, e identificar aqueles que eram relevantes e os que não tinham qualquer importância. 

Eu era um dos repórteres escolhidos para acompanhar as reuniões e fui buscar o professor Luiz Roberto, que era um dos convidados para fazer parte daquele "júri", que iria analisar os projetos dos vereadores. Na época, estava finalizando meu doutorado pela USP e havia reencontrado o professor Luiz Roberto, que era docente da Eca (Escola de Comunicações e Artes) e tinha voltado a ser meu professor (felizmente). 

A Redação do Diário do Grande ABC tinha gente experiente, mas a maior parte era uma garotada recém-saída das faculdades. Lembro da reação do professor Luiz Roberto ao ver os rostos dos jornalistas: "Nossa, Danilo, eles são meninos e meninas", comentou surpreso. "Seria preciso ter mais gente de cabelo branco na Redação", ele avaliou, com acerto.

O professor Luiz Roberto foi secretário municipal em São Bernardo e Mauá. Me recordo de um político de Mauá, queixando-se do professor, que era um intelectual e por isso usava termos nem sempre permeáveis aos ouvidos menos capazes. "Não entendo nada do que ele diz", dizia o político, de ascensão breve e desaparecimento igual.

O professor Luiz Roberto também redescobria termos esquecidos. Lembro certa vez que saíamos da Metodista e precisávamos chegar em algum local, com urgência. O professor, ao meu lado, vinha de carona. Cortei o trânsito. Zanzei pela esquerda e direita. Acelerei. Freei. Até que conseguimos chegar a tempo para o compromisso. Meio zonzo, o professor comentou: "Danilo, você é bem vivaldino no trânsito, hein". Vivaldino, pensei, de onde o professor tirou essa?

Terminado o doutorado, passaram-se anos. Tinha aberto uma empresa de comunicação com o amigo James Capelli, quando recebi um convite inusitado do professor Luiz Roberto. Fui até a Metodista e enquanto tomávamos um café o professor me convidou a trabalhar novamente com ele, desta vez no pós-doutorado, que a Metodista havia recém-criado. 

Renovamos nossa parceria e retornei à Piedade do Paraopeba, 25 anos depois, para nova coleta de pesquisa. Foi emocionante.  O território estava mudado para melhor. Os anos de democracia haviam feito um bem danado para aquele pessoal, que, em 1982, não tinha transporte, escolas, postos de saúde e empregos. Duas décadas e meia depois, as estradas tinham sido pavimentadas, havia muita oferta de empregos, além de postos de saúde, escolas e melhoria considerável na qualidade de vida. Em 2013, apresentei o resultado da nova pesquisa, intitulado "A cultura rústica urbaniza-se: um estudo sobre os caboclos de Piedade do Paraopeba, em intersecção com os caipiras do Rio Bonito". 

Enquanto apresentava o relatório final e entregava o calhamaço com 161 páginas com fotos dos entrevistados, para a banca do pós-doc, observei o professor Luiz Roberto e comecei a lembrar de tudo que havíamos feito em conjunto, desde aquele longínquo 1982, e me deu uma tristeza profunda, porque percebi que nunca mais iríamos trabalhar juntos. Aquela era a nossa despedida. E de fato foi.

     

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Violência no Brasil e lentidão governamental

 


É um desafio: criminosos ocuparam as favelas do Rio de Janeiro e criaram um país à parte. Não é mais o Brasil. É um país dominado por bandidos que cobram taxas para fornecimento de gás, água, combustível, internet e outros serviços. A população que mora nessas favelas é refém do crime e apoia qualquer ação que aniquile fisicamente seus opressores, mostram pesquisas recentes.

Estive a trabalho na Favela do Jacarezinho. Para chegar ao local do evento, que cobriria, não pude chamar um uber ou táxi qualquer. Era preciso encontrar um motorista de aplicativo da própria favela, senão não conseguiria entrar. Subi no carro, dirigido por uma moça. Ela conduziu até um dos pontos da entrada da favela, onde havia uma carcaça carbonizada de carro. Atrás dessa barricada improvisada, havia dois homens armados de fuzis. A motorista do aplicativo fez um sinal específico e os "guardas" arrastaram a carcaça e pudemos passar. Felizmente, não precisei mostrar passaporte, embora estivesse ingressando em "outro país", com outros "governantes" e "leis" ultrajantes.

Se há um "país" à parte, dentro do Brasil, não estava na hora de haver uma ação governamental, que envolvesse federação, estado, município para reocupar esse enclave criminoso, libertar os reféns e reinstaurar a ordem? Por que se demora tanto para criar um plano simples de reocupação do espaço ocupado? Todas as favelas cariocas têm entradas pontuais e muitas têm saídas na mata, por onde os bandidos procurados costumam fugir. É tão difícil assim imaginar um plano que possa bloquear os acessos e sufocar a criminalidade? Não algo momentâneo, com prazo curto de duração, mas permanente, incansável e edificante.

