domingo, 17 de setembro de 2023

Telejornal brasileiro tem vocação de carpideira midiática

 


Nas praias de Portugal, a gente recebe aulas de moral e cívica. Não são aquelas aulas que tínhamos antigamente, ministradas por um professor de terno e gravata pretos, saído dos confins da ditadura. A aula de moral e cívica é lecionada por aquela moça que tira a parte de cima do biquíni e faz topless na areia, sem ser incomodada, sem que moleques lhe façam mira com areia molhada. Outros professores são aquelas pessoas, ao redor, que observam o rapaz deixar o celular e a carteira com documentos sobre a camisa, enquanto entra no mar para se refrescar do calor. Na volta, o celular e os documentos estarão no mesmo lugar. Intocáveis. No fim da tarde, os frequentadores da praia nos passam outra lição de moral e cívica: nem um único objeto estranho é largado na areia. Eles vão embora e não se veem copos, garrafas, restos de comida, embalagens, bitucas. Nada. A praia está limpa, como se uma equipe de limpeza tivesse passado por lá e trabalhado criteriosamente.

De volta ao Labirinto do Fauno, made in brazil, o céu é azul. Os termômetros ficam na casa dos 30 graus. É um clima quente, convidativo, típico de país tropical. A natureza é exuberante. Está tudo certo ao redor, mas nada funciona como deveria. 

O telejornal matutino brasileiro se parece com aquelas carpideiras, do passado, que ganhavam a vida chorando defuntos estranhos. O telejornal chora e faz chorar. A mulher precisa ser operada, mas a operação de emergência foi cancelada. A mãe teria que pegar o remédio da criança doente, só que o posto de saúde não tem o medicamento. Ladrões roubaram os fios e, por isso, os trens e o metrô ficaram paralisados, suspendendo a vida de milhares de trabalhadores. O jovem casal está passeando na rua, voltando da escola, quando surge um criminoso de motocicleta e rouba os pertences de ambos. Antes de ir embora, dá um tiro certeiro na cabeça do rapaz, matando-o instantaneamente. O carro não para no bloqueio policial e o agente desfere um tiro de fuzil que vai matar a criança, sentada na cadeirinha do banco de trás. 

São Paulo é um caso particular de cidade disfuncional. Nada parece dar certo. O telejornal, apresentado por um quarentão de óculos e terno sóbrio, chora e faz chorar. Repórteres aparecem na tela para confirmar que nada está nos conformes. Eles relatam histórias tristes: carros que vivem parados em congestionamentos crônicos; metrô, trens e ônibus que vão oferecer uma surpresa ao passageiro e ela será sempre desagradável. A equipe do telejornal está agora em um hospital público municipal. O repórter ouve a senhora que rodou 34 quilômetros de uma ponta a outra da cidade em busca de atendimento. São queixas múltiplas, diversas: de omissão, de descaso, de falência estrutural. A gente sabe qual será o resumo: o atendimento que a cidade oferece a seus munícipes é lastimável, precário, acintoso. O telejornal continua seu choro diário: agora, são os furtos de celular. Ao que tudo indica, para ser morador de São Paulo o principal requisito é ter o celular roubado. A cena mostra um esmolambado se esgueirando na rua até se aproximar de um carro, "estacionado" no congestionamento. Ele explode o vidro, usando o cotovelo, embrulhado em um casaco, pega o celular do motorista e sai em disparada. 

A cereja do bolo é a Cracolândia. A Cracolândia lembra aqueles filmes de mortos-vivos. Os tipos se arrastam nas ruas, carregando restos de roupa, pedaços de cobertores, zanzando a deus dará em busca da droga. São milhares de dependentes. Homens e mulheres com aparência de quem está no limite de suas forças. Em agonia. No extertor. Por onde passam, deixam um rastro de destruição. É lixo que não acaba mais. O poder público, que talvez devesse mudar de nome em São Paulo e ser chamado de "falta de poder público", manda a Guarda Metropolitana empurrar os mortos-vivos para lá e para cá. Os lixeiros recolhem a sujeira e lavam as ruas. Naquele dia mesmo à tarde, vai estar tudo sujo e emporcalhado novamente. A polícia, em seu trabalho de enxugar gelo, prende um traficante, recolhe x pacotes de crack, de maconha, de ecstasy, de sabe-se lá o que mais. Mas a droga continua chegando na Cracolândia. Um ex-prefeito tinha dado hora e dia para pôr fim à Cracolândia. Foi o mesmo que, quando eleito governador, prometeu tornar o rio Pinheiros tão limpo que a gente poderia até nadar em suas águas translúcidas. A Cracolândia continua no lugar de sempre e o Pinheiros, um rio de imundície fedorenta. 

É duro você viver toda a sua vida em meio a tanta desordem, desorganização, sujeira, vendo sua cidade ser vandalizada pela contínua e destruidora especulação imobiliária, que promove a gentrificação urbana, mexendo no Plano Diretor da cidade, como se fosse a casa da mãe Joana. Aumenta o tamanho do prédio. Destrói a vila. Enfia prédio de 40, 50, 100 andares naquela rua de 10 metros de largura até atolar o rabo da pobre Piratininga. 

Amanhã, pontualmente, pode ligar a TV. O apresentador de terno sóbrio e óculos, que impõem respeitabilidade, vai fazer o de sempre: chorar e fazer chorar, como a carpideira midiática da era da inteligência artificial.  

        

   

terça-feira, 12 de setembro de 2023

As tascas portuguesas e sua excelência

 

Restaurante João, em Sesimbra, é acolhedor e a comida deliciosa

Os portugueses chamam de "tasca" aquele restaurante modesto, geralmente administrado por uma família, que serve pratos típicos. A tasca é uma experiência inesquecível. Do lado de fora, você olha aquilo que parece um boteco, mas é restaurante, e decide entrar para ver o que acontece ali dentro. Na maior parte deles, não tem computador, nem tablet, nem maquininha de débito e crédito. O dono do restaurante vem até a sua mesa e oferece o cardápio. Na cozinha minúscula, sem qualquer aparato Masterchef, é a mulher que está dando duro. Às vezes, ocorre o inverso. A mulher atende os clientes e o marido capricha no menu.

A tasca do João, na cidade praiana de Sesimbra, tem meia dúzia de mesas. A decoração é primitiva e aquilo que o Sebrae ensina de "causar uma sensação" no visitante não se encontra por lá. Então, vem a comida: uma bacalhoada inacreditável por meros 12 euros. Cerca de 60 reais. O bacalhau vem imerso em azeite de qualidade e o acompanhamento de batatas, exemplar. Tem peixe espada. O salmão é um deslumbre. Sem falar das gambas, que é um tipo de camarão, que a cozinha portuguesa faz com curry e ilumina um rosto triste.

Em Sintra, Coimbra, Óbidos, Lisboa... Não importa a cidade. Se você vir uma tasca, entre e viva a experiência. Vai ser um show dos Beatles ao vivo dentro do seu palato. 

Na hora de pagar a conta do Restaurante do João, você estende seu cartão de débito (ou de crédito) e ele meneia a cabeça. Muitas tascas e até alguns restaurantes recusam-se a aceitar cartões bancários. A solução é simples: "O sr. saia daqui e desça ali na frente que tem um Multibancos". Multibancos é como eles chamam os caixas 24h. Têm por todas as cidades. Ninguém explode. Ninguém faz "saidinha". É uma tranquilidade assustadora. 

Batedores de carteira, que assombram a Itália e França, podem até existir em grande número em Portugal, mas nas semanas que estive por lá, circulando pelo país, não vi uma única cena de violência ou constrangimento físico. Pode até não ser, mas a caminhada, o passeio das pessoas, aparenta muita serenidade, como se vê no exemplo daquelas meninas levando o celular preso por um cordão fino, balançando nas costas.

O bom mesmo em uma viagem é você cometer aquela gafe primordial. Entramos em uma loja de vinhos, no Azeitão, para comprar um moscatel e um vinho do Porto (3 a 6 euros a garrafa), e vimos aqueles copos com um dedal de vinho, postados sobre um barril. Imaginei que fosse para degustação. Fui como uma flecha na direção do vinho e emborquei o primeiro. Nisso, a senhora que estava no caixa veio correndo na minha direção: "Please, don't do this", ela falou em inglês, imaginando que eu fosse sabe-se deus lá o quê. Não era vinho para degustação. Aliás, até era. Mas já tinha sido degustado. Eram restos, deixados pelo cliente anterior. Um vexame.

No Azeitão, visitei a estátua do professor Carlos Alberto Ferreira Júnior, que aparece em bronze, na calçada, caminhando. Ou "a caminhar", como diria o português. O professor foi afastado do ensino pela ditadura salazarista e só retomou seu posto, depois da Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974. 

