segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

O Carnaval começa antes e acaba tarde demais

 



Em janeiro, temos notícias dele. Às vezes, antes. Tem um grito ali, um bloco lá. Em fevereiro, ele parece se prolongar pelos 28 dias. Infelizmente, em certos anos, ele começa em março. Então, a gente se arrasta por janeiro, fevereiro e vai até março nesse sofrimento de blocos, ruas interrompidas, desfiles, reportagens longas, exaustivas, intermináveis.

Este ano, as chamadas eram todas na base do: "Divirta-se, mas tome cuidado. Esconda seu celular dos criminosos". Eram entrevistados personagens que ensinavam como esconder o aparelho entre as coxas, no meio da bunda, em bolsos escamoteados sob uma barriga falsa. A polícia não dá mais conta da bandidagem e transfere a culpa do assalto para a vítima. "Ah, ele levava o celular dentro da mochila. Não pode. Tem de esconder mais", "ah, ele estava com os vidros do carro abertos"... 

Desculpe, é nosso direito carregar o celular onde a gente quiser. Até mesmo atrás da calça, como as mocinhas atrevidas costumam fazer ao envergar shorts sumários com a cabecinha do celular aparecendo no bolsinho, sem que sejamos punidos por isso. Por que cabe à população pagar seus impostos e não ter a mínima, a mais insignificante parcela de tranquilidade?

Não basta trancar a porta. Tem de instalar alarme. Precisa pôr câmera. Precisa contratar aqueles "guardas" de quarteirão, que ficam andando de moto à noite, fazendo com a buzina "uó, uó, uó". É necessário entrar para grupo de WhatsApp dos vizinhos, para ficar de sobreaviso. A qualquer momento, o ataque pode ocorrer. 

Essa é uma época estranha, porque, do nada, de repente, começa tocar uma música e as pessoas ficam pulando, gritando, cantando, rebolando. Saem uns atrás dos outros, em meio a uma música em volume ensurdecedor. Um ser desavisado, que viesse de outro mundo, acharia que tinha desembarcado em um hospício. Imagine: o sujeito está parado, conversando normalmente. Em segundos, começa a pular, gritar, gesticular. Beija e é beijado. Apalpa e é apalpado. É uma alegria pouco espontânea. É uma alegria com hora marcada. 

E não há o que comemorar. Essa gente está tão feliz assim por quê? O que é tão maravilhoso assim em sua existência que a leva a ficar em estado de estupefação por três dias (na realidade, são bem mais do que três)? Quer esquecer os problemas? Mas os problemas estão aí. Bem diante dela. Vão continuar existindo e importunando. Não adianta sair pulando, para depois cair na real. 

Precisa dessa época do ano para transar, para "passar o rodo"? Isso está mais para anos 50 do que para século 21. Sexo deixou de ser pecaminoso em 1968. Nos anos seguintes, predominou a regra do "não tem tu, vai tu mesmo". 

Na TV, pode até existir algo mais entorpecedor e narcotizante que os desfiles, mas desconheço. Dizem que é diferente, mas ao ouvido leigo as músicas parecem todas iguais e cantadas pela mesma pessoa, no mesmo ritmo, na mesma entonação. Um dos enredos fala em Lampião, "o rei do cangaço". É incompreensível que um ladrão de estrada, seguido por um bando de desvalidos armados, vestidos com roupas de couro e cavalgando burros e mulas, possa ser personagem de algum enredo. O enredo, por sinal, fala de Céu, Inferno, Padre Cícero. Diz que Lampião foi expulso do Inferno pelo demônio e tentou entrar no Céu, disfarçado de Padre Cícero. É tão infantil, tão bisonho, tão pouco reflexivo, sem qualquer profundidade filosófica, que a gente perde até a esperança em dias melhores.

São dias em que as musas andam com bandeiras coloridas, envergando roupas sumárias e sapato de salto alto. Imagine os pés da musa depois de horas sambando no asfalto com aquele sapato de desfile de passarela? Até recentemente, as musas usavam biquínis. Depois, se livraram da parte de cima. Faziam topless. Agora, usam tapa-sexo ou biquíni de fita isolante. As que fazem topless hoje em dia perdem o marido. Foi o caso de uma certa Mulher Mamão ou Abacaxi ou Jaca. Algo nessa linha hortifruti. Ela mostrou os seios na avenida e o marido puxou o carro.

Nesses dias de muito ruído e pouca inteligência, as TVs costumam ficar sem material para seus telejornais. Não há notícia em política, nem economia, nem nada estreando no circuito cultural. É um momento de espera. O ano vai começar depois... Só que este ano foi diferente. Os telejornais dividiam o espaço entre o bando que saltitava com a desgraça dos deslizamentos no litoral de São Paulo. Saía de cena o sujeito fantasiado e entrava um desgraçado com lama até a cintura. Chegam os especialistas e, no resumo da ópera, falam o óbvio: a ocupação do espaço foi feita sem planejamento, com a omissão do poder público e a voracidade dos grileiros de sempre. 

Mas não esquenta. Ano que vem tem mais. Tem mais desfiles, mais blocos, mais alegria cronometrada e mais desgraça nos dilúvios. Também cronometrada. 

  


 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

A decadência da Igreja e a perda do controle dos corpos

 


O quadro era imenso (do ponto de vista da criança). Mostrava Jesus com o coração em chamas, aberto e circundado pelo coroa de espinhos. Nas mãos, pontos de sangue que indicavam que bem ali, na palma da mão, eles tinham cravado os pregos na hora da crucificação. Cabelo longo e loiro descendo na altura dos ombros, barba e bigode, usando um manto claro sobre uma vestimenta vermelha, Jesus nos olhava. Sua expressão era um misto de dor, de alguém que havia sofrido muito. Era um olhar que pedia piedade e ao mesmo tempo nos questionava. Era como se ele dissesse: "Sofri muito por você e é assim que você me recompensa?". Não adiantava escapar dos olhos dele. Em qualquer ponto do quarto, era só olhar para o quadro e Jesus estava nos mirando. Lá do alto, no ponto central do quarto. Um olhar inquisidor.

A geração anterior à minha conduzia os filhos dentro do perímetro das interdições. Comer carne na sexta-feira santa era um pecado quase imperdoável. Lembro de um feriado que fui ao cinema com um amigo e na volta paramos na lanchonete. As lanchonetes eram uma novidade: hambúrguer ou cheeseburguer, servidos com ketchup, davam água na boca na gente. Gastamos nossa grana com o lanche de carne e, ao chegar em casa, topei com a minha mãe na porta conversando com as vizinhas. Contei o que tinha comido no lanche e a minha mãe quase desmaiou. Lembro dela pondo a mão no coração, sentindo o órgão batendo apressado: eu tinha cometido um pecado gravíssimo. Era sexta-feira e eu tinha comido carne. Vi as portas do inferno abrirem-se para mim. 

Os interditos eram tantos e tão variados que demorou toda uma geração para implodir tudo aquilo. Masturbação, sexo antes do casamento, homossexualismo, usar roupas decotadas, faltar à missa... Era pecado para todo lado. Pecar contra a castidade, talvez fosse o mais temido. A gente se masturbava com Jesus nos olhando. A gente gozava, sabendo que trilhava o caminho da desgraça. Nossa alma ia mesmo para o beleléu. Foi graças à geração de 1968, que esse edifício prisional, construído pela Igreja, veio abaixo.

Lendo "Os Anos", da vencedora do Prêmio Nobel, a francesa Annie Ernaux, em determinado momento da história, ela se detém para refletir sobre esse colapso de poder da Igreja. Ela escreve:

"A religião católica desapareceu discretamente do cotidiano. As famílias não transmitem mais nem o conhecimento nem a prática. A despeito de alguns ritos, ela não é mais signo de respeitabilidade. Como se tivesse sido muito servido, usada por milhões de padres, de missas e de procissões, durante dois milênios (...) A Igreja não aterroriza mais o imaginário dos adolescentes púberes, ela não regulamenta mais as trocas sexuais e o ventre das mulheres escapou de seu controle. Ao perder o campo de sua ação principal - o sexo - ela (a Igreja) perdeu tudo. Fora de um curso de filosofia, a ideia de Deus não é mais francamente válida nem algo a se debater."

Sobre a revolução de 1968, ela escreve:

"Pensar, falar, escrever, trabalhar, existir de outra forma: a gente estimava não ter nada a perder se experimentasse de tudo. 1968 foi o primeiro ano do mundo".

"Os Anos" utiliza o recurso literário da impessoalidade. A autora não utiliza "eu", mas "ela". "Ela" é a protagonista. É "Ela" quem nasce em meio à Segunda Guerra, que cresce nos anos de penúria pós-guerra, que vai se casar, ter dois filhos, fazer carreira acadêmica, se divorciar e envelhecer, em uma França rica, país do primeiro mundo, mas repleto de cicatrizes e milhões de imigrantes que não param mais de chegar, além do sempre presente fantasma da direita que tira o sono dos eleitores de esquerda.

