Mostrando postagens com marcador Netflix. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Netflix. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de março de 2021

Documentário da Netflix erra ao conduzir Pelé para a política

 


Dirigido por David Tryhorn e Ben Nicholas, o documentário "Pelé"  (Netflix, 2021) tem seu melhor momento ao mostrar o maior jogador de todos os tempos relembrar os momentos que antecederam à final da Copa de 1970. 

Pelé estava no ônibus, que conduzia a delegação, e viu o veículo cercado por milhares de entusiasmados torcedores, que não viam a hora de a Seleção entrar em campo e enfrentar a aguerrida "Azurra", que dias antes havia protagonizado aquele que foi considerado o "jogo do século", ao vencer a Alemanha por 4 a 3, em uma partida dramática, fatal para os cardiopatas, com inacreditáveis cinco gols marcados em uma prorrogação.  

Aos 80 anos, combalido, chegando para a entrevista em um andador, o vencedor de três Copas do Mundo, dois campeonatos mundiais interclubes, duas Libertadores, seis campeonatos brasileiros, dez campeonatos paulistas (na época, valiam mais que a Libertadores), autor de 1.283 gols, senta-se com dificuldade em uma cadeira, postada em uma sala vazia, sem objetos de decoração, como se os produtores quisessem desnudar seu entrevistado. 

Pelé empurra o andador para o lado e aguarda as perguntas de seus entrevistados. Começa assim o documentário "Pelé". Lá pelas tantas, Pelé vai relembrar o episódio da Copa de 70. Ele menciona a chegada do ônibus da delegação no estádio. Os torcedores enlouquecidos em volta e ele não suporta a pressão e começa a chorar. 

Ele chora ao lembrar a distensão na virilha que o tirou do jogo contra a Checoslováquia, em 1962, e também o tirou da Copa. Recorda-se da pífia participação brasileira no Mundial de 1966, quando ele foi caçado em campo pelos portugueses e saiu contundido (é parecido com que jogadores de times franceses fazem hoje contra Neymar, sob o olhar omisso dos árbitros). 

Terminada a Copa de 1966, Pelé afirma que não vai mais disputar outras copas. Estava se retirando do palco. Em 1969, ele é chamado para as eliminatórias e comparece. Mais uma vez, volta a vestir a canarinho. A Seleção massacra seus adversários. Venezuela, Colômbia e Paraguai são goleados sem perdão por um time de "feras", como dizia o técnico João Saldanha. Saldanha, que era do Partido Comunista Brasileiro, acabou sendo demitido pela Ditadura Militar. Assumiu Zagallo que arrojadamente montou um ataque só com camisas 10 (Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivellino). 

Em 1970, tinha finalmente chegado o jogo da final contra a Itália. O "filme" das copas anteriores passa pela cabeça de Pelé e ele chora, chora convulsivamente, diante dos outros jogadores que não entendiam o que acontecia com o maior craque de todos os tempos, que viria a ser o "atleta do século". Era um momento de desabafo, de exorcizar os demônios. Ele enxugou as lágrimas e estava pronto para deixar seu legado maior: marcar com ferro quente em nossa memória sua vitória mais contundente. A Seleção fez uma partida que encheu os olhos da humanidade. Foi uma participação perfeita. Vitória de 4 a 1. 

E que Copa foi aquela...Brasil 4 x Checoslováquia 1, Brasil 1 x Inglaterra 0, Brasil 3 x Romênia 2, Brasil 4 x Peru 2, Brasil 3 x Uruguai 1.

Muitos cronistas esportivos dizem que aquela seleção de 1970 foi a melhor de todas. Pessoalmente, concordo com eles. Lembro de assistir aos jogos com um grupo de amigos, lembro de nossas comemorações e, depois da vitória sobre a Itália, estar na avenida 23 de Maio, paralisada pelos torcedores e veículos, e a gente se abraçando com desconhecidos, agitando bandeiras, gritando e chorando de alegria. Era uma catarse. O País, sob a mais dura Ditadura Militar, abria uma janela para a felicidade. Por isso, aproveitávamos ao máximo. Como era bom ver aquele time jogar, como ele fazia a gente sentir prazer.

O documentário da Netflix tem esse momento de confissão. Vi dezenas de entrevistas de Pelé e sinceramente não me lembrava dessa história, que tinha se passado no ônibus, momentos antes da final. Pelé se emociona. Começa a chorar. Pede desculpas. Depois, o documentário prossegue. Mas esse é realmente o melhor momento, o mais humano, o mais penetrante. 

