quinta-feira, 23 de julho de 2026

A primeira travesti do Bois de Boulogne

 

Livro conta a história de Paul/Suzanne

O escritor Marc Lefrançois (marc.lef01), autor de "Les grandes criminelles de l'Histoire: De l'affaire des poisons à nos jours", entre outras obras, é um incansável divulgador de livros nas redes sociais. Foi ele quem me indicou o livro "La garçonne et l'assassin" (A garota e a assassina), que conta uma história verídica e insólita sobre um soldado desertor que, para fugir da polícia militar, troca de gênero e se transforma em mulher, em Paris, durante o ano de 1915. 

Durante dez anos, de 1915 a 1925, Paul Grappe viveu como mulher ao lado de sua esposa Louise. Ele assumiu o nome feminino de "Suzanne Landgard" e passou a trabalhar em casa, fazendo suspensórios, para uma casa de modas. Para adotar a personalidade de "Suzanne", além de vestir roupas de mulher e deixar o cabelo crescer, Paul precisou retirar os pelos do rosto, principalmente o bigode, utilizando uma técnica ainda incipiente na época: a eletrólise (hoje, seria o laser).

A transformação de Paul em "Suzanne" teve origem em 1914, durante a Batalha do Somme. Paul foi ferido por um estilhaço de granada e perdeu o polegar direito. Depois de se recuperar, voltou a ser chamado para o front. Mas preferiu desertar. Na época, a deserção era punida com a morte.

De volta a Paris, Paul e a esposa trocaram de endereço várias vezes para despistar a Polícia do Exército. Um rapaz, com idade para estar no exército, seria facilmente preso pelas autoridades, por isso Paul decidiu mudar de gênero e virou "Suzanne". Na época, com milhões de homens na frente de batalha, duas mulheres que vivessem juntas não chamariam muito a atenção. 

"Suzanne Landgard" e Louise Grappe
Paul/Suzanne era adepto do amor livre. Passou a frequentar o Bois de Boulogne - uma ampla área verde no centro de Paris - e foi certamente a primeira travesti a fazer "job" naquele local. Décadas depois, entre 1970 e 1980, o Bois de Boulogne seria o destino preferido de dezenas de travestis brasileiras. Tem até uma tese de doutorado da pesquisadora Marina Duarte sobre essa fase ("Trans: histórias de uma brasileira no Bois de Boulogne"). 

O livro "La Garçonne et l'assassin", dos historiadores Fabrice Virgili e Danièlle Voldman, faz um acurado trabalho de reconstituição da época e dos costumes. Os autores lembram que o pós-guerra proporcionou às mulheres mais oportunidades e liberdade de movimento. Em Paris, nos anos 1920, vivia-se "les années folles" (os anos loucos), com a mudança radical de costumes, época retratada com acuidade pelo escritor Victor Margueritte, em seu livro "La garçonne". 

As mulheres cortavam os cabelos curtos, igual aos homens, "à la garçonne", sugerindo independência, androginia, desinibição e modernidade. Eram moças "arrapazadas", como se diz em Portugal. As melindrosas estavam na moda e botavam pra quebrar.

Em 1925, a França aprova uma lei que anistia todos os desertores. O jornal "Le Parisien", do dia 5 de fevereiro daquele ano, traz na capa a manchete: "Senhorita Suzanne - apelidada 'la garçonne' - renasce Paul Grappe - desertor e anistiado". O texto começa com a surpresa da zeladora do prédio de número 30 da rue de Saussure, bairro de Batignolles, ao se deparar com a senhorita Suzanne vestida de homem. 

Ele (a) diz para a zeladora: "A partir de hoje, não sou mais a Suzanne Landgard, que você conheceu. Eu retomo minha verdadeira personalidade: Paul Grappe, legítimo esposo daquela que você conhece como minha companheira. Eu sou desertor há dez anos e fui beneficiado pela anistia".

A reportagem prossegue, informando que, diante da autoridade militar, Paul Grappe conta sua história com sinceridade e sai do quartel com o documento que o anistiava. Podia, a partir de então, retomar sua vida. A reportagem no "Le Parisien" trouxe fama para Paul. A notoriedade, no entanto, não lhe rendeu dividendos. 

Avesso à hierarquia, rebelde, incapaz de permanecer em um emprego, os três anos seguintes foram desastrosos para Paul e a esposa Louise. Paul às vezes retomava a personalidade feminina. Alcoolizado, saía pelas ruas de Paris "montada" de "Suzanne", com um álbum de fotos que mostrava sua fase feminina. 

Sempre bêbado, obrigava sua mulher a se relacionar com outros homens. Louise chegou a mudar para outra cidade com um amante espanhol, mas acabou retornando para Paris. Em 1928, a vida familiar de Paul e Louise se transformou em drama. O casal teve um filho e as agressões de Paul contra a mulher se tornaram constantes. Quase sempre bêbado e violento, Paul espancava a mulher, sem piedade. Uma noite, Louise não suportou mais a violência e disparou várias vezes contra Paul, matando-o com uma pistola 6,35 Walman, que ele havia trazido de uma viagem à Espanha.

Louise foi a julgamento. Seu advogado, Maurice Garçon, uma celebridade jurídica à época, trouxe relatos da zeladora do prédio onde o casal vivia, relatos de familiares, que testemunharam as torturas impostas por Paul a sua esposa. O júri recolheu-se para decidir e sem muita discussão absolveu Louise.

O livro termina com esta conclusão: "Um evento notável, sem dúvida, que restaurou a ordem nas famílias e trouxe paz de espírito a todos aqueles que não haviam sido realmente incomodados pela desordem anterior".


En français:

L'écrivain Marc Lefrançois (marc.lef01), auteur de "Les grandes criminelles de l'Histoire : De l'affaire des poisons à nos jours", entre autres ouvrages, est un infatigable promoteur de livres sur les réseaux sociaux. C'est lui qui'a indiqué le livre "La garçonne et l'assassin", qui raconte une histoire vraie et insolite sur un soldat déserteur qui, pour échapper à la police militaire, change de genre et se transforme en femme, à Paris, durant l'année 1915.

Pendant dix ans, de 1915 à 1925, Paul Grappe a vécu en femme aux côtés de son épouse Louise. Il a pris le nom féminin de "Suzanne Landgard" et s'est mis à travailler à domicile, fabriquant des bretelles, pour une maison de mode. Pour adopter la personnalité de "Suzanne", outre porter des vêtements de femme et laisser pousser ses cheveux, Paul a dû éliminer les poils de son visage, principalement sa moustache, en utilisant une technique encore balbutiante à l'époque : l'électrolyse (aujourd'hui, ce serait le laser).

La transformation de Paul en "Suzanne" trouve son origine en 1914, durant la bataille de la Somme. Paul a été blessé par un éclat d'obus et a perdu son pouce droit. Après sa guérison, il a de nouveau été appelé au front. Mais il a préféré déserter. À l'époque, la désertion était punie de mort.

De retour à Paris, Paul et son épouse ont changé d'adresse à plusieurs reprises pour semer la police de l'Armée. Un jeune homme, en âge d'être sous les drapeaux, aurait été facilement arrêté par les autorités, c'est pourquoi Paul a décidé de changer de genre et est devenu "Suzanne". À l'époque, avec des millions d'hommes sur le front, deux femmes vivant ensemble n'auraient pas attiré beaucoup l'attention.

Paul/Suzanne était adepte de l'amour libre. Il/elle a commencé à fréquenter le Bois de Boulogne – un vaste espace vert au cœur de Paris – et a certainement été le premier travesti à y faire le "job". Des décennies plus tard, entre 1970 et 1980, le Bois de Boulogne serait la destination préférée de dizaines de travestis brésiliennes. Il existe même une thèse de doctorat de la chercheuse Marina Duarte sur cette période ("Trans : histoires d'une Brésilienne au Bois de Boulogne").

Le livre "La Garçonne et l'assassin", des historiens Fabrice Virgili et Danièle Voldman, effectue un travail minutieux de reconstitution de l'époque et des mœurs. Les auteurs rappellent que l'après-guerre a offert aux femmes davantage d'opportunités et de liberté de mouvement. À Paris, dans les années 1920, on vivait "les années folles", avec un bouleversement radical des mœurs, époque dépeinte avec acuité par l'écrivain Victor Margueritte, dans son livre "La garçonne".

Les femmes se coupaient les cheveux courts, comme les hommes, "à la garçonne", suggérant indépendance, androgynie, désinhibition et modernité. C'étaient des jeunes filles "garçonnières", comme on dit au Portugal. Les garçonnes étaient à la mode et faisaient parler d'elles.

