segunda-feira, 7 de julho de 2025

Meu primo russo

 


Nunca soube o nome do meu primo Russo. Sei que ele morava no Bom Retiro e trabalhava no centro de São Paulo. Todos os meus parentes o chamavam de Russo, porque ele era ruivo. Não um ruivo opaco. O cabelo era vermelho mesmo, em chamas.

Russo era um primo que chamava a minha avó de "tia". Eu devia ter uns dez anos e achava estranho a minha avó ser tia de alguém. O Russo gostava de beber. Era o alcoólatra da família. Ficava uns meses sem aparecer e quando aparecia era um deus nos acuda. 

Tinha as roupas sujas e amarrotadas. O cabelo grudento. Sua transpiração era puro alambique. A barba um amontoado de fios sem direção. 

Então, tinha início o processo de recuperação do Russo. Minha tia o levava ao banheiro e o obrigava a entrar no chuveiro. Meu avô era chamado às pressas e arrumava uma muda de roupa: meias, calças, cueca, camisa e até um paletó. Alguém pegava os sapatos dele e levava para engraxar, com Nugget. Depois do banho, minha tia fazia a barba dele. Pegava a lavanda Atkinsons e dava umas borrifadas gerais no Russo. 

De banho tomado, barba feita, cabelo penteado para trás, roupa limpa e todo cheiroso, Russo chegava na cozinha e era celebrado por todos. Era um novo Russo que aparecia. 

Ele se sentava à mesa e minha avó montava um prato tridimensional para ele, com spaghetti, porpetas, frango e polenta. Só que, antes da primeira garfada, o Russo começava a tremer. Eu achava que ele estava com frio e dizia: "Vó, o Russo tomou banho gelado, por isso está tremendo". Não era frio. O Russo precisava tomar alguma coisa mais forte, algo com teor alcoólico próximo dos 40%. Meu avô enchia um copo de vinho chianti Ruffino e entregava nas mãos trêmulas do Russo que virava de uma vez o conteúdo. Não sobrava nem uma gota como testemunha.

Às vezes, no final da tarde, o Russo me acompanhava na padaria Santa Tereza, para comprar uma bengala de pão. No caminho, a gente parava no vendedor ambulante de doces e ele me oferecia com generosidade: "Escolhe o que você quiser", ele dizia, como se a gente estivesse no Fasano. Eu escolhia sempre o mesmo: Diamante Negro. 

O Russo ia embora e demorava meses para aparecer. Quando aparecia, era novamente o deus nos acuda, do banho, da barba, das roupas, da lavanda Atkinsons. Até que um dia veio a notícia: o Russo tinha morrido. Ele havia sido preso. Ficara uns dias apanhando dos policiais e morreu, deitado na cama de algum parente, enquanto dormia.

Muitas décadas depois, é a minha vez de enfrentar a síndrome do Russo. É o meu cachorro que costuma desaparecer de vez em quando. Não sei se ele vai em algum boteco de cachorro encher a cara; não sei se é a polícia dos cachorros que pega no pé dele; o fato é que ele costuma voltar pra casa quase sempre faltando um pedaço. É o focinho perfurado, o couro do peito aberto, patas machucadas, orelhas feridas.

Aí, a gente dá um banho nele para tirar o barro, a sujeira e limpar as feridas com sabão preto daquele que mata até pensamento ruim. Terminado o banho, vem a fase seguinte que é costurar o couro, colocar bálsamo nos cortes, ministrar remédios (vários) e botar perfume nele. Não, a colônia Atkinsons.

O infeliz fica deitado, recuperando as energias. Ao invés do vinho chianti Ruffino, ele toma água filtrada, come ração do primeiro time e um bandejão igual àquele que matava a fome do Russo. 

Amanhã, ele vai estar novamente em pé e a gente sabe que fugirá outra vez. Não adianta pôr cerca elétrica, arame farpado, trincheira, mina subterrânea, ele vai dar um jeito de passar por cima  (ou por baixo) dos obstáculos e irá novamente para a farra. 

