segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Os clichês preferidos das séries policiais

 

A série Monk era umas raras que fugia a quase todo clichê

Atualmente, estão disponíveis cerca de 400 séries policiais, exibidas diariamente pela TV aberta e pelo streaming (Netflix, Prime, Disney, Max..). As séries policiais recorrem a clichês, que se tornam exaustivos, tantas e tantas vezes são repetidos. Não é só série americana. Franceses, ingleses, nórdicos, turcos, mexicanos vão pelo mesmo caminho.

O detetive investiga um crime e chega num suspeito. Vai interrogá-lo. O suspeito ao ver o detetive sai correndo. Essa perseguição costuma demorar uns bons três minutos. O suspeito nunca corre em um local aberto - um campo de futebol, por exemplo. Ele sempre dispara por becos, escadarias e ruas movimentadas. Vai derrubando latas de lixo, panelas, sacos, engradados. Às vezes, entra na cozinha cheia de vapor de um restaurante e voam sopas e espaguetes. Em alguns casos, o suspeito invade uma casa noturna, com moças seminuas fazendo pole dance. O detetive desvia dos obstáculos. Aumenta a velocidade e, em determinado momento, vai conseguir pegar o fugitivo.

Se o suspeito estava no local do crime, se ele tinha alguma relação de inimizade com o morto, se suas roupas foram manchadas de sangue, ele parece tão culpado, mas tão culpado, que a gente entende que o infeliz é inocente. No decorrer do episódio, o detetive vai descobrir que - apesar das provas em contrário - o suspeito não tem culpa no cartório.

Outro clichê mais comum que Coca-Cola em mercado é o policial que precisa devolver o revólver e a insígnia a um chefe implicante e, em alguns casos, mal-intencionado. O policial está no caminho certo. Vai descobrir quem é o autor do crime, mas o chefe briga com ele, mostra descontentamento com a forma de agir do policial. Os dois discutem e o chefe obriga o agente competente a entregar seu distintivo e o revólver. Não termina aí. O policial é um rebelde e vai continuar a investigação até conseguir prender o culpado.

Séries policiais costumam utilizar uma dupla de detetives. Em alguns casos, são homem e mulher, para criar um clima de sensualidade na relação entre eles. Ou são dois homens, sendo um deles metido a cowboy, enquanto o outro segue as regras.

Outro personagem comum nos policiais é o médico legista. Geralmente, é um personagem obscuro, mal-humorado, ranzinza, que reage quase sempre com indignação à urgência do detetive que precisa saber o horário da morte da vítima. O legista vai antecipar - mais ou menos - o horário e dar indícios de que a vítima foi executada. O legista dirá, sem paciência que "depois das 14 horas", enviará o relatório completo da autópsia.

Uma série diferente que fugia de todos os clichês era "Monk", exibido de 2003 a 2010 (oito temporadas) e ainda disponível em streaming pela Netflix. O detetive Monk, interpretado por Tony Shalhoub, deixou a polícia, depois de sofrer um trauma emocional pela morte da esposa, assassinada em atentado a bomba. Cheio de manias e obsessões compulsivas, Monk era exatamente o antípoda do detetive clichê. Se cumprimentasse alguém, precisava higienizar as mãos. Era acompanhado por uma enfermeira e mostrava um talento inegável para descobrir uma pista, onde os policiais tinham fracassado. Monk era divertido. Deixava o público em desespero, quando se sentia bloqueado a ponto de permitir a fuga do bandido. Em um episódio, por exemplo, ele precisa subir em uma corda, mas, na metade do caminho, fica com medo da altura e o criminoso passa por cima dele, literalmente, durante a fuga. 

A série Monk venceu vários prêmios (seis Emmys) e três de melhor ator de comédia para Shalhoub. Os atores que fazem a escada para Shalhoub são do ramo, com destaque para Ted Levine, que faz o chefe de polícia (a princípio, inconformado com as habilidades de Monk; depois, parceiro); Bitty Schram (no papel de Sharona, a enfermeira de Monk), Stanley Kamel (o psiquiatra de Monk). Bitty Schram saiu na metade da terceira temporada. Dizem que por causa de uma negociação fracassada para tentar elevar seu faturamento. Foi substituída por Traylor Howard, que fez Natalie até o final. Interessante é que, antes de a série acabar, a enfermeira Sharona retorna no décimo episódio da oitava e última temporada, para uma espécie de despedida.

A quarta temporada da série "True Detective" deu a Jodie Foster um prêmio Emmy, neste ano, em reconhecimento a sua atuação. Esta quarta temporada é a pior de "True Detective". A história se passa no Alaska e tem tantos absurdos, tanta bobagem que tenho dúvidas se não teve mão do Var nessa premiação. 

Em tempo: escrevi sobre Jodie Foster e "True Detective" em 20 de fevereiro aqui neste blog. Leia e comente.

Em inglês:

"The favorite clichés of police series"

Currently, there are around 400 police series available, broadcast daily on open TV and streaming platforms (Netflix, Prime, Disney, Max, etc.). Police series often rely on clichés, which become exhausting as they are repeated over and over again. It's not just American series. French, British, Nordic, Turkish, and Mexican shows follow the same path.

The detective investigates a crime and identifies a suspect. They go to interrogate them. Upon seeing the detective, the suspect takes off running. This chase usually lasts a good three minutes. The suspect never runs through an open space—like a soccer field, for example. They always dash through alleys, staircases, and busy streets, knocking over trash cans, pots, bags, and crates along the way.


Sometimes, they run into a steamy restaurant kitchen, sending soups and spaghetti flying. In some cases, the suspect bursts into a nightclub with semi-nude women pole dancing. The detective dodges the obstacles, picks up speed, and eventually catches the fugitive.

If the suspect was at the crime scene, had some kind of grudge against the victim, or had bloodstains on their clothes, they seem so guilty, so incredibly guilty, that you just know the poor guy is innocent. As the episode progresses, the detective discovers that—despite the evidence to the contrary—the suspect is not to blame.


Another cliché more common than Coca-Cola in a supermarket is the cop who has to turn in their badge and gun to a difficult, and sometimes malicious, boss. The cop is on the right track, about to uncover the perpetrator, but the boss clashes with them, expressing dissatisfaction with their methods. They argue, and the boss forces the competent officer to hand over their badge and gun. But it doesn’t end there. The cop is a rebel and continues the investigation until they catch the culprit.


Police series often feature a detective duo. Sometimes, it's a man and a woman to create a sense of sexual tension between them. Other times, it's two men, with one acting like a cowboy while the other follows the rules.


Another common character in police shows is the medical examiner. Usually, this character is dark, grumpy, and irritable, often reacting with indignation to the detective's urgency in needing to know the victim's time of death. The examiner will give an approximate time and hint that the victim was executed. They’ll impatiently say, "after 2 PM," and promise to send the full autopsy report later.

A different series that avoided all these clichés was Monk, which aired from 2003 to 2010 (eight seasons) and is still available for streaming on Netflix. 


Detective Monk, played by Tony Shalhoub, left the police force after suffering emotional trauma from the death of his wife, who was killed in a bombing. Full of quirks and compulsive obsessions, Monk was the complete opposite of the clichéd detective. If he shook someone’s hand, he had to sanitize his hands immediately. He was accompanied by a nurse and displayed undeniable talent for finding clues where the police had failed. Monk was entertaining. He drove the audience to despair when he felt blocked, allowing the criminal to escape. In one episode, for example, he had to climb a rope but got scared of the height halfway up, and the criminal literally climbed over him to escape.


