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quarta-feira, 17 de março de 2021

57 milhões 796 mil e 986 brasileiros têm culpa

 

A esquerda popularizou o termo "genocida", carimbando com ele a testa do nosso querido presidente Jair Bolsonaro. O termo "pegou", depois de o "influencer" Felipe Neto ter sido intimado a depor, após chamar Bolsonaro de "genocida". 

De acordo com o que diz o dicionário (Houaiss, por exemplo), trata-se de um exagero. Bolsonaro seria genocida se tivesse autorizado a matar 300 mil brasileiros, em campos de extermínio. Não foi o caso.

Adolf Hitler era genocida. Acreditava no extermínio de judeus, homossexuais, ciganos, comunistas, para tornar a raça humana "mais pura". Ninguém foi tão burocraticamente eficiente para traçar toda uma política genocida como os nazistas. Havia a logística, com o transporte de judeus de toda a Europa invadida, em comboios de trens. A engenharia, com a criação de fornos crematórios, câmaras de gás e a edificação de campos de concentração. Havia pesquisa, como o médico Josef Mengele, que amputava membros (sem qualquer necessidade), injetava clorofórmio no coração e produtos químicos em olhos de suas vítimas, para tentar "mudar a cor". Hitler e nazistas eram genocidas.

Felipe Neto está na lista das "100 pessoas mais influentes do mundo". Ao saber que o "youtuber" havia sido chamado para depor, o ex-presidente Lula correu para apoiá-lo e mostrar solidariedade. Político é assim: pensa com a cabeça e nunca com o fígado. Felipe Neto usou toda sua influência digital para torpedear o governo Dilma e, por extensão, o PT. Falava palavrões, xingava, esbravejava. Publiquei um vídeo dele no Facebook, com toda essa coleção de impropérios, e ele censurou a divulgação por se tratar de "propriedade pessoal". O governo Dilma nunca pensou na hipótese de chamar o golpista Felipe Neto para depor. Em outras palavras, usar a violência jurídica para silenciar um opositor. Felipe Neto xingou e atacou o governo Dilma até o final, até o impeachment. Ele mesmo declarou, recentemente, que falava barbaridades contra o PT e que nunca foi alvo de perseguição política/judiciária. Agora, no governo Bolsonaro, ele virou alvo e correu assustado, pedindo ajuda. 

Pensando com a cabeça e não com o fígado, os frequentadores de redes sociais de esquerda não pensaram duas vezes. Criaram o carimbo com o termo "genocida" e bateram com a tinta na cara do presidente, saindo em defesa do "influencer". Embora Felipe Neto seja golpista e não mereça toda essa solidariedade.

Eles sabem que Bolsonaro não é genocida de fato. Bolsonaro é um dirigente péssimo, sem a "liturgia do cargo", talvez o pior presidente brasileiro da história. Getúlio de 1930 a 1945 e os ditadores de 1964 a 1985 não entram na relação, porque não foi a gente que escolheu; eles se impuseram pelas armas, então, ficam de fora. Como costuma dizer Luis Fernando Veríssimo, "a gente tem a razão, mas eles têm as armas".

No ano passado, Bolsonaro cometeu todas as bobagens possíveis, sentado no posto mais alto da nação. A exemplo de seu homólogo, o derrotado presidente Trump, não conseguiu compreender a gravidade da doença covid-19. Foi incapaz de prever o desastre que se consumou ao longo de 12 meses. 

Escrevo agora quando morreram, em um ano, quase 300 mil brasileiros. Durante a 2ª Guerra Mundial, perderam a vida 2 mil soldados brasileiros em combate ou de doenças diversas. Somente ontem, dia 16 de março, em um único dia, foram a óbito 2.798 pessoas, vítimas de covid-19. Bem mais que todos os pracinhas que morreram, combatendo os nazistas, em solo italiano.

A sucessão de erros de Bolsonaro é tão extensa e cansativa que já foi discutida, comentada, dissecada, diariamente, por tudo quanto é analista político de esquerda, centro, direito, do raio que o parta.

Lembro de Bolsonaro em um jardim (acho que era no Palácio do Planalto), erguendo uma caixa de cloroquina, como se fosse um capitão da Seleção, ostentando a taça de campeão do mundo. Dezenas, centenas, milhares de cientistas diziam que cloroquina não era indicativo para controlar a covid-19. Mostravam estudos técnicos. Aliás, não havia qualquer tratamento para a covid-19. A única solução seria ter uma vacina. Na época, lá no início da pandemia, dizia-se que a vacina, se viesse, demoraria cerca de um ano. Esse era o tempo que os cientistas levavam para estudar o vírus e criar formas de torná-lo inofensivo ao organismo humano. Felizmente, a ciência correu contra o tempo e surgiram várias vacinas, entre elas a Coronavac, produzida no Instituto Butantan, em parceria com os chineses da Sinovac. 

Em julho do ano passado, quando os laboratórios já comercializavam a vacina, por que o governo Bolsonaro não comprou os imunizantes? Por absoluta incompreensão da realidade que o cercava.  

Lá atrás, no início das restrições de mobilidade, já se falava que a melhor resposta contra a epidemia eram o uso da máscara de proteção e o distanciamento social. Por isso, cafés, bares, restaurantes, centros comerciais de rua, shoppings, entre outros, precisariam ser fechados para evitar o contágio pelo coronavírus, que provoca a doença covid-19. 

