quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

Vizinhos chatos

Nunca dei sorte com vizinho. Era criança. Morava em um prédio na rua Senador Feijó, centro (muito) velho de São Paulo. A rua era ocupada apenas por prédios de escritórios. Só havia uma exceção. Na rua Quintino Bocaiúva, em um prédio de três andares, quase em ruínas, funcionava aos sábados uma gafieira. Começava às 20h e varava a madrugada. Era impossível dormir. O som chegava "alto e claro", como diria um PM. 

Não estava só na minha agonia. O proprietário dos Diários Associados, Assis Chateaubriand, morava ali perto e também não dormia. Na biografia, escrita por Fernando Moraes, está lá registrada a queixa. 

Vizinho, em geral, é chato. O melhor vizinho do mundo é aquele que morreu há três anos e você nem desconfia. Por isso, a personagem do livro Água fresca para as flores, de Valérie Perrin, me deu uma inveja danada. A mulher mora em um cemitério. 

Na Mooca, os vizinhos chatos reproduzem-se aos milhares. Tinha o rapaz que organizava festas de fim de semana. O evento começava na sexta-feira e terminava na segunda. Som em volume enlouquecedor. Tinha o buffet, cujo modelo de negócio, visava incomodar a vizinhança, com karaokê. Não faltava a moça que fazia ovos de Páscoa, com a janela aberta, para conversar com qualquer figura que estivesse passando na rua. "Olha que bonito que ficou..." Na casa ao lado, registrou-se uma briga familiar, que demorou uns dois meses para ser concluída. Toda noite, a família se reunia e discutia. Em altos brados. Como discutiam, meu deus. O problema era uma gravidez não desejada. Até eles decidirem ter o bebê, a gente ficou algumas madrugadas de olhos bem arregalados. Sem esquecer aquele pessoal que conversava embaixo da janela da gente, às 3h da madrugada, como se estivesse na praça de alimentação do shopping.

Na Vila Clementino, na época da minha adolescência, o meu vizinho chato chamava-se Hélio Coração. Ele comprava um carro usado e fazia o possível para transformar o veículo em um amontoado de ferro-velho. Ele martelava, martelava, martelava. Não era Thor, mas adorava um martelo. Depois de destruir o carro e torná-lo sucata, o bom e velho Hélio Coração atacava a casa. Começava uma reforma, sem data e ano para ser concluída. Antes, era preciso passar o aspirador de pó em toda a casa. De madrugada. 

Em termos de vizinhos chatos, o pessoal da Granja Viana batia qualquer recorde. Como eles eram malas, cristo rei. Dois rapazes órfãos e maconheiros usavam a noite de sábado para criar uma filial do lolapalooza. A casa deles se metamorfoseava em boate. Cobravam ingressos. Queimavam fumo a dar com pau. A rua ficava lotada de carros. Era um Carnaval alucinado. Uma balbúrdia amaldiçoada. Na casa ao lado, a vizinha chata, que gostava de ostentar, chamava os amigos, ligava o som e era aquela zoada. Eu saía no quintal e via o pessoal, em uma espécie de puxadinho, todos suados, sem camisa, jogando bilhar. Sem outra opção, aumentei o muro em pelo menos mais três metros. Na casa em frente, outro vizinho chato ligava o som, todo domingo, religiosamente, por volta de 11h. Eram músicas tipo Antena 1. Ele almoçava fora - isto é, punha a mesa diante da casa. A gente saía na varanda e ficava vendo tudo que eles comiam. Era legal. Você acha que terminou? O que é isso... Um piauiense ocupou um terreno vazio (provavelmente, com a ajuda de alguém da prefeitura) e construiu piscina e edícula. Dava festas, que deixariam Neymar morrendo de inveja. O local era frequentado por moças de reputação ilibada. A polícia era chamada. Havia discussões acaloradas. Sucursal do inferno. Sem esquecer do maluquete que tocava bateria quatro casas abaixo. Sem esquecer das festas que aconteciam toda semana em alguma casa próxima ou distante (a gente, mesmo sem querer, participava).

No interior e na praia, não é diferente. Há sempre um funkeiro, um sertanejo, que o obriga a ouvir a música, que você não gostaria de ouvir. Esses equipamentos de som foram criados para invadir o seu espaço privativo. Você não tem mais direito de privacidade. A música indesejada vem até você e destrói sua capacidade cognitiva, seu raciocínio lógico, sua razão de existir. Pitágoras só fez o teorema de Pitágoras, porque não tinha um vizinho chato. Einstein, que dizia que os brasileiros eram macacos, só pensou a Teoria da Relatividade, porque não tinha um vizinho chato.      

Não é só o refrigerante que deva se tratado como cigarro. O aparelho de som também causa problemas graves de saúde. Parece brincadeira, mas a IA acaba de me dizer que som alto causa doenças cardíacas, distúrbios psíquicos, insônia, labirintite e - acrescento eu - ódio. Se você estiver sem fazer nada - nada mesmo - faça o seguinte: acesse o senhor de todos os saberes, o Google, e pergunte para ele: "Briga por som alto causa morte?". Os resultados serão assustadores. "Briga por som alto acaba em morte", "Mulher é morta por vizinho, após reclamar de som alto", "Homem é morto após reclamar com casal por causa de som alto"...

Os telejornais, quase que diariamente, reportam festas funk, os pancadões, realizadas na rua. Em 2019, na favela de Paraisópolis, nove pessoas morreram depois de a polícia entrar no local, em busca de ladrões de motocicleta. Houve correria. Os participantes da festa entraram em pânico. Muitos acabaram pisoteados e mortos. Os 13 policiais ainda estão sendo julgados, mas o que chama também a atenção é que ninguém fala do organizador da festa funk, do pancadão. Quem é essa pessoa que organiza uma festa na rua, sem a menor condição de sgurança? Faz uma arruaça imensa, provoca mortes e nunca é citado, quem é ele? Ou eles? Será que o setor de inteligência da polícia não consegue descobrir quem são esses organizadores de pancadões?

As ruas são interditadas. As pessoas não conseguem se locomover. Há consumo de drogas lícitas e ilícitas pela garotada. A bagunça começa na sexta-feira e vai até a manhã de segunda. Estranho é que já existe lei. A multa prevista é de até 200 mil reais, com direito à apreensão do equipamento de som. 

Bom mesmo é na Suíça. Para proteger a sanidade de seus habitantes, o governo suíço determinou restrições severas de redução de ruído. Aos domingos e feriados, não é permitido fazer barulho; de segunda a sábado, entre 22h e 6h, todo mundo tem de ficar bem quieto; alguns edifícios proíbem até os homens de urinar em pé (quer fazer xixi de madrugada? senta na privada). Também entram no rol de proibições noturnas: usar aspirador de pó, cortador de grama, secador de cabelo, bater a porta do carro, dar descarga. Na Suíça, Pitágoras teria condições de fazer o seu teorema em paz.

