terça-feira, 8 de setembro de 2020

Leituras lésbicas e feministas

 

    Virginie Despentes e Paul Beatriz Preciado

Um apartamento em Urano - Crônicas da Travessia, do espanhol Paul Beatriz Preciado, chega às livrarias pela Editora Zahar. O livro traz artigos publicados por Preciado no jornal francês Libération, entre 2010 e 2018. 

Nesse período, Preciado fez a transição de Beatriz para Paul. Ele discorre sobre as mudanças no corpo, com aplicações de testosterona (alteração da voz, surgimento de pelos), e a discrepância entre o sujeito legal (o passaporte trazia o nome Beatriz) e a nova pessoa que nascia (Paul).

Também nesse período Preciado, que é filósofo, separou-se de Virginie Despentes, autora do controverso romance Baise-moi (Me fode), que virou filme e foi censurado pelo Conselho de Estado da França.

Um apartamento em Urano refere-se a um sonho que o autor teve com uma artista plástica sobre o melhor lugar para se viver. A artista dizia que teria um apartamento em Marte, mas manteria um pied-à-terre em Saturno, abandonando o apartamento em Urano por ser "longe demais".

O sonho reflete, é claro, o nomadismo de Preciado que escreveu suas crônicas para o Libération de diferentes lugares do mundo (Nova York, Buenos Aires, Paris, Barcelona, Lesbos, Atenas, entre outras localidades). Os textos foram produzidos em quartos de hotel e em aeroportos. 

Como o autor explica na Introdução, o título do livro tem como referência a história da homossexualidade e sua imbricação com o planeta Urano, descoberto por William Herschel, que morreu aos 84 anos, "exatamente o tempo necessário para Urano completar sua volta em torno do Sol".

Na mitologia grega, Urano era casado com sua mãe, Gaia. Eles tiveram vários filhos (Oceano, Tempo e Memória). Urano costumava matar os filhos, assim que nasciam. Por isso, Gaia pediu para Chronos (O Tempo) castrar o pai. "Dos genitais amputados de Urano nasceu Afrodite, a deusa do amor". Assim, Afrodite não nasceu de uma relação heterossexual. Haveria, então, outra forma de concepção.  

Preciado lembra que coube ao jurista alemão Karl Heinrich Ulrichs criar o termo "uranista", para explicar a existência do "terceiro sexo". Em 28 de agosto de 1867, "diante de 500 juristas, membros do Parlamento alemão e um príncipe bávaro", Ulrichs pede a palavra e confessa: "Eu sou uranista". Como "prêmio", foi condenado à prisão e teve seus livros censurados.

"Ulrichs foi, portanto, um dos primeiros cidadãos europeus a declarar publicamente que queria um apartamento em Urano", observa Preciado.

Em 6 de maio de 1868, o militante e defensor das minorias sexuais Karl Maria Kertbeny escreve uma carta a Ulrichs e cria a palavra "homossexual", como referência ao termo "uranista". 

Kertbeny defende as relações "homossexuais", dizendo que significavam outra forma de amar. Semelhante à dos "heterossexuais", outro termo criado por Kertbeny.

 As crônicas para o Libération eram assinadas por Beatriz Preciado. Mais tarde, quando o Estado espanhol reconhece sua transição sexual, ele passa a assinar como Paul B. Preciado. 

Em uma das crônicas, ele conta que, em 16 de novembro de 2016, o Boletim Nacional de Nascimentos da Espanha inclui, entre os "recém-nascidos" Paul Beatriz Preciado. Para "renascer" como homem, Preciado precisou entregar sua certidão de nascimento, que foi destruída pelo estado. Ele procurou no mesmo Boletim, que traz também a relação dos mortos, o nome de Beatriz Preciado, mas não tinha sido incluído. 

"Poderia estar, porque para certificar a mudança legal de sexo foi necessário destruir a certidão de nascimento, feita por meu pai, escrita e assinada em 11 de setembro de 1970".

"Assim presencio minha morte e meu renascimento legal. Sou ao mesmo tempo um cadáver e um recém-nascido legal."

No artigo A amnésia do feminismo, Preciado refaz a origem do termo, que remonta a 1871, "inventado pelo jovem médico francês Ferdinand-Valère Faneau de la Cour, em sua tese de doutorado Feminismo e infantilismo nos tuberculosos".

Neste trabalho acadêmico, Ferdinand de la Cour observa que o homem tuberculoso tem traços femininos: 

"Cabelo e as sobrancelhas finas, cílios longos e finos, como os das mulheres, a pele é branca (...) os contornos do corpo mostram uma suavidade notável, ao mesmo tempo que articulações e músculos combinam sua ação para dar aos movimentos aquela flexibilidade, aquele não sei quê ondulante e elegante que é próprio do gato e da mulher".

No ano seguinte, o escritor e jornalista Alexandre Dumas filho (autor de A Dama das Camélias, entre outros) utiliza o termo, inventado pelo médico, para menosprezar os homens que eram favoráveis ao direito de voto das mulheres. Esses homens sufragistas, pró-mulheres, foram chamados por Alexandre Dumas filho de "feministas". 

