sábado, 31 de agosto de 2019

"Bacurau" é um Tarantino genérico e piorado


Chegou Bacurau! Toquem as trombetas. Estreou o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Podem desligar as trombetas. Bacurau é um exemplar genérico tarantinesco e bem piorado. 

A grande metáfora do filme: nós, os povos miseráveis do Nordeste, precisamos nos unir contra os malfeitores imperialistas. Nesse rol da bandidagem incluem-se os norte-americanos, propriamente ditos, e nós, os moradores aqui do Sudeste brasileiro.

Bacurau tem buracos de roteiro, que são incompreensíveis para um filme premiado em festival internacional. Começa o filme. Chega a um povoado miserável, feio e seco, uma assistente social com uma mala cheia de vacinas e remédios. A gente imagina que essa assistente social terá algum papel preponderante no cenário. Nada disso. A mulher se evapora. Ficamos na expectativa que ela vá fazer algo útil ou surpreendente. Mas não. Os roteiristas simplesmente se esqueceram dela ao longo da história. 

O pior é o personagem do prefeito. Ele é odiado pela população. As pessoas se escondem dele, quando o político pisa no lugarejo. Só que, eu, humilde espectador, gostaria de saber por quê. O que ele fez de tão grave para os moradores o detestarem tanto? Será que o crime dele é ser político? Então, todo político precisa ser defenestrado? É esse o recado? Vai saber. 

De repente, você acha que já viu esse filme em algum lugar. E viu mesmo. Vai na mesma toada de Jogos Vorazes. Não me venha falar em spoiler. Arrume uma palavra em português, antes de me encher o saco. 

Os heróis do filme são os bandidos. Tem um tipo, chamado Lunga, com visual andrógino, unhas pintadas de preto e a calça presa acima do umbigo. Ele é procurado pela Justiça. Deve ser a patrulha da moda que anda atrás dele. Outro criminoso, o Pacote, matou várias pessoas, de maneira covarde, assassinando-as a sangue frio. Os vídeos das execuções dele são reproduzidas em um misto de trio elétrico e carro alegórico para a população local, que assiste à noite, sem ter coisa melhor para fazer naquele fim de mundo. O roteiro dá a Pacote um protagonismo importante. Ele é um executor covarde, mas vai liderar a resistência aos imperialistas. É um assassino com espírito de liderança campesina.  Assim, lá vamos nós idolatrar, mais uma vez, o cangaço, Lampião, Maria Bonita e seus derivados. 

Aparecem dois representantes do Sul maravilha. No caso, Sudeste maravilha. É um casal. Eles querem ser iguais aos americanos psicopatas. Esses dois são assassinos frios, mas com ligeiro atraso mental. Não conseguem pressentir que estão correndo risco de vida, tratando com malucos armados para uma guerra particular. Os malucos xingam os representantes do Sudeste, dizendo que eles são "latinos", não são brancos como os verdadeiros norte-americanos. 

Ah, sim. O filme tem Sonia Braga. Ela é aquela maluquete, bêbada, suja, irreconhecível com o cabelo sem cor definida e sem qualquer participação no desenrolar da história. Se a personagem dela - chamada Domingas - não existisse, não faria a menor falta. Por que Sonia Braga está em Bacurau? O que ela foi fazer ali, meu deus? Eu que vi Sonia Braga nua, em Hair, bem ali na minha frente no teatro Bela Vista, com o então jovem e talentoso Ney Matogrosso, senti vontade de chorar em vê-la tão deplorável, tão sem razão de ser. 

Cuidado quando você for assistir a Bacurau. Tem sangue pra tudo quanto é lado. Leve uma roupa reserva, senão você vai sair com a camisa manchada da sala de exibição. E cuidado com as balas. Voam balas também pra tudo quanto é lugar. É bom se apresentar com colete a prova de balas. Tem personagem com cabeça arrancada. Tem criança assassinada. É um pesadelo, manchado de vermelho. 

Se a proposta da produção fosse fazer um libelo contra as armas, o armamentismo, então, deu errado. A ameaça não é derrotada pela inteligência ou argumentação. Quem destrói a ameaça, que paira sobre a cidade, são as armas.

O diretor e roteirista Kleber Mendonça tem dois longas excepcionais em seu currículo: O som ao redor e Aquarius. Não sei que história ele quis contar com esse Bacurau, mas não chegou lá. A gente não sente empatia pelos miseráveis. Não consegue entender os norte-americanos malucos. Kleber Mendonça deveria voltar a fazer filmes brasileiros. Imitar Hollywood não é a praia dele. Aliás, filme brasileiro made in Hollywood nem sempre dá certo. Padilha acertou na mosca com Tropa de Elite, que não é um filme brasileiro, mas hollywoodiano. Enfim, são 131 minutos da mais pura e completa exaustão. 

Na sala de exibição, onde assisti Bacurau, estava sendo exibida, na sala vizinha, o novo filme de Tarantino. A versão genérica parece a verdadeira, mas não realiza o efeito prometido. Prefira o Tarantino original. E tenho dito.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A soberania da destruição


Há cerca de uma semana, vivi uma situação aterradora. Eram 15h e o dia virou noite, resultado do acúmulo de nuvens escuras e da fumaça das queimadas, que vinham dos longínquos estados do Norte e Noroeste. Os dias seguintes foram atribulados. Descobriu-se que a Amazônia legal estava em chamas. 

Virou cabo de guerra entre apoiadores do presidente "de extrema direita" (como afirmam os jornais franceses) Jair Bolsonaro e seus opositores. Os bolsonaristas gritavam nas redes sociais que "na época do Lula" os incêndios eram muito maiores. E os opositores acusavam Bolsonaro de provocar o desastre ecológico de proporções continentais. 

Por que Bolsonaro seria culpado, tornando-se o Nero brasileiro? Ele demitiu um cientista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), porque os dados de desmatamento eram desagradáveis. Cortou (ou "contingenciou", como ele gosta de dizer) verbas para manter a fiscalização ativa. Atacou o Ibama, os povos indígenas, os quilombolas. Cancelou uma reunião com ministro francês, para cortar cabelo.

A retórica bolsonarista é feroz, agressiva, rancorosa. Sua aversão ao Ibama vem desde a época em que foi multado, em janeiro de 2012, por pescar em área protegida. Três meses após sua posse, Bolsonaro exonerou o fiscal do cargo de chefia. Vingança?

A desgraça amazônica venceu fronteiras. O presidente francês, Emmanuel Macron, acusou Bolsonaro de mentir ao dizer que iria proteger a floresta e, na prática, colaborar com o desastre, por sua omissão em relação às queimadas. 

Bolsonaro não gostou e criou um entrevero diplomático com seu homólogo francês. Um imbecil bolsonarista fez um comentário jocoso na rede social sobre a mulher de Macron (que é mais velha que o presidente), comparando-a com a mulher de Bolsonaro, mais jovem e, supostamente, mais desejável. Bolsonaro divertiu-se e comentou: "Não humilha, cara, kkk". 

O exército de robôs bolsonaristas dizia que os incêndios eram esparsos. Era tudo exagero dos petistas, dos comunistas, do inimigo vermelho. O fogo não era tão grave assim. 

