terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Um verão para ser esquecido

 

Imagem de uma praia carioca, depois da chuva

A nossa relação com o mar, com a praia e a bela área verde que a cerca é de encantamento. Chega o final de ano, começa o verão, tem início as férias letivas; vem finalmente aquele momento de relaxar, de usufruir a beleza da natureza em todo seu esplendor. Na praia, ficamos corados, comemos pratos típicos, com muito camarão, lagosta e peixes recém-pescados. As mulheres, com roupas sumárias, passam diante dos nossos olhos, despertando pensamentos lascivos. No ar, tem aquele odor típico da maresia. Mudamos nosso ritmo. Deixamos as preocupações de lado, aquela rotina chata de acordar cedo com o despertador, fazer higiene, tomar o café da manhã e ir para o trabalho, para retornar 12 horas depois, cansados, exauridos. Na praia, parece que renascemos, parece que nos tornamos uma outra espécie humana, alguém mais feliz, menos preocupado, mais atencioso com os outros e menos egoísta.

Só que não. Nos últimos 40 anos, os brasileiros fizeram o possível para tornar a praia idílica em um lugar insuportável. Este verão, ainda em curso, deve ter batido algum recorde de mal-estar, de apanágio da ganância. É desesperador ver como em tão pouco tempo praias que eram templos de tranquilidade se transformaram em portais do inferno.
Em Porto de Galinhas (PE), o casal Johnny Andrade e Cleiton Zanatta foi atacado por barraqueiros, por causa de uma cobrança de taxa extorsionária. Os dois levaram socos e pontapés de uns 15 homens, "donos" de barracas de praia. Outro turista - Rafael Ventura Martins - foi assassinado em um restaurante, por causa de uma suposta dívida. O recado parece claro: não vá a Porto de Galinhas, você vai correr riscos. Porto de Galinhas tem esse nome, por causa do passado escravagista. Quando ancorava um navio negreiro, os fazendeiros comentavam entre si: "Chegaram as galinhas", que era um código local para avisar da chegada dos escravos. A fiscalização britânica impedia o tráfico. Porto de Galinhas é dominado por uma máfia que espalha cadeiras pela praia e cobra "taxa mínima" para sua utilização.
Não é só lá, infelizmente. Uma moradora de Cabo Frio (RJ) foi às redes sociais para denunciar ter sido extorquida na Barraca do Forte. Em Maresias (SP), condomínios espalham barracas na praia e ocupam a área pública. É uma privatização violenta do bem público. Na praia da Baleia, em São Sebastião (SP), por exemplo, o acesso era impedido por um portão, fechado com cadeado. Isso ocorre por todo lado. Geralmente, grandes condomínios particulares constroem muros no melhor estilo Trump para fechar o acesso às praias. Para burlar a vigilância (porque a praia deveria ser pública e não privada), eles deixam apenas uma minúscula passagem escondida (tem de ser arqueólogo para descobrir), que dá acesso à praia. 