O miserável incorporou a alma do meu primo Russo. Não há o que fazer. É esperar com os medicamentos prontos, a agulha de costurar cachorro e a colônia Atkinsons, por que não. 

Por falar na Atkinsons, tenho certeza que a lavanda adocicada vai fazê-lo lembrar da vida passada.

      


domingo, 8 de junho de 2025

Humorista Leo Lins é censurado pela Justiça Federal

 

Leonardo de Lima Borges Lins, o humorista condenado

O início é óbvio: Constituição da República Federativa do Brasil, artigo 5º, que trata dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos. O parágrafo nove diz o seguinte:

“É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”.

Se a expressão de atividade artística é livre de censura ou de licença, como pode um humorista sofrer condenação, por estar fazendo o seu ofício?

Aconteceu com Leo Lins. Em 2022, ele fez um show chamado “Perturbador”. O vídeo da apresentação foi parar na rede social (YouTube – 3 milhões de visualizações) e o Ministério Público Federal não gostou do que viu. Por isso, abriu um processo contra o humorista.

Três anos depois, no dia 3 de junho da semana passada, a juíza federal substituta Barbara de Lima Iseppi condenou o humorista a oito anos e três meses de prisão, mais pagamento de indenização de 303 mil reais.

A medida foi aplaudida por muita gente: intelectuais, jornalistas, gente com eira e gente sem beira e, inclusive, humoristas, como Pedro Cardoso, que fazia o personagem “Agostinho”, no programa “A grande família”, exibida pela TV Globo.

Em um longo texto na rede social Instagram, Pedro Cardoso associou o stand-up (comediante que fica em pé diante do público) ao fascismo e chamou a apresentação de Leo Lins como “discurso de ódio”.

Os jornais foram contra a condenação. Em editorial, intitulado “Quando piada dá cadeia, salve-se quem puder”, o vetusto Estadão escreveu o seguinte:

Punir piadas é sinal de fraqueza institucional, e não de justiça. O humor é parte da liberdade que protege o que nos incomoda, e uma sociedade plural não sobrevive à criminalização do riso”. O editorial prossegue:

“Mais do que um veredicto equivocado, é a expressão mais grotesca de uma tendência crescente: a criminalização do discurso incômodo sob o pretexto de proteger os vulneráveis. A toga virou armadura ideológica, e o Código Penal, instrumento de censura”.

O Globo escreveu: “São piadas – não crimes”.

Em sua sentença, com pelo menos dois erros graves de citação (a juíza menciona a lei 7.719, que cria uma categoria funcional do Tribunal Superior Eleitoral; ao invés da lei 7.716 que trata de racismo), a juíza confirma que o humorista é um personagem:

“Não obstante, ainda que se trate de uma personagem e não da pessoa de LEONARDO, é certo não se excluir o crime (...) o fato de se tratar de humor não configura um passe-livre para o cometimento de crimes, assim como o fato de se tratar de uma apresentação artística”.

E sentencia o réu:

“Somadas ambas as penas nos termos do artigo 69 do Código Penal, fica o réu condenado à pena definitiva de 08 (oito) anos, 03 (três) meses e 09 (nove) dias de reclusão, além de 39 (trinta e nove) dias- multa (...) A pena deverá ser cumprida inicialmente no regime fechado”.

Punir os humoristas não é novidade. O bobo da corte Triboulet (1479-1536) foi condenado à morte pelo rei Francisco I (há versões que dizem que essa condenação partiu do rei Luis XII). Durante uma apresentação, o bobo da corte Triboulet passou a mão na bunda do rei. Sua majestade não gostou e mandou matar o bobo. Triboulet se desculpou: “Me enganei, senhor. Achei que fosse a bunda da sua esposa, a rainha”.

Mais indignado ainda, o rei confirmou a condenação à morte e deu ao bobo da corte uma única regalia: ele poderia escolher a forma de sua execução. Triboulet propôs ao rei: “Então, escolho morrer de velhice”. O rei achou graça, perdoou e o exilou.

