sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

"A religião woke"

 


"Os homens estão grávidos", "as mulheres têm pênis", "todos os brancos são racistas", "todos os negros são vítimas", "a biologia é virilista", "a matemática é racista"... É assim que começa o livro "A religião woke", do acadêmico francês, professor titular de filosofia contemporânea na Sorbonne (Paris), Jean-François Braunstein. O livro é quase um manifesto, um panfleto, em defesa de todos aqueles que se opõem ao "wokismo". 

O autor explica que o termo "woke" tem origem nos Estados Unidos. Veio do movimento negro, na esteira dos protestos "vidas negras importam". Tem origem no particípio passado do verbo "wake" (despertar), "woken". A partir do movimento negro, a vaga "woke" chegou às universidades americanas e virou uma "religião", segundo Braunstein. Uma religião que não faz reféns. Quem é contra a vaga "woke" é "cancelado", similar à prática stalinista de apagar imagens das fotos históricas de políticos e líderes que caíam em desgraça pós-revolução bolchevique. O cancelamento, ele explica, "é a anulação da própria existência de inimigos", que seriam "a personificação do mal".

Entre esses inimigos estão a escritora J.K. Rowling, autora de "Harry Potter"; os comediantes Dave Chappelle (nos Estados Unidos) e Rick Gervais (na Inglaterra) e até o desenhista Xavier Gorce, na França.

O professor explica que "a ideologia woke não é um esnobismo passageiro", mas veio para ficar. Os "wokes" atuam principalmente em três segmentos: raça, gênero e contra a ciência. 

Quando se fala em raça, diz Braunstein, vivemos um dilema. "Se a pessoa disser que é racista, então ela é mesmo racista; mas se disser que não é racista também dá no mesmo". A pessoa branca nasce com uma espécie de "pecado original" e é taxado de "privilegiado branco". Braunstein cita Martin Luther King, que, em seu discurso mais célebre dizia ter um sonho: que seus quatro filhos vivessem em um mundo que não os julgassem pela cor da pele, mas por seu caráter. De acordo com o autor de "A religião woke", os "wokes" pensam justamente o oposto de Luther King. 

"Os novos anti-racistas racistas defendem que as raças existem" e que para combater o racismo não se deve tratar "todos os humanos da mesma forma". O anti-racismo contemporâneo "tem por objetivo principal alargar ao máximo o campo de acusação de racismo". Toda a história ocidental foi sempre racista; todas as produções culturais, científicas, artísticas ou técnicas, toda elas são racistas, "além de virilistas". Para completar, os "wokes" também acusam a matemática de ser "branca".

O outro foco do "wokismo" é a questão de gênero. Para Braunstein, não existe o transgênero, porque biologicamente a pessoa é homem ou mulher, portanto, uma pessoa trans não existiria no mundo real, mas apenas em seu "imaginário":

"O mundo ilusório deve ser encarado como mais verdadeiro que o real."

No que diz respeito à sigla LGBTQI, o autor assinala que quem está mesmo no centro dos debates é a letra "T". Braunstein critica os desportistas trans que superam as mulheres nos esportes; critica o direito de mulheres trans frequentarem banheiros femininos; critica a fixação dos americanos com os pronomes neutros e faz uma relação dos "textos sagrados" dos "wokes", centrando seu poder de fogo em Judith Butler e Paul B. Preciado. Esses dois autores têm sua obra centrada na questão de gênero. 

"Graças à invenção do transgênero, a teoria de gênero anuncia uma promessa inaudita de se poder mudar de sexo ou de gênero à vontade do freguês" (...) "O trans seria o novo herói do nosso tempo".  

Depois do gênero, o próximo alvo dos "wokes", segundo Braunstein, seria a ciência. Além da biologia e matemática, "todas as ciências modernas, nascidas no ocidente, são participantes de uma história sangrenta de racismo, colonialismo e destruição das culturas indígenas". Por isso, os "wokes" devem "recusar a ciência em sua globalidade". 

Braunstein cita vários casos de acadêmicos que perderam o emprego, depois de se contrapôr à "religião woke". Por exemplo, a lésbica militante e professora de filosofia na Universidade de Sussex, Kathleen Stock, optou por se demitir após enfrentar a fúria de militantes trans, revoltados com sua opinião de que "a noção de transgênero era apenas uma ilusão". 

Houve também casos de bloqueios feitos pelos "wokes" diante de espaços onde seriam realizadas conferências, que teriam a participação de seus adversários. Além dos bloqueios, aconteceram interrupções de palestras, como os "wokes" "repetindo cânticos" e "slogans". Os adversários são taxados de "gayfóbico", "transfóbico", "gordofóbico.

Para o autor, a força da religião "woke" nasce do fato de partir de reivindicações legítimas: a luta contra as discriminações associadas ao gênero, o racismo ou a reavaliação das colonizações europeias. "Mas conduz a conclusões absolutamente inaceitáveis."

Ele destaca que "a teoria de gênero rompe coma realidade para entrar num mundo imaginário  onde o gênero substitui o sexo e os corpos já não valem nada". 

Sobre a ciência, ele alerta para "o risco de conduzir a uma incrível regressão científica e técnica" (...) "a nossa herança cultural, a de Atenas e de Jerusalém, a do Renascimento e do Iluminismo, já não é conhecida e é incorretamente acusada de ser racista ou virilista". 

O que fazer então? Segundo o autor, será preciso ter um mínimo de coragem e erguer-se contra propostas aberrantes ou abjetas. "Dizer simplesmente não".

Descobri esse livro, na Biblioteca Municipal de Sesimbra (Portugal), em uma manhã quente de verão, em setembro. Enquanto milhares de pessoas corriam para a praia, me refugiei no ar-condicionado da biblioteca. Quando a biblioteca recebe novos lançamentos, coloca à vista dos frequentadores em mesinhas, junto às estantes. Circulando por essas mesinhas, bati o olho na "Religião woke", peguei o livro e li de um fôlego, para usar uma imagem inédita.

Editado em português pela Guerra e Paz, descobri que o autor é da minha geração e professor da Sorbonne, universidade pela qual tenho grande carinho, por ter possibilitado que eu trabalhasse em meu doutorado, sob a direção do professor emérito Michel Maffesoli.

Compreendo o assombro de Braunstein diante do "wokismo". Há muito exagero e disparates. Mas vou me deter apenas na questão trans. Em 1999, quando a editora Summus (selo GLS) publicou meu livro "Nicola, um romance transgênero", o termo "transgênero" ainda não existia em português do Brasil. A então editora Laura Bacellar precisou escrever uma nota explicativa sobre a transgeneridade. 

De fato, como observa o professor Braunstein, não existe no corpo da pessoa trans nenhuma prova de que ela tenha outro gênero. Outro dia, vendo um "reel" da youtuber trans e cantora Leo Áquila, ela dizia exatamente isso: "Não está no meu corpo; está na minha cabeça". Só que, ao contrário do que diz o professor, não se trata de um mundo imaginário, mas de não aceitação do próprio corpo. A mulher trans está em um corpo masculino, mas o rejeita. Ela não suporta conviver com o pênis, com a ausência de seios proeminentes e as evidências masculinas mais visíveis, como barba e pelos. Ela precisa renascer, para isso inicia uma via-crúcis que passa por visitas a médicos, tomar hormônios, implantar próteses de silicones, depilar o corpo com laser e - o principal - a troca de sua identidade, substituindo o nome masculino pelo feminino. Já o homem trans passa pelo mesmo processo, invertido, é claro (tomar hormônios para ter barba, retirada dos seios, entre outras ações).

O professor Braunstein vê as pessoas trans como seres que colocam em risco crianças e pré-adolescentes. A mulher trans é alguém que se deve temer ao possibilitar que utilize o banheiro feminino, porque pode violentar as mulheres "de verdade".

É difícil realmente entender o que é ser transgênero. Não está no corpo. O corpo acusa a presença de um pênis e, por tabela, saco escrotal, próstata... Só que a consciência que está dentro deste corpo não o aceita. Não vou falar em alma, porque é um conceito religioso e sem qualquer evidência factual, mas é como se alguém dentro da pessoa se defrontasse com o corpo errado. É um sofrimento diário, contínuo, crônico. Ela não se aceita e vive imersa nessa dor da não aceitação. 

Não foram poucos os casos de pessoas trans que se suicidaram, por causa desse dilema: ser obrigado a ser aquele que não é. Uma vez, entrevistando a modelo Roberta Close ("a mulher mais bonita do Brasil é homem" - Notícias Populares), após ela ter feito a cirurgia de redesignação sexual, ela me disse que se olhava no espelho e sentia um incômodo insuportável. Estava com seios, cabelo longo, curvas no corpo, toda depilada, mas ainda tinha pênis. E a presença do membro masculino lhe era invasivo. "Eu me via no espelho e não me conformava com aquilo ainda em mim". Ela retirou o órgão masculino. Casou-se e vive hoje na Suíça.

O que todos os teóricos de gênero dizem, em suma, é que o fenômeno trans ocorre quando a identidade consciente da pessoa não condiz com a sua genitália. No passado, não havia o que fazer. Hoje, cirurgias de redesignação sexual, terapias, tratamentos e até a possibilidade de mudar o registro civil tornam a vida das pessoas trans menos angustiante. É algo que se deve compreender e ter empatia.

Infelizmente, o professor Braunstein não percebe como as pessoas trans sofrem, justamente, por serem trans. Não se trata de "mudar de sexo e gênero de acordo com a vontade do freguês", mas de minimizar o sofrimento, de sermos solidários e humanos na aceitação do outro diferente.          