The series Monk won several awards (six Emmys) and three for Best Comedy Actor for Shalhoub. The actors who supported Shalhoub were also notable, including Ted Levine, who played the police chief (initially unconvinced by Monk's abilities but later becoming a partner); Bitty Schram (as Sharona, Monk's nurse); and Stanley Kamel (Monk's psychiatrist). Bitty Schram left halfway through the third season, reportedly due to failed contract negotiations to increase her earnings. She was replaced by Traylor Howard, who played Natalie until the end. Interestingly, before the series ended, Sharona returned in the tenth episode of the eighth and final season for a sort of farewell.


The fourth season of True Detective earned Jodie Foster an Emmy this year for her performance. However, this fourth season is the worst of True Detective. Set in Alaska, the story is filled with so many absurdities and nonsense that I wonder if the award wasn’t influenced by some external factors.

By the way, I wrote about Jodie Foster and True Detective on February 20th on this blog. Read it and leave a comment.

       
 

domingo, 13 de outubro de 2024

São Paulo às escuras - uma cidade que coleciona decisões equivocadas

A privatização da rede elétrica deu errado

Imagine você assistir uma peça de teatro, com os três primeiros atos iguais. Primeiro ato: choveu, o fornecimento de energia é interrompido. A concessionária não sabe quando vai normalizar o fornecimento. O cliente liga e a concessionária não responde, se esconde, se omite. Segundo ato: choveu, o fornecimento de energia é interrompido. A concessionária não sabe quando vai normalizar o fornecimento... Terceiro ato: choveu, o fornecimento de energia é interrompido. A concessionária...

Parece uma peça de Samuel Beckett. É a realidade em São Paulo. A concessionária responsável pelo fornecimento de energia - a italiana Enel - demitiu 8,4 mil funcionários, entre 2019 e 2023. Mesmo tendo lucro, mesmo ganhando novos clientes, a empresa optou pelas demissões. 

Na sexta-feira, final de tarde, a mudança climática transforma o que seria uma chuva de primavera em minitufão com ventos de até 107 quilômetros por hora. Muros, avisos, árvores, postes não resistiram à tempestade e vieram abaixo. Conclusão: 2 milhões de clientes às escuras. Sete pessoas mortas.

Já aconteceu outras vezes e vai acontecer novamente. O que se esperava era que a concessionária tivesse equipes sobrando para dar conta da emergência. Não tem. Hoje, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, convocou empresas de energia de outros estados para socorrer São Paulo, porque o contingente da Enel foi reduzido e não dá conta da situação. 

Por algum motivo desconhecido, ninguém toma qualquer medida prática. A concessionária, que ganhou a concessão para fazer determinado serviço, não o faz. Mas continua à frente do serviço. A empresa diz que o vento foi muito forte, que choveu muito... Ninguém toma a decisão que seria a mais correta: encerrar a privatização e retomar a estatização dos serviços. Essa medida mataria do coração os editorialistas do Estadão, mas afastaria os incompetentes, que não conseguem prever o óbvio: vivemos uma crise climática e as tempestades serão cada vez mais frequentes. 

Por isso, minha cara Enel, vocês teriam de ter milhares de equipes de emergência a postos. Milhares de caminhões equipados. Milhares de eletricistas treinados à exaustão, para resolver em minutos o que a empresa tem precisado de dias para fazê-lo.

A cidade de São Paulo tem esse nome, por causa de um fariseu turco chamado Saulo. Ele era uma espécie de capitão do mato. Ao invés de negros escravizados foragidos, perseguia cristãos. Ele os prendia, acorrentava e os levava presos para serem torturados e mortos. Aos 28 anos, Saulo se identifica com a fé cristã. Muda de nome. Vira Paulo, o Apóstolo. Escreve 13 livros para o Novo Testamento. É preso pelos romanos e morto, em circunstâncias desconhecidas, depois de o imperador Nero acusá-lo de ter ateado fogo em Roma.

No dia 25 de janeiro de 1554, o padre jesuíta Manuel da Nóbrega sobe a serra e chega ao planalto. Decide iniciar ali uma povoação. Batiza o lugar de São Paulo, por causa do dia santo. A partir desse dia, a cidade tomaria um sem número de decisões errôneas. 

As margens dos rios foram ocupadas por moradias. Quando chove, os rios sobem e inundam as casas. As autoridades, como Prestes Maia e Paulo Maluf, deram preferência ao transporte de veículos particulares, ao invés de investir em transporte de massa (metrô, trens interurbanos, linhas preferenciais de ônibus). Em São Paulo, sair do ponto A e chegar ao ponto B nem sempre dá certo. O trânsito é caótico. Quando os semáforos não funcionam (como aconteceu na sexta-feira à noite), a cidade praticamente para. Pode desmarcar o compromisso, pode esquecer a hora de voltar para casa. Não vai conseguir. 

As construtoras fazem a festa na cidade. A cada dia, surge um novo prédio no horizonte. E a cada novo prédio a qualidade de vida no bairro "vai para a cucuia", como dizem os cariocas ao se lembrarem do cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. São centenas de novos moradores em uma rua onde viviam 50 pessoas. Assim, de agora em diante, serão centenas de novos carros trafegando pelas artérias. Além dos veículos, somam-se as obras infinitas de correção das linhas de abastecimento de água, gás e luz, porque as linhas antigas não darão conta das novas demandas.

Os prédios novos são geralmente feios, sem personalidade. Caixotes sem alma. 

Quando chove, o sistema de captação de águas fluviais não funciona adequadamente. As inundações são frequentes e calamitosas. 

A cidade se desenvolveu na forma de "mancha de óleo" se espalhando pela periferia. É comum o trabalhador perder quatro horas de seu tempo no transporte público. Ele mora na periferia e trabalha próximo ao centro. 

Os parques são raros. A vegetação foi suprimida e trocada pelo asfalto, cimento e vidro. Por isso, faz muito calor em São Paulo. Cria-se o fenômeno da "ilha de calor". Quem está no centro da cidade vive com sete graus a mais de calor do que o morador em área rural.

As crianças não podem mais brincar na rua, porque as ruas de São Paulo são perigosas. Quem chega em casa precisa se certificar que não será atacado por criminosos, antes de abrir o portão.

Em busca de proteção, os moradores transformaram suas casas em bunkers, com muros altos, portões automáticos, concertina na muralha, grades. Onde antes havia um jardim, agora é uma garagem fechada, hermética. 

Finalmente, as concessionárias de energia insistem em manter suas linhas aéreas. Além da poluição visual que significa aquele monte de fios em cima das cabeças das pessoas, basta chover, para cair um galho ou até mesmo a coitada da árvore inteira já desgalhada, para interromper o fornecimento de energia.     

Em algum momento no início dos anos 1960, São Paulo tinha bairros planejados, com infraestrutura adequada. O transporte de massa era feito por bondes e ônibus, que tinham até horário de chegada e partida. 

Veio a industrialização do ABC, as montadoras de automóveis, o crescimento desordenado, a chegada de milhares de migrantes, saídos da miséria de seus estados, em busca do sonho da vida melhor.

Paulo Bonfim, "o príncipe dos poetas", era um apaixonado pela cidade. Ele escreveu:

"Por epitáfio, escrevam apenas sobre meu silêncio, minha primeira e eterna confissão: Eu te amo São Paulo".    

