terça-feira, 20 de janeiro de 2026
sábado, 10 de janeiro de 2026
Tiago Leifert me enganou
sexta-feira, 2 de janeiro de 2026
O péssimo serviço prestado pelas concessionárias de energia
| Gastar dinheiro em rede de energia aérea é investir no passado |
A cidade onde moro no interior de São Paulo é abastecida com energia elétrica por uma concessionária, chamada CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Na realidade, não é uma companhia paulista, porque é uma estatal chinesa, com nome inglês – State Grid Corporation of China. A SGCC assumiu a concessão de fornecimento de energia em 2017. Quase toda semana, a luz acaba em casa. Assim, sem mais nem menos, você está trabalhando no computador, o ar-condicionado ligado, e puf! Acabou a luz. Espera aí: voltou! Não, acabou de novo. Um momento... Voltou. É uma CPFL vagalume. Às vezes, demora horas para normalizar o serviço. Na cidade, as reclamações são muitas. A dona da pizzaria reclama que em um dos apagões o frigorífico dela foi pro vinagre. Outro diz que a geladeira morreu; um terceiro fala que foi o micro-ondas.
Em São Paulo, o fornecimento de energia é oferecido pela
italiana Enel. A sigla significa: Ente Nazionale per l’Energia Eletttrica
(entidade nacional de energia elétrica). A Enel está ameaçada de perder a
concessão, por causa dos problemas causados aos paulistanos. Uma chuva mais
forte, caem árvores sobre a rede elétrica, fios entram em combustão... Puf!
Milhares de domicílios e comércios no escuro. As pessoas se revoltam,
protestam, os meios de comunicação vão até os consumidores e levam à TV, aos
jornais, rádios as reclamações. Recentemente, enquanto milhares estavam no
escuro, um grupo de funcionários da CPFL fazia uma dancinha, em plena avenida
Paulista. Disseram que seria um clipe de fim de ano. Um acinte ao consumidor
que paga e toma prejuízo na cabeça.
Há um clamor intercontinental, podemos dizer assim, contra a
privatização de certos serviços essenciais. Nos Estados Unidos, França, Reino
Unido e Alemanha, 884 empresas de saneamento e fornecimento de água foram reestatizadas.
O motivo é elementar: as concessionárias não davam conta do recado.
Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os serviços de
telefonia no Brasil foram privatizados. Foi uma benção dos céus. Na época, um
simples telefone custava quase o preço de um carro zero quilômetro. Tinha gente
que vivia de alugar e vender telefone. Ganhava uma nota preta. Com a
privatização, acabou a mamata e todo brasileiro pôde ter direito ao seu
telefone. Hoje, são 272 milhões de celulares de posse de cada cidadão desta
Terra Brasilis. Ou seja, 1,3 celular para cada brasileiro.
Então, a privatização não é necessariamente errada, mas
quando um determinado serviço é privatizado – porque o governo não consegue dar
conta – a empresa proprietária da concessão deveria oferecer um serviço
perfeito. Sem críticas, sem esse mal-estar generalizado que os consumidores sentem
em relação às concessionárias, como CPFL e Enel.
Um erro elementar é o investimento em postes na rede aérea.
Foi por volta de 1920 que as ruas das principais cidades brasileiras começaram
a ser eletrificadas. O sistema é o mesmo: finca-se um poste na rua, sobre ele
colocam-se uns varões e passam-se os fios lá por cima. Acontece que as ruas
sempre têm árvores e as árvores têm galhos e os galhos nunca se deram bem com a
rede elétrica. Eles costumam se enroscar nos fios, eles quebram e desabem sobre
a fiação, gerando explosões e interrupção do fornecimento de energia. Para
evitar o problema, que é crônico, porque chove, porque os galhos vão arrebentar
mesmo a rede elétrica, vários países optaram pela eletrificação subterrânea. É
o caso da França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Estados Unidos e até a
Argentina (Buenos Aires). Os motivos são
vários: estética (as cidades ficam mais bonitas sem toda aquela “fiarada” em
cima da cabeça da gente), confiabilidade (ventos fortes e tempestades não
interrompem o fornecimento de energia) e mais segurança (milhares de pessoas
são vítimas de descargas elétricas provocadas por fios tombados nas ruas e
avenidas).
Aqui onde moro, ocorre um acúmulo de erros. A CPFL está
trocando os postes. Ou seja, investindo no passado. Ao invés de enterrar a
fiação, prefere enterrar postes. Acontece que sobre os postes não há apenas os
fios da CPFL. Não, não, não...Tem também a fiação das empresas que fornecem
internet. Essas empresas, como a Zaaz, por exemplo, colocam suas fibras óticas
nos postes da CPFL. E a CPFL odeia isso. Entende que a fibra ótica seria uma
espécie de parasita enroscado em seu poste querido. Então, observei os
eletricistas da CPFL trocando os postes velhos pelos novos e de quebra
arrebentavam toda a fiação da internet. Eles faziam isso com ódio mesmo, com
muita raiva. Vi um eletricista pegar um tipo de machadinho e lascar o negócio
sobre a fibra ótica. Quem dependia da Zaaz para ter internet em casa ficou até
cinco dias sem o serviço. Hoje, a internet virou um serviço essencial. Sem
internet, a gente não consegue mais ter controle sobre a própria vida. Cadê o
meu saldo no banco, cadê a família, onde estão os amigos e os clientes? Todo
mundo sumiu, por causa da internet que se foi.