Tradução para o inglês:

"Woke religion"

"Men are pregnant," "women have penises," "all white people are racists," "all black people are victims," "biology is masculinist," "mathematics is racist" ... This is how the book "The Woke Religion" by the French academic and professor of contemporary philosophy at Sorbonne University, Jean-François Braunstein, begins. The book is almost a manifesto, a pamphlet, defending all those who oppose "wokeness."

The author explains that the term "woke" originated in the United States. It came from the Black movement, following the "Black Lives Matter" protests. It originates from the past participle of the verb "wake" (to awaken), "woken." From the Black movement, the term "woke" reached American universities and became a "religion," according to Braunstein. A religion that takes no prisoners. Those who oppose the "woke" trend are "canceled," similar to the Stalinist practice of erasing images of politicians and leaders who fell out of favor after the Bolshevik Revolution. Canceling, he explains, "is the annulment of the very existence of enemies," who are "the personification of evil."

Among these enemies are writer J.K. Rowling, author of "Harry Potter"; comedians Dave Chappelle (in the United States) and Rick Gervais (in England); and even the cartoonist Xavier Gorce in France.

The professor explains that "woke ideology is not a fleeting snobbery," but it is here to stay. The "wokes" primarily act in three areas: race, gender, and against science.

When it comes to race, Braunstein says, we live in a dilemma. "If a person says they are racist, then they are indeed racist; but if they say they are not racist, it doesn’t change anything." The white person is born with a kind of "original sin" and is labeled a "white privileged." Braunstein quotes Martin Luther King, who, in his most famous speech, expressed his dream that his four children would live in a world where they would not be judged by the color of their skin, but by their character. According to the author of "The Woke Religion," the "wokes" think exactly the opposite of Luther King.

"The new racist anti-racists defend that races exist" and that to combat racism, one should not treat "all humans the same." Contemporary anti-racism "aims primarily to widen the scope of accusations of racism." All of Western history has always been racist; all cultural, scientific, artistic, or technical productions are racist, "in addition to being masculinist." To top it off, the "wokes" also accuse mathematics of being "white."

Another focus of "wokeness" is the gender issue. For Braunstein, there is no such thing as transgender people because biologically a person is either male or female, so a transgender person does not exist in the real world, but only in their "imaginary."

"The illusory world must be seen as more truthful than the real one."

Regarding the LGBTQI acronym, the author points out that the letter "T" is truly at the center of debates. Braunstein criticizes transgender athletes who outperform women in sports; criticizes the right of trans women to use female bathrooms; criticizes the American obsession with neutral pronouns and lists the "sacred texts" of the "wokes," focusing their firepower on Judith Butler and Paul B. Preciado. These two authors have their work centered on gender issues.

"Thanks to the invention of transgender, gender theory announces an unheard-of promise that one can change sex or gender at will" (...) "The transgender would be the new hero of our time."

After gender, the next target of the "wokes," according to Braunstein, would be science. In addition to biology and mathematics, "all modern sciences, born in the West, are participants in a bloody history of racism, colonialism, and the destruction of indigenous cultures." Therefore, the "wokes" must "reject science in its entirety."

Braunstein cites several cases of academics who lost their jobs after opposing the "woke religion." For example, lesbian activist and philosophy professor at the University of Sussex, Kathleen Stock, chose to resign after facing the wrath of trans militants who were outraged by her opinion that "the notion of transgender was merely an illusion."

There were also cases of blockages by the "wokes" at venues where conferences would be held with the participation of their opponents. In addition to blockages, there were interruptions of lectures, with the "wokes" "repeating chants" and "slogans." The adversaries are labeled "homophobic," "transphobic," "fatphobic."

For the author, the strength of the "woke" religion comes from the fact that it starts from legitimate claims: the fight against discrimination related to gender, racism, or the revaluation of European colonization. "But it leads to absolutely unacceptable conclusions."

He highlights that "gender theory breaks with reality to enter an imaginary world where gender replaces sex, and bodies no longer matter."

Regarding science, he warns of "the risk of leading to an incredible scientific and technical regression" (...) "our cultural heritage, that of Athens and Jerusalem, that of the Renaissance and the Enlightenment, is no longer known and is incorrectly accused of being racist or masculinist."

What to do then? According to the author, it will take a minimum of courage to rise up against aberrant or abject proposals. "Simply say no."

I discovered this book at the Municipal Library of Sesimbra (Portugal) on a hot summer morning in September. While thousands of people were rushing to the beach, I took refuge in the library's air conditioning. When the library receives new releases, they place them on display tables near the shelves. While walking around these tables, I spotted "The Woke Religion," grabbed the book, and read it in one go, to use a new image.

Edited in Portuguese by Guerra e Paz, I discovered that the author is from my generation and a professor at Sorbonne, a university I hold in great affection for having allowed me to work on my PhD under the direction of the esteemed professor Michel Maffesoli.

I understand Braunstein's astonishment in the face of "wokeness." There is a lot of exaggeration and nonsense. But I will focus only on the transgender issue. In 1999, when the publisher Summus (GLS label) published my book "Nicola, a Transgender Novel," the term "transgender" did not yet exist in Brazilian Portuguese. The then-publisher Laura Bacellar had to write an explanatory note about transgender identity.

Indeed, as Professor Braunstein observes, there is no evidence in a transgender person's body that they have a different gender. The other day, I watched a "reel" from transgender YouTuber and singer Leo Áquila, who said exactly that: "It's not in my body; it's in my head." But, contrary to what the professor says, it is not an imaginary world, but a rejection of one's own body. The trans woman is in a male body, but she rejects it. She cannot live with the penis, the absence of prominent breasts, and other visible male traits like facial hair. She needs to be reborn, so she embarks on a journey that includes visits to doctors, taking hormones, getting silicone implants, laser body hair removal, and, most importantly, changing her identity by replacing her male name with a female one. The trans man goes through the same process, reversed, of course (taking hormones to grow a beard, removing breasts, among other actions).

Professor Braunstein sees transgender people as beings who put children and pre-adolescents at risk. The trans woman is someone to fear by allowing her to use the female bathroom, because she could violate "real" women.

It is really hard to understand what it means to be transgender. It's not in the body. The body signals the presence of a penis and, consequently, a scrotum, prostate... But the consciousness within that body does not accept it. I will not speak of the soul, because it is a religious concept without any factual evidence, but it is as if someone inside the person is confronted with the wrong body. It is daily, continuous, chronic suffering. She does not accept herself and lives immersed in the pain of non-acceptance.

There have been many cases of transgender people who committed suicide due to this dilemma: being forced to be someone they are not. Once, interviewing the model Roberta Close ("the most beautiful woman in Brazil is a man" - Notícias Populares), after she had undergone sex reassignment surgery, she told me that when she looked in the mirror, she felt an unbearable discomfort. She had breasts, long hair, curves in her body, was fully depilated, but still had a penis. And the presence of the male member was invasive to her. "I looked in the mirror and couldn't accept it still being there in me." She removed the male organ, got married, and now lives in Switzerland.

What all gender theorists say, in essence, is that the transgender phenomenon occurs when a person's conscious identity does not match their genitalia. In the past, there was nothing to be done. Today, sex reassignment surgeries, therapies, treatments, and even the possibility of changing civil records make the lives of transgender people less anguishing. It is something that should be understood and empathized with.

Unfortunately, Professor Braunstein does not understand how transgender people suffer precisely because they are transgender. It is not about "changing sex and gender at will," but about minimizing suffering, about being compassionate and human in accepting others who are different.

Tradução em francês:

La religion woke

« Les hommes sont enceints », « les femmes ont un pénis », « tous les Blancs sont racistes », « tous les Noirs sont des victimes », « la biologie est masculiniste », « les mathématiques sont racistes »... C'est ainsi que commence le livre La Religion Woke de l'universitaire français et professeur de philosophie contemporaine à l'Université de la Sorbonne, Jean-François Braunstein. Le livre est presque un manifeste, un pamphlet, défendant tous ceux qui s'opposent au « wokisme ».


L'auteur explique que le terme « woke » est originaire des États-Unis. Il provient du mouvement noir, suite aux manifestations « Black Lives Matter ». Il vient du participe passé du verbe « wake » (se réveiller), « woken ». Du mouvement noir, le terme « woke » a atteint les universités américaines et est devenu une « religion », selon Braunstein. Une religion qui ne fait pas de prisonniers. Ceux qui s'opposent à la tendance « woke » sont « annulés », semblable à la pratique stalinienne d'effacer les images des politiciens et dirigeants tombés en disgrâce après la révolution bolchevique. L'annulation, explique-t-il, « est la suppression de l'existence même des ennemis », qui sont « la personnification du mal ».

Parmi ces ennemis figurent l'écrivaine J.K. Rowling, auteure d'Harry Potter ; les humoristes Dave Chappelle (aux États-Unis) et Rick Gervais (en Angleterre) ; et même le dessinateur Xavier Gorce en France.


Le professeur explique que « l'idéologie woke n'est pas un snobisme passager », mais qu'elle est là pour durer. Les « wokes » agissent principalement dans trois domaines : la race, le genre et contre la science.


En ce qui concerne la race, Braunstein affirme que nous vivons un dilemme. « Si une personne dit qu'elle est raciste, alors elle est effectivement raciste ; mais si elle dit qu'elle n'est pas raciste, cela ne change rien. » La personne blanche naît avec une sorte de « péché originel » et est étiquetée comme « privilégiée blanche ». Braunstein cite Martin Luther King, qui, dans son discours le plus célèbre, a exprimé son rêve que ses quatre enfants vivent dans un monde où ils ne seraient pas jugés par la couleur de leur peau, mais par leur caractère. Selon l'auteur de La Religion Woke, les « wokes » pensent exactement le contraire de Luther King.