Mesmo diante da esmagadora postura de cientistas de tudo quanto é canto da Terra, o presidente Bolsonaro insistia no negacionismo. Não usava máscara, era contra o fechamento do comércio e fazia pouco das vacinas que começavam a surgir, como a Coronavac. Dizia que não iria tomar, por não saber a origem do produto. Seus correlegionários, diplomaticamente despreparados, faziam pilhéria com os chineses. O então ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicou um texto, como se fosse o Cebolinha (personagem de Maurício de Souza), trocando os "Ls" pelos "Rs", tirando sarro do jeito de falar dos chineses. Dias atrás, a mãe de Bolsonaro foi vacinada. O medicamento utilizado foi o "chinês" Coronavac. 

No início desta semana, ficamos sabendo que teremos um novo ministro da Saúde. É o quarto no governo Bolsonaro. É um entra e sai no Ministério, evidenciando um comando que titubeia, que não sabe bem para qual lado ir. Enquanto isso, os hospitais estão lotados. Não há mais vaga nas Unidades de Tratamento Intensivo. Pacientes morrem por falta de ar, em desespero. Nas favelas, as pessoas passam fome. Precisam sobreviver com esmolas, doações ofertadas por beneméritos. É um estado que trata mal seus governados. Não dá a mínima para o sofrimento alheio. O país é uma ilha, cercada de miseráveis por todos os lados.

Voltando à questão inicial, Bolsonaro não é genocida, mas suas ações errôneas, sua incapacidade em tratar um problema sanitário gravíssimo, inédito na história da humanidade, levaram ao quadro de terror atual. Ele é somente um presidente errado, um desastre administrativo. Foi uma péssima escolha de 57 milhões, 796 mil e 986 brasileiros. Todos esses eleitores têm culpa. Eles são culpados por terem eleito alguém que apoiava um torturador, alguém que se mostrava homofóbico e, em vários momentos, racista (há registros de falas contra japoneses, indígenas, chineses e afrodescendentes). Esse alguém, esse político obscuro, não apoiava o torturador apenas na sala escura, mas de boca aberta, a plenos pulmões, ao votar "sim" pelo impeachment da presidente Dilma, "em memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ulstra".

Na cabeça de quem seria possível imaginar que um político dessa estatura moral seria capaz de fazer um bom governo? Todos sabiam quem ele era, como ele pensava. Não ia dar certo, como de fato não deu. 

Candidato, Bolsonaro era então um político menor, extremista, que viveu quase três décadas à sombra das benesses públicas. Carregou com ele três filhos - 01, 02, 03, que abocanharam sua "teta" na carreira política. Pelo que as investigações estão apontando, Jair, Flávio e Carlos podem ter usado o esquema de "rachadinhas" para engordar o patrimônio. "Rachadinha" é um nome simpático, bonitinho. Na prática, os especialistas em política chamam de um nome mais feio: "corrupção". Com a "rachadinha", o político se apropria de parte ou da totalidade do salário de um assessor (existente ou "fantasma"). Não é algo novo, inédito, na política brasileira. É só mais um descalabro cometido pelos políticos, entre tantos. Eleito como expoente da luta contra a corrupção, contra o comunismo (sempre o comunismo!), percebe-se que não era bem assim. Como explicar os 89 mil reais, depositados por Fabrício Queiroz, na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro?  

Escolhas erradas podem representar a diferença entre a vida e a morte. No caso brasileiro, a escolha sabidamente errada de 57 milhões, 796 mil e 986 eleitores levou o País ao estado desolador em que se encontra hoje. 

Meus caros eleitores de Bolsonaro, ontem morreram quase três mil pessoas. Se o presidente, em março do ano passado, tivesse defendido o isolamento social, a paralisação das atividades de comércio de rua, o uso de máscaras e não ficasse defendendo medicamentos inócuos; muita gente teria sobrevivido. Bastava ouvir os infectologistas, os cientistas. Mas não. 

Um amigo, eleitor e admirador de Bolsonaro, morreu vítima de covid-19. Era alguém divertido, feliz da vida, que, seguindo o exemplo de seu líder maior, não usava máscaras, jogava futebol nos fins de semana, fazia churrasco com o pessoal. Não estava nem aí para o inimigo invisível. Ele ficou doente no sábado. Na sexta-feira seguinte, morreu. Não pudemos nos despedir. Não teve velório. Nada. Ele estava aqui no trabalho e, no momento seguinte, não estava mais. Nunca mais estaria. 

Nesse momento de gravidade inédita e devastadora, a população precisava mais do que um presidente. Tinha necessidade de um líder, um político carismático, inteligente, preparado, com tirocínio para o cargo. No lugar desse perfil de presidente ideal, veio o que está aí. E o resultado não poderia ser pior.   

 Estamos em março. Faltam nove meses para acabar o ano. E outros 12 meses para terminar o mandato de Bolsonaro. Pesquisa (Datafolha) indica que 46% querem impeachment de Bolsonaro. Seria um sonho, mas pensando bem tomara que ele fique até o fim do mandato. São mais 21 meses de dor e sofrimento diário. Até os 57 milhões, 796 mil e 986 eleitores aprenderem a votar. 