A Nasa (Administração Nacional e Espacial Norte-Americana) apareceu na história, publicando fotos do satélite Modis, que mostrava um cenário de horror, com as queimadas preponderando, junto às rodovias BR 163 e BR 230. As queimadas, segundo a agência espacial, eram as maiores registadas desde 2010.

Reportagem do Fantástico, aquele programa imorrível de domingo na TV Globo, foi até a Amazônia e relatou o que a gente já imaginava: grupos de criminosos tinha ateado fogo na floresta. A matéria mostrava caminhões carregados de madeira circulando, clandestinamente, à noite. A Amazônia, terra de ninguém, queimava. Era saqueada, destruída e não tinha uma única autoridade capaz de fazer valer a lei. Os bandidos construíam até pontes "piratas" para escoar o material roubado - a preciosa madeira arrancada da floresta.

Primeiro, a Alemanha, depois o G7, grupo dos países ricos, ofereceram ajuda, mas Bolsonaro disse que não aceitava o dinheiro. Só toparia receber a grana do G7, se "Macron pedisse desculpas". Sobre o dinheiro da Alemanha, Bolsonaro mandou os alemães usar o dinheiro para reflorestar o país deles.

O foco, neste momento que escrevo, mudou. O discurso bolsonarista insiste na tecla da "soberania". O Brasil é soberano. A Amazônia é nossa e vamos botar fogo nela, enquanto tiver árvore em pé. Ninguém tem nada a ver com isso. Os países ricos, os europeus, não têm que meter o nariz onde não deve. 

Quando era jovem, eu tinha um amigo hindu, que achava melhor o Brasil ceder o controle da Amazônia à Europa, porque só assim seria possível salvar a floresta. "Brasileiro não gosta de preservação", ele me dizia.

Ao longo da minha vida, passei poucas e boas, lutando pela preservação. Lembro da briga pela Casa Modernista, de Gregori Warchavchik, em 1982/84. Éramos meia dúzia de voluntaristas, protestando diante do imóvel, que fica na rua Santa Cruz, Vila Mariana. Uma construtora iria derrubar toda a área e construir torres de edifícios no local. Iniciamos o movimento, sofrendo ataques diários do jornalista José Paulo de Andrade, da Rádio Bandeirantes (até hoje, por sinal, ele é contra a preservação da casa). Nós nos reuníamos no salão paroquial da Igreja da Saúde. Juntamos forças. Chegaram mais integrantes. Começamos a fazer manifestações. A construtora entrou com processo contra mim. Fizemos reunião com o então prefeito Mario Covas que me avisou: "Se eu preservar a área, você não venha amanhã me pedir para manter o local. Não tenho dinheiro pra isso". Enfim, depois de muitas reuniões, idas e vindas, de bater em dezenas de portas de autoridades, conseguimos preservar a área, impedindo a construção de mais edifícios, como se São Paulo já não estivesse saturada de tanto prédio. Hoje, a Casa Modernista é um parque e pode ser visitado por quem estiver passeando pelo bairro. Caso raro. Quase inacreditável. 

Quando fui morar na Granja Viana, em busca de verde e tranquilidade, vi tanta árvore ser derrubada, ouvi tanto barulho de motosserra, que fiquei anestesiado. Entendi que o brasileiro é assim. Está pouco se lixando para a preservação. Ele quer construir. Matar o verde. Como o meu amigo hindu dizia, brasileiro, realmente, não gosta de natureza. 

Onde moro, vivi episódios estressantes, ligados à destruição. Lembro de um sujeito que invadiu um terreno e derrubou todas as árvores. Todas. Não deixou nenhuma em pé. Chamei a Polícia Ambiental. Veio uma viatura. Ficamos ali parados, diante dos dois policiais. O agente perguntou se eles tinham autorização para a derrubada das árvores. "Tenho", o construtor falou. Mostrou um documento que autorizava derrubar três árvores e não as quinze ou vinte que ele havia eliminado do terreno. "Quem cortou as outras árvores?", perguntou o policial. "Não sei", disse o construtor. "Só cortei as três que estavam permitidas". Os policiais devolveram a autorização e foram embora. Saí correndo atrás de um promotor do Meio Ambiente. Nenhuma providência foi tomada. Descobriu-se depois que o terreno em questão havia sido ocupado irregularmente, comprado com documento falso. Um pesadelo!

Então, é só uma questão de tempo. Todas as árvores da Amazônia serão derrubadas, queimadas, saqueadas. Essa é a nossa noção de soberania. Somos soberanos em destruir, queimar, transformar dias em noites.

Durante a construção do condomínio Alphaville da Granja Viana, as motosserras trabalharam dia e noite. A gente ouvia o ruído maldito do motor. É um ganido, um silvo arrepiante, afiado, mortal. Depois, vem o som do tombo, da árvore despencando e se despedaçando no chão. 

Nessa época, chegando do trabalho à noite, fui entrar em casa e um animal silvestre, um saruê, cruzou a frente do carro. Ele parecia cansado, andava muito devagar, trôpego. Freei. Ele ficou olhando para mim. Esse saruê era alguém sofrido, desalentado, que havia sido expulso de sua moradia e não tinha mais onde ir. Estava perdido e sem esperança. Assim como eu me sinto hoje, uma semana depois do dia ter se transformado em noite.         


        


   

terça-feira, 20 de agosto de 2019

A metáfora do dia que virou noite


Eram 15h de segunda-feira, 19 de agosto. Estava na estrada, retornando para São Paulo. Assim, do nada, ficou tudo escuro. Noite fechada. Breu. Liguei o rádio e os apresentadores também se referiam ao fenômeno. Buscavam explicações. Era algo inédito que estava ocorrendo. Inédito e assustador. Parecia o fim dos tempos, como a gente imagina que um dia será o fim da nossa espécie, do planeta, da vida como a conhecemos. 

Meteorologistas eram chamados e explicavam que a escuridão era proveniente de dois fatores conjugados: queimadas e uma formação substantiva de nuvens do tipo cumolonimbus, que é aquela nuvem preta, pesada. 

Chegando em casa, um pouco mais tarde, entendi que essa história de "o sertão vai virar mar" e o dia que virou noite é uma metáfora da nossa tragédia particular. 

Leio agora reportagem que "explica" a noite escura, que desceu ontem sobre São Paulo. Era uma espécie de "corredor aéreo" que trazia a fumaça das queimadas em direção à capital. "Ocorre todos os anos", tranquilizava o título. 

Se ocorre todos os anos, então, está na hora de parar de ocorrer. Até quando o brasileiro vai botar fogo na floresta? Provavelmente, nunca, porque a estupidez parece ter emigrado e se estabelecido no Brasil.

Programa de TV alemão Extra 3, do canal ARD, tira sarro do Brasil. Relembra episódios recentes de insustentabilidade: liberação de agrotóxicos; demissão de cientista que comandava o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais); indicação de ministra da Agricultura, Maria Tereza, lobista do agronegócio, apelidada de "musa do veneno"; o presidente Bolsonaro é chamado de "Trump do Samba" e "idiota de Ipanema". A transmissão mostra imagens de árvores nativas sendo derrubadas para plantação de soja e criação de gado.   

