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terça-feira, 13 de dezembro de 2022

Chegando na "favela" de Aubervilliers

 

Estação do metrô da Mairie d'Aubervilliers

O taxista chinês estaciona o carro. Ajuda a descer as malas. Olha desconfiado para os lados e avisa, em tom desesperado: "Aqui, é periferia brava. Igual à favela do Brasil. Favela!", ele diz, quase gritando.

Aubervilliers fica na periferia mesmo de Paris. É uma comuna, onde vivem umas 64 mil almas, a maioria delas, imigrantes. Muitos pretos nas ruas. Muitos árabes e muçulmanos. Muita gente falando em línguas irreconhecíveis. A maioria veste roupas africanas, longas, estampadas e algumas com muito brilho. 

O chinês, certamente, nunca pisou em uma favela real brasileira. Não há esgoto a céu aberto. Não se veem palafitas, nem barracos, nem terrenos invadidos e ocupados de forma urbanamente desastrosa. Não há habitações precárias em morros oscilantes. As ruas são livres e não estão obstruídas com carcaças de carros incendiados e nem se veem os vigias do tráfico, armados de fuzis AK47. Não tem os miseráveis que passam fome e que vivem abaixo da linha da pobreza, com menos de 500 reais por mês. 

É uma "favela" de prédios seguros, com chaves de entrada inteligentes. À noite, não se ouve um suspiro vindo do apartamento vizinho. É um silêncio de monastério.

Às seis horas da manhã, saio para comprar baguete e croissant na boulangerie da esquina e sou atendido por um rapaz árabe, que me recebe com um sorriso cordial. A boulangerie é impecável. Exala aquele odor delicioso de pão, que acabou de sair do forno. A baguete custa 1 euro e está quente, estalando na mão.

O mercadinho de produtos árabes na esquina oferece frutas, sopas industrializadas, pratos congelados, bebidas, doces, produtos de primeira necessidade. É um milagre de ocupação de prateleiras em uns 20 metros quadrados.

No metrô da Mairie d'Aubervilliers, uma atendente solícita deixa o posto de observação envidraçado para me ajudar a comprar o tíquete e explica as diversas opções de transporte e seus respectivos valores. Essa estação de metrô, em plena "favela", foi recém-construída. Tem elevadores modernos - e todos funcionam. Assim como funcionam as escadas rolantes. Nada ali está quebrado ou pichado ou danificado. Avisos luminosos informam os minutos que faltam para o próximo trem chegar à plataforma.

Ao descer em Saint-Michel, passo pelos cafés e as pessoas lendo livros - e até jornais, acredite - me chamam a atenção. Existe ainda uma cidade no mundo em que as pessoas leem livros impressos e jornais. Vou até o café L' Écritoire, na praça da Sorbonne, onde em 1991/92, passei momentos memoráveis, discutindo minha tese e as teses dos colegas, que faziam doutorado sob a orientação do brilhante professor Michel Maffesoli. 

Na época, o filósofo Jean Baudrillard costumava sentar-se numa mesa vizinha. Era uma proximidade quase surreal. Alguém que você conhecia de leitura aparecia bem ali, ao vivo e em cores.

A Sorbonne continua no mesmo lugar de sempre. Vetusta, mas presente, firme, intocável, inabalável. Em 1968, durante a Revolução que transformou o Quartier Latin, em praça de guerra, os estudantes ficaram acampados e "aquartelados" na Sorbonne. Época do "amor livre". Dizia-se, com evidente exagero, que as pessoas "escorregavam" em esperma ao caminhar pelos corredores da Sorbonne.

No L'Écritoire, peço um kir ao garçom. Ele pergunta se é um "kir cassis". Respondo que sim. O kir tem o mesmo sabor, mas, em pleno feriado prolongado, a universidade está fechada. Nas mesas, casais e solitários sorvendo cafés, cervejas e aperitivos, iguais ao meu. Não vejo estudantes. Ninguém ali discute a tese que está escrevendo. E faz alguns anos que Jean Baudrillard não se encontra mais entre nós.

Na armadilha do tempo, o que antes tinha muito sabor, parece ter perdido a essência. Simenon, por exemplo, e o seu querido inspetor Maigret. Eu costumava devorar seus livros, que comprava por míseros 10 francos (quanto isso seria em euro?), em caixotes posicionados na porta de uma livraria. Agora, milhares de anos mais tarde, me decepciono com as histórias inverossímeis, com as decisões estapafúrdias de um policial, que passa por cima do mais elementar direito legal.