En 1925, la France adopte une loi amnistiant tous les déserteurs. Le journal "Le Parisien", du 5 février de cette année-là, affiche en une le titre : "Mademoiselle Suzanne – surnommée 'la garçonne' – renaît Paul Grappe – déserteur et amnistié". Le texte commence par la surprise de la concierge de l'immeuble du 30, rue de Saussure, dans le quartier des Batignolles, en voyant mademoiselle Suzanne vêtue en homme.

Il/elle dit à la concierge : "À partir d'aujourd'hui, je ne suis plus la Suzanne Landgard que vous avez connue. Je reprends ma véritable personnalité : Paul Grappe, légitime époux de celle que vous connaissez comme ma compagne. Je suis déserteur depuis dix ans et j'ai bénéficié de l'amnistie".

Le reportage se poursuit, indiquant que, devant l'autorité militaire, Paul Grappe raconte son histoire avec sincérité et quitte la caserne avec le document l'amnistiant. Il pouvait, dès lors, reprendre sa vie. Le reportage dans "Le Parisien" a apporté la célébrité à Paul. La notoriété, cependant, ne lui a pas rapporté de dividendes.

Averse à la hiérarchie, rebelle, incapable de rester dans un emploi, les trois années suivantes furent désastreuses pour Paul et son épouse Louise. Paul reprenait parfois sa personnalité féminine. Alcoolisé, il sortait dans les rues de Paris "monté" en "Suzanne", avec un album photo montrant sa phase féminine.

Toujours ivre, il forçait sa femme à avoir des relations avec d'autres hommes. Louise alla jusqu'à déménager dans une autre ville avec un amant espagnol, mais finit par revenir à Paris. En 1928, la vie familiale de Paul et Louise se transforma en drame. Le couple eut un enfant et les agressions de Paul envers sa femme devinrent constantes. Presque toujours ivre et violent, Paul battait sa femme sans pitié. Une nuit, Louise n'en pouvant plus de la violence, tira à plusieurs reprises sur Paul, le tuant avec un pistolet 6,35 Walman qu'il avait rapporté d'un voyage en Espagne.

Louise fut jugée. Son avocat, Maurice Garçon, une célébrité juridique de l'époque, présenta les récits de la concierge de l'immeuble où le couple vivait, des témoignages de proches, qui attestèrent des tortures infligées par Paul à son épouse. Le jury se retira pour délibérer et, sans trop de discussions, acquitta Louise.

Le livre se termine par cette conclusion : "Un événement remarquable, sans doute, qui a rétabli l'ordre dans les familles et apporté la paix de l'esprit à tous ceux qui n'avaient pas été véritablement troublés par le désordre antérieur".  

        

 


domingo, 19 de julho de 2026

A livraria virou hambúrguer

 

 Gilbert Jeune, na praça Saint Michel, virou hambúrguer

Em 2022, estava em Paris e fui com um amigo em um café que fica na place Saint Michel. Bem defronte a esse café, no número 10, ficava um prédio das livrarias Gilbert Jeune (aquela do toldo amarelo). A Gilbert Jeune existiu, no Quartier Latin, durante 135 anos e morreu em 2021. Um ano antes da minha visita. Não tive nem tempo de me despedir. Portas fechadas, um grafite horroroso pintado na frente e uma sensação de perda intangível. 

Agora, veio a notícia que todos esperavam. A Gilbert Jeune vai virar hambúrguer. Felizmente. Faltam hamburguerias no mundo. Há muitos comedores de hambúrguer e um número insuficiente de hamburguerias. Com relação às livrarias, a equação é contrária: a cada dia, perdem-se leitores e as livrarias ficam entregues às moscas, ou melhor dizendo, às traças, que sabem apreciar um bom livro.

O Centro Nacional do Livro da França, informa uma publicação, registrou o fechamento de 85 livrarias no ano passado, enquanto 83 abriram as portas. Ou seja, o saldo é negativo. 

Se em Paris, onde parece haver mais leitores por metro quadrado do que no resto mundo, as livrarias estão capengando; imagine o que será de nós, pobres mortais sem livros, nem livrarias? 

O culpado é a tela. Os consumidores trocaram o papel pela tela. Não é de hoje. No final dos anos 90, um jornaleiro me mostrava um balanço assustador: a venda dos jornais, em banca, caía mês após mês. Inexoravelmente. Ele me exibia um caderno com as vendas de domingo: 435, 404, 370, 315, 290...Semana após semana, as vendas dos jornalões (Estadão, Folha) despencavam. Irremediavelmente (para abusar dos advérbios, que ninguém é de ferro).

Era gostoso acordar cedo no domingo, ir até a banca e comprar um jornal. A edição era grossa. Tinha vários cadernos. Artigos de fundo, análises, críticas, informação a dar com pau. O jornaleiro era meu amigo e costumava antecipar as principais notícias, às vezes, muito irritado, às vezes, sorridente, ainda mais se algum vilão tivesse sido capturado pelos homens da lei. 

Era legal também sair com o jornal debaixo do braço e ir na padaria tomar aquele lauto café da manhã. Enquanto esperava pelo café com leite e o pão com manteiga na chapa, abria o jornal e começava a me embrenhar no noticiário. Lia primeiro o caderno de cultura (antes de tudo, as histórias em quadrinhos), depois o cotidiano, com notas policiais e deixava a política e a economia por último.

Anos atrás, um amigo me deu de presente um kindle, que é aquele treco que serve para a gente ler livros. É digital. A tela imita papel e você pode até escolher o tamanho da fonte: grande, pequena, média, muito pequena, muito grande. Não me acostumei com essa desgraça. Faltava alguma coisa ali. Não sabia o que era. Você abria aquilo, lia, "virava" as páginas, só que não era legal. Não sei se faltava o cheiro do livro impresso, não sei se era a desconfiança (e se Jeff Bezos decidisse alterar a história do livro, porque não tinha gostado do final: "Onde já se viu os dois morrerem no final, esse Romeu e essa Julieta? Não, nada disso. Vou fazer os dois casar, ter filhos e serem felizes para frente"). 

Imagine: o conteúdo do livro está guardado na loja do bilionário e se ele decide efetivamente tirar uma página que não lhe agrada? O risco existe. Enfim, não me adaptei com o kindle. Abandonei o leitor digital. Ele ficou velho, empoeirado, obsoleto e foi parar na lixeira (reciclável). 

A tela parece inocente, mas não é. Por baixo dela, foram colocados espiões digitais que farejam suas andanças pelas postagens da vida. Eles veem e ouvem tudo. Eles sabem do que você gosta e do que você não gosta. Por isso, é só você abrir a tela, para todos os seus interesses aparecerem bem à vista, bem debaixo do seu nariz. Sabe o que isso significa: que você vai acabar se viciando na tela. No passado, era o cigarro, depois vieram os refrigerantes e agora os novos vilões são as telas. Você começa a ver um filme na Netflix, mas qualquer coisa doida dentro mexe, como previu o Caetano, e você aproveita para dar uma olhada na tela, não na telona, na telinha do celular. Aí você volta para o filme da Netflix, mas não entende direito, porque apareceu um personagem que você não conhecia e aí de volta para a telinha, para a Netflix, telinha e você acaba sem entender coisa alguma nem na telinha e nem na telona.

Finalmente, você termina de escrever aquele livro, que tanto tempo demorou para ser concluído, e decide enviar para as editoras avaliarem. Ledo engano. As editoras não querem você. Os sites delas informam: "a avaliação de exemplares está interrompida por tempo indeterminado". Em outras palavras, eles querem dizer que não vão perder tempo com novos autores, não querem publicar um livro que não será vendido, porque ninguém mais parece se interessar por livros. 

E finalmente - mais uma vez - você desiste de tudo e vira influencer. Não precisa ter qualificação, não precisa ter estudado, não precisa título acadêmico. Nada disso. É só correr atrás do jabá e bola pra frente.  

   

 


quarta-feira, 22 de abril de 2026

A inclusão ideal e a inclusão real

 

Imagem copiada do Instituto Itard

A ideia da inclusão é louvável: não é o aluno que tem de se adaptar à escola, mas a escola é quem deve adaptar-se ao aluno. O aluno com necessidades especiais -  tdah (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade), autismo, dislexia, baixa alfabetização, entre outros - está na sala de aula e necessita de apoio incondicional do professor. Esse apoio vem na forma de material pedagógico desenvolvido especialmente para esse aluno e acompanhamento incansável e irrestrito do docente.

Na vida real, não é isso que acontece. Em muitas escolas, o que se vê é o aluno com necessidade especial abandonado num canto da sala de aula. Às vezes, ele está acompanhado por um profissional de apoio escolar ou cuidador escolar que fica à mercê do material pedagógico que o professor irá passar.

