| "Ainda estou aqui" ganhou o Oscar de melhor filme internacional |
A diferença entre os filmes "Ainda estou aqui" e "O agente secreto" é abissal. Enquanto o filme de Kléber Mendonça Filho sugere que a violência da Ditadura Militar era encabeçada por meia dúzia de policiais corruptos e ex-integrantes do Exército; "Ainda estou aqui", dirigido por Walter Salles, não tem receio de colocar o dedo na ferida e vai fundo na exorcização de nossos demônios, mostrando a responsabilidade das Forças Armadas brasileiras na repressão criminosa, entre 1964 e 1985, os 21 anos de duração da Ditadura Militar.
Não eram meia dúzia de paus mandados, de tiras criminosos, os responsáveis pela tortura e desaparecimento de presos políticos, como propõe "O agente secreto". Eram os homens fardados, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, com o apoio de policiais, como o torturador e delegado Sérgio Paranhos Fleury, os protagonistas do terror.
Legítimo vencedor do Oscar 2025 de melhor filme internacional, "Ainda estou aqui" é uma produção inteligente, emocionante, épica, profundamente amorosa em retratar uma família devastada por uma ação terrorista do Estado. A atuação de Fernanda Torres, como Eunice, a mulher do deputado Rubens Paiva, atinge um primor, uma perfeição que vai ser muito difícil de ser superada. Infelizmente, a Academia de Hollywood não a premiou com o Oscar. Preferiu dar o prêmio para a jovem atriz Mikey Madison, do filme "Anora". Uma pena e uma injustiça. Felizmente, Fernanda Torres levou para casa o Globo de melhor atriz.
"Ainda estou aqui" deixou momentos de beleza poética que a gente, passado um ano ou mais desde a sua exibição, guarda com muita emoção. Não se consegue segurar as lágrimas, quando a casa, onde viviam Rubens Paiva e a família no Rio de Janeiro, é esvaziada. Uma das filhas do deputado pega a filmadora e registra o momento da partida da família, que deixa o Rio e segue para São Paulo, para uma nova vida, sem a presença do pai.
Em outro momento inesquecível, Eunice recebe a notícia de que o governo brasileiro, em 1996, finalmente, havia reconhecido que Rubens Paiva havia sido morto pelas forças repressivas. A expressão de Fernanda Torres, vivendo a agora oficialmente viúva, é de uma qualidade interpretativa assombrosa.
"Ainda estou aqui" tem momentos de claridade e felicidade ofuscantes, enquanto a família reúne-se com amigos, com tios e primas, para almoços, onde Eunice serve um suflé que todos adoram.
Enquanto isso, "O agente secreto" vai no seu ritmo modorrento, meio passivo-agressivo, contar a história de um pesquisador que está sendo perseguido por "matadores de aluguel". A relação do pesquisador com o filho é distante (a mãe do menino e companheira do pesquisador foi morta em circunstâncias não muito claras). Aparecem policiais que fariam parte de um suposto esquadrão da morte. Só que a narrativa não deixa nada muito claro. A gente só sabe o que aconteceu com o pesquisador, em uma breve imagem de um retrato de jornal. Há cortes de cena abruptos que mostram um celular, indicando uma ação que se passa no futuro. Vi gente reclamando com o diretor, dizendo que celular não existia em 1977, quando se passa a história de "O agente secreto". Tem gente que deve assistir filme com um olho na tela grande e o outro no próprio celular, escorregando o dedo na telinha da rede social. Enquanto Walter Salles deixa clara a mudança temporal, jogando na tela a informação "25 anos depois"; Kléber Mendonça prefere focalizar o celular, para sugerir que o tempo passou. Estratégia que o público de rede social dificilmente vai conseguir captar.
E enquanto "Ainda estou aqui" é um filme aberto, inclusivo, regado a whisky de qualidade, viagens à Europa, descendentes de múltiplas nacionalidades, que fazem o Brasil ser aquele que acolhe todos; "O agente secreto" destaca como vilão um protagonista, vindo do sudeste, com uma única proposta: prejudicar os nordestinos. O foco de "O agente secreto" parece ser muito mais voltado para o rancor de Kléber Mendonça, em relação aos paulistas, do que à Ditadura Militar.
Vontade de rever "Ainda estou aqui". E nenhum desejo de assistir novamente "O agente secreto".