Diante da livraria Gibert Jeune, em frente ao Sena e vizinha da turística Shakespeare and Company, vejo um exemplar do "Imoralista", de André Gide, por 50 centavos de euro. É uma moedinha ridícula de 50 centavos, em troca de André Gide. Só que na hora de iniciar a releitura de uma obra, que devo ter lido lá pelos meus 20 anos, descubro que a fonte da impressão deve ser inferior a 7, o que inviabiliza a leitura.

Paris deve ter o mesmo número de livrarias que São Paulo tem de igrejas. Na mesma proporção.

Caminho pela Rive Gauche, cruzo com gente em patinetes elétricos, passo pelos bouquinistes, vendendo os mesmos livros usados de sempre, os mesmos jornais antigos e as inexoráveis lembranças de Paris (aventais, panos de prato, aparadores, chaveiros com miniaturas da torre Eiffel). Embaixo, no Sena, as péniches deslizam serenas pelo rio, visualmente limpo e vivo. Outras estão "estacionadas" nas margens. Sobre elas, há plantas, bicicletas, roupas secando.

Paris tem essa particularidade. Você não se cansa de andar. Você caminha, caminha, entra por uma rua, sai em outra. É tudo visualmente encantador. Você não cansa de ver as vitrines, de ser um flâneur, no melhor estilo Walter Benjamin. 

Acabo indo parar no bairro Saint-Germain-de-Prés, recheado de apartamentos que custam a bagatela de 2 milhões de euros. Uma loja se evidencia por seu produto em oferta na vitrine: cartas e autógrafos raros. Encosto o rosto na vitrine e vejo a assinatura de Freud, em uma cartinha simpática, que talvez ele tenha escrito ao seu biógrafo Ernest Jones. Vizinha dali, aparece uma livraria, que expõe as obras de Annie Ernaux, ganhadora do prêmio Nobel de Literatura. Haverá uma sessão de autógrafos, que começa naquele mesmo dia por volta de 19 horas.

Cansado, percebo que começa a escurecer. Faço o caminho de volta, o trajeto de retorno à minha querida "favela", bem no final da linha do metrô, onde vou descer e caminhar sereno e complacente pela avenida Victor Hugo. Viver em uma "favela" em que uma das ruas principais tem o nome do maior escritor dos últimos 160 anos deve dar um orgulho danado para seus bem-aventurados "favelados". 

 Tradução para o francês:

Le chauffeur de taxi chinois gare la voiture. Il aide à descendre les valises. Il regarde autour de lui avec méfiance et avertit, d'un ton désespéré : "Ici, c'est la banlieue dangereuse. Comme les favelas du Brésil. Favela !", dit-il, presque en criant.

Aubervilliers se trouve en effet en banlieue parisienne. C'est une commune où vivent environ 64 000 âmes, dont la majorité sont des immigrés. Beaucoup de Noirs dans les rues. Beaucoup d'Arabes et de musulmans. Beaucoup de gens parlent des langues méconnaissables. La plupart portent des vêtements africains, longs, imprimés, et certains très brillants.

Le Chinois, certainement, n'a jamais mis les pieds dans une véritable favela brésilienne. Il n'y a pas d'égouts à ciel ouvert. On ne voit ni maisons sur pilotis, ni baraques, ni terrains envahis et occupés de manière urbanistiquement désastreuse. Il n'y a pas d'habitations précaires sur des collines instables. Les rues sont libres et ne sont pas encombrées de carcasses de voitures incendiées, et on ne voit pas les guetteurs du trafic de drogue, armés de fusils AK47. Il n'y a pas de miséreux qui souffrent de la faim et vivent sous le seuil de pauvreté, avec moins de 500 reais par mois.

C'est une "favela" d'immeubles sécurisés, avec des clés d'entrée intelligentes. La nuit, on n'entend pas un soupir venant de l'appartement voisin. C'est un silence de monastère.

À six heures du matin, je sors pour acheter une baguette et un croissant à la boulangerie du coin et je suis servi par un jeune Arabe, qui m'accueille avec un sourire cordial. La boulangerie est impeccable. Elle exhale cette délicieuse odeur de pain qui vient de sortir du four. La baguette coûte 1 euro et est chaude, croustillante dans la main.