« Les nouveaux anti-racistes racistes défendent que les races existent » et que pour combattre le racisme, il ne faut pas traiter « tous les humains de la même manière ». L'anti-racisme contemporain « vise principalement à élargir le champ des accusations de racisme ». Toute l'histoire occidentale a toujours été raciste ; toutes les productions culturelles, scientifiques, artistiques ou techniques sont racistes, « en plus d'être masculinistes ». Pour couronner le tout, les « wokes » accusent également les mathématiques d'être « blanches ».

Un autre axe du « wokisme » est la question du genre. Pour Braunstein, il n'existe pas de personnes transgenres, car biologiquement une personne est soit un homme, soit une femme, donc une personne transgenre n'existe pas dans le monde réel, mais seulement dans son « imaginaire ».


« Le monde illusoire doit être considéré comme plus véridique que le monde réel. »


Concernant l'acronyme LGBTQI, l'auteur souligne que la lettre « T » est véritablement au centre des débats. Braunstein critique les athlètes transgenres qui surpassent les femmes dans le sport ; critique le droit des femmes trans à utiliser les toilettes pour femmes ; critique l'obsession américaine pour les pronoms neutres et liste les « textes sacrés » des « wokes », concentrant leurs critiques sur Judith Butler et Paul B. Preciado. Ces deux auteurs ont centré leur travail sur les questions de genre.


« Grâce à l'invention du transgenre, la théorie du genre annonce une promesse inouïe : celle de pouvoir changer de sexe ou de genre à volonté » (...) « Le transgenre serait le nouveau héros de notre époque. »

Après le genre, la prochaine cible des « wokes », selon Braunstein, serait la science. En plus de la biologie et des mathématiques, « toutes les sciences modernes, nées en Occident, participent à une histoire sanglante de racisme, de colonialisme et de destruction des cultures indigènes ». Par conséquent, les « wokes » doivent « rejeter la science dans son ensemble ».


Braunstein cite plusieurs cas d'universitaires qui ont perdu leur emploi après s'être opposés à la « religion woke ». Par exemple, l'activiste lesbienne et professeure de philosophie à l'Université du Sussex, Kathleen Stock, a choisi de démissionner après avoir subi la colère des militants trans, outrés par son opinion selon laquelle « la notion de transgenre n'était qu'une illusion ».

Il y a également eu des cas de blocages par les « wokes » dans des lieux où des conférences devaient se tenir avec la participation de leurs opposants. En plus des blocages, il y a eu des interruptions de conférences, avec les « wokes » « répétant des chants » et « des slogans ». Les adversaires sont étiquetés « homophobes », « transphobes », « grossophobes ».


Pour l'auteur, la force de la religion « woke » vient du fait qu'elle part de revendications légitimes : la lutte contre les discriminations liées au genre, au racisme ou la revalorisation de la colonisation européenne. « Mais elle aboutit à des conclusions absolument inacceptables. »


Il souligne que « la théorie du genre rompt avec la réalité pour entrer dans un monde imaginaire où le genre remplace le sexe, et où les corps n'ont plus d'importance. »


Concernant la science, il met en garde contre « le risque de conduire à une régression scientifique et technique incroyable » (...) « notre héritage culturel, celui d'Athènes et de Jérusalem, celui de la Renaissance et des Lumières, n'est plus connu et est injustement accusé d'être raciste ou masculiniste. »

Que faire alors ? Selon l'auteur, il faudra un minimum de courage pour s'élever contre des propositions aberrantes ou abjectes. « Simplement dire non. »


J'ai découvert ce livre à la Bibliothèque Municipale de Sesimbra (Portugal) par une chaude matinée de septembre. Alors que des milliers de personnes se précipitaient vers la plage, je me suis réfugié dans la climatisation de la bibliothèque. Lorsque la bibliothèque reçoit de nouvelles parutions, elle les place sur des tables d'exposition près des étagères. En parcourant ces tables, j'ai repéré La Religion Woke, j'ai attrapé le livre et l'ai lu d'une traite, pour utiliser une nouvelle image.

Édité en portugais par Guerra e Paz, j'ai découvert que l'auteur est de ma génération et professeur à la Sorbonne, une université que j'affectionne particulièrement pour m'avoir permis de travailler sur mon doctorat sous la direction de l'éminent professeur Michel Maffesoli.


Je comprends l'étonnement de Braunstein face au « wokisme ». Il y a beaucoup d'exagérations et de non-sens. Mais je me concentrerai uniquement sur la question transgenre. En 1999, lorsque l'éditeur Summus (label GLS) a publié mon livre Nicola, un roman transgenre, le terme « transgenre » n'existait pas encore en portugais brésilien. L'éditrice de l'époque, Laura Bacellar, a dû écrire une note explicative sur l'identité transgenre.

En effet, comme le remarque le professeur Braunstein, il n'y a aucune preuve dans le corps d'une personne transgenre qu'elle ait un genre différent. L'autre jour, j'ai regardé un « reel » du YouTubeur et chanteur transgenre Leo Áquila, qui disait exactement cela : « Ce n'est pas dans mon corps ; c'est dans ma tête. » Mais, contrairement à ce que dit le professeur, ce n'est pas un monde imaginaire, mais un rejet de son propre corps. La femme trans est dans un corps masculin, mais elle le rejette. Elle ne peut pas vivre avec le pénis, l'absence de seins proéminents et d'autres traits masculins visibles comme les poils du visage. Elle a besoin de renaître, alors elle entreprend un parcours qui comprend des visites chez des médecins, la prise d'hormones, des implants de silicone, l'épilation au laser et, surtout, le changement d'identité en remplaçant son nom masculin par un nom féminin. L'homme trans suit le même processus, inversé bien sûr (prise d'hormones pour faire pousser une barbe, ablation des seins, entre autres actions).


Le professeur Braunstein voit les personnes transgenres comme des êtres qui mettent en danger les enfants et les pré-adolescents. La femme trans est quelqu'un à craindre en lui permettant d'utiliser les toilettes pour femmes, car elle pourrait violer les « vraies » femmes.

Il est vraiment difficile de comprendre ce que signifie être transgenre. Ce n'est pas dans le corps. Le corps signale la présence d'un pénis et, par conséquent, d'un scrotum, d'une prostate... Mais la conscience à l'intérieur de ce corps ne l'accepte pas. Je ne parlerai pas de l'âme, car c'est un concept religieux sans aucune preuve factuelle, mais c'est comme si quelqu'un à l'intérieur de la personne était confronté au mauvais corps. C'est une souffrance quotidienne, continue, chronique. Elle ne s'accepte pas et vit immergée dans la douleur de la non-acceptation.


Il y a eu de nombreux cas de personnes transgenres qui se sont suicidées à cause de ce dilemme : être obligées d'être quelqu'un qu'elles ne sont pas. Un jour, en interviewant le mannequin Roberta Close (« la plus belle femme du Brésil est un homme » - Notícias Populares), après qu'elle ait subi une opération de réassignation sexuelle, elle m'a dit que lorsqu'elle se regardait dans le miroir, elle ressentait un malaise insupportable. Elle avait des seins, des cheveux longs, des courbes dans son corps, était entièrement épilée, mais avait encore un pénis. Et la présence de l'organe masculin lui était envahissante. « Je me regardais dans le miroir et je ne pouvais pas accepter qu'il soit encore là en moi. » Elle a retiré l'organe masculin, s'est mariée et vit maintenant en Suisse.


Ce que disent tous les théoriciens du genre, en essence, c'est que le phénomène transgenre se produit lorsque l'identité consciente d'une personne ne correspond pas à ses organes génitaux. Dans le passé, il n'y avait rien à faire. Aujourd'hui, les opérations de réassignation sexuelle, les thérapies, les traitements et même la possibilité de changer les registres civils rendent la vie des personnes transgenres moins angoissante. C'est quelque chose qui devrait être compris et avec lequel on devrait faire preuve d'empathie.


Malheureusement, le professeur Braunstein ne comprend pas à quel point les personnes transgenres souffrent précisément parce qu'elles sont transgenres. Il ne s'agit pas de « changer de sexe et de genre à volonté », mais de minimiser la souffrance, d'être compatissant et humain en acceptant les autres qui sont différents.





 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

A vegetariana

 

A autora Han Kang, sul-coreana, ganhou o Prêmio Nobel de 2024


Nada parece trazer tanto mal-estar às pessoas do que você dizer que é vegetariano. Durante 10 anos, dos 20 aos 30, fui vegetariano. Na época, seria igual dizer que você era búlgaro. Campos Carvalho até escreveu um livro, nos anos 1960, "O púcaro búlgaro", onde narra uma expedição à Europa para provar que os búlgaros realmente existiam. Durante viagens de trabalho, motorista e repórter fotográfico não se conformavam. A gente ia em churrascaria e, enquanto eles enchiam a cara de carne, eu ficava só na salada. Eles balançavam a cabeça. Não conseguiam entender. Todo almoço ou jantar era sempre o mesmo enredo: "Por que você não come carne?", "É por causa dos bichinhos?", "Você tem pena das vaquinha e dos porquinhos?", "Mas você também mata alface e cenoura para comer, não é?". Em casa, minha mãe, formada na culinária italiana, depois de levar um choque equivalente a 10 mil volts, teve de criar cardápios vegetarianos, com muito sucesso por sinal (pratos que ainda hoje reproduzo). Mesmo assim, os familiares achavam um acinte, uma provocação sem limites. Fui morar na Europa e, um ano depois, em 1982, quando estava na França, voltei a comer carne, porque, diante de dificuldades imensas de sobrevivência, o vegetarianismo pesou como um item dispensável na mochila. Havia também uma questão transcendente-alimentar no retorno ao Brasil: a memória afetiva.