Vencer uma Copa do Mundo é atingir o grau máximo no futebol. Comparado com a graduação acadêmica, é igual a conquistar um doutorado. Messi venceu a Liga dos Campeões com o Barcelona. Muito bom. Equivale a um mestrado. Messi nunca venceu uma Copa do Mundo. É igual a Zico. Ambos, só têm o mestrado. Nenhum deles conquistou o título de "doutor". Pelé tem doutorado. É rei e doutor. PhD em futebol.  

O documentário erra ao insistir na relação entre Pelé e os ditadores de plantão. Mostra imagens da Seleção campeã, sendo recepcionada por Médici, que ergue em triunfo a taça Jules Rimet. Fica subentendido que Pelé apoiava a Ditadura. Isso nunca ocorreu, porque Pelé nunca tomou partido. Nem a favor, nem contra.  

Para os documentaristas David Tryhorn e Ben Nicholas, Pelé teria "obrigação" de se posicionar contra a Ditadura. Seguir o exemplo de Muhammad Ali, que se negou a lutar no Vietnã e, por isso, foi preso e perseguido em seu país (Estados Unidos). O ideal seria Pelé estar preso e torturado em 1970 e não disputar a Copa? 

O problema, caros Tryhorn e Nicholas, é que Pelé transcende o político. Pelé não faz parte de partidos políticos. Nunca fez. Pelé escreveu sua história dentro das quatro linhas. E que história... Antes dele, o Brasil era um lugar desconhecido, um fim de mundo qualquer. Pelé colocou o Brasil no mapa. Deu ao país uma identidade, um lugar de honra. 

Lembro de estar em Champagne, interior da França, onde trabalhava na colheita de uvas, em 1982. O pessoal da vindima organizou uma pelada e tive a sorte de fazer vários gols. Daquele dia em diante, passei a ser chamado de "Pelezinho". Na Europa, onde você chegava nos anos 1980 e mesmo nos anos 1990, era só falar a palavra mágica "Brasil", que logo em seguida o interlocutor dizia, com olhar cheio de admiração: "Brasil! Pelé".  

Por que cargas d'água Pelé estragaria sua biografia ao fazer parte do MDB, por exemplo? Ou do PT? Ou do PSL? Ou de qualquer outro partido político, que só tem trazido vergonha para os brasileiros? Pelé fez muito bem em ficar acima dos partidos políticos. 

Ao assumir o Ministério dos Esportes, em 1995, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, Pelé criou uma lei específica para tentar acabar com a corrupção e dar mais liberdade aos atletas, que antes tinham uma relação de "escravidão" com os clubes. Ficou conhecida como a "Lei Pelé".

O documentário não mostra, mas é bom lembrar que Pelé declarou que "brasileiro não está preparado para votar". Quando a gente constata que 57 milhões de eleitores deram a Presidência do Brasil a um político que homenageia torturadores, ficamos assim, meio que envergonhados, em constatar que Pelé estava com a razão. Nada a ver com a volta da Ditadura, mas, sinceramente, estava na hora dessa "gente de valor" começar a estudar história, ler livros, se informar. É preciso estar "preparado" para votar. Preparado intelectualmente. 

Por causa desses 57 milhões 796 mil e 986 brasileiros, que apoiaram alguém que é declaradamente homofóbico, não temos vacina contra a covid-19, não temos plano de vacinação, estamos morrendo às pencas, destruindo a imagem do país tropical, "abençoado por Deus e bonito por natureza".

Sinto pena da garotada de hoje que não terá a mesma sorte que tive. No alambrado do Pacaembu (antes de ser privatizado), assisti a jogos memoráveis, na companhia do meu pai. Vi Pelé fazer gols, jogadas inacreditáveis, driblar e nos enfeitiçar com seu brilho único. Aquele uniforme branco do Santos era um deslumbre. Vi Mané Garrincha também. Se fechar os olhos, vejo Garrincha em duelo contra Geraldo Scotto, o lateral esquerdo do Palmeiras, que conseguia dar o bote e, às vezes (nem sempre), desarmar Garrincha. Quando isso acontecia a gente gritava, como se o Palmeiras tivesse feito um gol.