Aos 42 anos, o humorista Leo Lins não é engraçado. Suas piadas são apelativas, rasteiras e de péssimo gosto. Eu jamais sairia de casa para assistir a uma apresentação dele. Também não vou perder meu tempo assistindo aos vídeos dele nas redes antissociais.

Como lembrou a juíza, em sua sentença, o humorista faz piadas, dirigidas às minorias: negros, obesos, idosos, pessoas com HIV, indígenas, homossexuais, judeus, nordestinos, evangélicos e deficientes físicos.

As piadas de Lins são preconceituosas? E daí? A liberdade de expressão não existe para proteger discursos populares ou elegantes que não precisam de proteção, mas sim aquilo que desagrada, desafia convenções, irrita e até fere sensibilidades”, discorre o Estadão, em seu editorial.

A Justiça brasileira está correndo um sério risco: o de se transformar em órgão censor. Durante a Ditadura Militar, a censura era usada para calar dissidentes e opositores ao regime.

Na década de 1990, promotores do Ministério Público de São Paulo consideravam o jornal Notícias Populares impróprio para ser oferecido nas bancas. O NP, como era chamado, tinha manchetes sensacionalistas e publicava fotos de cadáveres na primeira página. Para os promotores, o jornal só poderia ser oferecido aos leitores se viesse embrulhado em um saco plástico, o que inviabilizaria a publicação, porque o NP vivia basicamente de venda em banca e precisava chamar a atenção de seus leitores.   

Em maio passado, a desembargadora Íris Helena Medeiros Nogueira condenou o jornal Zero Hora e a jornalista Rosane de Oliveira a pagarem uma indenização de 600 mil reais, por danos morais. O crime da jornalista: ela informou aos leitores do jornal que a desembargadora havia recebido, em determinado mês, a quantia de 662 mil reais. A notícia era verdadeira e os dados constavam no Portal da Transparência.

Em outro caso, em que a Justiça estava sendo usada para calar, o jornalista e escritor João Paulo Cuenca foi alvo de 140 processos, movidos por pastores da Igreja Universal, nos mais diversos e longínquos rincões deste País de dimensões continentais.

O crime de Cuenca: ele noticiou que o governo brasileiro (na época, o presidente era Jair Bolsonaro) iria subsidiar canais e emissoras de igrejas evangélicas, mesmo que estas estivessem em dívida com o estado.

Houve reação, felizmente. E partiu do próprio Judiciário. No início deste ano, o Ministério Público Federal moveu processo contra a Igreja Universal por “assédio judicial”.

Qual foi o crime que Leo Lins cometeu? Nenhum. Ele contou piadas. Você não gosta das piadas dele? Elas são de péssimo gosto, abjetas? É simples; não vá às apresentações dele; não veja os vídeos nas redes sociais.

Como disse o Estadão, em seu editorial inspirado: “O Brasil precisa resistir a esse impulso regressivo e repressivo. Piadas ruins devem ser criticadas, e não criminalizadas. Discursos odiosos devem ser desmoralizados, e não aniquilados com prisão. O riso – inclusive o cruel, ácido, perturbador – é uma válvula essencial das sociedades livres. Retirá-lo do espaço público é sufocar a liberdade”.

Espero que uma próxima instância judicial derrube a sentença da juíza substituta. Caso percorra todas as instâncias, sem sucesso, e chegue ao STF (Supremo Tribunal Federal) caberá aos ministros, que são guardiões da Constituição, preservar a letra da lei, conforme assinala o Artigo 5º, parágrafo nono. Censura nunca mais. Mesmo! 

Leia a íntegra da sentença da juíza Barbara de Lima Iseppi:

https://www.conjur.com.br/wp-content/uploads/2025/06/sentenca-Leo-Lins-discriminacao-show-stand-up.pdf


Comedian Leo Lins is censored by the Federal Court

 The starting point is obvious: The Constitution of the Federative Republic of Brazil, Article 5, which deals with Individual and Collective Rights and Duties. Paragraph nine states:“The expression of intellectual, artistic, scientific, and communicative activity is free, independent of censorship or licensing.”If the expression of artistic activity is free from censorship or licensing, how can a comedian be convicted for simply doing his job?This happened to Leo Lins. In 2022, he performed a show called “Perturbador” (Disturbing). 