"As primeiras feministas eram, portanto, homens: homens que o discurso médico considerava anormais por terem perdido seus 'atributos viris', mas também homens acusados de feminizar-se, em razão de sua proximidade com o movimento político das cidadãs", situa Preciado.

Ao longo do livro, antes de obter o documento que o identificava como homem, Preciado relata as dificuldades que um transgênero encontra diante das instâncias legais. A principal delas: o momento de apresentar seu passaporte a um agente alfandegário. 

Preciado entregava o documento que trazia uma foto, em que ele ainda era mulher, e o agente olhava para ele, em processo de transição, olhava para a foto. Olhava novamente. E dizia: "Essa não é você".

O constrangimento estendia-se a uma revista que era feita por uma agente, que precisava tocar seus genitais para comprovar que havia ali uma vagina. E, portanto, o passaporte dizia a verdade.

O autor relembra os anos 1990 quando passava os verões na ilha de Lesbos:

"A primeira imagem da praia de Eresou permanece intacta em minha memória como um hino à utopia, como um apelo à revolução. Era o impossível feito realidade: um quilômetro de areia e mar habitado apenas por quinhentas lésbicas nuas".

"À tarde, no pôr do sol, formávamos dois times para jogar vôlei: as 'machonas' e as 'mulherzinhas'. De um lado, as dinamarquesas, alemãs e inglesas, com o cabelo raspado, os ombros quadrados esculpidos pela natação e tatuados com lábris (machado que representa a bandeira lésbica); do outro, as italianas, gregas e francesas, de cabelos compridos e braços dourados e ágeis. O norte contra o sul."

De volta a Lesbos, em 2016, não há mais lésbicas nuas nas praias. Preciado encontra um lugar militarizado, vigilante, marcado pela "criminalização da imigração".

A ex-mulher de Preciado, Virginie Despentes, ganhou fama ao publicar Baise-moi, quando tinha 24 anos. Ex-punk, ex-prostituta, ex-funcionária de supermercado, Virginie nasceu em Lyon, na França. É autora de várias obras, entre elas Teoria King Kong

Teoria King Kong começa com uma pancada certeira:

"Escrevo a partir da feiura e para as feias, as caminhoneiras, as frígidas, as mal comidas, as incomíveis, as histéricas, as taradas, todas as excluídas do grande mercado da boa moça. E começa assim para que tudo fique bem claro: não me desculpo de nada, não vim aqui para reclamar. Não trocaria de lugar com ninguém, porque ser Virginie Despentes me parece um assunto muito mais interessante do que qualquer outro".

Teoria King Kong é um ensaio/manifesto feminista, dividido em sete textos, repletos de provocação, como: "Eu te fodo ou você me fode?", "Impossível estuprar esta mulher cheia de vícios", "King Kong girl".

Em um dos ensaios, Virginie relembra a época em que viajava de carona, com o cabelo pintado, minissaia, meias rasgadas e tênis All Star. Ao retornar de uma viagem, na marginal que rodeia Paris, ela e uma amiga foram estupradas por três garotões, armados de espingarda. Esse estupro é uma espécie de marco fundador no feminismo de Virginie. Incapaz de falar sobre o ocorrido, ela só encontrará consolo ao topar com um artigo da feminista americana Camille Paglia na revista Spin

Diferentemente de adotar uma postura de vítima, Camille Paglia sugere às mulheres vítimas de estupro que esse é o preço que se paga por sair da proteção da asa paterna:

"Trata-se de um risco inevitável, um risco que as mulheres devem levar em conta e aceitar correr se desejam sair de casa e circular livremente. Se isso acontecer com você, levante a cabeça, dust yourself e dê a volta por cima. E se isso te amedrontar demais é melhor ficar na casa do papai e da mamãe fazendo as unhas".

Virginie faz também sua mea-culpa:

"Sim, havíamos sobrevivido ao invés de morrer. Sim, usávamos minissaias sem estarmos acompanhadas de um cara, de noite, sim, fomos estúpidas e fracas e incapazes de quebrar a cara deles".

Mais adiante, a autora sugere uma invenção tecnológica para atacar estupradores:

"É surpreendente que, em 2006, enquanto um monte de gente desfila com minúsculos computadores de bolso, com câmeras fotográficas, com telefones, com agendas, com música, ainda não exista nenhum objeto que a gente possa enfiar na buceta quando sai para dar uma volta, algo que deixasse em pedaços o caralho do primeiro imbecil que tentasse se enfiar lá dentro sem permissão".

