terça-feira, 8 de abril de 2025

Você sabe quem eu sou?

 


“Sou contra a democracia. Os seres humanos são incapazes de governar a si mesmos.

“Meu negócio não é a diversidade. Ao contrário, quem tiver crença religiosa diferente da minha deve ser apedrejado até a morte. Se uma cidade tem pessoas que acreditam em deuses diferentes dos nossos, esse pessoal deve ser morto implacavelmente.

“Pessoas deficientes – cegos, coxos, com nariz chato, de pé quebrado, mão quebrada, corcundas, anões, com escorbuto, sarna – nenhum deles pode chegar perto de um altar.

“Ser homossexual é uma abominação. A punição para os homossexuais é a morte.

“Na minha opinião, o cabelo do homem deve ser curto; e o da mulher, longo. As mulheres estão proibidas de usar roupas masculinas. E vice-versa! Considero isso uma abominação.

“Não considero aborto um assassinato. Fetos não são vidas humanas, porque com menos de um mês de idade não são pessoas. Eu mato recém-nascidos para punir seus pais. E ainda causo aborto, amaldiçoando esposas infiéis.

“Acho os vegetarianos fracos. Eles são um sinal de que o fim do mundo está chegando.

“Astrologia é legal. As estrelas influenciam o curso dos eventos aqui na Terra.

“Poligamia é legal. Pode ser polígamo. Eu deixo. Inclusive, alguns polígamos são meus favoritos.

“Se uma mulher for estuprada na cidade; ela e o estuprador devem ser mortos a pedradas. Ela tem de morrer, porque não gritou o suficiente para pedir ajuda. Mas se ela for estuprada em área rural, só o estuprador deve ser morto, porque – mesmo se ela gritasse bem alto – ninguém iria ouvi-la.

“Se houver uma guerra, matem todas mulheres que não são virgens, mas preservem as mulheres e as meninas virgens para vocês. Não tem problema em fazer sexo com mulheres crianças, desde que elas forem obtidas na guerra.

“Você está sem dinheiro? Pode vender sua filha para ela ser usada como escrava sexual.

“Sou tão forte quanto um unicórnio. Haverá unicórnios vagando por aí, quando a minha espada estiver cheia de sangue.

“Seus filhos são malcriados? Pode bater neles. Bater nos filhos é um sinal de amor. E se eles se recusarem a obedecer, devem ser executados.

“E ainda se uma criança zombar dos pais, vai ter os olhos arrancados pelos corvos e comidos pelas águias.

“Se você confiar em mim, vou fazê-lo ficar bem gordo. Ser gordo é um sinal de retidão, segundo o meu ponto de vista.

“Em relação ao apedrejamento, devem ser apedrejados aqueles que insistirem em trabalhar aos sábados e também devem ser apedrejadas as mulheres que chegarem na noite de núpcias já desvirginadas.

“Você tem escravos, tudo bem. Só não cobice os escravos do seu próximo. Se você for pego roubando um escravo de alguém, sua pena será a morte.

“Mas, caso chegue um escravo fugitivo no seu portão, não o devolva.

“Se você tem um escravo, pode espancá-lo à vontade. O importante é que ele sobreviva um ou dois dias após o espancamento.”

Quem eu sou?

Eu sou o Deus do Velho Testamento.

Esta série de disparates encontram-se na Bíblia. Principalmente, no Velho Testamento. O escritor Steve Wells, autor do livro “Drunk of blood” (Bêbado de sangue), teve a paciência de contar todas as mortes provocadas por Deus. Literalmente, em toda a Bíblia, foram contadas por ele 2 milhões 765 mil e 346 mortes. Wells estima que esse número possa chegar a 25 milhões 370 mil e 840 mortes, se fossem computadas as execuções divinas no Dilúvio e em outros massacres, como as pragas no Egito que teriam vitimado 300 mil pessoas.

Wells fez também um site https://www.skepticsannotatedbible.com/says_about/index.html que traz uma série de citações, existentes na Bíblia sobre os mais variados assuntos.

Mencionei aqui aborto, vegetarianismo, deficientes físicos, homossexuais, polígamos, estupros, pedofilia, astrologia, escravidão, crianças malcriadas, democracia, pessoas gordas e apedrejamentos. Tem outras dezenas, mencionadas pelo autor em seu site: gigantes, sexo oral, canibalismo, inferno, blasfêmia, entre outros.

Wells mostra que o Deus do Velho Testamento é ambíguo. Às vezes, ele proíbe e depois, permite. Por exemplo, quando se trata de  fornicação e adultério, são práticas proibidas; mas são aceitáveis, se ele – Deus - ordenar. O mesmo ocorre com as maldições. Às vezes, é permitido amaldiçoar alguém; às vezes, não. Em relação aos inimigos, às vezes, você pode ficar feliz em vê-los quebrar a cara; mas às vezes não deve ter tanta alegria assim.

O Deus do Velho Testamento é misógino, detesta LGBTs. É escravocrata. Implacável - mata crianças, mulheres, homens, velhos sem pensar duas vezes. É a favor do espancamento de crianças. É um monarquista convicto. Detesta outras formas de governo. E é vingativo. No futuro, fará com que os pais comam seus próprios filhos.

 Lendo a Bíblia dessa forma mais crítica e menos submissa, a gente consegue entender melhor tantos paradigmas imiscuídos em nossa cultura. O fato de a Bíblia condenar homens que usem cabelo comprido e mulheres que o cortem curto é um padrão comportamental que levou décadas para ser rompido. No século passado, homens não podiam usar cabelo comprido. Coube aos Beatles lançar a moda dos cabeludos, que se espalhou pelo ocidente, como fogo de bituca em beira de estrada na seca.

Pessoalmente, quando tinha cabelo comprido, precisei fugir de uma turba de mineiros, que trabalhavam em uma mina em Criciúma (SC). Eu e um amigo, ambos cabeludos e mochileiros, fomos perseguidos pelos mineiros, todos cobertos de pó de carvão. Corremos para salvar nossas vidas. Nosso crime: usávamos o cabelo comprido.

Lembro de uma vizinha, que ostentava o cabelo cortado curto, “à la garçonne”, e usava sempre calças compridas (de homem), atraindo o repúdio das comadres do bairro.

Sobre o aborto, vejo com espanto pessoas religiosas, de Bíblia na mão, condenarem a interrupção da gravidez, sendo que o Deus bíblico não faz qualquer restrição ao aborto. Ao contrário. Ele nem considera vida humana a gravidez que não ultrapassou um mês de gestação.

Conduzir sua vida de acordo com as regras e preceitos (e preconceitos) de um livro anacrônico, escrito há milênios (eruditos dizem que a Bíblia levou 1.600 anos para ser concluída), não é tarefa fácil.

O mais surpreendente é que este livro seja – em milhões de casos – o único que será lido, durante toda uma vida. Sem Darwin, sem Freud, sem perdão.


Guess, who I am?

“I am against democracy. Human beings are incapable of governing themselves.

“My business is not diversity. On the contrary, anyone who has a religious belief different from mine should be stoned to death. If a city has people who believe in gods different from ours, those people should be killed without mercy.

“Disabled people – the blind, the lame, the flat-nosed, the broken-footed, the broken-handed, the hunchbacked, the dwarfs, the scurvy-stricken, the scabies-none of them are allowed near an altar.

“Being homosexual is an abomination. The punishment for homosexuals is death.

“In my opinion, men’s hair should be short; women’s hair should be long. Women are forbidden to wear men’s clothing. And vice versa! I consider that an abomination.

“I do not consider abortion to be murder. Fetuses are not human lives, because they are not people under one month old. I kill newborns to punish their parents. And I also cause abortions by cursing unfaithful wives.

“I think vegetarians are weak. They are a sign that the end of the world is coming.

“Astrology is cool. The stars influence the course of events here on Earth.

“Polygamy is cool. You can be polygamous. I let you. In fact, some polygamists are my favorites.

“If a woman is raped in the city; she and the rapist should be stoned to death. She has to die, because she didn’t scream loud enough to call for help. But if she is raped in the countryside, only the rapist should be killed, because – even if she screamed loudly – ​​no one would hear her.

“If there is a war, kill all women who are not virgins, but keep the virgin women and girls for yourselves. It’s okay to have sex with child women, as long as they were obtained in the war.

“Are you broke? You can sell your daughter to be used as a sex slave.

“I am as strong as a unicorn. There will be unicorns roaming around when my sword is covered in blood.

“Are your children naughty? You can beat them. Beating children is a sign of love. And if they refuse to obey, they should be executed.

“And if a child mocks his parents, his eyes will be gouged out by crows and eaten by eagles.


“If you trust me, I will make you very fat. Being fat is a sign of righteousness, in my opinion.

“As for stoning, those who insist on working on Saturdays should be stoned, and women who arrive on their wedding night already deflowered should also be stoned.

“You have slaves, that’s fine. Just don’t covet your neighbor’s slaves. If you are caught stealing someone else's slave, your penalty will be death.

“But if a runaway slave arrives at your gate, do not return him.