Além dessa ação de resposta ao crime, os governos deveriam investir maciçamente na eliminação da favela, substituindo-a por moradias decentes, com ruas planejadas, áreas verdes, infraestrutura completa, pondo um ponto final na degradação e na miséria urbana desses territórios. Gasta-se tanto no Brasil com o que não interessa, por que não "queimar" dinheiro no bom sentido numa operação plástica urbana de resultados palpáveis? 

Nos últimos dias, cansei de ouvir especialistas, dizendo que operações policiais nos morros cariocas não levam a nada, porque os verdadeiros criminosos não estão nos morros, mas na Faria Lima. Pode até ser verdade que as lideranças do crime não precisem necessariamente morar na favela. Operações recentes de inteligência demonstraram como o crime organizado tem utilizado fundos de investimento da Faria Lima para lavar dinheiro. Ocorre que existe um fato concreto: as favelas cariocas foram ocupadas pela criminalidade e seus moradores continuam sendo reféns dos bandidos. Além de acertar o crime organizado no "bolso", revelando as operações de lavagem de dinheiro (combustíveis, fundos de investimento), é urgente também reocupar o território ocupado e libertar as pessoas. 

É inadmissível alguém ser condenado à morte por trafegar pela avenida Brasil e ser levado pelo aplicativo a uma entrada de favela, onde um "guarda" - desse "país inimigo" dentro do Brasil - não vai hesitar em erguer o fuzil e disparar contra uma família, um casal, um viajante. Quanto tempo mais o Brasil vai conviver com esse "país" à parte, espécie de câncer em suas entranhas?            

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Jardim de Napoli

 

O verde e branco palmeirense sempre predominou na decoração

Meu avô era zelador de um prédio que ficava na rua Senador Feijó, a dois passos da lendária praça da Sé, marco zero de São Paulo, de onde se marcam todas as distâncias. Nos anos 60, a gente podia sair à noite, dar uma volta pelo centro paulistano, sem voltar pra casa com história de violência para contar. Era assim: saíamos meu pai, minha mãe, minha irmã, minha tia e eu no sábado à noite (às vezes, muito raramente, o avô e a avó acompanhavam - morávamos todos juntos em um apartamento imenso). O prédio era comercial e estava completamente vazio àquele horário. Descíamos pelo elevador, que não era automático. Era necessário guiar o maquinário, mexendo na alavanca e freando quando chegava no andar desejado. Eu tinha aprendido com um ascensorista a mexer naquele comando desafiante e conseguia parar direitinho, sem deixar degrau. A porta do prédio tinha uns três metros de altura e era de ferro. Para abri-la, além de vários movimentos certeiros com a chave, era necessário ter força bruta para conseguir movê-la. Lá fora, o ar era habitualmente gelado e volta e meia caía uma garoa. Saíamos da rua Senador Feijó, entrávamos à esquerda na rua Cristóvão Colombo, cruzávamos a Riachuelo e descíamos pelo viaduto Brigadeiro Luís Antônio. Como a rua Cristóvão Colombo devia ter apenas uns 50 metros, alguém da família lembrava que dar o nome do grande navegador genovês para uma rua minúscula como aquela era um desaforo. Em cima do viaduto, olhávamos lá para baixo, onde havia uma rua pouco movimentada. Meu pai alertava: "Eles vão construir uma avenida que vai se chamar 23 de Maio, para ligar o centro ao aeroporto de Congonhas". 

Quando terminava o viaduto Brigadeiro Luís Antônio, bem à direita a gente via a rua Asdrúbal do Nascimento, que me enchia de apreensão, porque lá era a sede do Juizado de Menores (pré-Febem, muito pré-Fundação Casa). "Se você continuar sendo malcriado, vai parar ali", me ameaçavam. Virávamos à direita na rua Maria Paula e prosseguíamos por uns 200 metros até um sobrado, pintado de verde. Na porta do número 194, a gente lia: "Jardim de Napoli". Ao lado, havia um edifício sombrio, marrom escuro. Tinha a placa "Federação Espírita do Estado de São Paulo". Minha mãe me dizia: "Nesse lugar, os espíritos descem e conversam com as pessoas", o que me dava uma medo desgraçado.