L'épicerie arabe du coin propose des fruits, des soupes industrielles, des plats surgelés, des boissons, des sucreries, des produits de première nécessité. C'est un miracle d'occupation d'étagères sur environ 20 mètres carrés.

Dans le métro de Mairie d'Aubervilliers, une agente prévenante quitte son poste d'observation vitré pour m'aider à acheter un ticket et m'explique les différentes options de transport et leurs tarifs respectifs. Cette station de métro, en plein cœur de la "favela", a été récemment construite. Elle dispose d'ascenseurs modernes – et tous fonctionnent. Tout comme les escalators. Rien n'est cassé, tagué ou endommagé. Des panneaux lumineux indiquent les minutes restantes avant l'arrivée du prochain train sur le quai.

En descendant à Saint-Michel, je passe devant des cafés et les gens qui lisent des livres – et même des journaux, croyez-le – attirent mon attention. Il existe encore une ville dans le monde où les gens lisent des livres imprimés et des journaux. Je me rends au café L'Écritoire, sur la place de la Sorbonne, où en 1991/92, j'ai passé des moments mémorables, discutant de ma thèse et de celles de mes collègues, qui faisaient leur doctorat sous la direction du brillant professeur Michel Maffesoli.

À l'époque, le philosophe Jean Baudrillard avait l'habitude de s'asseoir à une table voisine. C'était une proximité presque surréaliste. Quelqu'un que vous connaissiez par ses écrits apparaissait là, en chair et en os.

La Sorbonne est toujours au même endroit. Vénérable, mais présente, ferme, intouchable, inébranlable. En 1968, pendant la Révolution qui a transformé le Quartier Latin en champ de bataille, les étudiants campaient et se "retranchaient" à la Sorbonne. C'était l'époque de "l'amour libre". On disait, avec un exagération évidente, que les gens "glissaient" sur du sperme en marchant dans les couloirs de la Sorbonne.

Au L'Écritoire, je commande un kir au serveur. Il me demande si c'est un "kir cassis". Je réponds que oui. Le kir a le même goût, mais, en plein pont du week-end prolongé, l'université est fermée. Aux tables, des couples et des solitaires sirotent des cafés, des bières et des apéritifs, comme le mien. Je ne vois pas d'étudiants. Personne ne discute de la thèse qu'il est en train d'écrire. Et cela fait quelques années que Jean Baudrillard n'est plus parmi nous.

Dans le piège du temps, ce qui avait autrefois beaucoup de saveur semble avoir perdu son essence. Simenon, par exemple, et son cher inspecteur Maigret. Je dévorais ses livres, que j'achetais pour une misérable somme de 10 francs (combien cela ferait-il en euros ?), dans des caisses placées à l'entrée d'une librairie. Maintenant, des milliers d'années plus tard, je suis déçu par les histoires invraisemblables, par les décisions absurdes d'un policier qui bafoue les droits les plus élémentaires.

Devant la librairie Gibert Jeune, face à la Seine et voisine de la touristique Shakespeare and Company, je vois un exemplaire de "L'Immoraliste" d'André Gide pour 50 centimes d'euro. C'est une pièce ridicule de 50 centimes, en échange d'André Gide. Mais au moment de commencer la relecture d'une œuvre que j'avais dû lire vers mes 20 ans, je découvre que la police d'impression doit être inférieure à 7, ce qui rend la lecture impossible.

Paris doit avoir le même nombre de librairies que São Paulo a d'églises. Dans la même proportion.

Je marche sur la Rive Gauche, je croise des gens sur des trottinettes électriques, je passe devant les bouquinistes, qui vendent les mêmes livres d'occasion, les mêmes vieux journaux et les inévitables souvenirs de Paris (tabliers, torchons, dessous de plat, porte-clés avec des miniatures de la tour Eiffel). En bas, sur la Seine, les péniches glissent tranquillement sur le fleuve, visuellement propre et vivant. D'autres sont "garées" sur les rives. Sur elles, il y a des plantes, des vélos, des vêtements qui sèchent.

Paris a cette particularité. On ne se lasse pas de marcher. On marche, on marche, on entre dans une rue, on en sort une autre. Tout est visuellement enchanteur. On ne se lasse pas de regarder les vitrines, d'être un flâneur, dans le meilleur style de Walter Benjamin.