“If you have a slave, you can beat him as much as you want. The important thing is that he survives a day or two after the beating.”

Who am I?

I am the God of the Old Testament.

This series of nonsense is found in the Bible. Mainly in the Old Testament. Writer Steve Wells, author of the book “Drunk of Blood”, had the patience to count all the deaths caused by God. Literally, in the entire Bible, 2 million seven hundred and sixty-five thousand and 346 deaths were counted. Wells estimates that this number could reach 25 million 370 thousand and 840 deaths, if the divine executions in the Flood and other massacres were counted, such as the plagues in Egypt that would have claimed the lives of 300 thousand people.

Wells also created a website https://www.skepticsannotatedbible.com/says_about/index.html that brings a series of quotes from the Bible on the most varied subjects.

I mentioned here abortion, vegetarianism, the physically disabled, homosexuals, polygamists, rape, pedophilia, astrology, slavery, naughty children, democracy, fat people and stonings. There are dozens more, mentioned by the author on his website: giants, oral sex, cannibalism, hell, blasphemy, among others.

Wells shows that the God of the Old Testament is ambiguous. Sometimes he prohibits and then allows. For example, when it comes to fornication and adultery, they are forbidden practices; but they are acceptable, if he - God - commands it. The same goes for curses. Sometimes it is allowed to curse someone; sometimes it is not. Regarding enemies, sometimes you can be happy to see them get their asses kicked; but sometimes you should not be so happy.

The God of the Old Testament is misogynistic, hates LGBTs. He is a slave owner. Ruthless - he kills children, women, men, old people without thinking twice. He is in favor of beating children. He is a convinced monarchist. He detests other forms of government. And he is vengeful. In the future, he will make parents eat their own children.

By reading the Bible in this more critical and less submissive way, we can better understand so many paradigms that have been ingrained in our culture. The fact that the Bible condemns men who wear long hair and women who cut it short is a behavioral pattern that took centuries to break.

In the last century, men were not allowed to wear long hair. It was the Beatles who started the long-haired fashion, which spread throughout the West like a fire on the side of the road during the drought.

Personally, when I had long hair, I had to run away from a mob of miners who were working in a mine in Criciúma (SC). My friend and I, both long-haired and backpackers, were chased by the miners, all covered in coal dust. We ran for our lives. Our crime: we wore our hair long.

I remember a neighbor who sported short hair, “à la garçonne”, and always wore long pants, attracting the repudiation of the neighborhood gossips.

Regarding abortion, I am astonished to see religious people, Bible in hand, condemn the termination of pregnancy, even though the biblical God does not place any restrictions on abortion. On the contrary. He does not even consider a pregnancy that does not exceed one month of gestation to be human life.

Leading your life according to the rules and precepts (and prejudices) of an anachronistic book, written millennia ago (scholars say that the Bible took 1,600 years to be completed), is no easy task.

The most surprising thing is that this book is – in millions of cases – the only one that will be read, in a lifetime. Without Darwin, without Freud, without forgiveness.




quarta-feira, 2 de abril de 2025

A inexplicável crença na fé

 


O jogador faz um gol, ajoelha-se, agradece aos céus, tece uma cruz no ar, junto à testa e repete umas duas vezes o mesmo gesto. Ao dar entrevista para o telejornal esportivo, agradece a Deus por tê-lo ajudado a fazer o gol. "Deus me dá forças. Deus permitiu que eu marcasse o gol." 

A senhora teve a casa destruída pela enchente. Perdeu todos os móveis, os eletrodomésticos, as roupas, documentos. Tudo foi levado pelas águas. Durante a entrevista, ela contabiliza as perdas e agradece a Deus: "Tenho só que agradecer a Deus por ter me deixado com vida".

São dois exemplos, entre milhões, que a gente escuta ao longo da vida. As pessoas acreditam em um ser imaginário, que vive no céu, ou em algum lugar do universo, com o qual mantêm uma relação de perda e ganho. 

São 7 bilhões de seres humanos na Terra. Todos controlados por esse ser invisível. O jogador faz o gol e agradece a este ser, não levando em conta que, se Deus o ajudou, então, prejudicou o goleiro adversário e todo o outro time. De acordo com esse raciocínio simplista, Deus torce para um time e despreza o outro. "Foi Deus!", diz o atleta emocionado, garantindo ter algum tipo de relação próxima com a divindade. 

A senhora, que perdeu tudo na enchente, acredita que Deus mandou 200 milímetros de água sobre a casa onde vivia, para, em uma manobra celestial acrobática, destruir tudo, mas salvá-la. Não tem o menor sentido, mas as pessoas se emocionam e acreditam que foi a fé que as salvou.

Meu avô por parte de mãe escrevia um diário, em que contava as amarguras que passava na fazenda, onde a família, que veio da Itália, vivia e trabalhava no Brasil. Falava da pressão do fazendeiro de café sobre os trabalhadores. Do ritmo excruciante das jornadas intermináveis no campo, além dos salário irrisório e da miserabilidade geral (com exceção do fazendeiro). Nesse diário, que pude ler depois de sua morte, ele entabulava uma espécie de contabilidade com Deus. Relatava as perdas dos filhos: um recém-nascido morreu porque minha avó não sabia que estava grávida e a criança nasceu enquanto ela trabalhava no roçado; um garoto de um ano e sete meses morto por causa de alguma doença não diagnosticada e uma filha, morta aos 23 anos, provavelmente de câncer, mas nunca se soube ao certo. Ele anotava essas mortes e lembrava que o mesmo Deus que havia levado seus filhos também tinha lhe dado quatro netinhos. O balanço era favorável a Deus. Ele não tinha frequentado escola. Aprendera a ler, escrever e fazer contas por si próprio. Era uma pessoa esforçada, religiosa, que nem sempre conseguia entender a "contabilidade" divina. 

A crença nesse ser imaginário  atinge 156 milhões de brasileiros, em uma população de 200 milhões. Os ateus representam 22 por cento, algo em torno de 44 milhões que não creem em uma divindade. Em minoria, a vida do ateu em país de maioria religiosa é sofrida. Você está em um trem, que circula pela Grande São Paulo, e aparece no meio do vagão um cidadão, armado de uma bíblia. Ele começa a gritar e exigir que você o ouça. Mesmo sem querer, você é obrigado a escutá-lo. É uma ação religiosa agressiva. O crente quer convertê-lo e vai continuar gritando durante toda a sua viagem. Em casa, no conforto de sua residência, enquanto você relaxa e vê um programa qualquer na TV, toca a campainha. Você levanta do sofá. Vai até a porta e topa com meia dúzia de crentes, armados com seus livros religiosos, querendo fazer a sua cabeça. No supermercado, você está empurrando o carrinho, com aquela pressa de sempre, e do nada surgem dezenas de crentes, que começam a rezar e gritar, interrompendo suas compras. Eles chamam de "flash mob evangélico". É uma chateação atrás da outra. 

Você ama Deus, acredita nele, acha maravilhoso ir na igreja, cantar e rezar, crê em diabo e sabe-se lá mais o quê, por que cargas d'água você não continua na sua igreja, feliz da vida, e, ao invés disso, vem na minha casa perturbar o meu sossego? É maravilhoso acreditar em Deus? Ótimo, seja egoísta, guarde só para você, não venha me incomodar. Eu não saio de casa e vou dentro da sua igreja dizer que Deus não existe.

A fé é um negócio bilionário no Brasil. Segundo a Receita Federal, somente as igrejas evangélicas faturam 30 bilhões de reais por ano. As igrejas não pagam impostos. Elas têm o que se chama de "imunidade tributária". É um dinheiro que escorre limpinho bolso  adentro dos responsáveis pelos templos. 

Os seres humanos tinham necessidade de crer em divindades. Não sabiam por que o sol aparecia toda manhã. Nem sabiam o que era o sol. Durante as tempestades, não conseguiam entender o acontecimento climático de raios e trovões. Associavam a tempestade à ira furiosa de algum deus invocado por causa de alguma diatribe humana. Para aplacar a ira divina, surgiram os sacerdotes, que mantinham relação próxima com a divindade (a exemplo do jogador de futebol). Os sacerdotes faziam sacrifícios. Matavam ovelhas, cabras, galinhas e muitas pessoas (principalmente, mulheres virgens). 

Os filósofos gregos já desmontavam essa crença vingativa da divindade com uma associação simples. Enquanto os sacerdotes juravam que os raios e trovões eram manifestação da ira de Zeus, os filósofos questionavam as velhas crenças e diziam que isso era uma bobagem, porque os raios também caíam e destruíam as igrejas que louvavam Zeus. 

Jornais relatam um massacre ocorrido em uma casa de shows, em Moscou (Rússia). Um grupo de celerados entrou no lugar e disparou a esmo. Morreram 140 pessoas. Todas desarmadas, que estavam no local para se divertir. Esse grupo de malucos quer instituir no planeta Terra um negócio chamado "califado", em que um religioso monárquico muçulmano é o chefe do governo. Outro grupo muçulmano invadiu Israel, em 7 de outubro de 2023, e matou centenas de pessoas. Esse grupo criminoso é genocida, planeja matar todos os judeus e eliminar o Estado de Israel.