   

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Facebook me faz uma pessoa pior


O Facebook me transforma. Acordo bem disposto, feliz da vida, o sol brilha, os pássaros cantam e aí abro o Facebook. Como na novela de Robert Louis Stevenson, Dr. Jeckyll vai se transformar em Mr. Hyde. A boa disposição vai embora. Minhas mãos começam a se encurvar. As unhas se transformam em garras. Nascem pelos em abundância no meu rosto e no corpo. Nas costas, se eleva uma corcunda. Começo a babar. Virei um monstro. 

A postagem mostra um grupo de pessoas, todas suadas, debaixo de sol forte no que parece ser uma casa de periferia. Eles vestem bermudas, camisetas e chinelos. O suor brilha e escorre pelas barrigas. Nem leio o tópico. Já vou sentenciando: "Bando de gordo!". Assim, sem mais nem menos. Sem ser politicamente correto: "Bando de gordo!".

A "linha do tempo", como se chama aquela prática de ir descendo pelas postagens, mostra uma velhinha. Alguém deu um presente para ela. Algo do tipo. Penso na hora: "Velhota antipática". E o pior é que ela parece mesmo antipática. Não é a Dona Benta que vai fazer bolinho coberto com açúcar e canela para a gente. Tem jeito daquela velhinha que, quando aparece o filho pra visitar, ela vai logo dizendo: "Escovou os dentes? Põe uma blusa que está fazendo frio. Essa camisa não combina com você". 

Aí vem o pessoal da política. Deus do céu, esses caras são incansáveis. Tem a turma do Bolsonaro que ainda está querendo prender o Lula. Gente, o Lula está preso. Helôôô! O PT perdeu a eleição e vocês ganharam. Comecem a trabalhar. Tirem as pessoas da miséria. Metade do Brasil ganha menos de 500 reais por mês. Não quero mais saber de palanque. Quero que vocês façam qualquer coisa que mude essa desgraceira que o País está mergulhado. As indústrias quebrando. O setor de serviços afundado na crise. Sem dinheiro para educação, sem verba para pesquisa, corte nisso, corte naquilo. E os Alfa continuam comendo lagosta e camarão, andando de carro oficial, com direito a sirene para fugir do trânsito. Os 90 por cento restantes pertencem à casta Épsilon. São os desgraçados de que fala Huxley. Você acha que Huxley exagerava? Se esqueceu que ele previu o nascimento do bebê de proveta em 1931, 47 anos antes do fato real? Exagerava nada, menino. 

E tem o pessoal do outro lado, que é contra o Bolsonaro e seus asseclas... É todo dia postando uma bobagem que a Damares falou. O que vocês querem dessa coitada que vê Jesus em goiabeira? Ela vai falar bobagem mesmo. E o ministro da Educação, nota zero em Sociologia, que comete um erro de português por minuto. É o maior índice de erros de português da história, desde Cabral. Tem a história do Queiroz. Onde está o Queiroz? "Vai perguntar para a sua mãe", respondeu o presidente, educadamente. Todo dia alguém pergunta onde está o Queiroz. A Veja já esclareceu: "O Queiroz mora no Morumbi e se trata no Einstein". Só precisa alguém levar a reportagem até a  Polícia Federal. O Queiroz tem de explicar direitinho essa história da "rachadinha", que envolve o Flávio "01". Sem falar do Moro, o Batman, que a Vaza Jato transformou em Coringa.

E aquele pessoal que quer causar inveja? Outro dia uma amiga postou: "Estou aqui na Padaria Bella Paulista. Uma delícia!". O monstro que habita em mim, quando entro no Facebook, escreveu, de forma ríspida e malcriada: "Estive aí no domingo. Eles me serviram um croissant, cortado ao meio. Frio e molenga. Na França, o chef da Bella Paulista seria decapitado, por causa desse crime contra o croissant". 

Os algoritmos do Facebook, por algum defeito genético, têm certeza que sou um frequentador assíduo de hípicas e que não posso passar um dia sem montar em um cavalinho. Gente, tenho medo de cavalo. Nunca andei a cavalo na vida. Nem sei como se sobe naquilo, que eles chamam de sela. Mesmo assim, todos os dias, não falha um singular dia, o Facebook me manda imagens e vídeos de cavalos. São cavalos felizes, que saltam e pulam e se alimentam regularmente.

Um amigo, que nunca assistiu a uma luta de MMA, nem nunca irá assistir, recebe também diariamente notícias sobre lutadores de MMA. Há algo de podre no reino dos algoritmos, diria Shakespeare, se, quando vivia, houvesse redes sociais.   

E as pessoas felizes? Elas estão sempre sorrindo, contentes. O meu monstro olha para elas e grita: "Está rindo do que, babaca? Vai andar de metrô e de trem da CPTM do Doria pra ver o que é bom pra tosse".

Sem falar dos cachorrinhos, dos gatinhos, dos peixinhos, todos eles engraçados, meigos, despertando meu monstro que geme entredentes: "Vou mandar vocês pra China". Esse país asiático, como se sabe, volta e meia, promove festivais de consumo de carne de gato e cachorro.  