A primeira vez que entrei na cantina Jardim de Napoli foi também a primeira vez que entrei em um restaurante, tipicamente italiano. As toalhas eram quadriculadas nas cores verde e branco. Havia garrafas de vinho chianti, envoltas por uma armação de palha, penduradas sobre nossas cabeças. De vez em quando, um garçom pegava uma delas e levava para uma mesa. O cheiro da comida era devastador. Dava vontade de chorar. Na época, o famoso polpetone ainda não tinha sido inventado. Na entrada, junto da caixa registradora, ficava um rapaz de uns vinte e poucos anos. Meu pai ia até ele e o cumprimentava. Ele parecia genuinamente feliz de ver a gente. "É o Toninho Buonerba", meu pai dizia, "é filho do senhor Francesco". Aparecia um garçom calvo, atencioso, que se chamava "seu Mário". Ele conhecia meu pai e os dois trocavam palavras em italiano. O Jardim de Napoli, então, era um salão, com algumas mesas, quase sempre ocupadas por famílias e casais de gente modesta, como nós. 

Antes do prato principal, comíamos o que eles chamavam de "antipasti". Era um festival de sabores, envolvendo berinjelas e cogumelos em conserva, azeitonas frescas, envoltas em muito azeite. Pegávamos o pão italiano, cortado em fatias, e devorávamos o tal do "antipasti". Em seguida, chegavam as pizzas: de mozarela, de aliche, calabresa, portuguesa. De sobremesa, era a vez dos cannolis de chocolate e creme. Minha mãe comia sempre pastiera di grano, uma torta de ricota com grãos de trigo.

Encerrado o jantar, fazíamos o caminho de volta, sem qualquer ocorrência. Ninguém vinha falar com a gente, pedir dinheiro, tentar roubar o celular, mesmo porque faltavam uns quarenta anos para inventarem o celular. Estávamos satisfeitos, felizes da vida com aquele jantar delicioso. E era gostoso andar à noite por São Paulo, com a família reunida.

Depois de adulto, voltei a frequentar o Jardim de Napoli. Com a deterioração da zona central, o restaurante tinha feito as malas e se mudado para a rua Martinico Prado, 463. Certa noite, eu, a esposa e a nossa filha, com uns três anos de idade, fomos lá para jantar. Na entrada, repeti o gesto do meu pai e dei um abraço apertado em Toninho Buonerba. Cumprimentei também efusivamente os garçons, que nos conheciam. Olhando com atenção ao redor, reparei que o público havia mudado. Era um pessoal mais endinheirado, que minha mãe chamava de "gente com o nariz em pé". Era época de festas juninas e nossa filha estava vestida a caráter, de caipirinha, com um vestido floral verde e branco, que combinava com as toalhas, cabelo com trancinhas, linda, uma graça. Nossa filha era a menina mais comportada do planeta Terra. Falava sem cometer erros de português e nunca tinha nos deixado embaraçados em público. Nessa noite, no entanto, a menina estava com o diabo no corpo. Ela chorava, gritava, abria um berreiro, enfiava a mão no copo cheio de refrigerante, atirava os talheres no chão. E a gente morrendo de vergonha, diante dos olhares dos ricos.

Voltamos, é claro, várias vezes ao Jardim de Napoli e a qualidade da comida nunca se perdeu. Era impressionante: a mesma berinjela que eu comia na infância tinha o mesmo sabor, décadas depois. A pizza igualmente sempre com a mesma textura e sabor. E havia uma novidade no cardápio: a partir dos anos 70, Toninho Buonerba tinha inventado o polpetone, um bolo de carne, recheado de mozarela e envolto em molho de tomates. O prato tornou o Jardim de Napoli conhecido nos meios gastronômicos e fez a clientela crescer cada vez mais. Com o tempo, se a gente chegasse depois das 19 horas, em um sábado à noite, era obrigado a suportar longa fila de espera.

Toninho Buonerba morreu em 2018 e deixou um grande legado para a culinária de origem italiana em São Paulo. Deixei de frequentar o Jardim de Napoli, quando mudei para a Granja Viana, no final dos anos 90. Ficou muito longe, fora de mão. 

Alguns restaurantes têm essa particularidade: parece que fazem parte da nossa família. Era bom entrar no Jardim de Napoli e encontrar sempre os mesmos garçons e o Toninho Buonerba, no mesmo lugar, ali na entrada, na recepção. Bons restaurantes trazem boas lembranças, não só gastronômicas, mas de afeto, de fazer a gente se sentir bem-vindo. Por isso, o Jardim de Napoli terá sempre um lugar garantido nas minhas melhores e mais prazerosas lembranças. Pena que saiu da rua Maria Paula, pena que a gente não possa mais caminhar à noite por São Paulo, saindo da rua Senador Feijó e caminhando a pé até a Maria Paula. Perdemos o direito e ir e vir e não sabemos se um dia iremos recuperá-lo.   
        