O livro da sul-coreana Han Kang, "A vegetariana" (Editora Todavia), me trouxe lembranças dessa época. Em determinado momento do livro, os próprios familiares cercam a vegetariana. Agarram seus braços. Abrem sua boca à força e lhe enfiam nacos de carne. Nunca me obrigaram comer carne à força, mas passei por momentos constrangedores com gente tentando - na base da brincadeira agressiva - me enfiar, goela abaixo, pedaços de carne.

"A vegetariana" não é sobre parar de comer carne, nem traz receitas à base de legumes e hortaliças. É sobre uma jovem, Yeonghye, e seu processo de destruição mental. Vítima de maus-tratos pelo pai, casa-se com um homem que a escolhe por ela ser medíocre, por ser alguém que passaria despercebida, uma figurante na vida. Depois de casada com um funcionário carreirista, Yeonghye passa a ter pesadelos, com imagens de sangue e corpos dilacerados. Decide parar de comer carne, para não ter mais pesadelos. Deixa de usar sutiã, porque a peça lhe apertava o corpo. O marido não aceita os novos modismos da mulher e convoca a família de Yeonghye para uma "intervenção", que termina de forma desastrosa.

A história seguinte é narrada pelo cunhado que sente atração, quase incontrolável, por Yeonghye. Ele é um artista, de baixa expressão e pouca popularidade, que faz vídeos. Convida Yeonghye para uma gravação. Pinta flores no corpo da cunhada. Ela enxerga as pinturas corporais como um instrumento de libertação. Para conseguir satisfazer seu desejo e penetrá-la, o cunhado também se pinta. A autora descreve a relação deles como uma estranha conjunção, um hibridismo humano-vegetal.

O velho Freud, se questionado, diria que a personagem Yeonghye é id, uma pulsão, princípio de prazer e fonte de libido. Ela tira as roupas com naturalidade. Não se envergonha de ficar nua diante de estranhos. Mostra uma desinibição chocante, para os padrões de moralidade sul-coreana.

A terceira e última parte do livro é contada pela irmã mais velha. Inhye. A irmã mais velha teria - sempre segundo Freud - uma função de superego. Acaba com a brincadeira do marido com Yeonghye. Interna a irmã em uma clínica psiquiátrica e dá um pontapé no traseiro do marido traidor. Na função de superego, a irmã mais velha sufoca o instinto libertário. Reprime o princípio de prazer.

Massacrada pelo pai violento, veterano do Vietnã; esposa de um marido que lhe subjugava e a tratava como empregada e escrava sexual; Yeonghye vai perdendo a consciência, descendo patamares de lucidez. 

É um livro que a gente lê em um dia (dois, se você tiver preguiça). Excelente para esse período de fim de ano, em que a TV e as redes sociais nem sempre são companhias agradáveis.

Tradução para o inglês:

"The Vegetarian"

Nothing seems to make people more uncomfortable than you saying you're a vegetarian. For 10 years, from the age of 20 to 30, I was a vegetarian. At the time, it was like saying you were Bulgarian. Campos Carvalho even wrote a book in the 1960s, "O púcaro búlgaro" (The Bulgarian Jug), where he narrates an expedition to Europe to prove that Bulgarians really existed. 

During work trips, the driver and the photographer couldn't wrap their heads around it. We would go to a steakhouse, and while they stuffed themselves with meat, I would just eat salad. They would shake their heads. They couldn't understand it. Every lunch or dinner was always the same script: "Why don't you eat meat?", "Is it because of the little animals?", "Do you feel sorry for the cows and pigs?", "But you also kill lettuce and carrots to eat, don't you?" At home, my mother, trained in Italian cuisine, after receiving a shock equivalent to 10,000 volts, had to create vegetarian menus, very successfully I might add (dishes that I still make to this day). Even so, my relatives found it outrageous, a provocation without limits. I moved to Europe, and a year later, in 1982, while in France, I started eating meat again because, faced with immense survival difficulties, vegetarianism felt like a dispensable item in my backpack. There was also a transcendent, non-food-related reason for returning to Brazil: the memory of home.

The book by South Korean author Han Kang, "The Vegetarian" (published by Todavia), brought back memories of that time. At one point in the book, the vegetarian protagonist's own family surrounds her. They grab her arms. They force her mouth open and shove chunks of meat into it. I was never forced to eat meat, but I went through some awkward moments with people trying—under the guise of aggressive joking—to shove pieces of meat down my throat.


"The Vegetarian" is not about stopping eating meat, nor does it offer recipes based on vegetables and greens. It's about a young woman, Yeonghye, and her process of mental destruction. A victim of abuse by her father, she marries a man who chooses her because she is mediocre, someone who would go unnoticed, a background character in life. After marrying a career-driven man, Yeonghye begins to have nightmares filled with images of blood and mutilated bodies. She decides to stop eating meat to avoid these nightmares. She stops wearing a bra because it constricted her body. Her husband doesn't accept his wife's new ways and calls Yeonghye's family for an "intervention," which ends disastrously.


The next part of the story is narrated by Yeonghye's brother-in-law, who feels an almost uncontrollable attraction to her. He is an artist of little renown and popularity who makes videos. He invites Yeonghye to be in one of his recordings. He paints flowers on her body. She sees the body art as a tool for liberation. To satisfy his desire and penetrate her, the brother-in-law also paints himself. The author describes their relationship as a strange conjunction, a human-vegetal hybrid.


Old Freud, if asked, would say that Yeonghye is the id, a drive, the pleasure principle, and the source of libido. She takes off her clothes naturally. She isn't ashamed to be naked in front of strangers. She displays a shocking lack of inhibition by South Korean moral standards.


The third and final part of the book is told by the older sister, Inhye. The older sister would have—according to Freud—a superego function. She puts an end to her husband's games with Yeonghye. She commits her sister to a psychiatric clinic and kicks out her cheating husband. In her superego role, the older sister suppresses the libertarian instinct. She represses the pleasure principle.

Crushed by a violent father, a Vietnam War veteran; married to a husband who subjugated her and treated her like a servant and sexual slave; Yeonghye gradually loses consciousness, descending levels of lucidity.

It's a book you can read in one day (two if you're feeling lazy). Excellent for this end-of-year period when TV and social media aren't always pleasant company.                 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Vizinhos chatos

Nunca dei sorte com vizinho. Era criança. Morava em um prédio na rua Senador Feijó, centro (muito) velho de São Paulo. A rua era ocupada apenas por prédios de escritórios. Só havia uma exceção. Na rua Quintino Bocaiúva, em um prédio de três andares, quase em ruínas, funcionava aos sábados uma gafieira. Começava às 20h e varava a madrugada. Era impossível dormir. O som chegava "alto e claro", como diria um PM. 

Não estava só na minha agonia. O proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, morava ali perto e também não dormia. Na biografia, escrita por Fernando Moraes, está lá registrada a queixa. 

Vizinho, em geral, é chato. O melhor vizinho do mundo é aquele que morreu há três anos e você nem desconfia. Por isso, a personagem do livro Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, me deu uma inveja danada. A mulher mora em um cemitério. 

Na Mooca, os vizinhos chatos reproduzem-se aos milhares. Tinha o rapaz que organizava festas de fim de semana. O evento começava na sexta-feira e terminava na segunda. Som em volume enlouquecedor. Tinha o buffet, cujo modelo de negócio, visava incomodar a vizinhança, com karaokê. Não faltava a moça que fazia ovos de Páscoa, com a janela aberta, para conversar com qualquer figura que estivesse passando na rua. "Olha que bonito que ficou..." Na casa ao lado, registrou-se uma briga familiar, que demorou uns dois meses para ser concluída. Toda noite, a família se reunia e discutia. Em altos brados. Como discutiam, meu deus. O problema era uma gravidez não desejada. Até eles decidirem ter o bebê, a gente ficou algumas madrugadas de olhos bem arregalados. Sem esquecer aquele pessoal que conversava embaixo da janela da gente, às 3h da madrugada, como se estivesse na praça de alimentação do shopping.

Na Vila Clementino, na época da minha adolescência, o meu vizinho chato chamava-se Hélio Coração. Ele comprava um carro usado e fazia o possível para transformar o veículo em um amontoado de ferro-velho. Ele martelava, martelava, martelava. Não era Thor, mas adorava um martelo. Depois de destruir o carro e torná-lo sucata, o bom e velho Hélio Coração atacava a casa. Começava uma reforma, sem data e ano para ser concluída. Antes, era preciso passar o aspirador de pó em toda a casa. De madrugada. 