Como Annie Ernaux comenta: "Os Anos" tem uma personagem principal que vive a história, mas também a própria História passa por ela. A autora seleciona fotos antigas e comenta a roupa que usava, quem a acompanhava, o local onde estava e a partir daí mergulha nas lembranças, nos filmes, nos acontecimentos. 

Muitos desses filmes, como "Choses de la vie", de 1970, por exemplo, marcaram época na França de Annie Ernaux e aqui no Brasil. Lembro de ter saído do cine Belas Artes, em estado de deslumbramento. Dirigido por Claude Sautet, com Michel Piccoli e Romy Schneider, nos papéis principais, a produção fala de um arquiteto divorciado que sofre um acidente de carro e vê sua vida passar, como num filme, enquanto está entre a vida e a morte. É uma obra emocionante e bela, como uma pintura de Renoir.

Enquanto a geração de Ernaux não via a hora de sair de casa, já os filhos dela não têm pressa nenhuma. Estão bem na companhia da mãe. Abrem a geladeira. Comem o que têm vontade e na hora que querem. Fazem as refeições vendo TV com o prato no colo.

"Os Anos" tem passagens históricas memoráveis, como a posse de François Mitterrand, em 1981, que cravou uma vitória da esquerda francesa, algo que parecia impossível na época. A esquerda francesa finalmente chegava ao poder e, na companhia de Mitterrand, ministros "comunas": "Nós olhávamos os quatro ministros comunistas com curiosidade, como se fossem uma espécie exótica, espantados que eles não tivessem ar soviético". Mitterrand significava a concretude de todas as reivindicações da esquerda francesa da época: "rádios livres, o reembolso do dinheiro gasto com aborto, a aposentadoria aos 60 anos, 39 horas de trabalho semanal, a supressão da pena de morte etc."   

Me flagrei com os olhos úmidos lendo trechos de "Os Anos". Eu estava na França em 1981, quando houve a posse de Mitterrand, e lembro de ter transcrito o discurso de posse do novo presidente em uma carta, que enviei aos meus parentes. Era um discurso, que parecia o Sermão da Montanha repaginado:

“A França envia sua saudação às mulheres, aos homens, também aos garotos. Sim, aos garotos heróis que se fizeram aqui, nesta vila, defendendo outrora a honra de sua pátria e àqueles que estão tombando agora por todo o mundo por um nobre ideal. Saudações aos humilhados, aos imigrantes, aos exilados sobre sua própria terra que querem viver e viver livres. Saudações a todos aqueles que estão sendo amordaçados, perseguidos e torturados, que querem viver e viver livres. Saudações aos sequestrados, desaparecidos que somente queriam viver e viver livres. Saudações aos padres brutalizados, aos camponeses sem terra, aos sindicalistas presos, aos desempregados que vendem seu sangue para poder sobreviver, aos índios perseguidos em suas terras, aos trabalhadores sem direitos, aos resistentes sem armas. A todos, a França diz: coragem, a liberdade vencerá”. 

A minha geração fez o possível para se distanciar da anterior. Eu dormia em sleep bag sobre um tatame. "Cama de tatame pela vida afora", como dizia a música de Gil. Virei vegetariano. Viajava de carona pelo País. Deixei o cabelo crescer e caminhava pela estradas com a mochila nas costas. As namoradas faziam sexo antes do casamento, usando um contraceptivo mágico, chamado "pílula". Com 20 anos, fui morar com amigos. Comprei uma moto e comecei a participar de comícios contra a Ditadura Militar. Todos os comícios. Até aqueles em que iam pouca gente. A música que ouvíamos não tinha qualquer relação com a dos nossos pais. Até mesmo a música que dizia que "ainda somos os mesmos e vivemos com nossos pais" era diametralmente oposta a Noel Rosa, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Francisco Alves, ídolos da geração anterior. Estávamos em guerra contra os velhos e procurávamos contestar tudo. Deixar a terra arrasada. Talvez a geração seguinte à minha não sinta a mesma empatia que senti ao ler "Os Anos". Vivemos muitas mudanças em pouquíssimo tempo. E foi devastador.

Estava sozinho em um café, lendo o livro de Annie Ernaux, e procurei disfarçar a emoção, limpando os óculos embaciados. Então, lembrei dos quatro anos perdidos, desse terror social, dessa coisa maligna que ocupou a Presidência e fiquei imaginando como estaremos daqui a quatro anos. Será que voltaremos ao jugo do horror ou seremos melhores, mais libertos, mais ricos e evoluídos?

Quem viver, verá.

Tradução para o francês:

"Le déclin de l’Église et la perte de contrôle sur les corps"


Le tableau était immense (du point de vue de l'enfant). Il représentait Jésus avec le cœur en flammes, ouvert et entouré d'une couronne d'épines. Dans ses mains, des taches de sang indiquaient que c'était bien là, dans la paume de la main, qu'ils avaient enfoncé les clous au moment de la crucifixion. Les cheveux longs et blonds lui descendaient jusqu'aux épaules, avec une barbe et une moustache, vêtu d'un manteau clair sur une robe rouge, Jésus nous regardait. Son expression était un mélange de douleur, comme celle de quelqu'un qui avait beaucoup souffert. C'était un regard qui demandait pitié tout en nous interrogeant. C'était comme s'il disait : "J'ai tant souffert pour toi, et c'est ainsi que tu me récompenses ?". Il était impossible d'échapper à son regard. De n'importe quel point de la chambre, il suffisait de regarder le tableau pour voir Jésus nous fixer. Là-haut, au centre de la pièce. Un regard inquisiteur.

La génération précédente conduisait ses enfants dans le périmètre des interdictions. Manger de la viande le Vendredi saint était un péché presque impardonnable. Je me souviens d'un jour férié où je suis allé au cinéma avec un ami et, au retour, nous nous sommes arrêtés dans une sandwicherie. Les sandwicheries étaient une nouveauté : un hamburger ou un cheeseburger, servis avec du ketchup, nous faisaient saliver. Nous avons dépensé notre argent pour un sandwich à la viande et, en rentrant à la maison, je suis tombé sur ma mère à la porte, en train de discuter avec les voisines. Je lui ai raconté ce que j'avais mangé et ma mère a failli s'évanouir. Je me souviens d'elle mettant la main sur son cœur, sentant l'organe battre précipitamment : j'avais commis un péché très grave. C'était un vendredi et j'avais mangé de la viande. J'ai vu les portes de l'enfer s'ouvrir devant moi.

Les interdits étaient si nombreux et si variés qu'il a fallu toute une génération pour faire imploser tout cela. La masturbation, le sexe avant le mariage, l'homosexualité, porter des vêtements décolletés, manquer la messe... Il y avait du péché partout. Pécher contre la chasteté était peut-être le plus redouté. On se masturbait sous le regard de Jésus. On jouissait, sachant qu'on empruntait le chemin de la misère. Notre âme allait vraiment en enfer. C'est grâce à la génération de 1968 que cet édifice carcéral, construit par l'Église, s'est effondré.

En lisant "Les Années", de la lauréate du prix Nobel, la Française Annie Ernaux, à un moment donné de l'histoire, elle s'arrête pour réfléchir à cet effondrement du pouvoir de l'Église. Elle écrit :

"La religion catholique a discrètement disparu du quotidien. Les familles ne transmettent plus ni la connaissance ni la pratique. Malgré quelques rites, elle n'est plus un signe de respectabilité. Comme si elle avait été trop servie, utilisée par des millions de prêtres, de messes et de processions, pendant deux millénaires (...) L'Église ne terrorise plus l'imaginaire des adolescents pubères, elle ne réglemente plus les échanges sexuels et le ventre des femmes a échappé à son contrôle. En perdant le champ de son action principale - le sexe - elle (l'Église) a tout perdu. En dehors d'un cours de philosophie, l'idée de Dieu n'est plus vraiment valable ni quelque chose à débattre."

Sur la révolution de 1968, elle écrit :

"Penser, parler, écrire, travailler, exister autrement : nous estimions n'avoir rien à perdre en essayant tout. 1968 a été la première année du monde."

"Les Années" utilise le procédé littéraire de l'impersonnalité. L'auteure n'utilise pas le "je", mais le "elle". "Elle" est la protagoniste. C'est "Elle" qui naît au milieu de la Seconde Guerre mondiale, qui grandit dans les années de pénurie d'après-guerre, qui se mariera, aura deux enfants, fera une carrière universitaire, divorcera et vieillira, dans une France riche, pays du premier monde, mais rempli de cicatrices et de millions d'immigrants qui ne cessent d'arriver, sans oublier le fantôme toujours présent de la droite qui trouble le sommeil des électeurs de gauche.