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

"La vita in diretta" é um "Aqui agora" italiano

 

108, via Spartaco, Roma: prédio é refém da "senhora dos pombos"

Telejornais policialescos são deliciosos. A gente assiste com um sorriso nos lábios, dando graças a deus por aquela desgraça não ter acontecido com a gente. Há também aqueles que gostam de ver para se colocar na pele dos vilões, dos transgressores. É ser bandido de forma vicária. Ou justiceiro, a salvo, na sala de casa. "Se fosse eu, também tinha metido uma 'azeitona' naquele vagabundo".

Na Itália, transmitido diariamente pela Rai (Radio Audizioni Italiane) - a TV e a Rádio públicos - chama atenção o programa "La vita in diretta". Apresentado por um barbudo, cara de malvado, chamado Alberto Matano, o telejornal traz uma enxurrada de crimes que não acabam mais. É a mãe que matou e cortou em pedaços o filho violento ("ucciso e fatto in pezzi"), ajudada - veja você - pela nora. É a esposa napolitana que deu 50 facadas no marido. Sem esquecer do senegalês que é suspeito de ter matado uma senhora de 78 anos, com 29 facadas na garagem da casa onde ela vivia. O senegalês quase que tem nome de brasileiro: Louis DaSilva e - se descobriu posteriormente - era amante da nora da executada. Tem a garota de 22 anos que matou o filho recém-nascido e o enterrou. Não falta o suicida de 70 anos que saltou do balcão do prédio onde vivia e caiu em cima da vizinha de 83 anos, que andava pela rua. O suicida matou a vizinha e ficou vivo para contar a história. 

Durante semanas, "La vita in diretta" colocou uma lente de aumento sobre o endereço 108 da via Spartaco, em Roma. É um prédio simpático, com varandas amplas, em um quarteirão residencial. Ocorre que uma das moradores é ativista de proteção às aves. Todos os dias, ela dá comida - muita comida - para os pombos. As aves aglomeram-se em volta da janela onde ela vive e se multiplicam, com a comida farta e a ausência de predadores naturais. O resultado, como é fácil de se prever, provoca uma dor de cabeça danada nos vizinhos. Os pombos não ficam apenas diante da casa da ativista. Eles se espalham pelas outras janelas, pelas ruas, pelos outros prédios. É cocô por tudo quanto é lado. Tem cocô de pombo no asfalto, em cima dos carros, nas calçadas e - principalmente - nas belas varandas romanas. Se você morasse lá e quisesse tomar um aperitivo em uma romântica tarde de primavera, seria bombardeado de maneira implacável pela merda. Mesmo no verão, as janelas precisam ficar fechadas, porque o cheiro do cocô é insuportável. A história foi até reproduzida pelo jornal inglês "The Guardian", para quem "os pombos do inferno", lembravam uma cena hitchcockiana. O cineasta Alfred Hitchcock, no filme "Os pássaros", conta uma história de terror em que os pássaros (todos eles) começam a atacar os humanos. Sem mais nem menos, assim por pura maldade ou - talvez - desejo de vingança. "La vita in diretta" tanto fez que até o prefeito de Roma entrou na jogada e mandou a "senhora dos pombos" parar de alimentar os bichos. Segundo repetia o apresentador Alberto Matano, era "todo um quarteirão refém da senhora dos pombos".

E a ESPN conseguiu matar o seu melhor programa de esportes da TV. Chamava-se "Futebol 360" e era transmitido diariamente a partir das 9h, apresentado pelo jornalista Abel Neto, que foi demitido pela emissora.

Abel Neto, filho do craque e ponta esquerda santista Abel, é um excepcional apresentador. Tem tarimba, jogo de cintura, é experiente. Ele conduzia o "Futebol 360" de maneira leve e rigorosamente informativa, apoiado por comentaristas sérios e equilibrados como Eugênio Leal, Breiller Pires, Celso Unzelte. Era um programa sem gritaria, sem palhaçada, do tipo "Jogo aberto" e "Os donos da bola".

 "Futebol 360" não era dedicado ao Flamengo, como costuma ser o "Redação sportv". Os "gênios" da ESPN mudaram a grade, demitiram o apresentador competente e colocaram no lugar um pessoalzinho engraçado e moderninho no melhor estilo Leifert de ver futebol.   

  

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Um ressentido escreve sobre os ressentidos

 


São 220 páginas de puro ressentimento. O livro O pobre de direita - a vingança dos bastardos, de Jessé Souza, editado pela Civilização Brasileira, traz na capa um homem sentado em um galho de árvore, usando um serrote para cortar o mesmo galho. Ele está sentado no sentido contrário ao tronco. Ou seja, o galho vai ser serrado, quebrar e o infeliz vai despencar junto. Essa é a metáfora que simboliza o pobre de direita: o cara que usa hospitais públicos, escolas públicas, pega remédio grátis na farmácia e - inexplicavelmente - é também alguém que é a favor da redução do estado, do corte dos projetos assistenciais, que é contra o bolsa família, que é cristão de bíblia encadernada em zíper e mesmo assim apoia o Estado de Israel e se enrola na bandeira israelense para participar de passeata bolsonarista na Paulista (não foram os judeus que "mataram" Jesus?).