Em termos de vizinhos chatos, o pessoal da Granja Viana batia qualquer recorde. Como eles eram malas, cristo rei. Dois rapazes órfãos e maconheiros usavam a noite de sábado para criar uma filial do lolapalooza. A casa deles se metamorfoseava em boate. Cobravam ingressos. Queimavam fumo a dar com pau. A rua ficava lotada de carros. Era um Carnaval alucinado. Uma balbúrdia amaldiçoada. Na casa ao lado, a vizinha chata, que gostava de ostentar, chamava os amigos, ligava o som e era aquela zoada. Eu saía no quintal e via o pessoal, em uma espécie de puxadinho, todos suados, sem camisa, jogando bilhar. Sem outra opção, aumentei o muro em pelo menos mais três metros. Na casa em frente, outro vizinho chato ligava o som, todo domingo, religiosamente, por volta de 11h. Eram músicas tipo Antena 1. Ele almoçava fora - isto é, punha a mesa diante da casa. A gente saía na varanda e ficava vendo tudo que eles comiam. Era legal. Você acha que terminou? O que é isso... Um piauiense ocupou um terreno vazio (provavelmente, com a ajuda de alguém da prefeitura) e construiu piscina e edícula. Dava festas, que deixariam Neymar morrendo de inveja. O local era frequentado por moças de reputação ilibada. A polícia era chamada. Havia discussões acaloradas. Sucursal do inferno. Sem esquecer do maluquete que tocava bateria quatro casas abaixo. Sem esquecer das festas que aconteciam toda semana em alguma casa próxima ou distante (a gente, mesmo sem querer, participava).

No interior e na praia, não é diferente. Há sempre um funkeiro, um sertanejo, que o obriga a ouvir a música, que você não gostaria de ouvir. Esses equipamentos de som foram criados para invadir o seu espaço privativo. Você não tem mais direito de privacidade. A música indesejada vem até você e destrói sua capacidade cognitiva, seu raciocínio lógico, sua razão de existir. Pitágoras só fez o teorema de Pitágoras, porque não tinha um vizinho chato. Einstein, que dizia que os brasileiros eram macacos, só pensou a Teoria da Relatividade, porque não tinha um vizinho chato.      

Não é só o refrigerante que deva se tratado como cigarro. O aparelho de som também causa problemas graves de saúde. Parece brincadeira, mas a IA acaba de me dizer que som alto causa doenças cardíacas, distúrbios psíquicos, insônia, labirintite e - acrescento eu - ódio. Se você estiver sem fazer nada - nada mesmo - faça o seguinte: acesse o senhor de todos os saberes, o Google, e pergunte para ele: "Briga por som alto causa morte?". Os resultados serão assustadores. "Briga por som alto acaba em morte", "Mulher é morta por vizinho, após reclamar de som alto", "Homem é morto após reclamar com casal por causa de som alto"...

Os telejornais, quase que diariamente, reportam festas funk, os pancadões, realizadas na rua. Em 2019, na favela de Paraisópolis, nove pessoas morreram depois de a polícia entrar no local, em busca de ladrões de motocicleta. Houve correria. Os participantes da festa entraram em pânico. Muitos acabaram pisoteados e mortos. Os 13 policiais ainda estão sendo julgados, mas o que chama também a atenção é que ninguém fala do organizador da festa funk, do pancadão. Quem é essa pessoa que organiza uma festa na rua, sem a menor condição de sgurança? Faz uma arruaça imensa, provoca mortes e nunca é citado, quem é ele? Ou eles? Será que o setor de inteligência da polícia não consegue descobrir quem são esses organizadores de pancadões?

As ruas são interditadas. As pessoas não conseguem se locomover. Há consumo de drogas lícitas e ilícitas pela garotada. A bagunça começa na sexta-feira e vai até a manhã de segunda. Estranho é que já existe lei. A multa prevista é de até 200 mil reais, com direito à apreensão do equipamento de som. 

Bom mesmo é na Suíça. Para proteger a sanidade de seus habitantes, o governo suíço determinou restrições severas de redução de ruído. Aos domingos e feriados, não é permitido fazer barulho; de segunda a sábado, entre 22h e 6h, todo mundo tem de ficar bem quieto; alguns edifícios proíbem até os homens de urinar em pé (quer fazer xixi de madrugada? senta na privada). Também entram no rol de proibições noturnas: usar aspirador de pó, cortador de grama, secador de cabelo, bater a porta do carro, dar descarga. Na Suíça, Pitágoras teria condições de fazer o seu teorema em paz.

Aí você se muda para o interior. Compra um sítio, mais ou menos isolado. Fecha-se em seu escritório e...descobre que tem mais um vizinho chato. É um casal. Eles moram bem em cima da sua cabeça. Mais exatamente, no forro da casa. É um casal de cor esverdeada, que grita muito, se mexe sem parar, anda pra lá e pra cá, derruba coisas, corre e tudo isso para pôr um ovo. Será que a senhora, dona Maritaca, não consegue chocar esse maldito ovo, sem tanto rebuliço?

Durma-se com um barulho desse.  

  

         

    

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Trinta anos depois, uma série para nos lembrar de Senna

 

Série da Netflix sobre Senna  é a mais vista, em língua não inglesa

Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida de repórter. Estava na entrada do cemitério Parque Morumby, quando vejo aquele grupo de homens de terno preto carregando o caixão. Estão lá Emerson Fittipaldi, Gerhard Berger, Rubinho Barrichello e - inacreditável - até Alain Prost. O maior adversário de Ayrton Senna segurava uma das alças do caixão. Eram 11h30. Dia ensolarado. Lá fora, milhares de pessoas seguiam em procissão. Tinham acompanhado o carro do Corpo de Bombeiros, que trazia o corpo de Senna pelas ruas de São Paulo. As pessoas choravam. Abraçavam-se. Era uma comunhão da despedida. Um herói brasileiro estava morto. 

Passaram-se 30 anos. Mas aquela imagem dos pilotos, todos de terno escuro, semblante carregado, continua presente, como se eu tivesse retornado agora do cemitério e me sentado para escrever a reportagem. Foi emocionante. Fez muita gente chorar. E Belchior estava certo, quando fala do desaparecimento de ídolos: "Depois dele, não apareceu mais ninguém".

Os seres humanos são dominados pelas emoções, muito mais que pela racionalidade. Um anos antes, cobrindo a prova em Interlagos, estava ao lado de um repórter francês. Falei que iria torcer para Prost, por causa de um entrevero qualquer entre Senna e um colega da imprensa. O problema é que caiu um minidilúvio universal sobre a pista e acompanhei, bem na minha frente, Prost derrapar e arrebentar seu carro sobre o bólido de Christian Fittipaldi, estacionado na pista. Prost foi para a caixa de brita e a corrida acabou para ele. Interlagos comemorou o acidente de Prost como um gol do Brasil em final de Campeonato Mundial. Comecei a gritar também dentro do centro de imprensa, juntamente, com centenas de colegas, que torciam para Senna. O repórter francês olhou para mim e fez um gesto: "como é que é?". Expliquei para ele que o coração sempre fala mais alto. 

Aquela tarde foi uma loucura em Interlagos. Para vencer a prova, Senna deu uma espécie de drible com o carro em Damon Hill e assumiu a ponta. Ao final da prova, as pessoas invadiram a pista. Foram carregar Senna em triunfo, que havia vencido mais uma vez - e seria a última - em Interlagos. 

A série da Netflix consegue capturar esses momentos de idolatria. Percorre a trajetória de Senna, desde quando ele, ainda garoto, ganha um kart de presente do pai, um fabricante de autopeças. A série mostra o casamento de Senna, com uma namorada de adolescência. Informação que nem toda gente conhecia. Depois, vem o divórcio, porque a mulher não queria voltar para a Inglaterra, onde Senna iniciava carreira meteórica. 

Diálogos bem conhecidos, de quem acompanhou a trajetória do piloto, são reproduzidos na íntegra, como as célebres divergências que Senna teve com Prost. A produção também destaca a rivalidade crescente entre um brasileiro, recém-chegado à Europa, que mal sabia falar inglês, com pilotos de categorias pré-Fórmula 1.

O apresentador Emílio Surita não gostou da série da Netflix. Chamou o produto de "baixa qualidade". Emílio Surita, para quem não lembra, apresentava o pior programa da história da televisão mundial, o programa mais rasteiro, grosseiro e detestável já feito por câmeras televisivas.

A narrativa é bem conduzida. Tropeça apenas em atores mal escolhidos, como um garotinho que enviava mensagens a Senna e o piloto decide lhe visitar e presenteá-lo com um capacete. O menino ganha o presente e sua expressão não representa a alegria de um garoto de periferia, sendo homenageado pelo seu maior ídolo. Parece alguém meio inerte, sem qualquer expressão de júbilo.

Pâmela Tomé é uma Xuxa perfeita. Repete com exatidão a cena dos beijos no rosto de Senna, deixando-o marcado com batom vermelho. Julia Foti faz Adriane Galisteu, assim, de passagem, rapidamente.

Um dos momentos mais divertidos é a reprodução de uma passagem de Jean-Marie Balestre, o então poderoso presidente da Fia (Federação Internacional de Automobilismo), eterno e odioso rival de Senna, ao circular pela área dos boxes de Interlagos e ser vaiado pela multidão, que gritava "Balestre, ladrão; Senna é campeão".  

O forte da série são as cenas de velocidade, ultrapassagens, as disputas. A produção teve muito cuidado e o resultado foi gratificante. Senna já foi visto em 58 países, batendo 53 milhões de horas assistidas.        




sábado, 30 de novembro de 2024

Pendências brasileiras

 


O Brasil tem essa particularidade: demora para resolver seus

 problemas. Em geral, não resolve. Deixa para depois. Procrastina.

 Empurra com a barriga. Joga a sujeira para debaixo do tapete.


O Jogo do Bicho é uma contravenção. Bicheiros são milionários.