A religião fez milhões de vítimas no passado. Continua a matar no presente. Esse pesadelo medieval, sem sentido, parece não ter fim.  

      

quarta-feira, 12 de março de 2025

"Pesadelo na cozinha" tem foco na figura do pai

 


"Pesadelo na cozinha", apresentado pelo chef Erick Jacquin, 60 anos, está disponível na TV, no aplicativo Bandplay, YouTube, no canal por assinatura Max...A fórmula é semelhante ao de programas como "Hell's Kitchen", do chef boca suja Gordon Ramsay. 

Um chef experiente é chamado para salvar um restaurante (bar, lanchonete) em situação pré-falimentar. O chef aponta os erros culinários. Chama atenção para as falhas de organização do serviço oferecido aos clientes. Faz uma vistoria rigorosa no armazenamento de produtos perecíveis. Para depois, socorrer o estabelecimento remodelando o lugar e oferecendo uma segunda chance aos proprietários. 

Jacquin é uma espécie de pai, um personagem que Freud classificaria como superego. A princípio, ele é o pai dos anos 1940 e 1950. Só não espanca os filhos com a cinta, retirada dramaticamente da calça. O restante ele faz: grita, xinga, humilha, ofende. Parece imperdoável: "Você é uma desgraça para a profissão!", grita. Não economiza nos palavrões: "Essa comida está uma m..."; "a apresentação deste prato é uma m..."; "pra quem você vai servir essa m...". 

Ele fala com forte sotaque francês. Para ajudar o público, suas falas têm até legenda. Jacquin está há 30 anos no Brasil e deve fazer questão de manter o sotaque, para vincular sua figura pública à respeitável culinária francesa (sinceramente, depois de 30 anos vivendo em um país, acho que daria para não ter mais sotaque).

O público se diverte com o pai enraivecido. Ele chama o proprietário do restaurante e diz na cara do infeliz que ele é um incompetente, que não sabe administrar o lugar. Quase sempre faz a pergunta que deixa o sujeito aflito, a ponto de o homem se emocionar (alguns até choram nessa hora): "Por que você não fecha o seu restaurante?".

O melhor momento do episódio é quando Jacquin vai fazer as vezes de fiscal da Vigilância Sanitária. Ele investe nos recantos sombrios, onde se escondem freezers empoeirados, armários sórdidos, prateleiras imundas. Revira pacotes estragados de carne. Pega montes de beterrabas podres, tomates mofados, folhas pretas de alface e rúcula e atira tudo no lixo. Sem perdão. "Vai pro lixo", ele ordena. Às vezes, tem uma reação mais teatral ao nojo que sente vendo tanta podridão. Ele vomita. 

Depois, encara o proprietário, os cozinheiros e os demais integrantes da equipe e cobra profissionalismo:

"Como é que vocês não viram isso? Essa foi a carne que eu comi? Estava estragada. Podre. Vocês querem matar os seus clientes? Se a Vigilância Sanitária vier aqui, eles fecham seu restaurante.".

Cabisbaixa, a equipe ouve os impropérios calada. Depois, falando para a câmera, comentam que Jacquin estava certo, que eles deveriam ter tomado mais cuidado no armazenamento dos produtos, que dali em diante tudo vai melhorar.

Depois de fazer o papel do pai dos anos 1940/1950, Jacquin se transforma. Ele é o pai dos anos 1980/1990. O pai legal. O pai amigo dos filhos. É um superego do bem, protetor, carinhoso, amável. Ele vai ensinar novos pratos. Vai levar o grupo a uma atividade comunitária (todos remando juntos em um lago; todos procurando a saída de um labirinto), enquanto uma equipe irá restaurar a casa, trocando fiações gastas ou ligações elétricas malfeitas (as famosas gambiarras), substituindo panelas, coifas, fogões, pias e mudando radicalmente a fisionomia do restaurante.

Quando a equipe chega para ver o que foi feito, as reações são de espanto e incredulidade: "Nossa, como ficou bonito". As pessoas choram de emoção. A vida será melhor dali em diante. O restaurante foi salvo da bancarrota. 

O pai bondoso se aproxima e é beijado, acarinhado. Beija e se deixa beijar. É abraçado. Garçons, ajudantes de cozinha, cozinheiras, os donos estão felizes. É o happy-end, modelo série televisiva 2025.

Depois que o programa é exibido, o restaurante ganha uma notoriedade interessante. Ele passa a ser visitado por novos clientes. Gente que assistiu pela TV e quer testemunhar se a aventura foi bem-sucedida. "Pesadelo na cozinha" está na sua quarta temporada. É um sucesso. 

Numa época em que as pessoas estão cozinhando menos e comprando mais comida fora, a série é uma espécie de vingança dos clientes, em cima de todos aqueles estabelecimentos que venderam comida estragada e lhes fizeram ter diarreia, vômitos e febre delirante. Cada vez que Jacquin descobre um freezer abarrotado de comida pútrida e atira com violência na lata de lixo, o telespectador se satisfaz vicariamente. 

Especialistas em arquitetura e previsão do futuro garantem que em 2050 as casas não terão cozinha. Apenas um balcão, onde haverá uma air fryer. Sem fogão, sem panelas sujas. Muita comida processada ou comprada pronta e entregue por drones. Felizmente, já estarei na terra dos pés juntos, nessa altura dos acontecimentos.


"Pesadelo en cuisine" met l'accent sur la figure du père

"Pesadelo en cuisine", présenté par le chef Erick Jacquin, 60 ans, est disponible à la télévision, sur l'application Bandplay, YouTube et sur la chaîne payante Max... Le format est similaire à celui de programmes comme "Hell's Kitchen", du chef vulgaire Gordon Ramsay.

Un chef expérimenté est appelé à sauver un restaurant (bar, snack) en situation de quasi-faillite. Le chef pointe les erreurs culinaires. Il attire l'attention sur les défaillances dans l'organisation du service offert aux clients. Il effectue un contrôle rigoureux sur le stockage des produits périssables. Ensuite, il vient en aide à l’établissement en rénovant le lieu et offrant une seconde chance aux propriétaires.

Jacquin est une sorte de père, un personnage que Freud classerait comme le surmoi. Au départ, il incarne le père des années 1940 et 1950. Il ne bat juste pas les enfants avec la ceinture, qu’il retire dramatiquement de son pantalon. Pour le reste, il fait tout : il crie, insulte, humilie, offense. Cela semble impardonnable : "Vous êtes une honte pour la profession !", crie-t-il. Il ne ménage pas les jurons : "Cette nourriture est une m..."; "la présentation de ce plat est une m..."; "qui va manger cette m...".

Il parle avec un fort accent français. Pour aider le public, ses paroles sont même sous-titrées. Jacquin vit au Brésil depuis 30 ans et doit faire en sorte de garder son accent, afin de lier son image publique à la respectueuse cuisine française (sincèrement, après 30 ans de vie dans un pays, je pense qu’il devrait pouvoir se débarrasser de son accent).

Le public se divertit avec le père enragé. Il appelle le propriétaire du restaurant et lui dit en face qu’il est incompétent, qu’il ne sait pas gérer le lieu. Il pose presque toujours la question qui met le pauvre homme dans tous ses états, au point qu’il en pleure parfois (certains fondent en larmes à ce moment-là) : "Pourquoi ne fermez-vous pas votre restaurant ?"

Le meilleur moment de l’épisode est lorsque Jacquin endosse le rôle de l’inspecteur de la Surveillance Sanitaire. Il explore les recoins sombres où se cachent des congélateurs poussiéreux, des armoires sordides, des étagères sales. Il fouille des paquets de viande pourrie. Il prend des montagnes de betteraves pourries, des tomates moisis, des feuilles noires de laitue et de roquette et les jette à la poubelle. Sans pitié. "Au panier", ordonne-t-il. Parfois, il réagit de manière plus théâtrale face à l'horreur qu’il ressent en voyant tant de pourriture. Il vomit.

Ensuite, il regarde le propriétaire, les cuisiniers et les autres membres de l’équipe et exige du professionnalisme :

"Comment n’avez-vous pas vu ça ? C’était la viande que j’ai mangée ? Elle était pourrie. Pourrie. Vous voulez tuer vos clients ? Si la Surveillance Sanitaire venait ici, ils fermeraient votre restaurant."

La tête basse, l’équipe écoute les insultes en silence. Puis, en s’adressant à la caméra, ils commentent que Jacquin avait raison, qu’ils auraient dû faire plus attention au stockage des produits et qu’à partir de maintenant, tout ira mieux.

Après avoir joué le rôle du père des années 1940/1950, Jacquin se transforme. Il devient le père des années 1980/1990. Le père cool. Le père ami avec ses enfants. Il incarne un surmoi bienveillant, protecteur, affectueux, aimable. Il va enseigner de nouveaux plats. Il emmène le groupe à une activité communautaire (tout le monde rame ensemble sur un lac; tout le monde cherche la sortie d’un labyrinthe), tandis qu’une équipe restaurera la maison, en remplaçant les fils usés ou les connexions électriques mal faites (les fameuses "gambiarras"), en remplaçant casseroles, hottes, cuisinières, éviers et en changeant radicalement l’apparence du restaurant.