Então, a Zaaz demorou, mas veio e recolocou os cabos no
lugar. E alguns dias depois, os eletricistas da CPFL retornaram para trocar
novos postes e voilà: os pobres dos cabos da internet foram atirados com
violência extrema no chão (alguns continuam até hoje por aí). Novamente, a Zaaz
e outras empresas de internet voltaram e foi uma luta para restabelecer o serviço.
Em meados deste mês de janeiro, outros postes serão trocados e mais uma vez os cabos
de fibra ótica vão ser atirados no chão. É um sistema, como vou dizer, meio
burro de trabalho, porque o pessoal da internet poderia conversar com a CPFL e
trabalhar em conjunto, mas isso não acontece.
A CPFL pede para a gente baixar o aplicativo dela e informar
quando deu algum problema no fornecimento de energia. Acontece que, sem
energia, a internet não funciona e consequentemente também o aplicativo não
pode ser colocado pra funcionar. Não pega nem no tranco. Aí cabe a você sair
andando pelo mundo, em busca de um sinal salvador.
O aplicativo nem sempre funciona direito. Como é um robô que
está lhe atendendo, às vezes ele não entende o que você quer. Você passa o
número da instalação para o robô e ele diz: “Não encontrei seu documento em
nosso sistema. Qual seu nome completo?” Você digita o nome e ele pergunta
novamente: “qual seu nome completo?”. E outra vez, e outra vez, e outra vez. É
um robô burrinho, coitado.
A Zaaz marca visita técnica para tal dia e tal horário e não
aparece. Você reclama e é informado que tem uma visita técnica marcada para
dali a pouco. Você não sai de casa, fica aguardando e ninguém aparece. Reclama
novamente. Eles marcam para outro dia. E não aparecem. Finalmente, você
consegue falar com um atendente da Zaaz. Ele pede uma foto do roteador. Explico
que ele não precisa ver a foto, porque os cabos da internet foram jogados no
chão, por isso que a internet não funciona. “Estão no chão”, eu grito, meio
fora de controle. Mesmo assim, ele pede a foto. Tiro a foto e mando pra ele,
com aquela demora básica de vários minutos, porque, afinal, estou sem internet
em casa.
Um festival de incompetência. Depois de oito dias sem
internet, reclamei no Reclame Aqui e apareceu uma funcionária que conseguiu
mandar uma equipe em casa e o serviço foi normalizado. Mas é uma luta. Uma luta
inglória. Fica sempre a sensação que você está perdendo. Parece até título do
livro do Walter Mostley, “Sempre em desvantagem”.
quinta-feira, 1 de janeiro de 2026
São Silvestre, a corrida
![]() |
| A mais tradicional corrida de rua do País completou cem anos |
Quem exibia a prova era a TV Gazeta. Acompanhar a disputa, na época, era complicado, porque a transmissão se interrompia a todo momento. A imagem tremia. Entrava um sinal do prefixo da TV. Os recursos técnicos da Gazeta deixavam a desejar. O narrador falava com a voz tremida, meio aos solavancos e frequentemente sumia. Mesmo assim, no meio daquela precariedade da transmissão, a gente torcia. O último brasileiro vencedor tinha sido Sebastião Alves Monteiro, em 1946.
Depois, vieram lendas do atletismo, como Emil Zatopek - "a locomotiva humana" - um tcheco que elevou o padrão de disputas e tornou a competição brasileira conhecida nos grandes centros. Meu pai foi assistir e ficou assombrado com a velocidade de Zatopek. "Enquanto os outros estavam virando a primeira esquina, o Zatopek estava próximo da linha de chegada", meu pai exagerava.
Eu era criança, quando vi o belga Gaston Roelants se sagrar tetracampeão. Roelants me deu vontade de participar da prova. Parecia fácil. Até então, a corrida tinha 8 quilômetros e 700 metros.
Mas quando chegou a minha vez de participar da São Silvestre o trajeto havia sido ampliado e eram agora 15 longos quilômetros. Mesmo velho e cansado, achei que estava na hora de participar, de sentir o "glamour" da mais tradicional corrida de rua do País. Treinei bastante, para evitar morrer no meio da rua. Enquanto os vencedores, faziam a prova em 45 minutos, em média, eu demorava duas horas para completar os malditos 15 quilômetros. É claro que, com o passar dos anos, o tempo tende a baixar. Meu melhor tempo foi de uma hora e cinquenta. Se corresse mais uns cem anos, talvez chegasse nos 45 minutos dos finalistas.
A São Silvestre, que tem esse nome obviamente em homenagem ao santo do dia, é uma competição difícil, porque no dia 31 de dezembro está quente e abafado. Quando chove, é pior, porque sobe um vapor do chão que deixa a gente sem respirar. A chuva bate no asfalto fervente e aquela evaporação é insuportável. Além do calor, o que me incomodava muito eram os folclóricos. Gente pintada, gente fantasiada. Tinha um cidadão vestido de noiva, com buquê e tudo que corria conosco. Para mim, corrida de São Silvestre era uma coisa séria. Nada a ver com aqueles folclóricos irritantes.