Jessé Souza é negro e nordestino. Talvez, por isso, ressentido. Assim como quis comprovar o cineasta Kleber Mendonça no filme "Bacurau", Jessé acredita que o pessoal do Sul e Sudeste são os "inimigos" do estado democrático e dos governos de esquerda. Essa gente que Jessé chama de "branquinhos histéricos" teria levado à eleição de Bolsonaro, por se acharem "europeus" e não se sentirem parte do Brasil.  

Na crítica intitulada O pobre de direita e a miséria da sociologia, o ativista da organização comunista Arma de Crítica Renato Nucci Júnior e o professor do Instituto Federal de São Paulo Leonardo Sacramento dizem que se Jessé levasse essa tese a uma banca de mestrado, levemente rigorosa, seria reprovado: "O argumento central de Jessé está pautado no ressentimento do branco sulista e no moralismo do negro periférico evangélico, desvinculando os seus votos da questão econômica. O PT, portanto, representaria o negro e o pobre, enquanto o branco sulista ressentido se identificaria com Bolsonaro". Nucci e Sacramento lembram, no entanto, que o Nordeste sempre votou, da redemocratização a 2002, no PSDB. "Há claramente um erro ao não se confrontar com um dado básico. O que teria acontecido com o Nordeste? Eis o que Jessé ignora".

Jessé estima que a classe média e a elite brasileira representam 20 por cento da população. "Ou seja, elas não decidem as eleições majoritárias." Não são esses os números do IBGE. Segundo o Censo 2022, as classes A, B e C já representam 50,1 por cento da população economicamente ativa. Cinquenta por cento mais um tem sim voto decisório. 

O pobre de direita é também uma longa e exaustiva peroração de ataques furibundos a Raízes do Brasil, de Aurélio Buarque de Holanda. Jessé entende que Buarque de Holanda (primo de segundo grau do Chico) simboliza o elitismo acadêmico paulista que se opunha a Getúlio Vargas. Para Jessé, Vargas foi o presidente que resgatou a importância da cultura negra na formação brasileira. 

"A revolução cultural varguista implica reconhecimento da cultura negra como um pilar cultural fundamental". Já São Paulo "passa a ser percebido, para todos os efeitos, como o lugar do encontro entre americanos e europeus, campeões da 'civilização', em contraposição ao resto do país (...) Estava criado o racismo cordial brasileiro".

São Paulo e sua elite acadêmica tinham mesmo de se opor a Getúlio Vargas. Ele havia dado um golpe em 1930 e tomado o poder à força. Foi para redemocratizar o País que os paulistas declararam guerra a Vargas, em 1932, com a Revolução Constitucionalista. Vargas baixaria o Estado Novo, em 1937, com a dissolução do Congresso e só deixaria o poder em 1945, quando havia 600 presos políticos no Brasil, entre eles, Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighela, Agildo Barata, Gregório Bezerra, entre outros. Os escritores Graciliano Ramos e Monteiro Lobato também foram "hóspedes" das celas do Estado Novo. Em nenhum momento, Jessé cita a ditadura Vargas. O fato de celebrar a cultura negra seria uma espécie de vacina que livraria Vargas de todos os seus desmandos? 

Pior: Jessé coloca no mesmo prato Vargas, Jango, Lula e Dilma, "líderes populares de nossa história que tentaram usar o orçamento público em benefício da maioria da população". Jango, Lula e Dilma foram democraticamente eleitos. Vargas só retornaria ao poder em 1951, "nos braços do povo", com a popularidade alcançada pela sua Consolidação das Leis do Trabalho, de 1943. De 1930 a 1945, é bom destacar, o Brasil vivia uma ditadura. A Ditadura Vargas.

Jessé cria um "racismo racial de fundo", que seria "contra os mestiços e negros do Norte". O autor menciona também o "preconceito regional", "principalmente no Estado de São Paulo, onde ele assume a sua forma mais bem elaborada e eficaz". E elabora o seguinte questionamento: "O que está em jogo no ódio real aos nordestinos, que não seja mera inveja do lugar que possui, indiscutivelmente, as praias mais bonitas deste país?". E afirma que "crime passa a ser tudo aquilo que o preto faz: sua religião, sua música, seu lazer e suas manifestações culturais". No entender do autor, "o racismo 'racial' continua sendo, agora por meio de suas máscaras 'culturais', o fundamento do cimento social brasileiro".