The video of the performance ended up on social media (YouTube – 3 million views), and the Federal Public Prosecutor’s Office didn’t like what they saw. As a result, they filed a lawsuit against the comedian.Three years later, on June 3 of last week, substitute federal judge Barbara de Lima Iseppi sentenced the comedian to eight years and three months in prison, plus a fine of 303,000 reais.The decision was applauded by many: intellectuals, journalists, people from all walks of life, and even fellow comedians like Pedro Cardoso, who played the character “Agostinho” in the TV Globo show “A Grande Família” (The Big Family).In a lengthy Instagram post, Pedro Cardoso associated stand-up comedy (where the comedian performs in front of an audience) with fascism and called Leo Lins’ performance “hate speech.

The newspapers, however, opposed the conviction. In an editorial titled “When Jokes Land You in Jail, Run for Your Life,” the venerable Estadão wrote:“Punishing jokes is a sign of institutional weakness, not justice. Humor is part of the freedom that protects what offends us, and a pluralistic society cannot survive the criminalization of laughter.” The editorial continued:“More than a mistaken verdict, this is the most grotesque expression of a growing trend: the criminalization of uncomfortable speech under the pretext of protecting the vulnerable. The judge’s robe has become ideological armor, and the Penal Code, an instrument of censorship.”O Globo wrote: “They’re jokes—not crimes.”

In her ruling, which contained at least two serious citation errors (the judge referenced Law 7,719, which establishes a functional category for the Superior Electoral Court, instead of Law 7,716, which deals with racism), the judge acknowledged that the comedian was performing a character:“Nevertheless, even if it is a character and not LEONARDO himself, it does not exclude the crime (...) the fact that it is humor does not grant a free pass to commit crimes, just as an artistic performance does not.”And she sentenced the defendant:

*“Combining both penalties under Article 69 of the Penal Code, the defendant is sentenced to a definitive term of 08 (eight) years, 03 (three) months, and 09 (nine) days of imprisonment, in addition to 39 (thirty-nine) days-fine (...) The sentence shall initially be served under a closed regime.”*Punishing comedians is nothing new. The court jester Triboulet (1479–1536) was sentenced to death by King Francis I (some versions say King Louis XII). During a performance, Triboulet slapped the king’s rear end. His Majesty didn’t appreciate it and ordered the jester’s execution. Triboulet apologized: “My mistake, sire. I thought it was your wife’s, the queen’s, rear.

Even more outraged, the king confirmed the death sentence but granted Triboulet one privilege: he could choose his method of execution. Triboulet then said: “Then I choose to die of old age.” 

The king found the joke amusing and pardoned him.At 42, comedian Leo Lins is not funny. His jokes are crude, cheap, and in poor taste. I would never leave my house to watch his show, nor would I waste my time watching his videos on antisocial media.As the judge noted in her ruling, the comedian makes jokes targeting minorities: Black people, the obese, the elderly, people with HIV, Indigenous people, homosexuals, Jews, Northeasterners, Evangelicals, and the disabled.“Are Lins’ jokes prejudiced? So what? Freedom of expression doesn’t exist to protect popular or elegant speech that needs no protection, but rather what offends, challenges conventions, irritates, and even hurts sensibilities,” argued Estadão in its editorial.Brazil’s judiciary is running a serious risk: becoming a censorship body. During the Military Dictatorship, censorship was used to silence dissidents and regime opponents.In the 1990s, São Paulo prosecutors considered the newspaper Notícias Populares unfit to be sold at newsstands. NP, as it was called, had sensationalist headlines and published photos of corpses on its front page. The prosecutors argued that the newspaper should only be sold if wrapped in plastic, which would have made publication unviable—since NP relied on newsstand sales and needed to catch readers’ attention.