Comme le commente Annie Ernaux : "Les Années" a un personnage principal qui vit l'histoire, mais l'Histoire elle-même passe par elle. L'auteure sélectionne de vieilles photos et commente les vêtements qu'elle portait, qui l'accompagnait, l'endroit où elle se trouvait, et plonge ensuite dans les souvenirs, les films, les événements.

Beaucoup de ces films, comme "Les Choses de la vie", de 1970, par exemple, ont marqué leur époque en France et ici au Brésil. Je me souviens être sorti du cinéma Belas Artes dans un état d'émerveillement. Réalisé par Claude Sautet, avec Michel Piccoli et Romy Schneider dans les rôles principaux, le film raconte l'histoire d'un architecte divorcé qui a un accident de voiture et voit sa vie défiler, comme dans un film, alors qu'il est entre la vie et la mort. C'est une œuvre émouvante et belle, comme une peinture de Renoir.

Alors que la génération d'Ernaux ne pouvait pas attendre de quitter la maison, ses enfants, eux, ne sont pas pressés. Ils se sentent bien en compagnie de leur mère. Ils ouvrent le réfrigérateur. Mangent ce qu'ils veulent et quand ils veulent. Ils prennent leurs repas en regardant la télévision avec leur assiette sur les genoux.

"Les Années" contient des passages historiques mémorables, comme l'investiture de François Mitterrand en 1981, qui a marqué une victoire de la gauche française, quelque chose qui semblait impossible à l'époque. La gauche française arrivait enfin au pouvoir et, aux côtés de Mitterrand, des ministres "communistes" : "Nous regardions les quatre ministres communistes avec curiosité, comme s'ils étaient une espèce exotique, étonnés qu'ils n'aient pas un air soviétique". Mitterrand représentait la concrétisation de toutes les revendications de la gauche française de l'époque : "les radios libres, le remboursement de l'argent dépensé pour l'avortement, la retraite à 60 ans, 39 heures de travail par semaine, l'abolition de la peine de mort, etc."

Je me suis surpris les yeux humides en lisant des passages des "Années". J'étais en France en 1981, lors de l'investiture de Mitterrand, et je me souviens avoir transcrit le discours d'investiture du nouveau président dans une lettre que j'ai envoyée à mes proches. C'était un discours qui ressemblait au Sermon sur la Montagne revisité :

"La France envoie son salut aux femmes, aux hommes, et aussi aux garçons. Oui, aux garçons héros qui se sont illustrés ici, dans ce village, défendant autrefois l'honneur de leur patrie et à ceux qui tombent maintenant à travers le monde pour un noble idéal. Salutations aux humiliés, aux immigrants, aux exilés sur leur propre terre qui veulent vivre et vivre libres. Salutations à tous ceux qui sont bâillonnés, persécutés et torturés, qui veulent vivre et vivre libres. Salutations aux kidnappés, aux disparus qui ne voulaient que vivre et vivre libres. Salutations aux prêtres brutalisés, aux paysans sans terre, aux syndicalistes emprisonnés, aux chômeurs qui vendent leur sang pour survivre, aux Indiens persécutés sur leurs terres, aux travailleurs sans droits, aux résistants sans armes. À tous, la France dit : courage, la liberté vaincra."

Ma génération a fait tout son possible pour se distancier de la précédente. Je dormais dans un sac de couchage sur un tatami. "Lit de tatami pour la vie", comme le disait la chanson de Gil. Je suis devenu végétarien. Je voyageais en auto-stop à travers le pays. J'ai laissé pousser mes cheveux et marchais sur les routes avec un sac à dos. Les petites amies faisaient l'amour avant le mariage, en utilisant un contraceptif magique appelé "la pilule". À 20 ans, je suis allé vivre avec des amis. J'ai acheté une moto et j'ai commencé à participer à des meetings contre la dictature militaire. Tous les meetings. Même ceux où il y avait peu de monde. La musique que nous écoutions n'avait aucun rapport avec celle de nos parents. Même la chanson qui disait que "nous sommes toujours les mêmes et vivons avec nos parents" était diamétralement opposée à Noel Rosa, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Francisco Alves, les idoles de la génération précédente. Nous étions en guerre contre les vieux et cherchions à tout contester. Laisser la terre brûlée. Peut-être que la génération suivante ne ressentira pas la même empathie que moi en lisant "Les Années". Nous avons vécu beaucoup de changements en très peu de temps. Et cela a été dévastateur.

J'étais seul dans un café, en train de lire le livre d'Annie Ernaux, et j'ai essayé de dissimuler mon émotion en essuyant mes lunettes embuées. Puis, je me suis souvenu des quatre années perdues, de cette terreur sociale, de cette chose maléfique qui a occupé la présidence et je me suis demandé où nous en serions dans quatre ans. Retournerons-nous sous le joug de l'horreur ou serons-nous meilleurs, plus libres, plus riches et plus évolués ?

Qui vivra verra.   

 



sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Golpe contra Dilma não foi golpe, mas foi imoral

Dilma foi absolvida das acusações por não ter causado dano ao erário

 Regina Duarte, uma apóstola da neodireita, nunca se casou, embora tenha vivido com cinco homens (não ao mesmo tempo) e tido filhos. Isso possibilitou que a "namoradinha do Brasil", solteira de fato, continuasse recebendo pensão do pai militar no valor de quase 7 mil reais. Não é ilegal, mas algumas pessoas poderiam dizer que é imoral, porque na prática ela estaria "casada", vivendo uniões estáveis.

O exemplo de Regina Duarte remete à velha discussão sobre o que é legal, mas também imoral. O impedimento de Dilma Roussef em 2016 foi absolutamente legal. O pedido de impeachment foi aceito pela Câmara (à época presidida por Eduardo Cunha). Foi analisado, votado e aprovado. Encaminhado ao Senado, que fez a votação sob a presidência de um ministro do Supremo Tribunal Federal. E Dilma foi impedida de continuar ocupando seu cargo. 

Tudo legal. Não teve cabo, soldado e jipe dando golpe. A tramitação do processo de impeachment obedeceu toda uma cadeia de etapas todas elas legais. Quem lê os editoriais do "Estadão" tem a absoluta certeza que foi tudo certo, nos conformes da lei. 

Só que todo esse processo foi imoral. Foi imoral, porque a então presidente Dilma não tinha cometido qualquer crime. Eleita com 54 milhões de votos, batendo seu adversário Aécio Neves, Dilma foi impedida de continuar na Presidência não por ter violado normas orçamentárias, mas por falta de sustentação política. 

Quem afirma isso não sou eu. Longe disso. É o caríssimo ministro do STF, Luís Roberto Barroso. 

Para a esquerda e para o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva houve um golpe de estado para derrubá-la. Lula fez esta afirmação durante visita recente ao Uruguai. 

Do ponto de vista legal, não houve golpe, mas o instrumento jurídico foi usado de forma imoral, para afastar uma presidente eleita democraticamente pelo voto popular. 

Se você quiser chamar essa manobra jurídica, política, pintada com cores legalistas de "golpe", não serei eu quem irá contestá-lo. 

É legal os juízes e promotores receberem "auxílios". O juiz mora em determinada cidade e mesmo assim recebe "auxílio moradia". É legal, mas acredito que a maioria da população brasileira considera imoral. Assim como a gente ergue a sobrancelha ao ouvir falar em "auxílio paletó", "auxílio mudança", carro com chofer, férias de 60 dias, sabendo que um estudo da Rede Pessan, de dezembro de 2022, informou que 33 milhões de brasileiros não se alimentam adequadamente. Ou seja, passam fome.  

O nepotismo é ilegal, mas - se fosse deputado - poderia nomear a esposa de um colega deputado, se ele também nomeasse a minha mulher. É um jogo de "ganha-ganha". Eu contrato; e o meu colega também. Não é ilegal, mas certamente é muito imoral.

Trair a namorada não é ilegal. Não tem qualquer lei que proíba traí-la, mas é imoral. 

CEOs e presidentes de organizações ganham toneladas de dinheiro na forma de "bônus". Seus subordinados têm dificuldade de pagar o aluguel da casa, por causa dos baixos salários. Não é ilegal os executivos encherem a pança de grana, mas é imoral.

Com a saída de Dilma, o vice-presidente Michel Temer (chamado por Lula de "golpista") assumiu a Presidência e aprovou a lei 13.467/2017, que visava reformar as leis trabalhistas. Depois que a nova lei trabalhista fosse aprovada, haveria tantos empregos, mas tantos empregos em tão grande número, que talvez fosse preciso importar mão de obra dos países vizinhos.

Só que não foi isso que aconteceu. Fechamos 2022 com quase 10 milhões de desempregados (9,9 milhões para ser exato, segundo o IBGE). Na prática, a "nova lei trabalhista" acertou uma bala de prata no coração do sindicalismo ao tornar a contribuição sindical não obrigatória. A lei Temer mexeu em 200 pontos da antiga CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Foi um míssil ultrassônico russo sobre o poder dos sindicatos. 