Qual é esse material? Quem fornece? Dependendo da escola, vai caber ao professor correr atrás do lucro, porque no prejuízo ele já está. O docente entra na internet e vai buscando aquilo que ele acha mais adequado para seus discentes especiais. Mas é uma busca meio "no olho", sem fundamento científico. Na base do: "talvez isso dê certo", "quem sabe Fulano vai conseguir fazer esse exercício".

No dia seguinte, ele vai passar o exercício e o aluno, por exemplo com autismo, vai dizer: "Ah, professor, não gosto de pintar". Ou: "estou enjoado de pintar". Então, o docente vai em busca de novos materiais, nem sempre obtendo sucesso. 

Isolado no fundo da sala de aula, o aluno com necessidade especial, às vezes, começa a gritar. O professor procura saber o que está acontecendo e descobre que a profissional de apoio escolar saiu mais cedo, foi embora e que esse aluno está incontrolável: "Eu sou autista. Ninguém manda em mim aqui dentro", ele grita. A classe se diverte.

Sem condições de acompanhar as aulas, como os demais alunos, o aluno com necessidade especial não passa por avaliação. A prova, que é fornecida à classe, não pode ser a mesma que seria dada a ele. É uma outra avaliação. Mas como avaliá-lo? Ele fez os desenhos, ele montou um quebra-cabeça... Qual é a nota que deve ser dada? 

Na próxima reunião do Conselho de Classe, a nota do aluno especial já está dada. Em geral, é 5; às vezes, 7. Os pais, provavelmente, vão se encantar. "Nossa, meu filho está indo bem na escola. Tirou 7." Na vida real, essa nota não existe. É um engodo. A escola engana-se e os pais se submetem ao engodo.

Em classes turbulentas, caóticas, com 30, 40 alunos no recinto, os alunos com necessidades especiais ficam territorialmente perdidos. O professor tem dificuldade para manter o nível de concentração dos discentes. Precisa escrever na lousa, falar o tempo todo, para que a classe mantenha um mínimo de atenção. Nessa condição, o aluno especial está isolado, não acompanha a aula e aguarda a visita do professor que irá lhe passar alguma atividade. Ocorre que, nesses dois ou três minutos que o professor fala com o aluno especial, a classe entrou em erupção. 

Outra realidade são os alunos de sexto, sétimo e até oitavo ano que ainda não sabem escrever e nem ler com naturalidade. Alguns escrevem em letra cursiva e depois não conseguem entender o que escreveram, por se tratar de letra cursiva. Todo o trabalho do professor em escrever na lousa, o aluno copiar, vai para o ralo, porque, em casa, o aluno não conseguirá estudar, porque não lê a própria letra. 

O que aconteceu de errado no sistema escolar brasileiro que permite que alunos do sexto, sétimo e oitavo ano do ensino fundamental ainda estejam na pré-história do aprendizado? Alguma coisa deu muito errado nesse caminho. Só que ninguém ainda parou para pensar e dizer o óbvio: "Erramos e precisamos corrigir nosso erro. Vamos mudar a partir de hoje".

Além de todos esses problemas, tem um muito grave que é o aluno em estado terminal pedagógico. É o aluno que não reage mais a estímulos. Não faz o exercício solicitado, não lê, não busca mais o conhecimento. Está em estado letárgico. Sem reação. Esse aluno não tem nenhum dos distúrbios famosos conhecidos. É alguém que desistiu. Não pertence nem à categoria dos músicos do Titanic, porque nem a caneta ele segura e muito menos pensa em abrir o livro.

Do outro lado da mesa, está o professor brasileiro. Esse personagem talvez, próximo da extinção. Em cinco anos (2020 a 2025), 10 mil docentes puxaram literalmente o carro. Foram trabalhar de mecânicos, cozinheiros, frentistas, motoristas de aplicativo...

É nessa hora que a gente para pra pensar e até concorda com o maluquete que segura a placa na praça: "O fim está próximo".

        

   

domingo, 22 de março de 2026

Erika Hilton veio pra bagunçar o coreto

 

A deputada Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão de Mulheres


A deputada Erika Hilton (Psol-SP) já conseguiu uma vitória retumbante ao ser eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, na Câmara dos Deputados: o Brasil descobriu que existia uma Comissão de Mulheres. 

Em artigo publicado neste domingo pelo Uol, o articulista Alexandre Borges (ex-Jovem Pan, ex-Antagonista) chama a deputada de "homem biológico transgênero", alinhando seu posicionamento ao de políticos direitistas, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG). Nikolas ganhou as manchetes em 2023 ao usar uma peruca loira e discursar no Dia da Mulher, atacando as mulheres trans.

Em seu artigo, intitulado "Primeiro mundo abandona agenda woke, enquanto Brasil dobra aposta", Borges cita dois discursos de atores, que ganharam prêmios, para afirmar, categoricamente, que o Primeiro Mundo abandonou a agenda woke. 

(Quem não souber o que significa o termo "woke" e tiver interesse pode ler um texto neste mesmo blog sobre o tema: 

https://www.blogger.com/blog/post/edit/8599959271025068269/168513383584403002)

Os atores em questão disseram, nos discursos de agradecimento, que gostavam de seus cônjuges e que desejavam ter mais filhos com eles. São casais heterossexuais. Felizes e satisfeitos, querendo aumentar a prole. Algo que não é novidade e acho que acontece desde o início do mundo.

Borges comenta que o Brasil não aceitou a presença de uma mulher trans na Comissão de Mulheres e cita uma pesquisa do instituto Real Time Big Data, na qual 84% dos brasileiros eram contra a eleição de Hilton. 

Perguntei para a Inteligência Artificial quem era esse instituto, com nome em inglês, Real Time Big Data ("Grandes Dados em Tempo Real", em português o nome perde o charme, não sei por quê). A IA me respondeu o seguinte:

"O instituto de pesquisa Real Time Big Data tem sido associado a cenários favoráveis a candidatos de direita, como Flávio Bolsonaro, em levantamentos recentes de 2026, com liderança ou empate técnico em estados como São Paulo, Rio Grande do Sul e Goiás. A empresa é frequentemente citada por meios de comunicação com essa linha editorial".

A eleição da deputada Erika Hilton não foi apertada. Onze deputados votaram a favor e outros dez, imagino, não sabiam o que fazer e entregaram o voto em branco. O dia seguinte é que foi complicado. O País descobriu que existia uma Comissão de Mulheres e que uma mulher trans havia "se apossado dela". 

Começou com o apresentador Ratinho, declaradamente de direita e dono de uma fortuna de 1 bilhão de reais, dizer que não concordava com a posse da deputada trans. Para o apresentador, mulher tem de ter útero e menstruar, "ficar chata por três, quatro dias" (a mulher que foi submetida a uma histerectomia não seria mais mais mulher?). Erika Hilton não gostou. Chamou Ratinho de "transfóbico" e moveu-lhe um processo de 10 milhões de reais. Cerca de 1% da fortuna do apresentador do SBT. Se a fortuna de Ratinho fosse uma laranja bahia, esses 10 milhões representariam uma lasquinha, bem pequenininha da casca grossa.

A deputada Fabiana Bolsonaro (PL-SP), que não tem parentesco com a família Bolsonaro, tendo adotado o nome apenas para mostrar filiação ideológica, subiu na tribuna, pintou o rosto de preto (black face) e ganhou todos os holofotes. 

"Virei negra", ela pontificou, depois de pintar o rosto de preto. Aliás, Fabiana tem mudado mesmo de pele. Antes, era branca; depois, em 2022 se declarou "parda" e levou 1.593.33 reais em recursos públicos para "candidatos negros", conforme reportagem publicada pelo G1, em 19 de março último.

Nas redes sociais, Erika Hilton se posicionou diante dos ataques e disse que a opinião de "transfóbicos" e "ImbeCis" seria a última coisa que lhe importava. O termo "imbeCIS", cunhado pela deputada, remete aos "cisgêneros" - aqueles que estão de bem com o próprio gênero e o sexo, atribuído no nascimento. Mulheres "cis" reclamaram, porque entenderam que a deputada havia lhes ofendido. Não sou advogado da deputada, mas - olhando assim, rapidamente - entendi que ela chamou alguns cisgêneros, que a atacaram e até a ameaçaram de morte, de imbecis. Apenas estes e não todos os "cis" do planeta Terra.    

Nessa confusão toda, cabe seguir outro caminho, com menos holofotes e gente sem empatia. O Brasil lidera o ranking de assassinato de travestis há 18 anos consecutivos. Neste mesmo País, em 2025, 1.568 mulheres foram mortas pelos companheiros ou ex-maridos, namorados... É um número sombrio: a cada 24 horas, morrem quatro mulheres vítimas de feminicídio. 