Last May, appellate judge Íris Helena Medeiros Nogueira ordered the newspaper Zero Hora and journalist Rosane de Oliveira to pay 600,000 reais in moral damages. The journalist’s crime? Reporting that the judge had received 662,000 reais in a given month—a true story, backed by data from the Transparency Portal.In another case of judicial silencing, journalist and writer João Paulo Cuenca faced 140 lawsuits filed by pastors of the Universal Church across Brazil’s vast territory.Cuenca’s crime? Reporting that the Brazilian government (then under President Jair Bolsonaro) would subsidize evangelical TV channels and radio stations—even if they owed money to the state.Fortunately, there was pushback—from the judiciary itself. Earlier this year, the Federal Public Prosecutor’s Office sued the Universal Church for “judicial harassment.”What crime did Leo Lins commit? None. He told jokes. Don’t like his jokes? Find them tasteless, vile? It’s simple: don’t attend his shows; don’t watch his videos.

As Estadão eloquently argued in its editorial: “Brazil must resist this regressive, repressive impulse. Bad jokes should be criticized, not criminalized. Hateful speech should be discredited, not crushed with prison. Laughter—even cruel, biting, disturbing laughter—is an essential pressure valve in free societies. Removing it from public life is suffocating freedom.”I hope a higher court overturns the substitute judge’s ruling. If the case reaches the Supreme Court (STF), it will fall to the justices—guardians of the Constitution—to uphold the law as stated in Article 5, Paragraph 9. No more censorship. Ever.Read the full ruling by Judge Barbara de Lima Iseppi:

https://www.conjur.com.br/wp-content/uploads/2025/06/sentenca-Leo-Lins-discriminacao-show-stand-up.pdf




domingo, 25 de maio de 2025

Documentário Rita Lee – Mania de Você esquece 1967 e Os Mutantes

 

Os críticos de música costumam dizer que o Festival de MPB da TV Record, edição 1967, foi o maior evento musical da história da música brasileira. Não é para menos. A música “Ponteio”, de Edu Lobo, foi a vencedora. As cinco primeiras colocadas eram obras primas: em segundo, ficou “Domingo no Parque”, de Gilberto Gil; em terceiro, “Roda Viva”, de Chico Buarque; em quarto, “Alegria, alegria”, de Caetano Veloso; e em quinto, “Ventania”, com Geraldo Vandré.

Na época, havia uma rusga entre o pessoal do banquinho e violão com os roqueiros das guitarras elétricas. O pessoal da MPB chamava os roqueiros de “alienados”. E os roqueiros achavam que a MPB não estava com nada.

Gilberto Gil fez algo impensável. Chamou “Os Mutantes” para acompanhá-lo em “Domingo no Parque”. “Os Mutantes” eram do rock psicodélico, com muita guitarra e uma cantora de 20 anos, chamada Rita Lee, mandando ver.

“Domingo no Parque” é uma música em forma de “fait divers”. Narra um homicídio, movido por ciúmes. A música tem um momento como se as letras estivessem girando na roda gigante do parque de diversões. Em seguida, é como pequenos flashes, daquelas máquinas fotográficas antigas, testemunhando o aparecimento de uma faca e a morte, em seguida.

Além da poética brilhante, o mais legal foi ver “Os Mutantes” tocando MPB. Era uma vingança pessoal dos roqueiros e deu muito certo. Gilberto Gil e os mutantes Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias fizeram história.

Isso tudo aconteceu em 1967 e ficou de fora do documentário “Rita Lee – Mania de Você”, que, praticamente começa em 1976, quando a cantora conhece Roberto de Carvalho, um baixista que acompanhava Ney Matogrosso. Ela faz um jantar e convida Ney Matogrosso. Pede que o cantor traga “o baixista”. Começa uma história de amor que geraria três filhos e dois netos.

O documentário, em exibição pelo Max (streaming), tem momentos edificantes, como a leitura de uma carta, deixada pela cantora a seus filhos e marido. Os álbuns, os sucessos, têm sua história revelada e é um presente para os fãs. Pena que “Os Mutantes” foram deixados de fora.