Neste fim de semana, o Twitter - espécie de rede oficial da guerra digital - trouxe um bate-boca virtual entre o jornalista Gilberto Dimenstein e a líder do governo na Câmara, Joice Hasselmann. Joice era jornalista e foi acusada, em 2015, de plagiar textos de colegas. Ao todo, 23 jornalistas disseram que ela plagiou seus textos. 

Irritada com as críticas constantes de Dimenstein, em seu site Catraca Livre, ao governo Bolsonaro, Joice tachou o jornalista de "comunista". Dimenstein pediu provas. 

Como a deputada não apresentou qualquer evidência de que Dimenstein seria comuna, ele escreveu um texto, dizendo que, por exemplo, se afirmasse que a deputada seria maconheira, teria de provar. Não bastaria apenas afirmar que ela usava maconha. Era necessário apresentar provas.

Joice Hasselmann não deve ter lido o texto - ou quem sabe não compreendeu o que estava escrito - e atacou o responsável pelo Catraca Livre, chamando-de de "velho" e "verme nojento". A política bolsonarista disse que vai processá-lo e doar o dinheiro da futura indenização para entidades que combatem fake news.

Se levada para os tribunais, será uma briga boa. Joice Hasselmann terá de provar que Dimenstein é comunista, mostrando artigos que ele escreveu ou obtendo uma suposta carteira de filiação dele ao Partido Comunista. Não vai conseguir, porque, quem leu, por vários anos, os artigos de Dimenstein na Folha, quem o ouvia na rádio CBN, sabe que ele nunca foi adepto de regimes absolutistas. Nem fez a apologia de regimes comunistas.

Já Dimenstein não precisará provar que Joice Hasselmann é maconheira, porque, sinceramente, não foi isso que ele escreveu. Quem domina, mais ou menos a arte da leitura, consegue entender o que ele quis representar, com o artigo "E se eu dissesse que Joice Hasselmann é maconheira?".    

Essa prática de chamar os opositores do governo Bolsonaro de "comunistas" precisa acabar. Dimenstein agiu corretamente, exigindo provas. É um exemplo que deve ser seguido. 

É bom que se diga que não é contra a lei ser comunista. O estado do Maranhão tem um governador, Flávio Dino, do PC do B (Partido Comunista do Brasil). Dino, aliás, foi escolhido "o melhor governador do Brasil". Só que ser contra o governo Bolsonaro não implica necessariamente em ser comunista.

E ontem à noite, às 22h, o programa Roda Viva entrevistou o deputado federal Alexandre Frota, neotucano, expulso recentemente do PSL, o partido do governo Bolsonaro. 

Tratado pelo programa com o respeito que se dá a um grande estadista, Frota disse que é "normal" produzir notícias falsas (fake news), durante a campanha eleitoral. "Faz parte do jogo", afirmou o deputado, condenado em vários processos movidos, entre outros, por Chico Buarque, Jean Wyllys e até um juiz. 

Como assim? É "normal" mentir? Adulterar informações? Publicar notícias falsas com objetivo de eleger determinado candidato? É igual às queimadas, "que ocorrem sempre"?

Se houve utilização de fake news, para eleger Bolsonaro, o pleito deveria ser cancelado e outra eleição, convocada. Não foi uma eleição justa. Os eleitores foram enganados. Assim não vale. Não é "normal", nem "faz parte do jogo".

A Netflix exibe em seu catálogo de documentários Privacidade Hackeada, que trata do escândalo da Cambridge Analytica, empresa especializada em produzir fake news e eleger determinados candidatos. 

A Cambridge Analytica estava por trás da eleição de Trump e também do plebiscito sobre o Brexit na Inglaterra, só para citar duas participações marcantes. Usou 50 milhões de perfis, repassados pelo Facebook.

A jornalista do The Observer, Carole Cadwalladr, é uma das personagens do documentário e diz exatamente isso: eleição na base do fake news é fajuta. O povo foi enganado. Não deveria valer. 

Hoje, dia 20, faz 500 dias que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preso. É um aniversário do desmando jurídico. Publicações do site The Intercept mostraram que não havia provas contra Lula de que ele teria recebido o tríplex no Guarujá (SP) como forma de pagamento de propina. Apartamento, aliás, que nunca foi dele e onde ele nunca morou. 

As conversas entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato - principalmente Deltan Dallagnol -, vazadas pela Vaza Jatorevelam que havia uma ação política para neutralizar Lula e impedi-lo de participar da eleição de 2018. Lula liderava as pesquisas de intenção de voto, apesar de toda a gritaria da mídia na época, reverberando as acusações da Lava Jato.

O filme Blade Runner se passa em novembro de 2019. Chove muito. O sol não consegue passar pela camada de nuvens escuras. Lançado, em 1985, era uma distopia futurista úmida e fria.

Em agosto, por não conseguir interromper as queimadas, por ser incapaz de produzir uma única notícia ambiental positiva, mergulhamos todos na escuridão. Úmida e fria. E ainda estamos em agosto. Imagine quando chegar novembro de 2019.



 

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A coragem de Glenn Greenwald



Autor de livros, jornalista em tempo integral, premiado, inteligente, rápido no gatilho intelectual, Glenn Greenwald, 52 anos, é admirado, principalmente, pela sua coragem. 

Casado com o deputado David Miranda, "homossexual assumido" portanto, como se diz no cabeleireiro, Greenwald é um combo de atração do ódio de bolsonaristas e afins.

A série de furos jornalísticos que ele conseguiu com as gravações de promotores da Lava Jato, em conversas íntimas com o então juiz Sergio Moro, expôs ao mundo aquilo que todo brasileiro, ligeiramente informado, já imaginava. Moro não era um juiz imparcial. Ao contrário. Longe disso. Far away

Moro parecia liderar a operação Lava Jato, ajudando na coleta de provas, orientando investigações, julgando e condenando, mesmo sem as provas necessárias. Como foi o caso do ex-presidente Lula, que está preso por causa de um apartamento no Guarujá, onde ele nunca morou, nem nunca foi dele.

A Lava Jato foi a maior operação do Judiciário brasileiro contra a corrupção. Inegável. O problema é que - como a Vaza Jato de Greenwald mostrou - nem sempre seus protagonistas agiram dentro da lei. 

As mensagens secretas entre Moro e o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, indicam que o Judiciário foi usado para fins políticos. O principal deles: impedir a eleição de Lula, que liderava todas as pesquisas de intenção de voto. Havia ali uma colaboração malcheirosa entre promotores e o juiz. 

Na trama para impedir a eleição de Lula, os procuradores, colegas de Deltan, reclamavam dos desvios éticos de Sergio Moro. Havia ainda uma cortina de fumaça (para usar uma expressão nova) que levava os ingênuos a acreditar que a Lava Jato também investigava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. 

Enquanto Moro virava Superhomem, Deltan Dallagnol aproveitava a fama para faturar os tubos com palestras. Em uma dessas palestras, Dallagnol recebeu R$ 33 mil da companhia de tecnologia Neoway. O problema: a Neoway era investigada pela Lava Jato, citada numa delação de Cândido Vaccarezza.