 

segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Pelas areias de Sesimbra

Avenida beira mar em Sesimbra

Para chegar onde estou hospedado em Sesimbra, cidade praiana de Portugal, é bem simples: você deve ir até o bairro Cotovia.

Para isso, é só pegar a avenida João Paulo 2º, passar pelo Beco do Altinho, atravessar na faixa de pedestres com semáforo que fica em frente ao supermercado Coviran e entrar na rua da Cotovia. Cinquenta passos depois se chega na rua Escritora Maria Amália Vaz de Carvalho.

A casinha é simpática, confortável e não se ouve um sinal de vida dos vizinhos. É tudo muito silencioso.

Diferente de Mário de Andrade, que viveu muitos anos na rua Lopes Chaves, sem saber quem ele tinha sido: “nesta rua Lopes Chaves envelheço, e envergonhado nem sei quem foi Lopes Chaves”; procurei saber quem era a escritora Maria Amália Vaz de Carvalho.

Fiquei sabendo que era uma autora polígrafa. Para os ignaros, como eu, que desconhecem o significado do termo polígrafo (associo ao detector de mentiras das séries policiais), vou explicar. Trata-se de alguém que escreve sobre tudo um pouco. É um autor abundante. Fala sobre matérias diversas. No caso, o objeto da minha pesquisa, dona Maria Amália Vaz de Carvalho (1847-1921) é autora de três livros, que ainda estão em catálogo nas boas livrarias do mundo: "Alguns homens do meu tempo”, “Mulheres e creanças” e “Pelo mundo fo’ra”.


Escreveu poesia, conto, novela, crônica, ensaios, crítica literária, biografias e fez traduções. Foi a primeira mulher a ingressar na Academia de Ciências de Lisboa.

Casou-se com um brasileiro (Gonçalves Crespo) e sua casa, em Lisboa, era palco de debates literários e políticos, frequentada pela “intelligentsia” da época.

A Biblioteca Municipal de Sesimbra, na avenida da Liberdade, 46, é um paraíso de ar-condicionado. O verão, em Portugal, pega pesado. As temperaturas batem nos 35 graus. O sol racha as cabeças e o céu não tem uma nuvem, nem uma maldita nuvenzinha. É azul. Um azul royal.

Infelizmente, na biblioteca de Sesimbra não encontrei livros da dona Maria Amália, o que é um descuido imperdoável dos bibliotecários responsáveis. Deveria ter feito um protesto veemente, mas deixei pra lá.

De qualquer maneira, a biblioteca me ofereceu “O capitalismo estético na era da globalização”, de Gilles Lipovetsky e Jean Serroy, um catatau de quase 500 páginas; “Perder-se”, de Annie Ernaux; e “A religião woke”, de Jean-François Braunstein.

Lipovetsky e Serroy escrevem sobre como o capital amansou, dominou e colocou uma coleira de submissão nas artes.

A francesa, premiada pelo Nobel, expõe seu diário íntimo, que relata em detalhes o caso que ela manteve com um alto comissário da extinta União Soviética. O cidadão era casado, comunista e adorava marcas famosas.

Sobre a “Religião Woke” falarei em outra oportunidade neste blog. Aguarde e não te arrependerás.

Passeando pelo bairro da Cotovia, parei em um café para fazer um lanche. Fiz o pedido. O proprietário olhou para mim e disse:

“Você é de São Paulo, não é?”

Marcelo (era o nome dele) está radicado há dez anos em Portugal. Tinha morado em São Caetano, no ABC paulista, e era leitor assíduo de um jornal, onde eu havia trabalhado nos anos 1990 (“Diário do Grande ABC”).

“Era um jornal excelente”, comentou.

Além da idade próxima, duas particularidades nos aproximavam: ambos temos um filho morando na Irlanda e uma filha, em Portugal.

O fato de encontrar um brasileiro em território luso é algo tão corriqueiro, tão pouco espetacular, que humoristas levantam a tese de que o Brasil incorporou Portugal, transformando o país em mais uma de suas unidades federativas.

Só que não. É impressionante como as coisas funcionam bem em Portugal. Para ir de Sesimbra a Lisboa (distância de 40 quilômetros), deve-se pegar um coletivo que passa em determinados horários. Se está marcado 10h46, se você chegar no ponto às 10h47, o ônibus terá ido embora. E se você chegar às 10h30, vai esperar 16 minutos. O transporte público é preciso. Funciona. O ônibus (que eles chamam de autocarro) tem ar-condicionado e cinto de segurança. Ninguém vai em pé. Todos sentados confortavelmente.

Em Lisboa, no metrô, os avisos luminosos informam o horário de chegada do próximo trem (que eles chamam de comboio).

A sensação de segurança é o que mais pega. Vi um vídeo de uma senhora brasileira, quase chorando de alegria, relatando que estava em Lisboa e esqueceu a sacola de compras em uma praça. Desesperada, voltou meia hora depois e para sua surpresa: a sacola estava no mesmo lugar que havia deixado.

Na praia, em Sesimbra, o banhista pode deixar o celular e a carteira de documentos sobre a toalha, entrar no mar e sair horas mais tarde que seus pertences estarão incólumes.

Por isso, esqueça. Portugal não está preparada para ser o 27º estado brasileiro.   

Em tempo: Lopes Chaves (1833-1909) foi senador por São Paulo.  

         

 

        










domingo, 29 de setembro de 2024

Um passeio pela "livraria mais antiga do mundo"

 

Na esquina entre a rua Garret e Anchieta, fica a Libraria Bertrand

No mundo digital, que condenou os papéis à morte, a Livraria Bertrand, em Lisboa, segue mais viva do que nunca. Fundada em 1732, sobreviveu ao grande terremoto que matou 30 mil pessoas na capital portuguesa, em 1755. Sobreviveu a Napoleão. Aos imperadores, aos condes, marqueses, arcebispos, viscondes e duquesas. Passou incólume pela primeira e segunda guerras mundiais. Resistiu ao fascismo de Salazar. E continua viva, em pleno 2024, auge da ditadura digital smartphônica.

Quem sobe pela estreita rua Garret, bairro Chiado, em Lisboa, topa na esquina com rua Anchieta, a Bertrand, localizada nos números 73/75.

O marketing sinaliza, de forma quase discretamente, na vitrine, a informação de que estamos diante da “livraria mais antiga do mundo, segundo o livro Guinness dos recordes”.

Turistas de todas as partes do mundo fazem fila na porta da Bertrand, para fazer a foto com o celular. Os “tuc-tucs” – aqueles triciclos coloridos que levam turistas conhecer os pontos principais da cidade – dão sempre uma parada defronte à livraria, com o condutor gritando em inglês, francês, espanhol, italiano, islandês, japonês, chinês que ali, naquele endereço encontra-se a “livraria mais antiga do mundo”.

Lá dentro, os livros estão dispostos em estantes de madeira, em balcões, estantes. Na entrada, ficam obras de sociologia, poesia, romance e as grandes estrelas da literatura portuguesa. Saramago e Fernando Pessoa dominam as estantes mais privilegiadas.

As atendentes usam um avental com o dístico “Livraria Bertrand”, são poliglotas, educadas e sempre gentis. Quando a gente compra um livro, a moça da caixa (a pedido do cliente) carimba na primeira folha em branco, que aquela obra foi comprada na “livraria mais antiga do mundo”. Para quem duvidar, tem um painel reproduzindo a página do Guinness, que cita a Bertrand.