Em 1972, trabalhava em uma agência bancária, que ficava na esquina da rua Joaquim Távora com a avenida Domingos de Moraes. Minha vida era cinzenta. Usava camisa social e gravata. Trabalhava muito e ganhava pouco. Os pais de Rita Lee moravam na Joaquim Távora e, em raros momentos, eu via a cantora na Domingos de Moraes, com seu cabelo vermelho vivo, as roupas coloridas, óculos escuros, a felicidade da juventude plena em seu olhar. Queria sair do meu mundo cinzento e entrar naquela paleta de cores ritaleeiana. Mas não era músico. Nunca quis aprender a tocar um instrumento. Portanto, estava condenado à mediocridade dos comuns.

Anos mais tarde, muitos anos depois, quando morava na Granja Viana, voltei a rever Rita Lee. Ela era agora uma senhora e estava tirando coisas do carro, estacionado na porta de casa. O mesmo cabelo vermelho, óculos de sol azulado e ar de poucos amigos.

A casa dela era um ponto de referência na Granja. Sempre que levávamos alguém almoçar ou jantar no “Centrinho”, a gente dizia: “Está vendo essa casa? É aí que mora a Rita Lee”.

O long play era um disco de vinil, que armazenava uns 23 minutos de música de cada lado. Em 1979, a gente tinha comprado “Mania de você” (o long play) e escutávamos, em nosso primeiro apartamento na rua Topázio, na Aclimação. As preferidas eram “Chega mais”, “Doce vampiro” e “Mania de você”. O disco foi um sucesso absurdo. No ano seguinte, foi a vez de “Lança Perfume”, que a gente também comprou e que também estourou nas paradas e chegou com força até no exterior.

Em 1981, nós tínhamos viajado para a Inglaterra e eu trabalhava em um hotel familiar em Brighton. Pela manhã, ajudava na cozinha, depois trocava as roupas das camas e passava o aspirador nos três pisos do hotel.

Uma manhã (sempre fria e chuvosa), entrei na cozinha para ajudar a senhora, dona do hotel, na preparação do café da manhã. O rádio tocava “Lança perfume”. A senhora cantarolava, feliz da vida. Eu comecei a cantar, em português, e ela quis saber sobre o que era a música.

“It’s a couple making love”, eu disse.

Surpresa, ela suspirou:

“Oh, dear”.

Depois, quando nos mudamos para a França, “Lança perfume”, “Mania de você”, as composições de Chico Buarque, Jorge Bem Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil eram presenças constantes nas rádios. Era impressionante como a música brasileira tocava ao longo das programações das emissoras. Hoje, MC Ryan parece longe de superar as fronteiras. Por enquanto, limita-se ao gramado do estádio do 15 de Piracicaba.

Por falar na França, li “Mudar: Método”, de Édouard Louis, jovem autor de 32 anos, que em outubro do ano passado, esteve no programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Em seu livro, descreve tudo o que teve de fazer para alcançar fama e sucesso. Foi prostituto, se aproximava das pessoas para obter vantagens pessoais, conquistava amigos que poderiam lhe ser úteis no futuro. Vítima de homofobia e assédio moral, desde criança, o autor foi criado por uma família pobre, que lhe deixava horas vendo TV. A mãe fumava sem parar e o pai era um assalariado sem cultura. O livro é estranho, porque, embora pareça buscar a empatia do leitor, relatando sua vida de dor e sofrimento, a gente acaba olhando para o autor como aquele que diz: “ah, meu caro, então, você é um velhaco, aproveitador, interesseiro”.

É uma narrativa de dores pessoais. A molecada costuma chamar essa prática de “mi-mi-mi”. O nome do livro poderia ser: "Memórias de um arrivista" ou "Recordações de um alpinista social".



E por falar em choradeira, os fãs de Lady Gaga estão inconformados com a cantora, que os deixou literalmente a ver navios, diante do Copacabana Palace, onde ela se hospedou, para o show de 2 milhões de espectadores. Os fãs não se conformam que Lady Gaga os ignorou solenemente, enquanto faziam plantão diante do hotel, na esperança fugaz de ver a cantora ao vivo e em cores. Mas Lady Gaga não deu as caras. Lady Gaga está em Singapura, onde deu, sim, as caras e saiu andando pelas ruas singapurenses, em busca de cerveja.