Je finis par arriver dans le quartier de Saint-Germain-des-Prés, rempli d'appartements qui coûtent la bagatelle de 2 millions d'euros. Une boutique se distingue par son produit en vitrine : des lettres et des autographes rares. Je colle mon visage à la vitrine et je vois la signature de Freud, sur une petite lettre sympathique, qu'il a peut-être écrite à son biographe Ernest Jones. À côté, il y a une librairie, qui expose les œuvres d'Annie Ernaux, lauréate du prix Nobel de littérature. Il y aura une séance de dédicaces, qui commence ce même jour vers 19 heures.

Fatigué, je remarque que la nuit commence à tomber. Je fais le chemin du retour, le trajet vers ma chère "favela", tout au bout de la ligne de métro, où je descendrai et marcherai sereinement et complaisamment sur l'avenue Victor Hugo. Vivre dans une "favela" où l'une des rues principales porte le nom du plus grand écrivain des 160 dernières années doit rendre ses bienheureux "favelados" très fiers. 

     

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Ciro Marcondes Filho (1948-2020)


Algumas pessoas na vida da gente são fundamentais. Têm efeito transformador. Podem mudar nosso percurso. Podem ser a diferença entre a realização de um trabalho medíocre ou de excelência. Ciro Marcondes Filho, que faleceu domingo passado, aos 72 anos, de câncer, era uma dessas pessoas.

Ciro foi meu professor, quando fazia mestrado na Universidade Metodista, entre 1982-1985. Ciro havia retornado recentemente da Alemanha, com o título de doutor na bagagem. Vivíamos ainda sob a Ditadura Militar, que estava em seus estertores. Em uma das aulas, lembro que mencionei a possibilidade de aproveitar o momento para iniciar a Revolução. 

A Revolução era o sonho mais acalentado pela nossa geração. Queríamos fazer igual a Fidel Castro, aos sandinistas. Sonhávamos em tomar as ruas, como os estudantes da Sorbonne haviam feito em 1968. Chê Guevara era a nossa referência de mártir a serviço dos desvalidos. 

A gente se vestia como se estivéssemos prontos para o grande chamado. Calçava coturno, usava calça jeans e sempre, em todas as ocasiões, me enfiava em um surrado casaco verde militar.

Com essa vestimenta, que me caracterizava como alguém de esquerda, como um combatente anônimo da Ditadura Militar, acompanhava as aulas de pós-graduação na Metodista. 

Naquela aula em questão, quando mencionei dar início à Revolução, Ciro me deu um banho de realidade. Faz 38 anos e lembro como se estivesse agora, com ele, na sala de aula. Ele me disse: "Danilo, não vai ter Revolução. Esquece. Isso não vai mais acontecer. Você está preso em 1968. Precisa sair daí".

Veio a defesa do mestrado, em 1985, e eu tive uma discussão maluca com José Marques de Mello, que fazia parte da banca. Tinha certeza que ele havia lido superficialmente minha tese, que fazia um estudo de comunidade em Piedade do Paraopeba/Palhano/Minas Gerais, com foco na chegada da televisão naquele vilarejo. 

Marques de Mello dizia que a dissertação era igual a "Paraíso via Embratel", de Luiz Augusto Milanesi. Na realidade, embora o foco fosse parecido, eu tinha feito um estudo comunitário, atuando como pesquisador participante, seguindo a lógica do livro de autoria de Carlos Rodrigues Brandão. Seguindo à risca Brandão, havia até reunido a comunidade, em um salão paroquial e levado uma pauta de reivindicações às autoridades locais. 

Para falar a verdade, Marques de Mello estava comigo atravessado na garganta, por causa de um episódio, envolvendo um professor, amigo dele, que sofrera uma decepção amorosa.

Águas passadas.

O fato é que a briga com um integrante da banca, que quase me fez ser reprovado (Mello me deu nota 7, mas fui salvo pelos outros dois professores que me agraciaram com 10, média final 9), me deixou com um gosto amargo da vida acadêmica. 

Fiquei três anos longe da universidade. Em 1988, estava na Escola de Comunicações de Artes da USP, sendo entrevistado pelo Ciro Marcondes Filho. As inscrições para o doutorado tinham sido abertas e eu desejava fazer um estudo sobre a imprensa sensacionalista, mas não queria seguir a abordagem semiótica, que, no meu entender, não dava conta do recado. Tinha de ser algo com base na psicanálise, no estudo da violência e da psiquê. Era exatamente esta a linha de pesquisa de Ciro na ocasião. 

