domingo, 19 de julho de 2026

A livraria virou hambúrguer

 

 Gilbert Jeune, na praça Saint Michel, virou hambúrguer

Em 2022, estava em Paris e fui com um amigo em um café que fica na place Saint Michel. Bem defronte a esse café, no número 10, ficava um prédio das livrarias Gilbert Jeune (aquela do toldo amarelo). A Gilbert Jeune existiu, no Quartier Latin, durante 135 anos e morreu em 2021. Um ano antes da minha visita. Não tive nem tempo de me despedir. Portas fechadas, um grafite horroroso pintado na frente e uma sensação de perda intangível. 

Agora, veio a notícia que todos esperavam. A Gilbert Jeune vai virar hambúrguer. Felizmente. Faltam hamburguerias no mundo. Há muitos comedores de hambúrguer e um número insuficiente de hamburguerias. Com relação às livrarias, a equação é contrária: a cada dia, perdem-se leitores e as livrarias ficam entregues às moscas, ou melhor dizendo, às traças, que sabem apreciar um bom livro.

O Centro Nacional do Livro da França, informa uma publicação, registrou o fechamento de 85 livrarias no ano passado, enquanto 83 abriram as portas. Ou seja, o saldo é negativo. 

Se em Paris, onde parece haver mais leitores por metro quadrado do que no resto mundo, as livrarias estão capengando; imagine o que será de nós, pobres mortais sem livros, nem livrarias? 

O culpado é a tela. Os consumidores trocaram o papel pela tela. Não é de hoje. No final dos anos 90, um jornaleiro me mostrava um balanço assustador: a venda dos jornais, em banca, caía mês após mês. Inexoravelmente. Ele me exibia um caderno com as vendas de domingo: 435, 404, 370, 315, 290...Semana após semana, as vendas dos jornalões (Estadão, Folha) despencavam. Irremediavelmente (para abusar dos advérbios, que ninguém é de ferro).

Era gostoso acordar cedo no domingo, ir até a banca e comprar um jornal. A edição era grossa. Tinha vários cadernos. Artigos de fundo, análises, críticas, informação a dar com pau. O jornaleiro era meu amigo e costumava antecipar as principais notícias, às vezes, muito irritado, às vezes, sorridente, ainda mais se algum vilão tivesse sido capturado pelos homens da lei. 

Era legal também sair com o jornal debaixo do braço e ir na padaria tomar aquele lauto café da manhã. Enquanto esperava pelo café com leite e o pão com manteiga na chapa, abria o jornal e começava a me embrenhar no noticiário. Lia primeiro o caderno de cultura (antes de tudo, as histórias em quadrinhos), depois o cotidiano, com notas policiais e deixava a política e a economia por último.

Anos atrás, um amigo me deu de presente um kindle, que é aquele treco que serve para a gente ler livros. É digital. A tela imita papel e você pode até escolher o tamanho da fonte: grande, pequena, média, muito pequena, muito grande. Não me acostumei com essa desgraça. Faltava alguma coisa ali. Não sabia o que era. Você abria aquilo, lia, "virava" as páginas, só que não era legal. Não sei se faltava o cheiro do livro impresso, não sei se era a desconfiança (e se Jeff Bezos decidisse alterar a história do livro, porque não tinha gostado do final: "Onde já se viu os dois morrerem no final, esse Romeu e essa Julieta? Não, nada disso. Vou fazer os dois casar, ter filhos e serem felizes para frente"). 

Imagine: o conteúdo do livro está guardado na loja do bilionário e se ele decide efetivamente tirar uma página que não lhe agrada? O risco existe. Enfim, não me adaptei com o kindle. Abandonei o leitor digital. Ele ficou velho, empoeirado, obsoleto e foi parar na lixeira (reciclável). 

A tela parece inocente, mas não é. Por baixo dela, foram colocados espiões digitais que farejam suas andanças pelas postagens da vida. Eles veem e ouvem tudo. Eles sabem do que você gosta e do que você não gosta. Por isso, é só você abrir a tela, para todos os seus interesses aparecerem bem à vista, bem debaixo do seu nariz. Sabe o que isso significa: que você vai acabar se viciando na tela. No passado, era o cigarro, depois vieram os refrigerantes e agora os novos vilões são as telas. Você começa a ver um filme na Netflix, mas qualquer coisa doida dentro mexe, como previu o Caetano, e você aproveita para dar uma olhada na tela, não na telona, na telinha do celular. Aí você volta para o filme da Netflix, mas não entende direito, porque apareceu um personagem que você não conhecia e aí de volta para a telinha, para a Netflix, telinha e você acaba sem entender coisa alguma nem na telinha e nem na telona.

Finalmente, você termina de escrever aquele livro, que tanto tempo demorou para ser concluído, e decide enviar para as editoras avaliarem. Ledo engano. As editoras não querem você. Os sites delas informam: "a avaliação de exemplares está interrompida por tempo indeterminado". Em outras palavras, eles querem dizer que não vão perder tempo com novos autores, não querem publicar um livro que não será vendido, porque ninguém mais parece se interessar por livros. 

E finalmente - mais uma vez - você desiste de tudo e vira influencer. Não precisa ter qualificação, não precisa ter estudado, não precisa título acadêmico. Nada disso. É só correr atrás do jabá e bola pra frente.  

   

 


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