As conversas revelam a preocupação da Lava Jato, com os enroscos legais de um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro. O ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz, fez movimentações financeiras suspeitas. Iniciadas as investigações, Queiroz desapareceu e nunca mais foi encontrado. 

Seria uma boa se algum jornalista mais atrevido localizasse Queiroz e revelasse o paradeiro dele. Até a deputada Janaína Paschoal gostaria de saber onde foi parar o Queiroz.

Quando ficou sabendo da confusão em que Flávio Bolsonaro estava metido, Moro preferiu nada fazer. Temia, provavelmente, perder o cargo de ministro. Em 21 de julho, o The Intercept publicou outra bomba:

"No dia 8 de dezembro de 2018, Dallagnol postou num grupo de chat no Telegram, chamado Filhos do Januario 3, composto de procuradores da Lava Jato, o link para um reportagem no Uol sobre um depósito de R$ 24 mil feito por Queiroz numa conta em nome da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. 

"Segundo o texto, a “transação foi apontada como 'atípica' pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e anexado a uma investigação do Ministério Público Federal, na Lava Jato”. 'Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. A comunicação do Coaf não comprova irregularidades, mas indica que os valores movimentados são incompatíveis com o patrimônio e atividade econômica do ex-assessor'”.

O promotor Roberto Pozzobon avaliou: "1) é algo que precisa ser investigado; 2) tem toda a cara de esquema de devolução de parte dos salários como o da Aline Correa que denunciamos ou, pior até, de fantasmas". Aline Correa era deputada pelo PP de Pernambuco, filha do também deputado Pedro Correa, condenado no Mensalão. Aline foi alvo de processo criminal da Lava Jato.

Moro ficou quietinho. A Lava Jato preferiu continuar batendo em Lula e cia. do que enveredar por essa seara de espinhos e maus  odores. Queiroz, por falar nele, ainda não deu as caras. Se você, leitor, souber onde ele se encontra, por favor, dê um toque para a gente.

A Vaza Jato de Greenwald teve o mérito de tirar a virgindade ética de Moro e dos promotores da Lava Jato. Não havia ali, necessariamente, busca pela verdade, nem apenas luta contra a corrupção. O alvo era, nitidamente, político. Destruir Lula e o PT. Foram bem-sucedidos. 

Não se pode esquecer que as investigações da Lava Jato tiveram o mérito de mostrar um amplo e encardido esquema de corrupção, envolvendo políticos, empreiteiras, funcionários da Petrobras e operadores financeiros. Foram bloqueados 2 bilhões e 400 mil reais e repatriados 745 milhões de reais. Condenadas 159 pessoas. 

O PT, como mostra o documentário Democracia em vertigem, precisou se aliar às velhas oligarquias, adotar os mesmos procedimentos, para chegar - e se manter - no poder. 

A compra de deputados pelo Mensalão, o escândalo do Petrolão para corromper políticos de vários partidos (PT, PMDB, PP), trouxeram vergonha para aqueles simpatizantes que, nos anos 80, ostentavam com orgulho o broche da estrelinha vermelha.

O PT não inventou a corrupção, mas mergulhou nela. Esmerdeou sua bandeira. Destruiu um dos mais importantes projetos de igualdade econômica, que presenciamos no Brasil, ao permitir que seu flanco fosse aberto para penetração da direita raivosa. 

Chegou agora o governo ultraliberal de Jair Bolsonaro para aniquilar direitos adquiridos, destruir sonhos acadêmicos, cortando verbas das universidades federais e bolsas de estudo. O País está paralisado. Imóvel. Afundando, como um elefante doente no lamaçal.   

Felizmente, podemos contar com jornalistas do porte de Glenn Greenwald, esse norte-americano, que parece um personagem de Grahan Greene, só que às avessas. Greenwald é um americano intranquilo. Alerta. Pronto a implodir as casamatas da direita beligerante, com seu corajoso site The Intercept

Se fôssemos contar apenas com a mídia tradicional, muito provavelmente as conversas hackeadas da turma de Moro/Lava Jato jamais chegariam ao nosso conhecimento. Como mostram as pesquisas, o povo brasileiro nunca desconfiou tanto da mídia tradicional como agora. E tem toda razão.   


      


sexta-feira, 26 de julho de 2019

Policial militar de folga é um perigo



A rua Pirassununga, na Mooca, é uma subida que leva o motorista da avenida Salim Farah Maluf até lá em cima, na rua do Oratório. À noite, a sinalização deixa a desejar. Em determinado momento, essa artéria cruza com a rua Jaboticabal, que tem a preferência. Ou seja, se você estiver subindo a rua Pirassununga, quando chegar no cruzamento com a Jaboticabal, você deve parar o carro. 

Ontem à noite, um motorista mais desatento não parou. Passou direto. Quase colidiu com outro veículo, que vinha pela preferencial. O motorista, que estava com a razão, deu ré e subiu à toda velocidade, em busca de justiça. Passou, em alta velocidade, a dois centímetros do meu carro. 

Duzentos metros adiante, ele fechou o carro vermelho. Desceu e começou a gritar. "Vai tomar no cu. Quer tomar um tiro na cara? Caraio!". Eu vinha atrás deles e flagrei toda a ocorrência.  

De camiseta larga, bermuda e chinelo de borracha, ele informou aos transeuntes que era policial militar. O motorista do carro vermelho procurava contemporizar, mas o suposto PM estava descontrolado. Parecia um cabo desencapado, soltando faísca.  

Comecei a filmá-lo. A mulher, que o acompanhava, saiu do carro e viu que a cena estava sendo gravada. Avisou-o. Ele veio em minha direção e mandou que eu apagasse o vídeo, que ele não tinha autorizado. 

Liguei o carro e saí do local. Ele desistiu de buscar justiça com o carro vermelho e veio atrás de mim. 

Entrei à direita na próxima rua e ele fechou meu carro. Saiu, gritando que era para eu apagar o vídeo. 

Segurei um martelo, que o meu compadre esqueceu no carro no fim de semana. Fiquei preparado para dar uma martelada na testa do maluquete, quem sabe assim ele se acalmava. 

Não usei o martelo. Apelei para o bom senso. Expliquei que era jornalista e que, como a cena havia se passado em um local público, não precisava de autorização dele.  

Dei ré. Desviei dele e dirigi até o Distrito Policial, que fica na rua Oratório. Quando passei por ele, ouvi um estrondo no lado direito do carro. O maluquete havia, provavelmente, dado um murro na lataria. 

No DP, ele estacionou o carro ao meu lado e também desceu, acompanhado da mulher, que segurava uma criança de colo.

Diante do policial de plantão, ele reafirmou que era policial militar e que eu havia filmado a altercação dele com outro motorista, ilegalmente. 

Voltei a explicar que a filmagem havia sido feita em local público e que, apesar dele ser PM, não tinha direito de permitir ou impedir o que quer que fosse.  

O plantonista disse que a delegacia estava encerrando suas operações e que ele devia registrar a ocorrência no distrito de número 53. Calmamente, o policial pediu para ele se acalmar, percebendo que o PM estava fora de si. 