Do outro lado da rua, tem uma patisserie francesa - "Aux Fins Gourmets". O chef chama-se Christopher. E faz todos aqueles doces típicos franceses: éclair de chocolate, de baunilha e até uma delícia sofisticada de pistache; macarons coloridos; tarte tatin; profiteroles. Você está na freguesia do Azeitão, rodeado de vindimas e de um depósito gigantesco de tonéis de vinho Periquita, do secular fabricante José Maria da Fonseca, e assim, sem mais nem menos, entra em uma boulangerie francesa, com o perfume característico daquela boulangerie inesquecível que ficava no 17, em Paris. São essas surpresas de bom tom que Portugal nos traz.        

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

Brazucas de 20 a 30 anos escolheram Portugal para viver

 

Livraria Bertrand, "a mais antiga do mundo"

Onde você vai, não importa o lugar, pode ser um restaurante, um bar, o supermercado, o barbeiro, o cabeleireiro, a sorveteria, a loja que vende lembranças, fatalmente, você encontrará um brasileiro. Eles são jovens. Têm entre 20 e 30 anos e escolheram Portugal para viver. São eles que irão lhe atender e a pergunta que segue é sempre a mesma: "De que cidade você vem?". Não é preciso dizer que você é brasileiro, porque, pelo sotaque, eles já sabem.

Se você sair da Livraria Bertrand, na valorizada rua Garret, bairro Baixo Chiado, centro de Lisboa, onde um apartamento modesto custa a bagatela de 3 milhões e 400 mil euros, virar duas ruas à esquerda, descer uns 60 metros, você encontrará um restaurante italiano que serve uma pizza margherita excepcional. Terminada a refeição, você vai até a cozinha e cumprimenta o chef: "Parabéns, sua pizza estava ótima".

"De qual cidade?", ele pergunta. Você responde: "São Paulo" e ele sorri e completa: "Vocês, paulistas, sabem reconhecer uma pizza de qualidade". 

"E você, chef, de qual cidade?"

"Vitória, Espírito Santo".

Esse diálogo irá se repetir vezes sem conta, em tudo quanto é estabelecimento comercial: "Maringá", "Recife", "São Paulo", "Santos", "Brasília", "Porto Alegre", "Rio", "Goiânia"...

Você descobre que a garotada, a nossa jovem mão de obra, arregaçou as mangas e está dando duro em Portugal. É bonito de se ver o brilho nos olhos, a vontade de vencer e é triste também. Como disse alguém o portão de embarque internacional virou o trampolim que lança nossos filhos para outros países.

Pode haver um país tão subestimado quanto Portugal, mas mais do que Portugal e os portugueses será difícil encontrar. As ruas são limpas. Alvo de piadas eternas, Portugal, como disse uma moradora local, "é o jardim da Europa".

Os ônibus chegam no horário previsto, com pontualidade inglesa (pelo menos da Inglaterra de antigamente). As estradas, amplas, bem sinalizadas e sem um mísero buraco. Tapetes de asfalto que cortam o país de cima a baixo. 

Estava hospedado em um bairro próximo de uma praia. A 400 metros de casa, havia um ônibus que levava os veranistas para a orla. Transporte público de qualidade. E grátis! Com direito a ar condicionado e música ambiente. Quem pega o ônibus intermunicipal, com destino a Lisboa, descobre que os assentos tem cinto de segurança. O ar condicionado funciona em volume máximo e o coletivo sai, pontualmente, às 10h20. Se você chegar às 10h21, perdeu, playboy.

As cidades e os campos são bem cuidados. Percebe-se que há uma ordem, uma disciplina e organização por trás da zeladoria. Próximo da casa onde estava hospedado, havia uma horta comunitária. O funcionamento é simples: você vai até a prefeitura e diz que quer plantar alimentos. O poder público lhe cede um espaço no terreno e você fica à vontade para enfiar a mão na terra e plantar e colher pés de alface, agrião, rúcula selvagem, batatas, tomates, couve. Só tem um porém: você não pode revender sua colheita. É apenas para uso da família que ganhou aquele espaço. Hortas comunitárias semelhantes espalham-se pelo país. Por volta de 20h, com luz ainda solar, você vê o pessoal dando duro nos canteiros. Molham, arrancam as ervas daninhas, adubam, veem as mudas crescer.

De volta a rua Garret, você descobre a Livraria Bertrand, "a mais antiga do mundo", diz a placa do Livro Guinness dos recordes, "em funcionamento desde 1732". Você compra um livro e ganha um carimbo com a garantia Guinness de longevidade. Em Mafra, a biblioteca do Palácio Nacional é de lhe deixar com o queixo caído. São 30 mil volumes, conservados por três espécies de morcegos que se alimentam diariamente das pragas que comem os livros. Tem as primeiras bíblias e enciclopédias, partituras raras. "É um monumento ao saber", de fato, como diz o folheto promocional.

Em Coimbra, da universidade famosa, outra biblioteca majestosa, decorada com ouro (dizem que era do Brasil), com estantes recheadas de 70 mil volumes, pinturas, obras raríssimas. Você se emociona. Você sente vontade de sentar na mesa mais próxima e começar a ler aquilo tudo. Até o fim da vida.

Pode ser falsa impressão, pode ser coisa de viajante de primeira viagem, mas a imagem que o povo português passa é de acolhimento, educação e carinho ao viajante de outro país. Em Sintra, o dono do restaurante, espaço ocupado naquele momento por 90% de turistas espanhóis, aproxima-se da mesa, com o pano de prato na mão e o avental característico, pergunta para nós: "Portugueses?". "Não, senhor, somos brasileiros". Ele sorri e diz: "Então, somos todos da mesma família".


    

 

quarta-feira, 3 de maio de 2023

A mídia acordou para a verticalização do caos

 

Imagem mostra conjunto de casas cercado por prédios no Campo Belo

Como o personagem "Dirty Harry", o capital não perdoa: atropela e mata quem fica na frente. São Paulo continua sob o domínio perverso do capitalismo imobiliário. É a verticalização do caos. Mais prédios, mais carros, mais gente, mais cabos e postes, mais redes de esgoto e de água, mais asfalto, mais cimento, mais andaimes, mais obras e mais, mais, mais e mais. 

Não sei por que (ou talvez saiba), nos anos 1980, era quase impossível emplacar uma reportagem sobre as desgraças da verticalização enlouquecida. Não era só na imprensa "tradicional". Também na alternativa havia restrições. Lembro quando era repórter de um jornal chamado "Em Tempo" propus a pauta da verticalização para um editor e ele negou. Disse que havia mesmo necessidade de se construir prédios, "senão as pessoas não vão ter onde morar".

Parece um argumento lógico, ocorre que a construção de um prédio gigantesco, ao lado de sobrados ou de residências térreas, provoca um colapso na qualidade de vida, transformando o que era bom em algo insuportável.

Entre 1982 e 1984, fiz uma pesquisa em um bairro. As narrativas que ouvi eram desesperadoras:

"Aconteceu o seguinte: caiu um elevador em cima do meu telhado. Um elevador cheio de tijolos. Caiu e arrebentou todas as telhas, as vigas, o forro, tudo. Nós não morremos aqui pela graça de Deus. Quer dizer, eu não morri, porque a minha senhora estava boa e ficou doente de tanto desgosto. Foi essa obra que acabou com a vida dela. Ela gostava muito da casa e era um desgosto para ela ver cair cimento, pedaços de madeira, tudo quanto era porcaria em cima da gente. Os caminhões que carregavam cimento afundaram toda a minha calçada (...) Um dia, caiu um guindaste no meu quintal. Não aguentei. Fui na prefeitura e veio um fiscal aqui. Olhou, olhou e me mandou arrumar um advogado".

 Outro entrevistado reclamava da violência dos incorporadores:

"Esquecem que nós temos direitos adquiridos, porque já moramos aqui há anos. (...) Eles jogam telhas, ferramentas, madeiras, sacos de cimento. Caiu essa mercadoria toda aqui no meu quintal. Nós tínhamos uma galeria de servidão de água e eles simplesmente cortaram a saída do coletor e o nosso quintal, depois da chuva, encheu que ficou parecendo uma piscina. Tivemos que gastar uma fortuna para desviar essa água para outro lugar. Eles trabalhavam direto, de segunda a segunda, de noite, de madrugada, o tempo todo. Reclamei. Chamei a polícia por causa do barulho. Vieram aqui. Foi uma confabulação. E no fim foram tocando, sem respeitar a lei do silêncio, coisa nenhuma desse tipo".

Ednam Leme da Costa Júnior apresentou um trabalho sobre a especulação imobiliária na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo), intitulado "A produção da arquitetura de especulação imobiliária". Ele escreve:

"O critério da implantação dos edifícios de apartamentos é o da expulsão das residências. Áreas residenciais de nível econômico relativamente elevado e próximos aos setores de serviço, que conseguiram o seu desenvolvimento uma infraestrutura bastante completa, são invadidas e transformadas, em curto espaço de tempo. O objetivo da invasão é o lucro imediato".   