Essa idolatria ao ídolo fabricado pela indústria cultural, me faz recordar a adolescência. Aos 15 anos, tentei escrever uma história de ficção. Esbarrei em um sério problema: todos os personagens, que imaginava, tinham nomes em inglês. Eram John, Steve, Maycon...

Aquilo me incomodou tanto que, anos depois, quando fui fazer um projeto de dissertação de mestrado, pensei em pensar sobre isso, sobre essa invasão cultural, essa dominação a que estamos submetidos. Só que na academia lembro de um professor balançando a cabeça e dizendo: “não, não, não, escolhe outro tema. Esse não vai dar certo”.


Les critiques musicaux affirment souvent que le Festival de MPB de la TV Record, édition 1967, fut le plus grand événement musical de l'histoire de la musique brésilienne. Et pour cause. La chanson "Ponteio", d'Edu Lobo, en fut la gagnante. Les cinq premières places étaient des chefs-d'œuvre : en deuxième, "Domingo no Parque" de Gilberto Gil ; en troisième, "Roda Viva" de Chico Buarque ; en quatrième, "Alegria, alegria" de Caetano Veloso ; et en cinquième, "Ventania" de Geraldo Vandré.

À l'époque, il y avait une rivalité entre les adeptes de la guitare acoustique et les rockeurs aux guitares électriques. Les partisans de la MPB traitaient les rockeurs d'"aliénés", tandis que ces derniers trouvaient la MPB dépassée.

Gilberto Gil fit alors l'impensable : il invita Os Mutantes à l'accompagner sur "Domingo no Parque"Os Mutantes représentaient le rock psychédélique, avec des guitares saturées et une chanteuse de 20 ans, Rita Lee, qui assurait.

"Domingo no Parque" est une chanson inspirée des faits divers. Elle raconte un meurtre passionnel. La musique donne l’impression que les paroles tournent dans une grande roue de parc d'attractions, puis défile comme une série de flashs, comme ceux des vieux appareils photo, capturant l'apparition d'un couteau et la mort qui s'ensuit.

Au-delà de la poésie brillante, le plus génial fut de voir Os Mutantes jouer de la MPB. C’était une revanche des rockeurs, et ça a parfaitement fonctionné. Gilberto Gil, accompagné de Rita Lee, Arnaldo Baptista et Sérgio Dias, écrivirent l’histoire.

Tout cela se passa en 1967, mais fut absent du documentaire "Rita Lee – Mania de Você", qui commence pratiquement en 1976, lorsque la chanteuse rencontre Roberto de Carvalho, un bassiste qui accompagnait Ney Matogrosso. Elle organise un dîner et invite Ney Matogrosso en lui demandant d’amener "le bassiste". Commence alors une histoire d’amour qui donnera trois enfants et deux petits-enfants.

Le documentaire, diffusé sur Max (streaming), contient des moments émouvants, comme la lecture d’une lettre laissée par la chanteuse à ses enfants et son mari. Les albums, les succès, y révèlent leur histoire, offrant un cadeau aux fans. Dommage que Os Mutantes en aient été exclus.

En 1972, je travaillais dans une agence bancaire, située au coin de la rue Joaquim Távora et de l’avenida Domingos de Moraes. Ma vie était terne : chemise formelle, cravate, beaucoup de travail et peu d’argent. Les parents de Rita Lee habitaient sur la Joaquim Távora, et parfois, je croisais la chanteuse sur la Domingos de Moraes, avec ses cheveux rouges éclatants, ses vêtements colorés, ses lunettes noires et ce regard empli de la joie de vivre. Je rêvais de quitter mon monde gris pour entrer dans sa palette de couleurs "ritaleeiennes". Mais je n’étais pas musicien, je n’ai jamais voulu apprendre un instrument. J’étais donc condamné à la médiocrité des gens ordinaires.

Des années plus tard, bien plus tard, alors que je vivais à Granja Viana, je revis Rita Lee. Elle était désormais une dame, en train de décharger des affaires de sa voiture garée devant chez elle. Mêmes cheveux rouges, mêmes lunettes bleutées, et cet air un peu distant.