Para mim não interessa que Erika Hilton seja, segundo Alexandre Borges "homem biológico transgênero". Eu vejo uma parlamentar atuante, com proposições voltadas para a melhoria de vida de mulheres, pessoas trans e pessoas em situação de rua. Vejo também uma mulher negra, trans, enfrentando ódio exacerbado, machismo explícito e discriminação violenta. 

Sinceramente, não sei o que a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher fez em anos anteriores. Não deve ter feito muita diferença, porque até agora o Brasil tem números assustadores de assassinatos de mulheres e trans. Se esse "homem biológico transgênero" conseguir mudar esse quadro de horrores, sua missão à frente da Comissão de Mulheres terá sido bem-sucedida. Vou torcer por ela.      

 

  

      


quinta-feira, 12 de março de 2026

Ainda estou aqui é muito superior ao Agente secreto

 

"Ainda estou aqui" ganhou o Oscar de melhor filme internacional

A diferença entre os filmes "Ainda estou aqui" e "O agente secreto" é abissal. Enquanto o filme de Kléber Mendonça Filho sugere que a violência da Ditadura Militar era encabeçada por meia dúzia de policiais corruptos e ex-integrantes do Exército; "Ainda estou aqui", dirigido por Walter Salles, não tem receio de colocar o dedo na ferida e vai fundo na exorcização de nossos demônios, mostrando a responsabilidade das Forças Armadas brasileiras na repressão criminosa, entre 1964 e 1985, os 21 anos de duração da Ditadura Militar.

Não eram meia dúzia de paus mandados, de tiras criminosos, os responsáveis pela tortura e desaparecimento de presos políticos, como propõe "O agente secreto". Eram os homens fardados, do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, com o apoio de policiais, como o torturador e delegado Sérgio Paranhos Fleury, os protagonistas do terror.

Legítimo vencedor do Oscar 2025 de melhor filme internacional, "Ainda estou aqui" é uma produção inteligente, emocionante, épica, profundamente amorosa em retratar uma família devastada por uma ação terrorista do Estado. A atuação de Fernanda Torres, como Eunice, a mulher do deputado Rubens Paiva, atinge um primor, uma perfeição que vai ser muito difícil de ser superada. Infelizmente, a Academia de Hollywood não a premiou com o Oscar. Preferiu dar o prêmio para a jovem atriz Mikey Madison, do filme "Anora". Uma pena e uma injustiça. Felizmente, Fernanda Torres levou para casa o Globo de melhor atriz.

"Ainda estou aqui" deixou momentos de beleza poética que a gente, passado um ano ou mais desde a sua exibição, guarda com muita emoção. Não se consegue segurar as lágrimas, quando a casa, onde viviam Rubens Paiva e a família no Rio de Janeiro, é esvaziada. Uma das filhas do deputado pega a filmadora e registra o momento da partida da família, que deixa o Rio e segue para São Paulo, para uma nova vida, sem a presença do pai.

Em outro momento inesquecível, Eunice recebe a notícia de que o governo brasileiro, em 1996, finalmente, havia reconhecido que Rubens Paiva havia sido morto pelas forças repressivas. A expressão de Fernanda Torres, vivendo a agora oficialmente viúva, é de uma qualidade interpretativa assombrosa.

"Ainda estou aqui" tem momentos de claridade e felicidade ofuscantes, enquanto a família reúne-se com amigos, com tios e primas, para almoços, onde Eunice serve um suflé que todos adoram.

Enquanto isso, "O agente secreto" vai no seu ritmo modorrento, meio passivo-agressivo, contar a história de um pesquisador que está sendo perseguido por "matadores de aluguel". A relação do pesquisador com o filho é distante (a mãe do menino e companheira do pesquisador foi morta em circunstâncias não muito claras). Aparecem policiais que fariam parte de um suposto esquadrão da morte. Só que a narrativa não deixa nada muito claro. A gente só sabe o que aconteceu com o pesquisador, em uma breve imagem de um retrato de jornal. Há cortes de cena abruptos que mostram um celular, indicando uma ação que se passa no futuro. Vi gente reclamando com o diretor, dizendo que celular não existia em 1977, quando se passa a história de "O agente secreto". Tem gente que deve assistir filme com um olho na tela grande e o outro no próprio celular, escorregando o dedo na telinha da rede social. Enquanto Walter Salles deixa clara a mudança temporal, jogando na tela a informação "25 anos depois"; Kléber Mendonça prefere focalizar o celular, para sugerir que o tempo passou. Estratégia que o público de rede social dificilmente vai conseguir captar.

E enquanto "Ainda estou aqui" é um filme aberto, inclusivo, regado a whisky de qualidade, viagens à Europa, descendentes de múltiplas nacionalidades, que fazem o Brasil ser aquele que acolhe todos; "O agente secreto" destaca como vilão um protagonista, vindo do sudeste, com uma única proposta: prejudicar os nordestinos. O foco de "O agente secreto" parece ser muito mais voltado para o rancor de Kléber Mendonça, em relação aos paulistas, do que à Ditadura Militar.

Vontade de rever "Ainda estou aqui". E nenhum desejo de assistir novamente "O agente secreto".   

   

domingo, 8 de março de 2026

O agente secreto não merece o Oscar

 

O filme foi premiador em Cannes

A cerimônia de entrega do Oscar acontece no domingo, 15 de março próximo. Espero que o filme “O agente secreto”, dirigido e escrito por Kleber Mendonça Filho, estrelado e coproduzido por Wagner Moura, não ganhe a estatueta.

O filme tem um ritmo lento, arrastado. Em vários momentos, dá vontade de parar a exibição para voltar a vê-lo outra hora, quando a gente não tiver nada de bom para fazer.

“O agente secreto” ganhou o prêmio de melhor diretor e melhor ator no Festival de Cannes. O que revela que a safra 2025 não é das melhores.

O maior problema do filme é a falta de coragem. Em 1977, ano em que se passa o filme, o Brasil ainda vivia sob a Ditadura Militar. O presidente Ernesto Geisel tinha fechado o Congresso, depois de o partido do governo (Arena) ser derrotado nas eleições pelo MDB. Para não correr mais o risco de perder, Geisel criou um certo “colégio eleitoral”, com políticos simpatizantes da ditadura, que davam maioria para o governo no Congresso, quando este fosse reaberto. Também em 1977, o então secretário de Segurança de São Paulo, o coronel Erasmo Dias, invadiu a PUC (Pontifícia Universidade de São Paulo), espancou milhares de estudantes e prendeu 900. Na época, eu trabalhava em uma publicação na rua Monte Alegre e testemunhei a pancadaria.  

Quando se fala em Ditadura Militar, significa que as três armas – Exército, Aeronáutica e Marinha – atuavam de maneira ostensiva, para controlar os opositores. No filme de Kléber Mendonça Filho, não se vê os militares torturando e matando opositores. Não aparece um integrante do Exército, um oficial graduado da Marinha e da Aeronáutica usando a violência para calar aqueles que resistiam ao regime.

Só para citar um exemplo simbólico, o coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, o “dr. Tibiriçá”, foi condenado pela Justiça, em 2008, como torturador. Era Brilhante Ustra quem comandava o Doi-Codi (Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna), em São Paulo, onde 500 pessoas foram torturadas e o jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog foi assassinado, durante uma sessão de espancamento.

Em “O agente secreto”, não se vê um jipe do Exército ou de outras forças capturando pessoas. Quem faz a violência no filme são policiais corruptos e ex-integrantes das forças armadas. Um deles teria sido expulso do Exército. Ou seja, de certa forma, o filme “pega leve” com os “milicos”. Onde estavam Brilhante Ustra e outros militares torturadores?

Parece que a violência no filme é extemporânea, no sentido de vir de alguns criminosos inoportunos, quando, na realidade, a repressão contra a oposição, durante a Ditadura Militar, era exercida pelo Exército, Marinha e Aeronáutica.

Assim como fez em “Bacurau”, Kléber Mendonça destaca um personagem do Sudeste, para ser o grande vilão. Esse personagem corrupto, instalado na Eletrobrás, destrói pesquisas importantes, que eram feitas no Nordeste (Universidade Federal de Pernambuco), para buscar benefícios próprios. O personagem é racista, misógino e extremamente violento, “descendente de italianos de Gênova”.

Mais uma vez, fica sugerido que o diretor Kléber Mendonça tem uma espécie de aversão aos descendentes de italianos, que vivem no Sudeste (São Paulo, principalmente), reputando-lhes os principais flagelos, ocorridos no Brasil.

“O Agente secreto” - bem parecido com filmes anteriores do mesmo cineasta “O som ao redor” e “Aquarius” – tem um andamento quase preguiçoso, devagar, que é sempre interrompido por um êxtase de violência extrema. Os diálogos parecem cordiais, mas escondem sempre uma perspectiva de morte e agressão.