O bairro residencial transforma-se em um lugar repleto de tensão e desassossego, conforme uma moradora percebia:

"Trânsito engarrafado, poluição, pessoas que estacionam o carro na frente do meu portão e trancam o carro sem a menor cerimônia, como se a guia rebaixada não existisse, barulho. Estou arrependida e pensando em me mudar. O bairro foi ótimo. Está péssimo".

Outro constatava com tristeza:

"Este prédio foi um transtorno. Teve muita briga entre a construtora e os moradores vizinhos, porque eles trabalhavam dia e noite. E caía pedaços de madeira aqui em casa. Foi um inferno. Depois que ficou pronto, tirou o sol da frente de casa e a rede de esgoto não deu conta. Arrebentou tudo, com a sujeira invadindo toda a minha sala. Eles me tomaram o sol e agora não tem mais jeito".

O autor de "A produção da arquitetura de especulação imobiliária" observa que o caráter caótico das construções altera todo o equilíbrio existente e aniquila as condições anteriores à construção:

"Tenta-se iludir (ou ilude-se) os novos moradores com ofertas não mais existentes e com 'compensações ao nível do projeto'. A densidade populacional cresce bruscamente, tornando de imediato 'insuficiente os serviços e os equipamentos disponíveis', o que vai implicar a médio prazo 'em transformações que deteriorarão a própria área urbana".

"Os 20 centímetros de terra que cobrem as lajes dos subsolos", segundo o autor, "pouco tem a ver com os jardins arborizados e os quintais que rodeavam as casas térreas".

Enquanto as novas construções destruíam bairros residenciais em São Paulo, durante os anos 1970, 80, 90, 2000, a mídia emudecia. Eram raras as reportagens sobre a perda de qualidade de vida, as constantes mudanças na lei de zoneamento, que permitiam construir tudo em qualquer lugar. Fechavam-se os olhos para a ganância das construtoras. Era um procedimento normal, "porque as pessoas não vão ter onde morar".

O pior é que não há mais retorno. São Paulo transformou-se em uma cidade inabitável. Feia. Suja. Tomada pela criminalidade. Os prédios residenciais têm nomes franceses, italianos, ingleses, que não conseguem esconder a feiura arquitetônica. Mais do que a feiura: são a prova de como o arquiteto dobrou sua espinha para fazer uma construção sem qualquer atrativo. É mais um prédio sem personalidade em uma cidade sufocada pelas obras que não param nunca.  

E a mídia agora despertou para o problema (veja links abaixo). Hoje mesmo, no telejornal "Bom dia SP", uma extensa reportagem mostrava como os bairros residenciais estão sucumbindo à interminável construção de novos empreendimentos. 

Mais, mais, mais e mais... até que haja, talvez, alguma explosão salvadora ou um cataclisma que faça a cidade afundar até o fundo do Inferno.

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/02/verticalizacao-cerca-casas-em-bairros-de-sao-paulo.html

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2022/01/verticalizacao-avanca-e-provoca-debate-sobre-acesso-a-habitacao.shtml

https://caosplanejado.com/cidades-brasileiras-a-pior-verticalizacao-do-mundo/

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/02/130213_casas_cercadas_sp_fn

domingo, 16 de abril de 2023

Filme sueco coloca privilégios em debate


"Triângulo da tristeza" é uma produção sueca

O ser humano adora privilégios. Desde criança, o privilegiado sempre me incomodou. É o carro da madame com chofer. É a melhor mesa do restaurante para o "comendador". É a barraca situada no melhor local da praia, para aquele pessoal do hotel...

Os privilegiados adoram usufruir dessas regalias. Uma vez, quando fazia um curso de filosofia oriental na Nova Acrópole, fomos visitar um local de retiro no interior de São Paulo. O responsável pelo "ashram" era um tipo entojado, metido a guru. Havia no lugar uma sala de meditação e o guru nos levou até lá, mas apenas o dono da Nova Acrópole teve a entrada permitida. Os demais - alunos e participantes da visita - foram barrados.

Só para você ver como tem privilegiado em tudo quanto é buraco, até mesmo em um "ashram" caipira. O filme "Triângulo da tristeza", que, infelizmente, só pude assistir na semana passada pela Amazon Prime, é um discurso contundente sobre os privilégios. 

Diferente da linguagem de roteiro característica da indústria americana, que sempre arruma um vilão na história e um "mocinho" ou "mocinha", o filme sueco, dirigido por Ruben Östland, conquistou os jurados de Cannes e levou a Palma de Ouro, sem recorrer a esses recursos mais do que batidos.

Deveria ter levado o Oscar também, mas a Academia de Hollywood preferiu entregar a estatueta aos alemães que fizeram "Nada de novo no front". Por sinal, se você leu o livro de Erich Maria Remarque, vai achar que o pessoal que fez o filme não leu o livro. A obra de Remarque é absolutamente pacifista. Os melhores momentos do livro é quando os soldados estão longe do campo de batalha. Em uma das cenas, dois amigos combatentes refugiam-se em uma agrícola abandonada. Matam um pato e o cozinham lentamente, aproveitando cada segundo desse momento em que não precisam dar tiros em alguém. Um amigo oferece o melhor pedaço para o outro e eles se divertem, felizes, podendo matar a fome e se alimentar com algo que não seja a ração insossa oferecida pelo exército. Remarque era alemão e combateu na primeira guerra mundial. Diante da ascensão de Hitler e dos nazistas, fugiu para os Estados Unidos, por entender que viria mais um conflito gigantesco na Europa. 

O termo "Triângulo da tristeza" refere-se àquele espaço entre a sobrancelha e o nariz. O filme começa com uma seleção de rapazes para um desfile. E um dos selecionadores dos modelos não escolhe um deles, por causa do acentuado triângulo da tristeza. 

Esse modelo, que não foi escolhido, e a namorada, que é uma "influencer", ganham passagens para uma viagem de navio, por locais paradisíacos. A embarcação é uma réplica da estrutura social: tem os privilegiados, que comem do bom e do melhor; tem os funcionários (classe média?) que puxam o saco dos ricaços; os tripulantes e os trabalhadores do "chão de fábrica", a quem cabe limpar o chão do vômito e da merda.

Em um dos momentos mais hilários do filme, o jantar é interrompido por uma tempestade. Os bilionários começam a vomitar por tudo quando é canto; as privadas entopem e um rio de merda escorre pelos corredores e quartos da embarcação. Uma das ricaças perde os sentidos, pondo o jantar para fora, sofrendo com a diarreia, enquanto é arrastada pelo rio de cocô.

Alheios aos que estão pondo as tripas pra fora, o capitão do navio, interpretado pelo ótimo Woody Harrelson, e um russo, que enriqueceu vendendo fertilizante ("eu vendo merda", ele proclama aos quatro ventos), travam um debate ideológico divertido. O russo, que foi educado na antiga União Soviética, odeia marxistas, leninistas trotskistas, comunistas etc. E o capitão do navio, que é americano, é comunista convicto. O russo cita frases do mundo capitalista, nem sempre modelo de inteligência, como Ronald Reagan. E o capitão elenca bordões comunas. Nem o capitão, nem o russo parecem sofrer com o balanço do navio. Se você pensar bem, é uma metáfora inteligente.

Acontece um ataque de piratas incompetentes, o navio vai a pique e meia dúzia de sobreviventes conseguem chegar a uma ilha. Lá, os papéis vão se inverter. A responsável pela faxina sabe pescar, sabe acender uma fogueira e chegou à ilha a bordo de um escaler, do qual não abre mão para uso exclusivo.

Invertem-se os papéis. A privilegiada é agora a ex-faxineira, que dorme bem protegida em seu escaler e escolhe para uso sexual o modelo do triângulo da tristeza, que ela chama de "bonitinho". Uma tripulante, que era líder dos funcionários puxa-sacos, passa a servir a ex-faxineira e se coloca à disposição para o que der e vier.

Na Suécia, os lixeiros costumam passar suas férias em viagens pela Europa. Não é que os lixeiros sejam privilegiados e ganhem mais do que outros trabalhadores. É que naquele país a distância entre os salários é mínima.

No Brasil, com seus 30 milhões de miseráveis que mal conseguem completar as três refeições, o que não falta são privilegiados. Eles se escondem em mansões de milhões de dólares, cercadas por muros medievais, concertina a dar com pau e câmeras de vigilância. Andam a bordo de carros blindados e nunca - nunca mesmo - "usufruíram" do deteriorado e fedorento transporte público. 

Nesse País, que remunera mal seus trabalhadores e aposentados, não faltam estamentos de privilegiados de primeiro escalão. São representantes do judiciário, do executivo, do legislativo, das forças armadas sempre ganhando mais do que o povo poderia lhes pagar. Mas eles não abrem mão de seus privilégios. Eles vão morrer agarrados às benesses, aos seus tronos dourados, vomitando e cagando e - para sorte deles e nossa inveja - o que vão expelir será a soberba refeição à base de medalhões de lagosta ao molho de manteiga, bacalhau à Gomes de Sá, arroz de pato, tudo regado, é claro, a vinho tinto Merlot da melhor safra. Bom demais morrer assim.

