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terça-feira, 29 de abril de 2025

"Comida caseira"

 


Não sei qual é o apelo da comida caseira. Toda cidade desse "país de dimensões continentais", como dizia a revista "O Cruzeiro", ostenta um restaurante que oferece "comida caseira". Qual é a graça de sair de casa, enfrentar as vicissitudes do tempo, do perigo em cada esquina, e chegar em um restaurante que oferece a comida que você come em casa? Pra que tanto sacrifício? Fica em casa. Coma a sua comida caseira. Pronto. Mas não. As pessoas querem experimentar não o novo, nem o ousado, nem o inusitado. Elas querem comida caseira. Pra isso, elas cruzam os 8 milhões e 500 mil quilômetros desse Brasil brasileiro, em busca da mesma comida que eles provariam exatamente igual em suas cozinhas sem mover uma palha. É sempre arroz, feijão, bife, ovo, batata e salada, com milhares de alterações redundantes. Às vezes, trocam o bife pelo frango ou peixe. Mas a ideia é sempre a mesma. Nada muda. 

Na adolescência, os pequenos cafajestes, quando eram perguntados se iriam levar a namoradinha no baile, costumavam dizer: "Não levo sanduíche de mortadela em banquete", querendo dizer que a "comida caseira" necessitava de variação.  

Quando frequento um restaurante, olho o cardápio com o interesse de astrônomo em busca dos anéis de Saturno. Quero provar algo que nunca comi antes. Quero me surpreender. Que tal uma entrada de rúcula selvagem com queijo brie e azeite trufado? E salmão com aspargos e salpicos de pimenta rosa? Parece bom. Que tal um risoto de camarão ou de alho-poró para acompanhar? Que me diz de um filé mignon ao molho madeira com champignons? E de sobremesa? Que tal um crème brulée, aquele que o garçom queima na nossa frente com maçarico? 

Assim vale a pena ir a um restaurante. Agora, se você tem preguiça de fazer arroz, feijão, bife, ovo frito, batata frita e salada...Vou te contar uma coisa. Faça sinal para o técnico e peça para ser substituído.


 Um amigo meu indicou o filme "Cabrini", de 2024, direção de Alejandro Gómez Monteverde. Pensei que fosse uma produção sobre o talentoso repórter e apresentador Roberto Cabrini. Mas não. Era a história da vida da madre Cabrini (1850-1917), italiana, radicada nos Estados Unidos e a primeira santa canonizada, tendo vivido na América. O filme tem roteiro brilhante. Sai do A para o B. Depois vai para o C, D e assim por diante. Nada daqueles roteiros irritantes que misturam passado, presente e futuro, causando uma confusão danada na cabeça do editor e também na do coitado do público, que só quer se entreter por algum tempo, porque, se fosse pra prestar atenção, leria um livro. 

Esse amigo meu funciona assim: ele me indica um filme ou série; eu vejo e comento com ele. Quando é a minha vez de indicar um filme ou série para ele, o desgraçado não vê. Enfim, essa é a minha vida, acredite ou não. 

O filme "Cabrini" (será que ela era bisavó do Roberto Cabrini?) revela a luta de um freira para criar hospitais, asilos, escolas, tendo que superar o preconceito de padres, arcebispos, cardeais e até do próprio papa, sem esquecer dos políticos (vereadores, prefeito) e da elite nova-iorquina. O filme mostra que madre Cabrini era um trator. Ela passava por cima de todo mundo, em sua liturgia de criar uma rede mundial da esperança. Ela cuidou de órfãos, que viviam nas ruas de Nova York. Cavou poços. Recolheu prostitutas. Enfrentou cafetões. A mulher era uma rocha de firmeza de caráter. Sem dinheiro, expulsa da América por um arcebispo retrógado, ela entrou no Senado italiano e chamou os políticos na chincha. Enquanto os senadores faziam discursos vazios, ela interrompeu a verborragia para revelar a realidade miserável dos imigrantes italianos na América, que, segundo o "The New York Times", viviam pior que os ratos. Inabalável, madre Cabrini - que era tuberculosa - conseguiu retornar aos Estados Unidos, teve ajuda financeira para criar uma rede mundial de apoio aos necessitados (Brasil e China incluídos). Morreu aos 67 anos, em Chicago, e seu corpo foi sepultado em Nova York. O filme fala de uma freira que morreu em 1917 e mesmo assim é atualíssimo ao falar do preconceito que os imigrantes italianos, judeus, polacos, enfrentavam no novo continente. Hoje, os imigrantes odiados somos nós, os latinos, os africanos e os árabes. 