Lorsque l’équipe arrive pour voir ce qui a été fait, les réactions sont d’étonnement et d’incrédulité : "Wow, comme c’est beau." Les gens pleurent d’émotion. La vie sera meilleure à partir de ce moment-là. Le restaurant a été sauvé de la faillite.

Le père bienveillant s’approche et est embrassé, caressé. Il embrasse et se laisse embrasser. Il est câliné. Serveurs, aides-cuisiniers, cuisinières, les propriétaires sont heureux. C’est le happy-end, modèle série télévisée 2025.

Après la diffusion du programme, le restaurant gagne une notoriété intéressante. Il commence à être visité par de nouveaux clients. Des gens qui ont vu l’émission à la télévision et veulent voir si l’aventure a été réussie. "Pesadelo na cozinha" en est à sa quatrième saison. C’est un succès.

À une époque où les gens cuisinent moins et achètent plus de nourriture à emporter, la série est une sorte de revanche des clients, contre tous ces établissements qui ont vendu de la nourriture pourrie et leur ont causé des diarrhées, des vomissements et de la fièvre délirante. Chaque fois que Jacquin découvre un congélateur rempli de nourriture pourrie et la jette violemment à la poubelle, le téléspectateur se satisfait vicariquement.

Les spécialistes en architecture et prévision du futur garantissent qu’en 2050, les maisons n’auront plus de cuisine. Seulement un comptoir, avec une friteuse à air. Pas de cuisinière, pas de casseroles sales. Beaucoup de nourriture transformée ou achetée prête à l’emploi et livrée par drones. Heureusement, d’ici là, je serai dans l’au-delà, à ce moment-là des événements.          

terça-feira, 4 de março de 2025

Trump reedita Neville Chamberlain; Europa vai se armar

 


O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, optou pela Rússia. Em encontro constrangedor com o líder ucraniano Wolodymyr Zelensky, ofereceu uma oferta de paz, semelhante a Neville Chamberlain, diante de Hitler. Em 30 de setembro de 1938, o então primeiro-ministro inglês cedeu parte do território da então Tchecoslováquia à Alemanha nazista. Chamberlain queria apaziguar a sanha agressiva alemã, impedir que Hitler iniciasse uma guerra de ampla escala na Europa. 

Trump fez a mesma coisa. Ofereceu a Zelensky uma oferta de paz embaraçosa: a Ucrânia permite que seu território invadido permaneça ocupado pelas forças russas e fica sem qualquer garantia que os russos não invadirão Kiev amanhã.

Chamberlain seria duramente criticado pelos historiadores por ter "aberto as pernas" a Hitler. A estratégia melhor teria sido voltar correndo para casa; armar-se até os dentes e se preparar para o ataque iminente dos nazistas.

Na época, não se podia confiar nas palavras de Hitler e asseclas. Hoje, o bom senso manda pôr os dois pés atrás, quando se trata de russos. Em 1994, Bill Clinton fez um acordo de paz com os russos, que redundou na retirada de todas as armas nucleares da Ucrânia. Em troca, os russos se comprometeram a "respeitar a integralidade do território ucraniano". 

A Rússia não respeitou a "integralidade ucraniana". Ao contrário. Em 2014, a Rússia invadiu e anexou a Crimeia, que era território ucraniano. Em 24 de fevereiro de 2022, Vladimir Putin invadiu a Ucrânia para "desnazificar" o país, que é presidido por um judeu (um "judeu nazista", acredite). A guerra completou três anos e pode se alastrar por toda a Europa. Em 2023, Clinton fez um mea culpa e disse que foi um erro tirar as armas nucleares da Ucrânia.

O encontro entre Trump e Zelensky chamou a atenção da mídia mundial. Nunca se viu tanto despeito, tanta falta de educação, tanta grosseria diante de um presidente de um país soberano. Com as pernas abertas, arrogante, postura relaxada e abjeta, boca semiaberta em escárnio, Trump encurralou o presidente ucraniano, dizendo que ele não queria a paz, que ele estaria querendo provocar a terceira guerra mundial. 

A reação na Europa foi imediata. O presidente francês, Emmanuel Macron, publicou em sua rede social: "Há um agressor: Rússia. Há uma vítima: Ucrânia". No domingo, líderes europeus se reuniram em Londres para reforçar o apoio a Kiev. 

Hoje, Trump suspendeu a ajuda militar à Ucrânia. Hoje, também, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von de Leyen, divulgou plano de cinco pontos e investimento de 800 bilhões de euro, para fazer frente à ameaça russa. 

Em 1939, a Alemanha nazista esqueceu o acordo com Chamberlain e invadiu a Polônia. Em 2025, a Rússia quer "terminar o serviço". Ocupar o restante do território ucraniano e não vai parar por aí. O projeto expansionista e imperialista de Putin deverá avançar sobre a Polônia, Alemanha, França etc.

Com o país devastado pela guerra, com milhões de refugiados procurando ajuda em países vizinhos, vendo diariamente seus amigos e familiares sendo mortos pelos mísseis e bombas russas, caminhando em meio a ruínas, o incansável Zelensky ainda teve que ouvir do jornalista Brian Glenn, correspondente do canal de extrema direita "Voz da America Real", uma pergunta provocadora:

"Por que você não usa um terno?"

Zelenski poderia ter dito: "Não uso terno, porque meu país está sendo devastado, seu idiota, imbecil". O líder ucraniano preferiu ser cortês e disse que usaria terno, quando terminasse a guerra.     

Trump reddit neville chamberlain, Europe go to arm

The President of the United States, Donald Trump, has chosen Russia. In an awkward meeting with Ukrainian leader Volodymyr Zelensky, he offered a peace proposal reminiscent of Neville Chamberlain's approach to Hitler. On September 30, 1938, the then British Prime Minister ceded part of Czechoslovakia's territory to Nazi Germany. Chamberlain sought to appease German aggression and prevent Hitler from initiating a large-scale war in Europe.

Trump did the same. He presented Zelensky with an embarrassing peace offer: Ukraine would allow its invaded territory to remain occupied by Russian forces, with no guarantee that Russia would not invade Kyiv tomorrow.

Chamberlain was harshly criticized by historians for "rolling over" for Hitler. A better strategy would have been to rush back home, arm themselves to the teeth, and prepare for the imminent Nazi attack.

At the time, Hitler's words and those of his henchmen could not be trusted. Today, common sense dictates caution when dealing with the Russians. In 1994, Bill Clinton made a peace agreement with the Russians, resulting in the withdrawal of all nuclear weapons from Ukraine. In return, the Russians pledged to "respect the territorial integrity of Ukraine."

Russia did not respect Ukraine's "territorial integrity." On the contrary. In 2014, Russia invaded and annexed Crimea, which was Ukrainian territory. On February 24, 2022, Vladimir Putin invaded Ukraine to "denazify" the country, which is led by a Jewish president (a "Nazi Jew," believe it or not). The war has now entered its third year and could spread across Europe. In 2023, Clinton admitted his mistake, saying it was wrong to remove nuclear weapons from Ukraine.

The meeting between Trump and Zelensky drew global media attention. Never before had there been such disdain, such rudeness, and such lack of respect toward the leader of a sovereign nation. With his legs spread, a relaxed and abject posture, and a half-open mouth in a mocking expression, Trump cornered the Ukrainian president, accusing him of not wanting peace and of provoking World War III.

The reaction in Europe was immediate. French President Emmanuel Macron posted on his social media: "There is an aggressor: Russia. There is a victim: Ukraine." On Sunday, European leaders gathered in London to reinforce their support for Kyiv.

Today, Trump suspended military aid to Ukraine. Also today, the President of the European Commission, Ursula von der Leyen, unveiled a five-point plan and an investment of 800 billion euros to counter the Russian threat.

In 1939, Nazi Germany disregarded its agreement with Chamberlain and invaded Poland. In 2025, Russia aims to "finish the job," occupying the remaining Ukrainian territory and not stopping there. Putin's expansionist and imperialist project is expected to advance into Poland, Germany, France, and beyond.

With the country devastated by war, millions of refugees seeking help in neighboring nations, and daily losses of friends and family to Russian missiles and bombs, the tireless Zelensky still had to endure a provocative question from journalist Brian Glenn, correspondent for the far-right channel "Real Voice of America":

"Why aren't you wearing a suit?"

Zelensky could have replied, "I'm not wearing a suit because my country is being devastated, you idiot, imbecile." Instead, the Ukrainian leader chose to be courteous, saying he would wear a suit when the war is over.


domingo, 23 de fevereiro de 2025

"É Carnaval"

 


Um dos mistérios da minha vida é o Carnaval. Este ano, cai na terça-feira, dia 4 de março. Em tese. Na prática, parece que já começou. Os telejornais, o jornalismo eletrônico dos portais de notícias, as lojas, os desfiles, as postagens nas redes antissociais, tudo leva a crer que o Carnaval começa bem antes do dia marcado. Carnaval é um mistério, porque tem data e lugar para você ser feliz, cantar, beijar e dançar. A pessoa está parada no lugar, olhando para lugar nenhum e, de repente, começa a tocar uma música e ela sai pulando, dançando, gritando. 