Entrando um pouco mais, circulando pelos espaços da livraria, encontra-se um sofá preto de couro Chesterfield, para quem quer ler e se sentir confortável, entre milhares de livros.

Ao fundo, um café, com iguarias locais, mesinhas e cadeiras, com mais gente lendo, enquanto toma uma bebida ou come um petisco.

Saindo da Bertrand, quase em frente, fica a Livraria Sá da Costa, que é bem mais novinha que a Bertrand. A Sá da Costa foi fundada em 1913, em cima das cinzas de uma outra livraria, que existia ali e que se chamava Borel & Borel. A especialidade da Sá da Costa eram manuscritos antigos, livros raros e esgotados. O problema é que, diferente da Bertrand, onde predomina a limpeza e a ordem, na Sá da Costa os livros estão amontoados, empoeirados, bagunçados. Lembra um sebo em que o proprietário não sabe mais o que tem e o que não tem. A livraria também é um pouco escura, abafada. As obras nem sempre têm o preço marcado, o que dá aquela sensação de que o valor cobrado seria de acordo com a cara do freguês. Talvez não seja assim, mas parece que é.

Vizinha à Livraria Sá da Costa, encontra-se a Casa Brasileira, um dos cafés mais antigos de Lisboa, fundado em 1905. Originalmente, vendia café do Brasil. Hoje, é um local disputado pelos turistas, que enchem suas mesas, dispostas no meio da rua, em frente ao Largo do Chiado. Os turistas ficam na boa companhia, em bronze, de Fernando Pessoa. O poeta era frequentador assíduo da Casa Brasileira.

        


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Na Irlanda, da cerveja Guinness e dos castelos centenários

 

Subúrbio de Raheny, Irlanda

Estou em Raheny, subúrbio de Dublin (Irlanda).
É verão. Faz sol. Dizem que é raro. O problema sou eu. O sol me persegue. Onde quer que eu vá, fará sol e calor. Sempre. Em Dublin, dizem que é sempre muito frio e chuvoso. Mas, comigo estando lá, fará sol e calor. Não falha.

Nesse dia ensolarado e quente, saio para dar uma volta e comprar jornal. Tem jornaleiro ainda na Irlanda e têm leitores de jornais também. Compro o Independent.

Entro no centenário pub Manhattan – Beer & Food, que fica no número 5 da Station Road (tem 170 anos de existência), e peço uma pint de Guinness.



A Guinness é uma instituição irlandesa. É uma cerveja negra, cremosa, saborosa. Os entendidos dizem que ela é uma cerveja “stout”. Não sei o que significa, o que eu sei é que tomar uma Guinness, em um pub irlandês, é uma experiência inesquecível.

Por falar em cerveja preta, vale a pena visitar o lago da família Guinness, em Lough Tay. É um lago preto (é claro), cercado por montanhas, cenário da série Vikings.

Sentado no pub, que como todo pub irlandês é escuro, tem mesas e cadeiras de madeira estofadas de couro, penso no singular trajeto que me levou do apartamento, onde estou hospedado, até aquele bar, onde aprecio a minha Guinness.

Encontrei no caminho umas dez pessoas: a moça que corria com headfone, o casal de idosos, o rapaz apressado, duas meninas com uniformes de cor cinza de escola conservadora, um casal mais jovem... Todas elas – repito todas elas – me cumprimentaram, desejando bom dia e com um sorriso de quebra.

Sem saber como proceder, meio assustado (há muitos anos que ninguém sorria para mim em uma rua), pensei primeiro em sair correndo, porque talvez estivesse cercado por um bando de malucos, então, decidi devolver o sorriso e o “good morning”.

O bom humor, que parece generalizado, talvez seja proveniente do verde. A cor do país é verde e tudo em volta tem essa cor: são jardins amplos, estradas ladeadas por milhares de árvores e gramados espetaculares. Aqui e ali, aparece uma casa de campo e a maioria é aquele lugar que você sonha viver para sempre.

Na cidade de Wicklow,  que fica a 50 quilômetros da capital Dublin, além de parecer que você está em um filme, porque parece cidade cenográfica, é tudo muito bem cuidado, verdejante, florido.

Percorrendo a rua principal, quase toda vitrine de loja, pub e padaria tinha um aviso de “procura-se ajudante”, “vaga para cozinheiro”, “precisa-se de garçom”.

Essa oferta de empregos é um imã que atrai brasileiros. Eles estão chegando e são milhares. Estávamos em um pub, no centro de Dublin, e meu filho começou a fazer os pedidos, em inglês. O garçom fez assim com a mão (pode parar...), dizendo que era brasileiro.

Sábado à noite, saio para comprar pizzas, em um trailer, que fica próximo da igreja católica Our lady mother. Na produção das redondas, dois rapazes loirinhos. Um deles me pergunta se sou italiano. Digo que não, que sou brasileiro.

“Ah que pena”, ele diz, “se você fosse italiano, ia pedir para nos ajudar aqui”.

Enquanto as pizzas não estão assadas no fogão a lenha, sento em um banco comum, ao lado de um casal. Brasileiro não tem um biótipo comum, mas só de a gente olhar, a gente sabe que o cara é brasileiro.

“E aí, faz tempo que vocês estão aqui?”, pergunto para o casal, que não havia dito uma única palavra em português.

Eles dizem que trabalham com logística, que vieram de João Pessoa (PB) e que estão se dando bem no exterior, sem saudades do Brasil.

As pizzas ficam prontas e são honestas. Massa fina, o molho parece ser de tomate mesmo, a crosta ao redor é crocante e ligeiramente queimadinha, a cobertura satisfatória. Não estamos falando de uma pizza da Speranza, da Cantina de Napoli, mas não sobra um pedaço.

No outro dia, fomos visitar um castelo na cidade de Malahide. O que mais me chamou a atenção foi o fato de a propriedade ter ficado na mão de uma mesma família (Talbot) por 800 anos. O Brasil, pós-Cabral, tem só 524 anos. Do jeito que vai a coisa, o Brasil não deve durar mais cem anos, porque estamos pondo fogo em tudo. Um dia vamos conseguir... Imagine uma mesma família ter mantido sua propriedade por oito séculos. Tudo bem, é um castelo de pedra, frio e úmido, cheio de fantasmas, mas me diga qual castelo não tem fantasma?  

 

 Em inglês:

"In Ireland, Guinness beer and centuries-old castles"

I am in Raheny, a suburb of Dublin (Ireland).

It’s summer. The sun is out. They say it’s rare. The problem is me. The sun follows me. Wherever I go, it will be sunny and hot. Always. In Dublin, they say it’s always very cold and rainy. But, with me being there, it will be sunny and hot. It never fails.

On this sunny and hot day, I go out for a walk and to buy a newspaper. There are still newsstands in Ireland, and people still read newspapers. I buy the Independent.

I enter the century-old pub Manhattan – Beer & Food, located at number 5 Station Road (it’s been around for 170 years), and I order a pint of Guinness.

Guinness is an Irish institution. It’s a black, creamy, flavorful beer. Experts say it’s a “stout” beer. I don’t know what that means, but what I do know is that having a Guinness in an Irish pub is an unforgettable experience.

Speaking of dark beer, it’s worth visiting the Guinness family lake, at Lough Tay. It’s a black lake (of course), surrounded by mountains, and it was the setting for the TV series Vikings.