Se dependesse do meu voto, “O agente secreto” não levaria a estatueta careca para casa.

    


quarta-feira, 4 de março de 2026

Vereadora lésbica soma votos em campanha contra LGBTs

 

Vereadora Jessica Ramos Moreno, a Jéssicão

Ela se chama Jessica Ramos Moreno. Gosta de ser chamada de “Jéssicão, a opressora” e também de “sapatão raiz”. Casada com uma mulher, teve gêmeos recentemente. Filiada ao Partido Progressistas, foi eleita vereadora de Londrina (PR), com 15 mil e 57 votos, cidade onde nasceu em 3 de fevereiro de 1993.

 Aos 33 anos, “idade de Cristo”, como se dizia, chamou a atenção da mídia nacional ao aprovar uma lei que proíbe a participação de atletas trans em sua cidade.

Ocorre que Londrina sediou a final de uma competição de vôlei, envolvendo as equipes de Osasco e Minas. E a equipe de Osasco tem uma atleta trans em seu plantel: Tiffany.

De acordo com a lei número 13.770, de autoria da vereadora Jéssicão, aprovada pela Câmara de Londrina, em 26 de abril de 2024, “fica expressamente proibida a participação de atleta cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento”. Do ponto de vista legal, Londrina proibia a participação de Tiffany na final.

Acontece que a lei foi além e proibiu todas as pessoas de praticar esportes. Veja o que diz o texto: “Para efeito de aplicação desta Lei define-se como sexo biológico de seu nascimento ‘feminino’ ou ‘masculino’, prevalecendo assim a proibição da participação de atleta cujo gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento: gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero, não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”.

Na ânsia de arrebanhar eleitores, a vereadora conservadora de direita incluiu o termo “cisgênero” na lei restritiva. São pessoas cisgênero aquelas cuja identidade de gênero corresponde ao sexo biológico atribuído no nascimento. Por exemplo: alguém nascido com características femininas que se identifica como mulher; ou com características masculinas que se identifica como homem.

Provavelmente, sem recorrer à pesquisa, sem buscar informação, a vereadora Jéssicão proibiu a prática do esporte para todos os seres humanos do planeta. Manchete do jornal “Plural”:

“Londrina proíbe todo mundo de competir em esportes”.

 Para justificar seu posicionamento contrário às pautas LGBTs, Jéssicão disse que Londrina é uma cidade conservadora e que ela não moveria uma palha sequer pelos LGBTs.

Em sua campanha incansável contra os LGBTs, Jéssicão defendeu o atleta de vôlei Maurício Souza, campeão olímpico, que atacou o novo Super-Homem que seria bissexual. “Aonde vamos parar?”, questionou o atleta, demitido depois pelo seu time. Jessicão postou nas redes sociais apoio incondicional a Maurício Souza.

A vereadora, que tem um boneco de Jair Bolsonaro, de terno e com a faixa de presidente na sua mesa de trabalho, teve outro projeto polêmico também aprovado pela Câmara de Londrina. O projeto proíbe a presença de pessoas sem-teto na cidade. A vereadora do Partido Progressistas não estava preocupada em acabar com a miséria, nem com a situação vulnerável dos sem-teto. Ela só não queria vê-los por perto. Segundo Jéssicão, os sem-teto “cerceiam a liberdade de ir e vir e integralidade moral das pessoas”.

Em outro episódio polêmico, Jéssicão anunciou nas redes sociais que havia encontrado um livro erótico em uma creche. O título do livro: “A mamãe vai ter um bebê”. Teria sido escrito por Henry Miller?

Gabriel Darcin, doutorando em filosofia pela Universidade Estadual de Londrina e André Justus, doutorando em comunicação pela Universidade Federal do Paraná, escreveram um artigo para a revista “Cor LGBTQIA+”, intitulado “Jéssicão a opressora – desafio às políticas trans e LGBTQIA+ em Londrina”, onde mencionam o impacto dessa política sobre a população LGBT. Eles escrevem:

“A vereadora Jéssica Ramos Moreno, mais conhecida como ‘Jessicão, a opressora’, tem proposto diversos projetos de lei para conter uma suposta ‘ideologia de gênero’ na cidade de Londrina. Essas iniciativas têm impactado diretamente os direitos da população LGBTI+, em especial de pessoas transexuais e não binárias, que são as mais afetadas pelas mudanças na legislação municipal”.

Eles prosseguem:

“Evidencia-se, assim, como a democracia deliberativa tem sido corroída pela ausência de debate racional em torno das propostas e pela exclusão sistemática de vozes opositoras, configurando um desafio à construção de políticas públicas inclusivas. Destaca-se, ainda, que pessoas transexuais e não binárias têm sido as mais atacadas por Jessicão, em uma estratégia para manter e ampliar seu eleitorado conservador”.

Por ser lésbica, “sapatão raiz”, o observador comum poderia imaginar que a vereadora pudesse, pelo menos, acolher com boa vontade as pautas LGBTs. Mas não. Ela faz questão de se opor e, se pudesse, certamente tiraria o L do acrônimo LGBT. Além da mera estratégia política para arrebanhar eleitores conservadores, parece que a vereadora tem algum ressentimento, algum rancor contra a população LGBT. E sua atuação legislativa seria um “acerto de contas”.

Se Freud fosse ouvido, diria que a vereadora nutre uma ambivalência afetiva em relação aos LGBTs, de maneira que o amor e o ódio não estariam em polos opostos, mas ocupando sua libido. É como a criança que ama e odeia os pais. Ama, quando os pais a satisfazem e odeia, quando se sente frustrada por uma interdição.

Para não dizer que não falei das flores, Tiffany – a atleta trans – pôde jogar em Londrina, graças a uma liminar, concedida pela ministra Carmen Lúcia, do STF (Supremo Tribunal Federal), que acatou pedido da Confederação Brasileira de Vôlei. Tiffany brilhou na final, foi eleita a melhor da partida e Osasco sagrou-se campeã da Copa do Brasil contra Minas.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Um verão para ser esquecido

 

Imagem de uma praia carioca, depois da chuva

A nossa relação com o mar, com a praia e a bela área verde que a cerca é de encantamento. Chega o final de ano, começa o verão, tem início as férias letivas; vem finalmente aquele momento de relaxar, de usufruir a beleza da natureza em todo seu esplendor. Na praia, ficamos corados, comemos pratos típicos, com muito camarão, lagosta e peixes recém-pescados. As mulheres, com roupas sumárias, passam diante dos nossos olhos, despertando pensamentos lascivos. No ar, tem aquele odor típico da maresia. Mudamos nosso ritmo. Deixamos as preocupações de lado, aquela rotina chata de acordar cedo com o despertador, fazer higiene, tomar o café da manhã e ir para o trabalho, para retornar 12 horas depois, cansados, exauridos. Na praia, parece que renascemos, parece que nos tornamos uma outra espécie humana, alguém mais feliz, menos preocupado, mais atencioso com os outros e menos egoísta.

Só que não. Nos últimos 40 anos, os brasileiros fizeram o possível para tornar a praia idílica em um lugar insuportável. Este verão, ainda em curso, deve ter batido algum recorde de mal-estar, de apanágio da ganância. É desesperador ver como em tão pouco tempo praias que eram templos de tranquilidade se transformaram em portais do inferno.
Em Porto de Galinhas (PE), o casal Johnny Andrade e Cleiton Zanatta foi atacado por barraqueiros, por causa de uma cobrança de taxa extorsionária. Os dois levaram socos e pontapés de uns 15 homens, "donos" de barracas de praia. Outro turista - Rafael Ventura Martins - foi assassinado em um restaurante, por causa de uma suposta dívida. O recado parece claro: não vá a Porto de Galinhas, você vai correr riscos. Porto de Galinhas tem esse nome, por causa do passado escravagista. Quando ancorava um navio negreiro, os fazendeiros comentavam entre si: "Chegaram as galinhas", que era um código local para avisar da chegada dos escravos. A fiscalização britânica impedia o tráfico. Porto de Galinhas é dominado por uma máfia que espalha cadeiras pela praia e cobra "taxa mínima" para sua utilização.
Não é só lá, infelizmente. Uma moradora de Cabo Frio (RJ) foi às redes sociais para denunciar ter sido extorquida na Barraca do Forte. Em Maresias (SP), condomínios espalham barracas na praia e ocupam a área pública. É uma privatização violenta do bem público. Na praia da Baleia, em São Sebastião (SP), por exemplo, o acesso era impedido por um portão, fechado com cadeado. Isso ocorre por todo lado. Geralmente, grandes condomínios particulares constroem muros no melhor estilo Trump para fechar o acesso às praias. Para burlar a vigilância (porque a praia deveria ser pública e não privada), eles deixam apenas uma minúscula passagem escondida (tem de ser arqueólogo para descobrir), que dá acesso à praia. 