Sinto pena da garotada por não poder frequentar os estádios por causa da pandemia, por culpa da inaptidão de um presidente negacionista e, pior, quando isso tudo for deixado para trás, sinto pena da garotada que não encherá as arquibancadas porque sem craques não há futebol que resista.

E sinto mais pena ainda dos argentinos que nunca tiveram um Pelé e tiveram que se contentar com um Maradona.

sábado, 4 de abril de 2020

Série sobre Freud mistura desinformação com oportunismo


Pobre Sigmund Freud (1856-1939)! Se você cair na bobagem de assistir à série sobre ele, em cartaz na Netflix, produzida por três moleques (Marvin Kren, Benjamin Hessler e Stefan Brunner) vai achar que o criador da psicanálise era um drogado, pilantra, que transava com suas pacientes, e trabalhava meio período ajudando a polícia capturar serial-killers.

É inacreditável que as Freud Foundations, tanto as sediadas na Áustria como nos EUA, permitissem que essa série sensacionalista e oportunista passasse batida. Por muito menos, nos anos 1980, a Fundação Kurt Weill proibiu a exibição de uma peça encenada pelo grupo brasileiro Ornitorrinco, em Nova York. Os absurdos da montagem tupiniquim eram tantos e tão grotescos que a Fundação Weill perdeu a paciência com Cacá Rosset e companhia.

A série Freud é tão mal-intencionada que mistura acontecimentos reais com roteiro de sujas intenções. Freud, vivido por Georg Friedrich, que fisicamente é a cara de Freud quando moço (as semelhanças se encerram aí), está iniciando a carreira em 1886, na Viena, sob o domínio do Império Austro-Húngaro. Ele mora em um apartamento mal-assombrado, erguido sobre as cinzas do Teatro Ring, que pegou fogo em 1881 e deixou 384 mortos. 

É verdade. Freud morou mesmo nesse local, logo depois de se formar e fazer um estágio na França, onde descobriu uma nova forma de tratar os doentes mentais com o médico Jean-Martin Charcot (1825-1893). Charcot hipnotizava seus pacientes, para fazer aflorar traumas que poderiam ter levado o doente a enlouquecer. Só que o inquilino Freud nunca se queixou de fenômenos extrassensoriais como pianos que tocam sozinhos ou gritos apavorantes de almas penadas. 

O Freud da série não paga aluguel. Foge do senhorio. É um caloteiro, que usa cocaína no ritmo do drogadito da Cracolândia e que passa as noites em botecos, com o amigo, médico e escritor Arthur Schnitzler (1862-1931). 

Schnitzler e Freud, na realidade, nunca foram amigos de copo, nem dividiram mesas de boteco. Em uma de suas correspondências, datada de 1922, Freud confessava que havia resistido ser apresentado ao escritor, porque sentia que Schnitzler seria "seu duplo". Ou seja, ambos (Freud e Schnitzler) investigavam o abismo do inconsciente. Schnitzler em suas obras (De olhos bem fechados, virou até filme sob a batuta de Stanley Kubrick) e Freud deixando seus pacientes à vontade no divã e ouvindo seus sonhos e desejos mais profundos.

Em uma dessas noitadas malucas, drogado e bêbado, Freud conhece a médium Fleur Salomé. Aí surge outra imbricação picareta. Na vida de Freud, tinha mesmo uma Salomé. Ela se chamava Lou Andreas-Salomé (1861-1937). Mulher atraente, admirava Freud e era autora e psicanalista. Nenhuma das vários biografias de Freud (Ernest Jones e Peter Gay, só para citar dois biógrafos acima de qualquer suspeita) observa qualquer intimidade entre Freud e Andreas-Salomé. Os dois trocavam cartas. Eram afetuosos, mas nada de ir para cama.

Na série, Salomé (interpretada por Ella Rumpf) é uma médium, que vive com a família de nobres húngaros, os Szápary. Os Szápary existiram de fato, mas a série mostra a matriarca da família com discutíveis superpoderes. É só ela encostar a mão no sujeito, para dominá-lo. Imediatamente, o coitado entra em um estado hipnótico capaz de fazer qualquer estupidez. Inclusive, saltar do andar mais alto do prédio.

Freud e Salomé consomem cocaína. Transam adoidado, mesmo Salomé sendo paciente de Freud e estar sob seus cuidados médicos. Onde fica a ética de médico-paciente? Afundou-se no esgoto de ideias dos criadores dessa produção meia boca.