 Vivem luxuosamente e, nas horas vagas, patrocinam escolas de

 samba. A juíza Denise Frossard até que tentou acabar com essa

 malandragem. Em 1993, ela condenou 14 principais chefões do Jogo

 do Bicho. Depois, veio o silêncio. O Jogo do Bicho continua em

 plena atividade. A gente pode jogar até pela internet. É normal um país coabitar com esse tipo de  escroqueria? No Brasil, é normal. A gente convive bem com a irregularidade, com a falta de educação, com a fartura dos privilegiados, com a incompetência do poder público, com a sujeira na rua, com o som alto. É normal.


No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem de Córrego do Feijão, no

 vale do Paraopeba (Minas Gerais), rompeu e matou 270 pessoas

 (inclusive duas grávidas e dois bebês), soterradas pela lama, rejeitos,

 pedras e restos das construções. Os rios foram poluídos por causa da

 lama tóxica. Até hoje, ninguém da empresa Vale foi preso.

No dia 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da empresa

 Samarco, no município de Mariana (MG), rompeu e matou 19

 pessoas. Ninguém foi preso.

Em 8 de janeiro de 2019, um incêndio no Ninho do Urubu, matou 10

 jogadores da base do Flamengo. Até hoje, ninguém foi punido.

Em relação aos políticos, a sociedade brasileira tem um caso

 exemplar: o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Condenado a

 oitos anos e dez meses de cadeia por corrupção passiva e lavagem

 de dinheiro, sua possível prisão paira no ar como uma borboleta

 colorida no plenário do STF (Supremo Tribunal Federal). Tudo ia na

 direção de botar Collor em um camburão, mas – e sempre tem um

 “mas”, como dizia Plínio Marcos – o honorável ministro André

 Mendonça pediu para o julgamento sair do plenário virtual e seguir

 seu curso interminável no plenário físico. Em outras palavras, vai

 tudo começar do zero.

O STF, por sinal, na semana passada, decidiu manter símbolos 

religiosos em prédios públicos, o que é um retrocesso impensável em 

um país que separou seu governo da igreja. Foi no dia 7 de janeiro

 de 1890 que o Brasil oficialmente separou-se da igreja, graças a um 

decreto de Rui Barbosa. A partir desse dia, registros de casamento, 

nascimento e óbitos passaram a ser de responsabilidade do estado. E 

agora, 134 anos depois, o STF mantém símbolos religiosos em

 prédios públicos. É o famoso não ata e nem desata. O governo está

 separado da igreja, desde 1890, mas nem tanto assim.


Quem circula por São Paulo de carro ou a pé convive com um

 inimigo quase invisível. Esse inimigo é um centauro. Ele circula em

 velocidade incalculável, por ser imperceptível aos radares. Os

 centauros de São Paulo (imitados em outras cidades) têm seu próprio

 código de trânsito. Esse código chama-se desobediência civil. Os

 centauros podem tudo: subir nas calçadas, passar nos sinais

 vermelhos, andar na contramão, não sinalizar mudanças de faixa,

 buzinar de forma repetida e colérica... Todos os dias morrem um,

 dois ou três centauros em São Paulo. Todos os dias um, dois ou mais

 centauros vão parar no hospital com fraturas e contusões

 gravíssimas. O primeiro semestre de 2024 fechou com 521 óbitos.

 Nenhuma medida viária até agora conseguiu reduzir o número de

 mortos e feridos. Nada se faz e vamos deixar os centauros se

 extinguirem por conta própria.

O aborto é liberado no Brasil, para quem tem dinheiro e pode pagar

 uma clínica exclusiva. Quem não tem dinheiro vai atrás de algum ou

 alguma curiosa que fará bobagem e a paciente terminará sua jornada

 no SUS, quem sabe viva, talvez morta. O aborto é proibido no Brasil,

 porque a religião e os religiosos não permitem. Mas, quem tem

 dinheiro, aborta.

O Brasil tem 12 mil favelas, onde vivem 16 milhões de pessoas.

 Somente em Paraisópolis, em São Paulo, vivem quase 60 mil

 pessoas. Dez por cento da população de Dublin (Irlanda). 

Em São Paulo há 590 mil imóveis abandonados. Repetindo: 590 mil

 imóveis abandonados, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de

 Geografia e Estatística). Isso – sempre de acordo com o IBGE –

 permitiria que toda a população de rua de São Paulo multiplicada

 por 20 encontraria abrigo nesses imóveis, que ninguém usa e –

 parece – que ninguém quer.


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Palmares e morros do Rio têm semelhanças

 

Celebração no Recife (PE) em homenagem a Zumbi

A Guerra de Palmares e a morte do líder negro Zumbi pelo bandeirante paulista André Furtado de Mendonça, capitão e sargento-mor do mestre de campo Domingos Jorge Velho, tem causado uma cisão ideológica nesse pessoal que se alfabetizou com a cartilha “Caminho Suave”.

Esses senhores, que usavam calças curtas e anacrônicos suspensórios, nos anos 1960, aprenderam que os bandeirantes eram heróis e que eles foram essenciais para ocupar o território e compor as fronteiras do Brasil, como país que é hoje. Sem os bandeirantes paulistas, o Brasil talvez fosse uma grande Guiana, sem desprezar em absoluto a Guiana (nem a Guiana Francesa e nem o Suriname).

Recentemente, todo Dia da Consciência Negra (20 de novembro), fala-se em Zumbi. Exalta-se o líder negro e sua luta contra a escravidão. Já os bandeirantes são taxados de racistas, criminosos, bárbaros assassinos de índios e negros. Um manifestante mais exaltado fez uma “vaquinha”. Comprou pneus velhos, gasolina e ateou fogo em Borba Gato, aquele monumento assustador de 13 metros de altura, tendo na “alma” trilhos e pedras, e o corpo sujo pelo ar poluído do trânsito convulso da avenida Santo Amaro, em São Paulo.

Zumbi foi realmente um herói? Era um idealista que sonhava com um mundo de paz, igualdade e desenvolvimento?

O jornalista Leandro Narloch, especialista em produzir livros que conspurcam heróis e mitos da esquerda, afirma que Zumbi era um escravocrata. Ou seja, contraditoriamente, o líder de Palmares também tinha escravos, igual aos fazendeiros portugueses. Para chegar a esta conclusão, Narloch argumentou que Zumbi sequestrava negros em fazendas para escravizá-los e, por ser de uma família originária de uma região da África, onde a escravidão era recorrente, então Zumbi seria um escravocrata.

Esta versão ganhou o apoio inesperado do então presidente da Fundação Palmares Sergio Camargo, durante o governo Jair Bolsonaro (2018-2022). Camargo declarou, na época, que Zumbi era um filho da p...  que tinha escravos. Camargo é preto.

O problema de Zumbi e Palmares é que são escassos os registros sobre esse quilombo. O proprietário de terras Manuel de Inojosa escreveu, em 1677, uma carta relatando sobre o cotidiano de Palmares. Ele enviou um negro, como “espião” a Palmares, e ficou sabendo que haveria um regime de poliandria, em que vários homens viviam ao redor de uma única mulher. Tudo que se produzia ali era dividido e repartido entre todas as famílias. Uma sociedade pré-comunista.

O padre Antonio Melo teria socorrido um garotinho negro órfão. Cuidado dele. Ensinado as primeiras letras (inclusive latim) e, quando chegou à adolescência, esse garoto fugiu para se refugiar em Palmares. Anos mais tarde, o padre se avistaria com o líder do quilombo, Zumbi, reconhecendo-o como o garotinho órfão que tinha abrigado. Outros historiadores afirmam que Zumbi nasceu em Palmares (talvez em 1655) e assumiu o comando do quilombo, depois da morte de seu tio Ganga Zumba, morto por envenenamento.

O jornalista e historiador Décio Bergamaschi Freitas (1922-2004), militante comunista, pesquisou a história de Palmares. Exilado e cassado pela Ditadura Militar, Freitas foi a Portugal e consultou o Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo da Torre do Tombo, Biblioteca da Ajuda e Arquivo e Biblioteca Distrital de Évora. É dele a informação de que Zumbi teria sido criado pelo padre Antonio Melo.

(ver entrevista concedida por Décio Freitas à Folha Online: https://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/zumbi_17.htm). Freitas é autor do livro "Palmares, a guerra dos escravos".

O quilombo de Palmares não possuía cartório, nem escrivães. Não tinha serviço postal, nem seus moradores enviavam cartas a amigos e familiares. Se havia algum texto escrito em Palmares, foi destruído com o fim do quilombo. Então, não se sabe se Zumbi tinha escravos. Bater o martelo e afirmar que ele era escravocrata é apenas chute, palpite, uma impropriedade intelectual. O autor não deve ser levado a sério, porque não se baseia em documentos históricos fidedignos.

O quilombo de Palmares existiu por décadas. Textos oficiais informam que os primeiros quilombos teriam surgido ainda em 1594. Menos de cem anos da chegada dos portugueses.

Durante o governo de Ganga Zumba (1630-1678), tinham havido expedições para atacar Palmares. A ação mais contundente aconteceu em 1678, comandada por Fernão Carrilho. Ganga Zumba e Carrilho fazem um acordo de paz, sacramentado pelo então governador de Pernambuco (1674-1678) Pedro de Almeida.

Ganga Zumba deixa Palmares, conforme o acordo, e segue para viver na região de Cucaú (onde hoje ainda existem usinas de açúcar). O sobrinho dele, Zumbi, não aceita sair de Palmares. Um emissário de Zumbi vai até Cucaú e mata Gaga Zumba por envenenamento. O fato de Ganga Zumba ter aceito sair de Palmares foi entendido pelo grupo liderado por Zumbi como traição.