A largada acontecia em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). Comecei a prova e quando cheguei na rua Augusta senti uma dor lancinante no músculo adutor da perna esquerda. Pus a mão na coxa. Doía muito. Justamente nessa hora, um fotógrafo me flagrou e o jornal da São Silvestre relatou: "Danilo Angrimani com cara de dor já nos primeiros 300 metros da prova". Dedo-duro sacana! O que o infeliz não contou é que completei os 15 quilômetros. Cada quilômetro com uma dor terrível na coxa. Mas completei. Sabe-se lá por quê.
Em 2011, uma tarde assustadoramente quente, com muito sol, estava no final do Minhocão, virando à direita para pegar a avenida Pacaembu, quando vi o ganhador da São Silvestre do ano anterior - era um brasileiro - vomitando tudo que tinha direito. O coitado estava apoiado no guard-rail do Minhoão e dava adeus à corrida. Pensei: "Putz, se o vencedor de 2010 está desse jeito, imagine o que vai acontecer comigo quando chegar na Brigadeiro?".
A avenida Brigadeiro Luís Antônio é uma subida cruel. Você está com a língua de fora, pedindo para Jesus vir lhe buscar, quando chega na Brigadeiro e olha aquela subida interminável. As pernas querem parar. O cérebro insiste em parar. O corpo todo pede pelo amor de deus para você entrar na rua Maria Paula e esquecer aquilo tudo. Mesmo assim, você continua. Vai subindo. Dos dois lados da rua, grupos de pessoas acenam para você. Estendem as mãos. Eles o incentivam a morrer. A melhor hora é quando você chega no final da Brigadeiro, vira à direita na avenida Paulista e vê o marco da chegada ali na frente. Você conseguiu. Superou seus limites. Não morreu (ao contrário do que imaginava) e agora é correr para o abraço da rapeize.
Assisti a São Silvestre de 1958 a 1979, torcendo para ver um brasileiro cruzar em primeiro na linha de chegada. Não fui feliz. Ganhava sempre um estrangeiro. Em 1980, decidi que iria fazer outra coisa no dia 31 de dezembro, mas não veria a São Silvestre. "Não adianta", falei para a família, "nenhum brasileiro ganha mesmo". Só que ganhou. José João da Silva, atleta do São Paulo, chegou em primeiro e quebrou aquele jejum que já durava longos 34 anos. "Fizemos uma festa tremenda", meu pai contou, "pena que você não estava aqui". Pois é...
Este ano assisti a São Silvestre pela TV. Recentemente, estava treinando, correndo 14 quilômetros e estourei o tendão de aquiles da perna esquerda. Muito gelo e compressa quente. Vi ganhar um etíope e uma atleta da Tanzânia, porque faltam investimentos para os atletas brasileiros.
O terceiro colocado, o brasileiro Fábio de Jesus, declarou para o Uol: "O atletismo está acabando, indo água abaixo. Os atletas precisam se virar, se quiserem competir: Às vezes a gente treina na rua, com carro atrapalhando, cachorro passando, correndo risco de torcer o pé. Muitas vezes a gente chega na pista e é barrado". Até os 14 anos, informou a reportagem, Jesus corria descalço, em Monte Santo, na Bahia. Foi coletor de lixo e mudou-se para São Paulo, para se dedicar exclusivamente ao atletismo.
Além da falta de incentivo, destacada por Fábio de Jesus, o jejum de brasileiros no primeiro lugar do pódio já incomoda novamente. Faz 15 anos que um brasileiro não ganha a prova.
Depois de ter participado de algumas provas da São Silvestre, posso dizer que seria muito melhor se a prova fosse disputada à noite. É mais fresco, mais saudável, mais humano. Em 1982, a TV Globo passou a transmitir a prova, com toda a técnica e a competência que lhe é habitual, nos livrando do quase amadorismo da TV Gazeta. Em 1989, no entanto, a mesma Globo mudou o horário da disputa, passando para a tarde. Essa alteração tirou todo o glamour e a emoção da São Silvestre.
Durante uma cobertura noturna da São Silvestre, antes da mudança de horário, lembro de um repórter, muito emocionado. Os atletas estavam chegando na Paulista, os rojões estouravam em volta, o público delirava e o repórter, que era carioca, começou a chorar. "Isso é lindo, meu deus", ele falou para os jornalistas próximos dele.
A São Silvestre mudou para a tarde e agora é disputada de manhã. Por causa de sua grade de programação, que deixa aqueles shows insossos, com artistas que a gente mal lembra o nome, para serem transmitidos na hora da virada, a Globo conseguiu fazer mais uma vítima. É uma pena, porque tem eventos tradicionais que não deveriam ser deformados. Imagine se a BBC sugerir que Wimbledon troque suas quadras de grama por grama artificial. Acho que até o rei Charles iria se engasgar com o chá.
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