Surge em cena o mentor de Freud, o médico Josef Breuer que também começou a investigar as profundezas do inconsciente, mas pisou no freio, diante do desafio que a repressão sexual representava na época. Freud foi além e criou a psicanálise, desvinculando-se, mais tarde, de Breuer. Na produção, um Breuer idoso e sábio mostra-se preocupado com um Freud inseguro, desacreditado, viciado em drogas, humilhado pelos colegas da clínica psiquiátrica de Theodor Meynert. No início de sua carreira médica, Freud fez mesmo um estágio - não remunerado - na clínica de Meynert, apresentado pelos roteiristas como um vilão presunçoso e arrogante.

A série tem muito sangue. Rituais sanguinolentos incompreensíveis. Uma mistura doidivanas de psicanálise, com mediunidade, feitiçaria, rituais de matança e sabe-se lá mais que outra barbaridade. 

Se alguém quiser conhecer a importância de Freud, suas descobertas fundamentais (Complexo de Édipo, interpretação dos sonhos, divisão do inconsciente, atos falhos como forma de manifestação do reprimido, entre tantas outras), por favor, não assista esta série. 

Em relação à cocaína, não embarque no sensacionalismo. No final do século 19, novas drogas para atenuar a dor estavam sendo pesquisadas. Uma delas era a cocaína. Freud chegou a usar a droga experimentalmente. Numa carta endereçada àquela que seria sua futura esposa, a jovem Martha, afirmou que a droga a estimularia favoravelmente. O mais importante biógrafo de Freud - Ernest Jones - relatou este e outros episódios, em que mostrava o criador da psicanálise como um pesquisador sério, em busca de aliviar o sofrimento. Muito longe do psicodélico amalucado da série.

Freud é talvez um dos últimos expoentes do iluminismo. Coube a Copérnico e Galileu mostrarem que a Terra era apenas um pequeno planeta de um sistema solar, orbitando em torno do Sol. A Terra deixava de ser plana e centro do universo, para ser rebaixada a planetinha sem qualquer importância sideral. Veio Charles Darwin e jogou mais água na fervura religiosa. Os homo sapiens eram singulares primos dos macacos, com os quais dividiam 99 por cento de DNA. Freud surgiu em cena no crepúsculo do século 19 para dizer que os humanos tinham um inconsciente sobre o qual não tinham qualquer domínio. Pedra de cal no homem todo poderoso, suposto "filho de Deus".

Freud escreveu livros fundamentais: A interpretação dos sonhos, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, O caso Schereber, O ego e o id, O mal-estar na civilização, só para citar alguns. Em Três ensaios...muita bobagem que ainda é falada sobre sexo - principalmente sobre homossexualismo - desceria pelo ralo se a pessoa tivesse lido essa obra, lançada em 1905. 
  
Quer aproveitar melhor a quarentena? Por que não descobrir o universo freudiano? A maior parte (talvez a totalidade) de suas obras está disponível, gratuitamente, on line. Deixe um pouco a Netflix e besteiras como essa série Freud de lado e mergulhe fundo no divã de Freud. Vai ser uma experiência reveladora. 









segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ainda bem que Roma não levou o Oscar de melhor filme


Sinto antipatia pelo filme Roma, escrito, dirigido e produzido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Já sabia o que me aguardava, quando entrei na Netflix e comecei a assistir este drama sobre uma empregada doméstica de origem indígena, vivendo na casa de uma família de classe média alta, no bairro Colonia Roma, na cidade do México. 

Durante longas duas horas e 15 minutos, acompanhamos a vida de muito trabalho e poucas alegrias da doméstica Cleo, que tem uma relação de irmã mais velha com os filhos de seus patrões. É ela quem cuida das crianças, que conta histórias na hora de dormir e que os acorda de manhã. 

Na prática, Cleo é uma Escrava Isaura, que não ganha o suficiente para se manter (alugar um apartamento, comprar um carro, cursar a faculdade), assim como acontece com grande parte dos trabalhadores brasileiros, sejam eles empregados domésticos ou não.

O filme não permite ao público nenhum tipo de evasão. Tobey Maguire não entrará voando pelo janela, vestido de Homem Aranha, para salvar Cleo. Também Michael Fox e Christopher Lloyd não virão do futuro e não arrombarão a porta da casa, com seu DeLorean, para resgatá-la. Desde o início do filme, a gente pressente que o destino de Cleo será medíocre e inexorável.