Sa maison était un point de repère à Granja Viana. Chaque fois que nous y emmenions quelqu’un pour déjeuner ou dîner au "Centrinho", nous disions : "Tu vois cette maison ? C’est là que vit Rita Lee."

Le long play était un disque vinyle qui contenait environ 23 minutes de musique par face. En 1979, nous avions acheté "Mania de Você" (le LP) et l’écoutions dans notre premier appartement, rue Topázio, à Aclimação. Nos préférées étaient "Chega mais""Doce vampiro" et "Mania de você". L’album fut un succès monstre. L’année suivante, ce fut "Lança Perfume", que nous achetâmes aussi et qui explosa également les charts, jusqu’à l’étranger.

En 1981, nous étions partis en Angleterre, où je travaillais dans un hôtel familial à Brighton. Le matin, j’aidais en cuisine, puis je changeais les draps et passais l’aspirateur sur les trois étages de l’hôtel.

Un matin (toujours froid et pluvieux), j’entrai dans la cuisine pour aider la propriétaire à préparer le petit-déjeuner. La radio diffusait "Lança Perfume". La dame chantonnait, heureuse. Je me mis à chanter en portugais, et elle me demanda de quoi parlait la chanson.

"It’s a couple making love", dis-je.

Surprise, elle soupira :

"Oh, dear."

Plus tard, lorsque nous déménageâmes en France, "Lança Perfume""Mania de Você", ainsi que les compositions de Chico Buarque, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso et Gilberto Gil étaient régulièrement diffusées à la radio. C’était impressionnant de voir à quel point la musique brésilienne traversait les frontières. Aujourd’hui, MC Ryan semble loin d’y parvenir. Pour l’instant, il se limite au terrain du stade du 15 de Piracicaba.

En parlant de la France, j’ai lu "Changer : Méthode" d’Édouard Louis, jeune auteur de 32 ans, invité en octobre dernier dans l’émission "Roda Viva" sur TV Cultura. Dans son livre, il raconte tout ce qu’il a dû faire pour atteindre la célébrité et le succès : se prostituer, se rapprocher des gens par intérêt, se lier d’amitié avec des personnes pouvant lui être utiles. Victime d’homophobie et de harcèlement depuis l’enfance, l’auteur fut élevé dans une famille pauvre, où il passait des heures devant la télé. Sa mère fumait sans arrêt, et son père était un ouvrier sans culture. Le livre est étrange : bien qu’il semble chercher l’empathie du lecteur en racontant sa vie de souffrance, on finit par voir l’auteur comme un opportuniste, un arriviste.

C’est un récit de douleurs personnelles. Les jeunes appelleraient ça du "mi-mi-mi". Le livre aurait pu s’intituler "Mémoires d’un arriviste" ou "Souvenirs d’un opportuniste".

Et en parlant de pleurnicheries, les fans de Lady Gaga sont furieux contre la chanteuse, qui les a laissés littéralement "à voir des navires" devant le Copacabana Palace, où elle séjournait pour son concert devant 2 millions de spectateurs. Ils ne comprennent pas qu’elle les ait ignorés alors qu’ils montaient la garde devant l’hôtel, dans l’espoir fugace de l’apercevoir. Mais Lady Gaga n’a pas daigné apparaître. En revanche, à Singapour, où elle se trouve actuellement, elle s’est promenée dans les rues à la recherche de bière.

Cette idolâtrie envers une star fabriquée par l’industrie culturelle me rappelle mon adolescence. À 15 ans, j’avais tenté d’écrire une fiction. Mais un problème m’avait frappé : tous mes personnages imaginaires avaient des noms anglais – John, Steve, Maycon…

Cela m’a tellement perturbé que, des années plus tard, lorsque je préparai un projet de mémoire de master, je voulus travailler sur cette invasion culturelle, cette domination à laquelle nous sommes soumis. Mais à l’université, je me souviens d’un professeur secouant la tête et disant : "Non, non, choisis un autre sujet. Celui-là ne marchera pas."


  

      


A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...