Fernão Carrilho aproveita o acordo de paz para pedir uma série de benefícios à coroa portuguesa, inclusive dinheiro. Ele e muitos de seus comandados são atendidos e presenteados. Achava-se, então, que Palmares não mais existia.

Não era bem assim. Palmares continuava vivo e recebendo sempre novos moradores. Negros fugiam da vida insuportável e degradante nos engenhos e iam buscar asilo em Palmares. 

O bibliotecário Ernesto Ennes, funcionário do Arquivo Histórico Colonial de Portugal, fez uma pesquisa reveladora e prestou um serviço elogiável àqueles que pretendem entender um pouco sobre Palmares. Em 1938, ele publicou "As guerras nos Palmares", pela Companhia Editora Nacional. Em 140 páginas, Ennes faz um breve resumo das campanhas, movidas pelos portugueses, contra Palmares. As demais 370 páginas são documentos da época, entre eles a carta de 15 de julho de 1694, escrita de próprio punho pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, narrando a epopeia da luta contra Zumbi.

Jorge Velho sai de São Paulo com "mil homens de arcos, 200 de espingarda e 84 brancos". Ou seja, a maior parte do regimento era composto por indígenas. No percurso até Recife, "600 léguas" (o equivalente a 2.600 km) morreram 132 pessoas (63 de doenças) e 200 fugiram.

Antes de chegar a Palmares, o mestre de campo é obrigado a "retrogradar" (retroceder), por causa de uma ordem recebida do governador geral (1687-1688) Matias da Cunha. 

Em 1688, Jorge Velho vai ao Rio Grande (atual estado do Piauí) e combate "um número quase infinito de tapuias bravos", "rebeldes comedores de carne humana". O inimigo seria "em número de 10 mil". Jorge Velho perde 43 homens e "60 a 70" ficam feridos. Liberta o capitão-mor Constantino de Oliveira, cercado pelos tapuias. O mestre de campo aprisiona 800 indígenas, "gentio de todo sexo e idade", que foram rapidamente "batizados". 

Do Piauí, Jorge Velho segue com sua tropa para Palmares. Faz uma primeira investida, mas encontra resistência feroz. Os palmarinos estão bem armados. Defendem-se por trás de fortificação feita com paus espetados, buracos profundos, espinhos, guaritas. Em documento escrito pelo governador de Pernambuco (1693-1699) Caetano de Melo Castro ao Conselho Ultramarino, essas fortificações teriam sido obra de um imigrante mouro, que deixou a cerca "quase inexpugnável". 

Os atacantes eram rechaçados com armas de fogo, pedras, água fervente e flechas. O mestre de campo não consegue penetrar no quilombo. Sem munição suficiente (pólvora), bate em retirada. Segue para o Riacho Paratagi (hoje, é um resort em Alagoas), onde aguarda reforços por longos e "enfadonhos 10 meses". 

Depois de quase um ano à espera do reforço solicitado, finalmente, recebe armamento e segue novamente em direção a Palmares. Seu "terço" (pelotão) tem agora 600 indígenas e 45 brancos. O mestre de campo reclama que veio só "munição de guerra e nenhuma de boca" (não tinham vindo alimentos).    

Para destruir Palmares, Jorge Velho faz trincheiras paralelas às trincheiras dos palmarinos. A "cerca", como eles chamam a fortificação, tem 5 km de extensão, ao redor da Serra da Barriga (atualmente, esse local fica no estado de Alagoas). Ao cercar Palmares, Jorge Velho impede uma possível fuga em massa. 

Do dia 5 de fevereiro para o dia 6 de 1694, as tropas do bandeirante rompem as trincheiras e avançam sobre Palmares. Os sentinelas palmarinos são surpreendidos pelo ataque. Zumbi leva "duas pelouradas" (balas de pedra), mas consegue fugir. Os atacantes fazem 519 presos. Duzentas pessoas tentam escapar, mas caem em um precipício e morrem.  "Outros tantos" são executados. 

Em novembro do ano seguinte, o capitão e sargento-mor da tropa de Jorge Velho, André Furtado de Mendonça, recebe a informação de que moradores de Rio de São Francisco haviam aprisionado "um mulato" que saberia o paradeiro de Zumbi. 

No dia 20 de novembro de 1695, Mendonça desloca-se até o local. Mantém o informante vivo, em troca dele conduzir a tropa até onde se encontrava Zumbi. Ele concorda e os leva até um "sumidouro", onde os fugitivos de Palmares se ocultavam. 

Zumbi está acompanhado por apenas 20 homens. Todos são mortos. Zumbi é degolado e sua cabeça é levada por André Furtado de Mendonça até Recife, onde é colocada, a mando do governador Caetano de Melo de Castro, "em um pau, no lugar mais público desta praça, a satisfazer os ofendidos e justamente queixosos, e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam este (Zumbi) imortal; pelo que se entende que nesta empresa se acabou de todo com os Palmares".

A praça, no caso, é o Pátio do Carmo, em Recife. Hoje, no mesmo local, existe uma estátua, representando a cabeça do líder de Palmares, espetada por uma lança.

Na carta de 15 de julho de 1694, quando Palmares já havia sido derrotado, Domingos Jorge Velho lembra ao rei Pedro II, "o pacífico", que saiu de casa, deixando suas criações e familiares, para enfrentar "o gentio bravo e comedor de carne humana". 

Eram 16 anos de muito trabalho e luta, que tinham sido relegados "para servir sua majestade na guerra, (...) em razão de sermos leais vassalos a não faltar ao serviço de nosso rei". O bandeirante reclama que "nenhum lucro me ficou dessa guerra". 

Para chegar até o local do conflito, o regimento de Jorge Velho enfrentou a marcha "mais trabalhosa, faminta, sequiosa e desamparada, que até hoje houve no dito sertão, nem quiçá haverá, salvo se for pelos mesmos passos, e em semelhante tempo; na qual de fome, sede, e misérias morreram 132 pessoas".

Sobre a captura de indígenas, Jorge Velho tem uma concepção redentora. Personagem do século 17, o bandeirante acredita estar fazendo um trabalho de reintegração do indígena à sociedade portuguesa:

"Ao servimo-nos deles para as nossas lavouras; nenhuma injustiça lhes fazemos; pois tanto os sustentamos a eles e a seus filhos, como a nós e aos nossos: e isto bem longe de os cativar, antes se lhes faz irremunerável serviço em lhes ensinar a saber cultivar, plantar, colher e trabalhar para seu sustento, coisa que antes de os brancos lhes ensinarem, eles não sabiam fazer".

Para o bispo de Pernambuco dom frei Francisco de Lima, Domingos Jorge Velho era "um dos maiores selvagens com que tenho topado", "nem se diferencia do mais bárbaro tapuia". O bispo não se conformava que Jorge Velho se considerava cristão, sendo casado e tendo "sete índias concubinas". Jorge Velho, de acordo com o religioso, "andava metido pelos matos à caça de índios e índias, estas para o exercício das suas torpezas e aqueles para os granjeios dos seus interesses".

A maior parte das cartas escritas por Jorge Velho aos governantes, constantes no livro de Ernesto Ennes, visava o cumprimento das promessas anteriores à campanha militar. O bandeirante exigia o acerto dos acordos. Assim, o mestre de campo ganhou uma sesmaria (terra inculta concedida pelo governo português aos povoadores) e se transformou em fazendeiro, criador de gado. Também foram premiados  integrantes do regimento. O sargento-mor André Furtado de Mendonça, o executor de Zumbi, ganhou uma ajuda de custo de 50 mil réis (equivalente a 1.500 reais).

Finalmente, vale a pergunta: por que Palmares precisou ser destruído? A resposta é simples. A princípio, Palmares tinha uma relação de simbiose com fazendeiros vizinhos. Trocavam produtos agrícolas, bens e faziam negócios. 

Com o tempo, Palmares passou a receber um número grande de negros fugitivos. Muitos desses novos integrantes do quilombo passaram a assaltar e roubar os fazendeiros vizinhos. Casas eram saqueadas e moradores assassinados. "Levavam os escravos - a uns por vontade e a outros, por força; matavam feitores e muitos senhores e senhoras, executando todo gênero de hostilidade. Sempre cruelmente", escreve o mestre de campo.

Então, para os governadores de Pernambuco, que se sucediam no poder, Palmares era um estado à parte. Um território inimigo, que precisava ser aniquilado.

O cenário de Palmares é atual e lembra o Rio de Janeiro. Existe um morro, ocupado por pessoas que vivem à margem da sociedade. Eles têm seu próprio governo e para assegurar o domínio do território usam armas. Quem se atrever a subir o morro e afrontá-los vai levar bala. Hoje, não se chamam Zumbi. Têm outros nomes: Peixão, Varão, Abelha, Naval...

Passaram-se 329 anos, desde a morte de Zumbi; e 136 anos, desde a assinatura da Lei Áurea. O Brasil tem ainda 8 milhões de pessoas vivendo na miséria. São quatro por cento da população exatamente iguais aos negros que fugiam e buscavam refúgio em Palmares. Sem eira nem beira, para usar um termo português por excelência.

Os fazendeiros brasileiros (a elite) mantiveram a escravidão até o limite, até onde foi possível (pelo menos o Brasil se saiu melhor que a Mauritânia que aboliu a escravidão em 1981). Em represália à assinatura da Lei Áurea, a elite apoiou, um ano depois, em 1889, o golpe militar que pôs fim ao império.

