| Vereadora Jessica Ramos Moreno, a Jéssicão |
Ela se chama Jessica Ramos Moreno. Gosta de ser chamada de “Jéssicão, a opressora” e também de “sapatão raiz”. Casada com uma mulher, teve gêmeos recentemente. Filiada ao Partido Progressistas, foi eleita vereadora de Londrina (PR), com 15 mil e 57 votos, cidade onde nasceu em 3 de fevereiro de 1993.
Aos 33 anos, “idade de Cristo”, como se
dizia, chamou a atenção da mídia nacional ao aprovar uma lei que proíbe a
participação de atletas trans em sua cidade.
Ocorre que Londrina sediou a final de
uma competição de vôlei, envolvendo as equipes de Osasco e Minas. E a equipe de
Osasco tem uma atleta trans em seu plantel: Tiffany.
De acordo com a lei número 13.770, de
autoria da vereadora Jéssicão, aprovada pela Câmara de Londrina, em 26 de
abril de 2024, “fica expressamente proibida a participação de atleta cujo
gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento”.
Do ponto de vista legal, Londrina proibia a participação de Tiffany na final.
Acontece que a lei foi além e proibiu
todas as pessoas de praticar esportes. Veja o que diz o texto: “Para efeito de
aplicação desta Lei define-se como sexo biológico de seu nascimento ‘feminino’
ou ‘masculino’, prevalecendo assim a proibição da participação de atleta cujo
gênero seja identificado em contrariedade ao sexo biológico de seu nascimento:
gay, lésbica, bissexual, pansexual, intersexual, assexual, transexual, agênero,
não binário de gênero, cisgênero, transgênero, travesti, entre outros”.
Na ânsia de arrebanhar eleitores, a
vereadora conservadora de direita incluiu o termo “cisgênero” na lei
restritiva. São pessoas cisgênero aquelas cuja identidade de gênero
corresponde ao sexo biológico atribuído no nascimento. Por exemplo: alguém nascido
com características femininas que se identifica como mulher; ou com
características masculinas que se identifica como homem.
Provavelmente, sem
recorrer à pesquisa, sem buscar informação, a vereadora Jéssicão proibiu a
prática do esporte para todos os seres humanos do planeta. Manchete
do jornal “Plural”:
“Londrina proíbe todo mundo de competir
em esportes”.
Para justificar seu posicionamento
contrário às pautas LGBTs, Jéssicão disse que Londrina é uma cidade
conservadora e que ela não moveria uma palha sequer pelos LGBTs.
Em sua campanha incansável contra os LGBTs,
Jéssicão defendeu o atleta de vôlei Maurício
Souza, campeão olímpico, que atacou o novo Super-Homem que seria bissexual.
“Aonde vamos parar?”, questionou o atleta, demitido depois pelo seu time.
Jessicão postou nas redes sociais apoio incondicional a Maurício Souza.
A vereadora, que tem um boneco de Jair Bolsonaro, de terno e com a faixa
de presidente na sua mesa de trabalho, teve outro projeto polêmico também
aprovado pela Câmara de Londrina. O projeto proíbe a presença de pessoas
sem-teto na cidade. A vereadora do Partido Progressistas não estava preocupada
em acabar com a miséria, nem com a situação vulnerável dos sem-teto. Ela só não
queria vê-los por perto. Segundo
Jéssicão, os sem-teto “cerceiam a liberdade de ir e vir e integralidade moral
das pessoas”.
Em outro episódio polêmico, Jéssicão anunciou
nas redes sociais que havia encontrado um livro erótico em uma creche. O título
do livro: “A mamãe vai ter um bebê”. Teria sido escrito por Henry Miller?
Gabriel Darcin,
doutorando em filosofia pela Universidade Estadual de Londrina e André Justus,
doutorando em comunicação pela Universidade Federal do Paraná, escreveram um
artigo para a revista “Cor LGBTQIA+”, intitulado “Jéssicão a opressora –
desafio às políticas trans e LGBTQIA+ em Londrina”, onde mencionam o impacto
dessa política sobre a população LGBT. Eles escrevem:
“A vereadora Jéssica
Ramos Moreno, mais conhecida como ‘Jessicão, a opressora’, tem proposto
diversos projetos de lei para conter uma suposta ‘ideologia de gênero’ na
cidade de Londrina. Essas iniciativas têm impactado diretamente os direitos da
população LGBTI+, em especial de pessoas transexuais e não binárias, que são as
mais afetadas pelas mudanças na legislação municipal”.
Eles prosseguem:
“Evidencia-se, assim,
como a democracia deliberativa tem sido corroída pela ausência de debate
racional em torno das propostas e pela exclusão sistemática de vozes
opositoras, configurando um desafio à construção de políticas públicas
inclusivas. Destaca-se, ainda, que pessoas transexuais e não binárias têm sido
as mais atacadas por Jessicão, em uma estratégia para manter e ampliar seu
eleitorado conservador”.
Por ser lésbica,
“sapatão raiz”, o observador comum poderia imaginar que a vereadora pudesse,
pelo menos, acolher com boa vontade as pautas LGBTs. Mas não. Ela faz questão
de se opor e, se pudesse, certamente tiraria o L do acrônimo LGBT. Além da mera
estratégia política para arrebanhar eleitores conservadores, parece que a
vereadora tem algum ressentimento, algum rancor contra a população LGBT. E
sua atuação legislativa seria um “acerto de contas”.
Se Freud fosse ouvido,
diria que a vereadora nutre uma ambivalência afetiva em relação aos LGBTs, de
maneira que o amor e o ódio não estariam em polos opostos, mas ocupando sua
libido. É como a criança que ama e odeia os pais. Ama, quando os pais a
satisfazem e odeia, quando se sente frustrada por uma interdição.
Para não dizer que não
falei das flores, Tiffany – a atleta trans – pôde
jogar em Londrina, graças a uma liminar, concedida pela ministra Carmen Lúcia,
do STF (Supremo Tribunal Federal), que acatou pedido da Confederação Brasileira de
Vôlei. Tiffany brilhou na final, foi eleita a melhor da partida e Osasco sagrou-se
campeã da Copa do Brasil contra Minas.