Depois de Temer, vieram quatro anos do mais aterrorizante pesadelo. Não foi Temer quem disse, mas poderia ter sido: "Depois de mim, o dilúvio".

Em tempo: Dilma foi absolvida pelo Tribunal Regional Federal no ano passado que não viu "dano ao erário", em razão da suposta "pedalada fiscal".     

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Saber da desgraça yanomami por visita oficial dá saudades de "Realidade"

Esta imagem reflete a realidade do abandono dos yanomami

Não tinha ideia da dimensão da tragédia. Foi só depois de uma visita oficial do atual presidente que tomei conhecimento da desgraça yanomami. Índios morrendo de fome. Esqueléticos, doentes, abandonados à própria sorte, circundados pelos criminosos do garimpo, 99 crianças mortas de subnutrição e doenças diversas no ano passado. 

Com o devido respeito às vitimas do holocausto, parecia que estava vendo aqueles documentários de soldados aliados, chegando em Auschwitz. Gente tão fraca, com tanta fome, que era incapaz de ficar em pé sozinha. Cenário de horror. 

Era adolescente quando comecei a ler "Realidade", uma revista mensal, publicada pela editora Abril de 1966 a 1976. Foi por causa de "Realidade" que decidi ser repórter. Esperava impaciente a chegada da revista nas bancas para comprar o exemplar e lê-la do início ao fim.

A revista trazia grandes reportagens, histórias sensacionais, abordava assuntos delicados e apostava todas as suas fichas no repórter que muitas vezes narrava os fatos, que tinha vivido, em primeira pessoa. As fotos eram excepcionais e formavam uma dupla imbatível com a narrativa. 

A matéria de maior impacto para mim foi a de José Hamilton Ribeiro, que perdeu parte da perna, com a explosão de uma granada, durante uma cobertura da guerra do Vietnã. Com o Ato Institucional Número 5, baixado em 13 de dezembro de 1968, pela Ditadura Militar, a censura quebrou as pernas da publicação. Toda a edição era obrigada a passar por censura prévia.

Passados quase 60 anos, ainda me recordo de reportagens marcantes: os caçadores de caranguejos, uma excursão frango com farofa na Praia Grande, o dia a dia de um trabalhador de fábrica. 

Estou falando da revista "Realidade", porque fiquei pensando em como decaiu a produção de reportagens especiais. Como pode o público saber da situação dos yanomami somente depois de uma visita oficial de um presidente? Como esse assunto não entrou antes em pauta? Por que as empresas jornalísticas importantes não enviaram repórteres a esse local, para trazer a informação do que ocorria com os indígenas? 

Temos exemplos mais recentes dessa falta de apetite jornalístico. O caso mais emblemático da política recente brasileira; a reportagem mais contundente e corrosiva publicada sobre os desvios da Lava Jato, mostrando que havia um juiz parcial em conluio com promotores para condenar, sem provas, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva, que concorria à Presidência em 2018; esta reportagem excepcional não foi produzida por um jornalista brasileiro. 

Seu autor é o americano Glenn Greenwald, ganhador do Prêmio Pulitzer. Greenwald baseou-se nas informações obtidas por um hacker, que interceptou conversas telefônicas entre os promotores e o juiz da Lava Jato. As conversas mostravam que o juiz orientava, instruía, direcionava a ação dos promotores, visando a condenação de Lula. A série de reportagens publicadas por Greenwald foi apelidada de Vaza Jato, numa brincadeira semântica com a Lava Jato.

Não é apenas a mídia impressa que atravessa fase de restrições, com limitações de viagens e cobertura localizada. A mídia eletrônica vai pelo mesmo caminho. Narradores e comentaristas de futebol passaram a fazer seu trabalho diretamente do estúdio de TV, acompanhando as partidas por um telão. Nem sempre foi assim. Em 2002, o jornalista Tim Lopes foi assassinado por traficantes. Produtor emérito, Tim Lopes trouxe imagens escandalosas de traficantes fazendo uma "feirinha" das drogas na entrada de uma favela. Foi capturado pelos criminosos ao realizar reportagem sobre exploração sexual na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro.

Como faz falta o grande texto. A matéria de impacto. A foto extraordinária. Saudades da "Realidade".     

 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

A lorota do "cobertor curto"

A divulgação dos gastos ganhou repercussão nacional

 O Brasil vive uma discrepância histórica, mais conhecida como a lorota do cobertor curto. Dezenas de ministros, centenas de governadores, uma leva de presidentes, prefeitos e outras autoridades sempre recorrem à essa metáfora. De acordo com essa versão dos gastos públicos, o governo (seja ele municipal, estadual ou federal) não pode investir em projetos de interesse da população, em razão do "cobertor curto". A arrecadação nunca é suficiente. Falta sempre dinheiro. "Até gostaríamos de realizar essa obra, mas, vocês sabem, o cobertor é curto. Não temos dinheiro suficiente", eles costumam justificar,

E aí a gente, nós os infelizes pagadores de impostos, descobrimos que um ex-presidente gastou 27 milhões e 600 mil reais com o seu "cartão corporativo" (a informação anterior era de 21 milhões de reais, mas foi depois atualizada). A discriminação dos gastos exibidos no cartão do ex-presidente deixa os ingênuos com o cabelo em pé: dinheirama exorbitante jogada pelo ralo em padarias, hotéis de luxo, restaurantes, lanchonetes e até uma compra em um centro espírita. 

O tio do pavê diria que a divulgação dos gastos do cartão corporativo do ex-presidente seria "a ponta do iceberg". Na realidade, o tio do pavê está certo. O que a gente não vê parece uma imensa montanha de dinheiro público se erguendo sobre o orçamento governamental.

Séries, exibidas pelo streaming, vindas da Dinamarca, Suécia e Noruega mostram o primeiro-ministro, o presidente e funcionários de alto escalão do governo indo trabalhar de bicicleta ou usando o transporte público. Por que, aqui, nesse país de miséria sufocante, o mesmo não acontece?  

Aqui ocorre o contrário. Sempre que o sujeito entra no estamento aristocrático da sociedade brasileira (quando se torna político, ou integrante do Judiciário ou ainda do Legislativo)  passa a ter carro - e até chofer, às vezes - oferecido pelo poder público. 

As benesses não param aí: apartamento funcional, supersalários, estabilidade, penduricalhos que elevam de forma estratosférica os rendimentos. Tem categoria com direito a dois meses de férias. Auxílio moradia mesmo quando o servidor mora na própria cidade. É um deus nos acuda de mordomias e benefícios que fariam jus, se o Brasil fosse um país com IDH semelhante ao suíço, que lidera o ranking.

Só que não, diria o tio do pavê. O Brasil está lá embaixo no IDH. Ocupa a 87ª posição. O País é desigual. A infraestrutura lastimável (abundam estradas esburacadas). Rios poluídos e infectos. Enchentes. Ocupações ilegais. Moradias em estado de risco permanente. Transporte público nas metrópoles virou agonia. Sem falar que os miseráveis, os que não têm casa, rendimento, aqueles sem lugar nenhum na sociedade, encontram-se agora, neste momento, caídos na sarjeta. Caídos literalmente. Não se trata de linguagem figurada. A gente até desvia deles, educadamente, quando caminha por São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife etc.

Este mês desembolsei quase 2 mil reais no pagamento do IPVA e licenciamento. Meu carro é popular e tão econômico no combustível como o avarento de Charles Dickens. Depois de pagar o IPVA, saio de casa e topo com uma estrada esburacada. É buraco a dar com pau. Mesmo. Sem exagero. Então, qual é o meu retorno de pagador de impostos? 

"Nenhum", diria o tio do pavê. "Você é um trouxa que paga imposto e não recebe coisa alguma em troca." 

Essa parece ser a principal desgraça do brasileiro trabalhador e remediado: ele paga para não ter serviços. Ele paga os impostos e o esperado retorno do governo é uma sonora banana ("bras d'honneur", segundo os franceses), daquela que se afrontava os desafetos. O dinheiro é usado e bem usado pelo estamento aristocrata. Para eles, não vai faltar lagosta, camarão, vinho espumante e carro blindado, pagos pelo contribuinte. 

Nesse ponto, sabe-se lá por que, me lembrei de Ana Moser. Vai começar uma polêmica que desviará a gente do foco, que deveria ser o fim da miséria e da desigualdade. A ministra dos Esportes, Ana Moser, ao ser entrevistada, recentemente, disse que jogar videogame não é esporte. É entretenimento. 