Melhor ainda: Ciro e Marques de Mello eram rivais acadêmicos. Ciro defendia mergulhos profundos em teoria da comunicação, enquanto Marques de Mello queria um curso mais prático, tipo Senac. 

Quando Ciro me perguntou por que tinha demorado tanto tempo para fazer o doutorado, falei da briga com Marques de Mello e como aquilo havia me afetado emocionalmente. Lembro do sorriso dele, da empatia e pressenti que ele seria meu orientador no doutorado.

Foi o que fato ocorreu. Foram cinco anos (1988-1993) memoráveis. De muito estudo, de muita pesquisa e envolvimento com teóricos do quilate de Dieter Prokop, Alfred Lorenzer, Otto Fenichel e Freud, é claro, entre tantos outros. 

Sem falar das obras de Ciro, que eu devorava: "Televisão, a vida pelo vídeo", "Quem manipula quem", "O que todo cidadão precisa saber sobre ideologia", "A linguagem da sedução", "Imprensa e capitalismo", "O discurso sufocado", "O capital da notícia". 

Por volta do terceiro ano, em 1991, Ciro sugeriu que eu fosse para a Europa aproveitar a possibilidade de uma bolsa sanduíche. Ele entendia que essa experiência, em locais de pesquisa mais avançados, seria fundamental para a conclusão de meu trabalho. 

Escrevi uma carta para Dieter Prokop, mas ele recusou, porque eu precisaria ser fluente em alemão. Já o professor Michel Maffesoli, do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano, da Universidade Sorbonne, me respondeu positivamente. Ele seria meu orientador na França.

Preparei toda a documentação necessária para o CNPq. Faltava apenas a assinatura do Ciro. Liguei para ele e anotei as indicações para chegar em sua casa (na época, não havia Waze).

Ele me disse: "Vai ser difícil você achar. Eu moro no fim do mundo".

Peguei a rodovia Raposo Tavares. Na altura do km 22,8, em Cotia, saí à direita, rodando pela avenida São Camilo, por um lugar chamado Granja Viana. 

Fiquei maravilhado com o que via. Era tão perto de São Paulo, mas, ao mesmo tempo, a falta de outros veículos, a densa vegetação, as casas baixas, a ausência total de prédios...Parecia que eu estava chegando em alguma cidadezinha do interior. 

Cheguei no condomínio Fazendinha e me perdi umas trinta vezes até conseguir chegar na rua Cambuquira, onde Ciro morava. Uma coincidência feliz, porque a nossa família passava as férias em Cambuquira (pacata cidade "das águas" de Minas Gerais). 

Ciro me recebeu em casa, acompanhado pela mulher e filha. Ele assinou toda a documentação e balançou a cabeça, tentando me preparar para o pior: "Eles (o CNPq, a Capes) não têm aprovado as bolsas dos meus orientandos". 

Quando voltei para casa, falei para a minha mulher: "No futuro, nós vamos morar na Granja Viana. É um lugar inacreditável. Parece uma cidade do interior. Super tranquilo. Um sonho".

Dias depois, no dia 13 de agosto daquele ano (1991), recebi a carta do CNPq me informando que havia ganho a bolsa sanduíche, com duração de um ano. Poderia pegar o avião e ir para a França.

Corri para a USP e mostrei a carta de aceitação para o Ciro. Ele comemorou como se ele tivesse sido premiado. Ficou imensamente feliz com a nossa conquista. 

O ano que passei na França foi decisivo para escrever a tese de doutorado. Tenho certeza que, se tivesse ficado no Brasil, não teria conseguido produzir um trabalho com o mesmo aparato epistemológico, obtido nos seminários da Sorbonne e na completa e invejável biblioteca de sociologia e comunicação do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica). 

Outra coincidência feliz: a biblioteca ficava a 30 passos do apartamento que eu havia alugado na rua Pouchet, no 17º "arrondissement", que é o nome francês para "bairro".

De volta ao Brasil, com a tese pronta, levei para o Ciro dar uma olhada. Ele me devolveu sem mexer em uma vírgula. Só me disse uma frase, na base da brincadeira: "Vamos pras cabeças".

Como forma de preparação para a defesa, Ciro promoveu um debate comigo, com alunos da pós-graduação e convidados, publicado, em seguida, pela revista "Atrator Estranho", que ele editava. 