 No texto Dormindo com o inimigo, Virginie relembra a época em que se prostituiu, em Lyon e Paris. Ela arrumava os clientes pelo minitel (videotexto popular na França, antes da internet). Ganhava muito dinheiro. Vestia-se como "gostosona", com salto alto, vestido justo e maquiagem. Havia pouca concorrência e os clientes eram toleráveis. A autora sai em defesa da prostituição:

"Durante todo o primeiro ano, adorei o trabalho. Porque o dinheiro era mais fácil do que em outros lugares, mas também porque me permitiu experimentar quase tudo o que me intrigava, me excitava, me perturbava ou me fascinava, sem esquentar muito a cabeça e sem todos os julgamentos morais".

Em outro momento, diz:

"Impedir o exercício da prostituição dentro de circunstâncias legais adequadas é especificamente impedir que a classe feminina enriqueça, que tire proveito de sua própria estigmatização".

Sobre os filmes pornográficos, Virginie lembra que o então presidente francês Valéry Giscard d' Estaing proibiu o cine pornô nos anos 1970, não porque houvesse qualquer demanda popular nesse sentido, mas em razão do enorme sucesso que o pornô obtinha na época:

"A moral protegida é aquela que pretende que só os dirigentes experimentam uma sexualidade lúdica. O povo deve ficar bem tranquilo, muita luxúria sem dúvida atrapalharia sua dedicação ao trabalho".

Enfim, para aqueles que quiserem entender melhor o tema, para tomar contato com novos autores e autoras feministas, Um apartamento em Urano e Teoria King Kong podem ser pontos de partida interessantes. 

Pessoalmente, por mera curiosidade, gostaria de saber mais sobre como Paul Beatriz Preciado, mestre em filosofia e teoria de gênero pela New School Research de Nova York e doutor pela Universidade de Princeton (EUA), apaixonou-se por uma antípoda "casca grossa", como a própria Virginie Despentes se define. Algo somente explicável pelas circunavegações insondáveis próprias do amor.


Lectures lesbiennes et féministes

Un appartement sur Uranus - Chroniques de la traversée, de l'espagnol Paul Beatriz Preciado, arrive en librairie chez l'éditeur Zahar. Le livre rassemble des articles publiés par Preciado dans le journal français Libération entre 2010 et 2018.

Durant cette période, Preciado a effectué sa transition de Beatriz à Paul. Il évoque les changements corporels, avec des injections de testostérone (mue de la voix, apparition de poils), et la discordance entre le sujet légal (le passeport portait le nom de Beatriz) et la nouvelle personne qui naissait (Paul).

C'est également durant cette période que Preciado, philosophe, a divorcé de Virginie Despentes, autrice du roman controversé Baise-moi, adapté au cinéma et censuré par le Conseil d'État français.

Un appartement sur Uranus fait référence à un rêve que l'auteur a eu avec une artiste plasticienne sur le meilleur endroit où vivre. L'artiste disait qu'elle aurait un appartement sur Mars, mais garderait un pied-à-terre sur Saturne, abandonnant l'appartement sur Uranus car "trop loin".

Le rêve reflète, bien sûr, le nomadisme de Preciado, qui a écrit ses chroniques pour Libération depuis différents endroits du monde (New York, Buenos Aires, Paris, Barcelone, Lesbos, Athènes, entre autres). Les textes ont été produits dans des chambres d'hôtel et des aéroports.

Comme l'auteur l'explique dans l'introduction, le titre du livre fait référence à l'histoire de l'homosexualité et son lien avec la planète Uranus, découverte par William Herschel, mort à 84 ans, "exactement le temps nécessaire à Uranus pour faire le tour du Soleil".

Dans la mythologie grecque, Uranus était marié à sa mère, Gaïa. Ils eurent plusieurs enfants (Océan, Temps et Mémoire). Uranus avait l'habitude de tuer ses enfants dès leur naissance. Ainsi, Gaïa demanda à Chronos (le Temps) de castrer son père. "Des organes génitaux amputés d'Uranus naquit Aphrodite, la déesse de l'amour". Ainsi, Aphrodite ne naquit pas d'une relation hétérosexuelle. Il y aurait donc une autre forme de conception.

Preciado rappelle que c'est au juriste allemand Karl Heinrich Ulrichs que revint la création du terme "uraniste", pour expliquer l'existence du "troisième sexe". Le 28 août 1867, "devant 500 juristes, membres du Parlement allemand et un prince bavarois", Ulrichs demanda la parole et confessa : "Je suis uraniste". En "récompense", il fut condamné à la prison et ses livres furent censurés.

"Ulrichs fut donc l'un des premiers citoyens européens à déclarer publiquement qu'il voulait un appartement sur Uranus", note Preciado.

Le 6 mai 1868, le militant et défenseur des minorités sexuelles Karl Maria Kertbeny écrit une lettre à Ulrichs et crée le mot "homosexuel", en référence au terme "uraniste".

Kertbeny défend les relations "homosexuelles", disant qu'elles représentent une autre façon d'aimer. Similaire à celle des "hétérosexuels", un autre terme créé par Kertbeny.

Les chroniques pour Libération étaient signées par Beatriz Preciado. Plus tard, lorsque l'État espagnol reconnaît sa transition sexuelle, il signe désormais Paul B. Preciado.