Na praia da Figueira, município de Governador Celso Ramos (SC), os proprietários de restaurantes costumam ocupar a faixa de areia e ai de você se quiser estender uma esteira e um guarda-sol por lá. Eles simplesmente proíbem. Uma turista gravou bate-boca com proprietário de restaurante para denunciar o caso. 
O problema da privatização da área pública e cobrança de taxas se repete na praia de Cabeçudas, em Itajaí (SC); em Barra Velha (SC); na praia de Bombinhas (SC), que cobra 200 reais por "taxa ambiental" e tem disparada de casos de diarreia e onde a partir das 7h não tem mais lugar na faixa de areia, porque foi toda privatizada.
Aliás, tomar banho de mar hoje em dia, nas praias brasileiras, parece sinônimo de mergulhar no cocô. Somente em Santa Catarina, houve o registro de 10 mil casos de diarreia. Na capital, Florianópolis, foram mil casos de viroses diversas e diarreia. No Guarujá (SP), 2 mil pessoas foram atendidas nos postos de saúde com virose e diarreia.
Os pobres turistas, sem ter a quem apelar, gravam vídeos e publicam nas redes antissociais. Em João Pessoa (PB), um cidadão, armado com seu celular, mostra o esgoto preto correndo livre pela praia. Passam umas moças, pisando descalças sobre a imundície e ele avisa: "Vocês estão pisando no esgoto". Uma delas agradece: "Valeu, obrigada" e continuam andando sobre a sujeira. O cocô escorre também pela praia da Boa Viagem, em Salvador (BA). É esgoto jorrando direto. Imagens daquela que era uma belíssima beleza natural de Santa Catarina, a Lagoa da Conceição, mostram a água coberta de esgoto e material poluente. Alguém comentou no Instagram: "É muito cheiro de cocô".
Tomar banho de mar e de cocô é uma coisa; agora, depois não conseguir se lavar em casa no chuveiro é outra e bem pior. Os infelizes turistas e moradores de Itanhaém sofrem com a falta d'água desde o mês passado. Não é só falta d'água. A prefeitura também não estava recolhendo o lixo. Em desespero, moradores foram até a prefeitura e fizeram um protesto barulhento. A pobre Itanhaém quase foi submersa, depois de uma tempestade. O portal da entrada da cidade, ao invés de dizer "bem-vindo", parecia gorgolejar "glub-glub". 
Ao lado da destruição do recurso natural, caminha a ganância. Os locais resolvem explorar ao máximo os turistas, arrancar tudo que for possível. Na praia do Francês, em Marechal Deodoro, próxima de Maceió (AL), tomar duas cervejas e uma água de coco sai por meros 185 reais. Em Búzios (RJ), parar o carro em um estacionamento significa "morrer" com 100 "pilas". Sem esquecer o pastel, vendido a 40 reais em Florianópolis. Um pastel: 40 reais! No Rio, alugar itens básicos de praia (guarda-sol, esteira, cadeira) sai por uma bagatela de 800 reais. A campeã, em preços abusivos, parece ser a Barraca Tropical, na praia de Geribá, Armação dos Búzios (RJ), que tasca na testa da freguesia 470 reais por um prato de filé de frango, fritas e salada; e 580 reais por um pratinho de iscas de peixe e camarão. Foi até alvo de comentário no programa "Balanço Geral", da TV Record. E na Paraíba, flagraram uma garrafa fake de Coca-Cola. Parece Coca-Cola, tem embalagem grudada de Coca-Cola, mas não é. Sabe deus o que tem ali dentro.
Afora a privatização, a cobrança ilegal, os preços extorsivos, tem o barulho. O insuportável ruído de milhões e milhões de caixas de som, arruinando a paz da coitada que quer descansar na praia. Uma senhora, sentada na praia das Canasvieiras, em Florianópolis (SC), gravou uma mensagem singela: "Gente, não aguento tanto barulho. É som que não acaba mais. Um barulho ensurdecedor, é ambulante vindo a cada minuto, vendendo canga, relógio, comida até faca vieram me vender. Faca! Não tenho um momento de paz. Florianópolis nunca mais".
Em São Paulo, as caixas de som foram proibidas nas praias. Na Praia Grande (SP), teve até tumulto quando a guarda municipal recolheu caixas de som de turistas arruaceiros. No Rio, também houve grande apreensão de caixas de som.
E quando os turistas vão embora, eles deixam atrás de si um mar de detritos. São garrafas de plástico, latinhas, embalagens, restos de comida e bebida. Na praia do Capão da Canoa, litoral norte gaúcho, não tinha mais areia na praia, depois das comemorações de Ano Novo. Era só lixo. A pessoa caminhava sobre detritos. A praia da Enseada, no Guarujá (SP), também registrou grande acúmulo de lixo.
Isso tudo sem esquecer os turistas que param os carros em Peruíbe (SP), vão à praia e, quando voltam, descobrem que seus veículos ficaram sem as rodas. E o tradicional arrastão em São Vicente (SP), sentido Praia Grande...
Está sendo um verão com tantos ocorrências lamentáveis que o jornal "O Globo" escreveu em editorial: "Brigas, superlotação e desordens acendem alerta para os riscos do turismo de massa predatório nas principais praias do país". A solução, segundo "O Globo" dá a entender, seria manter os pobres longe das praias. Na realidade, o ideal seria fechar as portas das praias aos condomínios e prédios, que destroem as belezas naturais, não tratam seu esgoto e resolvem o problema jogando o cocô diretamente na praia. O ideal seria que o acesso às praias tivesse sido feito por trem e não por veículos - igualmente predatórios - e ao invés de milhões de casas, apartamentos e mansões à beira-mar houvesse apenas alguns hotéis e pousadas para receber os turistas de verão. O mal já está feito. O Brasil destrói sempre suas riquezas e vai chegar um dia que isso não terá mais volta, se é que já não chegou esse dia.  