     
  

    

sábado, 15 de abril de 2023

A Lei de Clint continua atual

O ator e diretor Clint Eastwood interpreta o policial Dirty Harry

Revi, recentemente, uma série de filmes estrelada por Clint Eastwood. A linha de raciocínio é sempre a mesma: policial esforçado precisa enfrentar burocratas e passar por cima do aparato legal do país para fazer justiça. Clint é o mocinho, armado de um revólver que parece um pequeno canhão. Ele vai salvar a mocinha no final, matando o bandido que usava a garota como refém. 

A estrutura desses filmes procura sempre questionar a tolerância da Justiça. Imagine: é preciso ter provas para prender alguém. Mais do que isso: sem provas, o policial não pode levar o bandido a julgamento. A mensagem que esses filmes passam é que a Justiça é muito tolerante com os criminosos, que precisamos de alguém, como Clint, para "limpar" a cidade.

Provavelmente, esses policiais brasileiros, que volta e meia são flagrados espancando e, às vezes, executando suspeitos, seguem a linha ideológica da Lei de Clint. O agente é ao mesmo tempo policial e juiz. Ele julga e condena à morte. 

Como nós - pessoas que trabalham e que pagam impostos - somos vítimas diárias de criminosos, então, até toleramos a justiça vertical do policial que segue a Lei de Clint. Quando a sua filha chega em casa com o vidro do carro estourado e sem o celular, você pensa em pegar um revólver (pode ser aquele pequeno canhão do Clint) e ir até os baixos do viaduto Glicério e meter bala na malandragem. Ou quando a casa de alguém conhecido é furtada. A câmera de segurança flagra o criminoso saindo da residência, com os objetos furtados, e a polícia, em sua crônica letargia, nada faz. É claro que você gostaria de fazer justiça com as próprias mãos, ou com o revólver clintoniano.

Essa linha de pensamento medieval prosperou nos quatro anos do governo, que felizmente acabou. Não só prosperou, como se tornou linha diretiva governamental, com facilidades para as pessoas adquirirem armas e praticarem tiro ao alvo. O ex-presidente era visto com armas e fazia o sinal da arma em comícios. As pessoas adoravam. Chamavam-no de "mito". É a cultura da arma, da violência, da truculência. O aluno vai mal na escola ou sofre ataques de valentões. Pega o revólver do pai. Entra no estabelecimento educacional e atira em tudo que se mexe.

O governo atual destina verba (150 milhões de reais). Forma uma comissão ministerial para estudar o problema e apontar soluções. Gostaria de ser otimista, mas acredito que o problema só tende a piorar. A cultura brasileira é a da violência. Por isso, o Brasil lidera as estimativas de mortes violentas. Cerca de 40 mil pessoas vão morrer este ano assassinadas. É quase uma Guerra do Vietnã por ano. As pessoas estão sempre prontas para "resolver no tapa" qualquer divergência, por menor que seja. Os exemplos são diários. 

Vou abrir o Google e pesquisar "homem é assassinado"... Apareceu o seguinte: "Homem é morto a tiros em Ibaté; dupla suspeita do crime fugiu"; "Homem é morto com mais de 10 tiros no bairro Novo Aarão Reis, em Belo Horizonte"; "Homem de 39 anos é morto a tiros na própria casa em São José dos Campos, SP"; "Homem é morto na frente da esposa e de bebê após fazer gentileza para vizinha; irmã da moradora é suspeita".

Se você pesquisar então "mulher é morta", vem uma enxurrada de notícias de mortes violentas: "Mulher é assassinada a facadas em Contagem, companheiro é suspeito"; "Mulher é assassinada a facadas em Vitória, enteado de 13 anos é suspeito"; "Mulher é morta, após ser estrangulada com cabo USB".

A minha geração foi ao cinema. Assistiu séries de TV. Leu livros. E muito dessa oferta "cultural" era apenas lixo. Parte desse lixo, que se chamava nos anos sessenta de "indústria cultural", saiu de suas fronteiras e chegou às redes sociais. 

Hoje, vi um comentarista da CNN americana reclamar da falta de "guard rails" (as defensas metálicas em estradas e avenidas) no mundo virtual. Realmente, não há "guard rails" na internet. Para algo interessante que se descobre na rede, você é submerso por toneladas de entulho. Geralmente, é alguém destilando seu ódio, seu veneno, em mensagens diárias.

Em algum momento, bem lá atrás, pode ser que havia em um país chamado Brasil pessoas cordiais (Sérgio Buarque de Holanda), pessoas fraternas, amistosas, calorosas. Esse país, se existiu, não existe mais. Transformou-se em um lugar muito quente, que transborda raiva e miséria.

"Clint's law is still current"    

Recently, I revisited a series of films starring Clint Eastwood. The storyline is always the same: a hardworking police officer must confront bureaucrats and bypass the country's legal system to deliver justice. Clint is the hero, armed with a revolver that looks like a small cannon. He saves the damsel in the end by killing the villain who was using the girl as a hostage.

The structure of these films always seeks to question the tolerance of the justice system. Imagine: you need evidence to arrest someone. More than that: without evidence, the police officer cannot bring the criminal to trial. The message these films convey is that the justice system is too lenient with criminals, and that we need someone like Clint to "clean up" the city.

Probably, these Brazilian police officers, who are occasionally caught beating and sometimes executing suspects, follow the ideological line of Clint's Law. The officer is both the police and the judge. He judges and sentences to death.

Since we—people who work and pay taxes—are daily victims of criminals, we even tolerate the vertical justice of the police officer who follows Clint's Law. When your daughter comes home with her car window shattered and her cell phone stolen, you think about grabbing a revolver (maybe that small cannon of Clint's) and going to the Glicério viaduct to shoot the troublemakers. Or when someone you know has their house burglarized. The security camera catches the criminal leaving the residence with the stolen items, and the police, in their chronic lethargy, do nothing. Of course, you would like to take justice into your own hands, or with the Clint-style revolver.

This medieval line of thinking thrived during the four years of the government that has fortunately ended. Not only did it thrive, but it became a governmental directive, with facilities for people to acquire guns and practice target shooting. The former president was seen with guns and made gun gestures at rallies. People loved it. They called him "the myth." It's the culture of guns, violence, and brutality. A student does poorly in school or is bullied. He takes his father's revolver. He enters the educational institution and shoots at everything that moves.

The current government allocates funds (150 million reais). It forms a ministerial committee to study the problem and propose solutions. I would like to be optimistic, but I believe the problem is only going to get worse. Brazilian culture is one of violence. That's why Brazil leads the estimates of violent deaths. About 40,000 people will be murdered this year. It's almost a Vietnam War per year. People are always ready to "settle things with a punch" over any disagreement, no matter how small. Examples are daily.

I'll open Google and search for "man is murdered"... The following appeared: "Man is shot dead in Ibaté; suspected duo fled"; "Man is killed with more than 10 shots in the Novo Aarão Reis neighborhood, in Belo Horizonte"; "39-year-old man is shot dead in his own home in São José dos Campos, SP"; "Man is killed in front of his wife and baby after doing a favor for a neighbor; the resident's sister is a suspect."

If you search for "woman is killed," a flood of violent death news appears: "Woman is stabbed to death in Contagem, partner is a suspect"; "Woman is stabbed to death in Vitória, 13-year-old stepson is a suspect"; "Woman is killed after being strangled with a USB cable."

My generation went to the movies. Watched TV series. Read books. And much of this "cultural" offering was just trash. Part of this trash, which in the sixties was called the "cultural industry," has crossed its borders and reached social media.

Today, I saw a CNN commentator complaining about the lack of "guard rails" (the metal barriers on roads and avenues) in the virtual world. Indeed, there are no "guard rails" on the internet. For every interesting thing you discover online, you are submerged by tons of debris. Usually, it's someone spewing their hatred, their venom, in daily messages.

At some point, way back, there may have been in a country called Brazil cordial people (Sérgio Buarque de Holanda), fraternal, friendly, warm people. That country, if it ever existed, no longer exists. It has transformed into a very hot place, overflowing with anger and misery.

  

     

sexta-feira, 24 de março de 2023

TV Tem tem pouca notícia e muito serviço


A TV Tem é uma afiliada da Rede Globo. Foi criada, há 20 anos, por J.Hawilla, da empresa Traffic, e hoje é presidida pelo filho do seu fundador, Stéfano Hawilla. 

J.Hawilla ganhou notoriedade mundial ao ser delator do escândalo de corrupção da Fifa. Ficou cinco anos preso nos Estados Unidos. Voltou ao Brasil onde morreu de câncer, em maio de 2018.