Aí você se muda para o interior. Compra um sítio, mais ou menos isolado. Fecha-se em seu escritório e...descobre que tem mais um vizinho chato. É um casal. Eles moram bem em cima da sua cabeça. Mais exatamente, no forro da casa. É um casal de cor esverdeada, que grita muito, se mexe sem parar, anda pra lá e pra cá, derruba coisas, corre e tudo isso para pôr um ovo. Será que a senhora, dona Maritaca, não consegue chocar esse maldito ovo, sem tanto rebuliço?

Durma-se com um barulho desse.  

  

         

    

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

Trinta anos depois, uma série para nos lembrar de Senna

 

Série da Netflix sobre Senna  é a mais vista, em língua não inglesa

Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida de repórter. Estava na entrada do cemitério Parque Morumby, quando vejo aquele grupo de homens de terno preto carregando o caixão. Estão lá Emerson Fittipaldi, Gerhard Berger, Rubinho Barrichello e - inacreditável - até Alain Prost. O maior adversário de Ayrton Senna segurava uma das alças do caixão. Eram 11h30. Dia ensolarado. Lá fora, milhares de pessoas seguiam em procissão. Tinham acompanhado o carro do Corpo de Bombeiros, que trazia o corpo de Senna pelas ruas de São Paulo. As pessoas choravam. Abraçavam-se. Era uma comunhão da despedida. Um herói brasileiro estava morto. 

Passaram-se 30 anos. Mas aquela imagem dos pilotos, todos de terno escuro, semblante carregado, continua presente, como se eu tivesse retornado agora do cemitério e me sentado para escrever a reportagem. Foi emocionante. Fez muita gente chorar. E Belchior estava certo, quando fala do desaparecimento de ídolos: "Depois dele, não apareceu mais ninguém".

Os seres humanos são dominados pelas emoções, muito mais que pela racionalidade. Um anos antes, cobrindo a prova em Interlagos, estava ao lado de um repórter francês. Falei que iria torcer para Prost, por causa de um entrevero qualquer entre Senna e um colega da imprensa. O problema é que caiu um minidilúvio universal sobre a pista e acompanhei, bem na minha frente, Prost derrapar e arrebentar seu carro sobre o bólido de Christian Fittipaldi, estacionado na pista. Prost foi para a caixa de brita e a corrida acabou para ele. Interlagos comemorou o acidente de Prost como um gol do Brasil em final de Campeonato Mundial. Comecei a gritar também dentro do centro de imprensa, juntamente, com centenas de colegas, que torciam para Senna. O repórter francês olhou para mim e fez um gesto: "como é que é?". Expliquei para ele que o coração sempre fala mais alto. 

Aquela tarde foi uma loucura em Interlagos. Para vencer a prova, Senna deu uma espécie de drible com o carro em Damon Hill e assumiu a ponta. Ao final da prova, as pessoas invadiram a pista. Foram carregar Senna em triunfo, que havia vencido mais uma vez - e seria a última - em Interlagos. 

A série da Netflix consegue capturar esses momentos de idolatria. Percorre a trajetória de Senna, desde quando ele, ainda garoto, ganha um kart de presente do pai, um fabricante de autopeças. A série mostra o casamento de Senna, com uma namorada de adolescência. Informação que nem toda gente conhecia. Depois, vem o divórcio, porque a mulher não queria voltar para a Inglaterra, onde Senna iniciava carreira meteórica. 

Diálogos bem conhecidos, de quem acompanhou a trajetória do piloto, são reproduzidos na íntegra, como as célebres divergências que Senna teve com Prost. A produção também destaca a rivalidade crescente entre um brasileiro, recém-chegado à Europa, que mal sabia falar inglês, com pilotos de categorias pré-Fórmula 1.

O apresentador Emílio Surita não gostou da série da Netflix. Chamou o produto de "baixa qualidade". Emílio Surita, para quem não lembra, apresentava o pior programa da história da televisão mundial, o programa mais rasteiro, grosseiro e detestável já feito por câmeras televisivas.

A narrativa é bem conduzida. Tropeça apenas em atores mal escolhidos, como um garotinho que enviava mensagens a Senna e o piloto decide lhe visitar e presenteá-lo com um capacete. O menino ganha o presente e sua expressão não representa a alegria de um garoto de periferia, sendo homenageado pelo seu maior ídolo. Parece alguém meio inerte, sem qualquer expressão de júbilo.

Pâmela Tomé é uma Xuxa perfeita. Repete com exatidão a cena dos beijos no rosto de Senna, deixando-o marcado com batom vermelho. Julia Foti faz Adriane Galisteu, assim, de passagem, rapidamente.

Um dos momentos mais divertidos é a reprodução de uma passagem de Jean-Marie Balestre, o então poderoso presidente da Fia (Federação Internacional de Automobilismo), eterno e odioso rival de Senna, ao circular pela área dos boxes de Interlagos e ser vaiado pela multidão, que gritava "Balestre, ladrão; Senna é campeão".  

O forte da série são as cenas de velocidade, ultrapassagens, as disputas. A produção teve muito cuidado e o resultado foi gratificante. Senna já foi visto em 58 países, batendo 53 milhões de horas assistidas.        




sábado, 30 de novembro de 2024

Pendências brasileiras

 


O Brasil tem essa particularidade: demora para resolver seus

 problemas. Em geral, não resolve. Deixa para depois. Procrastina.

 Empurra com a barriga. Joga a sujeira para debaixo do tapete.


O Jogo do Bicho é uma contravenção. Bicheiros são milionários.

 Vivem luxuosamente e, nas horas vagas, patrocinam escolas de

 samba. A juíza Denise Frossard até que tentou acabar com essa

 malandragem. Em 1993, ela condenou 14 principais chefões do Jogo

 do Bicho. Depois, veio o silêncio. O Jogo do Bicho continua em

 plena atividade. A gente pode jogar até pela internet. É normal um país coabitar com esse tipo de  escroqueria? No Brasil, é normal. A gente convive bem com a irregularidade, com a falta de educação, com a fartura dos privilegiados, com a incompetência do poder público, com a sujeira na rua, com o som alto. É normal.


No dia 25 de janeiro de 2019, a barragem de Córrego do Feijão, no

 vale do Paraopeba (Minas Gerais), rompeu e matou 270 pessoas

 (inclusive duas grávidas e dois bebês), soterradas pela lama, rejeitos,

 pedras e restos das construções. Os rios foram poluídos por causa da

 lama tóxica. Até hoje, ninguém da empresa Vale foi preso.

No dia 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, da empresa

 Samarco, no município de Mariana (MG), rompeu e matou 19

 pessoas. Ninguém foi preso.

Em 8 de janeiro de 2019, um incêndio no Ninho do Urubu, matou 10

 jogadores da base do Flamengo. Até hoje, ninguém foi punido.

Em relação aos políticos, a sociedade brasileira tem um caso

 exemplar: o ex-presidente Fernando Collor de Mello. Condenado a

 oitos anos e dez meses de cadeia por corrupção passiva e lavagem

 de dinheiro, sua possível prisão paira no ar como uma borboleta

 colorida no plenário do STF (Supremo Tribunal Federal). Tudo ia na

 direção de botar Collor em um camburão, mas – e sempre tem um

 “mas”, como dizia Plínio Marcos – o honorável ministro André

 Mendonça pediu para o julgamento sair do plenário virtual e seguir

 seu curso interminável no plenário físico. Em outras palavras, vai

 tudo começar do zero.