Na saída, peguei meu carro e acionei o aplicativo para ir até a 53ª delegacia. O policial plantonista aproximou-se do meu carro e falou que eu estava coberto de razão e que o PM se mostrava, extremamente, agressivo. 

"O senhor fique tranquilo, se acalme, vá até a delegacia e o delegado de plantão vai ouvir as duas versões. O senhor não precisará apagar o vídeo, porque a liberdade de imprensa garante a filmagem", ele me explicou. 

Na porta, percebi que ele foi embora. Desistiu de fazer a ocorrência.

Estou pensando em enviar este vídeo para a Corregedoria da Polícia Militar. Não para criar problemas para esse rapaz, mas para a PM encaminhá-lo a tratamento médico. Ele está descontrolado. Parece a ponto de atacar qualquer pessoa que o contrarie. Deve ser estresse da profissão. Imagine esse sujeito, andando armado por aí. Se ele for de fato PM, precisaria passar, urgentemente, por um recall.  

       

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Divino amor é um filme conservador, com disfarce crítico


"Deus existe". Essa é a mensagem fundamental do filme Divino amor, de Gabriel Mascaro. Sob o disfarce de criticar os neopentecostais, a produção vai remeter à imaculada concepção. É uma alucinação futurista. 

Quem é ateu fica observando aquela 1h41min de uma distopia muito próxima à nossa realidade, para tentar entender o caminho que o roteiro, escrito por um trisal de autores, vai empreender. 

O resultado é conservador. Deus existe, mas está longe dos religiosos e das religiões, que são tão burocráticos, tão enclausurados nos dogmas, que não conseguem observar a Sua onipresente e milagrosa existência. 

Brasil, 2027. O País se transformou em um antro neopentecostal, com pastores atuando em drive-thru, com direito a música gospel e frases de encorajamento, do tipo "Deus vê e provê". Não há mais Carnaval, substituído pela "Festa do Amor Supremo". 

Felizmente, uma boa notícia. Em 2027, ficaremos livres para sempre do enjoativo bati-cum e dos desfiles suarentos. Desfile de escola de samba é como a roupa do Mark Zuckerberg. Sempre igual. 

Os religiosos transam como coelhos. Fazem troca-troca de casais. É uma religião swingueira. 

Quem conduz a trama é a funcionária do cartório Joana (Dira Paes). Imagine você indo se divorciar e topar pela frente com a dona Joana, que cria dificuldades burocráticas e insiste em manter os casais juntos, mesmo contra a vontade deles? Tudo em nome dessa entidade abstrata, quase alienígena, que vive no Céu, ou em algum lugar invisível e distante. 

Joana é casada com Danilo (Júlio Machado), que tem um próspero negócio de produção de coroas de flores para embelezar caixões de defuntos. Os dois frequentam as sessões de sacanagem espiritual da seita Divino Amor. São fiéis ao extremo. Sua maior frustração é a falta de filhos. Joana não consegue engravidar. 

Ao contrário de obras fechadas como O Processo e 1984, em que seus personagens estão enrodilhados em situações sem qualquer saída e perspectiva, os clientes do cartório, onde Joana trabalha, têm a possibilidade de se revoltar e exigir que a funcionária religiosa seja afastada de suas funções. 

Em uma distopia do tipo 1984, Joana manteria seu cargo e continuaria azucrinando os infelizes casais que querem se divorciar. 

O filme deixa margem para se buscar a saída. Permite ao público respirar aliviado. Algo que em uma obra como O Processo, isso nunca irá ocorrer.

Falta ao filme um mergulho mais radical na ignorância religiosa. No abismo da fé sem sentido. Na quinta-feira, eu estava no barbeiro, no interior do Estado, e um fiel, de terno e gravata pastoral, aguardava a hora de raspar a cabeça. 

Eu falava com o barbeiro sobre a Lei da Gravidade (não me pergunte por que esse assunto entrou na pauta de uma barbearia de uma cidade de 8 mil almas). O fiel começou a rir, quando falei que todos os corpos caem com a mesma velocidade em direção ao chão. Sejam eles uma pluma ou um pedaço de chumbo. "Esse pessoal inventa cada coisa", ele comentou, com incredulidade. 

Ou seja, algo que Isaac Newton escreveu em 1687 ainda não chegou a todos os brasileiros. O fim da picada. O fim da linha do modelo educacional. 

 O filme Divino Amor é narrado em off por uma criança. Ao final, vamos nos deparar com a/o autor da voz. O efeito é de uma pancada planejada. 

A produção ainda está em cartaz em São Paulo. Em duas salas Belas Artes e Instituto Moreira Salles, em três horários apenas. 

Vale a pena assistir, por ser um filme que provoca debate, que incomoda e que é diferente daquelas bobagens insuportáveis, engendradas por Paulo Gustavo, do tipo Minha mãe é uma peça 1, 2, 3, 4, 5... 

    
   

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Democracia em vertigem e o poço sem fundo





O documentário Democracia em Vertigem, de Petra Costa, exibido pela Netflix, foi selecionado pelo The New York Times como um dos melhores filmes do ano. Cabe informar ao leitor, que nem o Times nem a Netflix são comunistas.

Petra Costa, 36 anos, realizou, talvez, a sua grande obra. A Grande Beleza. Cineasta jovem, talentosa, ela reuniu em seu documentário todas as imbricações contraditórias de sua vida.

Nela, cruzam-se e sobrepõem-se a herança maldita de ser a neta de um dos fundadores da construtora multinacional Andrade Gutierrez (empresa corruptora, obrigada a fazer acordos de leniência) e seus pais guerrilheiros, presos e exilados, durante a Ditadura Militar.

O tom do documentário não poderia ser outro, senão o de alguém narrando com uma voz magoada, cheia de dor, o golpe que derrubou o governo Dilma Roussef; seguida pela posse de Michel Temer; e, na sequência, a eleição do capitão autoritário, favorável ao armamentismo, aos agrotóxicos, inimigo número 1 dos LGBTs, das reservas indígenas e dos quilombolas.

Vinte e cinco pessoas fizeram parte da equipe que realizou Democracia em Vertigem. Além de Petra, outros três co-roteiristas assinam a produção. Mas a gente só ouve a voz sofrida de Petra, narrando as desgraças da política brasileira. Deixa a gente com a sensação de que o poço, em que fomos mergulhados, não tem mesmo mais fim.

Próxima da presidente, Petra conseguiu imagens inéditas de Dilma e sua equipe nos momentos pré e pós-impeachment. A câmera de Petra faz voos vertiginosos sobre Brasília. Caminha, lentamente, lambendo os corredores, os salões do Palácio Alvorada. “Repleto de fantasmas”, segundo Temer.

O filme relembra diálogos do golpista Romero Jucá, ensaiando a derrubada de Dilma e a posterior posse de Temer, com Sergio Machado, ex-dirigente da Transpetro:

“MACHADO - Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].
JUCÁ - Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. 'Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha'. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.
MACHADO - É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.
JUCÁ - Com o Supremo, com tudo.”
    
 Cita as gravações de Joesley Batista, que diz ao então recém-empossado Temer que estava comprando o silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha. E Temer, aliviado, comenta: “Tem que manter isso, viu”.