A TV Tem, com  seus telejornais, cobre o interior do Estado de São Paulo. Traz notícias, principalmente, de Bauru, São José do Rio Preto, Sorocaba. 

O pauteiro da TV Tem, ou seja, aquele sujeito que define o que vai ser notícia, é preguiçoso ou tem pouquíssima margem de manobra jornalística. Talvez faltem recursos. Talvez tenha poucos jornalistas. O fato é que o noticiário da TV Tem é um servição.

Acredito que 90% do conteúdo de seus telejornais sejam serviço: buraco, rua interrompida, vacinação e milhares de horas devotadas a vagas em cursos do Sest Senat, Sebrae, entre outros. Não há uma única reportagem exclusiva, furo de reportagem, jornalismo investigativo.

A cobertura das câmaras municipais e das prefeituras só desperta o público, quando alguém está sendo alvo de impeachment. No mais, parece que todos os prefeitos e todos os vereadores estão se comportando direitinho. Não há máculas a serem investigadas. 

E dá-lhe serviço: a principal rua de Bauru está sendo recapeada então o motorista deve usar a via paralela. Para dar essa informação, o repórter ficou cerca de cinco minutos falando sem parar. Descreveu em pormenores o trecho da rua sendo asfaltada e as opções de quem vem de determinado bairro para ir a outro local. Em 30 segundos, seria possível informar que a rua está bloqueada e uma arte poderia dar melhor ideia ao telespectador. Mas, quem sabe, não haja verba para arte.

Essa disposição do repórter do telejornal falar muito é fenômeno recente. Antes, o jornalista aparecia por cerca de 30 segundos a um minuto. Provavelmente, as equipes estejam reduzidas, por isso, cada repórter tem um tempo extraordinário, em televisão, para contar o que está acontecendo.

No telejornal matutino Bom dia São Paulo, da TV Globo, a mesma verborragia está presente em notícias que não teriam a menor necessidade de serem aprofundadas. 

Caiu uma árvore na rua. Pronto: lá vai a repórter, descrever que o vento forte derrubou a árvore, que a árvore caiu na rua e que impediu o trânsito de veículos, e que chegou a equipe da prefeitura que fará a remoção do tronco e dos galhos, porque a árvore caiu por causa da chuva e lá vai a repórter falando sem parar, por cerca de cinco minutos ou mais. A notícia não tem a menor importância, a não ser para os coitados que moram naquela artéria e não vão poder trafegar, enquanto a árvore não tiver sido removida. 

Há pelo menos duas repórteres que falam com a mesma velocidade de um Fórmula 1. Elas ligam o acelerador e vão em frente. Fico maravilhado ao ver como elas conseguem discorrer sem parar, sem pausa até para respirar, sobre assuntos corriqueiros, como descarte irregular de entulho. A repórter percorre o monte de entulho. Relata tudo que foi ali atirado naquele monturo e que ninguém da prefeitura apareceu para retirar a sujeira. E fala, fala, fala incansavelmente. É um tipo de jornalismo maratonesco. Ainda bem que a gente está tomando café forte, senão voltaríamos a dormir.

Em comemoração a seus 20 anos, a TV Tem tem percorrido as cidades do interior. Dois âncoras ficam postados em uma praça, rodeados por um bando de gente, disposta a aplaudir tudo que for dito ali. É algo tão constrangedor, tão pouco profissional, tão distante de qualquer prática jornalística de influência, que dá até vergonha de assistir.

Sinceramente, o que me interessa saber o que os âncoras da TV Tem estejam fazendo na praça principal de Pardinho? E o pessoal bate palmas, grita, comemora. É uma lástima.

As apresentadoras da TV Tem parecem ter saído todas da mesma forma. São mulheres na faixa dos 30 anos, morenas, tem o cabelo cortado na altura dos ombros. Vestem-se de forma conservadora, como uma senhora inglesa interiorana, saindo de casa para ir à paróquia jogar bingo.

Os cenários são pouco chamativos e, para dizer a verdade, entediantes. 

Para encerrar a análise, jornalismo de serviço deveria preencher no máximo 30 por cento da programação de um telejornal. É importante saber que começou determinada campanha de vacinação e que esta e aquela prefeitura abriram concursos para contratação de pessoal.

O restante da programação deveria estar voltada para "hard news" e noticiário exclusivo, furos de reportagem. São milhares de assuntos a ser explorados: uso (e abuso) de carros oficiais, atuação de empreiteiras (corrupção?), devastação ambiental, saúde (filas em atendimento), má conservação de escolas, qualidade de merenda escola, ocorrências policiais, o estado das estradas vicinais, com obras atrasadas e intermináveis. Enfim, notícias não faltam. O que falta é vontade jornalística para levá-las a quem de direito.           

terça-feira, 21 de março de 2023

A intimidade indesejada das instituições

 


Quando falta energia, onde moro, mando uma mensagem pelo aplicativo WhatsApp para a empresa concessionária. No meu caso, é a CPFL. Por algum motivo que desconheço, a CPFL goza da minha intimidade. A empresa me trata como se fosse seu maior compadre, amigão do peito. Não tenho qualquer relação sentimental com a CPFL, mesmo porque não gosto muito dela. Volta e meia, me deixa no escuro. Não posso nem ficar a ver navios, porque é um breu só. 

Mando a mensagem para ela e a empresa responde: "Não se preocupe, já tô registrando essa informação aqui". "Já tô", assim mesmo, como se fosse uma adolescente, vivendo longe da língua culta. 

Mais adiante, ela diz: "Brigada pela confirmação! Tchau". 

Como é isso: "Brigada", "tchau"...?

"Tô te mandando mensagem, porque você abriu uma solicitação com a gente..."

Não sei quem foi o "gênio" que decidiu estabelecer essa comunicação íntima e forçada comigo. Não sou íntimo da CPFL, nem quero ser. Essa proximidade grudenta entre uma empresa concessionária e o cliente, não é exclusividade da CPFL. 

A Sky também tem formas de tratamento informais. O robô que atende a ligação faz de conta que está procurando os nossos dados. A gente ouve um barulinho de digitação e a atendente robotizada procura nos deixar à vontade, enquanto enumera nossas necessidades.

Na prática, as empresas prestadoras de serviço não querem mais falar com a gente. Eles desistiram de nos atender. Meses atrás, a Sky mudou seus produtos. Para saber qual pacote eu costumava assinar e qual seria o nome dele, agora rebatizado, demorei quase duas horas. Foram necessários cerca de 120 minutos para conseguir ser atendido por um ser humano, que me deu a informação, que eu necessitava, em menos de 30 segundos.

O robô que nos atende é meio burrinho. Ele tem aquele leque de possibilidades e não abre mão. Por mais que você insista que precisa falar com um atendente, ele se recusa. Para a empresa, deve ser lucrativo deixar você pendurado no celular, tentando obter a informação que necessita. 

A CPFL é interessante, um caso à parte, porque ela me manda uma mensagem, solicitando que devo entrar no aplicativo. Imagine você no escuro, sem nem um kilowatt em casa, e a empresa que lhe fornece a energia (ou que deveria fornecê-la) pede para você usar o aplicativo. 

Como CFPL? Como posso entrar no aplicativo sem internet? Estou sem sinal, meu celular está morto. É possível entender isso ou a gente tem de desenhar?

O pior é quando você está sem luz, ou deu problema no sinal da Claro, ou da Sky, da Vivo, ou do raio que o parta, e você entra em contato com a operadora, com a concessionária, consegue ser atendido por um ser humano e em seguida eles pedem para você avaliar o atendimento. O diálogo que se segue é sempre o mesmo:

- O senhor poderia avaliar o meu atendimento?

- Olha, estou sem luz aqui em casa e minha avaliação vai ser a pior possível.

- Não. Não é da falta de luz. É do meu atendimento.

- Mas estou sem luz, então, não quero avaliar uma empresa que me deixa no escuro. 

Quando a avaliação é feita pelo WhatsApp e você dá nota 1, de péssimo, o robô escreve:

"Sinto muito pela sua insatisfação, para que possamos melhorar o nosso atendimento, comente sua avaliação:"

Aí, você escreve: "Falta crônica e interminável de energia".

Ela agradece. Pede para você baixar o aplicativo (mesmo sem internet) e encerra a conversa: "Tchau, até a próxima". E acrescenta uma carinha (emoji) feliz, sorridente.      


terça-feira, 14 de março de 2023

Nikolas Ferreira e o privilégio da ignorância


No Dia Internacional da Mulher, o deputado usou peruca


No Dia Internacional da Mulher, 8 de março, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) subiu à tribuna e pôs uma peruca loira. Em seu discurso, homenageou as mulheres, saindo "em defesa" delas.