Minha tese "Espreme que sai sangue - um estudo sobre a imprensa sensacionalista, tendo como objeto o jornal Notícias Populares" foi aprovada, em 1993. Um editor que estava publicando vários livros do Ciro me pediu a tese, mas houve mudança na linha editorial e ele não pôde editar meu livro, que acabou sendo publicado pela Summus, em 1995.

No ano seguinte, nossa família conseguiu comprar uma casa na Granja Viana, nas proximidades do condomínio Fazendinha. Realizei meu sonho. Infelizmente, apesar de estar muito próximo, nunca encontrei o Ciro no mercado, no posto de combustível, no restaurante ou em qualquer ponto da Granja.

Como jornalista, cheguei a entrevistá-lo algumas vezes. Em outros momentos, a gente se encontrava, em debates, na Eca. A última vez que nos vimos ele me perguntou se eu gostaria de voltar a trabalhar com "violência".

 A imagem que ficou dele é esta da foto, que ilustra a postagem. Bigode e cavanhaque grisalhos, óculos de aro fino, cabelo denso, expressão séria, profunda. Não cheguei a vê-lo sem barba. Acho que não o reconheceria.

Tentei escrever essa postagem ontem, mas não consegui. Quando morre um professor, que teve tanta ascendência sobre a gente, morremos também um pouco junto com ele. 

Queria voltar no tempo. Queria estar de novo naquele momento da entrevista, naquele segundo memorável, inesquecível, quando ele sorriu para mim e eu senti que as portas da USP tinham sido abertas para mim. 


 

  


                          

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Governo Bolsonaro padece da síndrome Dunning-Kruger



Zezinho chega da escola e fala para a mãe: "Descobri que sou mais inteligente que a professora". "Por quê?". "Passei de ano e ela continua no mesmo".

Lembrei dessa piada ao ler a notícia que o nosso querido ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), tirou nota zero em sociologia na USP.  

Weintraub não deixa por menos. Confunde o autor Kafka com o prato árabe kafta. Com uma bela caneta Bic, assina o que ele chama de "contingenciamento" e tira 30% da grana das universidades federais. Vai explicar o corte, usando chocolates, e erra ao confundir 30% com 3% (uma tristeza). Paralisa pesquisas. Corta bolsas de estudo. Interrompe mestrados e doutorados. Destrói carreiras. Mata o conhecimento. O governo Bolsonaro é um devastador incêndio cultural de consequências nefastas. 

Um psicoterapeuta freudiano diria que Weintraub está se vingando do mundo acadêmico. Está dando um tapa na cara daqueles velhos professores universitários que lhe deram zero na faculdade. "Cheguei ao poder. Agora, vocês vão ver o que é bom pra tosse".

Não acredito nessa versão. Li toda a obra de Freud e de autores neofreudianos, durante o doutorado, feito na USP com bolsa do CNPq. Graças ao CNPq, pude fazer o que se chama de "bolsa sanduíche" e estudei na Sorbonne, em Paris, tendo como orientador o renomado sociólogo francês Michel Maffesoli.

Nasci em uma família de classe média. Nos anos 60, tínhamos TV, fogão, geladeira e até carro (DKW). Aos 15 anos, a empresa onde meu pai trabalhava faliu e tive de ir à luta. Arrumei emprego em uma adega. Carregava caixas de bebida. Entre 16 e 18 anos, fui pesquisador de um instituto do tipo Ibope, indo de casa em casa, para saber o que os telespectadores tinham assistido na noite anterior. Aos 19, era auxiliar administrativo no Bradesco Vila Mariana.

Nunca parei de trabalhar, nem de estudar. Fiz duas faculdades à noite: letras e jornalismo. Achava meu conhecimento extremamente limitado, por isso fui para a pós-graduação, fazendo mestrado na Universidade Metodista, e posteriormente o doutorado na USP. 

Sem bolsa de estudo, não poderia ter cursado a pós-graduação. Sem bolsa de estudo, não teria feito minha tese Espreme que sai sangue; hoje, felizmente, referência acadêmica na área de comunicações.

Esse pessoal, que ocupou o governo, não está se vingando dos acadêmicos. Como o Zezinho da piada, eles padecem da síndrome de Dunning-Kruger.

Aliás, lendo o jornal, com as últimas notícias do governo - sempre angustiantes - me sinto cercado desse pessoal. 