A fala da ministra provocou descontentamento em muita gente. Um certo Casimiro (achei que fosse o jogador, mas não é) foi entrevistado por dezenas de jornalistas, o que demonstra que o sujeito tem muito a dizer ao mundo. Casimiro, qualificado como "streamer", disse o seguinte ao GE:

"Tu pode ter a sua opinião que quiser. Tu só não pode fazer duas coisas. Um: desrespeitar a parada. E dois: mostrar uma ignorância f... no comentário. Isso não dá (...) O comentário foi grotesco e grosseiro, na minha opinião, porque (a ministra) parecia que não sabia o que estava falando. 'Ah, o eSport não é imprevisível'. Não sabe o que está falando. Esse comentário, só esse, já é uma m... (...) O bagulho que me desagrada é o simples fato de que é um comentário arcaico. A forma como ela (a ministra) fala. Beleza que você não quer colocar o eSport na pasta do esporte, você vai colocar em que pasta? Porque tem que ter investimento, tem que ter. É muito grande, pô. Não pode tratar como se fosse uma m..."

Um garoto com o console de videogame na mão, afundado na poltrona de sua casa, tomando refrigerante e comendo salgadinho, jogando dia e noite, matando imaginariamente soldados inimigos, enfiado no Mortal Kombat, Grand Theft Auto, Madworld, esse garoto, sinceramente, estaria praticando esporte?

É a mesma coisa que o aposentado naufragado em sua poltrona, vendo série atrás de série, dizer que ele não é um sedentário, em busca de obesidade, diabetes e uns cem tipos de câncer, mas um notável esportista. 

Ana Moser está correta: eSport não tem qualquer relação com esporte. Esporte é quando a gente corre, sua, grita, faz gol, comemora, chuta a bola, acerta a bolinha com a raquete. Isso é esporte. Jogar videogame é apenas entretenimento.

Viu como a gente estava discutindo algo sério, como desigualdade econômica e miséria, e acabou mergulhando no debate do sexo dos anjos. A vida é assim. A gente corre atrás do que tem pouca importância e esquece o fundamental. Me dá licença agora que vou assistir a minha série preferida na Netflix.       

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Brasília teve sua "queda da Bastilha"

 

Capa do New York Times de 9 de janeiro repercutiu o ataque terrorista em Brasília

Em 1789, a França vivia momentos de turbulência. O rei Luís 16 mantinha a população em estado de miserabilidade, enquanto o equivalente à "sociedade civil organizada" da época se organizava para derrubar a monarquia e instituir um governo republicano. 

Foi criada a Assembleia Nacional Constituinte que se opunha ao rei e elaborava nova legislação, com decretos e medidas que reduziam o poder monárquico. Entre essas medidas, a burguesia em ascensão passou a boicotar o pagamento de impostos ao rei.

Em 14 de julho daquele ano, os insurgentes, que usavam bandeiras tricolores nas cores vermelha, branca e azul, dirigiram-se ao hospital dos Inválidos. Ocuparam o local para pegar as armas dos soldados, que estavam internados. 

De posse das armas, foram em direção à Bastilha, uma antiga prisão, que simbolizava a repressão do "ancien régime". Invadiram a cadeia e se apropriaram de barris de pólvora, ali armazenados. A Bastilha veio abaixo e com ela o monarca e seus cortesãos. Foi criada uma Guarda Nacional, que passou a ocupar prédios públicos e tomar o poder de fato. 

O passo seguinte foi cortar a cabeça, literalmente, do rei Luís 16, de sua esposa Maria Antonieta e outras 40 mil pessoas. Luís 16 perdeu a cabeça na "praça da Revolução". Hoje, rebatizada de Place de la Concorde, próxima do Champs Élysées.

A Revolução Francesa teve o sucesso esperado ao depor um regime fracassado, sem apoio popular. A partir de Paris, a revolução espalhou-se pelo restante da França e os insurgentes venceram a queda de braço. Surgiu a figura do "citoyen", o cidadão, aquele que podia votar, que possuía inabaláveis direitos civis e políticos. Até hoje, o francês se orgulha de sua cidadania, de ter se transformado no país do "direito dos homens".

Ontem, Brasília teve seu dia de "queda da Bastilha". Milhares de opositores ao governo Lula, que estavam acampados no Distrito Federal, em estado de sublevação crônica, decidiram tomar o seu "hospital dos Inválidos" e derrubar a sua "Bastilha". 

Armados de porretes, como uma tribo de neandertais, invadiram o prédio do Supremo Tribunal Federal, do Congresso (Câmara e Senado) e até a sede do Executivo, o belíssimo Palácio do Planalto, onde é o escritório do principal servidor público brasileiro, o caríssimo presidente da República.

Os neoneandertais comemoravam a sua vitória de Pirro: "Tomamos o STF", gritavam, em comemoração nas redes sociais. "O Congresso é nosso", reproduziam vídeos em que os corredores do Senado e da Câmara eram devastados pela horda. No Palácio do Planalto, o grupo de demolidores destruiu obras de arte, mobiliário, janelas, equipamentos eletrônicos e roubou armas e munição.

A Polícia Militar do Distrito Federal foi acusada de fazer "corpo mole", permitindo a devastação e a ocupação momentânea dos prédios dos três poderes.

O governador do DF, Ibaneis Rocha, foi afastado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e o presidente Lula decretou intervenção federal no DF. O secretário de Segurança do DF, Anderson Torres, estava em férias nos EUA e deve continuar por lá, depois de ter sido exonerado.

Hoje, enquanto escrevo, soldados do Exército desmontam o que resta do acampamento dos opositores em Brasília. Cerca de 1.500 pessoas estão presas e passam por interrogatório na sede da Polícia Federal.

Em outubro de 2018, Eduardo Bolsonaro, filho do então presidente Jair Bolsonaro, declarou que bastavam "um jipe, um cabo e um soldado", para "fechar o STF".

Os golpistas de ontem não recorreram ao cabo, nem ao soldado, nem ao jipe para atacar o prédio do STF. Eles foram a pé. Arrombaram a porta. Espalharam papéis. Roubaram a toga do ministro Alexandre de Moraes. Quebraram vidraças e foram embora, tocados, mais tarde, pelas forças da ordem. 

A comemoração dos amalucados era patética: "Tomamos o STF!", "Ocupamos o Congresso!", "Estamos nos Palácio do Planalto!", como se os prédios vazios naquela tarde de domingo de verão e sem a devida proteção policial fossem o poder de fato. Eram apenas espaços vazios. Sem o poder que emana das instituições, porque o STF, o Congresso e a Presidência continuavam ocupando o poder efetivo, mesmo que seus integrantes não estivessem dentro dos prédios.

Por uma falta de compreensão do que são as instituições, por culpa de uma mentalidade menor que afronta o mínimo do bom senso, eles achavam que ocupando os prédios estariam tomando o poder e recolocando na Presidência quem eles consideravam que seria o candidato mais legítimo.

Algemados, fotografados, fichados, eles foram sendo levados para a Polícia Federal. São muitas acusações que pesam sobre suas costas: tentativa de golpe, destruição do patrimônio público, promoção do terrorismo, agressão, roubo...Pobres diabos que acreditavam ser heróis e se viram no espelho como os vilões da história. 

A opinião pública espera que a força da lei caia como uma bigorna sobre a cabeça desse pessoal cabeça oca. Será fácil identificá-los. Nem precisaria de perícia, nem de DNA e impressões digitais. Eles mostravam a cara nas redes sociais. Gravavam a si próprios no processo de demolição do patrimônio público:

https://g1.globo.com/politica/noticia/2023/01/08/veja-pessoas-que-participaram-de-invasao-do-congresso-do-stf-e-do-planalto.ghtml

Os jornais não economizaram nas tintas em seus editoriais. Os invasores foram chamados de "imbecis", "criminosos", "boçais", "vândalos", "bandos". O ataque em massa aos prédios foi classificado, em um editorial, de "A Marcha dos Idiotas".

Os telejornais do grupo Globo classificavam os doidivanas como "terroristas", "golpistas" e "bolsonaristas". 

Robert Proctor, autor de "Agnotology: the making and unmaking of ignorance", defende a tese de que "ignorância não é apenas ausência de conhecimento", mas é também -e principalmente - "aquilo que não se quer que as pessoas conheçam". O autor discorre ainda sobre o conhecimento que "desaparece" ou, simplesmente, se torna "invisível". Proctor cita vários exemplos: a indústria do cigarro ("a dúvida é nosso produto"), mudança climática, negativismo ambiental, entre outros.

No caso da mente bolsonarista, a lavagem cerebral, que nos Estados Unidos tinha como um dos vetores as igrejas evangélicas, durante a queda do governo Trump e a invasão do Capitólio, aqui no Brasil os pastores evangélicos parecem ter contribuído para esconder aquilo que os fiéis não precisassem saber. 

Um vizinho, que é evangélico, recebeu durante a eleição para presidente em 2022 um folheto apócrifo com excertos de vários projetos legislativos. Para o fiel, no caso, o folheto era a expressão da verdade. E que verdade era essa? Se Lula fosse eleito, todas as pessoas seriam obrigadas a usar o mesmo banheiro; a maconha seria vendida na porta de casa; crianças menores de 10 anos seriam submetidas a operações de mudança de sexo. E por aí seguia o texto, apavorando o pobre fiel.