Se alguém estranhou o gesto cênico saiba que o objetivo foi elogiável: o parlamentar está em uma cruzada para salvar o sexo feminino das falsas mulheres, salvá-las daqueles homens que usam saia, calcinha e sutiã. Alguns homens chegam ao cúmulo de colocar silicone, ganhar seios e ainda querem usar o banheiro feminino, imagine você.

Acompanhe a fala do nobre deputado:

"Para vocês terem ideia do perigo que é isso, estão querendo colocar a imposição de uma realidade que não é a realidade (...) Não estou defendendo meu umbigo, mas a sua liberdade. A liberdade, por exemplo, de um pai recusar que um homem de dois metros de altura, um marmanjo, entre no banheiro de sua filha — sem ser considerado transfóbico".

Aos 26 anos (ele fará 27 no dia 30 de maio), o deputado Nikolas Ferreira vive o auge de sua carreira parlamentar. Foi notícia em todo o País. Rapaz favelado, filho de pastor evangélico, bacharel em Direito pela PUC, ganhou notoriedade política ao fechar fileiras com a candidatura Bolsonaro, servindo-a como "youtuber". Eleito com uma votação recorde de 1 milhão e 470 mil votos, transformando-se no deputado mais votado do País, Nikolas Ferreira colocou sobre si uma lente de aumento ao participar de debates, sempre em "defesa das mulheres verdadeiras".

Para Nikolas Ferreira, se você tem pênis, é homem. Se você tem vagina e menstrua, é mulher. Se você pode conceber filhos, é mulher. Se você ejacula, é homem. Simples assim. O mundo de Nikolas Ferreira é uma planície, onde vicejam flores e pastam animaizinhos do bosque encantado.

Nos debates, ele passa a mão na cabeça, em sinal de desespero, como se as suas verdades fossem absolutamente indiscutíveis. "A sra. menstrua?", ele pergunta, sem muita paciência, para a mulher que participa do debate. "Então, a sra. é mulher." 

O deputado não se conforma com a existência do transgênero, daquele ser desconhecido e venusiano, que quer usar saias, calcinha e usar o banheiro feminino. Um disparate!

Nikolas Ferreira vive o privilégio da ignorância. Não se trata aqui de ofendê-lo, mas até de lhe invejar essa capacidade de ignorar outras realidades que não sejam o preto e o branco. Não há cinza no mundo deste nobre parlamentar.

Alguém poderia esclarecer o deputado transfóbico que sexo biológico e gênero são coisas diferentes. Que você pode ter nascido com pênis, mas não se sente homem. Ao contrário, as roupas e o comportamento masculino lhe são agressivas. Essa pessoa preferia não ter pênis, mas uma vagina. Não ter peito liso, mas seios protuberantes. Não ter pelos, não ter bigode. Esses "homens" não são homens, caro deputado. São mulheres trans. São mulheres "de alma", se a gente pudesse apelar para algo mais "metafísico" e insubstancial. 

Há também as mulheres que não sentem adequadas ao próprio corpo. Elas procuram cirurgias para a retirada das mamas. Tomam hormônios para deixar crescer pelos, barba. Elas não são mulheres, nobre parlamentar. São homens trans. 

Quem é essa gente, nobre deputado? De que mundo eles vieram?

O deputado nem imagina. Para usar a metáfora platônica, infelizmente sempre atual, está em sua caverna agarrado às sombras. Em sua ignorância, as sombras que aparecem na entrada da caverna são sua única realidade. Se ele saísse, ficaria cego, é claro, pela luminosidade do mundo real. Aos poucos, quando seus olhos fossem se acostumando à claridade, ele veria um mundo diverso daquele que imaginava. 

Um mundo diversificado, onde nem sempre nascer com pênis significa que a pessoa seja obrigada a se sentir homem; e nem sempre nascer com vagina a obriga a viver como mulher. A natureza do homem é diferente das demais naturezas. 

Sexo biológico e gênero são antípodas. Nikolas Ferreira não teve essa disciplina em seu curso superior. Nunca leu Paul B. Preciado e Judith Butler. 

Mas, cá entre nós, politicamente, é mais fácil e recompensador chafurdar na ignorância. Foi ela quem lhe deu 1 milhão e 470 mil votos, a mesma ignorância que o transformou no "deputado federal mais votado do País".

       

 

 

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

O Carnaval começa antes e acaba tarde demais

 



Em janeiro, temos notícias dele. Às vezes, antes. Tem um grito ali, um bloco lá. Em fevereiro, ele parece se prolongar pelos 28 dias. Infelizmente, em certos anos, ele começa em março. Então, a gente se arrasta por janeiro, fevereiro e vai até março nesse sofrimento de blocos, ruas interrompidas, desfiles, reportagens longas, exaustivas, intermináveis.

Este ano, as chamadas eram todas na base do: "Divirta-se, mas tome cuidado. Esconda seu celular dos criminosos". Eram entrevistados personagens que ensinavam como esconder o aparelho entre as coxas, no meio da bunda, em bolsos escamoteados sob uma barriga falsa. A polícia não dá mais conta da bandidagem e transfere a culpa do assalto para a vítima. "Ah, ele levava o celular dentro da mochila. Não pode. Tem de esconder mais", "ah, ele estava com os vidros do carro abertos"... 

Desculpe, é nosso direito carregar o celular onde a gente quiser. Até mesmo atrás da calça, como as mocinhas atrevidas costumam fazer ao envergar shorts sumários com a cabecinha do celular aparecendo no bolsinho, sem que sejamos punidos por isso. Por que cabe à população pagar seus impostos e não ter a mínima, a mais insignificante parcela de tranquilidade?

Não basta trancar a porta. Tem de instalar alarme. Precisa pôr câmera. Precisa contratar aqueles "guardas" de quarteirão, que ficam andando de moto à noite, fazendo com a buzina "uó, uó, uó". É necessário entrar para grupo de WhatsApp dos vizinhos, para ficar de sobreaviso. A qualquer momento, o ataque pode ocorrer. 

Essa é uma época estranha, porque, do nada, de repente, começa tocar uma música e as pessoas ficam pulando, gritando, cantando, rebolando. Saem uns atrás dos outros, em meio a uma música em volume ensurdecedor. Um ser desavisado, que viesse de outro mundo, acharia que tinha desembarcado em um hospício. Imagine: o sujeito está parado, conversando normalmente. Em segundos, começa a pular, gritar, gesticular. Beija e é beijado. Apalpa e é apalpado. É uma alegria pouco espontânea. É uma alegria com hora marcada. 

E não há o que comemorar. Essa gente está tão feliz assim por quê? O que é tão maravilhoso assim em sua existência que a leva a ficar em estado de estupefação por três dias (na realidade, são bem mais do que três)? Quer esquecer os problemas? Mas os problemas estão aí. Bem diante dela. Vão continuar existindo e importunando. Não adianta sair pulando, para depois cair na real. 

Precisa dessa época do ano para transar, para "passar o rodo"? Isso está mais para anos 50 do que para século 21. Sexo deixou de ser pecaminoso em 1968. Nos anos seguintes, predominou a regra do "não tem tu, vai tu mesmo". 

Na TV, pode até existir algo mais entorpecedor e narcotizante que os desfiles, mas desconheço. Dizem que é diferente, mas ao ouvido leigo as músicas parecem todas iguais e cantadas pela mesma pessoa, no mesmo ritmo, na mesma entonação. Um dos enredos fala em Lampião, "o rei do cangaço". É incompreensível que um ladrão de estrada, seguido por um bando de desvalidos armados, vestidos com roupas de couro e cavalgando burros e mulas, possa ser personagem de algum enredo. O enredo, por sinal, fala de Céu, Inferno, Padre Cícero. Diz que Lampião foi expulso do Inferno pelo demônio e tentou entrar no Céu, disfarçado de Padre Cícero. É tão infantil, tão bisonho, tão pouco reflexivo, sem qualquer profundidade filosófica, que a gente perde até a esperança em dias melhores.

São dias em que as musas andam com bandeiras coloridas, envergando roupas sumárias e sapato de salto alto. Imagine os pés da musa depois de horas sambando no asfalto com aquele sapato de desfile de passarela? Até recentemente, as musas usavam biquínis. Depois, se livraram da parte de cima. Faziam topless. Agora, usam tapa-sexo ou biquíni de fita isolante. As que fazem topless hoje em dia perdem o marido. Foi o caso de uma certa Mulher Mamão ou Abacaxi ou Jaca. Algo nessa linha hortifruti. Ela mostrou os seios na avenida e o marido puxou o carro.

Nesses dias de muito ruído e pouca inteligência, as TVs costumam ficar sem material para seus telejornais. Não há notícia em política, nem economia, nem nada estreando no circuito cultural. É um momento de espera. O ano vai começar depois... Só que este ano foi diferente. Os telejornais dividiam o espaço entre o bando que saltitava com a desgraça dos deslizamentos no litoral de São Paulo. Saía de cena o sujeito fantasiado e entrava um desgraçado com lama até a cintura. Chegam os especialistas e, no resumo da ópera, falam o óbvio: a ocupação do espaço foi feita sem planejamento, com a omissão do poder público e a voracidade dos grileiros de sempre. 