O STF, por sinal, na semana passada, decidiu manter símbolos 

religiosos em prédios públicos, o que é um retrocesso impensável em 

um país que separou seu governo da igreja. Foi no dia 7 de janeiro

 de 1890 que o Brasil oficialmente separou-se da igreja, graças a um 

decreto de Rui Barbosa. A partir desse dia, registros de casamento, 

nascimento e óbitos passaram a ser de responsabilidade do estado. E 

agora, 134 anos depois, o STF mantém símbolos religiosos em

 prédios públicos. É o famoso não ata e nem desata. O governo está

 separado da igreja, desde 1890, mas nem tanto assim.


Quem circula por São Paulo de carro ou a pé convive com um

 inimigo quase invisível. Esse inimigo é um centauro. Ele circula em

 velocidade incalculável, por ser imperceptível aos radares. Os

 centauros de São Paulo (imitados em outras cidades) têm seu próprio

 código de trânsito. Esse código chama-se desobediência civil. Os

 centauros podem tudo: subir nas calçadas, passar nos sinais

 vermelhos, andar na contramão, não sinalizar mudanças de faixa,

 buzinar de forma repetida e colérica... Todos os dias morrem um,

 dois ou três centauros em São Paulo. Todos os dias um, dois ou mais

 centauros vão parar no hospital com fraturas e contusões

 gravíssimas. O primeiro semestre de 2024 fechou com 521 óbitos.

 Nenhuma medida viária até agora conseguiu reduzir o número de

 mortos e feridos. Nada se faz e vamos deixar os centauros se

 extinguirem por conta própria.

O aborto é liberado no Brasil, para quem tem dinheiro e pode pagar

 uma clínica exclusiva. Quem não tem dinheiro vai atrás de algum ou

 alguma curiosa que fará bobagem e a paciente terminará sua jornada

 no SUS, quem sabe viva, talvez morta. O aborto é proibido no Brasil,

 porque a religião e os religiosos não permitem. Mas, quem tem

 dinheiro, aborta.

O Brasil tem 12 mil favelas, onde vivem 16 milhões de pessoas.

 Somente em Paraisópolis, em São Paulo, vivem quase 60 mil

 pessoas. Dez por cento da população de Dublin (Irlanda). 

Em São Paulo há 590 mil imóveis abandonados. Repetindo: 590 mil

 imóveis abandonados, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de

 Geografia e Estatística). Isso – sempre de acordo com o IBGE –

 permitiria que toda a população de rua de São Paulo multiplicada

 por 20 encontraria abrigo nesses imóveis, que ninguém usa e –

 parece – que ninguém quer.


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Palmares e morros do Rio têm semelhanças

 

Celebração no Recife (PE) em homenagem a Zumbi

A Guerra de Palmares e a morte do líder negro Zumbi pelo bandeirante paulista André Furtado de Mendonça, capitão e sargento-mor do mestre de campo Domingos Jorge Velho, tem causado uma cisão ideológica nesse pessoal que se alfabetizou com a cartilha “Caminho Suave”.

Esses senhores, que usavam calças curtas e anacrônicos suspensórios, nos anos 1960, aprenderam que os bandeirantes eram heróis e que eles foram essenciais para ocupar o território e compor as fronteiras do Brasil, como país que é hoje. Sem os bandeirantes paulistas, o Brasil talvez fosse uma grande Guiana, sem desprezar em absoluto a Guiana (nem a Guiana Francesa e nem o Suriname).

Recentemente, todo Dia da Consciência Negra (20 de novembro), fala-se em Zumbi. Exalta-se o líder negro e sua luta contra a escravidão. Já os bandeirantes são taxados de racistas, criminosos, bárbaros assassinos de índios e negros. Um manifestante mais exaltado fez uma “vaquinha”. Comprou pneus velhos, gasolina e ateou fogo em Borba Gato, aquele monumento assustador de 13 metros de altura, tendo na “alma” trilhos e pedras, e o corpo sujo pelo ar poluído do trânsito convulso da avenida Santo Amaro, em São Paulo.

Zumbi foi realmente um herói? Era um idealista que sonhava com um mundo de paz, igualdade e desenvolvimento?

O jornalista Leandro Narloch, especialista em produzir livros que conspurcam heróis e mitos da esquerda, afirma que Zumbi era um escravocrata. Ou seja, contraditoriamente, o líder de Palmares também tinha escravos, igual aos fazendeiros portugueses. Para chegar a esta conclusão, Narloch argumentou que Zumbi sequestrava negros em fazendas para escravizá-los e, por ser de uma família originária de uma região da África, onde a escravidão era recorrente, então Zumbi seria um escravocrata.

Esta versão ganhou o apoio inesperado do então presidente da Fundação Palmares Sergio Camargo, durante o governo Jair Bolsonaro (2018-2022). Camargo declarou, na época, que Zumbi era um filho da p...  que tinha escravos. Camargo é preto.

O problema de Zumbi e Palmares é que são escassos os registros sobre esse quilombo. O proprietário de terras Manuel de Inojosa escreveu, em 1677, uma carta relatando sobre o cotidiano de Palmares. Ele enviou um negro, como “espião” a Palmares, e ficou sabendo que haveria um regime de poliandria, em que vários homens viviam ao redor de uma única mulher. Tudo que se produzia ali era dividido e repartido entre todas as famílias. Uma sociedade pré-comunista.

O padre Antonio Melo teria socorrido um garotinho negro órfão. Cuidado dele. Ensinado as primeiras letras (inclusive latim) e, quando chegou à adolescência, esse garoto fugiu para se refugiar em Palmares. Anos mais tarde, o padre se avistaria com o líder do quilombo, Zumbi, reconhecendo-o como o garotinho órfão que tinha abrigado. Outros historiadores afirmam que Zumbi nasceu em Palmares (talvez em 1655) e assumiu o comando do quilombo, depois da morte de seu tio Ganga Zumba, morto por envenenamento.

O jornalista e historiador Décio Bergamaschi Freitas (1922-2004), militante comunista, pesquisou a história de Palmares. Exilado e cassado pela Ditadura Militar, Freitas foi a Portugal e consultou o Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo da Torre do Tombo, Biblioteca da Ajuda e Arquivo e Biblioteca Distrital de Évora. É dele a informação de que Zumbi teria sido criado pelo padre Antonio Melo.

(ver entrevista concedida por Décio Freitas à Folha Online: https://www1.folha.uol.com.br/fol/brasil500/zumbi_17.htm). Freitas é autor do livro "Palmares, a guerra dos escravos".

O quilombo de Palmares não possuía cartório, nem escrivães. Não tinha serviço postal, nem seus moradores enviavam cartas a amigos e familiares. Se havia algum texto escrito em Palmares, foi destruído com o fim do quilombo. Então, não se sabe se Zumbi tinha escravos. Bater o martelo e afirmar que ele era escravocrata é apenas chute, palpite, uma impropriedade intelectual. O autor não deve ser levado a sério, porque não se baseia em documentos históricos fidedignos.