No papel principal, a atriz Cristiana Dell'Anna está impecável. O bom John Lithgow faz o prefeito de Nova York, o arcebispo é vivido por David Morse. O papa, interpretado por Giancarlo Giannini, de dezenas de filmes, entre eles "Pasqualino Sete Belezas", que lhe valeu indicação de melhor ator para o Oscar, em 1975.

Onde morei na infância e "giovinezza", ali perto, tinha um colégio de freiras, chamado Madre Cabrini. Nunca me contaram a história da madre. Mais imperdoável ainda: quando fiz faculdade de letras, a instituição funcionava no mesmo prédio do colégio Madre Cabrini, na rua Madre Cabrini, número 36. Durante o dia, as freiras ensinavam as meninas. À noite, era uma faculdade e os marmanjos ocupavam as salas de aula. Nunca, durante os três anos de letras, procurei saber quem tinha sido a madre famosa. Para você ter ideia de como a gente andava com a cabeça na época da Ditadura.


Por falar na Ditadura, a jornalista Eliane Catanhêde, com a empáfia pedante dos bem-nascidos, fez um longo comentário no canal GloboNews sobre o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Ela lembrou o episódio em que Arnon, o pai de Collor, trocou tiros no Senado com seu colega Silvestre Péricles de Góis Monteiro. Arnon errou o alvo e matou o senador acreano José Kairala, que não tinha nada a ver com a rivalidade entre Arnon Collor e Silvestre Monteiro. Era o último dia de Kairala na Câmara Alta e estavam lá, como convidados, a mulher e os filhos de Kairala, que o viram ser assassinado.

Além desse episódio, Eliane Catanhêde relembrou a juventude de Collor, em Brasília, com suas namoradas lindas e maravilhosas, os carrões último tipo, sua vida de playboy. Contou que Collor gostava de humilhar os descamisados e fazer bullying com os fracos e oprimidos. Durante um jantar, regado a prata e cristais, Collor foi servido por uma empregadinha, vestida de empregadinha. Ele identificou um cabelo na comida. Chamou a serviçal e atirou toda a comida na cara da moça. Segundo Catanhêde, Collor não era um "caçador de marajás". Ele era um marajá.

Em 1989, durante a campanha para a Presidência da República, a Globo editou um debate entre Collor e Lula, influenciando diretamente a opinião pública a favor de Collor. Por ordem do publicitário e então todo poderoso global José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, Collor entrou para o debate, portando pastas que escondiam papéis em branco, apenas para sugerir que havia ali dentro denúncias gravíssimas contra Lula.  O então diretor de Jornalismo da Globo Armando Nogueira confirmou que houve mutreta na edição do debate, para favorecer Collor.

Hoje, Lula ocupa a Presidência e Collor é hóspede do presídio Baldomero Cavalcante de Oliveira, onde cumpre pena por corrupção e lavagem de dinheiro.    

E a história relatada pela comentarista política da Rede Globo Eliane Catanhêde chegou até nós somente com 36 anos de atraso. 

Homemade food

I don’t understand the appeal of homemade food. Every city in this “continent-sized country,” as the magazine “O Cruzeiro” used to say, boasts a restaurant offering “homemade food.” What’s the point of leaving your house, facing the vicissitudes of the weather, the danger on every corner, only to arrive at a restaurant serving the same food you eat at home? Why make all that sacrifice? Stay home. Eat your homemade food. Done. But no. People want to experience not the new, nor the bold, nor the unusual. They want homemade food. For that, they cross the 8.5 million kilometers of this Brazilian Brazil, in search of the same food they could eat exactly the same way in their own kitchens without lifting a finger. It’s always rice, beans, steak, eggs, potatoes, and salad, with thousands of redundant variations. Sometimes, they swap the steak for chicken or fish. But the idea is always the same. Nothing changes.

In adolescence, the little scoundrels, when asked if they were going to take their girlfriend to the dance, used to say: "I don't take a mortadella sandwich to a banquet," meaning that "homemade food" needed variety.

When I go to a restaurant, I look at the menu with the interest of an astronomer searching for Saturn’s rings. I want to try something I’ve never had before. I want to be surprised. How about a starter of wild arugula with brie cheese and truffle oil? And salmon with asparagus and pink peppercorns? Sounds good. How about a shrimp risotto or a leek risotto to go with that? What about a filet mignon with madeira sauce and mushrooms? And for dessert? How about crème brûlée, the kind the waiter torches in front of us with a blowtorch?