Na praia da Figueira, município de Governador Celso Ramos (SC), os proprietários de restaurantes costumam ocupar a faixa de areia e ai de você se quiser estender uma esteira e um guarda-sol por lá. Eles simplesmente proíbem. Uma turista gravou bate-boca com proprietário de restaurante para denunciar o caso. 
O problema da privatização da área pública e cobrança de taxas se repete na praia de Cabeçudas, em Itajaí (SC); em Barra Velha (SC); na praia de Bombinhas (SC), que cobra 200 reais por "taxa ambiental" e tem disparada de casos de diarreia e onde a partir das 7h não tem mais lugar na faixa de areia, porque foi toda privatizada.
Aliás, tomar banho de mar hoje em dia, nas praias brasileiras, parece sinônimo de mergulhar no cocô. Somente em Santa Catarina, houve o registro de 10 mil casos de diarreia. Na capital, Florianópolis, foram mil casos de viroses diversas e diarreia. No Guarujá (SP), 2 mil pessoas foram atendidas nos postos de saúde com virose e diarreia.
Os pobres turistas, sem ter a quem apelar, gravam vídeos e publicam nas redes antissociais. Em João Pessoa (PB), um cidadão, armado com seu celular, mostra o esgoto preto correndo livre pela praia. Passam umas moças, pisando descalças sobre a imundície e ele avisa: "Vocês estão pisando no esgoto". Uma delas agradece: "Valeu, obrigada" e continuam andando sobre a sujeira. O cocô escorre também pela praia da Boa Viagem, em Salvador (BA). É esgoto jorrando direto. Imagens daquela que era uma belíssima beleza natural de Santa Catarina, a Lagoa da Conceição, mostram a água coberta de esgoto e material poluente. Alguém comentou no Instagram: "É muito cheiro de cocô".
Tomar banho de mar e de cocô é uma coisa; agora, depois não conseguir se lavar em casa no chuveiro é outra e bem pior. Os infelizes turistas e moradores de Itanhaém sofrem com a falta d'água desde o mês passado. Não é só falta d'água. A prefeitura também não estava recolhendo o lixo. Em desespero, moradores foram até a prefeitura e fizeram um protesto barulhento. A pobre Itanhaém quase foi submersa, depois de uma tempestade. O portal da entrada da cidade, ao invés de dizer "bem-vindo", parecia gorgolejar "glub-glub". 
Ao lado da destruição do recurso natural, caminha a ganância. Os locais resolvem explorar ao máximo os turistas, arrancar tudo que for possível. Na praia do Francês, em Marechal Deodoro, próxima de Maceió (AL), tomar duas cervejas e uma água de coco sai por meros 185 reais. Em Búzios (RJ), parar o carro em um estacionamento significa "morrer" com 100 "pilas". Sem esquecer o pastel, vendido a 40 reais em Florianópolis. Um pastel: 40 reais! No Rio, alugar itens básicos de praia (guarda-sol, esteira, cadeira) sai por uma bagatela de 800 reais. A campeã, em preços abusivos, parece ser a Barraca Tropical, na praia de Geribá, Armação dos Búzios (RJ), que tasca na testa da freguesia 470 reais por um prato de filé de frango, fritas e salada; e 580 reais por um pratinho de iscas de peixe e camarão. Foi até alvo de comentário no programa "Balanço Geral", da TV Record. E na Paraíba, flagraram uma garrafa fake de Coca-Cola. Parece Coca-Cola, tem embalagem grudada de Coca-Cola, mas não é. Sabe deus o que tem ali dentro.
Afora a privatização, a cobrança ilegal, os preços extorsivos, tem o barulho. O insuportável ruído de milhões e milhões de caixas de som, arruinando a paz da coitada que quer descansar na praia. Uma senhora, sentada na praia das Canasvieiras, em Florianópolis (SC), gravou uma mensagem singela: "Gente, não aguento tanto barulho. É som que não acaba mais. Um barulho ensurdecedor, é ambulante vindo a cada minuto, vendendo canga, relógio, comida até faca vieram me vender. Faca! Não tenho um momento de paz. Florianópolis nunca mais".
Em São Paulo, as caixas de som foram proibidas nas praias. Na Praia Grande (SP), teve até tumulto quando a guarda municipal recolheu caixas de som de turistas arruaceiros. No Rio, também houve grande apreensão de caixas de som.
E quando os turistas vão embora, eles deixam atrás de si um mar de detritos. São garrafas de plástico, latinhas, embalagens, restos de comida e bebida. Na praia do Capão da Canoa, litoral norte gaúcho, não tinha mais areia na praia, depois das comemorações de Ano Novo. Era só lixo. A pessoa caminhava sobre detritos. A praia da Enseada, no Guarujá (SP), também registrou grande acúmulo de lixo.
Isso tudo sem esquecer os turistas que param os carros em Peruíbe (SP), vão à praia e, quando voltam, descobrem que seus veículos ficaram sem as rodas. E o tradicional arrastão em São Vicente (SP), sentido Praia Grande...
Está sendo um verão com tantos ocorrências lamentáveis que o jornal "O Globo" escreveu em editorial: "Brigas, superlotação e desordens acendem alerta para os riscos do turismo de massa predatório nas principais praias do país". A solução, segundo "O Globo" dá a entender, seria manter os pobres longe das praias. Na realidade, o ideal seria fechar as portas das praias aos condomínios e prédios, que destroem as belezas naturais, não tratam seu esgoto e resolvem o problema jogando o cocô diretamente na praia. O ideal seria que o acesso às praias tivesse sido feito por trem e não por veículos - igualmente predatórios - e ao invés de milhões de casas, apartamentos e mansões à beira-mar houvesse apenas alguns hotéis e pousadas para receber os turistas de verão. O mal já está feito. O Brasil destrói sempre suas riquezas e vai chegar um dia que isso não terá mais volta, se é que já não chegou esse dia.  

 
   
  

sábado, 10 de janeiro de 2026

Tiago Leifert me enganou

 

Tiago Leifert está feliz da vida com a Claro e me convidou para ser feliz também; só que não

Atualmente, estou no interior de São Paulo. Para me conectar com o mundo, comprei uma TV Box da Claro. A TV me oferece vários canais. Tem canal italiano, inglês, espanhol até brasileiro. Só não tem canal de São Paulo. Hoje, a TV Box escolheu uma certa "TV Integração" de Juiz de Fora. No SBT, é um pessoal de Minas. Na Bandeirantes e na Record, igualmente. É tudo trem bão. O problema é que não moro em Minas. Estou em São Paulo. Gostaria de me informar sobre como estão as coisas em... São Paulo. 
Antes dos mineiros, a TV Box me ofereceu os cariocas. Todos os telejornais - da Bandeirantes, SBT, Rede Vida, Globo, Record - todos eles eram do Rio de Janeiro. Se eu fosse para o Rio, dar um passeio por lá, tomando cuidado para não levar tiro no Complexo do Alemão, até seria legal ter informações sobre os fluminenses, só que não. Não tenho a menor vontade de passear no Rio. Vou sempre preferir São Paulo, apesar de Vinícius Moraes criticar a cidade, dizendo que você anda em São Paulo, anda, anda e anda e nunca chega na praia. Graças a Deus, Vinícius. Felizmente! Odeio praia. Odeio gente melecada de óleo, repelente, hidratante. Detesto aquelas barracas com som no último volume. Muita gente barriguda, cheia de pelanca, engordurada e areia grudenta no corpo. Aquele cheiro de cerveja quente e farofa. Sem esquecer do mar poluído e das viroses. 

E antes dos cariocas, a TV Box me dava de presente o pessoal do Espírito Santo. Não conheço ninguém no Espírito Santo. Nos próximos dez anos, tenho certeza de que não irei a Vitória, nem a trabalho, nem a passeio.

E aí era um revezamento: um dia, eram os telejornais cariocas; no outro dia, os do Espírito Santo; os de Minas. Uma manhã, apareceu até um telejornal de Pernambuco, veja você. Quase todos os estados do Brasil apareciam na minha TV, menos os do estado onde eu moro. Uma pena. 
Me senti logrado pelo Tiago Leifert. Ele parecia tão feliz com a Claro. Ele me convidava a ser feliz também. Venha pra a Claro, ele falava, você merece o novo. Eu queria o novo, queria ser feliz.
 
Então, tem início o sofrimento. A tentativa desesperada de entrar em contato com a Claro e reclamar da TV Box. A Claro tem um aplicativo que não funciona. Foram dezenas de tentativas em pedir assistência técnica. O aplicativo perguntava:
"Olá, bom dia!
Hum, deixa eu ver como eu posso te ajudar 🤔
Eu consigo te ajudar com diversos serviços da Claro 😊
Escolha uma das opções:
Fatura
Suporte técnico
Outros assuntos".
Aí tinha início a romaria. Eu clicava em "suporte técnico". Mencionava problema nos canais da TV e depois de várias perguntas e respostas, saía a sentença devastadora:
"Desculpa, houve uma falha no nosso sistema 😳
Volta mais tarde que eu consigo te ajudar!"