Dans l'une des chroniques, il raconte que, le 16 novembre 2016, le Bulletin National des Naissances d'Espagne inclut, parmi les "nouveau-nés", Paul Beatriz Preciado. Pour "renaître" en tant qu'homme, Preciado a dû remettre son acte de naissance, qui a été détruit par l'État. Il a cherché dans le même Bulletin, qui contient également la liste des morts, le nom de Beatriz Preciado, mais il n'y figurait pas.

"Je pourrais y être, car pour certifier le changement légal de sexe, il a fallu détruire l'acte de naissance, rédigé par mon père, écrit et signé le 11 septembre 1970".

"Ainsi, j'assiste à ma mort et à ma renaissance légale. Je suis à la fois un cadavre et un nouveau-né légal."

Dans l'article L'amnésie du féminisme, Preciado retrace l'origine du terme, qui remonte à 1871, "inventé par le jeune médecin français Ferdinand-Valère Faneau de la Cour, dans sa thèse de doctorat Féminisme et infantilisme chez les tuberculeux".

Dans ce travail académique, Ferdinand de la Cour observe que l'homme tuberculeux a des traits féminins :

"Cheveux et sourcils fins, cils longs et fins, comme ceux des femmes, la peau est blanche (...) les contours du corps montrent une douceur remarquable, en même temps que les articulations et les muscles combinent leur action pour donner aux mouvements cette flexibilité, ce je-ne-sais-quoi d'ondulant et d'élégant qui est propre au chat et à la femme".

L'année suivante, l'écrivain et journaliste Alexandre Dumas fils (auteur de La Dame aux camélias, entre autres) utilise le terme, inventé par le médecin, pour dénigrer les hommes favorables au droit de vote des femmes. Ces hommes suffragistes, pro-femmes, furent appelés par Alexandre Dumas fils des "féministes".

"Les premiers féministes étaient donc des hommes : des hommes que le discours médical considérait comme anormaux pour avoir perdu leurs 'attributs virils', mais aussi des hommes accusés de se féminiser, en raison de leur proximité avec le mouvement politique des citoyennes", situe Preciado.

Tout au long du livre, avant d'obtenir le document qui l'identifiait comme homme, Preciado relate les difficultés qu'un transgenre rencontre face aux instances légales. La principale d'entre elles : le moment de présenter son passeport à un agent des douanes.

Preciado remettait le document qui portait une photo, où il était encore une femme, et l'agent le regardait, en pleine transition, regardait la photo. Regardait à nouveau. Et disait : "Ce n'est pas vous".

L'embarras s'étendait à une fouille effectuée par une agente, qui devait toucher ses organes génitaux pour vérifier qu'il y avait bien un vagin. Et donc, que le passeport disait la vérité.

L'auteur se souvient des années 1990, lorsqu'il passait ses étés sur l'île de Lesbos :

"La première image de la plage d'Eresou reste intacte dans ma mémoire comme un hymne à l'utopie, comme un appel à la révolution. C'était l'impossible devenu réalité : un kilomètre de sable et de mer habité uniquement par cinq cents lesbiennes nues".

"L'après-midi, au coucher du soleil, nous formions deux équipes pour jouer au volley-ball : les 'machos' et les 'femmelettes'. D'un côté, les Danoises, les Allemandes et les Anglaises, aux cheveux rasés, aux épaules carrées sculptées par la natation et tatouées de labrys (hache représentant le drapeau lesbien) ; de l'autre, les Italiennes, les Grecques et les Françaises, aux cheveux longs et aux bras dorés et agiles. Le Nord contre le Sud."

De retour à Lesbos en 2016, il n'y a plus de lesbiennes nues sur les plages. Preciado trouve un lieu militarisé, surveillé, marqué par la "criminalisation de l'immigration".

L'ex-femme de Preciado, Virginie Despentes, a gagné en notoriété en publiant Baise-moi, à l'âge de 24 ans. Ex-punk, ex-prostituée, ex-employée de supermarché, Virginie est née à Lyon, en France. Elle est l'auteure de plusieurs ouvrages, dont Théorie King Kong.

Théorie King Kong commence par un coup franc :

"J'écris à partir de la laideur et pour les laides, les camionneuses, les frigides, les mal baisées, les immangeables, les hystériques, les obsédées, toutes les exclues du grand marché de la bonne nana. Et ça commence comme ça pour que tout soit bien clair : je ne m'excuse de rien, je ne suis pas venue ici pour me plaindre. Je n'échangerais ma place avec personne, car être Virginie Despentes me semble un sujet bien plus intéressant que n'importe quel autre".

Théorie King Kong est un essai/manifeste féministe, divisé en sept textes, remplis de provocation, comme : "Je te baise ou tu me baises ?", "Impossible de violer cette femme pleine de vices", "King Kong girl".