Terminado o período escravista, a mesma elite buscou novas "máquinas braçais" no exterior, atraindo imigrantes, principalmente, italianos, espanhóis, alemães e japoneses. Nas fazendas, os imigrantes trabalhavam muito e ganhavam miseravelmente. A exploração do trabalhador mantinha-se intacta. 

Mais ou menos parecido com o que ocorreu ao longo de todo o século 20 e início do 21, mesmo com o advento da industrialização nos anos 1960, chegando hoje à constatação de que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Um por cento de seus habitantes detém 28 por cento da renda total. A desigualdade aumenta a pobreza, a fome e impede a mobilidade social. 

O governo Lula tem mais dois anos pela frente. Apenas 730 dias. Está na hora de começar a tirar os coelhos da cartola.      



























































































 

 




 

    

 

  

 


domingo, 17 de novembro de 2024

O inimigo americano


Elon Musk naturalizou-se americano em 2002


Um programa de debates, exibido hoje pela RAI, dedicou-se a discutir Elon Musk. Vários jornalistas, de importantes veículos de comunicação italianos, discorreram uma boa meia hora sobre o bilionário sul-africano-canadense-naturalizado americano. 

Ontem, foi a vez da primeira-dama Rosangela Lula da Silva, a Janja, mandar Elon Musk se f... Pegou mal, porque ela é a primeira-dama e, enfim, espera-se um comportamento mais comedido e menos passional de uma figura proeminente como ela. É claro que muita gente também gostaria de ter um microfone na mão e holofotes para mandar Elon Musk para aquele lugar.

Bochechudo com zigomas sobressaltados e testa larga, Musk seria taxado por César Lombroso, em sua obra O homem delinquente, como "homicida e arrombador". É claro que Lombroso, italiano, natural de Verona, saiu de moda e suas teorias caíram em descrédito, mas, si non è vero...

Musk ganhou os holofotes no Brasil ao se indispor com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. O imbróglio começou em outubro de 2022, quando o ministro mandou Musk indicar um representante do X (antigo Twitter) no Brasil. Musk não deu bola para o ministro, provavelmente, porque aqui é um fim de mundo, uma república bananeira e, como ele é bilionário, não precisa dar satisfação a ministro de país de terceiro mundo. Moraes não deu moleza para o filhinho de papai. Tascou uma multa de 28 milhões e 600 mil reais e suspendeu o X em todo o Brasil. Depois de um mês de bloqueio, Musk voltou atrás. Indicou um representante comercial no País e pagou a multa. Vitória de Moraes. Um a zero para a arraia-miúda. 

Depois que a primeira-dama mandou o bilionário se f..., ele respondeu em sua rede ameaçando: "Não vão ser eleitos". Ou seja, para bom entendedor, Musk vai usar toda sua força nas mídias sociais para impedir a reeleição de Lula em 2026. Só para constar: o certo, Musk, não é "ser eleitos". A forma correta é "reeleitos" (re-elected).

Semana passada, o The Guardian, influente jornal britânico, decidiu "divorciar-se" de Musk. Saiu do X. Deixou 27 milhões de seguidores. Segundo editorial do The Guardian, o X  é uma "plataforma tóxica", que promove "teorias conspiratórias, racistas e de extrema direita".

Quem também "divorciou-se" de Musk foi a filha dele. Vivian Jenna Wilson é uma mulher trans, filha da primeira mulher de Musk, Justine Wilson. Quando era homem, chamava-se Xavier. Vivian fez tratamentos hormonais e cirurgia de transição de gênero. O pai não a aceita, esteve sempre ausente e chegou até a mentir, dizendo que ela era "autista". Quando manifesta-se publicamente, Vivian utiliza a plataforma Threads, da Meta de Mark Zuckerberg, concorrente do X. Após ser confirmada a vitória de Donald Trump, Vivian disse que sairia dos Estados Unidos, talvez, porque o ar vai ficar irrespirável ao norte do Equador.

A arrogância e a prepotência de Elon Musk ao tratar com um ministro da alta corte brasileira, ignorando decisões legais, fazendo pouco caso das instituições, prova que a primeira-dama Janja está correta. Não em mandar Musk se f..., mas em defender a regulamentação das redes sociais.

As mídias sociais oferecem um serviço no Brasil. Cobram por isso e por que cargas d'água não querem se submeter à legislação brasileira?

A melhor explicação, para essa soberba de Musk & Cia., é dada pelo cientista Miguel Ângelo Laporta Nicolelis Em entrevista a Luis Nassif, no jornal GGN, Nicolelis afirma que as "overlords" estão pouco se lixando para as fronteiras nacionais, para os países e suas regulamentações. Segundo Nicolelis, as "overlords" são formadas por três gigantes: as big techs (empresas de tecnologia), as big oils (as petrolíferas que retardam ao máximo o uso de combustível fóssil que destrói o planeta) e o big money (os tiranossauros insaciáveis da especulação e das megafortunas).

O CCOD ( Centro de Combate ao Ódio Digital) americano identificou 87 postagens falsas sobre a candidatura de Kamala Harris à presidência dos Estados Unidos. Entre elas, uma das postagens dizia que os democratas estariam "importando imigrantes" para votar a favor de Kamala. Para o CCOD, o X é uma "máquina de desinformação perpétua".

Então, se prepare: até outubro de 2026 virá chumbo grosso sobre o Brasil. Aliás, já está vindo. Diariamente, postagens dizem que o País está afundando, que as coisas estão indo de mal a pior, que o Brasil é um Titanic, fazendo água, enquanto os números da macroeconomia dizem exatamente o contrário.    

  


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A esquerda lambe as feridas

 

Esta imagem é do programa Opera Mundi, que analisou hoje a grande derrota

As eleições municipais terminaram. A esquerda levou uma surra. O principal culpado é o presidente Lula. O País continua patinando. O real perde valor a cada dia. O dólar sobe, o euro sobe e o real descamba. Quem faz compra no mercado diariamente percebe que os produtos sobem também diariamente. Nunca é o mesmo preço. Sempre sobe um pouco. Os números dos economistas sobre a inflação não me interessam. Meu economista da inflação é o mercado. Não o “mercado” dos lobistas e investidores. O mercado da esquina. E os preços nunca param de subir. Os empresários começaram a maquiar os produtos. A embalagem é a mesma, o preço é o mesmo, mas o alimento lá dentro encolheu. A BBC fez reportagem e chamou de “reduflação”. Cadê a chuva de picanha, presidente Lula?

Além da alta do custo de vida, o Brasil está em guerra contra o crime organizado. A criminalidade infiltrou-se no tecido social. O “Estadão” publicou, há quatro dias, reportagem sobre a eleição de 12 candidatos, ligados ao crime organizado.

Assistir a um telejornal brasileiro é um exercício de masoquismo. Todo dia, ficamos sabendo que um território do Rio de Janeiro foi ocupado pelo crime. Sobra bala pra tudo quanto é lado. Semana passada, três trabalhadores morreram baleados em plena avenida Brasil.

Acompanhe o vai e vem do bastidor da criminalidade no Rio: traficante ganha peso e importância local; expande seus “negócios” em outra favela; provoca reação; há disputa pelo espaço; milicianos entram na disputa; grupos rivais trocam tiros; a polícia intervém. Nessa guerrilha particular pelo espaço de venda de droga e dominação, moradores locais, policiais e bandidos são baleados, feridos e mortos.
Tentou-se de tudo até agora e o problema não foi resolvido. As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), criadas em 2008, deram certo no início, mas hoje servem de tiro ao alvo para o crime.

O que fazer para dar mais segurança à população?

Deve-se investir em inteligência, em câmeras de vigilância, em novos e melhores efetivos etc. E parar de enxugar gelo. O Ministério da Justiça e, por tabela, o presidente Lula, precisam tirar um coelho da cartola. Tentar algo diferente. O fato é que as pessoas querem se drogar. Elas irão buscar a droga e pagar caro por isso. Então, por que não iniciar a legalização? O que não é admissível é enriquecer traficante. Enchê-lo de dinheiro, o suficiente para comprar fuzis de longo alcance, metralhadoras, bazucas e o diabo a quatro. 

Um certo “Peixão”, apontado pela polícia como o autor dos disparos aleatórios que mataram três trabalhadores na avenida Brasil, não é o único aloprado à solta. Há milhares deles. Todo dia, morre um e outro assume a sua cadeira. Enquanto vivem, constroem resorts, com direito à praia artificial. Compram armamento que daria inveja ao Hamas. E o governo federal continua em um estado de torpor que é irritante. A gente nem lembra mais quem é o ministro da Justiça. É um silêncio que incomoda.

Fala-se em taxar os bilionários, os herdeiros, o muito ricos. Nada sai do papel. Os aposentados veem seu poder aquisitivo perder força, cada vez que se dá uma volta no quarteirão.

Passear por São Paulo hoje é um exercício de negligenciar a empatia. Caminhando pelos baixos do minhocão, ali na Amaral Gurgel, encontra-se uma cidade de moradores de barracas. A miséria é devastadora. Na beira dos rios e córregos, as taperas aguardam a chegada das chuvas mais fortes deste verão para serem inundadas e os moradores, aflitos, dizendo para as câmeras de TV que perderam o pouco que tinham.

Não está na hora de acabar de vez com a miséria? Quantas gerações mais de brasileiros vão conviver com a miserabilidade?

Dois anos se passaram, desde a posse de Lula, e os problemas continuam os mesmos, nos mesmos lugares. Daqui a dois anos virão as eleições para governador e presidente. A esquerda precisa acordar. Outra derrota estrondosa avizinha-se.

Com a palavra, o presidente Lula.


 

 

   

 

 


A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...