Para deixar claro a que veio, o filme é em preto e branco. Remete, é claro, ao neorealismo italiano. Em 1948, Vittorio De Sica dirigiu o filme clássico dessa época - Ladrões de Bicicleta -, que era em preto e branco. Na época, o processo de colorização do celuloide ainda encarecia de maneira proibitiva as produções cinematográficas. 

Ladrões de Bicicleta se passa no pós-guerra, em Roma, quando havia milhões de desempregados nas ruas. O protagonista consegue uma colocação de pregador de cartazes. Para manter o emprego, precisa de uma bicicleta. Ele penhora a roupa de cama da família. Arruma uma bicicleta e começa a trabalhar. O veículo é roubado. Ele e o filho iniciam um desesperado perambular pelas ruas da cidade, em busca da bicicleta roubada. O filme é emocionante. Impossível não se sentir tocado pela interpretação dos atores. 

Vittorio De Sica contou certa vez que para filmar a cena final necessitava que o garoto Enzo Staiola chorasse. Sem chance. O menino não chorava. De Sica teve então uma sacada. Escondeu um pacote de cigarros no bolso do paletó do garoto e o acusou de estar fumando em segredo.

Enzo disse que os cigarros não eram dele, que não sabia como o pacote tinha ido parar em sua roupa e...começou a chorar. Sem perder tempo, De Sica ligou as câmeras, os holofotes e gravou a última sequência de Ladrões de Bicicleta. Filme memorável, inesquecível, mesmo sendo em preto e branco. 

Hoje, Enzo iria processar De Sica por assédio moral. 

Talvez a minha antipatia por Roma, de Alfonso Cuarón, seja por essa rastejante vontade de criar empatia pelo sofrimento dos menos favorecidos, dos miseráveis. 

Acontece o mesmo com os filmes de Walter Salles. Refiro-me a Central do Brasil (1998) e Linha de Passe (2008). Linha de Passe, por exemplo, é um filme sobre fracassados. Ninguém ali vai ter sucesso, ninguém conseguirá realizar seus sonhos. A família de Linha de Passe terá 113 minutos para afundar lentamente seu barquinho, submergindo todos no naufrágio previsível.

É possível criar essa mesma empatia pelo destino dos despossuídos usando a evasão, que a gente tanto procura quando vai ao cinema. Woody Allen fez isso em Rosa Púrpura do Cairo

A garçonete pobre, que sustenta o marido grosseiro e incompetente, durante a depressão de 1935, tem raros momentos de felicidade. Um deles é quando está no cinema, assistindo aos filmes B de Hollywood. Seu filme preferido é Rosa Púrpura do Cairo. Ela assiste ao filme tantas vezes, mas tantas vezes, que, em determinado momento, o personagem não aguenta mais, se volta para ela e começa a interagir com a garçonete pobre. Ela terá chance de entrar dentro do seu filme favorito e até se apaixonar pelo protagonista.

Apesar da minha torcida contra, Roma levou três Oscar: melhor direção, melhor fotografia e melhor filme estrangeiro. Com a estatueta na mão, Cuarón fez o que se esperava dele. Discursou em defesa das "70 milhões de empregadas domésticas sem direitos trabalhistas". 

A cerimônia do Oscar é uma das muitas maneiras que Hollywood encontrou para divulgar e promover a venda de seus produtos. Cuarón é uma velho conhecido da casa, tendo sido contratado pela Warner algumas vezes, levando em 2013 o Oscar de melhor direção por Gravidade.

O premiado Roma, de Cuarón, não é um desses filmes que a gente gostaria de rever, de retornar a ele. Quanto terminam as intermináveis duas horas e 15 minutos de sua duração, a gente levanta as mãos aos céus em agradecimento. Terminou. Ainda bem. Dá alívio desligar a TV e a Netflix.

Outro filme que também se chama Roma foi feito por Federico Fellini, em 1972. Este Roma eu, certamente, teria muito prazer em rever. Faz muito tempo que assisti Roma de Fellini no falecido Cine Bijou, que ficava na Praça Roosevelt, centro de São Paulo. Devo ter assistido ao filme de Fellini em 1973, há inacreditáveis 46 anos. Só o vi uma única vez e saí da sala de exibição iluminado. 