Então, quando saio da rede social, apago o Facebook, começo a sentir uma metamorfose humanitária. Os pelos que cresceram em profusão desaparecem. As garras viram unhas normais. A corcunda de Quasimodo fica reduzida ao bico de papagaio normal que tenho nas costas. A baba seca. Saio na rua e sorrio para as crianças. Levo meu cachorro passear. Se me pedem informação, trato com carinho e atenção. Aproveito o sol, a chuva, a garoa, o vento. Aceno para os vizinhos. No armazém, brinco com as atendentes. 

Então, ao retornar para casa, ao abrir novamente o Facebook, nada poderá evitar o ressurgimento do monstro. 

Por falar nisso, por que você não desliga essa m...e vai ler um livro, filhote de Netflix.  

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A soberania da destruição


Há cerca de uma semana, vivi uma situação aterradora. Eram 15h e o dia virou noite, resultado do acúmulo de nuvens escuras e da fumaça das queimadas, que vinham dos longínquos estados do Norte e Noroeste. Os dias seguintes foram atribulados. Descobriu-se que a Amazônia legal estava em chamas. 

Virou cabo de guerra entre apoiadores do presidente "de extrema direita" (como afirmam os jornais franceses) Jair Bolsonaro e seus opositores. Os bolsonaristas gritavam nas redes sociais que "na época do Lula" os incêndios eram muito maiores. E os opositores acusavam Bolsonaro de provocar o desastre ecológico de proporções continentais. 

Por que Bolsonaro seria culpado, tornando-se o Nero brasileiro? Ele demitiu um cientista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), porque os dados de desmatamento eram desagradáveis. Cortou (ou "contingenciou", como ele gosta de dizer) verbas para manter a fiscalização ativa. Atacou o Ibama, os povos indígenas, os quilombolas. Cancelou uma reunião com ministro francês, para cortar cabelo.

A retórica bolsonarista é feroz, agressiva, rancorosa. Sua aversão ao Ibama vem desde a época em que foi multado, em janeiro de 2012, por pescar em área protegida. Três meses após sua posse, Bolsonaro exonerou o fiscal do cargo de chefia. Vingança?

A desgraça amazônica venceu fronteiras. O presidente francês, Emmanuel Macron, acusou Bolsonaro de mentir ao dizer que iria proteger a floresta e, na prática, colaborar com o desastre, por sua omissão em relação às queimadas. 

Bolsonaro não gostou e criou um entrevero diplomático com seu homólogo francês. Um imbecil bolsonarista fez um comentário jocoso na rede social sobre a mulher de Macron (que é mais velha que o presidente), comparando-a com a mulher de Bolsonaro, mais jovem e, supostamente, mais desejável. Bolsonaro divertiu-se e comentou: "Não humilha, cara, kkk". 

O exército de robôs bolsonaristas dizia que os incêndios eram esparsos. Era tudo exagero dos petistas, dos comunistas, do inimigo vermelho. O fogo não era tão grave assim. 

A Nasa (Administração Nacional e Espacial Norte-Americana) apareceu na história, publicando fotos do satélite Modis, que mostrava um cenário de horror, com as queimadas preponderando, junto às rodovias BR 163 e BR 230. As queimadas, segundo a agência espacial, eram as maiores registadas desde 2010.

Reportagem do Fantástico, aquele programa imorrível de domingo na TV Globo, foi até a Amazônia e relatou o que a gente já imaginava: grupos de criminosos tinha ateado fogo na floresta. A matéria mostrava caminhões carregados de madeira circulando, clandestinamente, à noite. A Amazônia, terra de ninguém, queimava. Era saqueada, destruída e não tinha uma única autoridade capaz de fazer valer a lei. Os bandidos construíam até pontes "piratas" para escoar o material roubado - a preciosa madeira arrancada da floresta.

Primeiro, a Alemanha, depois o G7, grupo dos países ricos, ofereceram ajuda, mas Bolsonaro disse que não aceitava o dinheiro. Só toparia receber a grana do G7, se "Macron pedisse desculpas". Sobre o dinheiro da Alemanha, Bolsonaro mandou os alemães usar o dinheiro para reflorestar o país deles.

O foco, neste momento que escrevo, mudou. O discurso bolsonarista insiste na tecla da "soberania". O Brasil é soberano. A Amazônia é nossa e vamos botar fogo nela, enquanto tiver árvore em pé. Ninguém tem nada a ver com isso. Os países ricos, os europeus, não têm que meter o nariz onde não deve. 

Quando era jovem, eu tinha um amigo hindu, que achava melhor o Brasil ceder o controle da Amazônia à Europa, porque só assim seria possível salvar a floresta. "Brasileiro não gosta de preservação", ele me dizia.

Ao longo da minha vida, passei poucas e boas, lutando pela preservação. Lembro da briga pela Casa Modernista, de Gregori Warchavchik, em 1982/84. Éramos meia dúzia de voluntaristas, protestando diante do imóvel, que fica na rua Santa Cruz, Vila Mariana. Uma construtora iria derrubar toda a área e construir torres de edifícios no local. Iniciamos o movimento, sofrendo ataques diários do jornalista José Paulo de Andrade, da Rádio Bandeirantes (até hoje, por sinal, ele é contra a preservação da casa). Nós nos reuníamos no salão paroquial da Igreja da Saúde. Juntamos forças. Chegaram mais integrantes. Começamos a fazer manifestações. A construtora entrou com processo contra mim. Fizemos reunião com o então prefeito Mario Covas que me avisou: "Se eu preservar a área, você não venha amanhã me pedir para manter o local. Não tenho dinheiro pra isso". Enfim, depois de muitas reuniões, idas e vindas, de bater em dezenas de portas de autoridades, conseguimos preservar a área, impedindo a construção de mais edifícios, como se São Paulo já não estivesse saturada de tanto prédio. Hoje, a Casa Modernista é um parque e pode ser visitado por quem estiver passeando pelo bairro. Caso raro. Quase inacreditável. 