O quilombo de Palmares existiu por décadas. Textos oficiais informam que os primeiros quilombos teriam surgido ainda em 1594. Menos de cem anos da chegada dos portugueses.

Durante o governo de Ganga Zumba (1630-1678), tinham havido expedições para atacar Palmares. A ação mais contundente aconteceu em 1678, comandada por Fernão Carrilho. Ganga Zumba e Carrilho fazem um acordo de paz, sacramentado pelo então governador de Pernambuco (1674-1678) Pedro de Almeida.

Ganga Zumba deixa Palmares, conforme o acordo, e segue para viver na região de Cucaú (onde hoje ainda existem usinas de açúcar). O sobrinho dele, Zumbi, não aceita sair de Palmares. Um emissário de Zumbi vai até Cucaú e mata Gaga Zumba por envenenamento. O fato de Ganga Zumba ter aceito sair de Palmares foi entendido pelo grupo liderado por Zumbi como traição.

Fernão Carrilho aproveita o acordo de paz para pedir uma série de benefícios à coroa portuguesa, inclusive dinheiro. Ele e muitos de seus comandados são atendidos e presenteados. Achava-se, então, que Palmares não mais existia.

Não era bem assim. Palmares continuava vivo e recebendo sempre novos moradores. Negros fugiam da vida insuportável e degradante nos engenhos e iam buscar asilo em Palmares. 

O bibliotecário Ernesto Ennes, funcionário do Arquivo Histórico Colonial de Portugal, fez uma pesquisa reveladora e prestou um serviço elogiável àqueles que pretendem entender um pouco sobre Palmares. Em 1938, ele publicou "As guerras nos Palmares", pela Companhia Editora Nacional. Em 140 páginas, Ennes faz um breve resumo das campanhas, movidas pelos portugueses, contra Palmares. As demais 370 páginas são documentos da época, entre eles a carta de 15 de julho de 1694, escrita de próprio punho pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, narrando a epopeia da luta contra Zumbi.

Jorge Velho sai de São Paulo com "mil homens de arcos, 200 de espingarda e 84 brancos". Ou seja, a maior parte do regimento era composto por indígenas. No percurso até Recife, "600 léguas" (o equivalente a 2.600 km) morreram 132 pessoas (63 de doenças) e 200 fugiram.

Antes de chegar a Palmares, o mestre de campo é obrigado a "retrogradar" (retroceder), por causa de uma ordem recebida do governador geral (1687-1688) Matias da Cunha. 

Em 1688, Jorge Velho vai ao Rio Grande (atual estado do Piauí) e combate "um número quase infinito de tapuias bravos", "rebeldes comedores de carne humana". O inimigo seria "em número de 10 mil". Jorge Velho perde 43 homens e "60 a 70" ficam feridos. Liberta o capitão-mor Constantino de Oliveira, cercado pelos tapuias. O mestre de campo aprisiona 800 indígenas, "gentio de todo sexo e idade", que foram rapidamente "batizados". 

Do Piauí, Jorge Velho segue com sua tropa para Palmares. Faz uma primeira investida, mas encontra resistência feroz. Os palmarinos estão bem armados. Defendem-se por trás de fortificação feita com paus espetados, buracos profundos, espinhos, guaritas. Em documento escrito pelo governador de Pernambuco (1693-1699) Caetano de Melo Castro ao Conselho Ultramarino, essas fortificações teriam sido obra de um imigrante mouro, que deixou a cerca "quase inexpugnável". 

Os atacantes eram rechaçados com armas de fogo, pedras, água fervente e flechas. O mestre de campo não consegue penetrar no quilombo. Sem munição suficiente (pólvora), bate em retirada. Segue para o Riacho Paratagi (hoje, é um resort em Alagoas), onde aguarda reforços por longos e "enfadonhos 10 meses". 

Depois de quase um ano à espera do reforço solicitado, finalmente, recebe armamento e segue novamente em direção a Palmares. Seu "terço" (pelotão) tem agora 600 indígenas e 45 brancos. O mestre de campo reclama que veio só "munição de guerra e nenhuma de boca" (não tinham vindo alimentos).    

Para destruir Palmares, Jorge Velho faz trincheiras paralelas às trincheiras dos palmarinos. A "cerca", como eles chamam a fortificação, tem 5 km de extensão, ao redor da Serra da Barriga (atualmente, esse local fica no estado de Alagoas). Ao cercar Palmares, Jorge Velho impede uma possível fuga em massa. 

Do dia 5 de fevereiro para o dia 6 de 1694, as tropas do bandeirante rompem as trincheiras e avançam sobre Palmares. Os sentinelas palmarinos são surpreendidos pelo ataque. Zumbi leva "duas pelouradas" (balas de pedra), mas consegue fugir. Os atacantes fazem 519 presos. Duzentas pessoas tentam escapar, mas caem em um precipício e morrem.  "Outros tantos" são executados. 

Em novembro do ano seguinte, o capitão e sargento-mor da tropa de Jorge Velho, André Furtado de Mendonça, recebe a informação de que moradores de Rio de São Francisco haviam aprisionado "um mulato" que saberia o paradeiro de Zumbi. 

No dia 20 de novembro de 1695, Mendonça desloca-se até o local. Mantém o informante vivo, em troca dele conduzir a tropa até onde se encontrava Zumbi. Ele concorda e os leva até um "sumidouro", onde os fugitivos de Palmares se ocultavam. 

Zumbi está acompanhado por apenas 20 homens. Todos são mortos. Zumbi é degolado e sua cabeça é levada por André Furtado de Mendonça até Recife, onde é colocada, a mando do governador Caetano de Melo de Castro, "em um pau, no lugar mais público desta praça, a satisfazer os ofendidos e justamente queixosos, e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam este (Zumbi) imortal; pelo que se entende que nesta empresa se acabou de todo com os Palmares".

A praça, no caso, é o Pátio do Carmo, em Recife. Hoje, no mesmo local, existe uma estátua, representando a cabeça do líder de Palmares, espetada por uma lança.

Na carta de 15 de julho de 1694, quando Palmares já havia sido derrotado, Domingos Jorge Velho lembra ao rei Pedro II, "o pacífico", que saiu de casa, deixando suas criações e familiares, para enfrentar "o gentio bravo e comedor de carne humana". 

Eram 16 anos de muito trabalho e luta, que tinham sido relegados "para servir sua majestade na guerra, (...) em razão de sermos leais vassalos a não faltar ao serviço de nosso rei". O bandeirante reclama que "nenhum lucro me ficou dessa guerra". 

Para chegar até o local do conflito, o regimento de Jorge Velho enfrentou a marcha "mais trabalhosa, faminta, sequiosa e desamparada, que até hoje houve no dito sertão, nem quiçá haverá, salvo se for pelos mesmos passos, e em semelhante tempo; na qual de fome, sede, e misérias morreram 132 pessoas".