 
   
  

sábado, 10 de janeiro de 2026

Tiago Leifert me enganou

 

Tiago Leifert está feliz da vida com a Claro e me convidou para ser feliz também; só que não

Atualmente, estou no interior de São Paulo. Para me conectar com o mundo, comprei uma TV Box da Claro. A TV me oferece vários canais. Tem canal italiano, inglês, espanhol até brasileiro. Só não tem canal de São Paulo. Hoje, a TV Box escolheu uma certa "TV Integração" de Juiz de Fora. No SBT, é um pessoal de Minas. Na Bandeirantes e na Record, igualmente. É tudo trem bão. O problema é que não moro em Minas. Estou em São Paulo. Gostaria de me informar sobre como estão as coisas em... São Paulo. 
Antes dos mineiros, a TV Box me ofereceu os cariocas. Todos os telejornais - da Bandeirantes, SBT, Rede Vida, Globo, Record - todos eles eram do Rio de Janeiro. Se eu fosse para o Rio, dar um passeio por lá, tomando cuidado para não levar tiro no Complexo do Alemão, até seria legal ter informações sobre os fluminenses, só que não. Não tenho a menor vontade de passear no Rio. Vou sempre preferir São Paulo, apesar de Vinícius Moraes criticar a cidade, dizendo que você anda em São Paulo, anda, anda e anda e nunca chega na praia. Graças a Deus, Vinícius. Felizmente! Odeio praia. Odeio gente melecada de óleo, repelente, hidratante. Detesto aquelas barracas com som no último volume. Muita gente barriguda, cheia de pelanca, engordurada e areia grudenta no corpo. Aquele cheiro de cerveja quente e farofa. Sem esquecer do mar poluído e das viroses. 

E antes dos cariocas, a TV Box me dava de presente o pessoal do Espírito Santo. Não conheço ninguém no Espírito Santo. Nos próximos dez anos, tenho certeza de que não irei a Vitória, nem a trabalho, nem a passeio.

E aí era um revezamento: um dia, eram os telejornais cariocas; no outro dia, os do Espírito Santo; os de Minas. Uma manhã, apareceu até um telejornal de Pernambuco, veja você. Quase todos os estados do Brasil apareciam na minha TV, menos os do estado onde eu moro. Uma pena. 
Me senti logrado pelo Tiago Leifert. Ele parecia tão feliz com a Claro. Ele me convidava a ser feliz também. Venha pra a Claro, ele falava, você merece o novo. Eu queria o novo, queria ser feliz.
 
Então, tem início o sofrimento. A tentativa desesperada de entrar em contato com a Claro e reclamar da TV Box. A Claro tem um aplicativo que não funciona. Foram dezenas de tentativas em pedir assistência técnica. O aplicativo perguntava:
"Olá, bom dia!
Hum, deixa eu ver como eu posso te ajudar 🤔
Eu consigo te ajudar com diversos serviços da Claro 😊
Escolha uma das opções:
Fatura
Suporte técnico
Outros assuntos".
Aí tinha início a romaria. Eu clicava em "suporte técnico". Mencionava problema nos canais da TV e depois de várias perguntas e respostas, saía a sentença devastadora:
"Desculpa, houve uma falha no nosso sistema 😳
Volta mais tarde que eu consigo te ajudar!"

Acho legal esses imojis. Eles tornam a mensagem incompetente mais incompetente ainda. É como se uma criança meio aparvalhada ficasse em dúvida na hora de somar dois mais dois e desenhasse uma carinha engraçada, para o professor exigente riscar com caneta vermelha e lhe meter um zero na cabeça.

Desisti do aplicativo, Tiago Leifert. Liguei para o telefone da Claro. Atendeu uma pessoa. Felizmente. Não era um robô burro. Era uma pessoa. Expliquei o problema. Ela demorou para entender, mas conseguiu. E me perguntou: "A sua TV Box não está funcionando?". "Está", falei. "A TV Box funciona normalmente, mas os telejornais que são exibidos vêm de outros estados e não de São Paulo." Ela resolveu o problema. O problema dela. Desligou o telefone na minha cara, Tiago Leifert.