A palavra Carnaval vem do latim - carnem levare - que significa "eliminar a carne", numa referência à quarta-feira de cinzas, primeiro dia de um período de abstinência (Quaresma), durante o qual ninguém estava autorizado a comer carne. 

O carnavalesco Paulo Barros, de Vila Isabel (RJ), causou polêmica ao dizer que o público não entende os desfiles de temática africana. "Posso te garantir que 90% das pessoas não vão entender nada." E ele diz: "Qualquer imbecil sabe que raiz de escola de samba é africana". De fato, para quem não tem formação em religião africana, é complicado entender aquelas divindades e demais referências. E é verdade que a a escola de samba tem muita influência da cultura africana. Na realidade, houve uma apropriação dessa temática africana sobre o Carnaval brasileiro. O Carnaval originou-se na antiga Roma. O famoso Carnaval de Máscaras de Veneza visava, nos primórdios, nivelar ricos e pobres, em pelo menos um único dia do ano. Todos estavam mascarados. Ninguém sabia quem era rico ou miserável.  

No passado, o Carnaval era um momento de frouxidão da censura moralista. A moça recatada, frequentadora da missa, tímida e avessa aos avanços da garotada, quando punha uma fantasia e ia ao salão "pular o Carnaval", perdia os freios, como se dizia antigamente. Beijava deus e o mundo. Deixava a pulsão sexual falar mais alto que a repressão da igreja e familiares. Do ponto de vista religioso, na quarta-feira de cinzas, as moças que haviam transgredido iam na igreja receber o perdão na forma de cinzas, que o padre lhes passava na testa, como forma de penitência. Nove meses depois, as maternidades acusavam os efeitos da "folia". 

Quando era criança, o Carnaval era ficar na rua, esperando passar um carro. Morava em São Paulo e, nos anos 1960, não havia tantos carros assim passando nas ruas. Ainda mais onde eu morava, na periferia, que era a Vila Clementino (só tinha uma linha de ônibus que ligava o bairro ao centro, era o 47). Vinha um carro, a molecada pegava serpentina e atirava por sobre o veículo. Era legal quando a serpentina enroscava na antena e o carro saía com o papel tremulando. 

Depois, ficou mais violento: a gente atirava água nos carros. Dava banho em quem tinha o desplante de passar pela nossa rua. Vez ou outra, o motorista parava e descia correndo atrás da gente. A molecada saía em disparada. Cada um para um lado, dando risada. Para falar a verdade, era mais legal, quando o carro parava e o motorista, muito doido da vida, corria atrás da gente.

Com o tempo, os motoristas e passageiros ficaram mais espertos. A gente chegava com a seringa cheia de água e eles disparavam o extintor de incêndio. Tinha virado um conflito entre motoristas e moleques. A garotada foi além da água. Alguém inventou o "sangue de boi", uma mistura de água com anilina, corante e sabão. A vítima era atingida no peito, sujando a coitada da camisa branca. Parecia sangue. 

Não sei por que fui levado pelos familiares para "pular o Carnaval". Era um salão de um clube (provavelmente, o Tênis Clube, na Aclimação). Devia ter uns dez, 12 anos. Começou o barulho. Ensurdecedor. Pessoas, que estavam paradas conversando, começaram a cantar e saíram dando voltas no salão. O lugar era um retângulo. Então, você via o folião passar e depois de uns cinco minutos aparecia ele novamente. Passavam cinco minutos e lá vinha o infeliz outra vez. Assim, sem parar. Exaustivo.

Me deram um lança-perfume para atirar nas pessoas. Minha primeira vítima foi um menino. Acertei os dois olhos dele. O infeliz ficou irritado. Ele tinha uma espécie de bolsa a tiracolo e foi puxando lá de dentro uma arma semelhante à minha. Depois de muito sacrifício, conseguiu tirar o lança-perfume e me acertou. Olho por olho... Fiquei parado, esperando o ataque, porque achei que fazia parte da festa. Pra dizer a verdade: era sem graça. 

Não tinha a menor vontade de sair cantando aquelas músicas. Odiava o barulho, aquele pessoal feio, suando. Minha vontade era sair correndo dali. Até que o parente, que havia me levado, desistiu e me reconduziu à salvação. Na rua, o som da banda continuava dentro dos meus ouvidos. O inferno sobre a terra é a música que você não quer ouvir e é obrigado a escutar.

Como repórter, cobri ensaios de escola de samba e desfiles. Esse mundo é desconhecido da maior parte das pessoas. Tem gente que ganha a vida, produzindo carros alegóricos, fantasias e sei mais o quê. A rainha da bateria, o compositor, o mestre-sala, o puxador do samba, todo esse pessoal têm status elevado no meio, embora os leigos não tenham a menor ideia de sua existência e importância.

Como leigo que sou, não consigo diferenciar um samba-enredo do outro. Para os meus ouvidos sofridos, todos parecem muito iguais. Talvez sejam mesmo iguais. 

Outro mistério profundo é o carro-alegórico. Eles preparam durante um ano o tal do carro-alegórico. Um ano! Trezentos e sessenta e cinco dias (ou seis, nos anos bissextos). E mesmo assim na hora do maldito carro-alegórico entrar na avenida, ele quebra. Como assim? Vocês tiveram um ano para fazer um carro-alegórico, para ele só fazer aquilo: entrar na "passarela do samba", percorrer os 500 metros (mais ou menos) e só. Mesmo assim, ele quebra. Às vezes, o carro-alegórico, talvez enlouquecido pela barulhada, decide fugir dali por conta própria e, em sua fuga, passa por cima de um ou outro folião.

Hoje, o escritor Marcelo Rubens Paiva, autor de "Ainda estou aqui", foi alvo de uma agressão, enquanto participava de um bloco em São Paulo. Um imbecil atirou uma mochila bem pesada em Marcelo, que é cadeirante. Na Vila Madalena, quem não gosta de Carnaval, precisou mudar de bairro, por causa dos blocos e da bagunça generalizada. Os foliões urinam na rua, espalham lixo, promovem algazarra, consomem drogas e bebidas alcoólicas. O pobre morador do apartamento não consegue sair de casa; ou, se tiver feito a bobagem de ir ao mercado, não tem mais como voltar. De manhã, as ruas da Vila Madalena fedem. 

Carnaval em São Paulo acontece no Sambródomo, construído pela então prefeita Luiza Erundina; e nas ruas, pelos blocos, que atrapalham a circulação dos carros. Se você tiver a sorte de sua rua não ser usada por blocos, nem saberá que tem Carnaval. 

No ano passado, fiquei preso no centro, por causa de um bloco. Quando passou, eram umas dez pessoas, pobremente fantasiadas e batendo um bumbo. O Sambródomo fica vazio o ano inteiro. São 100 mil metros quadrados de área construída e inteiramente vazio o ano inteiro. É utilizado em eventos raros e, brevemente, durante os desfiles. É o caso clássico de elefante branco. 

Ao ler os portais de notícias, as manchetes se transformam em gigantescos pontos de interrogação: "Milhares vão as ruas, com Suvaco e Boitatá". "Foliões usam fantasia de Gracyanne Barbosa", "Modo surto: Sonza usa transparência"... 

Deus meu, o que será que essa gente está falando?          

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Imigrantes fora da lei

 

Algemados, como criminosos de alta periculosidade, caminham para a deportação

A pessoa não é feliz no país em que nasceu. Falta trabalho ou, quando há trabalho, falta salário no fim do mês. As ruas são palco de quadrilhas violentas. A polícia não garante a segurança dos contribuintes. Nem em casa há tranquilidade. Uma bala perdida acaba achando o corpo da criança, da esposa, do trabalhador, do idoso. No Rio, os morros se transformaram em dezenas de novos Palmares, onde as forças da ordem não entram e, quando entram, são recebidas a bala. Num país assim, com tanta intranquilidade e desassossego, a saída passa pelo aeroporto. As pessoas emigram. Fogem do país violento e dos salários irrisórios, da falta de futuro, para o Eldorado (América, Europa).

O problema é que ninguém mais quer a gente lá. Eles não gostam de nós. Enquanto a gente estiver aqui, consumindo os produtos que eles fabricam, tudo bem. Mas quando a gente quer ir morar perto deles, aprender o idioma e os costumes locais, aí não vai dar. Eles nos algemam e nos expulsam. Somos acorrentados, como os escravos foragidos do século 19; colocados em aviões militares e jogados de volta, onde não deveríamos ter saído.

Durante a Ditadura Militar, não suportava mais viver no Brasil. Era recém-casado e embarquei para a Europa, com passagem só de ida (não faça isso, é a maior bobagem). Queria aprender inglês. Por isso, me matriculei em um curso para estrangeiros. Passado um mês, tinha arrumado emprego em um hotel, como "general help" (fazia de tudo), alugado apartamento e à tarde frequentava a escola, que tinha palestras e atividades também à noite. 

