terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Um verão para ser esquecido

 

Imagem de uma praia carioca, depois da chuva

A nossa relação com o mar, com a praia e a bela área verde que a cerca é de encantamento. Chega o final de ano, começa o verão, tem início as férias letivas; vem finalmente aquele momento de relaxar, de usufruir a beleza da natureza em todo seu esplendor. Na praia, ficamos corados, comemos pratos típicos, com muito camarão, lagosta e peixes recém-pescados. As mulheres, com roupas sumárias, passam diante dos nossos olhos, despertando pensamentos lascivos. No ar, tem aquele odor típico da maresia. Mudamos nosso ritmo. Deixamos as preocupações de lado, aquela rotina chata de acordar cedo com o despertador, fazer higiene, tomar o café da manhã e ir para o trabalho, para retornar 12 horas depois, cansados, exauridos. Na praia, parece que renascemos, parece que nos tornamos uma outra espécie humana, alguém mais feliz, menos preocupado, mais atencioso com os outros e menos egoísta.

Só que não. Nos últimos 40 anos, os brasileiros fizeram o possível para tornar a praia idílica em um lugar insuportável. Este verão, ainda em curso, deve ter batido algum recorde de mal-estar, de apanágio da ganância. É desesperador ver como em tão pouco tempo praias que eram templos de tranquilidade se transformaram em portais do inferno.
Em Porto de Galinhas (PE), o casal Johnny Andrade e Cleiton Zanatta foi atacado por barraqueiros, por causa de uma cobrança de taxa extorsionária. Os dois levaram socos e pontapés de uns 15 homens, "donos" de barracas de praia. Outro turista - Rafael Ventura Martins - foi assassinado em um restaurante, por causa de uma suposta dívida. O recado parece claro: não vá a Porto de Galinhas, você vai correr riscos. Porto de Galinhas tem esse nome, por causa do passado escravagista. Quando ancorava um navio negreiro, os fazendeiros comentavam entre si: "Chegaram as galinhas", que era um código local para avisar da chegada dos escravos. A fiscalização britânica impedia o tráfico. Porto de Galinhas é dominado por uma máfia que espalha cadeiras pela praia e cobra "taxa mínima" para sua utilização.
Não é só lá, infelizmente. Uma moradora de Cabo Frio (RJ) foi às redes sociais para denunciar ter sido extorquida na Barraca do Forte. Em Maresias (SP), condomínios espalham barracas na praia e ocupam a área pública. É uma privatização violenta do bem público. Na praia da Baleia, em São Sebastião (SP), por exemplo, o acesso era impedido por um portão, fechado com cadeado. Isso ocorre por todo lado. Geralmente, grandes condomínios particulares constroem muros no melhor estilo Trump para fechar o acesso às praias. Para burlar a vigilância (porque a praia deveria ser pública e não privada), eles deixam apenas uma minúscula passagem escondida (tem de ser arqueólogo para descobrir), que dá acesso à praia. 