Nos Estados Unidos, o FBI investigou o perfil dos invasores do Capitólio e descobriu que a maioria nunca tinha tido problema com a Justiça. Eram pessoas comuns e tinham como semelhança a frequência a igrejas evangélicas, que radicalizaram o discurso.  

Sem querer adiantar sobre a investigação em curso, acredito que a Polícia Federal vai chegar à mesma conclusão do FBI. Os detidos são pessoas com ficha policial tímida. Gente que acredita que a Terra é plana, que vacina é fatal, que Lula iria acabar com o Pix, que Lula e o PT são comunistas. Gente que acreditou no discurso, da então primeira-dama, Michelle Bolsonaro, que proclamava, em encontros com mulheres cristãs, que o Partido dos Trabalhadores veio para "matar, roubar e destruir a nossa nação". Gente que foi manipulada por empresários golpistas, que financiaram a infraestrutura dos acampamentos.

Neste fim de tarde, 1.500 pessoas estão detidas, acampamentos bolsonaristas golpistas foram desfeitos, milhares ocuparam a avenida Paulista em São Paulo em defesa da democracia. A mídia mundial não fala de outra coisa. E o Brasil, mais uma vez, passa vergonha. 

 


                  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

A Ditadura Militar deu errado: 21 anos jogados no lixo

Bolsonaristas derrotados na eleição buscam refúgio nas portas de quartéis

O comportamento é esquisito. Imagine viver 21 anos em um país, em que era proibido votar para presidente. Um país atrasado, pobre, miserável, governado por militares. Havia um sujeito desse mesmo governo que dizia qual filme, peça de teatro, livro, música você poderia assistir, ler ou ouvir. Os opositores eram presos, torturados e mortos. Sério, seria legal viver em um país assim? Valeria a pena ter isso de volta?

O regime militar direitista naufragou. Foi incapaz de resolver os problemas da inflação, da desigualdade de renda, do desenvolvimento. Foi um fracasso colossal. 

Em uma pesquisa de campo feita em 1982/83, em um localidade distante 50 quilômetros de Belo Horizonte, o pesquisador topava com uma realidade atroz: pinguelas, ruas enlameadas, crianças sem escola, adultos sem atendimento médico, desemprego generalizado, miséria substancial. 

Veio a redemocratização. A inflação foi controlada. E quando esse mesmo pesquisador retornou àquela localidade - 25 anos passados - descobriu que a democracia tinha feito um bem danado: estradas vicinais asfaltadas, não havia mais pinguelas, as crianças tinham escolas, atendimento médico gratuito em postos de saúde e emprego a dar com pau. 

Qual é o mecanismo mental que cria essa ideia de que durante a Ditadura Militar o País era melhor? Que distorção maluca seria capaz de produzir disparates de sinapses desse porte, dessa incongruência abissal?

Não são todos, é claro. Há muitos brasileiros inteligentes, capazes de ler, escrever e até fazer contas matemáticas. Mas, em geral, o brasileiro parece ter desenvolvido uns dez por cento de sua capacidade mental. 

Há erros que são reproduzidos diariamente e ninguém parece se dar conta disso. O telejornal da manhã mostra um repórter em um bairro submerso pela enchente. O profissional caminha pelas ruas com meio metro de água e traz os depoimentos sofridos dos moradores. 

Quem já foi nesse mesmo bairro, loteado e ocupado ilegalmente, sabe que as casas foram erguidas em uma área abaixo do nível do rio. Toda vez que chove em demasia - e em um país tropical chove muito em determinados meses - o rio fica cheio e transborda. Transborda sobre as casas que estão em um nível inferior. A administração municipal, se ela existisse de fato, deveria retirar os moradores de lá. Demolir as casas e transformar o local em área de preservação. 

Para onde iriam os moradores? Entre uma invasão estranha e outra, o MTST, de Boulos, fez, pelo menos, um levantamento de vários prédios que estão vazios no centro da cidade. Bastaria para o caríssimo prefeito ter vontade política e desapropriar esses imóveis e relocar as pessoas, que vivem em encostas, áreas de risco extremo e aqueles que sofrem enchentes por estarem em local indevido. Mas é tudo lento. Tudo precisa de um projeto, precisa de um estudo, precisa de algo que só vai retardar o que é urgente.

O mesmo acontece com os motociclistas. Todos os dias - repito, todos os dias - um motociclista trafegando em alta velocidade pelo corredor de trânsito vai se chocar contra um veículo e se ferir com seriedade. Morre um diariamente. Então, hoje, dia 5 de janeiro, morreu ou vai morrer um motociclista. Quando não morre, fica estatelado no asfalto. São chamados os bombeiros, o Samu, os agentes de trânsito. A avenida, a marginal ficam paralisadas. Os carros, caminhões e ônibus se amontoam. E, daqui a pouco, vai acontecer novamente. É uma repetição do erro que deixaria um marciano em dúvida, se aqui temos vida inteligente.

Aquelas pessoas que votaram em um candidato e ele perdeu a eleição ficaram inconformadas. É ruim. É triste ver o nosso candidato ser derrotado. Entre sentir tristeza e sair de casa e se dirigir a uma porta de quartel pedindo que haja um golpe militar, vai uma distância daqui a Lua. A manifestação é livre, é verdade. Todos têm o direito de se manifestar, mas pedir a volta da censura, da tortura, do atraso, do morte de opositores, da desigualdade extrema... Não há lógica mental nesse procedimento. Não é, com o devido respeito aos manifestantes, uma prova de inteligência.

Se o governo militar tivesse sido uma época de ouro, sem miseráveis, sem violência, com cem por cento da população ganhando dez salários mínimos mensais, sem inflação, com total respeito aos valores democráticos; a gente até entenderia o que eles estariam reivindicando. A Ditadura Militar deu errado. Foram 21 anos jogados no lixo. Vinte e um anos de atraso, de violência, de arbítrio. 

Outra falha grave mental, que seria o quod erat demonstrandum da nossa falta de inteligência crônica, é sempre a questão do lixo. Jogado nas ruas de qualquer jeito, o lixo vai para a sarjeta, é levado pela água para a boca de lobo e acontece algo que ninguém esperava, veja você: o lixo vai entupir a rede de esgoto.

Nossa, sério? Aconteceu isso mesmo? O lixo entupiu a rede de esgoto? Então, a água da chuva não pôde escoar, voltou à superfície, inundou a rua, arrastou carros, ônibus, caminhões e afogou passantes. 

Retorna-se ao telejornal: o repórter está parado diante de um ponto de descarte de lixo. Tem sofás, fogões, restos de comida, sobras de obra e lixo malcheiroso, com moscas, baratas e escorpiões passeando ali por cima. A prefeitura é acionada. Chega um caminhão. Retira a imundície. O repórter vai embora. E, no dia seguinte, novos restos de sofá, de fogões, restos de comida, sobras de obras e lixo malcheiroso retornarão impunemente ao mesmo local. 

É uma maldição que deve ter sido engendrada por Zeus. Aquele mesmo que condenou Sísifo a arrastar a pedra montanha acima.   

   
 


sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O dia em que o Latis deu uma trombada em Pelé

 


No dia 1º de janeiro de 1993, exatamente no primeiro dia daquele ano, comecei a trabalhar no Diário do Grande ABC. Quando retornava para casa, o freio do meu Chevette 1983, que meu filho chamava carinhosamente de "Latis", falhou, durante uma tempestade de verão. 

Essas pancadas rápidas de fim de tarde. Estava na avenida Presidente Wilson, tão esburacada e abandonada como ainda é hoje, quando vi aquele Mercedes do ano na minha frente. Pensei na hora: "Não posso bater nesse Mercedes. Não no meu primeiro dia de trabalho no emprego novo. Vou precisar dar um ano do meu salário para pagar o conserto". 

Não deu outra. Apertei o freio. O pedal desceu até o fundo, "na tábua", como se dizia na época, e entrei com tudo, com toda volúpia, na traseira do Mercedes. 

Paramos os carros. 

Desceu um sujeito corpulento, misto de boxeur com esmagador de crânios profissional, para olhar o prejuízo. O céu estava escuro, com raios caindo a nossa volta. A chuva havia parado momentaneamente, mas a tempestade ia recomeçar a qualquer instante. Estávamos no olho do furacão, quando os elementos dão uma trégua, mas prometem voltar com força no total em segundos.

O sujeito olhava, olhava e avaliava a desgraça. 

Desci do carro para dizer que a culpa tinha sido minha e que ia arcar com o prejuízo, ainda que demorasse uns vinte anos para fazê-lo. Desceu do carro o passageiro...Não acreditei no que estava vendo. 

Eu tinha simplesmente esmagado a traseira do Mercedes do meu maior ídolo, Pelé.  

Passei a mão na cabeça e disse: "Puxa, Pelé, com tanto carro para bater fui escolher justo o seu..." 