Quando fui morar na Granja Viana, em busca de verde e tranquilidade, vi tanta árvore ser derrubada, ouvi tanto barulho de motosserra, que fiquei anestesiado. Entendi que o brasileiro é assim. Está pouco se lixando para a preservação. Ele quer construir. Matar o verde. Como o meu amigo hindu dizia, brasileiro, realmente, não gosta de natureza. 

Onde moro, vivi episódios estressantes, ligados à destruição. Lembro de um sujeito que invadiu um terreno e derrubou todas as árvores. Todas. Não deixou nenhuma em pé. Chamei a Polícia Ambiental. Veio uma viatura. Ficamos ali parados, diante dos dois policiais. O agente perguntou se eles tinham autorização para a derrubada das árvores. "Tenho", o construtor falou. Mostrou um documento que autorizava derrubar três árvores e não as quinze ou vinte que ele havia eliminado do terreno. "Quem cortou as outras árvores?", perguntou o policial. "Não sei", disse o construtor. "Só cortei as três que estavam permitidas". Os policiais devolveram a autorização e foram embora. Saí correndo atrás de um promotor do Meio Ambiente. Nenhuma providência foi tomada. Descobriu-se depois que o terreno em questão havia sido ocupado irregularmente, comprado com documento falso. Um pesadelo!

Então, é só uma questão de tempo. Todas as árvores da Amazônia serão derrubadas, queimadas, saqueadas. Essa é a nossa noção de soberania. Somos soberanos em destruir, queimar, transformar dias em noites.

Durante a construção do condomínio Alphaville da Granja Viana, as motosserras trabalharam dia e noite. A gente ouvia o ruído maldito do motor. É um ganido, um silvo arrepiante, afiado, mortal. Depois, vem o som do tombo, da árvore despencando e se despedaçando no chão. 

Nessa época, chegando do trabalho à noite, fui entrar em casa e um animal silvestre, um saruê, cruzou a frente do carro. Ele parecia cansado, andava muito devagar, trôpego. Freei. Ele ficou olhando para mim. Esse saruê era alguém sofrido, desalentado, que havia sido expulso de sua moradia e não tinha mais onde ir. Estava perdido e sem esperança. Assim como eu me sinto hoje, uma semana depois do dia ter se transformado em noite.         


        


   

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Eu já sabia, Intercept

Deltan Dallagnol
Sergio Moro

Foi um grande furo de reportagem. O site The Intercept Brasil, credenciado pelo premiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, publicou neste domingo, 9 de junho, uma matéria especial, dizendo tudo aquilo que a gente já sabia, mas não tinha como provar. Greenwald conquistou fama mundial ao divulgar, no The Guardian, os documentos vazados por Edward Snowden.

O que a gente já sabia? Que o juiz Sergio Moro e os promotores da Lava Jato trabalhavam em sintonia fina. Moro lançava a bola. O promotor Deltan Dallagnol matava no peito e fazia o gol. Dallagnol fazia um lançamento de 60 metros, em profundidade, deixando Moro na frente do gol para marcar mais um. 

No caso, não se tratava de futebol. Era a incansável labuta da Lava Jato em conseguir provas que conseguissem mandar para a cadeia os principais integrantes do Partido dos Trabalhadores, entre eles, o principal "inimigo" o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Com toda essa sinergia entre juiz e promotores, o processo foi bem-sucedido. Lula foi julgado e condenado, por causa de um apartamento no Guarujá, no qual ele nunca morou, nem nunca foi dele (o próprio Dallagnol dizia: "tô com receio da história do apto".). E também em razão de um sítio, de propriedade do empresário Fernando Bittar (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/dono-do-sitio-de-atibaia-pede-a-justica-para-vender-imovel.shtml

O objetivo da Lava Jato - segundo o site - era óbvio: tirar Lula da disputa presidencial e limpar o caminho para o então candidato Jair Bolsonaro:

"A Lava Jato foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente confirmada em segunda instância, o tornando inelegível no momento em que todas as pesquisas mostravam que Lula – que terminou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprovação – liderava a corrida eleitoral de 2018. Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro". 

Assim que foi eleito, Bolsonaro "pagou a dívida" de campanha e indicou Moro para o Ministério da Justiça.

Todo esse imbróglio jurídico está repleto de irregularidades. É de conhecimento comum que um juiz não pode se misturar com a acusação. Está previsto na Constituição brasileira. O artigo 95 diz claramente que é "vedado ao juiz participação em processo". 

O juiz deveria ser imparcial. Na prática, a gente percebe que aconteceu o inverso. Moro estava mergulhado até o tutano em uma missão estratégica, que visava colher provas, obter confissões e condenar.

Questionado a respeito, Moro sempre refutou essa hipótese. Cansou de dizer que não tinha estratégia, que quem investigava e decidia o que fazer era o Ministério Público. 