Mas não esquenta. Ano que vem tem mais. Tem mais desfiles, mais blocos, mais alegria cronometrada e mais desgraça nos dilúvios. Também cronometrada. 

  


 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

A decadência da Igreja e a perda do controle dos corpos

 


O quadro era imenso (do ponto de vista da criança). Mostrava Jesus com o coração em chamas, aberto e circundado pelo coroa de espinhos. Nas mãos, pontos de sangue que indicavam que bem ali, na palma da mão, eles tinham cravado os pregos na hora da crucificação. Cabelo longo e loiro descendo na altura dos ombros, barba e bigode, usando um manto claro sobre uma vestimenta vermelha, Jesus nos olhava. Sua expressão era um misto de dor, de alguém que havia sofrido muito. Era um olhar que pedia piedade e ao mesmo tempo nos questionava. Era como se ele dissesse: "Sofri muito por você e é assim que você me recompensa?". Não adiantava escapar dos olhos dele. Em qualquer ponto do quarto, era só olhar para o quadro e Jesus estava nos mirando. Lá do alto, no ponto central do quarto. Um olhar inquisidor.

A geração anterior à minha conduzia os filhos dentro do perímetro das interdições. Comer carne na sexta-feira santa era um pecado quase imperdoável. Lembro de um feriado que fui ao cinema com um amigo e na volta paramos na lanchonete. As lanchonetes eram uma novidade: hambúrguer ou cheeseburguer, servidos com ketchup, davam água na boca na gente. Gastamos nossa grana com o lanche de carne e, ao chegar em casa, topei com a minha mãe na porta conversando com as vizinhas. Contei o que tinha comido no lanche e a minha mãe quase desmaiou. Lembro dela pondo a mão no coração, sentindo o órgão batendo apressado: eu tinha cometido um pecado gravíssimo. Era sexta-feira e eu tinha comido carne. Vi as portas do inferno abrirem-se para mim. 

Os interditos eram tantos e tão variados que demorou toda uma geração para implodir tudo aquilo. Masturbação, sexo antes do casamento, homossexualismo, usar roupas decotadas, faltar à missa... Era pecado para todo lado. Pecar contra a castidade, talvez fosse o mais temido. A gente se masturbava com Jesus nos olhando. A gente gozava, sabendo que trilhava o caminho da desgraça. Nossa alma ia mesmo para o beleléu. Foi graças à geração de 1968, que esse edifício prisional, construído pela Igreja, veio abaixo.

Lendo "Os Anos", da vencedora do Prêmio Nobel, a francesa Annie Ernaux, em determinado momento da história, ela se detém para refletir sobre esse colapso de poder da Igreja. Ela escreve:

"A religião católica desapareceu discretamente do cotidiano. As famílias não transmitem mais nem o conhecimento nem a prática. A despeito de alguns ritos, ela não é mais signo de respeitabilidade. Como se tivesse sido muito servido, usada por milhões de padres, de missas e de procissões, durante dois milênios (...) A Igreja não aterroriza mais o imaginário dos adolescentes púberes, ela não regulamenta mais as trocas sexuais e o ventre das mulheres escapou de seu controle. Ao perder o campo de sua ação principal - o sexo - ela (a Igreja) perdeu tudo. Fora de um curso de filosofia, a ideia de Deus não é mais francamente válida nem algo a se debater."

Sobre a revolução de 1968, ela escreve:

"Pensar, falar, escrever, trabalhar, existir de outra forma: a gente estimava não ter nada a perder se experimentasse de tudo. 1968 foi o primeiro ano do mundo".

"Os Anos" utiliza o recurso literário da impessoalidade. A autora não utiliza "eu", mas "ela". "Ela" é a protagonista. É "Ela" quem nasce em meio à Segunda Guerra, que cresce nos anos de penúria pós-guerra, que vai se casar, ter dois filhos, fazer carreira acadêmica, se divorciar e envelhecer, em uma França rica, país do primeiro mundo, mas repleto de cicatrizes e milhões de imigrantes que não param mais de chegar, além do sempre presente fantasma da direita que tira o sono dos eleitores de esquerda.

Como Annie Ernaux comenta: "Os Anos" tem uma personagem principal que vive a história, mas também a própria História passa por ela. A autora seleciona fotos antigas e comenta a roupa que usava, quem a acompanhava, o local onde estava e a partir daí mergulha nas lembranças, nos filmes, nos acontecimentos. 

Muitos desses filmes, como "Choses de la vie", de 1970, por exemplo, marcaram época na França de Annie Ernaux e aqui no Brasil. Lembro de ter saído do cine Belas Artes, em estado de deslumbramento. Dirigido por Claude Sautet, com Michel Piccoli e Romy Schneider, nos papéis principais, a produção fala de um arquiteto divorciado que sofre um acidente de carro e vê sua vida passar, como num filme, enquanto está entre a vida e a morte. É uma obra emocionante e bela, como uma pintura de Renoir.

Enquanto a geração de Ernaux não via a hora de sair de casa, já os filhos dela não têm pressa nenhuma. Estão bem na companhia da mãe. Abrem a geladeira. Comem o que têm vontade e na hora que querem. Fazem as refeições vendo TV com o prato no colo.

"Os Anos" tem passagens históricas memoráveis, como a posse de François Mitterrand, em 1981, que cravou uma vitória da esquerda francesa, algo que parecia impossível na época. A esquerda francesa finalmente chegava ao poder e, na companhia de Mitterrand, ministros "comunas": "Nós olhávamos os quatro ministros comunistas com curiosidade, como se fossem uma espécie exótica, espantados que eles não tivessem ar soviético". Mitterrand significava a concretude de todas as reivindicações da esquerda francesa da época: "rádios livres, o reembolso do dinheiro gasto com aborto, a aposentadoria aos 60 anos, 39 horas de trabalho semanal, a supressão da pena de morte etc."   

Me flagrei com os olhos úmidos lendo trechos de "Os Anos". Eu estava na França em 1981, quando houve a posse de Mitterrand, e lembro de ter transcrito o discurso de posse do novo presidente em uma carta, que enviei aos meus parentes. Era um discurso, que parecia o Sermão da Montanha repaginado:

“A França envia sua saudação às mulheres, aos homens, também aos garotos. Sim, aos garotos heróis que se fizeram aqui, nesta vila, defendendo outrora a honra de sua pátria e àqueles que estão tombando agora por todo o mundo por um nobre ideal. Saudações aos humilhados, aos imigrantes, aos exilados sobre sua própria terra que querem viver e viver livres. Saudações a todos aqueles que estão sendo amordaçados, perseguidos e torturados, que querem viver e viver livres. Saudações aos sequestrados, desaparecidos que somente queriam viver e viver livres. Saudações aos padres brutalizados, aos camponeses sem terra, aos sindicalistas presos, aos desempregados que vendem seu sangue para poder sobreviver, aos índios perseguidos em suas terras, aos trabalhadores sem direitos, aos resistentes sem armas. A todos, a França diz: coragem, a liberdade vencerá”. 

A minha geração fez o possível para se distanciar da anterior. Eu dormia em sleep bag sobre um tatame. "Cama de tatame pela vida afora", como dizia a música de Gil. Virei vegetariano. Viajava de carona pelo País. Deixei o cabelo crescer e caminhava pela estradas com a mochila nas costas. As namoradas faziam sexo antes do casamento, usando um contraceptivo mágico, chamado "pílula". Com 20 anos, fui morar com amigos. Comprei uma moto e comecei a participar de comícios contra a Ditadura Militar. Todos os comícios. Até aqueles em que iam pouca gente. A música que ouvíamos não tinha qualquer relação com a dos nossos pais. Até mesmo a música que dizia que "ainda somos os mesmos e vivemos com nossos pais" era diametralmente oposta a Noel Rosa, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Francisco Alves, ídolos da geração anterior. Estávamos em guerra contra os velhos e procurávamos contestar tudo. Deixar a terra arrasada. Talvez a geração seguinte à minha não sinta a mesma empatia que senti ao ler "Os Anos". Vivemos muitas mudanças em pouquíssimo tempo. E foi devastador.

Estava sozinho em um café, lendo o livro de Annie Ernaux, e procurei disfarçar a emoção, limpando os óculos embaciados. Então, lembrei dos quatro anos perdidos, desse terror social, dessa coisa maligna que ocupou a Presidência e fiquei imaginando como estaremos daqui a quatro anos. Será que voltaremos ao jugo do horror ou seremos melhores, mais libertos, mais ricos e evoluídos?

Quem viver, verá.