Jean-François Braunstein, em A religião woke, afirma que "é preciso encontrar racismo em todo o lado, precisamente porque não temos um racismo comprovado". Braunstein cita o professor canadense de política Eric Kaufmann que, a propósito dos Estados Unidos, ponderou que "nunca se falou tanto de racismo desde que o país se tornou indiferente às raças, com um presidente negro, um ministro de Defesa negro e um secretário de Segurança latino".

Ao falar de "racismo sistêmico", Braunstein menciona a militante racial Barbara Applebaum, para quem "todos os brancos são racistas ou cúmplices do fato de se beneficiarem de privilégios que não podem voluntariamente renunciar". O autor de A religião woke avalia que "temos dificuldade em compreender que estes militantes raciais finjam não perceber que a própria fórmula 'todos os brancos são racistas ou cúmplices' é um racismo consumado, sobretudo se a completarmos com a afirmação que ninguém negro é racista. Com este 'racialismo', estamos lidando com um racismo invertido, mas que ainda assim é racismo".

Jessé entrevista algumas pessoas, mas sem a preocupação de identificá-las. Por exemplo: "Marcelo - Marcelo é gaúcho e morador de Porto Alegre. Marcelo é branco, forte e musculoso, alto e com rosto de traços finos". Mateus - Matheus é advogado e tem trinta anos". Como jornalista essa forma de identificar o personagem me causa estranhamento. Quando era repórter, costumava anotar o nome completo, a profissão e até a idade da pessoa. Fica uma sensação de informação mal dada: "Ederson - Ederson é negro, carioca e mora em São Paulo". Não encontrei de forma detalhada e explícita quantas pessoas foram entrevistadas. Não há um balanço final. Parece que os entrevistados foram escolhidos a dedo para comprovar a tese do "racismo racial de fundo" do autor.

No Brasil, há pessoas racistas. Existem paulistas e sulistas que não gostam de nordestinos por preconceito. Mas são exceções. São Paulo sempre recebeu todos de braços abertos. Hoje, São Paulo é o estado que tem a maior população de nordestinos fora do Nordeste. Quando Jessé afirma que, no fundo, o preconceito contra nordestinos advém da inveja, por causa das praias, é de uma infelicidade autoral clamorosa. O preconceito contra o nordestino deve-se a evidências notórias: são pessoas pobres, com nível educacional baixo, que têm somente a força do trabalho para ofertar. Assim como eram os avós dos descendentes de italianos, alemães, japoneses, que chegaram a São Paulo entre o final do século 19 e o início do século 20. 

Quem lê o livro O pobre de direita - a vingança dos bastardos tentando entender por que o bolsonarismo surgiu e criou raízes, e por que houve esse período tão turbulento e nocivo para a sociedade brasileira, fica sem respostas. Por causa de seu ressentimento em relação a São Paulo e estados do Sul, Jessé cria um esqueleto teórico, com base na suposição de um "racismo racial", que não oferece explicações. 

Bolsonaro foi eleito, porque o seu principal adversário (Lula) estava na cadeia, preso por uma acusação de corrupção que nunca foi comprovada. Nem o então juiz Sergio Moro, nem o promotor Deltan Dallagnol tinham provas efetivas de que o dinheiro da Petrobras teria sido utilizado na reforma do sítio em Atibaia e no tríplex do Guarujá. Como a Vaza Jato viria comprovar, posteriormente, Moro e Dallagnol conjuravam para conseguir a condenação. Como prêmio pela condenação, por ter tirado Lula da disputa eleitoral, Moro foi escolhido por Bolsonaro para assumir o Ministério da Justiça.

Nucci Júnior e Sacramento escrevem que o conceito pobre de direita é imprestável para explicar a realidade. "No fundo, expressa uma condenação moral: a culpa pela pobreza e miséria das massas não seria do capitalismo, mas do próprio pobre de direita, principal responsável pela sua miséria".

O Brasil tem pressa. Precisa acabar com as desigualdades salariais. Tem de estabelecer níveis de rendimento semelhantes aos dos países nórdicos. É inconcebível um país com tantos miseráveis como o Brasil ter funcionários públicos com rendimentos estratosféricos, como apontou Bruno Carazza, em seu livro O país dos privilégios

O Brasil tem pressa, em suas prioridades: eliminar as desigualdades, transformar a educação em pública, acabando com as fábricas particulares de diplomas; combater a violência com mais vigor e menos titubeio. Preservar a natureza. Salvar as mulheres dos companheiros e ex-companheiros. Diferente do livro de poemas Temos muito tempo e tão pouco a fazer, nós temos tanta coisa para fazer e tão pouco tempo. E conforme a frase atribuída ao imperador Marco Aurélio: "o que fizermos agora ecoará pela eternidade".     