Os efeitos de Dunning-Kruger parecem se espalhar como as sementes de dente de leão. Na semana passada, assisti a um documentário na Netflix sobre gente que acredita que a Terra seja plana. Os terraplanistas. Outros me param na rua e me explicam que o mundo foi construído em seis dias por um ser superior, o Criador, que descansou no sétimo dia. Tem aqueles que ficam no YouTube e querem me influenciar "digitalmente", vendendo porcarias que eles ganham para veicular. É o famoso jabá normatizado.

Simultaneamente, indiferente aos terraplanistas, um robô chinês planta algodão em solo lunar. E o carro da Tesla já passou pelo planeta Marte.

Estou lendo A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser. Ele faz um levantamento interessante sobre o conhecimento humano. Cita os gregos que fundaram a filosofia ocidental, como Tales de Mileto e seus seguidores Anaximandro e Anaxímenes, entre outros. 

Quinhentos anos antes de Cristo, esse pessoal já falava do universo, da evolução das espécies pela água, previam eclipses solares, discorriam sobre o movimento das estrelas, mencionavam  a existência de planetas ("viajantes do espaço", em grego) e ensinavam seus discípulos que toda a matéria era constituída de átomos ("aquilo que não pode ser dividido"). 

Filósofo, matemático, astrônomo, Tales de Mileto fez fortuna, prevendo com um ano de antecipação uma safra recorde de azeitonas. Tales comprou dezenas de prensas e, quando as azeitonas se multiplicaram nas colheitas, ele enriqueceu alugando as prensas para os proprietários de terras. 

Gleiser escreve que "se assumirmos que 'algo' criou 'tudo', caímos em uma regressão infinita; quem criou o 'algo' que criou o 'tudo'?" Ele observa que a necessidade de entender a nossa origem e a do Universo é inerente a todas as culturas. 

Todos os agrupamentos humanos fizeram o que ele chama de "A Pergunta": De onde viemos, que pode se multiplicar em centenas de outras perguntas complementares: estamos sós no Universo? há outras vidas inteligentes em outros mundos? e por aí em diante.

O que estou querendo dizer com esse papo todo é que em determinados momentos da existência humana convivemos com homens e mulheres de inteligência acima da média. Gente que foi atrás de respostas e levou o conhecimento até onde ninguém jamais estivera, parafraseando Jornada nas Estrelas

Ocorre que, na maior parte do tempo, somos obrigados a conviver com gente muito burra, antiquada, ultrapassada, conservadora, tacanha, que faz a sociedade regredir e não avançar. 

Tenho pena daquele rapaz, que quer estudar e precisa de uma bolsa de estudos, e hoje vai dar de cara com a porta dos recursos universitários fechada. 

Enquanto Weintraub fechava a porta para o conhecimento, na Alemanha, houve o repasse de 160 bilhões de euros para as universidades e pesquisadores.

Para encerrar, felizmente, temos uma boa notícia no Brasil: os nossos amados juízes do STF vão continuar comendo lagosta e tomando champagne. A Justiça liberou a licitação para a compra desses alimentos, sem dúvida, essenciais para o bom funcionamento das togas e paramentos dos deuses que habitam o Supremo.   

   





   

  



  

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Hugh Hefner, Dany le rouge, Ho Chi Minh e as coelhinhas

Articulistas feministas meio que comemoraram a morte aos 91 anos do fundador da Playboy, Hugh Hefner. Suzane Moore, do The Guardian, reafirmou sua opinião sobre o publisher. Suzane chamou novamente Hefner de "cafetão". Em artigo anterior, a mesma Suzane qualificava o editor de explorador de mulheres. Na época, os advogados da Playboy ameaçaram processá-la. Ficou só na ameaça. Para a feminista do The Guardian, Hefner era um homem que "comprava e vendia mulheres para outros homens". "Não seria isso uma definição para cafetão?".

Sou feminista desde que li A resistência do Vietnã, de Ho Chi Minh. O revolucionário vietnamita dizia o seguinte: "Se metade da sociedade é composta de mulheres, então, os direitos entre homens e mulheres devem ser iguais". Isso me parecia tão espantosamente claro e evidente que virei feminista lá por 1970.