Now that’s worth going to a restaurant for. But if you’re too lazy to make rice, beans, steak, fried eggs, French fries, and salad... Let me tell you something. Signal to the coach and ask to be substituted.

A friend of mine recommended the movie Cabrini (2024), directed by Alejandro Gómez Monteverde. I thought it was a production about the talented reporter and presenter Roberto Cabrini. But no, it was the story of Mother Cabrini's life (1850-1917), an Italian who settled in the United States and became the first saint to be canonized after having lived in America. The film has a brilliant script. It moves from A to B, then goes to C, D, and so on. None of those annoying scripts that mix past, present, and future, creating a mess in the editor's head and also in the poor audience's head, who just want to be entertained for a while, because if they wanted to pay attention, they'd read a book.

This friend of mine works like this: he recommends a movie or series to me; I watch it and comment with him. When it’s my turn to recommend a movie or series to him, the bastard doesn’t watch it. Anyway, that’s my life, believe it or not.

The film Cabrini (I wonder if she was Roberto Cabrini's great-grandmother?) reveals the struggle of a nun to build hospitals, orphanages, and schools, overcoming prejudice from priests, archbishops, cardinals, and even the pope himself, not to mention politicians (city council members, mayors) and the New York elite. The film shows that Mother Cabrini was a bulldozer. She ran over everyone in her mission to create a global network of hope. She took care of orphans living in the streets of New York. She dug wells. She took in prostitutes. She fought pimps. The woman was a rock of steadfast character. Without money, expelled from America by a backward archbishop, she went to the Italian Senate and called the politicians out. While the senators gave empty speeches, she interrupted their blabbering to reveal the miserable reality of the Italian immigrants in America, who, according to The New York Times, lived worse than rats. Unshaken, Mother Cabrini—who had tuberculosis—managed to return to the United States, received financial help to create a worldwide network of support for the needy (including Brazil and China). She died at 67 in Chicago, and her body was buried in New York. The film tells the story of a nun who died in 1917 but is still highly relevant today in addressing the prejudice that Italian, Jewish, and Polish immigrants faced in the New World. Today, the hated immigrants are us: Latinos, Africans, and Arabs.

In the lead role, actress Cristiana Dell'Anna is impeccable. The great John Lithgow plays the mayor of New York, and the archbishop is portrayed by David Morse. The pope is played by Giancarlo Giannini, who has appeared in dozens of films, including Pasqualino Sette Bellezze, for which he was nominated for an Academy Award for Best Actor in 1975.

Where I lived during my childhood and "giovinezza," there was a convent school nearby called Madre Cabrini. No one ever told me the story of the mother. Even more unforgivable: when I went to college for literature, the institution was in the same building as the Madre Cabrini school, on Madre Cabrini Street, number 36. During the day, the nuns taught the girls. At night, it was a college, and the grown men anda women occupied the classrooms. Never, during my three years in literature, did I try to learn who the famous mother was. To give you an idea of what was going on in our minds back in the days of the Dictatorship.

Speaking of the dictatorship, journalist Eliane Catanhêde, with the pedantic arrogance of the well-born, made a lengthy commentary on the GloboNews channel about former president Fernando Collor de Mello. She recalled the incident when Arnon, Collor’s father, exchanged gunfire in the Senate with his colleague Silvestre Péricles de Góis Monteiro. Arnon missed his target and killed Senator José Kairala from Acre, who had nothing to do with the rivalry between Arnon Collor and Silvestre Monteiro. It was Kairala’s last day in the Senate, and there, as guests, were his wife and children, who witnessed him being murdered. In addition to this episode, Eliane Catanhêde remembered Collor's youth in Brasília, with his beautiful and wonderful girlfriends, his top-of-the-line cars, his playboy lifestyle. She told that Collor liked to humiliate the poor and bully the weak and oppressed. During a dinner, accompanied by silver and crystal, Collor was served by a maid, dressed as a maid. He found a hair in the food. He called the maid and threw all the food in her face. According to Catanhêde, Collor was not a "hunter of marajás" (corrupt elites). He was a marajá himself.

In 1989, during the campaign for the Presidency, Globo edited a debate between Collor and Lula, directly influencing public opinion in favor of Collor. By order of the advertising mogul and then all-powerful Globo executive José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, known as Boni, Collor entered the debate carrying folders that concealed blank papers, just to suggest that they contained grave accusations against Lula. The then Globo News Director Armando Nogueira confirmed that there was manipulation in the debate’s editing to favor Collor.

