sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O péssimo serviço prestado pelas concessionárias de energia

 

Gastar dinheiro em rede de energia aérea é investir no passado 

A cidade onde moro no interior de São Paulo é abastecida com energia elétrica por uma concessionária, chamada CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Na realidade, não é uma companhia paulista, porque é uma estatal chinesa, com nome inglês – State Grid Corporation of China. A SGCC assumiu a concessão de fornecimento de energia em 2017. Quase toda semana, a luz acaba em casa. Assim, sem mais nem menos, você está trabalhando no computador, o ar-condicionado ligado, e puf! Acabou a luz. Espera aí: voltou! Não, acabou de novo. Um momento... Voltou. É uma CPFL vagalume. Às vezes, demora horas para normalizar o serviço. Na cidade, as reclamações são muitas. A dona da pizzaria reclama que em um dos apagões o frigorífico dela foi pro vinagre. Outro diz que a geladeira morreu; um terceiro fala que foi o micro-ondas.

Em São Paulo, o fornecimento de energia é oferecido pela italiana Enel. A sigla significa: Ente Nazionale per l’Energia Eletttrica (entidade nacional de energia elétrica). A Enel está ameaçada de perder a concessão, por causa dos problemas causados aos paulistanos. Uma chuva mais forte, caem árvores sobre a rede elétrica, fios entram em combustão... Puf! Milhares de domicílios e comércios no escuro. As pessoas se revoltam, protestam, os meios de comunicação vão até os consumidores e levam à TV, aos jornais, rádios as reclamações. Recentemente, enquanto milhares estavam no escuro, um grupo de funcionários da CPFL fazia uma dancinha, em plena avenida Paulista. Disseram que seria um clipe de fim de ano. Um acinte ao consumidor que paga e toma prejuízo na cabeça.

Há um clamor intercontinental, podemos dizer assim, contra a privatização de certos serviços essenciais. Nos Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha, 884 empresas de saneamento e fornecimento de água foram reestatizadas. O motivo é elementar: as concessionárias não davam conta do recado.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os serviços de telefonia no Brasil foram privatizados. Foi uma benção dos céus. Na época, um simples telefone custava quase o preço de um carro zero quilômetro. Tinha gente que vivia de alugar e vender telefone. Ganhava uma nota preta. Com a privatização, acabou a mamata e todo brasileiro pôde ter direito ao seu telefone. Hoje, são 272 milhões de celulares de posse de cada cidadão desta Terra Brasilis. Ou seja, 1,3 celular para cada brasileiro.

Então, a privatização não é necessariamente errada, mas quando um determinado serviço é privatizado – porque o governo não consegue dar conta – a empresa proprietária da concessão deveria oferecer um serviço perfeito. Sem críticas, sem esse mal-estar generalizado que os consumidores sentem em relação às concessionárias, como CPFL e Enel.

Um erro elementar é o investimento em postes na rede aérea. Foi por volta de 1920 que as ruas das principais cidades brasileiras começaram a ser eletrificadas. O sistema é o mesmo: finca-se um poste na rua, sobre ele colocam-se uns varões e passam-se os fios lá por cima. Acontece que as ruas sempre têm árvores e as árvores têm galhos e os galhos nunca se deram bem com a rede elétrica. Eles costumam se enroscar nos fios, eles quebram e desabem sobre a fiação, gerando explosões e interrupção do fornecimento de energia. Para evitar o problema, que é crônico, porque chove, porque os galhos vão arrebentar mesmo a rede elétrica, vários países optaram pela eletrificação subterrânea. É o caso da França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Estados Unidos e até a Argentina (Buenos Aires).  Os motivos são vários: estética (as cidades ficam mais bonitas sem toda aquela “fiarada” em cima da cabeça da gente), confiabilidade (ventos fortes e tempestades não interrompem o fornecimento de energia) e mais segurança (milhares de pessoas são vítimas de descargas elétricas provocadas por fios tombados nas ruas e avenidas).

Aqui onde moro, ocorre um acúmulo de erros. A CPFL está trocando os postes. Ou seja, investindo no passado. Ao invés de enterrar a fiação, prefere enterrar postes. Acontece que sobre os postes não há apenas os fios da CPFL. Não, não, não...Tem também a fiação das empresas que fornecem internet. Essas empresas, como a Zaaz, por exemplo, colocam suas fibras óticas nos postes da CPFL. E a CPFL odeia isso. Entende que a fibra ótica seria uma espécie de parasita enroscado em seu poste querido. Então, observei os eletricistas da CPFL trocando os postes velhos pelos novos e de quebra arrebentavam toda a fiação da internet. Eles faziam isso com ódio mesmo, com muita raiva. Vi um eletricista pegar um tipo de machadinho e lascar o negócio sobre a fibra ótica. Quem dependia da Zaaz para ter internet em casa ficou até cinco dias sem o serviço. Hoje, a internet virou um serviço essencial. Sem internet, a gente não consegue mais ter controle sobre a própria vida. Cadê o meu saldo no banco, cadê a família, onde estão os amigos e os clientes? Todo mundo sumiu, por causa da internet que se foi.

Então, a Zaaz demorou, mas veio e recolocou os cabos no lugar. E alguns dias depois, os eletricistas da CPFL retornaram para trocar novos postes e voilà: os pobres dos cabos da internet foram atirados com violência extrema no chão (alguns continuam até hoje por aí). Novamente, a Zaaz e outras empresas de internet voltaram e foi uma luta para restabelecer o serviço. Em meados deste mês de janeiro, outros postes serão trocados e mais uma vez os cabos de fibra ótica vão ser atirados no chão. É um sistema, como vou dizer, meio burro de trabalho, porque o pessoal da internet poderia conversar com a CPFL e trabalhar em conjunto, mas isso não acontece.

A CPFL pede para a gente baixar o aplicativo dela e informar quando deu algum problema no fornecimento de energia. Acontece que, sem energia, a internet não funciona e consequentemente também o aplicativo não pode ser colocado pra funcionar. Não pega nem no tranco. Aí cabe a você sair andando pelo mundo, em busca de um sinal salvador.

O aplicativo nem sempre funciona direito. Como é um robô que está lhe atendendo, às vezes ele não entende o que você quer. Você passa o número da instalação para o robô e ele diz: “Não encontrei seu documento em nosso sistema. Qual seu nome completo?” Você digita o nome e ele pergunta novamente: “qual seu nome completo?”. E outra vez, e outra vez, e outra vez. É um robô burrinho, coitado.

A Zaaz marca visita técnica para tal dia e tal horário e não aparece. Você reclama e é informado que tem uma visita técnica marcada para dali a pouco. Você não sai de casa, fica aguardando e ninguém aparece. Reclama novamente. Eles marcam para outro dia. E não aparecem. Finalmente, você consegue falar com um atendente da Zaaz. Ele pede uma foto do roteador. Explico que ele não precisa ver a foto, porque os cabos da internet foram jogados no chão, por isso que a internet não funciona. “Estão no chão”, eu grito, meio fora de controle. Mesmo assim, ele pede a foto. Tiro a foto e mando pra ele, com aquela demora básica de vários minutos, porque, afinal, estou sem internet em casa.

Um festival de incompetência. Depois de oito dias sem internet, reclamei no Reclame Aqui e apareceu uma funcionária que conseguiu mandar uma equipe em casa e o serviço foi normalizado. Mas é uma luta. Uma luta inglória. Fica sempre a sensação que você está perdendo. Parece até título do livro do Walter Mostley, “Sempre em desvantagem”.     


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