Vem Aécio Neves, inconformado com a derrota, e iniciando um movimento pelo impeachment de Dilma. O mesmo Aécio que, mais tarde, cairia mais ainda em desgraça ao pedir R$ 2 milhões à JBS.

Vemos a Lava Jato em ação, convocando os jornalistas, para informar que não tinha provas, mas suas suposições indicavam que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva havia levado um tríplex na praia do Guarujá como pagamento de suborno.

Mais uma vez, nos deparamos com Lula diante do então implacável juiz Sergio Moro, dizendo o que todo mundo sabia – inclusive os promotores da Lava Jato. Ele estava sendo processado por um apartamento, que nunca havia sido dele, e onde ele nunca havia morado. “Me mostre uma escritura”, implora Lula, “me mostre uma prova que o apartamento era meu”.

O legal do documentário é que Petra não deixa barato. Cutuca as feridas do Partido dos Trabalhadores. Para assomar ao poder, o PT aliou-se às pútridas oligarquias da política nacional.

Ela poderia ter exibido as cenas, que embaralham o estômago dos mais sensíveis. Como perdoar Lula abraçado com Paulo Maluf, pedindo o apoio desnecessário para a eleição de Fernando Haddad para a Prefeitura de São Paulo?

Para a autocrítica “de dentro”, ela entrevista Gilberto Carvalho, ex-ministro de Lula e, nos anos 90, braço-direito do então prefeito de Santo André Celso Daniel, barbaramente assassinado em janeiro de 2002. Carvalho faz uma análise interessante, indicando os caminhos tortuosos que levaram o PT a perder sua virgindade moral.

As imagens mostram Dilma reeleita, tomando posse, ao lado de Lula e dona Marisa, acompanhados por um tipo obscuro, vampiresco, suspeito, que os segue de perto e não sabe onde se posicionar para a foto. Era Michel Temer...

 A câmera de Petra vai às ruas. Entrevista os apoiadores do impeachment de Dilma que gritam: “Fora comunistas!”. Mostra o ódio espumando, escorrendo pelos cantos da boca dos manifestantes. Aparece Janaína Paschoal, então uma professora universitária, que havia sido uma das autoras do processo de impeachment, discursando no centenário Largo de São Francisco, diante da vetusta Faculdade de Direito da USP.

“Cabelo ao vento, gente jovem reunida”, Janaína, em um discurso meio messiânico, meio amalucado, fala em “república das cobras”, "cortar as asas das cobras", de olhos arregalados e assustadores, enquanto gira um pano, como se fosse uma hélice que poderia carregá-la sabe-se lá aonde.

Do alto, a câmera de Petra Costa traz a vertigem do Brasil dividido, esquizofrênico, “eu sou o dr. Breuer, eu não sou o dr. Breuer”, subdesenvolvido, miserável. País religioso como um cruzado medieval, analfabeto funcional, ocupado pela elite de sempre que elegeu um Kaspar Hauser crescido, para eliminar direitos da classe trabalhadora e manter privilégios da cínica classe dominante.

Imperdível.

Ficha técnica:
Democracia em vertigem
Roteiro, direção e produção: Petra Costa
Produzido por: Joanna Natasegara, Shane Boris, Tiago Pavan
Co-roteiristas: Carol Pires, David Barker, Moara Passoni
Diretor de fotografia: João Atala
Diretor de fotografia, imagens exclusivas: Ricardo Stuckert
Montadores: Karen Harley, Tina Baz, Jordana Berg, David Barker, Joaquim Castro, Felipe Lacerda
Colaboração de roteiro: Antonia Pellegrino, Virginia Primo, Daniela Capelato
Música original: Rodrigo Leão, Lucas Santtana, Gilberto Monte, Vitor Araújo
Música original adicional: Fil Pinheiro, Jaques Morelenbaum, Thomas Rohrer


terça-feira, 25 de junho de 2019

Demissões de jornalistas, macarthismo e Bolsonaro

Raquel Sheherazade


           Vivemos uma época estranha. Os jornalistas não trazem mais notícia. Eles viraram a notícia. 

           Ontem, o âncora da TV Bandeirantes, Fábio Pannunzio, demonstrou solidariedade a Raquel Sheherazade e Paulo Henrique Amorim. Hoje, foi a vez do âncora da Rádio BandNews, Eduardo Barão, seguir na mesma linha. Eles disseram, mais ou menos, o seguinte: "Embora não concorde com os comentários deles, no entanto..." 

          Ou seja, a casa (o grupo Bandeirantes) deu ordem para seus principais nomes criticarem a pressão feita por Luciano Hang, "o véio da Havan", como ele é conhecido nas redes sociais, para o empresário Senor Abravanel (Silvio Santos, para os íntimos) "demetir" a comentarista Sheherazade. Paulo Henrique Amorim, pró-Lula e antiMoro, foi afastado, sumariamente, da TV Record. O motivo do afastamento é claro: suas posições políticas.

          Quando soube que Silvio Santos havia extinto o Departamento de Jornalismo do SBT (sobrou só Roberto Cabrini e sua equipe para "apagar a luz", segundo observou Ricardo Feltin no UOL), Hang escreveu: "Ainda falta gente para demetir (sic). Raquel é uma delas". 

           Luciano Hang foi chamado de "ignorante" pelo professor e historiador Marco Antonio Villa, em seu programa no YouTube, por ter escrito demitir erradamente. Villa, por sinal, também foi demitido da Rádio Jovem Pan, depois de atacar de maneira fulminante o método Sergio Moro de fazer justiça.

          Luciano Hang deveria, isso sim, ser processado por algum ambientalista por ter espalhado pelo País réplicas gigantescas da Estátua da Liberdade, que deixam o Brasil mais feio,  subdesenvolvido, miserável, inferior.

           Reinaldo Azevedo, que cunhou a expressão "petralhas", ao longo de 13 anos de crítica incansável ao Partido dos Trabalhadores, demitiu-se da Rádio Jovem Pan e da Revista Veja, em maio de 2017, ao ter uma conversa com a irmã de Aécio Neves, vazada pela Procuradoria Geral da República. 

           Na época, Azevedo discordou da forma como Aécio foi tratado pela Veja e qualificou a publicação como "nojenta". Azevedo também sairia da RedeTV, onde fazia comentários políticos, coçando o saco, em sua despedida. 

            Hoje, Azevedo apresenta um programa de rádio, às 18h, na BandNews FM. É quase um monólogo, modorrento, ególatra, com a participação titubeante de uns extras, focas do jornalismo, que funcionam como escada. Nos últimos tempos, a exemplo do que fazia Paulo Francis, Azevedo busca a oposição. Por isso, critica Moro. Pede a saída do ministro da Justiça. Dá destaque para o episódio Vaza Jato. 

          O jornalista esportivo Mauro Naves, 30 anos de excelentes serviços prestados ao Esporte da TV Globo, ardeu em praça pública ao ter seu nome citado pelo Jornal Nacional.  O telejornal informou seus telespectadores que Naves havia sido afastado da equipe de jornalismo, depois de ter se envolvido no caso Neymar/Najila.