Quatro décadas e seis anos depois, lembro, perfeitamente, de várias cenas. O jovem caipira Fellini desembarcando em Roma na estação Termini. Um desfile muito louco de moda para padres, bispos e cardeais. Uma obra subterrânea (provavelmente, devia ser o metrô) encontra um tesouro arqueológico e os afrescos começam a se desfazer em contato com a modernidade. Hippies tomam banho nas fontes milenares romanas. Um congestionamento monstro em meio ao trânsito enlouquecido. A chuva de verão tombando sobre uma movimentada artéria da capital italiana. O bordel antigo com as prostitutas andando de um lado para o outro. A então esposa de Fellini aparece, chegando cansada do trabalho e tentando entrar em casa. O final antológico com as motocicletas - milhares delas - correndo livres e soltas pela Roma, cidade eterna. O filme é monumental, como Fellini o era. 
           

     

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O conservadorismo da Netflix



Assisti ontem na Netflix Jogo Perigoso. Casal apimenta a relação com encontro sadomasô. Algemas, casa isolada, Viagra, clima permissivo. Quando terminou, lembrei de uma série de filmes produzidos pela conservadora Hollywood em fins dos anos 70 e 80. Em Vestida para matar, a mulher casada faz sexo casual com um desconhecido e descobre, depois da transa, que o parceiro tem doença venérea. À procura de mr. Goodbar, com a ótima Diane Keaton, uma professora que à noite frequenta bares para sair com vários homens é assassinada brutalmente por um ex-homossexual. Atração Fatal mostra o pobre Michael Douglas sofrendo o diabo nas mãos da maluca personagem de Glenn Close. Tudo porque ele era casado e foi arrumar uma amante.

Em todos esses filmes, a gente percebe o conservadorismo norte-americano pronto a castigar quem sai fora dos trilhos. Os anos 80 foram uma época de sexualidade exacerbada e repressão violenta. Em junho de 1983, Notícias Populares dava a manchete: Peste gay já apavora São Paulo, referindo-se aos primeiros casos de Aids, registrados na cidade, informando mal e porcamente, como o NP sempre fez.

De um lado, nos anos 80, estavam aqueles que gostariam de prolongar indefinidamente a revolução sexual, iniciada nos anos 60; e no lado oposto, um muro conservador, tentando sufocar os libertários. Hollywood fazia a parte dela, produzindo filmes, como os descritos acima.

Em 2017, a bilionária Netflix, com seus 100 milhões de assinantes, mantém esse ranço conservador. Jogo Perigoso é na prática uma advertência do velho superego freudiano: "Não faça essas coisas proibidas, menino, que você vai se dar mal". Outro filme produzido pela mesma Netflix, Eu, tu e ela, brinca com a possibilidade de um ménage à trois. Mas acontece tanto imprevisto, tanta situação constrangedora, que a brincadeira nos deixa com um gosto amargo. Se Eu, tu e ela fosse uma produção francesa nem te conto o que iria rolar.

O documentário Lady Gaga Five foot two mostra uma cantora enferma, com dores insuportáveis no corpo, sendo assistida por um séquito de massagistas, médicos, enfermeiros, paramédicos, padres, parentes, pai, mãe, avó. É tudo, menos aquela imagem sensual, alta moda, que a intérprete de Bad Romance nos passava  lá atrás no distante passado de 2009. Lady Gaga, descobrimos, é uma coitada de shortinho rampeiro que diz frases sem o menor sentido.

Rita, uma produção interessante, vinda da Dinamarca, mostra uma professora mãe solteira, que fuma, bebe, transa com o diretor, transa com imigrantes sem nome, mas - apesar desse comportamento pouco educativo - é excelente profissional, a melhor professora do colégio. Rita termina a série numa boa? Ou será punida? Precisa responder?

Como estamos nas mãos dos algoritmos desses conservadores norte-americanos, somos obrigados a conviver com uma rede social que censura quadros centenários, obras de arte célebres, que se encontram à vista de milhões de visitantes nos museus mais visitados do mundo. Refiro-me à página Todo dia uma obra de arte para ofender o MBL que sofre a tesoura puritana periódica do Facebook.  No domingo, o autor desta página, que bate de frente com o MBL, fez um pedido desesperado: "Facebook removeu (mais) uma publicação e me impediu de usar a caixa de mensagens da página. Mandem um e-mail no arteofensiva@gmail.com. Também estou em twitter.com/arteofensiva."

 Dar murro em ponta de faca machuca, mas faz um bem danado para a alma da gente.


 

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...