Today, Lula occupies the Presidency, and Collor is a guest at the Baldomero Cavalcante de Oliveira prison, where he serves time for corruption and money laundering.

And the story relayed by political commentator Eliane Catanhêde on Globo News only reached us 36 years later.

   

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

PT precisa de autocrítica e expurgo para sua redenção

 

Em plena greve dos metalúrgicos, em 1978, eu fazia frila para um jornal de esquerda, que era impresso todo em vermelho. Eles não costumavam pagar os colaboradores. Havia uma lógica nisso, mas nunca entendi bem qual era. Eu sei que, para cobrir uma pauta, fui parar no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Tarde fria, com a neblina característica daquela cidade.  

Ditadura militar, as greves estavam proibidas, livros de autores como Érico Veríssimo, Rubem Fonseca, Jorge Amado foram censurados, filmes vetados, atores de teatro espancados, gente torturada e morta e mesmo assim os metalúrgicos, que trabalhavam nas grandes montadoras, em um ato político de coragem invejável, desafiaram os militares e paralisaram as fábricas. 

Na época, Lula não usava barba. Apenas, um bigode. Havia ali no sindicato, grevistas, muita agitação nos corredores e Lula era um polo magnético, um buraco negro atraindo e puxando tudo em volta dele. Nos anos 70, falava-se muito em aura. Então, havia uma aura de celebridade ao redor do líder metalúrgico, que ganhava as manchetes no Brasil e no exterior.

Eu estava ao lado de Lula, anotando suas declarações, quando surge alguém e dá uma caixa de sapato para ele. Lula para de falar. Abre a caixa e seu rosto fica iluminado por um sorriso de satisfação. Dentro, um par de sapatos de cor escura. Lula perguntou para a pessoa, que tinha lhe dado o agrado: "É mesmo cromo alemão?". O outro confirmou. 

Não sei por que, achei aquilo um mau presságio. Maior greve, milhares de trabalhadores iam perder o emprego, um momento de ruptura institucional e o cara que estava por trás de tudo aquilo ficava feliz, como uma criança, ao receber um presente...Um par de sapatos?

Nos meus anos de jornalista, em empresas de comunicação, nunca aceitei presentes, que os colegas chamavam de "jabaculê". Passei por situações constrangedoras, com assessor me ligando, xingando, por eu ter recusado um presente. "Você acha que estou querendo te comprar com essa porra?", um assessor gritou comigo no telefone. 

Quer saber, sim, você estava tentando me comprar com o seu presentinho. "Quem presenteia quer seduzir", dizia o camarada Marx. Hoje, o "jacabulê" institucionalizou-se. Os tais "influencers" ganham para divulgar produtos. Qual é a ética desse procedimento? Talvez, não haja ética alguma. As pessoas esqueceram esse comprometimento, em determinado momento da caminhada.

Dois anos depois, em 1980, o PT era criado e nascia espalhando-se vertical e horizontalmente por todo o País. O PT era uma marca de sucesso. A estrela vermelha de cinco pontas, idealizada pelo jornalista Julinho de Grammont no Bar da Rosa (vizinho ao Sindicato dos Metalúrgicos), era vendida em broches, em bandeirinhas, em adesivos de plástico. Um sucesso! 

(Em conversa comigo, Grammont falou que estava com colegas no Bar da Rosa, tomando conhaque Domecq, quando desenhou um esboço da estrela em cima da mesa de madeira. A Rosa, dona do bar, guardou durante alguns anos a mesa, até a peça ser substituída por mobiliário moderno. A estrela ganharia contornos mais definidos com a ajuda de Hélio Vargas, ilustrador, que fazia um personagem de muito sucesso no jornal do sindicato, chamado João Ferrador. "Muitos metalúrgicos achavam que João Ferrador existia mesmo", me contou Grammont, pouco antes de falecer em um acidente de carro na via Anchieta.)

O crescimento do PT começa de forma exponencial crescente. Nove anos depois da fundação do partido, Lula disputa a Presidência e vai para o segundo turno com Collor. Erundina conquista a prefeitura de São Paulo, em uma virada incrível sobre Paulo Maluf. A campanha de Collor é rasteira, fedorenta. Traz uma ex-mulher de Lula para atingir o candidato petista no seu lado mais vulnerável: a intimidade. Surge uma filha de Lula, "bomba bomba", como um asteroide fumegante, que desaba sobre o telhado dos eleitores. No outro dia, Lula aparece com a filha, que fica muda diante da TV (por que ela ficou muda?), enquanto Lula fala que era ele quem cuidava da menina.  