Sitting in the pub, which, like every Irish pub, is dark, with wooden tables and chairs upholstered in leather, I think about the unique journey that led me from the apartment where I’m staying to this bar, where I’m enjoying my Guinness.

I crossed paths with about ten people on the way: the girl running with headphones, the elderly couple, the hurried young man, two girls in gray uniforms from a conservative school, a younger couple... Every single one of them – I repeat, every single one – greeted me, wishing me good morning with a smile.

Not knowing how to react, a little startled (it’s been years since anyone smiled at me on the street), I first thought of running away, because maybe I was surrounded by a group of crazy people. Then, I decided to return the smile and the “good morning.”

The good mood, which seems to be widespread, may be due to the color green. The color of the country is green, and everything around is that color: wide gardens, roads lined with thousands of trees, and spectacular lawns. Here and there, you see a country house, and most of them are the kind of place you dream of living in forever.

In the city of Wicklow, located 50 kilometers from the capital, Dublin, it looks like you’re in a movie because it seems like a movie set. Everything is very well kept, lush, and flower-filled.

Walking down the main street, almost every store window, pub, and bakery had a sign saying “helper wanted,” “vacancy for a cook,” “waiter needed.”

This job offer is a magnet attracting Brazilians. They’re coming, and there are thousands of them. We were in a pub in downtown Dublin, and my son started ordering in English. The waiter gestured with his hand (as in, "hold on..."), saying he was Brazilian.

On a Saturday night, I go out to buy pizzas from a trailer near the Catholic Church Our Lady Mother. In the pizza-making process, there are two blonde young men. One of them asks if I’m Italian. I say no, I’m Brazilian.

“Ah, what a pity”, he says, “if you were Italian, I’d ask you to help us here.”

While the pizzas are being baked in the wood oven, I sit on a regular bench next to a couple. Brazilians don’t have a common physical type, but just by looking, we can tell the person is Brazilian.

“Hey, have you been here long?” I ask the couple, who hadn’t spoken a word of Portuguese.

They say they work in logistics, that they came from João Pessoa (PB), and that they are doing well abroad, without missing Brazil.

The pizzas are ready and they are decent. Thin crust, the sauce seems to be real tomato, the edge is crispy and slightly charred, and the topping is satisfactory. We’re not talking about a pizza from Speranza or Cantina de Napoli, but there isn’t a piece left.

The next day, we went to visit a castle in the city of Malahide. What caught my attention the most was that the property had remained in the hands of the same family (the Talbots) for 800 years. Brazil, post-Cabral, has only been around for 524 years. The way things are going, Brazil may not last another hundred years because we are burning everything down. One day, we will manage… Imagine a single family maintaining their property for eight centuries. Okay, it’s a stone castle, cold and damp, full of ghosts, but tell me, which castle doesn’t have ghosts?

 


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

No fundo, a gente sente pena do Brasil

 

Momento de extrema elegância entre os candidatos

O debate entre candidatos a prefeito em São Paulo ganhou requintes de pugilato, quando um deles armou-se de um banquinho de pernas longas e investiu contra um oponente. Um momento "lucha libre", como se diz no México. Na luta livre raiz, que o pessoal chamava de "telecatch", nos anos 1960, tinha o Ted Boy Marino, o Fantomas, Mongol, o Caveira... Os lutadores começavam a trocar pancadas no ringue e a briga degringolava e acabava sobrando para a as cadeiras, mesas, que rodeavam a arena de luta. O lutador pegava uma coitada de uma cadeira simplória e a destroçava nas costas do adversário. Era bom demais. A gente torcia para os "mocinhos". Ted Boy Marino era o nosso ídolo. Tínhamos medo do Fantomas, do Caveira e detestávamos o Mongol, traiçoeiro como um escorpião.

Foi inusitado. A TV Cultura, vetusta e traço zero de audiência, sempre protocolar e de sapato apertado, viu sua programação se tornar notícia nacional, depois do debate da noite passada. Na tentativa fracassada de um candidato aniquilar fisicamente seu oponente, o "debate" foi interrompido justamente na melhor parte. Como disse o apresentador Carlos Roberto Massa, o Ratinho, os candidatos estavam na emissora errada. "Vocês têm que vir no meu programa. Lá, pode trocar porrada à vontade. Ninguém vai segurar vocês."

Sinceramente, ninguém quer saber de proposta. A gente cansou dos políticos. A gente quer mesmo vê-los trocando pancada, se matando ao vivo. Se os debates televisivos incluíssem trocas de sopapos e mordidas, safanões e pernadas, a gente assistiria com sorriso nos lábios.

A gente perdeu a paciência com os políticos, porque a realidade brasileira é um filme triste. A maior floresta tropical do mundo queima, queima e queima, transformando o céu do Brasil em cenário de série distópica. O Pantanal, maravilha mundial, está em chamas. O interior de São Paulo foi salvo pela chuva que chegou hoje, mas até ontem era queimada atrás de queimada. 

Por uma inércia do Judiciário, a violência corre solta nas cidades. Todos os dias, é uma sucessão de más notícias: assalto, roubo, latrocínio, homicídio, estupro, furto...

O presidente poderia criar um Ministério da Justiça para tentar minimizar o problema... 

Ah, já tem Ministério da Justiça? 

Ué, e cadê o ministro?

Faz tempo que não ouço a voz do ministro. 

Enquanto isso, o Rio de Janeiro continua sob ataques de facções rivais. Sobra bala pra tudo quanto é lado. Não é "bala perdida". É bala achada, porque encontrou o peito da professora, as costas do menino, a cabeça da menina. Então, você tem zonas dominadas pelo tráfico, pelas milícias e o que foi feito até agora para solucionar de vez o problema? Tentou-se várias alternativas. Nenhuma deu resultado. O problema está lá, continua no mesmo lugar de sempre: populações inteiras, dominadas por um "exército" inimigo. 

Tem o famoso "baile funk", que é feito na rua, com som em volume ensurdecedor. O "baile" é, na prática, local de venda de produtos proibidos. Vários bairros da Grande São Paulo assistem inertes a esses espetáculos da desordem. 

Você pega um país de riqueza natural extraordinária e faz o possível para transformá-lo em um lugar inabitável. 

Como isso ocorreu?

Salários irrisórios. Professores mal pagos, desnutridos emocionalmente, esgotados mentalmente. Acumulação de riqueza. É sempre bom repetir: acumulação de riqueza, acumulação de riqueza, acumulação de riqueza...Exploração territorial predatória e criminosa. Leniência diante das contravenções e da criminalidade: Jogo do Bicho (ah, tudo bem, vai, continua fazendo a sua "fezinha"), loteria do "Tigrinho", corrupção, a Justiça prende e solta, prende e solta. As concessionárias de energia com suas redes açucaradas: cai uma garoinha de nada e elas derretem. 

E o principal problema: os governos não fazem a sua parte. Se o tráfico de drogas é responsável pelo clima de guerra no Rio, por que não se imagina uma solução imediata e definitiva? Durante quanto tempo, vamos continuar enxugando gelo? Será que ninguém tem uma ideia, um coelho que saia da cartola? 

Tudo isso é perda de tempo. Vamos ligar a TV e assistir o debate político na TV. 

Oba! Tem um batendo a cadeira na cabeça do outro... Que elegância, cavalheiro. Que elegância. "Esse é um País que vai pra frente", como já pregavam Dom e Ravel.  