Na realidade, Moro aconselha, cobra, questiona, repreende, se intromete, pede para que as investigações sejam apressadas. É uma tabelinha estilo Pelé/Coutinho. Moro passa para Dallagnol, Dallagnol devolve para Moro, Moro para Dallagnol...É gol!

Qual é a base para se comprovar essa relação ilícita entre acusador e julgador? São as conversas, feitas em aplicativos, entre Moro e os promotores da Lava Jato. Um hacker  interceptou esses arquivos secretos e os encaminhou ao site The Intercept, que os publicou. Houve um crime. Os arquivos secretos não poderiam ter sido interceptados. O hacker agiu de forma criminosa. 

O crime, no entanto, não foi cometido pelo site. O artigo 5º da Constituição brasileira, em seu parágrafo 14, deixa claro que "é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Os arquivos secretos foram entregues ao site, que os publicou, amparado no que diz a Constituição.

A ampla reportagem do The Intercept traz ainda informações sobre o famoso tríplex, atribuído a Lula pela Lava Jato. Em seu Imposto de Renda, Lula afirmava ter participação em uma cooperativa habitacional no Guarujá, desde maio de 2005, tendo pago até aquele momento R$ 47 mil. Ocorre que não era um tríplex, mas uma unidade simples, que ficaria na torre B. 

Uma reportagem do jornal O Globo, publicada em 2010, mencionava que o casal Lula e Letícia perderiam a vista para o mar, em razão da construção de uma outra torre. A torre A. 

Segundo The Intercept, a denúncia da Lava Jato tinha inconsistências:

"Na denúncia feita pela Lava Jato, no entanto, os procuradores afirmam que o triplex de Lula fica na torre A, que ainda não existia quando a reportagem (do Globo) foi publicada. Mas, no item 191 da denúncia assinada pelos 14 procuradores, há o seguinte trecho (citando a reportagem do Globo): 'Essa matéria dava conta de que o então Presidente LULA e MARISA LETÍCIA seriam contemplados com uma cobertura triplex, com vista para o mar, no referido empreendimento'".

Ou seja, a denúncia estava errada. Era outro apartamento. E não o tríplex.

Esse envolvimento entre o acusador e o julgador é ilegal. Não poderia ter ocorrido. Por causa disso, a Lava Jato deve ser descartada? Não. A Lava Jato conseguiu algo inédito na história do País. Conseguiu 244 condenações contra 159 pessoas. Contabilizou R$ 6,4 bilhões em pagamentos de propinas. Veja o invejável resultado da Lava Jato até hoje: http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-lava-jato/atuacao-na-1a-instancia/parana/resultado

O público sente simpatia pelo ex-presidente Lula. É inegável que ele fez dois mandatos excepcionais à frente do Brasil. A aprovação popular era ampla e quase irrestrita. Tanto assim que ele foi reeleito três vezes. Uma vez, por ele mesmo. Nas outras, duas "incorporando" Dilma Roussef.

É inaceitável o PT ter se envolvido em tantos casos de corrupção, entre eles, o Mensalão e o Petrolão. O PT tinha a obrigação de ser um partido diferente e não ter incorrido nos mesmos desmandos dos partidos tradicionais. Foi uma pena. Uma traição àqueles que acreditavam no símbolo da estrela, que colavam os adesivos do partido nas janelas de suas casas e ostentavam com orgulho o broche do partido no peito.   

Lula será solto? Valerá votar novamente nele, sabendo que o fantasma da corrupção petista irá acompanhá-lo?

Quando o PT vai pedir desculpas a seus eleitores? Quando o partido passará por um rebranding ético e moral?

Moro será despojado de seu Ministério? Moro deu adeus à sua vaga no Supremo? 

Essas perguntas serão respondidas nos próximos dias ou meses. O que interessa agora é passar o País a limpo, algo que parece cada vez mais distante e improvável.  



   



       

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Bullying - valentões e bodes expiatórios



Lula terá novo julgamento hoje no STF. Conforme previsões de analistas, o habeas corpus que pede a sua soltura será negado. A defesa do ex-presidente argumenta que a condenação partiu de um juiz, indicado para ocupar cargo no governo Bolsonaro. 

Assim, o juiz teria agido parcialmente, mandando para a cadeia um adversário político que poderia derrotar Bolsonaro na eleição presidencial. Para os ministros do STF, esse argumento é impróprio por estabelecer uma ligação até então inexistente (na época da condenação, Bolsonaro não era candidato). 

Na realidade, qualquer analista, sem apego ideológico-partidário, sabe que a condenação de Lula não tem base legal. Ele foi preso e condenado, por causa de um apartamento, onde nunca morou, nem nunca foi dele. O mesmo acontece com o sítio famoso. Não há escritura que prove o pertencimento. Logo, não há prova material. Há suposições. 

Mas isso não importa. Lula é o nosso bode expiatório. O termo vem da Bíblia e significa aquele animal que era deixado para trás, para ser atacado pelos predadores, como forma de sacrifício, para aplacar a ira dos deuses. 

Na Grécia antiga, havia também uma cerimônia que sacrificava seres humanos, os pharmakos. Quando tudo ia mal, quando havia fome, seca, doença, fazia-se o sacrifício dos pharmakos. Pessoas doentes, com deformidade física, deficientes mentais ou simplesmente "muito feias", eram linchadas pela população. 