Era um tempo bom aquele. Sonia Braga aparecia nua e peluda, no Teatro Bela Vista, cantando Good Morning Starshine na peça Aquarius. Norma Bengell fazia o primeiro nu frontal da história do cinema nacional, em Os Cafajestes. A Seleção tinha um ataque formado por Jairzinho, Gerson, Tostão, Pelé e Rivelino, um dos maiores times que já viu atuar na minha vida.

Só o que estragava era a política. A gente vivia debaixo de uma Ditadura Militar...Com o tempo, a Ditadura foi sufocando, apertando a nossa garganta, tirando o nosso ar até que ficamos com o saco cheio e demos um pontapé na bunda de todos aqueles generais. Como projeto político, social, econômico, cultural, a Ditadura Militar deu errado. E não foi só no Brasil. Deu errado em todos os países. Deu errado sempre. Assim, quem pede o retorno da intervenção militar, faltou na aula de história.

As décadas de 1960 e 70 foram de liberação. A nossa geração detestava as gerações anteriores. Queríamos revirar o mundo de cabeça pra baixo. A música de Marcos Valle, que dizia "não confie em ninguém com mais de 30 anos", era seguida à risca. A pílula anticoncepcional permitia às mulheres se relacionar sexualmente com seus amantes, sem correr o risco de uma gravidez indesejada. O casamento não era mais intocável. Casais se separavam e, a partir de 1977 no Brasil, podiam se divorciar. O mundo ocidental no que se refere a costumes passava por uma tempestade. Vivia-se uma revolução sexual.

Em Paris, liderados por Daniel Cohn-Bendit, o Dany le rouge, os estudantes da Sorbonne e da Universidade de Nanterre dão início a uma revolta estudantil histórica, que iria paralisar a França. A imaginação ao poder; É proibido proibir; escrevia-se nos muros. Na Sorbonne, comentava-se, as pessoas escorregavam em esperma. Nesse clima de liberação, surgiu a Playboy no conservador Estados Unidos.

Quando era adolescente não havia nudes, internet, nem mesmo revistas sobre sexo. A molecada comprava escondido nas bancas os catecismos de Carlos Zéfiro. Eram histórias em quadrinhos, em preto e branco, que mostravam homens e mulheres trepando. E só. Então, surgiu a Playboy que mostrava fotos coloridas de mulheres nuas, em poses sensuais. Outras revistas - Status, Ele Ela, Sexy - aproveitaram a onda e foram disputar o público masculino nas bancas. Além das mulheres nuas, as publicações traziam entrevistas interessantes, contos, resenhas de livros. Eu lia regularmente Ele Ela, gostava particularmente das narrativas em primeira pessoa.

Anos mais tarde, seria colaborador da Sexy, a convite de Felix Fassone, marido da amiga e companheira de DGABC, Rosangela Espinossi, uma das editoras mais competentes com quem tive o prazer de trabalhar. Na Sexy, veja como é a vida, tive meus dias de Carlos Zéfiro.

A Playboy nunca foi a minha preferida. As mulheres eram tão retocadas, tão maquiadas, tão produzidas, que não pareciam reais. Isso bem antes do photoshop virar moda. As matérias da Playboy brasileira visavam um público classe A, gente que pedia informações sobre turismo do tipo "gostaria de fazer uma viagem volta ao mundo em 80 dias, dinheiro não é problema". Ou seja, a revista e meu poder de consumo não tinham qualquer parentesco.

O que me incomodava mesmo na Playboy era o dono dela, Hugh Hefner. Aquele chapeuzinho dele de piloto de iate aposentado, aquele ridículo robe de chambre de veludo vermelho, o cachimbo poseur, aquelas multidões de loiras clonadas, a mansão onde se vivia uma eterna festa crônica, as coelhinhas com o rabinho falso espetado no traseiro...Hefner representava um pesadelo cafona, com o qual eu não queria proximidade.

Voltando ao início, Hugh Hefner seria um cafetão? A ofensa é atraente, mas não, real. Se Sebastião Salgado tivesse inimigos, um deles poderia chamar esse monumental fotógrafo de "cafetão de pobres". É forçar muito a barra. Hefner criou um produto, que atendeu uma demanda de seu tempo e sua geração. Enfrentou a censura e o conservadorismo norte-americano. Criou um império. E como todo império tornou-se decadente. Com as vendas em queda, a desesperada Playboy produziu edições até sem suas outrora tão cobiçadas nudes. A Playboy, quem diria, acabou vestida.                  




      

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