Acho legal esses imojis. Eles tornam a mensagem incompetente mais incompetente ainda. É como se uma criança meio aparvalhada ficasse em dúvida na hora de somar dois mais dois e desenhasse uma carinha engraçada, para o professor exigente riscar com caneta vermelha e lhe meter um zero na cabeça.

Desisti do aplicativo, Tiago Leifert. Liguei para o telefone da Claro. Atendeu uma pessoa. Felizmente. Não era um robô burro. Era uma pessoa. Expliquei o problema. Ela demorou para entender, mas conseguiu. E me perguntou: "A sua TV Box não está funcionando?". "Está", falei. "A TV Box funciona normalmente, mas os telejornais que são exibidos vêm de outros estados e não de São Paulo." Ela resolveu o problema. O problema dela. Desligou o telefone na minha cara, Tiago Leifert.

Enfim, peguei o carro. Fui tipo "on the road", estrada afora. Percorri quarenta quilômetros. Paguei o pedágio caro do nosso querido governador Tarcísio. Cheguei nessa outra cidade, onde tem uma lojinha da Claro. 
Um rapaz, muito solícito, me atendeu. Ligou para algum lugar misterioso e disse: "Vamos trocar a sua TV Box. Amanhã, de manhã, irá um técnico na sua residência e vamos substituir o aparelho". Saí da lojinha, feliz da vida, cantando e saltitando, como Dorothy, depois de conhecer o Homem de Lata. Percorri outros quarenta quilômetros. Paguei novo pedágio para o nosso amado governador. E cheguei em casa.

Pena que, no dia seguinte, ninguém apareceu, Tiago Leifert. Ninguém. Aí chorei muito, como o pequeno Simba ao se deparar com o corpo sem vida de Mufasa.     
   

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O péssimo serviço prestado pelas concessionárias de energia

 

Gastar dinheiro em rede de energia aérea é investir no passado 

A cidade onde moro no interior de São Paulo é abastecida com energia elétrica por uma concessionária, chamada CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Na realidade, não é uma companhia paulista, porque é uma estatal chinesa, com nome inglês – State Grid Corporation of China. A SGCC assumiu a concessão de fornecimento de energia em 2017. Quase toda semana, a luz acaba em casa. Assim, sem mais nem menos, você está trabalhando no computador, o ar-condicionado ligado, e puf! Acabou a luz. Espera aí: voltou! Não, acabou de novo. Um momento... Voltou. É uma CPFL vagalume. Às vezes, demora horas para normalizar o serviço. Na cidade, as reclamações são muitas. A dona da pizzaria reclama que em um dos apagões o frigorífico dela foi pro vinagre. Outro diz que a geladeira morreu; um terceiro fala que foi o micro-ondas.

Em São Paulo, o fornecimento de energia é oferecido pela italiana Enel. A sigla significa: Ente Nazionale per l’Energia Eletttrica (entidade nacional de energia elétrica). A Enel está ameaçada de perder a concessão, por causa dos problemas causados aos paulistanos. Uma chuva mais forte, caem árvores sobre a rede elétrica, fios entram em combustão... Puf! Milhares de domicílios e comércios no escuro. As pessoas se revoltam, protestam, os meios de comunicação vão até os consumidores e levam à TV, aos jornais, rádios as reclamações. Recentemente, enquanto milhares estavam no escuro, um grupo de funcionários da CPFL fazia uma dancinha, em plena avenida Paulista. Disseram que seria um clipe de fim de ano. Um acinte ao consumidor que paga e toma prejuízo na cabeça.

Há um clamor intercontinental, podemos dizer assim, contra a privatização de certos serviços essenciais. Nos Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha, 884 empresas de saneamento e fornecimento de água foram reestatizadas. O motivo é elementar: as concessionárias não davam conta do recado.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os serviços de telefonia no Brasil foram privatizados. Foi uma benção dos céus. Na época, um simples telefone custava quase o preço de um carro zero quilômetro. Tinha gente que vivia de alugar e vender telefone. Ganhava uma nota preta. Com a privatização, acabou a mamata e todo brasileiro pôde ter direito ao seu telefone. Hoje, são 272 milhões de celulares de posse de cada cidadão desta Terra Brasilis. Ou seja, 1,3 celular para cada brasileiro.

Então, a privatização não é necessariamente errada, mas quando um determinado serviço é privatizado – porque o governo não consegue dar conta – a empresa proprietária da concessão deveria oferecer um serviço perfeito. Sem críticas, sem esse mal-estar generalizado que os consumidores sentem em relação às concessionárias, como CPFL e Enel.

Um erro elementar é o investimento em postes na rede aérea. Foi por volta de 1920 que as ruas das principais cidades brasileiras começaram a ser eletrificadas. O sistema é o mesmo: finca-se um poste na rua, sobre ele colocam-se uns varões e passam-se os fios lá por cima. Acontece que as ruas sempre têm árvores e as árvores têm galhos e os galhos nunca se deram bem com a rede elétrica. Eles costumam se enroscar nos fios, eles quebram e desabem sobre a fiação, gerando explosões e interrupção do fornecimento de energia. Para evitar o problema, que é crônico, porque chove, porque os galhos vão arrebentar mesmo a rede elétrica, vários países optaram pela eletrificação subterrânea. É o caso da França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Estados Unidos e até a Argentina (Buenos Aires).  Os motivos são vários: estética (as cidades ficam mais bonitas sem toda aquela “fiarada” em cima da cabeça da gente), confiabilidade (ventos fortes e tempestades não interrompem o fornecimento de energia) e mais segurança (milhares de pessoas são vítimas de descargas elétricas provocadas por fios tombados nas ruas e avenidas).

Aqui onde moro, ocorre um acúmulo de erros. A CPFL está trocando os postes. Ou seja, investindo no passado. Ao invés de enterrar a fiação, prefere enterrar postes. Acontece que sobre os postes não há apenas os fios da CPFL. Não, não, não...Tem também a fiação das empresas que fornecem internet. Essas empresas, como a Zaaz, por exemplo, colocam suas fibras óticas nos postes da CPFL. E a CPFL odeia isso. Entende que a fibra ótica seria uma espécie de parasita enroscado em seu poste querido. Então, observei os eletricistas da CPFL trocando os postes velhos pelos novos e de quebra arrebentavam toda a fiação da internet. Eles faziam isso com ódio mesmo, com muita raiva. Vi um eletricista pegar um tipo de machadinho e lascar o negócio sobre a fibra ótica. Quem dependia da Zaaz para ter internet em casa ficou até cinco dias sem o serviço. Hoje, a internet virou um serviço essencial. Sem internet, a gente não consegue mais ter controle sobre a própria vida. Cadê o meu saldo no banco, cadê a família, onde estão os amigos e os clientes? Todo mundo sumiu, por causa da internet que se foi.

Então, a Zaaz demorou, mas veio e recolocou os cabos no lugar. E alguns dias depois, os eletricistas da CPFL retornaram para trocar novos postes e voilà: os pobres dos cabos da internet foram atirados com violência extrema no chão (alguns continuam até hoje por aí). Novamente, a Zaaz e outras empresas de internet voltaram e foi uma luta para restabelecer o serviço. Em meados deste mês de janeiro, outros postes serão trocados e mais uma vez os cabos de fibra ótica vão ser atirados no chão. É um sistema, como vou dizer, meio burro de trabalho, porque o pessoal da internet poderia conversar com a CPFL e trabalhar em conjunto, mas isso não acontece.

A CPFL pede para a gente baixar o aplicativo dela e informar quando deu algum problema no fornecimento de energia. Acontece que, sem energia, a internet não funciona e consequentemente também o aplicativo não pode ser colocado pra funcionar. Não pega nem no tranco. Aí cabe a você sair andando pelo mundo, em busca de um sinal salvador.

O aplicativo nem sempre funciona direito. Como é um robô que está lhe atendendo, às vezes ele não entende o que você quer. Você passa o número da instalação para o robô e ele diz: “Não encontrei seu documento em nosso sistema. Qual seu nome completo?” Você digita o nome e ele pergunta novamente: “qual seu nome completo?”. E outra vez, e outra vez, e outra vez. É um robô burrinho, coitado.