Sobre a captura de indígenas, Jorge Velho tem uma concepção redentora. Personagem do século 17, o bandeirante acredita estar fazendo um trabalho de reintegração do indígena à sociedade portuguesa:

"Ao servimo-nos deles para as nossas lavouras; nenhuma injustiça lhes fazemos; pois tanto os sustentamos a eles e a seus filhos, como a nós e aos nossos: e isto bem longe de os cativar, antes se lhes faz irremunerável serviço em lhes ensinar a saber cultivar, plantar, colher e trabalhar para seu sustento, coisa que antes de os brancos lhes ensinarem, eles não sabiam fazer".

Para o bispo de Pernambuco dom frei Francisco de Lima, Domingos Jorge Velho era "um dos maiores selvagens com que tenho topado", "nem se diferencia do mais bárbaro tapuia". O bispo não se conformava que Jorge Velho se considerava cristão, sendo casado e tendo "sete índias concubinas". Jorge Velho, de acordo com o religioso, "andava metido pelos matos à caça de índios e índias, estas para o exercício das suas torpezas e aqueles para os granjeios dos seus interesses".

A maior parte das cartas escritas por Jorge Velho aos governantes, constantes no livro de Ernesto Ennes, visava o cumprimento das promessas anteriores à campanha militar. O bandeirante exigia o acerto dos acordos. Assim, o mestre de campo ganhou uma sesmaria (terra inculta concedida pelo governo português aos povoadores) e se transformou em fazendeiro, criador de gado. Também foram premiados  integrantes do regimento. O sargento-mor André Furtado de Mendonça, o executor de Zumbi, ganhou uma ajuda de custo de 50 mil réis (equivalente a 1.500 reais).

Finalmente, vale a pergunta: por que Palmares precisou ser destruído? A resposta é simples. A princípio, Palmares tinha uma relação de simbiose com fazendeiros vizinhos. Trocavam produtos agrícolas, bens e faziam negócios. 

Com o tempo, Palmares passou a receber um número grande de negros fugitivos. Muitos desses novos integrantes do quilombo passaram a assaltar e roubar os fazendeiros vizinhos. Casas eram saqueadas e moradores assassinados. "Levavam os escravos - a uns por vontade e a outros, por força; matavam feitores e muitos senhores e senhoras, executando todo gênero de hostilidade. Sempre cruelmente", escreve o mestre de campo.

Então, para os governadores de Pernambuco, que se sucediam no poder, Palmares era um estado à parte. Um território inimigo, que precisava ser aniquilado.

O cenário de Palmares é atual e lembra o Rio de Janeiro. Existe um morro, ocupado por pessoas que vivem à margem da sociedade. Eles têm seu próprio governo e para assegurar o domínio do território usam armas. Quem se atrever a subir o morro e afrontá-los vai levar bala. Hoje, não se chamam Zumbi. Têm outros nomes: Peixão, Varão, Abelha, Naval...

Passaram-se 329 anos, desde a morte de Zumbi; e 136 anos, desde a assinatura da Lei Áurea. O Brasil tem ainda 8 milhões de pessoas vivendo na miséria. São quatro por cento da população exatamente iguais aos negros que fugiam e buscavam refúgio em Palmares. Sem eira nem beira, para usar um termo português por excelência.

Os fazendeiros brasileiros (a elite) mantiveram a escravidão até o limite, até onde foi possível (pelo menos o Brasil se saiu melhor que a Mauritânia que aboliu a escravidão em 1981). Em represália à assinatura da Lei Áurea, a elite apoiou, um ano depois, em 1889, o golpe militar que pôs fim ao império.

Terminado o período escravista, a mesma elite buscou novas "máquinas braçais" no exterior, atraindo imigrantes, principalmente, italianos, espanhóis, alemães e japoneses. Nas fazendas, os imigrantes trabalhavam muito e ganhavam miseravelmente. A exploração do trabalhador mantinha-se intacta. 

Mais ou menos parecido com o que ocorreu ao longo de todo o século 20 e início do 21, mesmo com o advento da industrialização nos anos 1960, chegando hoje à constatação de que o Brasil é um dos países mais desiguais do mundo. Um por cento de seus habitantes detém 28 por cento da renda total. A desigualdade aumenta a pobreza, a fome e impede a mobilidade social. 

O governo Lula tem mais dois anos pela frente. Apenas 730 dias. Está na hora de começar a tirar os coelhos da cartola.      



























































































 

 




 

    

 

  

 


domingo, 17 de novembro de 2024

O inimigo americano

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Elon Musk naturalizou-se americano em 2002


Um programa de debates, exibido hoje pela RAI, dedicou-se a discutir Elon Musk. Vários jornalistas, de importantes veículos de comunicação italianos, discorreram uma boa meia hora sobre o bilionário sul-africano-canadense-naturalizado americano. 

Ontem, foi a vez da primeira-dama Rosangela Lula da Silva, a Janja, mandar Elon Musk se f... Pegou mal, porque ela é a primeira-dama e, enfim, espera-se um comportamento mais comedido e menos passional de uma figura proeminente como ela. É claro que muita gente também gostaria de ter um microfone na mão e holofotes para mandar Elon Musk para aquele lugar.

Bochechudo com zigomas sobressaltados e testa larga, Musk seria taxado por César Lombroso, em sua obra O homem delinquente, como "homicida e arrombador". É claro que Lombroso, italiano, natural de Verona, saiu de moda e suas teorias caíram em descrédito, mas, si non è vero...

Musk ganhou os holofotes no Brasil ao se indispor com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes. O imbróglio começou em outubro de 2022, quando o ministro mandou Musk indicar um representante do X (antigo Twitter) no Brasil. Musk não deu bola para o ministro, provavelmente, porque aqui é um fim de mundo, uma república bananeira e, como ele é bilionário, não precisa dar satisfação a ministro de país de terceiro mundo. Moraes não deu moleza para o filhinho de papai. Tascou uma multa de 28 milhões e 600 mil reais e suspendeu o X em todo o Brasil. Depois de um mês de bloqueio, Musk voltou atrás. Indicou um representante comercial no País e pagou a multa. Vitória de Moraes. Um a zero para a arraia-miúda. 

Depois que a primeira-dama mandou o bilionário se f..., ele respondeu em sua rede ameaçando: "Não vão ser eleitos". Ou seja, para bom entendedor, Musk vai usar toda sua força nas mídias sociais para impedir a reeleição de Lula em 2026. Só para constar: o certo, Musk, não é "ser eleitos". A forma correta é "reeleitos" (re-elected).

Semana passada, o The Guardian, influente jornal britânico, decidiu "divorciar-se" de Musk. Saiu do X. Deixou 27 milhões de seguidores. Segundo editorial do The Guardian, o X  é uma "plataforma tóxica", que promove "teorias conspiratórias, racistas e de extrema direita".