Enfim, peguei o carro. Fui tipo "on the road", estrada afora. Percorri quarenta quilômetros. Paguei o pedágio caro do nosso querido governador Tarcísio. Cheguei nessa outra cidade, onde tem uma lojinha da Claro. 
Um rapaz, muito solícito, me atendeu. Ligou para algum lugar misterioso e disse: "Vamos trocar a sua TV Box. Amanhã, de manhã, irá um técnico na sua residência e vamos substituir o aparelho". Saí da lojinha, feliz da vida, cantando e saltitando, como Dorothy, depois de conhecer o Homem de Lata. Percorri outros quarenta quilômetros. Paguei novo pedágio para o nosso amado governador. E cheguei em casa.

Pena que, no dia seguinte, ninguém apareceu, Tiago Leifert. Ninguém. Aí chorei muito, como o pequeno Simba ao se deparar com o corpo sem vida de Mufasa.     
   

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O péssimo serviço prestado pelas concessionárias de energia

 

Gastar dinheiro em rede de energia aérea é investir no passado 

A cidade onde moro no interior de São Paulo é abastecida com energia elétrica por uma concessionária, chamada CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz). Na realidade, não é uma companhia paulista, porque é uma estatal chinesa, com nome inglês – State Grid Corporation of China. A SGCC assumiu a concessão de fornecimento de energia em 2017. Quase toda semana, a luz acaba em casa. Assim, sem mais nem menos, você está trabalhando no computador, o ar-condicionado ligado, e puf! Acabou a luz. Espera aí: voltou! Não, acabou de novo. Um momento... Voltou. É uma CPFL vagalume. Às vezes, demora horas para normalizar o serviço. Na cidade, as reclamações são muitas. A dona da pizzaria reclama que em um dos apagões o frigorífico dela foi pro vinagre. Outro diz que a geladeira morreu; um terceiro fala que foi o micro-ondas.

Em São Paulo, o fornecimento de energia é oferecido pela italiana Enel. A sigla significa: Ente Nazionale per l’Energia Eletttrica (entidade nacional de energia elétrica). A Enel está ameaçada de perder a concessão, por causa dos problemas causados aos paulistanos. Uma chuva mais forte, caem árvores sobre a rede elétrica, fios entram em combustão... Puf! Milhares de domicílios e comércios no escuro. As pessoas se revoltam, protestam, os meios de comunicação vão até os consumidores e levam à TV, aos jornais, rádios as reclamações. Recentemente, enquanto milhares estavam no escuro, um grupo de funcionários da CPFL fazia uma dancinha, em plena avenida Paulista. Disseram que seria um clipe de fim de ano. Um acinte ao consumidor que paga e toma prejuízo na cabeça.

Há um clamor intercontinental, podemos dizer assim, contra a privatização de certos serviços essenciais. Nos Estados Unidos, França, Reino Unido e Alemanha, 884 empresas de saneamento e fornecimento de água foram reestatizadas. O motivo é elementar: as concessionárias não davam conta do recado.

Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os serviços de telefonia no Brasil foram privatizados. Foi uma benção dos céus. Na época, um simples telefone custava quase o preço de um carro zero quilômetro. Tinha gente que vivia de alugar e vender telefone. Ganhava uma nota preta. Com a privatização, acabou a mamata e todo brasileiro pôde ter direito ao seu telefone. Hoje, são 272 milhões de celulares de posse de cada cidadão desta Terra Brasilis. Ou seja, 1,3 celular para cada brasileiro.

Então, a privatização não é necessariamente errada, mas quando um determinado serviço é privatizado – porque o governo não consegue dar conta – a empresa proprietária da concessão deveria oferecer um serviço perfeito. Sem críticas, sem esse mal-estar generalizado que os consumidores sentem em relação às concessionárias, como CPFL e Enel.