      

   

sábado, 10 de agosto de 2024

A insuportável burrice dos robôs de atendimento

 


No antigo Egito, era fundamental investir no post mortem. As famílias gastavam uma grana na construção de pirâmides, sarcófagos, túmulos... Era necessário. Quando a alma retornasse de seu passeio etéreo, retornava ao corpo e, se o corpo do infeliz falecido não estivesse devidamente embalsamado e dentro de um túmulo adequado, a alma ficaria perdida no espaço pela eternidade. Por isso, os pedreiros que construíam os túmulos eram sempre requisitados. Só que muitos não apareciam no horário combinado. Outros enchiam a cara e caíam embriagados dentro dos sarcófagos. Tinha pedreiro que largava o serviço e pegava outro, mais rentável. O pedreiro era tão mal visto no antigo Egito que o pessoal rogava até praga, envolvendo a profissão: "Que o Demônio te coloque nas mãos de um pedreiro".

O meu "pedreiro" egípcio são esses robôs de atendimento. Toda prestadora de serviço agora optou por abolir os seres vivos e enfiar goela abaixo do consumidor esses atendentes burrinhos e mal-educados. 

Acabou a luz aqui em casa e a CPFL me mandou a seguinte mensagem robotizada:

"Oi, aqui é da CPFL! Tô te mandando mensagem porque você abriu uma solicitação com a gente sobre falta de energia. Então, só pra confirmar, a sua energia já voltou?"  

"Tô te mandando"? Sério. É uma afinidade linguística que não desejo. Então, minha cara robô burrinha, se você está usando a segunda pessoa do plural use-a até o final. E "tô" é o caramba. A conjugação correta é "estou". 

"Estou lhe mandando..."

Mais embaixo, a robô grudenta escreve:

"Brigada pela confirmação! Tchau".

Sem energia em casa, um mau humor generalizado, e a robô vem com "brigada" para cima da gente. 

"Brigada".

O correto é "obrigada", robô nó cega. "Obrigada!"

Em breve, essa robô nojenta vai estar falando: "Magina", querendo dizer, na realidade, "imagine". 

Até a CPFL descobrir que estávamos sem luz, demorou. Foram momentos de agonia e suplício. Você liga para o 0800 da companhia de fornecimento de energia e ouve-se um estalo na linha. Uma mini explosão controlada. Aparece na tela do seu celular várias possibilidades de atendimento.

Uma delas é a que você está precisando naquele momento: Falta de energia.

Você clica e o algoritmo não quer lhe atender imediatamente. Ele acha que como você é um humano desprezível e tem tempo de sobra para perder na vida. Entra em ação um controle de acesso extremamente irritante.

"Clique onde estão as escadas". Você clica. Aparecem hidrantes. "Clique onde está o hidrante". Você clica. Não termina. Aparecem motos, caminhões, ônibus, bicicletas e retornam os hidrantes, as escadas, as faixas de pedestres. É um labirinto cibernético enlouquecedor.

Finalmente, aparecem os espaços para você colocar seus dados. Você coloca e o robô diz que não reconhece sua identidade. Tanto sacrifício, tanta escada, tanto ônibus, para nada. O robô não sabe quem você é, embora a conta tenha sido paga direitinho na data estimada. 

Os robôs não se convencem facilmente que você é você. Eles mandam mensagens para seu e-mail, seu celular. Pedem confirmação atrás de confirmação. E ai de você, se trocou o endereço de e-mail. Perde completamente o acesso ao aplicativo, que deseja ter acesso. Ensinaram para o robô que o endereço do e-mail era aquele. Fim. Você não tem como explicar que trocou de provedor. É a morte, meu caro. Esqueça. Os robôs e Clint Eastwood são imperdoáveis.

Não são apenas os robôs que são burrinhos. Quando a gente tem de lidar com pessoas, o resultado pode também ser muito insatisfatório. Outro dia, precisei falar com o Departamento Comercial de uma das principais redes de TV do País. Ligava para o telefone da empresa e pedia para a telefonista transferir para o Departamento Comercial. Caía em classificados, caía em telefones que ninguém atendia, caía em telefones que se cansavam e desligavam depois de muita insistência. De volta à telefonista, eu pedia, de forma humilde e respeitosa: "A senhora poderia me passar o ramal correto do Departamento, para não voltar a todo momento para a senhora?".

"De jeito nenhum", ela respondia. "O único telefone é este. Somos nós que transferimos para o ramal desejado".

"Tudo bem, senhora. O problema é que até agora, depois de uma hora de tentativa, não consegui ser atendido."

"Paciência", ela disse.




segunda-feira, 29 de julho de 2024

Ho Chi Minh e as narradoras de futebol

 


Ho Chi Minh disse uma vez que metade da sociedade humana é

formada por mulheres. Por isso, elas merecem ter direitos iguais aos 

homens. Ho Chi Minh era comuna. Morreu antes de assistir à 

debacle norte-americana no Vietnã. Não viu os últimos helicópteros 

dos Estados Unidos fugindo da embaixada, carregando os últimos 

refugiados, enquanto os vietcongues ocupavam definitivamente 

Saigon.

Concordo com Ho Chi Minh. As mulheres devem ter mesmo todos os direitos iguais aos homens. Com uma única exceção: elas deveriam abrir mão de narrar jogos de futebol.

Um dos meus derradeiros prazeres sobre o planeta é assistir futebol.

 Se bem que tenho visto mais jogos ruins do que memoráveis. 

Na realidade, são raros os craques, são raras as jogadas de efeito, são

 escassos os momentos de alegria e prazer vindos do futebol atual.

Sem craques, sem partidas inesquecíveis, o apaixonado pelo futebol 

precisa caçar, aqui e ali, para tentar encontrar uma partida que 

mereça ser assistida. Quando isso acontece, em muitos casos, quem 

está narrando é uma moça. O jogo está morno como leite esquecido 

no micro-ondas. Mas ela grita. Grita muito, tentando imprimir 

emoção a jogadas banais. A bola é chutada bem lá em cima e a moça 

usa toda a força da garganta para informar o óbvio: a bola não 

alcançou o alvo. Longe disso. Bem longe.


Antes de morrer, o locutor Silvio Luiz declarou, em uma entrevista, 

que mudava de canal, quando o jogo era narrado por uma mulher. 

Silvio Luiz foi um dos melhores narradores de futebol. Tinha 

bordões divertidos (“olho no lance”). Homenageava locutores do 

passado. Com seu estilo personalíssimo, nunca foi cogitado para 

trabalhar na Rede Globo. Em 1982, durante a Copa, a Record não 

tinha os direitos de transmissão. A emissora então apostou em Silvio 

Luiz. A propaganda pedia para o público ligar a TV na Rede Globo, 

desligar o som e ligar na Rádio Record, para ouvir a narração de 

Silvio Luiz. Foi um sucesso imenso. Na época, durante os protestos

contra a Ditadura Militar, os manifestantes gritavam nas ruas: “o povo não é bobo, fora Rede Globo”. O público associava a Globo ao regime militar (na prática, a emissora fazia o papel de relações públicas do regime de exceção) e por isso participava com prazer no boicote aos narradores globais.

No fim da vida, Silvio Luiz percorreu caminho inverso. Saiu da  

faixa guerrilheira e optou por rejeitar as mulheres narradoras.

De minha parte, acredito que mais narradoras irão surgir e entre as 

próximas estrelas haverá mais diversão e menos gritos. Vou dar boas 

risadas com os bordões, com as sacadas e vida que segue.