Quem também "divorciou-se" de Musk foi a filha dele. Vivian Jenna Wilson é uma mulher trans, filha da primeira mulher de Musk, Justine Wilson. Quando era homem, chamava-se Xavier. Vivian fez tratamentos hormonais e cirurgia de transição de gênero. O pai não a aceita, esteve sempre ausente e chegou até a mentir, dizendo que ela era "autista". Quando manifesta-se publicamente, Vivian utiliza a plataforma Threads, da Meta de Mark Zuckerberg, concorrente do X. Após ser confirmada a vitória de Donald Trump, Vivian disse que sairia dos Estados Unidos, talvez, porque o ar vai ficar irrespirável ao norte do Equador.

A arrogância e a prepotência de Elon Musk ao tratar com um ministro da alta corte brasileira, ignorando decisões legais, fazendo pouco caso das instituições, prova que a primeira-dama Janja está correta. Não em mandar Musk se f..., mas em defender a regulamentação das redes sociais.

As mídias sociais oferecem um serviço no Brasil. Cobram por isso e por que cargas d'água não querem se submeter à legislação brasileira?

A melhor explicação, para essa soberba de Musk & Cia., é dada pelo cientista Miguel Ângelo Laporta Nicolelis.  Em entrevista a Luis Nassif, no jornal GGN, Nicolelis afirma que as "overlords" estão pouco se lixando para as fronteiras nacionais, para os países e suas regulamentações. Segundo Nicolelis, as "overlords" são formadas por três gigantes: as big techs (empresas de tecnologia), as big oils (as petrolíferas que retardam ao máximo o uso de combustível fóssil que destrói o planeta) e o big money (os tiranossauros insaciáveis da especulação e das megafortunas).

O CCOD ( Centro de Combate ao Ódio Digital) americano identificou 87 postagens falsas sobre a candidatura de Kamala Harris à presidência dos Estados Unidos. Entre elas, uma das postagens dizia que os democratas estariam "importando imigrantes" para votar a favor de Kamala. Para o CCOD, o X é uma "máquina de desinformação perpétua".

Então, se prepare: até outubro de 2026 virá chumbo grosso sobre o Brasil. Aliás, já está vindo. Diariamente, postagens dizem que o País está afundando, que as coisas estão indo de mal a pior, que o Brasil é um Titanic, fazendo água, enquanto os números da macroeconomia dizem exatamente o contrário.    

  


segunda-feira, 28 de outubro de 2024

A esquerda lambe as feridas

 

Esta imagem é do programa Opera Mundi, que analisou hoje a grande derrota

As eleições municipais terminaram. A esquerda levou uma surra. O principal culpado é o presidente Lula. O País continua patinando. O real perde valor a cada dia. O dólar sobe, o euro sobe e o real descamba. Quem faz compra no mercado diariamente percebe que os produtos sobem também diariamente. Nunca é o mesmo preço. Sempre sobe um pouco. Os números dos economistas sobre a inflação não me interessam. Meu economista da inflação é o mercado. Não o “mercado” dos lobistas e investidores. O mercado da esquina. E os preços nunca param de subir. Os empresários começaram a maquiar os produtos. A embalagem é a mesma, o preço é o mesmo, mas o alimento lá dentro encolheu. A BBC fez reportagem e chamou de “reduflação”. Cadê a chuva de picanha, presidente Lula?

Além da alta do custo de vida, o Brasil está em guerra contra o crime organizado. A criminalidade infiltrou-se no tecido social. O “Estadão” publicou, há quatro dias, reportagem sobre a eleição de 12 candidatos, ligados ao crime organizado.

Assistir a um telejornal brasileiro é um exercício de masoquismo. Todo dia, ficamos sabendo que um território do Rio de Janeiro foi ocupado pelo crime. Sobra bala pra tudo quanto é lado. Semana passada, três trabalhadores morreram baleados em plena avenida Brasil.

Acompanhe o vai e vem do bastidor da criminalidade no Rio: traficante ganha peso e importância local; expande seus “negócios” em outra favela; provoca reação; há disputa pelo espaço; milicianos entram na disputa; grupos rivais trocam tiros; a polícia intervém. Nessa guerrilha particular pelo espaço de venda de droga e dominação, moradores locais, policiais e bandidos são baleados, feridos e mortos.
Tentou-se de tudo até agora e o problema não foi resolvido. As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), criadas em 2008, deram certo no início, mas hoje servem de tiro ao alvo para o crime.

O que fazer para dar mais segurança à população?

Deve-se investir em inteligência, em câmeras de vigilância, em novos e melhores efetivos etc. E parar de enxugar gelo. O Ministério da Justiça e, por tabela, o presidente Lula, precisam tirar um coelho da cartola. Tentar algo diferente. O fato é que as pessoas querem se drogar. Elas irão buscar a droga e pagar caro por isso. Então, por que não iniciar a legalização? O que não é admissível é enriquecer traficante. Enchê-lo de dinheiro, o suficiente para comprar fuzis de longo alcance, metralhadoras, bazucas e o diabo a quatro. 

Um certo “Peixão”, apontado pela polícia como o autor dos disparos aleatórios que mataram três trabalhadores na avenida Brasil, não é o único aloprado à solta. Há milhares deles. Todo dia, morre um e outro assume a sua cadeira. Enquanto vivem, constroem resorts, com direito à praia artificial. Compram armamento que daria inveja ao Hamas. E o governo federal continua em um estado de torpor que é irritante. A gente nem lembra mais quem é o ministro da Justiça. É um silêncio que incomoda.

Fala-se em taxar os bilionários, os herdeiros, o muito ricos. Nada sai do papel. Os aposentados veem seu poder aquisitivo perder força, cada vez que se dá uma volta no quarteirão.

Passear por São Paulo hoje é um exercício de negligenciar a empatia. Caminhando pelos baixos do minhocão, ali na Amaral Gurgel, encontra-se uma cidade de moradores de barracas. A miséria é devastadora. Na beira dos rios e córregos, as taperas aguardam a chegada das chuvas mais fortes deste verão para serem inundadas e os moradores, aflitos, dizendo para as câmeras de TV que perderam o pouco que tinham.

Não está na hora de acabar de vez com a miséria? Quantas gerações mais de brasileiros vão conviver com a miserabilidade?

Dois anos se passaram, desde a posse de Lula, e os problemas continuam os mesmos, nos mesmos lugares. Daqui a dois anos virão as eleições para governador e presidente. A esquerda precisa acordar. Outra derrota estrondosa avizinha-se.

Com a palavra, o presidente Lula.


 

 

   

 

 


segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Os clichês preferidos das séries policiais

 

A série Monk era umas raras que fugia a quase todo clichê

Atualmente, estão disponíveis cerca de 400 séries policiais, exibidas diariamente pela TV aberta e pelo streaming (Netflix, Prime, Disney, Max..). As séries policiais recorrem a clichês, que se tornam exaustivos, tantas e tantas vezes são repetidos. Não é só série americana. Franceses, ingleses, nórdicos, turcos, mexicanos vão pelo mesmo caminho.