  





   






 
 





segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Novo livro de Vladimir Safatle mantém proposta revolucionária

 


“Enquanto houver sofrimento, haverá política revolucionária possível”, afirma Vladimir Safatle, em seu livro recém-lançado pela editora Planeta, A esquerda que não teme dizer seu nome.

Em suas 111 páginas, Safatle tece críticas ao “socialismo real, vencedor”, põe em dúvida os números de vítimas do comunismo, prioriza a defesa de vida de “entidades não humanas” (natureza), desmitifica o que chama de “limitação antropológica da política” (uma política de esquerda não pode funcionar, porque o ser humano é naturalmente egoísta) e tenta explicar “o que aconteceu conosco”, referindo-se à atual militância esquerdista.

Afinal, o comunismo fez quantas vítimas: 60, 65, 93, 110, 148 milhões de pessoas? Segundo o autor, essa “leviandade no uso dos números” indica que “precisão não é o forte nessa discussão”. Por que, ele questiona, “não lembramos também de todas as vítimas do colonialismo, do imperialismo, das guerras expansionistas, da miséria e fome operária, das ditaduras, da repressão policial”.

Em defesa das “entidades não humanas”, Safatle chama atenção para a Constituição do Equador que garante “a existência da Natureza, sua preservação e a regeneração de seus ciclos vitais”. Ele assegura que esta é uma forma de dar também uma categoria de sujeito para entidades não humanas. E isso precisa ser feito com rapidez, porque vivemos em um mundo “que desmorona muito rápido”.

O autor sugere que “a soberania popular” possa ser “a força deliberativa de um estado de emergência” que impediria medidas tomadas contra os interesses da preservação da natureza. Por exemplo, quando se fala em prospecção de petróleo na foz do Amazonas, essa “soberania popular” passaria por cima de qualquer decisão governamental e impediria a extração do óleo naquela região.

Safatle lembra que, em 2017, o governo de Michel Temer fez uma reforma trabalhista que derrubou direitos consolidados. Pós-Temer, grávidas podiam ser obrigadas a trabalhar em locais insalubres, as jornadas de trabalho de 12 horas por dia, com demissão, descanso e férias radicalmente flexibilizadas. Na ação trabalhista, se o trabalhador fosse derrotado teria de arcar com as despesas do processo. Assim que a reforma foi aprovada o que se viu nas ruas?

“Nenhuma manifestação de rua. Famílias todas de olho no final do BBB”, recorda o autor, questionando:

“O que aconteceu conosco?”

Em seguida veio a eleição de Bolsonaro. Era o candidato não apenas das famílias de deputados de cinco gerações, mas também “de gente periférica, negra e evangélica”.

“Votavam na direita”, observa Safatle, “por se sentirem traídos, por não se verem mais como objetos reais das preocupações reais das práticas no poder”.

O autor refere-se aos empreendedores isolados, a uberização do trabalhador. Gente que não pode mais contar com instituições e redes de solidariedade para defesa coletiva, como sindicatos e associações.

Eles são “vendedores de si mesmos”. “Nada têm – nem garantias trabalhistas, nem meios de produção, nem tempos e estão sempre endividados”.

O todo poderoso “mercado” é uma “instância antipolítica, anti-igualitária e organizada a partir da lógica de concentração e do monopólio”.

“O capitalismo nunca foi concorrencial, sempre foi monopolista”.

Cita o bilionário Warren Buffet, que afirmou:

“É verdade. Existe uma guerra de classes, mas é a minha classe que está fazendo a guerra e ganhando”.

“O capitalismo”, escreve Safatle, “é um sistema de guerra permanente, que usa a violência como regime normal de funcionamento”.

O autor critica o apoio da esquerda às lutas identitárias (movimentos feministas, negros, LGBT), afirmando que “a esquerda se serviu dessas lutas para esconder de si mesma sua impotência”.

E dispara contra o antigo regime comunista: “O socialismo real conheceu a violência estatal, a brutalidade social, o autoritarismo, os privilégios da burocracia, entre tantas degradações”.

Safatle vê com bons olhos “a legalidade da violação política”. Cita como exemplos pacifistas, ecologistas, ativistas (que ateiam fogo em estátuas de bandeirantes), piqueteiros, cidadãos que protegem imigrantes sem papéis e militantes do MST que invadem fazendas improdutivas.

Sobre desigualdade salarial, Safatle chama atenção para o fato de que nos países nórdicos (Islândia, Noruega, Suécia e Dinamarca) a diferença entre o menor salário e o maior não ultrapassa a proporção de um para quatro. “No Brasil, o salário numa empresa a diferença pode ser até 120 vezes entre o maior e o mais baixo”.

Ao se perguntar “o que é ser de esquerda hoje?”, ele responde: “É defender a igualdade radical e a soberania popular”.