Em Brighton, a vida era tranquila. Nunca vou me esquecer do choque cultural ao me deparar com os litros de leite nas portas dos estabelecimentos comerciais. Era bem cedinho. A cidade estava envolta naquela bruma característica e os litros de leite, intocáveis, aguardavam a chegada dos comerciantes. "Ninguém rouba?", perguntei assombrado para um professor. Ele disse: "Não. Ninguém rouba".

Enquanto no Brasil, eu andava sempre com medo. Era parado constantemente pela polícia. Revistavam meus bolsos. Perguntavam onde eu ia. Olhavam minha carteira. Em São Paulo, havia sempre uma sensação de que algo ruim iria me acontecer. Em Brighton, era o mar da tranquilidade. Andava anônimo pelas ruas. Nunca me pediram documentos ou fui interpelado pela polícia. 

Havia um grupo de pequenos nazistas, os skinheads, que já naquela época detestavam imigrantes e queriam devolver a Inglaterra aos ingleses. Eram adolescentes. Usavam botas Dr. Martens, calças jeans, camisetas brancas e blusa militar, quase sempre com a bandeira inglesa costurada nas costas. Os skinheads gostavam de brigar com os punks e os "mods" (que viviam ainda no tempo do rock'd'roll, com suas lambretas e costeletas). Eles saíam de Londres e vinham se pegar nas pacíficas praias de Brighton.

Havia esse paradoxo: em São Paulo, trabalhava como assessor de imprensa para uma fábrica de motocicletas. Cobria corridas de moto em várias capitais do País. Morava em um apartamento confortável na Aclimação. Tinha acabado de terminar duas faculdades. Frequentava a vida cultural da cidade, indo em teatros, cinemas e lançamentos de livros. Nossa vida era relativamente estável. Mesmo assim, havia um mal-estar predominante. É um País tropical, ensolarado, mesmo assim sentia aquela nuvem cinzenta, ameaçadora sobre mim. Não era feliz.

Em Brighton, como "general help", indo com a mulher tomar cerveja Brown Ale no pub na sexta-feira; podendo ir ao cinema - vez ou outra (porque era muito caro para nós), mesmo assim, apesar do dinheiro curto, a sensação era de vitória. Era mais feliz na Inglaterra, trabalhando como faz-tudo, do que trabalhando na minha área no Brasil. 

É esse paradoxo que move o emigrante. Ele até pode estar empregado, ter uma vida estabilizada, mas quer algo mais, busca a aventura. Por isso, vende tudo que tem em seu país e embarca rumo ao sonho. Não falta, evidentemente, o imigrante que não tem nada, apenas a força de vontade e quer refazer a vida no estrangeiro. 

O problema é que, se já era difícil viver na Europa nos anos 1980, imagine agora. São milhares de imigrantes, vindos de Bangladesh, Egito, Costa do Marfim, Tunísia, africanos do Magrebe, que chegam às costas da Itália, em embarcações precárias, que saem geralmente da Líbia. Na América do Norte, cruzando o México, para chegar aos Estados Unidos, são também milhares de cubanos, haitianos, venezuelanos, hondurenhos, mexicanos e brasileiros (é claro).

Quando vivi em Brighton, com visto de permanência legalizado, havia muitos portugueses e portuguesas vivendo ilegalmente na Inglaterra. Eles trabalhavam como braçais, em restaurantes e construções, e volta e meia a polícia capturava um deles e expulsava do país. Lembro de uma amiga nossa, portuguesa, que desapareceu de repente e, mais tarde, soubemos que havia sido deportada. O imigrante tem sempre essa sensação de incerteza, de intranquilidade. Consegue trabalho, adapta-se ao país, faz círculo de novos amigos, mas carrega sempre consigo esse pavor de cair nas malhas dos agentes de imigração. Em Nova York, os latinos chamavam esses policiais de "imigra". 

Hoje, a Europa e os Estados Unidos não querem mais saber de imigrantes. Todos os dias, o noticiário fala de barcos que naufragaram, matando pessoas que tentavam chegar ao continente europeu. Nos EUA, o presidente direitista aproveita a maré reacionária e investe contra imigrantes, a exemplo dos europeus de antigamente, que, durante a peste negra, perseguiam judeus, ciganos, leprosos e mendigos, acreditando que esses grupos de marginalizados fossem transmissores da doença.

Se tivesse um parente vivendo ilegalmente nos Estados Unidos, aconselharia a retornar ao Brasil. Esquecer o sonho americano. Por pior que esteja a situação no seu país de origem, não vale a pena continuar em um país onde as pessoas não gostam da gente. Eles não nos querem lá. Então, também podemos devolver esse repúdio na mesma moeda. Fazer como os canadenses têm feito. Não consumindo mais produtos americanos. Seria inteligente por parte dos fabricantes brasileiros passarem a colocar bandeiras do Brasil em seus produtos. Não queremos mais consumir bens de quem não gosta da gente. Fomos aliados deles na Segunda Guerra Mundial. Mandamos soldados para lutar lado a lado com eles, contra o nazi-fascismo. E agora, diante desse novo cenário político, chegou o momento da ruptura. Vamos buscar outras paisagens, como diz Ana Carolina.   

Traduzido para o inglês:

"Outlaw immigrants"

A person is not happy in the country where they were born. There is a lack of work or, when there is work, there is a lack of salary at the end of the month. The streets are the stage for violent gangs. The police do not guarantee the safety of the citizens. There is no peace even at home. A stray bullet ends up hitting the body of a child, a wife, a worker, or an elderly person. In Rio, the hills have become dozens of new Palmares, where the forces of law do not enter, and when they do, they are met with gunfire. In a country like this, full of unrest and anxiety, the way out is through the airport. People emigrate. They flee the violent country, the meager salaries, and the lack of a future, towards the Eldorado (America, Europe).

The problem is that no one wants us there anymore. They don’t like us. As long as we are here, consuming the products they make, everything is fine. But when we want to live near them, learn the language, and adapt to the local customs, that’s when it doesn’t work. They handcuff us and expel us. We are shackled, like the runaway slaves of the 19th century; placed on military planes and thrown back where we should never have left.

During the Military Dictatorship, I couldn’t stand living in Brazil anymore. I had just gotten married and left for Europe with a one-way ticket (don’t do that; it’s the biggest mistake). I wanted to learn English, so I enrolled in a course for foreigners. After a month, I had found a job in a hotel as a "general help" (doing everything), rented an apartment, and in the afternoon, I attended the school, which had lectures and activities in the evening as well.

In Brighton, life was peaceful. I will never forget the cultural shock when I saw the milk bottles on the doorsteps of the shops. It was early in the morning. The city was shrouded in that typical mist, and the bottles of milk, untouched, awaited the merchants’ arrival. "Doesn’t anyone steal them?" I asked in astonishment to a teacher. He said, "No. No one steals."

While in Brazil, I was always afraid. I was constantly stopped by the police. They would search my pockets. Ask where I was going. Look at my wallet. In São Paulo, there was always the sense that something bad would happen to me. In Brighton, it was the sea of tranquility. I walked anonymously in the streets. No one ever asked for my documents or stopped me to question me.

There was a group of small Nazis, the skinheads, who already at that time hated immigrants and wanted to return England to the English. They were teenagers. They wore Dr. Martens boots, jeans, white t-shirts, and military jackets, almost always with the English flag sewn on the back. The skinheads liked to fight with the punks and "mods" (who still lived in the rock 'n' roll era, with their scooters and sideburns). They would leave London and come to the peaceful beaches of Brighton to fight.

There was this paradox: in São Paulo, I worked as a press officer for a motorcycle factory. I covered motorcycle races in several capitals of the country. I lived in a comfortable apartment in Aclimação. I had just finished two university degrees. I attended the cultural life of the city, going to theaters, cinemas, and book launches. Our life was relatively stable. Even so, there was a prevailing sense of unease. It’s a tropical, sunny country, but I still felt that gray, threatening cloud hanging over me. I wasn’t happy.

In Brighton, as a "general help," going with my wife to have Brown Ale beer at the pub on Fridays; occasionally going to the cinema (because it was very expensive for us), still, despite the tight money, the feeling was one of victory. I was happier in England, working as a handyman, than working in my field in Brazil.

This is the paradox that drives the emigrant. He may be employed, have a stabilized life, but he seeks something more, he seeks adventure. That’s why he sells everything he has in his country and embarks towards the dream. There are, of course, immigrants who have nothing, just the willpower, and want to rebuild their life abroad.

The problem is that, if it was already difficult to live in Europe in the 1980s, imagine now. There are thousands of immigrants from Bangladesh, Egypt, Ivory Coast, Tunisia, Maghreb Africans, who arrive on the shores of Italy in precarious boats, usually leaving from Libya. In North America, crossing Mexico to reach the United States, there are also thousands of Cubans, Haitians, Venezuelans, Hondurans, Mexicans, and Brazilians (of course).