Perseguidos pela turba, apedrejados, esfaqueados, os pharmakos eram executados, durante um ritual catártico. Quando a "festividade" terminava, a vida voltava ao normal e a cidade garantia a sua sobrevivência, em paz com os deuses. Daí vem o termo fármaco (remédio), farmácia (antigamente, se escrevia pharmácia). 

Quando era garoto, não existia ainda o termo "bullying", que significa aquele ato de violência física e psicológica intencional, gratuita e repetida, praticada por um ou vários valentões sobre uma vítima. 

Na escola e nas ruas, a gente estava sempre às voltas com os valentões, com o bullying. Diferente de hoje, nenhuma vítima pensaria em denunciar um agressor, porque isso significa ser um "dedo duro", um "alcaguete", personagem tão depreciado como o "flozô" (como se chamava o gay na época). 

Quem apanhava precisava aprender a se defender. Era uma aprendizagem dolorida e traumática. O pior efeito do bullying era transformar a vítima em agressor, que, por sua vez, faria outra vítima, em efeito avalanche. 

Isso, infelizmente, aconteceu comigo. Naquela espiral de violência, lembro de episódios grotescos em que esmurrei o rosto de um amigo até tirar sangue. Você bate com força, com muito ódio, e quando vê o resultado algo se quebra por dentro. Você não é mais o mesmo. Você se transformou neles. Esse, acredito, é o pior efeito do bullying. A vítima torna-se algoz. A violência gera violência.    

Fui criado na cultura cristã. Ateu depois de adulto, me recordo com carinho dos valores religiosos que me foram passados na infância. Solidariedade, fraternidade, amizade, carinho dos familiares, saber perdoar, não guardar mágoa e rancor no coração...Tudo isso vinha embalado pela cultura cristã. 

E esses valores eram jogados no lixo, cotidianamente, pela violência que a gente presenciava, sofria ou praticava na escola e nas ruas.

De volta ao início dessa postagem, o Brasil caiu na mãos dos valentões. O presidente eleito posa ao lado do jogador Felipe Melo, durante a entrega da taça ao campeão brasileiro, e ambos apontam as mãos, em forma de arma, para nós, pacíficos telespectadores de um jogo de futebol.

Para o valentão, a melhor forma de acabar com a violência é usar mais violência ainda. Morrem anualmente no Brasil 60 mil pessoas assassinadas. 

Parece não ser suficiente. 

A Polícia Civil carioca usa uma metralhadora MAG, belga, calibre 7.62, capaz de disparar 650 tiros por minuto. Em setembro, a polícia apreendeu na favela da Rocinha uma metralhadora capaz de derrubar aviões e perfurar carros-forte. 

Acabar com a violência no Brasil ou reduzi-la a níveis finlandeses parece óbvio. O difícil será convencer os valentões a não correr atrás dos bodes expiatórios, não imolar pharmakos em praça pública, e promover a tão sonhada distribuição de renda. 

Mas essa solução objetiva não passa pela cabeça desse pessoal formado na Escola de Chicago e arredores. O que vem por aí não cheira bem. 

Em Paris, por sinal, já há fumaça densa e escura e carcaças de carros queimando nas ruas. É a revolta dos coletes amarelos (gilets jaunes).      

    



  

   

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Brasil deve romper relações comerciais com países comunistas?


Esse cidadão careca, que aparece na foto, disse que anda armado "com faca, pistola" e está em uma guerra particular contra pessoas que usam camiseta vermelha (comunistas?) e contra aqueles que ele chama de "negrada". Ele não esconde suas "preferências". Apoia "o capitão". Por isso, gravou um vídeo e postou na internet: 
https://www.facebook.com/enioverri/videos/756712504706955/

Outro fã de Bolsonaro agrediu, verbalmente, uma repórter da Folha, mandando que ela fosse "para a Cuba que a pariu".

O capitão Bolsonaro, presidente eleito por 57 milhões de eleitores, disse em pronunciamento recente que o Brasil não pode flertar com o socialismo e o comunismo. 

A China - não sei se todo mundo lembra - é um país comunista. Eles são 1 bilhão e 300 milhões de comunistas, jurando lealdade à bandeira vermelha, guardando com carinho em suas casas o Livro Vermelho de Mao Tse Thung. 

A China é a principal parceira de negócios do Brasil. O volume negociado com os comunistas chineses chega a 42 bilhões de dólares/ano. Lá atrás, em segundo lugar, vem os Estados Unidos, país capitalista, com 24 bilhões de dólares.

Não vale romper relações políticas com comunistas menores, tipo Cuba. Se for para deixar de flertar com o comunismo, o Brasil deveria começar pela China. É claro que isso não vai ocorrer, porque o capitão não vai dar tiro no pé. 

Vale refletir que o anticomunismo escolhe determinados alvos em detrimento de outros. Nos anos 60, os Estados Unidos invadiram o Vietnã para impedir que este país se tornasse comunista. Ao mesmo tempo, em que despejava mais bombas sobre os vietnamitas do que todas que haviam sido lançadas na Segunda Guerra, os americanos fechavam acordos comerciais com a então existente União Soviética e com a China vermelha. 

O cineasta Jean-Luc Godard fez um filme didático a respeito dessas opções da macroeconomia, em que as ideologias são deixadas de lado, em troca do pragmatismo comercial. O filme chama-se A Chinesa e é de 1967. 