Um erro elementar é o investimento em postes na rede aérea. Foi por volta de 1920 que as ruas das principais cidades brasileiras começaram a ser eletrificadas. O sistema é o mesmo: finca-se um poste na rua, sobre ele colocam-se uns varões e passam-se os fios lá por cima. Acontece que as ruas sempre têm árvores e as árvores têm galhos e os galhos nunca se deram bem com a rede elétrica. Eles costumam se enroscar nos fios, eles quebram e desabem sobre a fiação, gerando explosões e interrupção do fornecimento de energia. Para evitar o problema, que é crônico, porque chove, porque os galhos vão arrebentar mesmo a rede elétrica, vários países optaram pela eletrificação subterrânea. É o caso da França, Reino Unido, Espanha, Holanda, Estados Unidos e até a Argentina (Buenos Aires).  Os motivos são vários: estética (as cidades ficam mais bonitas sem toda aquela “fiarada” em cima da cabeça da gente), confiabilidade (ventos fortes e tempestades não interrompem o fornecimento de energia) e mais segurança (milhares de pessoas são vítimas de descargas elétricas provocadas por fios tombados nas ruas e avenidas).

Aqui onde moro, ocorre um acúmulo de erros. A CPFL está trocando os postes. Ou seja, investindo no passado. Ao invés de enterrar a fiação, prefere enterrar postes. Acontece que sobre os postes não há apenas os fios da CPFL. Não, não, não...Tem também a fiação das empresas que fornecem internet. Essas empresas, como a Zaaz, por exemplo, colocam suas fibras óticas nos postes da CPFL. E a CPFL odeia isso. Entende que a fibra ótica seria uma espécie de parasita enroscado em seu poste querido. Então, observei os eletricistas da CPFL trocando os postes velhos pelos novos e de quebra arrebentavam toda a fiação da internet. Eles faziam isso com ódio mesmo, com muita raiva. Vi um eletricista pegar um tipo de machadinho e lascar o negócio sobre a fibra ótica. Quem dependia da Zaaz para ter internet em casa ficou até cinco dias sem o serviço. Hoje, a internet virou um serviço essencial. Sem internet, a gente não consegue mais ter controle sobre a própria vida. Cadê o meu saldo no banco, cadê a família, onde estão os amigos e os clientes? Todo mundo sumiu, por causa da internet que se foi.

Então, a Zaaz demorou, mas veio e recolocou os cabos no lugar. E alguns dias depois, os eletricistas da CPFL retornaram para trocar novos postes e voilà: os pobres dos cabos da internet foram atirados com violência extrema no chão (alguns continuam até hoje por aí). Novamente, a Zaaz e outras empresas de internet voltaram e foi uma luta para restabelecer o serviço. Em meados deste mês de janeiro, outros postes serão trocados e mais uma vez os cabos de fibra ótica vão ser atirados no chão. É um sistema, como vou dizer, meio burro de trabalho, porque o pessoal da internet poderia conversar com a CPFL e trabalhar em conjunto, mas isso não acontece.

A CPFL pede para a gente baixar o aplicativo dela e informar quando deu algum problema no fornecimento de energia. Acontece que, sem energia, a internet não funciona e consequentemente também o aplicativo não pode ser colocado pra funcionar. Não pega nem no tranco. Aí cabe a você sair andando pelo mundo, em busca de um sinal salvador.

O aplicativo nem sempre funciona direito. Como é um robô que está lhe atendendo, às vezes ele não entende o que você quer. Você passa o número da instalação para o robô e ele diz: “Não encontrei seu documento em nosso sistema. Qual seu nome completo?” Você digita o nome e ele pergunta novamente: “qual seu nome completo?”. E outra vez, e outra vez, e outra vez. É um robô burrinho, coitado.

A Zaaz marca visita técnica para tal dia e tal horário e não aparece. Você reclama e é informado que tem uma visita técnica marcada para dali a pouco. Você não sai de casa, fica aguardando e ninguém aparece. Reclama novamente. Eles marcam para outro dia. E não aparecem. Finalmente, você consegue falar com um atendente da Zaaz. Ele pede uma foto do roteador. Explico que ele não precisa ver a foto, porque os cabos da internet foram jogados no chão, por isso que a internet não funciona. “Estão no chão”, eu grito, meio fora de controle. Mesmo assim, ele pede a foto. Tiro a foto e mando pra ele, com aquela demora básica de vários minutos, porque, afinal, estou sem internet em casa.