            Tempos atrás, William Waack, todo poderoso âncora da TV Globo, perdeu o emprego e virou manchete nacional ao fazer um comentário racista. Hoje, está na CNN Brasil.

           Fala-se em macarthismo no Brasil. Nos anos 50, durante a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética, o senador Joseph McCarthy, iniciou uma caça às bruxas, buscando comunistas até debaixo do tapete. O filme Trumbo  é didático a respeito. Quem não quiser ler sobre o período, pode se instruir vendo o filme.

           Será que o Brasil vive o seu macarthismo? Os reacionários Villa e Sheherazade teriam se tornado comunistas de um dia para o outro? 

            Quem trabalhou em jornal sabe que não existe liberdade de imprensa no Brasil. O bordão é antigo, mas é sempre bom a gente relembrar. Existe "liberdade de empresa". Não de imprensa. 

             Villa era incensado na Rádio Jovem Pan, onde batia, ferozmente, no governo petista. Era um açougueiro batendo na carne. Amaciando. Amolecendo. Aguardando o momento tão esperado...A queda da presidente Dilma, no golpe de estado, que colocou o vice-presidente Michel Temer no poder. 

             Dilma saiu em 31 de agosto de 2016 do governo. Agosto, por falar nisso, é um mês complicado para o Brasil. Em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros pedia demissão e se afastava da Presidência, gerando uma crise institucional que redundaria no golpe de estado que levou à Ditadura Militar. Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas encerrou o seu governo com um tiro no coração. "Saio da vida para entrar na história".  

              Como diz o empresário Senor "Silvio Santos" Abravanel, "se for para criticar o governo, é melhor ficar quieto". Reacionária até o último fio de seu cabelo loiro, Sheherazade se deu bem, enquanto batia em Dilma e nos "petralhas". Era uma entusiasta do método Moro de fazer justiça e da Lava Jato. Quando Bolsonaro assumiu, ela achou que tinha direito de opinar. Criticou o presidente, criticou Moro e levou um puxão de orelha público do apresentador e dono do SBT. Na prática, Silvio Abravanel cortou as asinhas de Sheherazade. 

              No futuro, assim como ocorreu com Waack, ela deve ser acolhida, fraternalmente, pela CNN Brasil, dirigida pelo biógrafo de Edir Macedo, Douglas Tavolaro, ex-chefão da Record.

               Não há macarthismo no Brasil. O governo não precisa se preocupar em pedir à sua líder Joice Hasselmann que instaure um tribunal de exceção para caçar os comunistas, escondidos nas redações. Hasselmann, que exalta a Ditadura Militar, sempre que solicitada, certamente, cumpriria sua tarefa com gáudio e pompa. Mas não é o caso. 

               Nos grandes meios de comunicação brasileiros, em que a mídia apoiou entusiasticamente o golpe, os jornalistas não têm direito de expressão. Eles podem falar o que quiserem, desde que suas opiniões sejam as mesmas dos donos dos meios de comunicação. Caso contrário, vão perder o emprego, como o nosso querido professor Marco Antonio Villa, que o YouTube lhe seja leve.  

                

                                        

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O pior de tudo é que a novela Neymar/Najila ainda não terminou


Começou no dia 1º de junho. Foi quando a mídia descobriu que a modelo Najila Trindade havia registrado, na véspera, um BO contra Neymar por estupro. 

A mídia enlouqueceu. Foi uma correria. Só se falava nisso. Você ia na padaria. O assunto era Neymar. Você estava em um enterro. Alguém se aproximava respeitosamente e dizia, sussurrando: "E o Neymar, hein?" Na TV, nas rádios, na internet, nos malditos grupos de WhatsApp só se falava disso. 

O pior é que essa novela talvez seja daquelas longas, intermináveis, insuportáveis. Amanhã, 13 de junho, lá vai Neymar novamente prestar depoimento, passando pelo corredor polonês de milhares de repórteres, câmeras, policiais, seguranças, fãs, curiosos, helicópteros, carros comuns, carros blindados, viaturas. Um pandemônio.

A história começa romanticamente no Sofitel Paris Arc de Triomphe - hotel cinco estrelas, na rue Beaujon, com a diária mais baixa custando a bagatela de R$ 1.800,00. Após breve troca de mensagens pelo aplicativo Instagram, Najila chega ao hotel para ter um encontro sexual com seu ídolo. 

O que aconteceu naquela noite ninguém saberá dizer. Apenas os dois. E os dois têm versões diferentes. Então...Pobres de nós, mortais...

Najila retorna ao Brasil. Espera passar 15 dias. Contrata o advogado José Edgar Bueno e diz que foi vítima de agressão. O advogado assume a causa, mas fica pouco tempo no "cargo". Quando descobre que ela havia feito um BO por estupro, decide pular fora do barco Najila.

Najila concede uma entrevista exclusiva ao bom repórter Roberto Cabrini, do SBT. Para não ficar atrás, a Globo divulga imagens inéditas, gravadas no hotel. 

Aí, para a novela não perder o pique, a gente assiste estupefato um vídeo da Najila descendo o braço em Neymar. O infeliz está deitado na luxuosa cama do Sofitel Paris, levando bordoada atrás de bordoada. Completamente vestido e de boné, ele põe os pés calçados com um tênis chique para cima, enquanto a moça desce porrada nele. 

Ela contrata outra defensora - Yasmin Abdalla - que também puxaria o carro, pouco depois. Vem um terceiro advogado, o monarquista e descendente direto do Conde de Bobadela, Danilo Garcia de Andrade, de cabelos escuros, oleosos, fartos e barba negra cerrada. 

Najila afirmava que tinha um vídeo que comprovava tudo: as agressões e o estupro que teria sofrido de Neymar. O advogado pede o vídeo. Ela diz que a prova está em um tablet. 

Ela vai prestar depoimento na polícia. Tem um piripaque. Desmaia e sai carregada pelo advogado, em uma cena que somente o nosso noveleiro preferido, Walcyr Carrasco, conseguiria imaginar. 

Correndo por fora, a mídia trazia a cada hora uma novidade. Ficamos sabendo, em um capítulo, que Najila estava sendo despejada de seu apartamento e que não havia pago um curso na Escola Panamericana de Arte e Design. Devia, por baixo, uns R$ 30 mil. 

Outro dia, outro capítulo: descobrimos que Najila havia esfaqueado o ex-marido, Estiven Alves. Em entrevista, Estiven confirmou a facada: "Foi no peito. Eu me internei". Tinha até BO.

Para se defender, Neymar publicava as mensagens que havia trocado com a modelo. Mostrava fotos dela, em posições sensuais. 

O cantor pagodeiro Zula jurava que não queria se promover, mas comemorava que seu vídeo Fogo Cruzado, até então obscuro e poucos visto, com a participação de uma seminua Najila, estava bombando na internet, com 1 milhão e 600 mil visualizações. 

Nessa altura da novela Neymar/Najila, o advogado monarquista abandona o caso, argumentando que ela não havia entregado o tablet com as provas. Pior: Najila dizia que quem tinha surrupiado o tablet havia sido o advogado. 