O que é essa soberania popular, como ela se organizaria, como efetivá-la? Safatle diz que “não há nada neste livro sobre organização política”, mas caberá à esquerda acelerar o desabamento do mundo em outra direção.

“Revoluções são sempre improváveis, fruto de uma série contingente de acontecimentos. O que devemos fazer é não recusar esses processos inesperados que têm a força de romper o tempo. Não recusar já é muita coisa”.

 “As long as there is suffering, there will be possible revolutionary politics", says Vladimir Safatle in his newly released book by Editora Planeta, The Left That Is Not Afraid to Speak Its Name.

In its 111 pages, Safatle criticizes ‘real, victorious socialism,’ questions the numbers of communism’s victims, prioritizes the defense of life for ‘non-human entities’ (nature), demystifies what he calls the ‘anthropological limitation of politics’ (the idea that leftist politics cannot work because humans are naturally selfish), and attempts to explain ‘what happened to us,’ referring to today’s leftist activism.

After all, how many victims did communism claim: 60, 65, 93, 110, or 148 million? According to the author, this ‘frivolity in using numbers’ indicates that ‘precision is not the strong point in this discussion.’ Why, he asks, ‘don’t we also remember all the victims of colonialism, imperialism, expansionist wars, worker poverty and hunger, dictatorships, and police repression?’

In defense of ‘non-human entities,’ Safatle highlights Ecuador’s Constitution, which guarantees ‘the existence of Nature, its preservation, and the regeneration of its vital cycles.’ He argues that this is a way to grant subjectivity to non-human entities—and that it must be done quickly because we live in a world ‘that is collapsing very fast.’

The author suggests that ‘popular sovereignty’ could act as ‘the deliberative force of a state of emergency,’ preventing measures against nature’s preservation. For example, regarding oil drilling at the mouth of the Amazon, this ‘popular sovereignty’ would override any government decision and block extraction in the region.

Safatle recalls that in 2017, Michel Temer’s government passed a labor reform that dismantled long-standing rights. Post-Temer, pregnant women could be forced to work in hazardous conditions, workdays extended to 12 hours, and dismissals, rest periods, and vacations became drastically flexible. In labor lawsuits, if the worker lost, they would have to pay legal fees. And what happened in the streets after the reform passed?

‘No street protests. Families glued to the finale of Big Brother Brasil,’ the author notes, asking:

‘What happened to us?’

Then came Bolsonaro’s election. He was the candidate not only of families with five generations of congressmen but also of ‘peripheral, Black, and evangelical people.’

‘They voted for the right,’ observes Safatle, ‘because they felt betrayed, no longer seeing themselves as the real objects of the ruling power’s concerns.’

The author refers to isolated entrepreneurs, the ‘Uberization’ of workers—people who can no longer rely on institutions or solidarity networks for collective defense, like unions and associations.

They are ‘sellers of themselves.’ ‘They have nothing—no labor rights, no means of production, no time, and are always in debt.’

The all-powerful ‘market’ is an ‘anti-political, anti-egalitarian entity, organized under the logic of concentration and monopoly.’

‘Capitalism was never competitive; it was always monopolistic.’

He quotes billionaire Warren Buffett, who once said:

‘There’s class warfare, all right, but it’s my class, the rich class, that’s making war, and we’re winning.’

‘Capitalism,’ writes Safatle, ‘is a system of permanent war, using violence as its normal mode of operation.’

The author criticizes the left’s support for identity struggles (feminist, Black, LGBT movements), arguing that ‘the left used these struggles to hide its own impotence from itself.’

And he takes aim at the old communist regime: ‘Real socialism knew state violence, social brutality, authoritarianism, bureaucratic privileges, and so many other degradations.’

Safatle looks favorably upon ‘the legality of political violation.’ He cites pacifists, ecologists, activists (who burn statues of bandeirantes), picketers, citizens protecting undocumented immigrants, and MST militants invading unproductive farms as examples.

On wage inequality, Safatle points out that in Nordic countries (Iceland, Norway, Sweden, Denmark), the gap between the lowest and highest salaries does not exceed a 1:4 ratio. ‘In Brazil, the difference within a company can be up to 120 times.’

When asking, ‘What does it mean to be left-wing today?’, he answers: ‘It means defending radical equality and popular sovereignty.’

What is this popular sovereignty, how would it organize itself, how could it be implemented? Safatle admits that ‘there is nothing in this book about political organization,’ but it will be up to the left to steer the world’s collapse in another direction.

‘Revolutions are always improbable, the result of a contingent series of events. What we must do is not reject these unexpected processes that have the power to break time. Not rejecting them is already a lot.’

Um verão para ser esquecido

  Imagem de uma praia carioca, depois da chuva A nossa relação com o mar, com a praia e a bela área verde que a cerca é de encantamento. Che...