Ele pôs a mão nas minhas costas e disse: "Você está bem? Machucou alguma coisa? Quer tomar um café; uma água com açúcar, um conhaque?" 

Falei que estava bem, mas inconformado. "Justo o seu carro, Pelé. Que droga!" Ele se ofereceu para pagar o prejuízo. "Arrebentou muito seu carro? Eu pago. Não tem problema." 

O meu velho Chevette estava apenas com o para-choque de metal entortado. O Mercedes novinho tinha um rombo na lataria. Lamentável. A gente se despediu. Pelé e o segurança/motorista foram embora. 

Cheguei em casa, em estado de graça. "Como foi no seu primeiro dia?", minha sogra perguntou, assim que estacionei o carro. "Foi bem diferente", falei, "bati no carro do Pelé".   

Diário do Grande ABC foi o jornal onde consegui me realizar plenamente como profissional. Escrevi artigos, produzi matérias especiais que conquistavam a manchete da edição de domingo (a principal da semana) e - principalmente - foi onde eu mais me diverti na profissão, apesar de varar inúmeras madrugadas trabalhando arduamente e de ter começado com o pé esquerdo. Aliás, com o pé direito no freio quebrado.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A TV por assinatura paga dá direito a assistir comerciais


 TV por assinatura é um luxo. Não é qualquer um que pode ter. O consumidor compra um pacote. Paga lá seus 140 reais por mês e tem direito a ter na sua sala cento e tantos canais. Tem canal esportivo. Tem canal que só passa filme. Tem canal que só passa publicidade. Tem canal que passa partidas de futebol. "É luxo só", como dizia minha mãezinha.

Você fica com o controle remoto na mão se sentindo o rei da cocada preta e da outra cocada também (pessoalmente, sou alérgico a coco; se comer uma fatia morro em segundos). Passa de um canal para o outro. É aquele esporte chamado de "zapping". Você "zappeia" à vontade. Começa a ver um filme, não gosta e pula para o outro que está na metade, mas parece melhor que o anterior. 

Na hora que o gladiador vai cortar a cabeça de alguém, aparece um sujeito vendendo um celular. Você está mergulhado na Roma antiga, com todos aqueles cavalos, os gladiadores, os escravos, escudos, lanças e espadas, César ali na plateia... Tudo desaparece. Fica só o sujeito vendendo celular. 

Você desiste do gladiador e encontra um jogo. Quem será que está em campo? Os jogadores são desconhecidos. A bola é maltratada de forma vil e pouco cavalheiresca. Quem está jogando, Cristo rei? É Austin contra Dallas... Liga norte-americana. Sem querer ser pretensioso, mas a Série B do Brasileirão goleia esse pessoal. Por mais boa vontade que se tenha, não dá para ver Austin contra Dallas. 

E dá-lhe "zapping"... Aparece agora beisebol... Beisebol??? No outro canal, aquele "futebol americano" que é jogado com as mãos e só tem uma única jogada.

Nova "zappeada"... O filme parece interessante. A personagem principal trabalha no atendimento da polícia de emergência. As pessoas discam "911" e ela fala: "Polícia emergência. Como posso ajudar?"  Tem uma adolescente em perigo. Está sozinha em casa e teve o lar invadido por um estranho. A atendente sugere que ela se esconda debaixo da cama. Ela faz isso. Só que o bandido a encontra e...

Entrou um comercial. É estranho, mas é uma propaganda do próprio canal. Os donos do canal querem que eu assista a esse filme. Gente, falo para as paredes, eu já estou vendo o filme, já estou assistindo o canal de vocês. Seria possível me devolver a moça que trabalha no serviço de emergência da polícia, para eu saber se o bandido foi preso e se a adolescente conseguiu fugir?

Novo "zapping". É o "Homem Aranha". São vários filmes sobre o "Homem Aranha". E toda semana eles passam um para você não se esquecer dele. Passam também do "Super-Homem" e do "Batman". Acho que, se forem somadas as reprises, desses três super-heróis em quilometragem de horas, a gente conseguiria ir até Plutão. Dar uma volta longa pelo fim do espaço sideral e voltar a tempo para mais uma reprise de "Homem Aranha" na cabeça.

O "Homem Aranha" está de ponta cabeça. Mary Jane vai beijá-lo na boca e... Entra um novo comercial. Você é ágil e pula fora. Não quer ver aquela propaganda surrada de objetos que nunca vai comprar na vida. 

Tentando retornar às origens, aquele mundo conhecido, que você apreciava tanto, você faz o "zapping" do retorno. Maneja seu controle para o passado. Só que aquele mundo não existe mais. 

O gladiador sumiu. Foi substituído por "Rambo", veja você. A atendente da polícia virou um filme sobre bombeiros. Mas, pelo menos, Austin contra Dalas continua ainda positivo operante. Deve ser um daqueles jogos que não terminam nunca. Em moto perpétuo. Para fazer qualquer apaixonado por futebol desistir do esporte. 

Nesse momento de pouca glória e baixa autoestima, você percebe que foi enganado, que aquele "luxo" que lhe custou cento e tantos reais, que tanto pesaram no seu bolso, na realidade, é apenas uma promessa de prazer, transformada em ônus. Você sente que é um trouxa. Você paga para assistir comerciais. 

Em que momento isso ocorreu? Quem permitiu que isso ocorresse? Como o consumidor pode ser tão enganado e ninguém dar a mínima importância para isso? 

Ainda não tenho resposta para tantas e tão motivadoras questões. Encontrei essa petição pública, perpetrada por alguém que pensa exatamente como eu. Não sei qual é a idade desse documento. Se faz anos que está na internet, mas vou assinar e passar pra frente. Quem sabe a gente derrota o sistema, como ingenuamente pensávamos em 1968. 

Apoie este Abaixo-Assinado. Assine e divulgue. O seu apoio é muito importante.

Abaixo-assinado Pagamos por TV por assinatura para ver programação e não propagandas.

https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=TV2012



segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

O jogo mais idiota inventado pelo ser humano

 

Eles se agarram, não conseguem correr; é uma tristeza

No Natal, uma emissora de TV por assinatura exibiu um jogo do campeonato americano da liga de "futebol" nacional. Pode ter algum outro jogo idiota, mas esse ganha disparado de qualquer outra modalidade esportiva. Supera até aqueles pobres infelizes que ficam limpando o chão para um disco correr rápido sobre a pista de gelo.

O campo é todo riscado. Eles contam em "jardas". Jardas? Demora uma eternidade. O relógio marcava 1 minuto e 43 segundos para terminar a partida. Saí da sala. Fui até a cozinha. Preparei um pato assado. Voltei e faltavam agora 1 minutos e 18 segundos para terminar a partida. Aquilo não termina nunca.

É um jogo idiota por que só tem uma única maldita jogada. A bola, que é afunilada, torta, é entregue para um jogador que precisa lançá-la com a mão para outro jogador que está correndo lá na frente.

É isso. Acabou. Não tem outra jogada. É só essa. É inacreditável que isso ainda se chame "futebol", porque é jogado com as mãos 99% do tempo.

O sujeito, que corre lá na frente, agarra a bola lançada, mas é derrubado. Para tudo. O relógio para. Os jogadores param. Os juízes... Eles voltam às posições e a bola pontiaguda é entregue novamente para o lançador que a arremessa para alguém lá na frente. Novamente, o sujeito é derrubado. E tudo para. Outra vez. O relógio não anda. Alguém menciona as jardas. As jardas?

Tudo se resume em agarrar a bola e chegar à linha de fundo. Mas é tudo travado, preso, predomina a tentativa de ação, só que a imobilidade vence sempre. 

Os jogadores parecem astronautas do fim do mundo. Usam capacetes, tem os ombros acolchoados, são grandalhões. O resultado é emoção zero. A todo momento, eles se chocam. Trombam. Desabam. Voam uns sobre os outros. 

O estádio parecia cheio. O que me leva a pensar que o mundo tem muito mais masoquistas do que Freud poderia calcular. Qual é o sentido de ficar horas e horas vendo aqueles tipos imensos se chocando?

Na única jogada que é feita com os pés, a bola não consegue ficar parada. É claro que não. Ela é pontiaguda. Então, o jogador que vai chutar precisa da ajuda de um colega que fica segurando a ponta da bola. O "atacante" vem correndo e chuta... A bola precisa passar lá em cima, bem no alto, ao lado de duas traves do tamanho de um prédio de cinco andares. Acho que mesmo um sujeito com muletas conseguiria chutar a bola lá em cima. O tamanho do "gol" é imenso. Precisaria ter pouquíssima pontaria para errar um alvo daqueles.

O "futebol americano", como a gente chama aqui, é uma derivação do rugby. O rugby é também um jogo bem chato, mas a gente consegue entender o que está acontecendo lá dentro. As dimensões do campo parecem maiores. Os jogadores se assemelham a seres humanos. Enfim, não é tão ruim como o "futebol americano". Na Inglaterra, rugby é esporte de "macho". Lembro de um ônibus, transportando jogadores, onde se lia: "No winners, just survivors".