No debate na TV Globo, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, então todo poderoso executivo da TV de Roberto Marinho, pega pastas e enche de papéis em branco e as entrega a Collor, como se ele fosse fazer alguma grande denúncia contra o ex-metalúrgico. No debate, Collor menciona, com inveja simulada, que Lula tinha um "três em um" em sua casa. Três em um, na época, era vitrola, rádio e toca-fitas. Lula fica constrangido, responde de forma enviesada, esquecendo de mencionar no debate que Collor não tinha apenas um prosaico "três em um", mas era dono de uma gigantesca retransmissora de TV em Alagoas, filiada da Rede Globo.

Como sempre, o surrado discurso anticomunista da direita tornava-se próximo das pessoas comuns. Lembro de levar minha mãe votar no Liceu Pasteur, na Vila Clementino, e na porta do colégio eleitoral um brucutu agitava a bandeira do Brasil e gritava para nós: "Não vamos deixar os comunistas tomar o poder. Vote em Collor". 

O governo Collor acaba, desmanchado pela corrupção. Assume o vice, Itamar Franco, que faz um "mandato tampão" excepcional, enfiando uma estaca de madeira no coração da inflação, que era de seis ou mais dígitos. Viriam oito anos de Fernando Henrique Cardoso, que tinha, sem dúvida, a liturgia do cargo. Era um presidente educado, gentil, inteligente, sociólogo, acadêmico, ex-professor, na Universidade de Nanterre, do líder da revolta estudantil de 1968, em Paris, Daniel Cohn-Bendit, o "Danny le rouge". 

Diante daquilo que temos hoje no Palácio do Planalto, sinto muita falta da polidez ilustrada de FHC.

Na campanha eleitoral de 1998, FHC é exibido com terno, gravata, asseado e bem disposto, sentado ao lado de um cardeal (ou equivalente), no que parecia ser um jardim edílico; enquanto Lula e dona Marisa faziam uma caminhada cansativa, de doer os calos, dar bolhas nos pés, pelo abandonado Caminho do Mar. 

Nos anos seguintes, a campanha do PT torna-se profissional ("brilha uma estrela, Lula lá") e vai garantir a eleição de Lula em 2002; sua reeleição em 2006; a eleição de Dilma Roussef, em 2010; e também a reeleição de Dilma, em 2014.

O PT não era apenas uma marca de sucesso. O PT tinha conquistado o poder. Dominava estados e prefeituras. Em 2002, eu estava no luxuoso Hotel Intercontinental, em São Paulo, fazendo a cobertura do discurso de vitória de Lula. A emoção era contagiante. Vinte e dois anos depois de fundar o PT, Lula chegava à Presidência e rebatia Regina Duarte e direitistas, apavorados diante do "perigo vermelho": "A esperança venceu o medo". 

Os governos Lula até a derrocada de Dilma Roussef foram de crescimento econômico, elevação do IDH, investimento em educação, saúde e estabilidade econômica. O País ia bem. A cada nova eleição, Lula e os políticos, que tinham sua benção, eram sacramentados pelos votos.

Em relação aos inimigos, Lula agia de forma pragmática. Deixava o fígado de lado. No apoio a Fernando Haddad, que venceu a eleição para a prefeitura de São Paulo, chegou a ir com o seu candidato dar a mão a Paulo Maluf. Por mais que você limpe com álcool, passe desinfetante, não tem como ficar realmente limpo, depois de dar a mão a Paulo Maluf. 

Velhos oligarcas como José Sarney, Fernando Collor viravam aliados. A Rede Globo ia bem, obrigado, ganhando verbas do poder público, se municiando, esperando a hora de atacar e derrubar o governo petista. 

Então, desabaram os escândalos. O primeiro "Mensalão", com Roberto Jefferson que, entrevistado por Renata Lo Prete, da "Folha de S.Paulo", contou que o PT comprava deputados por 30 mil reais, para votar projetos de interesse do governo. Veio o "Petrolão", gigantesco esquema de corrupção, denunciado pela operação Lava Jato, que revelou - finalmente - as entranhas das negociatas entre empreiteiras, partidos políticos, operadores, que deram um prejuízo estimado de 42 bilhões de reais à Petrobras. Políticos, empreiteiros, doleiros, funcionários foram presos e condenados. A Lava Jato conseguiu recuperar cerca de 6 bilhões de reais. 