O detetive investiga um crime e chega num suspeito. Vai interrogá-lo. O suspeito ao ver o detetive sai correndo. Essa perseguição costuma demorar uns bons três minutos. O suspeito nunca corre em um local aberto - um campo de futebol, por exemplo. Ele sempre dispara por becos, escadarias e ruas movimentadas. Vai derrubando latas de lixo, panelas, sacos, engradados. Às vezes, entra na cozinha cheia de vapor de um restaurante e voam sopas e espaguetes. Em alguns casos, o suspeito invade uma casa noturna, com moças seminuas fazendo pole dance. O detetive desvia dos obstáculos. Aumenta a velocidade e, em determinado momento, vai conseguir pegar o fugitivo.

Se o suspeito estava no local do crime, se ele tinha alguma relação de inimizade com o morto, se suas roupas foram manchadas de sangue, ele parece tão culpado, mas tão culpado, que a gente entende que o infeliz é inocente. No decorrer do episódio, o detetive vai descobrir que - apesar das provas em contrário - o suspeito não tem culpa no cartório.

Outro clichê mais comum que Coca-Cola em mercado é o policial que precisa devolver o revólver e a insígnia a um chefe implicante e, em alguns casos, mal-intencionado. O policial está no caminho certo. Vai descobrir quem é o autor do crime, mas o chefe briga com ele, mostra descontentamento com a forma de agir do policial. Os dois discutem e o chefe obriga o agente competente a entregar seu distintivo e o revólver. Não termina aí. O policial é um rebelde e vai continuar a investigação até conseguir prender o culpado.

Séries policiais costumam utilizar uma dupla de detetives. Em alguns casos, são homem e mulher, para criar um clima de sensualidade na relação entre eles. Ou são dois homens, sendo um deles metido a cowboy, enquanto o outro segue as regras.

Outro personagem comum nos policiais é o médico legista. Geralmente, é um personagem obscuro, mal-humorado, ranzinza, que reage quase sempre com indignação à urgência do detetive que precisa saber o horário da morte da vítima. O legista vai antecipar - mais ou menos - o horário e dar indícios de que a vítima foi executada. O legista dirá, sem paciência que "depois das 14 horas", enviará o relatório completo da autópsia.

Uma série diferente que fugia de todos os clichês era "Monk", exibido de 2003 a 2010 (oito temporadas) e ainda disponível em streaming pela Netflix. O detetive Monk, interpretado por Tony Shalhoub, deixou a polícia, depois de sofrer um trauma emocional pela morte da esposa, assassinada em atentado a bomba. Cheio de manias e obsessões compulsivas, Monk era exatamente o antípoda do detetive clichê. Se cumprimentasse alguém, precisava higienizar as mãos. Era acompanhado por uma enfermeira e mostrava um talento inegável para descobrir uma pista, onde os policiais tinham fracassado. Monk era divertido. Deixava o público em desespero, quando se sentia bloqueado a ponto de permitir a fuga do bandido. Em um episódio, por exemplo, ele precisa subir em uma corda, mas, na metade do caminho, fica com medo da altura e o criminoso passa por cima dele, literalmente, durante a fuga. 

A série Monk venceu vários prêmios (seis Emmys) e três de melhor ator de comédia para Shalhoub. Os atores que fazem a escada para Shalhoub são do ramo, com destaque para Ted Levine, que faz o chefe de polícia (a princípio, inconformado com as habilidades de Monk; depois, parceiro); Bitty Schram (no papel de Sharona, a enfermeira de Monk), Stanley Kamel (o psiquiatra de Monk). Bitty Schram saiu na metade da terceira temporada. Dizem que por causa de uma negociação fracassada para tentar elevar seu faturamento. Foi substituída por Traylor Howard, que fez Natalie até o final. Interessante é que, antes de a série acabar, a enfermeira Sharona retorna no décimo episódio da oitava e última temporada, para uma espécie de despedida.

A quarta temporada da série "True Detective" deu a Jodie Foster um prêmio Emmy, neste ano, em reconhecimento a sua atuação. Esta quarta temporada é a pior de "True Detective". A história se passa no Alaska e tem tantos absurdos, tanta bobagem que tenho dúvidas se não teve mão do Var nessa premiação. 

Em tempo: escrevi sobre Jodie Foster e "True Detective" em 20 de fevereiro aqui neste blog. Leia e comente.

Em inglês:

"The favorite clichés of police series"

Currently, there are around 400 police series available, broadcast daily on open TV and streaming platforms (Netflix, Prime, Disney, Max, etc.). Police series often rely on clichés, which become exhausting as they are repeated over and over again. It's not just American series. French, British, Nordic, Turkish, and Mexican shows follow the same path.

The detective investigates a crime and identifies a suspect. They go to interrogate them. Upon seeing the detective, the suspect takes off running. This chase usually lasts a good three minutes. The suspect never runs through an open space—like a soccer field, for example. They always dash through alleys, staircases, and busy streets, knocking over trash cans, pots, bags, and crates along the way.


Sometimes, they run into a steamy restaurant kitchen, sending soups and spaghetti flying. In some cases, the suspect bursts into a nightclub with semi-nude women pole dancing. The detective dodges the obstacles, picks up speed, and eventually catches the fugitive.

If the suspect was at the crime scene, had some kind of grudge against the victim, or had bloodstains on their clothes, they seem so guilty, so incredibly guilty, that you just know the poor guy is innocent. As the episode progresses, the detective discovers that—despite the evidence to the contrary—the suspect is not to blame.


Another cliché more common than Coca-Cola in a supermarket is the cop who has to turn in their badge and gun to a difficult, and sometimes malicious, boss. The cop is on the right track, about to uncover the perpetrator, but the boss clashes with them, expressing dissatisfaction with their methods. They argue, and the boss forces the competent officer to hand over their badge and gun. But it doesn’t end there. The cop is a rebel and continues the investigation until they catch the culprit.


Police series often feature a detective duo. Sometimes, it's a man and a woman to create a sense of sexual tension between them. Other times, it's two men, with one acting like a cowboy while the other follows the rules.


Another common character in police shows is the medical examiner. Usually, this character is dark, grumpy, and irritable, often reacting with indignation to the detective's urgency in needing to know the victim's time of death. The examiner will give an approximate time and hint that the victim was executed. They’ll impatiently say, "after 2 PM," and promise to send the full autopsy report later.

A different series that avoided all these clichés was Monk, which aired from 2003 to 2010 (eight seasons) and is still available for streaming on Netflix. 


Detective Monk, played by Tony Shalhoub, left the police force after suffering emotional trauma from the death of his wife, who was killed in a bombing. Full of quirks and compulsive obsessions, Monk was the complete opposite of the clichéd detective. If he shook someone’s hand, he had to sanitize his hands immediately. He was accompanied by a nurse and displayed undeniable talent for finding clues where the police had failed. Monk was entertaining. He drove the audience to despair when he felt blocked, allowing the criminal to escape. In one episode, for example, he had to climb a rope but got scared of the height halfway up, and the criminal literally climbed over him to escape.