Dans l'un des essais, Virginie se souvient de l'époque où elle faisait du stop, avec les cheveux teints, une minijupe, des chaussettes déchirées et des baskets All Star. Au retour d'un voyage, sur la rocade qui entoure Paris, elle et une amie furent violées par trois jeunes hommes armés d'un fusil. Ce viol est une sorte de marque fondatrice dans le féminisme de Virginie. Incapable de parler de ce qui s'était passé, elle ne trouvera du réconfort qu'en tombant sur un article de la féministe américaine Camille Paglia dans le magazine Spin.

Contrairement à adopter une posture de victime, Camille Paglia suggère aux femmes victimes de viol que c'est le prix à payer pour sortir de la protection de l'aile paternelle :

"Il s'agit d'un risque inévitable, un risque que les femmes doivent prendre en compte et accepter de courir si elles souhaitent sortir de chez elles et circuler librement. Si cela vous arrive, relevez la tête, secouez-vous et passez à autre chose. Et si cela vous effraie trop, il vaut mieux rester chez papa et maman à se faire les ongles".

Virginie fait également son mea-culpa :

"Oui, nous avions survécu au lieu de mourir. Oui, nous portions des minijupes sans être accompagnées d'un mec, la nuit, oui, nous avons été stupides et faibles et incapables de leur casser la gueule".

Plus loin, l'auteure suggère une invention technologique pour attaquer les violeurs :

"Il est surprenant qu'en 2006, alors qu'un tas de gens se promènent avec des mini-ordinateurs de poche, des appareils photo, des téléphones, des agendas, de la musique, il n'existe toujours aucun objet que l'on puisse enfoncer dans le vagin quand on sort se promener, quelque chose qui mettrait en pièces la bite du premier imbécile qui essaierait de s'y foutre sans permission".

Dans le texte Dormir avec l'ennemi, Virginie se souvient de l'époque où elle se prostituait, à Lyon et Paris. Elle trouvait ses clients par le minitel (vidéotexte populaire en France, avant Internet). Elle gagnait beaucoup d'argent. Elle s'habillait en "bombshell", avec des talons hauts, une robe moulante et du maquillage. Il y avait peu de concurrence et les clients étaient tolérants. L'auteure défend la prostitution :

"Pendant toute la première année, j'ai adoré ce travail. Parce que l'argent était plus facile qu'ailleurs, mais aussi parce que cela m'a permis d'expérimenter presque tout ce qui m'intriguait, m'excitait, me perturbait ou me fascinait, sans trop me prendre la tête et sans tous les jugements moraux".

À un autre moment, elle dit :

"Empêcher l'exercice de la prostitution dans des circonstances légales appropriées, c'est spécifiquement empêcher la classe féminine de s'enrichir, de tirer profit de sa propre stigmatisation".

Concernant les films pornographiques, Virginie rappelle que le président français Valéry Giscard d'Estaing a interdit le ciné porno dans les années 1970, non pas parce qu'il y avait une quelconque demande populaire en ce sens, mais en raison de l'énorme succès que le porno obtenait à l'époque :

"La morale protégée est celle qui prétend que seuls les dirigeants expérimentent une sexualité ludique. Le peuple doit rester bien tranquille, trop de luxure sans doute gênerait son dévouement au travail".

Enfin, pour ceux qui souhaitent mieux comprendre le sujet, pour découvrir de nouveaux auteurs et autrices féministes, Un appartement sur Uranus et Théorie King Kong peuvent être des points de départ intéressants.

Personnellement, par simple curiosité, j'aimerais en savoir plus sur la façon dont Paul Beatriz Preciado, diplômé en philosophie et théorie du genre de la New School Research de New York et docteur de l'Université de Princeton (États-Unis), est tombé amoureux d'une antipode "peau dure", comme Virginie Despentes se définit elle-même. Quelque chose qui ne s'explique que par les circonvolutions insondables propres à l'amour.

     


     


terça-feira, 11 de agosto de 2020

Cromossomos e identidade de gênero

 


Em maio deste ano, o deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) produziu um projeto de lei que determina que a característica cromossômica define o gênero do indivíduo. Dois meses depois, em julho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) reproduziu uma entrevista do então candidato Enéas Carneiro que, ao ser questionado sobre o homossexualismo, mencionou a característica cromossômica como determinante. Se a pessoa tem cromossomos Xx, é mulher. Se tem cromossomos Xy, é homem. Enéas falava ainda em perpetuação da espécie e do "não lugar" do homossexual nesse enquadramento. No mundo de Enéas, só homens e mulheres heterossexuais tinham lugar, obedecendo à ordem cósmica dos cromossomos Xy e Xx. 

Ícone folclórico da extrema-direita raivosa, Enéas - eterno candidato perdedor à Presidência da República, deputado federal recordista de votos, falecido em 2007 - recebeu 13 anos depois de sua morte uma homenagem do deputado que o superou em número de votos. 

Eduardo Bolsonaro, "o filho 03" do presidente Jair Bolsonaro, eleito com 1 milhão e 800 mil votos (300 mil a mais que Enéas), escreveu saudosista: "Que falta faz um Enéas".