Um festival de incompetência. Depois de oito dias sem internet, reclamei no Reclame Aqui e apareceu uma funcionária que conseguiu mandar uma equipe em casa e o serviço foi normalizado. Mas é uma luta. Uma luta inglória. Fica sempre a sensação que você está perdendo. Parece até título do livro do Walter Mostley, “Sempre em desvantagem”.     


quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

São Silvestre, a corrida

 

A mais tradicional corrida de rua do País completou cem anos
A São Silvestre é a corrida de rua mais tradicional de São Paulo e do Brasil. Completou 100 anos ontem. Em 1924, o jornalista Cásper Libero esteve na França e ficou deslumbrado com uma competição de rua, disputada à noite. Decidiu trazer a novidade para São Paulo. Deu certo. A passagem de ano e a corrida de São Silvestre completavam-se. Os vencedores da prova costumavam chegar por volta de meia-noite, quando o novo ano tinha início, entre rojões, fogos de artifício e o delírio da multidão na avenida Paulista, diante do prédio da Gazeta. Era emocionante. 

Quem exibia a prova era a TV Gazeta. Acompanhar a disputa, na época, era complicado, porque a transmissão se interrompia a todo momento. A imagem tremia. Entrava um sinal do prefixo da TV. Os recursos técnicos da Gazeta deixavam a desejar. O narrador falava com a voz tremida, meio aos solavancos e frequentemente sumia. Mesmo assim, no meio daquela precariedade da transmissão, a gente torcia. O último brasileiro vencedor tinha sido Sebastião Alves Monteiro, em 1946. 

Depois, vieram lendas do atletismo, como Emil Zatopek  - "a locomotiva humana" - um tcheco que elevou o padrão de disputas e tornou a competição brasileira conhecida nos grandes centros. Meu pai foi assistir e ficou assombrado com a velocidade de Zatopek. "Enquanto os outros estavam virando a primeira esquina, o Zatopek estava próximo da linha de chegada", meu pai exagerava.

Eu era criança, quando vi o belga Gaston Roelants se sagrar tetracampeão. Roelants me deu vontade de participar da prova. Parecia fácil. Até então, a corrida tinha 8 quilômetros e 700 metros. 

Mas quando chegou a minha vez de participar da São Silvestre o trajeto havia sido ampliado e eram agora 15 longos quilômetros.  Mesmo velho e cansado, achei que estava na hora de participar, de sentir o "glamour" da mais tradicional corrida de rua do País. Treinei bastante, para evitar morrer no meio da rua. Enquanto os vencedores, faziam a prova em 45 minutos, em média, eu demorava duas horas para completar os malditos 15 quilômetros. É claro que, com o passar dos anos, o tempo tende a baixar. Meu melhor tempo foi de uma hora e cinquenta. Se corresse mais uns cem anos, talvez chegasse nos 45 minutos dos finalistas.

A São Silvestre, que tem esse nome obviamente em homenagem ao santo do dia, é uma competição difícil, porque no dia 31 de dezembro está quente e abafado. Quando chove, é pior, porque sobe um vapor do chão que deixa a gente sem respirar. A chuva bate no asfalto fervente e aquela evaporação é insuportável. Além do calor, o que me incomodava muito eram os folclóricos. Gente pintada, gente fantasiada. Tinha um cidadão vestido de noiva, com buquê e tudo que corria conosco. Para mim, corrida de São Silvestre era uma coisa séria. Nada a ver com aqueles folclóricos irritantes. 

A largada acontecia em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). Comecei a prova e quando cheguei na rua Augusta senti uma dor lancinante no músculo adutor da perna esquerda. Pus a mão na coxa. Doía muito. Justamente nessa hora, um fotógrafo me flagrou e o jornal da São Silvestre relatou: "Danilo Angrimani com cara de dor já nos primeiros 300 metros da prova". Dedo-duro sacana! O que o infeliz não contou é que completei os 15 quilômetros. Cada quilômetro com uma dor terrível na coxa. Mas completei. Sabe-se lá por quê.

Em 2011, uma tarde assustadoramente quente, com muito sol, estava no final do Minhocão, virando à direita para pegar a avenida Pacaembu, quando vi o ganhador da São Silvestre do ano anterior - era um brasileiro - vomitando tudo que tinha direito. O coitado estava apoiado no guard-rail do Minhoão e dava adeus à corrida. Pensei: "Putz, se o vencedor de 2010 está desse jeito, imagine o que vai acontecer comigo quando chegar na Brigadeiro?". 