O esquema era simples: a empreiteira era contratada pela Petrobras e cobrava um valor superfaturado pela obra. A quantia "extra" paga pelos empresários, para conseguir fazer a obra, ia para os cofres dos partidos e de políticos corruptos.

Nesse momento, a estrela do PT começou a perder o brilho. Foi se desfazendo aos poucos. Foi se descolorindo. 

Até então, era impensável que o PT, um partido de trabalhadores, pudesse estar envolvido em tanta coisa suja, imoral, antiética. Como um partido, que se pretendia ser diferente dos demais, podia ter caído nas mesmas artimanhas dos partidos tradicionalmente corruptos? Era um descalabro. Tudo bem, o PT não havia inventado a corrupção, mas o partido não tinha o direito de mergulhar no mesmo jogo sujo.

A Lava Jato foi atrás de Lula. O promotor Deltan Dallagnol e o então juiz Sergio Moro fecharam o cerco. Em setembro de 2016, Dallagnol convoca a imprensa e exibe um "power point" amador e pouco convincente com flechas apontando para o "chefão do crime" (Lula). 

Lula seria condenado e preso por Sergio Moro. Ficaria na prisão por 580 dias. Investigado pelo apartamento no Guarujá e pelo sítio em Atibaia, não havia realmente provas de que os imóveis pertencessem a Lula, nem que o dinheiro de propina da Petrobras fora usado como favorecimento ao ex-presidente. 

A Vaza Jato, série de documentos revelados pelo site "The Intercept Brasil", com colaboração do premiado jornalista Glenn Greenwald, revelou que os promotores da Lava Jato mantinham uma relação "incestuosa" com o juiz Sergio Moro, que orientava e aconselhava a acusação, em uma inédita - e preocupante - demonstração de parcialidade entre acusador e juiz.  

Moro conquistou a simpatia do público e deu um tiro no pé ao aceitar o Ministério da Justiça, oferecido pelo recém-eleito Jair Bolsonaro. Moro, que havia abandonado sua carreira de juiz federal, encerraria sua passagem-relâmpago no Ministério da Justiça, depois de 15 meses ou 480 dias. Moro saiu atirando. Acusou Bolsonaro de interferir nas investigações da Polícia Federal.

Em novembro de 2020, o PT foi varrido das urnas. Não conseguiu eleger nem um único candidato a prefeito nas capitais. Cansados, os eleitores derrotaram Lula e também Bolsonaro. 

O que fazer agora com a estrela do PT? Em uma postagem recente, pré-eleições municipais, o jornalista Ricardo Kotscho escreveu, em sua coluna no Uol: "Aos 40 anos, PT chega às eleições envelhecido, sem votos e sem rumo". Como se tivesse bola de cristal, Kotscho previa que o PT dificilmente elegeria algum candidato nas capitais. O PT pediu direito de resposta, mas a resposta principal veio das urnas. O Partido dos Trabalhadores naufragou de fato na eleição municipal. Kotscho foi secretário de imprensa do Governo Lula, de 2003 a 2004, portanto devia saber o que estava escrevendo.

O PT conta com 1 milhão e 500 mil filiados. É uma força política considerável. Mas parece ter perdido o magnetismo. Enquanto nos anos 80, o partido crescia, a marca brilhava intensamente, era um centro de atração irrefreável (lembro das barraquinhas de feira do PT, vendendo broches, bandeiras e adesivos; lembro das militantes de minissaia, batendo na porta dos eleitores; lembro dos patrões proibindo os jornalistas de usar o broche estrelado do PT); hoje, as pessoas querem distância da estrela. 

Talvez, uma solução possível fosse um expurgo, semelhante ao célebre discurso de Nikita Kruschev, em 1956, diante de 1.500 estupefatos dirigentes do Partido Comunista da URSS, denunciando a prisão de 1 milhão e 500 mil pessoas e assassinatos de outras 690 mil, todas vítimas do ditador soviético Josef Stalin, "o guia genial de todos os povos". Kruschev lavou roupa suja em público. Jogou merda no ventilador. 

O PT deveria fazer o mesmo, uma rigorosa autocrítica, um expurgo cortando na própria carne, em busca de sobrevivência e redenção.     

 

       


 

   

   

     

  


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