Na praia da Figueira, município de Governador Celso Ramos (SC), os proprietários de restaurantes costumam ocupar a faixa de areia e ai de você se quiser estender uma esteira e um guarda-sol por lá. Eles simplesmente proíbem. Uma turista gravou bate-boca com proprietário de restaurante para denunciar o caso. 
O problema da privatização da área pública e cobrança de taxas se repete na praia de Cabeçudas, em Itajaí (SC); em Barra Velha (SC); na praia de Bombinhas (SC), que cobra 200 reais por "taxa ambiental" e tem disparada de casos de diarreia e onde a partir das 7h não tem mais lugar na faixa de areia, porque foi toda privatizada.
Aliás, tomar banho de mar hoje em dia, nas praias brasileiras, parece sinônimo de mergulhar no cocô. Somente em Santa Catarina, houve o registro de 10 mil casos de diarreia. Na capital, Florianópolis, foram mil casos de viroses diversas e diarreia. No Guarujá (SP), 2 mil pessoas foram atendidas nos postos de saúde com virose e diarreia.
Os pobres turistas, sem ter a quem apelar, gravam vídeos e publicam nas redes antissociais. Em João Pessoa (PB), um cidadão, armado com seu celular, mostra o esgoto preto correndo livre pela praia. Passam umas moças, pisando descalças sobre a imundície e ele avisa: "Vocês estão pisando no esgoto". Uma delas agradece: "Valeu, obrigada" e continuam andando sobre a sujeira. O cocô escorre também pela praia da Boa Viagem, em Salvador (BA). É esgoto jorrando direto. Imagens daquela que era uma belíssima beleza natural de Santa Catarina, a Lagoa da Conceição, mostram a água coberta de esgoto e material poluente. Alguém comentou no Instagram: "É muito cheiro de cocô".
Tomar banho de mar e de cocô é uma coisa; agora, depois não conseguir se lavar em casa no chuveiro é outra e bem pior. Os infelizes turistas e moradores de Itanhaém sofrem com a falta d'água desde o mês passado. Não é só falta d'água. A prefeitura também não estava recolhendo o lixo. Em desespero, moradores foram até a prefeitura e fizeram um protesto barulhento. A pobre Itanhaém quase foi submersa, depois de uma tempestade. O portal da entrada da cidade, ao invés de dizer "bem-vindo", parecia gorgolejar "glub-glub". 
Ao lado da destruição do recurso natural, caminha a ganância. Os locais resolvem explorar ao máximo os turistas, arrancar tudo que for possível. Na praia do Francês, em Marechal Deodoro, próxima de Maceió (AL), tomar duas cervejas e uma água de coco sai por meros 185 reais. Em Búzios (RJ), parar o carro em um estacionamento significa "morrer" com 100 "pilas". Sem esquecer o pastel, vendido a 40 reais em Florianópolis. Um pastel: 40 reais! No Rio, alugar itens básicos de praia (guarda-sol, esteira, cadeira) sai por uma bagatela de 800 reais. A campeã, em preços abusivos, parece ser a Barraca Tropical, na praia de Geribá, Armação dos Búzios (RJ), que tasca na testa da freguesia 470 reais por um prato de filé de frango, fritas e salada; e 580 reais por um pratinho de iscas de peixe e camarão. Foi até alvo de comentário no programa "Balanço Geral", da TV Record. E na Paraíba, flagraram uma garrafa fake de Coca-Cola. Parece Coca-Cola, tem embalagem grudada de Coca-Cola, mas não é. Sabe deus o que tem ali dentro.
Afora a privatização, a cobrança ilegal, os preços extorsivos, tem o barulho. O insuportável ruído de milhões e milhões de caixas de som, arruinando a paz da coitada que quer descansar na praia. Uma senhora, sentada na praia das Canasvieiras, em Florianópolis (SC), gravou uma mensagem singela: "Gente, não aguento tanto barulho. É som que não acaba mais. Um barulho ensurdecedor, é ambulante vindo a cada minuto, vendendo canga, relógio, comida até faca vieram me vender. Faca! Não tenho um momento de paz. Florianópolis nunca mais".
Em São Paulo, as caixas de som foram proibidas nas praias. Na Praia Grande (SP), teve até tumulto quando a guarda municipal recolheu caixas de som de turistas arruaceiros. No Rio, também houve grande apreensão de caixas de som.
E quando os turistas vão embora, eles deixam atrás de si um mar de detritos. São garrafas de plástico, latinhas, embalagens, restos de comida e bebida. Na praia do Capão da Canoa, litoral norte gaúcho, não tinha mais areia na praia, depois das comemorações de Ano Novo. Era só lixo. A pessoa caminhava sobre detritos. A praia da Enseada, no Guarujá (SP), também registrou grande acúmulo de lixo.
Isso tudo sem esquecer os turistas que param os carros em Peruíbe (SP), vão à praia e, quando voltam, descobrem que seus veículos ficaram sem as rodas. E o tradicional arrastão em São Vicente (SP), sentido Praia Grande...
Está sendo um verão com tantos ocorrências lamentáveis que o jornal "O Globo" escreveu em editorial: "Brigas, superlotação e desordens acendem alerta para os riscos do turismo de massa predatório nas principais praias do país". A solução, segundo "O Globo" dá a entender, seria manter os pobres longe das praias. Na realidade, o ideal seria fechar as portas das praias aos condomínios e prédios, que destroem as belezas naturais, não tratam seu esgoto e resolvem o problema jogando o cocô diretamente na praia. O ideal seria que o acesso às praias tivesse sido feito por trem e não por veículos - igualmente predatórios - e ao invés de milhões de casas, apartamentos e mansões à beira-mar houvesse apenas alguns hotéis e pousadas para receber os turistas de verão. O mal já está feito. O Brasil destrói sempre suas riquezas e vai chegar um dia que isso não terá mais volta, se é que já não chegou esse dia.  

 
   
  

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