A avenida Brigadeiro Luís Antônio é uma subida cruel. Você está com a língua de fora, pedindo para Jesus vir lhe buscar, quando chega na Brigadeiro e olha aquela subida interminável. As pernas querem parar. O cérebro insiste em parar. O corpo todo pede pelo amor de deus para você entrar na rua Maria Paula e esquecer aquilo tudo. Mesmo assim, você continua. Vai subindo. Dos dois lados da rua, grupos de pessoas acenam para você. Estendem as mãos. Eles o incentivam a morrer. A melhor hora é quando você chega no final da Brigadeiro, vira à direita na avenida Paulista e vê o marco da chegada ali na frente. Você conseguiu. Superou seus limites. Não morreu (ao contrário do que imaginava) e agora é correr para o abraço da rapeize.

Assisti a São Silvestre de 1958 a 1979, torcendo para ver um brasileiro cruzar em primeiro na linha de chegada. Não fui feliz. Ganhava sempre um estrangeiro. Em 1980, decidi que iria fazer outra coisa no dia 31 de dezembro, mas não veria a São Silvestre. "Não adianta", falei para a família, "nenhum brasileiro ganha mesmo".  Só que ganhou. José João da Silva, atleta do São Paulo, chegou em primeiro e quebrou aquele jejum que já durava longos 34 anos. "Fizemos uma festa tremenda", meu pai contou, "pena que você não estava aqui". Pois é...

Este ano assisti a São Silvestre pela TV. Recentemente, estava treinando, correndo 14 quilômetros e estourei o tendão de aquiles da perna esquerda. Muito gelo e compressa quente. Vi ganhar um etíope e uma atleta da Tanzânia, porque faltam investimentos para os atletas brasileiros. 

O terceiro colocado, o brasileiro Fábio de Jesus, declarou para o Uol: "O atletismo está acabando, indo água abaixo. Os atletas precisam se virar, se quiserem competir: Às vezes a gente treina na rua, com carro atrapalhando, cachorro passando, correndo risco de torcer o pé. Muitas vezes a gente chega na pista e é barrado". Até os 14 anos, informou a reportagem, Jesus corria descalço, em Monte Santo, na Bahia. Foi coletor de lixo e mudou-se para São Paulo, para se dedicar exclusivamente ao atletismo.

Além da falta de incentivo, destacada por Fábio de Jesus, o jejum de brasileiros no primeiro lugar do pódio já incomoda novamente. Faz 15 anos que um brasileiro não ganha a prova. 

Depois de ter participado de algumas provas da São Silvestre, posso dizer que seria muito melhor se a prova fosse disputada à noite. É mais fresco, mais saudável, mais humano. Em 1982, a TV Globo passou a transmitir a prova, com toda a técnica e a competência que lhe é habitual, nos livrando do quase amadorismo da TV Gazeta. Em 1989, no entanto, a mesma Globo mudou o horário da disputa, passando para a tarde. Essa alteração tirou todo o glamour e a emoção da São Silvestre. 

Durante uma cobertura noturna da São Silvestre, antes da mudança de horário, lembro de um repórter, muito emocionado. Os atletas estavam chegando na Paulista, os rojões estouravam em volta, o público delirava e o repórter, que era carioca, começou a chorar. "Isso é lindo, meu deus", ele falou para os jornalistas próximos dele. 

A São Silvestre mudou para a tarde e agora é disputada de manhã. Por causa de sua grade de programação, que deixa aqueles shows insossos, com artistas que a gente mal lembra o nome, para serem transmitidos na hora da virada, a Globo conseguiu fazer mais uma vítima. É uma pena, porque tem eventos tradicionais que não deveriam ser deformados. Imagine se a BBC sugerir que Wimbledon troque suas quadras de grama por grama artificial. Acho que até o rei Charles iria se engasgar com o chá. 

Erika Hilton veio pra bagunçar o coreto

  A deputada Erika Hilton foi eleita presidente da Comissão de Mulheres A deputada Erika Hilton (Psol-SP) já conseguiu uma vitória retumbant...