Najila garante que o tablet foi roubado. O condomínio onde ela mora diz que não houve roubo nenhum e o porteiro do prédio - pra variar - registra um BO contra a modelo por ameaça e intimidação. A polícia vai até o local e tira impressões digitais. Só aparecem duas impressões: a da própria Najila e de uma empregada. Najila, por seu turno, acusa a polícia, dizendo que foi todo mundo comprado.

Durma-se com um barulho desses!


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Eu já sabia, Intercept

Deltan Dallagnol
Sergio Moro

Foi um grande furo de reportagem. O site The Intercept Brasil, credenciado pelo premiado jornalista norte-americano Glenn Greenwald, publicou neste domingo, 9 de junho, uma matéria especial, dizendo tudo aquilo que a gente já sabia, mas não tinha como provar. Greenwald conquistou fama mundial ao divulgar, no The Guardian, os documentos vazados por Edward Snowden.

O que a gente já sabia? Que o juiz Sergio Moro e os promotores da Lava Jato trabalhavam em sintonia fina. Moro lançava a bola. O promotor Deltan Dallagnol matava no peito e fazia o gol. Dallagnol fazia um lançamento de 60 metros, em profundidade, deixando Moro na frente do gol para marcar mais um. 

No caso, não se tratava de futebol. Era a incansável labuta da Lava Jato em conseguir provas que conseguissem mandar para a cadeia os principais integrantes do Partido dos Trabalhadores, entre eles, o principal "inimigo" o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Com toda essa sinergia entre juiz e promotores, o processo foi bem-sucedido. Lula foi julgado e condenado, por causa de um apartamento no Guarujá, no qual ele nunca morou, nem nunca foi dele (o próprio Dallagnol dizia: "tô com receio da história do apto".). E também em razão de um sítio, de propriedade do empresário Fernando Bittar (https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/dono-do-sitio-de-atibaia-pede-a-justica-para-vender-imovel.shtml

O objetivo da Lava Jato - segundo o site - era óbvio: tirar Lula da disputa presidencial e limpar o caminho para o então candidato Jair Bolsonaro:

"A Lava Jato foi a saga investigativa que levou à prisão o ex-presidente Lula no último ano. Uma vez sentenciado por Sergio Moro, sua condenação foi rapidamente confirmada em segunda instância, o tornando inelegível no momento em que todas as pesquisas mostravam que Lula – que terminou o segundo mandato, em 2010, com 87% de aprovação – liderava a corrida eleitoral de 2018. Sua exclusão da eleição, baseada na decisão de Moro, foi uma peça-chave para abrir um caminho para a vitória de Bolsonaro". 

Assim que foi eleito, Bolsonaro "pagou a dívida" de campanha e indicou Moro para o Ministério da Justiça.

Todo esse imbróglio jurídico está repleto de irregularidades. É de conhecimento comum que um juiz não pode se misturar com a acusação. Está previsto na Constituição brasileira. O artigo 95 diz claramente que é "vedado ao juiz participação em processo". 

O juiz deveria ser imparcial. Na prática, a gente percebe que aconteceu o inverso. Moro estava mergulhado até o tutano em uma missão estratégica, que visava colher provas, obter confissões e condenar.

Questionado a respeito, Moro sempre refutou essa hipótese. Cansou de dizer que não tinha estratégia, que quem investigava e decidia o que fazer era o Ministério Público. 

Na realidade, Moro aconselha, cobra, questiona, repreende, se intromete, pede para que as investigações sejam apressadas. É uma tabelinha estilo Pelé/Coutinho. Moro passa para Dallagnol, Dallagnol devolve para Moro, Moro para Dallagnol...É gol!

Qual é a base para se comprovar essa relação ilícita entre acusador e julgador? São as conversas, feitas em aplicativos, entre Moro e os promotores da Lava Jato. Um hacker  interceptou esses arquivos secretos e os encaminhou ao site The Intercept, que os publicou. Houve um crime. Os arquivos secretos não poderiam ter sido interceptados. O hacker agiu de forma criminosa. 

O crime, no entanto, não foi cometido pelo site. O artigo 5º da Constituição brasileira, em seu parágrafo 14, deixa claro que "é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional". Os arquivos secretos foram entregues ao site, que os publicou, amparado no que diz a Constituição.

A ampla reportagem do The Intercept traz ainda informações sobre o famoso tríplex, atribuído a Lula pela Lava Jato. Em seu Imposto de Renda, Lula afirmava ter participação em uma cooperativa habitacional no Guarujá, desde maio de 2005, tendo pago até aquele momento R$ 47 mil. Ocorre que não era um tríplex, mas uma unidade simples, que ficaria na torre B. 

Uma reportagem do jornal O Globo, publicada em 2010, mencionava que o casal Lula e Letícia perderiam a vista para o mar, em razão da construção de uma outra torre. A torre A. 

Segundo The Intercept, a denúncia da Lava Jato tinha inconsistências:

"Na denúncia feita pela Lava Jato, no entanto, os procuradores afirmam que o triplex de Lula fica na torre A, que ainda não existia quando a reportagem (do Globo) foi publicada. Mas, no item 191 da denúncia assinada pelos 14 procuradores, há o seguinte trecho (citando a reportagem do Globo): 'Essa matéria dava conta de que o então Presidente LULA e MARISA LETÍCIA seriam contemplados com uma cobertura triplex, com vista para o mar, no referido empreendimento'".

Ou seja, a denúncia estava errada. Era outro apartamento. E não o tríplex.

Esse envolvimento entre o acusador e o julgador é ilegal. Não poderia ter ocorrido. Por causa disso, a Lava Jato deve ser descartada? Não. A Lava Jato conseguiu algo inédito na história do País. Conseguiu 244 condenações contra 159 pessoas. Contabilizou R$ 6,4 bilhões em pagamentos de propinas. Veja o invejável resultado da Lava Jato até hoje: http://www.mpf.mp.br/grandes-casos/caso-lava-jato/atuacao-na-1a-instancia/parana/resultado

O público sente simpatia pelo ex-presidente Lula. É inegável que ele fez dois mandatos excepcionais à frente do Brasil. A aprovação popular era ampla e quase irrestrita. Tanto assim que ele foi reeleito três vezes. Uma vez, por ele mesmo. Nas outras, duas "incorporando" Dilma Roussef.

É inaceitável o PT ter se envolvido em tantos casos de corrupção, entre eles, o Mensalão e o Petrolão. O PT tinha a obrigação de ser um partido diferente e não ter incorrido nos mesmos desmandos dos partidos tradicionais. Foi uma pena. Uma traição àqueles que acreditavam no símbolo da estrela, que colavam os adesivos do partido nas janelas de suas casas e ostentavam com orgulho o broche do partido no peito.   

Lula será solto? Valerá votar novamente nele, sabendo que o fantasma da corrupção petista irá acompanhá-lo?

Quando o PT vai pedir desculpas a seus eleitores? Quando o partido passará por um rebranding ético e moral?

Moro será despojado de seu Ministério? Moro deu adeus à sua vaga no Supremo? 

Essas perguntas serão respondidas nos próximos dias ou meses. O que interessa agora é passar o País a limpo, algo que parece cada vez mais distante e improvável.  



   



       

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...