Como dizia minha avozinha, que lhe seja leve a terra, tem gosto pra tudo nesse mundo. 

Tradução para o inglês:

"The most idiotic game invented by human beings"

On Christmas, a cable TV channel broadcasted a game from the American national "football" league championship. There might be some other silly games, but this one easily surpasses any other sport. It even beats those poor souls who spend their time cleaning the floor so a puck can slide quickly across the ice rink.

The field is all marked up. They measure in "yards." Yards? It takes forever. The clock showed 1 minute and 43 seconds left in the game. I left the room. Went to the kitchen. Prepared a roast duck. Came back, and there were still 1 minute and 18 seconds left in the game. It never ends.

It's a silly game because there's only one damn play. The ball, which is pointy and oddly shaped, is handed to a player who has to throw it to another player running way up ahead.

That's it. That's the whole game. There's no other play. Just that one. It's unbelievable that this is still called "football," because it's played with hands 99% of the time.

The guy running up ahead catches the thrown ball but gets tackled. Everything stops. The clock stops. The players stop. The referees... They all go back to their positions, and the pointy ball is handed back to the thrower, who hurls it to someone up ahead again. Once more, the guy gets tackled. And everything stops. Again. The clock doesn't move. Someone mentions the yards. The yards?

The whole thing boils down to catching the ball and reaching the end zone. But it's all stuck, frozen, dominated by the attempt at action, yet immobility always wins.

The players look like astronauts from the end of the world. They wear helmets, have padded shoulders, and are huge. The result is zero excitement. Every moment, they collide. Crash. Fall. Fly over each other.

The stadium seemed full. Which makes me think the world has far more masochists than Freud could have ever calculated. What's the point of spending hours and hours watching those massive guys crashing into each other?

In the only play that involves the feet, the ball can't stay still. Of course not. It's pointy. So, the player who's going to kick it needs help from a teammate who holds the tip of the ball. The "attacker" comes running and kicks... The ball needs to go way up high, right between two goalposts the size of a five-story building. I think even a guy on crutches could kick the ball up there. The size of the "goal" is enormous. You'd have to have terrible aim to miss a target like that.

"American football," as we call it here, is a derivative of rugby. Rugby is also a pretty boring game, but at least you can understand what's happening on the field. The dimensions of the field seem larger. The players resemble human beings. Anyway, it's not as bad as "American football." In England, rugby is a "macho" sport. I remember a bus transporting players with a sign that read: "No winners, just survivors."

As my dear late grandmother used to say, may the earth rest lightly upon her, there's no accounting for taste in this world.

    

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Para assistir - ou não - na Netflix

 

Um Papai Noel mal-humorado em um aeroporto cercado de neve

A lista do "The New York Times" dos melhores filmes à disposição na Netflix inclui filmes que muita gente gostaria de passar bem longe deles. É o caso de "Estou pensando em acabar com tudo", um filminho metido a besta, querendo ser cult, com roteiro "cabeça". É um amontoado de bobagens sem sentido. Encabeça a lista do NYT. 

A mesma lista cita "O Irlandês" (parece uma refilmagem de "Cassino"), com uso de câmeras que rejuvenescem os personagens. Robert De Niro, Joe Pesci, Al Pacino, Harvey Keitel, dirigidos por Martin Scorsese, nos lembram que todos eles já viveram momentos melhores na tela. 

Adam Sandler, um ator cômico, com um pé no humor escatológico, está perdido querendo ser sério nesse "Joias Brutas". 

"História de um casamento", com Adam Driver e Scarlett Johansson, queria muito ter sido dirigido por Ingmar Bergman. Não chegou lá.

 "Meu nome é Dolemite", com Eddie Murphy, tem uma cena que dá o que pensar: um grupo de pretos entra no cinema para assistir a um filme, que havia estreado e fazia grande sucesso. Trata-se de "Um estranho casal", de 1968, com Walter Matthau e Jack Lemmon, comédia hilária, divertidíssima. Só que os pretos não acham engraçado. O personagem de Eddie Murphy está no cinema. Observa todos rindo em volta dele e ele sem entender onde estava a graça. "Meu nome é Dolemite" relembra a história de um comediante preto, que fazia o papel de cafetão, durante seus stand-up. Contava piadas obscenas, retiradas do repertório de sem-teto e mendigos. Gravou discos. Fez filmes e tornou-se uma celebridade na época. No meu caso, não achei graça em nenhuma das piadas contadas por Dolemite. "Um estranho casal" continua a ser uma das comédias memoráveis que já tive o prazer de assistir. A tese de Murphy seria a de que, nos EUA, pretos só riem de piadas de pretos; e brancos, só das piadas de brancos? Tese certamente muito discutível.

"Sob a luz do luar" é triste, triste, tão triste que a gente não aguenta de tristeza e acaba abandonando o filme pela metade.

"Roma", também relacionada na lista da Netflix, foi alvo de um comentário meu neste blog em 25 de fevereiro de 2019. Torci para "Roma" perder o Oscar. E perdeu.

Saindo da lista do NYT, para a minha lista, nem sempre "assistível":

"Entre facas e segredos" - É um filme de 2022 e mesmo tendo sido lançado neste ano consegue o feito de ser antiquado e chato. É aquela baboseira de detetive tipo Poirot, de Agatha Christie, dentro de uma casa, investigando familiares - todos eles - suspeitos de terem cometido um crime. Aquelas esquisitices, os maneirismos detetivescos faz tempo que perderam a graça. Desde Columbo.

"Entrapped" - A série é uma continuação da história do detetive Andri, em uma Islândia coberta de neve por todos os lados. Tanto "Trapped", a série inicial, como esta continuidade valem a pena ser vistas. É uma série gelada, fria, gostosa demais.

"Confie em mim" - Baseada na obra de Harlan Coben, a série, lançada este ano, acontece em núcleo de novos ricos que vivem em uma Beverly Hills de Varsóvia (Polônia). Um adolescente morre (ou teria sido assassinado?) e isso desencadeia uma sucessão de ocorrências que tiram o sossego do núcleo bon-vivant da capital polonesa. Quem começa não tem coragem de parar. Vara a noite.

"O soldado que não existiu" - Filme de 2022, poderia ser melhor. A roteirista inglesa Michelle Ashford  inventou um romance entre o cansado e apático Colin Firth e a pouco sedutora Kelly Macdonald, que atrapalhou toda a trama. A história seria interessante, sem esse romance bobinho. Na Segunda Guerra Mundial, o então integrante de um grupo de espionagem Ian Fleming tem a ideia de criar um batalhão inexistente para desviar a atenção dos nazistas. Para isso, sugere arrumar um cadáver. Vesti-lo como um oficial britânico e despachá-lo no mar, com documentos falsos, para ser encontrado pelos alemães. No filme, Ian Fleming, que se tornaria escritor de sucesso com seus livros de espionagem ("meu nome é Bond, James Bond"), aparece pouco, porque o roteiro preferiu se perder entre o sonolento Colin Firth e Macdonald, tão sexy como um pé de milho verde. Uma pena.

"Lindo dia na vizinhança" - Com Tom Hanks, vale apenas uma confissão: desisti de assisti-lo, quando vi o pessoal cantando sem parar. É aquilo de o personagem pegar uma escova de dentes e sair gritando, "que escova de dentes linda que eu tenho". Não dá. Musical somente alguns. "Cabaret", por exemplo.

 "O poder e a lei" - Quem leu os livros de Michael Connely sobre o "advogado do Lincoln" vai gostar muito dessa série, lançada este ano. Lá está o advogado de defesa Mickey Haller voltando ao trabalho, depois de um período de sabático forçado, em uma clínica de desintoxicação. Como os livros de Connely, a série tem ritmo, dá prazer assistir cada episódio e a gente tem dificuldade de parar. 

"Nevasca de Natal" - É uma minissérie que tem como cenário o aeroporto de Oslo, na Noruega, pouco antes do Natal. Seguindo mais ou menos o trajeto de "Simplesmente amor" reúne vários personagens, que se cruzam, se apaixonam (ou rompem ligações). Entre eles, um Papai Noel preto, mal-humorado, que discute com as crianças, principalmente, as que fazem xixi em seu colo. Tem o personagem do pianista em fim de carreira, que não se conforma em viajar de classe econômica; um sujeito que trata todo mundo bem e é chamado de "anjo"; a garota que está com o amante abusivo, dando uma "rapidinha" no banheiro; a filha que precisa comprar um presente para o pai que ela não vê há muitos anos... Tem os malcriados, os ingênuos, os que adoram essa época de fim de ano e os que a detestam. É uma minissérie deliciosa para se assistir na véspera do Natal.

Bons filmes para você.

       


A primeira travesti do Bois de Boulogne

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