Tomara que o mesmo aconteça com o futebol. A primeira medida 

urgente seria impedir a exportação de craques infantis, adolescentes 

e com idade de servir o Exército. O craque aparece. A torcida se 

inflama. Aprende o nome dele. Começa a gritar na arquibancada e – 

de repente, não mais que de repente – o garoto está em Madri, sendo 

apresentado pelo presidente do clube bilionário.

Pode isso, Arnaldo? 


terça-feira, 9 de julho de 2024

O manifesto lésbico da série Deadloch

 

Série australiana foi vista por milhões e terá agora uma segunda temporada

Estreou em 2023 pelo streaming (Prime). Fez sucesso e, conforme foi anunciado hoje, vem aí mais uma temporada. É "Deadloch", a série australiana, escrita por duas Kates: Kate McCartney, 43 anos, e Kate McLennan, 44 anos. McCartney é noiva da militante LGBT+ Sally Rugg; e McLennan vive com Joel Elbourne, com quem teve uma filha. 

"Deadloch" brinca com a expressão inglesa "deadlock", que significa impasse, quando os processos jurídicos não podem ir para a frente. A história se passa em uma cidadezinha da Tasmânia (ilha situada na costa sul da Austrália), chamada "Deadloch". Duas detetives investigam mortes de homens brancos e héteros. Uma das detetives é certinha e segue o manual. A outra cria suas próprias regras e não segue qualquer manual. 

A exemplo da série estrelada por Jodie Foster, na quarta temporada de "True Detective", os homens retratados nos episódios de "Deadloch" são grotescos, inúteis, agressivos, ingênuos, bêbados, falsos e sabe-se lá mais quantos adjetivos pejorativos a gente poderia elencar. Não há em "Deadloch" um único homem decente, em quem a gente poderia chamar para ser padrinho do nosso casamento. 

A figura masculina mais simpática, gentil, empática e colaboradora é homossexual. Os homens héteros, que detêm o comando, são absolutamente incompetentes e só atrapalham a investigação das duas detetives. 

O pior desempenho fica por conta de Madeleine Sami que vive a detetive maluquete "Eddie Redcliffe". No papel de uma policial boca-suja, mal vestida, sem modos, de temperamento irascível, ela é o protótipo da caricatura. Não convence.

Muito melhor está Kate Box, fazendo a policial certinha "Dulcie Collins". Ela parece mesmo uma detetive ciente de seus deveres, a todo momento atrapalhada pela equipe, que parece mais preocupada com detalhes inúteis e corriqueiros do cotidiano do que com a investigação propriamente dita.

Na série, a doidinha "Eddie" é hétero; e a dedicada "Dulcie", lésbica. "Dulcie" é casada com uma militante do bem-estar, envolvida em cruzadas do politicamente correto. Provavelmente, muito do personagem de "Dulcie" deve ter sido inspirado na vida da autora Kate McCartney, que, como foi dito acima, é casada com uma militante LGBT+. 

Os diálogos entre as duas esposas evocam a dificuldade crescente de se manter uma relacionamento matrimonial estável, seja ele lésbico, hétero, trisal etc. As duas se amam, mas, como brigavam muito, quando viviam em Melbourne (no continente australiano), decidem se deslocar por cerca de 500 quilômetros e refazer a vida em uma vilarejo da Tasmânia. 

O ponto alto da série são as brigas do casal "Dulcie" e "Cath" (Alicia Gardiner). "Dulcie" ama a profissão e quer continuar na carreira de detetive, mas a esposa "Cath", que é veterinária, advogada, cozinheira e pau pra toda obra, sente ciúmes da profissão da companheira e tenta podá-la, o que deixa nervos expostos na relação da duas. 

Para atrair a atenção de turistas, a prefeita de "Deadloch" cria atrações diversas, a maioria voltada para o público LBGT+, o que transforma o vilarejo em uma sucursal da Ilha de Lesbos. 

Em meio à diversidade de gênero, vivem os locais - os aborígenes - expulsos de suas terras e relegados a trabalhos de servidão, o que provoca revolta e animosidade cívica. Situação muito semelhante à exposta em "True Detective 4". No caso da série estrelada por Jodie Foster, os esquimós são os excluídos, em busca de vingança.

"Deadloch" tem oito episódios. Apesar da péssima interpretação de Madeleine Sami, o suspense até acontece. O enredo sugere um manifesto lésbico-feminista, mas é possível assistir a primeira temporada com olhar beneplácito. 


"The lesbian manifesto of the Deadloch series"

It premiered in 2023 on streaming (Prime). It was a success, and as announced today, another season is on the way. It’s Deadloch, the Australian series written by two Kates: Kate McCartney, 43, and Kate McLennan, 44. McCartney is engaged to LGBT+ activist Sally Rugg, and McLennan lives with Joel Elbourne, with whom she has a daughter.


Deadloch plays on the English expression "deadlock," which means a stalemate, when legal processes cannot move forward. The story takes place in a small town in Tasmania (an island off the southern coast of Australia) called Deadloch. Two detectives investigate the deaths of white, heterosexual men. One of the detectives is by-the-book and follows the manual. The other creates her own rules and doesn’t follow any manual.


Similar to the series starring Jodie Foster in the fourth season of True Detective, the men portrayed in Deadloch are grotesque, useless, aggressive, naive, drunk, fake, and who knows how many other pejorative adjectives we could list. There isn’t a single decent man in Deadloch whom you could call to be the best man at your wedding.


The most likable, kind, empathetic, and cooperative male figure is homosexual. The heterosexual men in charge are utterly incompetent and only hinder the investigation carried out by the two detectives.

The worst performance comes from Madeleine Sami, who plays the quirky detective "Eddie Redcliffe." In the role of a foul-mouthed, poorly dressed, ill-mannered, and hot-tempered police officer, she is the epitome of a caricature. She fails to convince.


Much better is Kate Box, playing the by-the-book officer "Dulcie Collins." She truly seems like a detective aware of her duties, constantly hindered by her team, which seems more concerned with useless and mundane daily details than with the investigation itself.

In the series, the quirky "Eddie" is heterosexual, and the dedicated "Dulcie" is a lesbian. "Dulcie" is married to a wellness activist involved in politically correct crusades. Likely, much of "Dulcie’s" character was inspired by the life of writer Kate McCartney, who, as mentioned above, is married to an LGBT+ activist.


The dialogues between the two wives highlight the growing difficulty of maintaining a stable marital relationship, whether lesbian, heterosexual, throuple etc. They love each other, but because they fought so much while living in Melbourne (on the Australian mainland), they decided to move about 500 kilometers away and start over in a small village in Tasmania.


The highlight of the series is the fights between the couple "Dulcie" and "Cath" (Alicia Gardiner). "Dulcie" loves her job and wants to continue her career as a detective, but her wife "Cath," who is a veterinarian, lawyer, cook, and jack-of-all-trades, feels jealous of her partner’s profession and tries to curb it, which exposes raw nerves in their relationship.


To attract tourists, the mayor of Deadloch creates various attractions, mostly aimed at the LGBT+ audience, turning the village into a branch of the Isle of Lesbos.


Amid the gender diversity, the locals—the Aboriginal people—live expelled from their lands and relegated to servile work, which provokes outrage and civic animosity. A situation very similar to that depicted in True Detective 4. In the series starring Jodie Foster, the Inuit are the excluded ones, seeking revenge.