A Zaaz marca visita técnica para tal dia e tal horário e não aparece. Você reclama e é informado que tem uma visita técnica marcada para dali a pouco. Você não sai de casa, fica aguardando e ninguém aparece. Reclama novamente. Eles marcam para outro dia. E não aparecem. Finalmente, você consegue falar com um atendente da Zaaz. Ele pede uma foto do roteador. Explico que ele não precisa ver a foto, porque os cabos da internet foram jogados no chão, por isso que a internet não funciona. “Estão no chão”, eu grito, meio fora de controle. Mesmo assim, ele pede a foto. Tiro a foto e mando pra ele, com aquela demora básica de vários minutos, porque, afinal, estou sem internet em casa.

Um festival de incompetência. Depois de oito dias sem internet, reclamei no Reclame Aqui e apareceu uma funcionária que conseguiu mandar uma equipe em casa e o serviço foi normalizado. Mas é uma luta. Uma luta inglória. Fica sempre a sensação que você está perdendo. Parece até título do livro do Walter Mostley, “Sempre em desvantagem”.     


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

São Silvestre, a corrida

 

A mais tradicional corrida de rua do País completou cem anos
A São Silvestre é a corrida de rua mais tradicional de São Paulo e do Brasil. Completou 100 anos ontem. Em 1924, o jornalista Cásper Libero esteve na França e ficou deslumbrado com uma competição de rua, disputada à noite. Decidiu trazer a novidade para São Paulo. Deu certo. A passagem de ano e a corrida de São Silvestre completavam-se. Os vencedores da prova costumavam chegar por volta de meia-noite, quando o novo ano tinha início, entre rojões, fogos de artifício e o delírio da multidão na avenida Paulista, diante do prédio da Gazeta. Era emocionante. 

Quem exibia a prova era a TV Gazeta. Acompanhar a disputa, na época, era complicado, porque a transmissão se interrompia a todo momento. A imagem tremia. Entrava um sinal do prefixo da TV. Os recursos técnicos da Gazeta deixavam a desejar. O narrador falava com a voz tremida, meio aos solavancos e frequentemente sumia. Mesmo assim, no meio daquela precariedade da transmissão, a gente torcia. O último brasileiro vencedor tinha sido Sebastião Alves Monteiro, em 1946. 

Depois, vieram lendas do atletismo, como Emil Zatopek  - "a locomotiva humana" - um tcheco que elevou o padrão de disputas e tornou a competição brasileira conhecida nos grandes centros. Meu pai foi assistir e ficou assombrado com a velocidade de Zatopek. "Enquanto os outros estavam virando a primeira esquina, o Zatopek estava próximo da linha de chegada", meu pai exagerava.

Eu era criança, quando vi o belga Gaston Roelants se sagrar tetracampeão. Roelants me deu vontade de participar da prova. Parecia fácil. Até então, a corrida tinha 8 quilômetros e 700 metros. 

Mas quando chegou a minha vez de participar da São Silvestre o trajeto havia sido ampliado e eram agora 15 longos quilômetros.  Mesmo velho e cansado, achei que estava na hora de participar, de sentir o "glamour" da mais tradicional corrida de rua do País. Treinei bastante, para evitar morrer no meio da rua. Enquanto os vencedores, faziam a prova em 45 minutos, em média, eu demorava duas horas para completar os malditos 15 quilômetros. É claro que, com o passar dos anos, o tempo tende a baixar. Meu melhor tempo foi de uma hora e cinquenta. Se corresse mais uns cem anos, talvez chegasse nos 45 minutos dos finalistas.

A São Silvestre, que tem esse nome obviamente em homenagem ao santo do dia, é uma competição difícil, porque no dia 31 de dezembro está quente e abafado. Quando chove, é pior, porque sobe um vapor do chão que deixa a gente sem respirar. A chuva bate no asfalto fervente e aquela evaporação é insuportável. Além do calor, o que me incomodava muito eram os folclóricos. Gente pintada, gente fantasiada. Tinha um cidadão vestido de noiva, com buquê e tudo que corria conosco. Para mim, corrida de São Silvestre era uma coisa séria. Nada a ver com aqueles folclóricos irritantes. 

A largada acontecia em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). Comecei a prova e quando cheguei na rua Augusta senti uma dor lancinante no músculo adutor da perna esquerda. Pus a mão na coxa. Doía muito. Justamente nessa hora, um fotógrafo me flagrou e o jornal da São Silvestre relatou: "Danilo Angrimani com cara de dor já nos primeiros 300 metros da prova". Dedo-duro sacana! O que o infeliz não contou é que completei os 15 quilômetros. Cada quilômetro com uma dor terrível na coxa. Mas completei. Sabe-se lá por quê.

Em 2011, uma tarde assustadoramente quente, com muito sol, estava no final do Minhocão, virando à direita para pegar a avenida Pacaembu, quando vi o ganhador da São Silvestre do ano anterior - era um brasileiro - vomitando tudo que tinha direito. O coitado estava apoiado no guard-rail do Minhoão e dava adeus à corrida. Pensei: "Putz, se o vencedor de 2010 está desse jeito, imagine o que vai acontecer comigo quando chegar na Brigadeiro?". 

A avenida Brigadeiro Luís Antônio é uma subida cruel. Você está com a língua de fora, pedindo para Jesus vir lhe buscar, quando chega na Brigadeiro e olha aquela subida interminável. As pernas querem parar. O cérebro insiste em parar. O corpo todo pede pelo amor de deus para você entrar na rua Maria Paula e esquecer aquilo tudo. Mesmo assim, você continua. Vai subindo. Dos dois lados da rua, grupos de pessoas acenam para você. Estendem as mãos. Eles o incentivam a morrer. A melhor hora é quando você chega no final da Brigadeiro, vira à direita na avenida Paulista e vê o marco da chegada ali na frente. Você conseguiu. Superou seus limites. Não morreu (ao contrário do que imaginava) e agora é correr para o abraço da rapeize.

Assisti a São Silvestre de 1958 a 1979, torcendo para ver um brasileiro cruzar em primeiro na linha de chegada. Não fui feliz. Ganhava sempre um estrangeiro. Em 1980, decidi que iria fazer outra coisa no dia 31 de dezembro, mas não veria a São Silvestre. "Não adianta", falei para a família, "nenhum brasileiro ganha mesmo".  Só que ganhou. José João da Silva, atleta do São Paulo, chegou em primeiro e quebrou aquele jejum que já durava longos 34 anos. "Fizemos uma festa tremenda", meu pai contou, "pena que você não estava aqui". Pois é...

Este ano assisti a São Silvestre pela TV. Recentemente, estava treinando, correndo 14 quilômetros e estourei o tendão de aquiles da perna esquerda. Muito gelo e compressa quente. Vi ganhar um etíope e uma atleta da Tanzânia, porque faltam investimentos para os atletas brasileiros. 

O terceiro colocado, o brasileiro Fábio de Jesus, declarou para o Uol: "O atletismo está acabando, indo água abaixo. Os atletas precisam se virar, se quiserem competir: Às vezes a gente treina na rua, com carro atrapalhando, cachorro passando, correndo risco de torcer o pé. Muitas vezes a gente chega na pista e é barrado". Até os 14 anos, informou a reportagem, Jesus corria descalço, em Monte Santo, na Bahia. Foi coletor de lixo e mudou-se para São Paulo, para se dedicar exclusivamente ao atletismo.

Além da falta de incentivo, destacada por Fábio de Jesus, o jejum de brasileiros no primeiro lugar do pódio já incomoda novamente. Faz 15 anos que um brasileiro não ganha a prova. 

Depois de ter participado de algumas provas da São Silvestre, posso dizer que seria muito melhor se a prova fosse disputada à noite. É mais fresco, mais saudável, mais humano. Em 1982, a TV Globo passou a transmitir a prova, com toda a técnica e a competência que lhe é habitual, nos livrando do quase amadorismo da TV Gazeta. Em 1989, no entanto, a mesma Globo mudou o horário da disputa, passando para a tarde. Essa alteração tirou todo o glamour e a emoção da São Silvestre. 

Durante uma cobertura noturna da São Silvestre, antes da mudança de horário, lembro de um repórter, muito emocionado. Os atletas estavam chegando na Paulista, os rojões estouravam em volta, o público delirava e o repórter, que era carioca, começou a chorar. "Isso é lindo, meu deus", ele falou para os jornalistas próximos dele. 

A São Silvestre mudou para a tarde e agora é disputada de manhã. Por causa de sua grade de programação, que deixa aqueles shows insossos, com artistas que a gente mal lembra o nome, para serem transmitidos na hora da virada, a Globo conseguiu fazer mais uma vítima. É uma pena, porque tem eventos tradicionais que não deveriam ser deformados. Imagine se a BBC sugerir que Wimbledon troque suas quadras de grama por grama artificial. Acho que até o rei Charles iria se engasgar com o chá. 

A primeira travesti do Bois de Boulogne

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