The series Monk won several awards (six Emmys) and three for Best Comedy Actor for Shalhoub. The actors who supported Shalhoub were also notable, including Ted Levine, who played the police chief (initially unconvinced by Monk's abilities but later becoming a partner); Bitty Schram (as Sharona, Monk's nurse); and Stanley Kamel (Monk's psychiatrist). Bitty Schram left halfway through the third season, reportedly due to failed contract negotiations to increase her earnings. She was replaced by Traylor Howard, who played Natalie until the end. Interestingly, before the series ended, Sharona returned in the tenth episode of the eighth and final season for a sort of farewell.


The fourth season of True Detective earned Jodie Foster an Emmy this year for her performance. However, this fourth season is the worst of True Detective. Set in Alaska, the story is filled with so many absurdities and nonsense that I wonder if the award wasn’t influenced by some external factors.

By the way, I wrote about Jodie Foster and True Detective on February 20th on this blog. Read it and leave a comment.

       
 

domingo, 13 de outubro de 2024

São Paulo às escuras - uma cidade que coleciona decisões equivocadas

A privatização da rede elétrica deu errado

Imagine você assistir uma peça de teatro, com os três primeiros atos iguais. Primeiro ato: choveu, o fornecimento de energia é interrompido. A concessionária não sabe quando vai normalizar o fornecimento. O cliente liga e a concessionária não responde, se esconde, se omite. Segundo ato: choveu, o fornecimento de energia é interrompido. A concessionária não sabe quando vai normalizar o fornecimento... Terceiro ato: choveu, o fornecimento de energia é interrompido. A concessionária...

Parece uma peça de Samuel Beckett. É a realidade em São Paulo. A concessionária responsável pelo fornecimento de energia - a italiana Enel - demitiu 8,4 mil funcionários, entre 2019 e 2023. Mesmo tendo lucro, mesmo ganhando novos clientes, a empresa optou pelas demissões. 

Na sexta-feira, final de tarde, a mudança climática transforma o que seria uma chuva de primavera em minitufão com ventos de até 107 quilômetros por hora. Muros, avisos, árvores, postes não resistiram à tempestade e vieram abaixo. Conclusão: 2 milhões de clientes às escuras. Sete pessoas mortas.

Já aconteceu outras vezes e vai acontecer novamente. O que se esperava era que a concessionária tivesse equipes sobrando para dar conta da emergência. Não tem. Hoje, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, convocou empresas de energia de outros estados para socorrer São Paulo, porque o contingente da Enel foi reduzido e não dá conta da situação. 

Por algum motivo desconhecido, ninguém toma qualquer medida prática. A concessionária, que ganhou a concessão para fazer determinado serviço, não o faz. Mas continua à frente do serviço. A empresa diz que o vento foi muito forte, que choveu muito... Ninguém toma a decisão que seria a mais correta: encerrar a privatização e retomar a estatização dos serviços. Essa medida mataria do coração os editorialistas do Estadão, mas afastaria os incompetentes, que não conseguem prever o óbvio: vivemos uma crise climática e as tempestades serão cada vez mais frequentes. 

Por isso, minha cara Enel, vocês teriam de ter milhares de equipes de emergência a postos. Milhares de caminhões equipados. Milhares de eletricistas treinados à exaustão, para resolver em minutos o que a empresa tem precisado de dias para fazê-lo.

A cidade de São Paulo tem esse nome, por causa de um fariseu turco chamado Saulo. Ele era uma espécie de capitão do mato. Ao invés de negros escravizados foragidos, perseguia cristãos. Ele os prendia, acorrentava e os levava presos para serem torturados e mortos. Aos 28 anos, Saulo se identifica com a fé cristã. Muda de nome. Vira Paulo, o Apóstolo. Escreve 13 livros para o Novo Testamento. É preso pelos romanos e morto, em circunstâncias desconhecidas, depois de o imperador Nero acusá-lo de ter ateado fogo em Roma.

No dia 25 de janeiro de 1554, o padre jesuíta Manuel da Nóbrega sobe a serra e chega ao planalto. Decide iniciar ali uma povoação. Batiza o lugar de São Paulo, por causa do dia santo. A partir desse dia, a cidade tomaria um sem número de decisões errôneas. 

As margens dos rios foram ocupadas por moradias. Quando chove, os rios sobem e inundam as casas. As autoridades, como Prestes Maia e Paulo Maluf, deram preferência ao transporte de veículos particulares, ao invés de investir em transporte de massa (metrô, trens interurbanos, linhas preferenciais de ônibus). Em São Paulo, sair do ponto A e chegar ao ponto B nem sempre dá certo. O trânsito é caótico. Quando os semáforos não funcionam (como aconteceu na sexta-feira à noite), a cidade praticamente para. Pode desmarcar o compromisso, pode esquecer a hora de voltar para casa. Não vai conseguir. 

As construtoras fazem a festa na cidade. A cada dia, surge um novo prédio no horizonte. E a cada novo prédio a qualidade de vida no bairro "vai para a cucuia", como dizem os cariocas ao se lembrarem do cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. São centenas de novos moradores em uma rua onde viviam 50 pessoas. Assim, de agora em diante, serão centenas de novos carros trafegando pelas artérias. Além dos veículos, somam-se as obras infinitas de correção das linhas de abastecimento de água, gás e luz, porque as linhas antigas não darão conta das novas demandas.

Os prédios novos são geralmente feios, sem personalidade. Caixotes sem alma. 

Quando chove, o sistema de captação de águas fluviais não funciona adequadamente. As inundações são frequentes e calamitosas. 

A cidade se desenvolveu na forma de "mancha de óleo" se espalhando pela periferia. É comum o trabalhador perder quatro horas de seu tempo no transporte público. Ele mora na periferia e trabalha próximo ao centro. 

Os parques são raros. A vegetação foi suprimida e trocada pelo asfalto, cimento e vidro. Por isso, faz muito calor em São Paulo. Cria-se o fenômeno da "ilha de calor". Quem está no centro da cidade vive com sete graus a mais de calor do que o morador em área rural.

As crianças não podem mais brincar na rua, porque as ruas de São Paulo são perigosas. Quem chega em casa precisa se certificar que não será atacado por criminosos, antes de abrir o portão.

Em busca de proteção, os moradores transformaram suas casas em bunkers, com muros altos, portões automáticos, concertina na muralha, grades. Onde antes havia um jardim, agora é uma garagem fechada, hermética. 

Finalmente, as concessionárias de energia insistem em manter suas linhas aéreas. Além da poluição visual que significa aquele monte de fios em cima das cabeças das pessoas, basta chover, para cair um galho ou até mesmo a coitada da árvore inteira já desgalhada, para interromper o fornecimento de energia.     

Em algum momento no início dos anos 1960, São Paulo tinha bairros planejados, com infraestrutura adequada. O transporte de massa era feito por bondes e ônibus, que tinham até horário de chegada e partida. 

Veio a industrialização do ABC, as montadoras de automóveis, o crescimento desordenado, a chegada de milhares de migrantes, saídos da miséria de seus estados, em busca do sonho da vida melhor.

Paulo Bonfim, "o príncipe dos poetas", era um apaixonado pela cidade. Ele escreveu:

"Por epitáfio, escrevam apenas sobre meu silêncio, minha primeira e eterna confissão: Eu te amo São Paulo".    

 

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...