Deadloch has eight episodes. Despite Madeleine Sami’s poor performance, the suspense does work. The plot suggests a lesbian-feminist manifesto, but it’s possible to watch the first season with a benevolent eye.     

  

domingo, 2 de junho de 2024

Nem toda "editora" merece ser chamada de editora

 

Livraria Lello - dizem que é uma das mais belas do mundo

Você está navegando sem compromisso pela rede social e topa com um anúncio que lhe interessa: "Editora procura novos autores". Você entra em contato. A "editora" responde e você percebe que não se trata, na realidade, de uma editora convencional. Na prática, eles publicam a sua obra, desde que você (o autor desavisado) pague. 

Aconteceu comigo. Quando percebi que se tratava de publicação paga, tirei o time de campo.

Semana passada, tive um debate acalorado, por e-mail, com uma representante de uma suposta editora (não vou divulgar o nome para dar publicidade a quem não merece). 

Essa representante da "editora" me perguntou se deveria aguardar ou se podia excluir a minha submissão (eu havia encaminhado um manuscrito).

Respondi o seguinte:

"Na realidade, (...) não é uma editora, mas se trata de uma gráfica. Seria melhor e evitaria aborrecimentos, se a empresa deixasse isso claro em suas manifestações de marketing."

A pessoa, que fala em nome da "editora", respondeu que sabia quem era e explicou que "gráficas somente imprimem. Editoras editoram, editam, de fato, trazem diagramação, capas, registros, publicações ainda que não impressas. Não compreendi seu comentário, muito menos sua dúvida, mas fico aqui para saná-la".

Argumentei que "sei o que é uma editora e sei também o que é uma gráfica. As editoras que publicaram meus livros não cobraram pela edição. Foram produzidas capas, foi feita a revisão e o produto lançado no mercado. Quando os livros são vendidos, recebo pontualmente a porcentagem que cabe ao autor. É assim que funciona uma editora".

O meu argumento não serviu para esclarecer a pessoa. Ao contrário, parece tê-la ofendido. Ela respondeu:

"Está dizendo para uma editora como uma editora funciona? Para uma editora que atua em 23 países e há quase 10 anos? Por favor, e com todo o respeito, ponha-se em seu lugar. Se as editoras que o senhor já trabalhou funcionam assim, agradeça aos impostos pagos; são editoras financiadas por órgãos públicos (em raros casos, particulares). Tenha certeza que não deixaram de te cobrar, porque são legais ou bondosos, basta raciocinar. Somos sim uma editora (a palavra editora em vermelho sangue no e-mail original), não temos financiamento algum (mas trabalhamos junto a autores financiados) e fazemos um excelente trabalho!". 

Ela ainda pediu para eu não "espalhar informações falsas mundo afora", porque o meu pensamento era limitado. "Conte conosco", encerrava o e-mail.

Minha resposta foi breve:

"Uma editora NÃO cobra o autor pela impressão de sua obra. Uma gráfica COBRA. Simples assim."

 Toquei em algum nervo descoberto, porque o e-mail seguinte veio espumando de puro ódio:

"Jornalistas não devem fazer pesquisas? O jargão 'vergonha da profissão' nunca foi mais bem usado do que aqui. Pode ser que um belo dia, você não dê de cara com alguém tão bem humorado como eu (no original "bem humorado" no masculino, embora o e-mail da representante da editora estivesse usando um nome feminino) Suas falsas acusações e insistências - que se originam em sua falta de noção, educação e vergonha - podem te levar a um processo, cuidado. Expliquei, porque não espero que saiba de direito, tendo em vista..." Terminava assim mesmo, meio no ar.

Não sei por que insisti em buscar esclarecê-la. Escrevi o seguinte:

"Desculpe, mas você está sendo muito agressiva comigo. Em nenhum momento, lhe desrespeitei. Estou tentando lhe explicar que existe uma diferença entre uma editora que seleciona manuscritos e os publica; e uma gráfica que cobra para fazer a impressão. Quando a sua 'editora' fizer publicidade e pedir que lhe sejam enviados manuscritos, deve deixar claro que se trata de publicação paga. Isso evitaria embaraços como este que estamos passando. Em relação ao processo, que você está me ameaçando, é via de mão dupla".

A suposta "moça" da "editora" resolveu bater pesado:

"Teve culhões para alegar por 3x que não somos uma editora, pois tenha culhões para ser respondido. Te dei as informações necessárias já no dia de ontem, o senhor tem o Google a sua disposição e INSISTIU em nos desrespeitar. Mais uma vez: empresas privadas cobram o valor que desejam para fazer QUALQUER serviço.
Isso NÃO desconfigura o CNAE da empresa. Não somos uma ONG!!! EDITORAS EDITAM - GRÁFICAS IMPRIMEM.
Ainda está difícil de compreender, me parece...Isso não é uma questão de opinião. Fatos são fatos. E fatos são comprovados na justiça, como bem informei. Apenas, PARE. E não me retorne mais, pois o senhor desconhece o que é limite e respeito, o que é uma pesquisa, o que é bom senso, o que é uma editora, uma gráfica, uma ONG, e segue..."

O tal do CNAE mencionado significa Classificação Nacional de Atividade Econômica. Como o nível estava beirando a sarjeta, decidi não retomar a discussão. 

Fiz uma busca no Reclame Aqui e em outros locais e verifiquei que essa "editora", em questão, é taxada de "falta de profissionalismo". Outros autores reclamam do assédio, do excesso de e-mails enviados a eles, mesmo não desejando receber comunicados da "editora". 

Uma associação internacional chama atenção para "editoras predatórias", "com práticas suspeitas e de qualidade editorial duvidosa, mas que garantem, sempre mediante o pagamento de taxas, a publicação rápida do trabalho, normalmente sem qualquer revisão por pareceristas". E, em especial, a associação qualifica a "editora", com a qual tive o desprazer de um "debate", como "predatória".

Como sou só um autor, "sem grana, sem parentes importantes" e vim para o interior, acredito que caberia à Câmara Brasileira do Livro, que representa editores, livreiros e profissionais do setor, selecionar o que são editoras de fato e essas supostas "editoras", que utilizam o nome de editora, mas que na prática são apenas gráficas que imprimem o material pago pelo autor. 

As gráficas hoje têm excelência em sua atuação. Inúmeras gráficas fazem diagramação, escolhem capas e realizam até a revisão de trabalhos manuscritos. Não há ofensa alguma em chamar uma empresa, que imprime livros, de "gráfica". Mas uma gráfica é diferente de uma editora. São papéis diversos que elas interpretam.

Como disse em minha arguição à representante da suposta "editora", as editoras de fato são extremamente profissionais. O manuscrito é selecionado. Os editores solicitam uma ou outra alteração. O original é revisado. Em seguida, as capas são produzidas e encaminhadas para a aprovação do autor (ou para conhecimento dele). Publicados os livros, à medida que as vendas são realizadas, o autor recebe o equivalente a dez por cento do preço da publicação. É assim que funciona uma editora.

Espero que a Câmara Brasileira do Livro, com tantos e importantes serviços em prol de autores, separe o joio do trigo (para usar uma expressão nova), normatizando o mercado. Não dá mais para os autores encaminharem seus manuscritos (às vezes, o que representa um trabalho de anos) para "editoras" que, na realidade, atuam como gráficas.

  




A primeira travesti do Bois de Boulogne

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