When I lived in Brighton, with legalized residence, there were many Portuguese living illegally in England. They worked as laborers in restaurants and construction, and every so often, the police would catch one of them and expel them from the country. I remember a Portuguese friend of ours who disappeared suddenly, and later we learned she had been deported. The immigrant always carries that feeling of uncertainty, of unease. He finds work, adapts to the country, makes new friends, but always carries with him the fear of falling into the hands of immigration agents. In New York, Latinos called these officers "immigra."

Today, Europe and the United States don’t want immigrants anymore. Every day, the news talks about boats that have sunk, killing people who were trying to reach European soil. In the U.S., the right-wing president takes advantage of the reactionary tide and invests against immigrants, just like the Europeans of the past, who, during the Black Plague, persecuted Jews, Gypsies, lepers, and beggars, believing that these marginalized groups were transmitters of the disease.

If I had a relative living illegally in the United States, I would advise them to return to Brazil. Forget the American dream. No matter how bad the situation is in their country of origin, it’s not worth staying in a country where people don’t like us. They don’t want us there. So, we can also return that disdain in the same measure. We can do like the Canadians have done. Stop consuming American products. It would be smart for Brazilian manufacturers to start putting Brazilian flags on their products. We no longer want to consume goods from those who don’t like us. We were their allies in World War II. We sent soldiers to fight alongside them against Nazism and Fascism. And now, in the face of this new political scenario, the moment for a break has come. Let’s look for new horizons, as Ana Carolina says.



  

 

   

    
    

sexta-feira, 17 de janeiro de 2025

Sobre a homofobia

 

A postagem foi acusada de homofóbica

A ex-miss Brasil Renata Fan é a apresentadora de "Jogo Aberto", um programa de esportes, transmitido, na hora do almoço, diariamente, pela TV Bandeirantes. Começa com a âncora falando sobre os clubes de futebol, ao lado de um comentarista. Antes, era o ex-jogador Denílson, apelidado de "Denílson Show". Atualmente, ela faz dobradinha com o também ex-jogador o ex-goleiro do Corinthinas Ronaldo Giovanelli. Depois desse "esquenta", tem início o debate, com vários comentaristas falando ao mesmo tempo, cada um tentando gritar mais alto que o outro. O telespectador não consegue entender direito os posicionamentos, em meio aos gritos. É uma barafunda. A apresentadora dá muita risada e deixa o caos tomar conta do pedaço. Na virada do ano, "Denílson Show" trocou a Band pela TV Globo. Vai ganhar 300 mil reais por mês, segundo li no noticiário, "mais do que o dobro do que ele ganhava na Bandeirantes".  

Esta semana Renata Fan postou uma arte, que lhe foi enviada supostamente por um fã. A postagem mostra a apresentadora ao lado de Denílson, na época da Band; e agora, na Globo o mesmo Denílson, com leiaute diferente (de barba e bigode) ao lado da cantora Pabllo Vittar (assim mesmo com dois eles e dois tês no nome). Para bom entendedor, Denílson teria trocado a mulher e ex-miss Renata por uma travesti.

Renata achou engraçada a postagem: "Chorei de rir". Pabllo Vittar acusou a apresentadora de ser "homofóbica". A também cantora e youtuber Leo Áquila cobrou satisfação da apresentadora da Band: "E aí, linda, vamos explicar isso?".

No Brasil, homofobia é crime. O culpado não tem direito à fiança, nem há prescrição da ofensa. O termo foi cunhado por um psicólogo judeu e norte-americano George Weinberg (1935-2017), em 1971, aglutinando os termo "homo" e "phobos" (medo). 

Quando a gente lê que alguém foi espancado apenas por ser homossexual, isso significa homofobia. Quando um parente, "amigo" ou "colega de trabalho", usa palavras agressivas ou tenta menosprezar o outro, por causa de sua orientação sexual, isso é homofobia. Também, nos almoços de família, quando o tio do pavê faz piada sobre o "viado", a "lésbica", a "trava", é também caracterizado de homofobia. Também é homofobia quando alguém deixa de contratar um funcionário, por ele ser LGBT. 

No caso da apresentadora da Band, houve homofobia, porque Denílson Show não vai apresentar o programa ao lado de Pabllo Vittar. Denílson participará de produções do SporTV e também do Globo Esporte, na TV aberta. Ou seja, foi um "meme", uma "brincadeirinha", indicando que Denílson "trocou" a mulher "de verdade" pela trans.

Na prática, Denílson trocou o programa apresentado por Renata Fan por um contrato de seis cifras com a Globo. Renata foi passada para trás e se "vingou" publicando aquela postagem que visava ridicularizar o seu parceiro de programa, que a deixou a ver navios. Denílson era figura de proa no "Jogo Aberto" e faz falta.

A homofobia está em todo lugar. Não apenas no "meme" "engraçadinho" de Renata Fan. Ele perpassa a sociedade brasileira. É capilar. Reportagem do Uol, assinada pela repórter Victoria Bechara, informa que o vereador Lucas Pavanato, do partido de Jair Bolsonaro (PL), nem bem esquentou a cadeira na Câmara Municipal e já mandou ver em três projetos contra pessoas trans: 1) impede que pessoas trans participem de atividades esportivas em categorias que sejam diferentes de seu sexo de nascimento; 2) proíbe hospitais e clínicas de realizar tratamentos de redesignação sexual em menores de 18 anos; 3) impede que mulheres trans utilizem banheiros femininos (ou homens trans, os banheiros masculinos).  Essa questão dos banheiros era sua "bandeira de campanha", informa a reportagem. Pavanato tem 26 anos e 161 mil votos que o colocaram na Câmara. 

As pessoas trans parecem ser fantasmas que assombram o vereador "mais votado de São Paulo". A cidade tem 90 mil pessoas vivendo nas ruas. Outras 3 milhões e 600 mil vivem em agrupamentos precários, em favelas, à beira de córregos imundos. Mas toda essa gente em situação de miséria está fora da mira do nobre edil. Quem tira o sono dele são as pessoas trans. 

O vereador não é uma voz solitária, evidentemente. Ele representa, com objetivos eleitorais, uma parcela significativa da população brasileira que odeia pessoas trans. O Brasil, como informam os números, é líder mundial na morte violenta de pessoas trans.

A série "Transparent", de 2014, tem uma cena que ilustra o drama da pessoa trans na utilização de banheiro público. A personagem Maura Pfeffer (vivida pelo ator Jeffrey Tambor) é uma crossdresser. Ela está em um shopping e entra no banheiro feminino. Uma mulher se desespera e começa a gritar. Situação semelhante ocorreu, em 2012, com a cartunista Laerte, que estava em um banheiro feminino de uma pizzaria e foi repreendida pelo dono do local. Sua presença no banheiro causaria "incômodo" às mulheres.  Na época, os veículos de comunicação o chamavam de "o cartunista que se veste de mulher".

O ideal de toda pessoa trans é "passar". Isso significa que a mulher trans, por exemplo, gostaria de ser notada apenas como mulher e não como "um homem que se veste de mulher". A pessoa trans sofre, porque o mundo externo a enxerga de forma diferente daquilo que ela sente dentro de si. Ela se olha no espelho e vê uma mulher, enquanto os demais vão enxergá-la, depreciativamente, como um homem "fantasiado de mulher".

Certa ocasião, estava no supermercado Master, que funciona dentro do Shopping Frei Caneca, escolhendo frutas. O supermercado tem uma grande variedade de frutas de época. Próximo de mim, estava uma travesti negra, seios pronunciados em decote, cabelo liso caído até as costas, minissaia e sandália de salto alto. Dois rapazes que repunham frutas nas prateleiras começaram a rir da travesti. Eles olhavam para ela e riam, balançando a cabeça, em sinal de desaprovação. A travesti chamou a atenção deles em altos brados. Ameaçou chamar a polícia e a gerência do mercado. Essa cena, isolada, acontece à exaustão no Brasil. A pessoa trans é vista como uma ameaça, alguém que vai perturbar a tranquilidade da Nação, por isso precisa se alvo de infâmia.  

Entre vários filmes e séries que abordam o tema, "Crônicas de São Francisco", estrelado por Olympia Dukakis, Laura Linney e Elliot Page, conta a história de uma mulher trans que tenta passar por "mulher de verdade" na conservadora São Francisco dos anos 1950 e 1960. Ela chega a se relacionar com um policial e é até recebida na casa da família do namorado como "mulher". Depois, ela é presa em uma batida policial, juntamente com outras travestis, e, ao sair da cadeia, toma uma medida drástica: se apropria de um fundo de dinheiro e o utiliza para a cirurgia de redesignação sexual e a compra de uma propriedade, que viria se transformar em uma espécie de centro de acolhimento de LGBTs. "Crônicas de São Francisco" baseia-se, em nove livros, do escritor Armistead Maupin.

A homofobia é crime no Brasil, desde 2019. A lei reprime um desejo substantivo da sociedade brasileira de eliminar a pessoa trans da paisagem. Pode ser um problema de educação, de atavismo religioso. O Brasil tem 600 mil igrejas e apenas 7 mil bibliotecas e livrarias. É muita gente semialfabetizada, "bitolada", como se dizia nos anos 1970, lendo apenas um único livro.