Tradução para o francês:

"Le déclin de l’Église et la perte de contrôle sur les corps"


Le tableau était immense (du point de vue de l'enfant). Il représentait Jésus avec le cœur en flammes, ouvert et entouré d'une couronne d'épines. Dans ses mains, des taches de sang indiquaient que c'était bien là, dans la paume de la main, qu'ils avaient enfoncé les clous au moment de la crucifixion. Les cheveux longs et blonds lui descendaient jusqu'aux épaules, avec une barbe et une moustache, vêtu d'un manteau clair sur une robe rouge, Jésus nous regardait. Son expression était un mélange de douleur, comme celle de quelqu'un qui avait beaucoup souffert. C'était un regard qui demandait pitié tout en nous interrogeant. C'était comme s'il disait : "J'ai tant souffert pour toi, et c'est ainsi que tu me récompenses ?". Il était impossible d'échapper à son regard. De n'importe quel point de la chambre, il suffisait de regarder le tableau pour voir Jésus nous fixer. Là-haut, au centre de la pièce. Un regard inquisiteur.

La génération précédente conduisait ses enfants dans le périmètre des interdictions. Manger de la viande le Vendredi saint était un péché presque impardonnable. Je me souviens d'un jour férié où je suis allé au cinéma avec un ami et, au retour, nous nous sommes arrêtés dans une sandwicherie. Les sandwicheries étaient une nouveauté : un hamburger ou un cheeseburger, servis avec du ketchup, nous faisaient saliver. Nous avons dépensé notre argent pour un sandwich à la viande et, en rentrant à la maison, je suis tombé sur ma mère à la porte, en train de discuter avec les voisines. Je lui ai raconté ce que j'avais mangé et ma mère a failli s'évanouir. Je me souviens d'elle mettant la main sur son cœur, sentant l'organe battre précipitamment : j'avais commis un péché très grave. C'était un vendredi et j'avais mangé de la viande. J'ai vu les portes de l'enfer s'ouvrir devant moi.

Les interdits étaient si nombreux et si variés qu'il a fallu toute une génération pour faire imploser tout cela. La masturbation, le sexe avant le mariage, l'homosexualité, porter des vêtements décolletés, manquer la messe... Il y avait du péché partout. Pécher contre la chasteté était peut-être le plus redouté. On se masturbait sous le regard de Jésus. On jouissait, sachant qu'on empruntait le chemin de la misère. Notre âme allait vraiment en enfer. C'est grâce à la génération de 1968 que cet édifice carcéral, construit par l'Église, s'est effondré.

En lisant "Les Années", de la lauréate du prix Nobel, la Française Annie Ernaux, à un moment donné de l'histoire, elle s'arrête pour réfléchir à cet effondrement du pouvoir de l'Église. Elle écrit :

"La religion catholique a discrètement disparu du quotidien. Les familles ne transmettent plus ni la connaissance ni la pratique. Malgré quelques rites, elle n'est plus un signe de respectabilité. Comme si elle avait été trop servie, utilisée par des millions de prêtres, de messes et de processions, pendant deux millénaires (...) L'Église ne terrorise plus l'imaginaire des adolescents pubères, elle ne réglemente plus les échanges sexuels et le ventre des femmes a échappé à son contrôle. En perdant le champ de son action principale - le sexe - elle (l'Église) a tout perdu. En dehors d'un cours de philosophie, l'idée de Dieu n'est plus vraiment valable ni quelque chose à débattre."

Sur la révolution de 1968, elle écrit :

"Penser, parler, écrire, travailler, exister autrement : nous estimions n'avoir rien à perdre en essayant tout. 1968 a été la première année du monde."

"Les Années" utilise le procédé littéraire de l'impersonnalité. L'auteure n'utilise pas le "je", mais le "elle". "Elle" est la protagoniste. C'est "Elle" qui naît au milieu de la Seconde Guerre mondiale, qui grandit dans les années de pénurie d'après-guerre, qui se mariera, aura deux enfants, fera une carrière universitaire, divorcera et vieillira, dans une France riche, pays du premier monde, mais rempli de cicatrices et de millions d'immigrants qui ne cessent d'arriver, sans oublier le fantôme toujours présent de la droite qui trouble le sommeil des électeurs de gauche.

Comme le commente Annie Ernaux : "Les Années" a un personnage principal qui vit l'histoire, mais l'Histoire elle-même passe par elle. L'auteure sélectionne de vieilles photos et commente les vêtements qu'elle portait, qui l'accompagnait, l'endroit où elle se trouvait, et plonge ensuite dans les souvenirs, les films, les événements.

Beaucoup de ces films, comme "Les Choses de la vie", de 1970, par exemple, ont marqué leur époque en France et ici au Brésil. Je me souviens être sorti du cinéma Belas Artes dans un état d'émerveillement. Réalisé par Claude Sautet, avec Michel Piccoli et Romy Schneider dans les rôles principaux, le film raconte l'histoire d'un architecte divorcé qui a un accident de voiture et voit sa vie défiler, comme dans un film, alors qu'il est entre la vie et la mort. C'est une œuvre émouvante et belle, comme une peinture de Renoir.

Alors que la génération d'Ernaux ne pouvait pas attendre de quitter la maison, ses enfants, eux, ne sont pas pressés. Ils se sentent bien en compagnie de leur mère. Ils ouvrent le réfrigérateur. Mangent ce qu'ils veulent et quand ils veulent. Ils prennent leurs repas en regardant la télévision avec leur assiette sur les genoux.

"Les Années" contient des passages historiques mémorables, comme l'investiture de François Mitterrand en 1981, qui a marqué une victoire de la gauche française, quelque chose qui semblait impossible à l'époque. La gauche française arrivait enfin au pouvoir et, aux côtés de Mitterrand, des ministres "communistes" : "Nous regardions les quatre ministres communistes avec curiosité, comme s'ils étaient une espèce exotique, étonnés qu'ils n'aient pas un air soviétique". Mitterrand représentait la concrétisation de toutes les revendications de la gauche française de l'époque : "les radios libres, le remboursement de l'argent dépensé pour l'avortement, la retraite à 60 ans, 39 heures de travail par semaine, l'abolition de la peine de mort, etc."

Je me suis surpris les yeux humides en lisant des passages des "Années". J'étais en France en 1981, lors de l'investiture de Mitterrand, et je me souviens avoir transcrit le discours d'investiture du nouveau président dans une lettre que j'ai envoyée à mes proches. C'était un discours qui ressemblait au Sermon sur la Montagne revisité :

"La France envoie son salut aux femmes, aux hommes, et aussi aux garçons. Oui, aux garçons héros qui se sont illustrés ici, dans ce village, défendant autrefois l'honneur de leur patrie et à ceux qui tombent maintenant à travers le monde pour un noble idéal. Salutations aux humiliés, aux immigrants, aux exilés sur leur propre terre qui veulent vivre et vivre libres. Salutations à tous ceux qui sont bâillonnés, persécutés et torturés, qui veulent vivre et vivre libres. Salutations aux kidnappés, aux disparus qui ne voulaient que vivre et vivre libres. Salutations aux prêtres brutalisés, aux paysans sans terre, aux syndicalistes emprisonnés, aux chômeurs qui vendent leur sang pour survivre, aux Indiens persécutés sur leurs terres, aux travailleurs sans droits, aux résistants sans armes. À tous, la France dit : courage, la liberté vaincra."

Ma génération a fait tout son possible pour se distancier de la précédente. Je dormais dans un sac de couchage sur un tatami. "Lit de tatami pour la vie", comme le disait la chanson de Gil. Je suis devenu végétarien. Je voyageais en auto-stop à travers le pays. J'ai laissé pousser mes cheveux et marchais sur les routes avec un sac à dos. Les petites amies faisaient l'amour avant le mariage, en utilisant un contraceptif magique appelé "la pilule". À 20 ans, je suis allé vivre avec des amis. J'ai acheté une moto et j'ai commencé à participer à des meetings contre la dictature militaire. Tous les meetings. Même ceux où il y avait peu de monde. La musique que nous écoutions n'avait aucun rapport avec celle de nos parents. Même la chanson qui disait que "nous sommes toujours les mêmes et vivons avec nos parents" était diamétralement opposée à Noel Rosa, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Francisco Alves, les idoles de la génération précédente. Nous étions en guerre contre les vieux et cherchions à tout contester. Laisser la terre brûlée. Peut-être que la génération suivante ne ressentira pas la même empathie que moi en lisant "Les Années". Nous avons vécu beaucoup de changements en très peu de temps. Et cela a été dévastateur.

J'étais seul dans un café, en train de lire le livre d'Annie Ernaux, et j'ai essayé de dissimuler mon émotion en essuyant mes lunettes embuées. Puis, je me suis souvenu des quatre années perdues, de cette terreur sociale, de cette chose maléfique qui a occupé la présidence et je me suis demandé où nous en serions dans quatre ans. Retournerons-nous sous le joug de l'horreur ou serons-nous meilleurs, plus libres, plus riches et plus évolués ?

Qui vivra verra.   

 



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