Eduardo Bolsonaro não se conformava com um comercial do Dia dos Pais, que tinha Thammy, o filho transexual de Gretchen, como símbolo de pai presente. A publicidade era da empresa de cosméticos Natura. 

Eduardo Bolsonaro batia na tecla dos cromossomos para dizer que Thammy, por mais que deixasse crescer a barba, tirasse os seios cirurgicamente, mesmo que implantasse um pênis e casasse com uma mulher, jamais seria um homem de fato, porque seus cromossomos são Xx. Ou seja, biologicamente, para ele, Thammy é "mulher".

O deputado paranaense Filipe Barros e o deputado federal mais votado por São Paulo se recusam a reconhecer a questão do gênero. Eles misturam gênero com sexo biológico. 

A pobre Judith Butler, que investiu muito de seu tempo acadêmico para explicar que sexo biológico e gênero não são casados, foi atacada ao desembarcar em São Paulo, para uma conferência em novembro de 2017. Xingada de "pedófila", sabe-se lá por que (que eu saiba Butler nunca usou batina), viu 320 mil pessoas assinarem um manifesto pedindo que sua conferência fosse cancelada. 

Tudo porque Butler afirma em suas obras que não se pode confundir sexo biológico com gênero. Eles não se casam. Há mesmo um divórcio pré-matrimonial entre eles. 

Para entender os twitters de Eduardo Bolsonaro, o saudosismo do pensamento rudimentar de um Enéas e mesmo o mais recente absurdo de um deputado criar um projeto de lei cromossômico, é preciso compreender que o Brasil é um país atrasado. Um fim de mundo intelectual. Um lugar sem Prêmios Nobel, com verbas para educação cortadas a todo momento e que teve um ministro do governo Bolsonaro que cometia erros brutais de concordância, crase, ortografia, hifenização e até mesmo troca de palavras.

A questão do sexo biológico e do gênero é tão óbvia, que me sinto até constrangido em ter de abordar o tema. Nasce um indivíduo com os cromossomos Xy. É um menino. Vai ser registrado como tal. Os pais vão comprar roupas masculinas, presenteá-lo com brinquedos masculinos e o pai levá-lo a atividades masculinas (jogo de futebol).

Em dado momento, esse suposto menino vai rejeitar as roupas e as práticas masculinas. Passará a usar roupas femininas e se portar como uma mulher. 

O mesmo fenômeno ocorre com aquele indivíduo que tem cromossomos Xx. É mulher. Vai usar roupas femininas, brincar com bonecas e participará de atividades com a mãe (fazer as unhas no cabeleireiro). No decorrer de seu desenvolvimento, essa suposta menina passará a usar roupas masculinas e se portar como homem.

Como isso é possível se esses dois indivíduos têm os cromossomos que biologicamente indicam que um deles seria homem e o outro mulher? Como podem adquirir práticas antípodas?

Ocorre que o sexo biológico não está relacionado com a identidade de gênero. O fato de alguém ter um pênis não significa que essa mesma pessoa se reconhecerá em roupas e práticas masculinas. Quando se olha no espelho, não vê homem, mas uma mulher. Idem para a situação inversa.

Por que isso ocorre? Ainda não se sabe. O que já foi provado é que não é um comportamento doentio, que necessite ser "curado", como asseveram certos pastores evangélicos. 

Em 1905, Freud, em seu famoso "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", já tirava de sobre as costas dos homossexuais o peso de comportamento doentio, desviante, que merecesse punição e repúdio social. Para Freud, o homossexual era apenas alguém que tinha como objeto de desejo o mesmo sexo. Freud ia além e dizia que as pessoas trazem uma predisposição bissexual, em razão de, na infância, terem descoberto suas pulsões, manipulando o próprio sexo.

É interessante quando ouço a menção ao que seja "natural". "Não é normal ser travesti", dizem, "isso foge à Natureza". "Não é normal ser homossexual, porque se toda a humanidade tivesse relações com o mesmo sexo, a espécie seria extinta."

Um amigo dileto, quando comentava sobre o que é "natural" ou não, brincava, dizendo que nunca tinha visto um tubarão usar óculos, nem passarinho cantar ópera. Esse amigo referia-se à natureza própria do ser humano, que difere da natureza dos outros animais. O homo sapiens cria seu próprio ambiente, inventa um mundo artificial, povoado de computadores, automóveis, ares-condicionados, armas, munições e milhões de utensílios.

A sexualidade - nesse mundo criado pelo homo sapiens - vai além da fronteira biológica cromossômica. Homens se relacionam com outros homens, mulheres com outras mulheres. Homens viram mulheres. E mulheres viram homens. Homens se relacionam com mulheres e com homens. Mulheres fazem sexo com homens e também com mulheres. O sexo não tem mais relação com a perpetuação da espécie, mas é pleno de novos caminhos a serem percorridos.  