  

 

  

 

  


sexta-feira, 10 de janeiro de 2025

Os "motoras"

 


A equipe de reportagem que vai para a rua é formada pelo repórter, por um repórter-fotográfico e pelo motorista, que o "reportariado" chama de "motora". O "motora" é peça essencial. Cabe a ele encontrar o melhor caminho, chegar mais rápido e retornar mais rápido ainda a tempo do fechamento. 

O repórter-fotográfico costuma se sentar no banco da frente, ao lado do "motora". Por quê? Se acontecer algo que garanta a primeira página do jornal, o repórter-fotográfico estará atento e vai pular do carro e fará a foto consagradora. 

Na realidade, é só o repórter-fotográfico entrar no carro, se sentar para começar a cochilar. Alguns até roncam. Batem a cabeça na janela do carro. Babam. Mas ai de você, repórter, se quiser se sentar na frente. Eles ficam muito bravos. 

"O fotógrafo senta na frente. Se acontecer alguma coisa, a gente faz a foto no ato", eles costumam justificar. Mas a maioria dorme. Acredite.

Às vezes, o "motora" pede ajuda para a reportagem. Quando trabalhava no "Jornal da Tarde", o carro quebrou. Não pegava de jeito nenhum. O "motora" virava a chave e a ignição fazia aquele rê-rê-rê-rê e o motor não funcionava. O "motora", usando de sua experiência, virou-se para mim e falou:

"Sai fora e empurra o carro".

Empurrei o desgraçado até ele tossir e dar um estouro no escapamento e o motor voltar a funcionar.

Há casos excepcionais, em que o "motora" manda a equipe esvaziar o carro. Estávamos no "corredor polonês", que era uma área de 35km² entre Santo André, São Bernardo, Mauá e Ribeirão Pires, onde anos atrás ninguém sabia exatamente onde começava um município e terminava outro. As ocupações desordenadas eram constantes. A mata derrubada. O esgoto lançado a céu aberto. Enfim, o de sempre. As ruas eram precárias e havia subidas íngremes. Tão íngremes que o carro do "motora" parou na metade. Não sei se eu estava fora do peso, se o repórter-fotográfico havia exagerado na feijoada, o fato é que o carro não conseguia subir. Também não sei se o "motora" estava de sacanagem com a gente. 

"Não sobe mais", disse o "motora", um senhor dos seus 60 anos, cabelo branco, que usava o seu carro - um veículo popular 1.0 - para transportar a gente pra cima e pra baixo.

"Como não sobe?", o fotógrafo protestou. "Tem que subir."

"Não sobe. Está muito pesado. É um carro 1.0. Não consegue subir."

Descemos - eu e o fotógrafo - enquanto o "motora" arrancava e foi nos esperar lá no alto, um quilômetro adiante. Foi bem gostoso subir pela rua de terra, por volta de 15h, sol a pino, queimando o cérebro da gente.

Às vezes, o repórter erra de carro e de "motora". Eram 18h35. Saí "voando" da Câmara de São Caetano. Tinha de chegar rapidamente ao jornal e escrever a matéria, que seria a capa da edição. O carro que estava me esperando era cinza e me aguardava em uma rua lateral, ao lado de uma banca de jornal. Fui andando depressa, em direção ao carro. Avistei o veículo, parado exatamente no mesmo local. Abri a porta. Sentei e falei para o "motora":

"Vam'bora, vam'bora. Rápido. Preciso chegar no jornal".

Um rapaz virou-se, muito assustado, e me disse, quase chorando:

"Vamos embora pra onde, meu deus?"

Era o carro errado e o "motora" errado.

Em 1984, o uso do cinto de segurança era visto com desconfiança pelos "motoras". A obrigatoriedade do uso do cinto só viria em 1997, juntamente com o Código de Trânsito Brasileiro. Na década de 1980, quem quisesse pôr o cinto de segurança teria um trabalho danado. O cinto ficava amarrado e sujo, debaixo do banco. Era cheio de nós e poeira.

Quando comecei a trabalhar de repórter no "Diário Popular", toda vez que entrava no carro da reportagem (na época, a frota era própria do jornal), procurava o cinto. Sujava as mãos, a roupa, mas nunca deixava de andar sem o cinto de segurança (tinha estado na Europa antes e lá todo mundo usava cinto). Os "motoras" não se conformavam. Diziam:

"Você não confia em mim?"

Um belo dia, na verdade, era uma tarde chuvosa e fria de sexta-feira, entrei no carro de reportagem, uma Brasília, com dois anos de uso. Procurei o cinto lá embaixo. Afivelei e aconselhei o "motora":

"Põe o cinto, Vanderlei. Não anda sem cinto".

"Isso é coisa de viado", ele disse. Era um rapaz moreno, com a barba por fazer, com seus 30 anos. 

Saímos da rua Major Quedinho, em direção a rua Haddock Lobo. Íamos em uma casa noturna, muito famosa na época, para uma entrevista com uma celebridade.

Chegamos na rua Haddock Lobo e a chuva apertou. Três quarteirões antes do nosso destino, o sinal fechou na travessa com a Alameda Itu. Paramos, aguardando o verde. Um maluco veio a toda velocidade e entrou na traseira da Brasília. Como o banco era menor e não tinha proteção no pescoço, minha cabeça foi jogada com força para trás, dando aquele estalo perigoso no pescoço. O carro infrator deu ré. Saiu detrás da nossa Brasília e saiu acelerando rua Haddock Lobo abaixo. 

O Vanderlei, indignado, engatou a primeira e foi atrás do maluco. Pedaços da traseira da Brasília e da frente do carro do maluco despencavam pela rua. Duas travessas depois, o sinal fechou novamente para nós. O maluco passou no vermelho, mas o Vanderlei, em alta velocidade, não quis saber de frear. Foi em frente. Uma kombi atravessou a nossa frente. O Vanderlei desviou da kombi e saiu derrapando, batendo nos carros estacionados nos dois lados da rua. Era uma bola de boliche desgovernada, até perder o controle e entrar em um poste de cimento. Vi as ferragens se amontoando, se envergando, vindo em direção ao vidro dianteiro. Até que tudo se imobilizou. 

O caríssimo Vanderlei - sem cinto de segurança - tinha se chocado contra o painel da Brasília e destruído o joelho em um rádio automotivo, que, na época, servia para a chefia de reportagem se comunicar com o repórter (celulares não tinham sido inventados). Desafivelei o cinto de segurança e saí da Brasília, em destroços. Era a famosa PT, "perca total", como diziam os "motoras", usando o subjuntivo ao invés do substantivo.

Consegui tirar o Vanderlei da Brasília, com a ajuda de populares. Minha roupa ficou toda ensanguentada. Liguei para o jornal e pedi um carro para me resgatar. O "motora" foi levado para o pronto-socorro mais próximo. Trêmulo, sujo, as roupas manchadas de sangue, com uma dor insuportável no pescoço, cheguei na Redação e levei maior bronca do chefe, o "Pitico", por ter "abandonado a pauta".     

 O "motora" é muito importante, durante as "perseguições". Tínhamos recebido a informação de que um vereador usava o carro oficial para ir até a Baixada Santista nos finais de semana. Como os veículos não tinham qualquer evidência de que se tratavam de carros oficiais, os nobres edis faziam a festa.

Cheguei na casa do vereador no final da tarde de uma sexta-feira. Paramos o carro mais acima e ficamos de "campana". O vereador e a esposa saíram de casa. Abriram o porta-malas do carro oficial, um Corsa verde claro, e começaram a enchê-lo de malas e sacolas.

Eles fecharam a porta da casa. Entraram no carro e saíram. Falei para o seu José, o "motora":

"Seu José, vamos atrás deles. Vamos flagrá-los chegando em Santos."

O seu José, que era um senhor tranquilo e extremamente paciente, ponta firme, concordou.

Iniciamos a 'perseguição". O carro oficial foi em direção a uma avenida movimentada que fazia a ligação com a via Anchieta. No entroncamento com a estrada, era carro, ônibus, caminhão, moto, todo mundo tentando entrar ao mesmo tempo na Anchieta. 

Meu celular tocou (nessa época, já tinham inventado celular; era um "tijolo"). Atendi. Alguém no jornal me pediu um retorno. Falei o que estava acontecendo e que provavelmente eu iria até Santos. O pessoa na Redação ficou animado. 

Já na via Anchieta, desligo o celular e olho para a frente, tentando localizar o carro oficial. No lusco-fusco do final do dia, achei que estávamos atrás de um Corsa vermelho claro. Apertei os olhos. Tirei os óculos. Limpei as lentes e voltei a tentar localizar o "nosso" Corsa.

"Seu José", eu disse, "parece que estamos atrás de um Corsa vermelho. O nosso Corsa não era verde?"

"Era verde?", ele perguntou.

A minha manchete tinha ido para o vinagre, graças ao seu José, que, vim a descobrir, era daltônico.      

  

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