Então, a gente percebe, desde aqueles tempos passados, que há comunistas que devem ser tolerados e podem se tornar nossos "parças", enquanto outros, como os cubanos, que são menores (compram pouca soja e carne de frango) e que podem ser excomungados, sem peso na consciência e no bolso.

Fala sério: essa história de anticomunismo é pra boi dormir. É arma eleitoral. A direita sempre usa, nem sempre dá certo. Daqui a quatro anos, retornam os comandos de caça aos comunistas eleitorais. É um anticomunismo sazonal.

Ontem, em entrevista ao Jornal Nacional, o presidente eleito voltou a mencionar o "kit gay", que ele combateu ardentemente, durante seu mandato parlamentar. 

Estranho essa iniciativa ter provocado tanta reação contrária. Foi uma ação governamental, voltada para a informação. Trazia histórias, explicava didaticamente temas como desigualdade entre homens e mulheres, homofobia, preconceito e diversidade. 

Pena que o governo federal sucumbiu à pressão dos conservadores e não levou o projeto adiante. Se você quiser conhecer um pouco mais sobre o programa, dê uma olhada nessa apostila. Informação é sempre o melhor caminho para pôr fim ao preconceito:

http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2015/11/kit-gay-escola-sem-homofobia-mec1.pdf


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

De virada é mais gostoso


O então candidato Rodrigo Amorim, do PSL, quebrou a placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, covardemente assassinada a tiros no Rio de Janeiro, em 14 de março. Por esse ato de vandalismo explícito, esse gesto de ódio, publicado nas redes sociais, Amorim foi premiado pelos eleitores. Amorim foi o candidato a deputado que recebeu mais votos no Rio. Marielle era negra, homossexual e ativista política. Um combo magnético para atrair bolsonaristas do calibre de Amorim. 

Por falar em Marielle, o interventor federal no Rio de Janeiro, general Braga Netto, ainda não conseguiu prender os assassinos de Marielle. O crime aconteceu em março. Estamos em outubro. Por que será que as investigações não caminham? Por que será tão difícil chegar aos assassinos? É só incompetência ou tem algo mais? Com a palavra o ministro da Segurança Pública de Temer, Raul Jungmann. 

Na Band News, o âncora Ricardo Boechat criticou os ataques que Bolsonaro vem sofrendo de acadêmicos e jornalistas do exterior, que acusam o candidato do PSL de ser homofóbico, racista, misógino, pró-ditadura e pró-tortura de presos políticos. Boechat disse que os analistas internacionais têm esquecido do apoio do PT à Venezuela. 

O âncora da Band News citou a presidente do PT, Gleise Hoffmann, que afirmou que a Venezuela é vítima do imperialismo e sofre ofensiva da direita, com o objetivo de desestabilizar o país. Ou seja, o PT apoia a ditadura de Nicolás Maduro e, indiretamente, apoia também os crimes praticados contra dissidentes políticos ao não se posicionar de uma forma mais clara.

Cá entre nós, alguém duvida que os norte-americanos não estejam tentando desestabilizar o governo venezuelano? Alguém põe em dúvida que o regime de Nicolás Maduro sofre interferência direta das forças de direita? 

É claro que a mídia vai usar a presidente do PT para atingir Haddad. Mas existe alguma possibilidade de o Brasil se transformar em uma Venezuela, se Haddad for eleito? O PT esteve 13 anos no poder e não virou Cuba, nem Venezuela. 

Fico ouvindo esses âncoras, como Boechat, tentando caminhar no fio da navalha de uma suposta imparcialidade, e me dá pena deles. Imagine as pressões que não devem sofrer para bater em Chico e Francisco (talvez bem mais em Chico do que no Francisco). Boechat foi militante do PCB. Ou seja, tem a esquerda no DNA. As pessoas mudam. Mudam o corte de cabelo. Mudam o jeito de se vestir, mas as paixões...As paixões continuam sempre lá. Dentro da gente. E vão morrer conosco.

Felizmente, não trabalho na Bandeirantes, nem na Globo, nem na Folha. Pense só no que acontece nos bastidores pré-eleitorais. Dê uma olhada nas pautas. A mídia empresarial foi decisiva para a queda de Dilma. A Globo News cobria exaustivamente as manifestações do MBL. Veio o golpe, a presidente Dilma - eleita democraticamente - foi deposta e a articuladora do impeachment, a professora Janaína Paschoal, premiada com 2 milhões de votos. 

Se antes, eu ia religiosamente à banca de jornais, hoje, isso não é mais possível. Não há mais bancas de jornais. A leitura eletrônica é irritante (sempre aparece um anúncio, um vídeo intrometido). E o pior: não me identifico mais com nenhum veículo. 

Às 6h30 desta quarta-feira, recebo uma mensagem de um amigo de infância. É um comunicado do bolsonarista delegado Francischini, informando "em primeira mão" que as urnas eletrônicas são fajutas. Aviso que a notícia é falsa. Mando uma notícia, informando que o mesmo Francischini havia pago R$ 24 mil para uma empresa, especializada em propagar fake news (boatos). Enfim, é cansativo. 

Por essas e outras, seria delicioso ver Haddad eleito. De virada é sempre mais gostoso.  



  

   



   

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...