Em 1999, dei a minha modesta contribuição para a terminologia da sexualidade ao lançar o livro Nicola - um romance transgênero. Na virada do século, o termo transgênero ainda não havia chegado por aqui. Causava estranhamento. As pessoas perguntavam: "O que é isso mesmo?". Foi editado pelo selo GLS da Editora Summus e causava pânico em livreiros. Lembro de uma conversa que tive com um proprietário de uma livraria em um movimentado aeroporto brasileiro e o sujeito disse que nunca teria livro semelhante em suas prateleiras.

Basta dar uma olhada em murais, estátuas e relatos da antiguidade para entender que já naquela época os cromossomos Xx e Xy eram enganadores.

Agora, querer explicar tudo isso para quem tem saudades de um Enéas é o fim da picada. 

E, para encerrar o papo, a Natura, feliz da vida, comemora a subida de 10 pontos em suas ações na Bolsa. Vitória de Thammy, o "pai presente".

(A ilustração desta postagem foi tirada do artigo "Identidade de gênero: a pluralidade que é construída no singular!", de Leonardo Ponte). 

Tem um manual interessante e muito didático a esse respeito, intitulado "Orientações sobre identidade de gênero - conceitos e temas", de autoria de Jaqueline Gomes de Jesus. E, é claro, textos de Judith Butler sobre o tema, como o fundamental "Problemas de gênero".

Chromosomes and gender identity

In May of this year, federal deputy Filipe Barros (PSL-PR) drafted a bill stating that chromosomal characteristics define an individual's gender. Two months later, in July, federal deputy Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) shared an interview with the late presidential candidate Enéas Carneiro, who, when questioned about homosexuality, mentioned chromosomal characteristics as determinative. If a person has XX chromosomes, they are a woman. If they have XY chromosomes, they are a man. Enéas also spoke about the perpetuation of the species and the "non-place" of homosexuals within this framework. In Enéas's world, only heterosexual men and women had a place, adhering to the cosmic order of XY and XX chromosomes.

A folkloric icon of the far-right, Enéas—a perennial losing candidate for the Brazilian presidency, a federal deputy with a record number of votes, who passed away in 2007—received a tribute 13 years after his death from the deputy who surpassed him in votes. Eduardo Bolsonaro, "the third son" of President Jair Bolsonaro, elected with 1.8 million votes (300,000 more than Enéas), nostalgically wrote: "How we miss an Enéas."

Eduardo Bolsonaro was not pleased with a Father's Day commercial featuring Thammy, the transgender son of Gretchen, as a symbol of a present father. The advertisement was for the cosmetics company Natura. Eduardo Bolsonaro hammered on the chromosomal argument to claim that Thammy, no matter how much he grew a beard, surgically removed his breasts, or even implanted a penis and married a woman, would never truly be a man because his chromosomes are XX. In other words, biologically, for him, Thammy is a "woman."

The Paraná deputy Filipe Barros and the most voted federal deputy from São Paulo refuse to acknowledge the issue of gender. They conflate gender with biological sex. The poor Judith Butler, who invested much of her academic career explaining that biological sex and gender are not the same, was attacked upon arriving in São Paulo for a conference in November 2017. Called a "pedophile" for reasons unknown (as far as I know, Butler never wore a priest's robe), she saw 320,000 people sign a petition demanding her conference be canceled.

All because Butler asserts in her work that biological sex and gender should not be confused. They are not married. There is even a pre-matrimonial divorce between them. To understand Eduardo Bolsonaro's tweets, the nostalgia for the rudimentary thinking of an Enéas, and even the recent absurdity of a deputy creating a chromosomal bill, one must understand that Brazil is a backward country. An intellectual backwater. A place without Nobel Prizes, with education budgets constantly cut, and which had a minister in the Bolsonaro government who made glaring errors in grammar, spelling, hyphenation, and even word substitution.

The issue of biological sex and gender is so obvious that I feel embarrassed even having to address it. An individual is born with XY chromosomes. It's a boy. He will be registered as such. The parents will buy him male clothes, give him male toys, and the father will take him to male activities (like soccer games). At some point, this supposed boy will reject male clothes and practices. He will start wearing female clothes and behaving like a woman.

The same phenomenon occurs with an individual who has XX chromosomes. It's a girl. She will wear female clothes, play with dolls, and participate in activities with her mother (like getting her nails done at the salon). As she develops, this supposed girl will start wearing male clothes and behaving like a man.

How is this possible if these two individuals have chromosomes that biologically indicate one would be a man and the other a woman? How can they adopt opposite practices? It turns out that biological sex is not related to gender identity. The fact that someone has a penis does not mean that person will identify with male clothes and practices. When they look in the mirror, they don't see a man, but a woman. The same goes for the opposite situation.

Why does this happen? It's still unknown. What has been proven is that it is not a pathological behavior that needs to be "cured," as certain evangelical pastors assert. In 1905, Freud, in his famous "Three Essays on the Theory of Sexuality," already lifted from the shoulders of homosexuals the burden of pathological, deviant behavior deserving of punishment and social repudiation. For Freud, a homosexual was simply someone whose object of desire was the same sex. Freud went further, saying that people have a bisexual predisposition because, in childhood, they discover their drives by manipulating their own sex.

It's interesting when I hear mentions of what is "natural." "It's not normal to be a transvestite," they say, "it goes against Nature." "It's not normal to be homosexual because if all humanity had relations with the same sex, the species would go extinct." A dear friend, when commenting on what is "natural" or not, joked that he had never seen a shark wear glasses or a bird sing opera. This friend was referring to the unique nature of humans, which differs from that of other animals. Homo sapiens create their own environment, inventing an artificial world filled with computers, cars, air conditioners, weapons, ammunition, and millions of utensils.

Sexuality—in this world created by Homo sapiens—goes beyond the chromosomal biological boundary. Men have relationships with other men, women with other women. Men become women. And women become men. Men have relationships with women and with men. Women have sex with men and also with women. Sex no longer has a relationship with the perpetuation of the species but is full of new paths to be explored.

In 1999, I made my modest contribution to the terminology of sexuality by publishing the book Nicola - A Transgender Novel. At the turn of the century, the term transgender had not yet arrived here. It caused confusion. People asked, "What is that?" It was published by the GLS imprint of Summus Editora and caused panic among booksellers. I remember a conversation with the owner of a bookstore in a busy Brazilian airport, and the man said he would never have such a book on his shelves.

Just take a look at murals, statues, and ancient accounts to understand that even back then, XX and XY chromosomes were misleading. Now, trying to explain all this to someone who misses an Enéas is the last straw.

And to wrap things up, Natura, happy as can be, celebrates a 10-point rise in its stock. A victory for Thammy, the "present father."

(The illustration for this post was taken from the article "Gender Identity: The Plurality Built in the Singular!" by Leonardo Ponte.) There's an interesting and very didactic manual on this subject, titled Guidelines on Gender Identity - Concepts and Themes, by Jaqueline Gomes de Jesus. And, of course, Judith Butler's texts on the subject, such as the fundamental Gender Trouble.

                        

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Meu nome é Isaac dos Santos


Não sei quanto as grandes redes de loja gastam com empresas de cobrança. Ao que tudo indica, é muito dinheiro jogado no lixo. Os dados das empresas de cobrança são ultrapassados. Não condizem com a realidade. Falo isso por experiência própria. De manhã, à tarde e à noite - inclusive sábados, domingos e feriados - as assessorias de cobrança ligam aqui em casa e pedem para falar com Isaac dos Santos. 

Que eu saiba, em 15 anos de existência, o meu número de telefone nunca foi de Isaac dos Santos. Que eu saiba também ele nunca morou aqui em casa. Talvez possa estar enganado. Vou até descer ao quintal, para verificar. Pode ser que haja um Isaac dos Santos vivendo sob o tanque de lavar roupa.

O telefone toca. O trouxa (eu) atendo e uma voz robótica diz:
"Alô".

Respondo: "Alô".

Pronto. As portas do Inferno se abrem. 

"Bom dia, gostaria de falar com o sr. Isaac dos Santos..."

"Bom dia. Aqui nunca morou uma pessoa chamada Isaac dos Santos. A sra. poderia tirá-lo desta relação, por favor. Sua informação está errada."

"Não é Isaac dos Santos...Se você não é Isaac dos Santos, diga não..."

Não era uma pessoa. Era uma máquina que falava comigo. Pior: uma máquina burra. 

À tarde, a história se repete. À noite, idem. No dia seguinte, será a mesma ladainha. 

Os operadores de telemarketing da cobrança correm em busca de Isaac dos Santos. E eu não posso atendê-los. Isso me deixa, estranhamente, desconfortável. Queria ser Isaac dos Santos. Gostaria de ser essa pessoa, só para responder com convicção, com força e determinação: "Sim, sou eu. Isaac dos Santos..."

Às vezes, de madrugada, fico imaginando como será esse Isaac dos Santos... Gordinho e careca? Cachaceiro? Porte atlético, loiro e 1m90 de músculos? 

Não sei por que, mas imagino um Isaac dos Santos moreno, bronzeado, com barriga ligeiramente saliente (não gordo), cabelo ralo e sem barba. Também acho que não tenha tatuagem. Não acredito que Isaac dos Santos tenha tatuado o braço, nem a perna. Ele deve tomar cerveja em dias de calor. Gosta de praia e de caipirinha. É aquele cara que adora um camarão praiano na brasa. Não acho que ele torça para algum time grande, como Corinthians ou Palmeiras. Sinto que seu time do coração seja uma equipe pequena, como o Água Santa de Diadema ou o Azulão de São Caetano.

Deve ser divorciado e casado de novo, com uma moça mais nova, com quem teve dois filhos. Ele deve pagar pensão para a primeira mulher. Vive de aluguel em uma bairro de ruas íngremes e casas amontoadas. Quanto será a dívida de Isaac dos Santos? O que será que ele comprou e não pagou?

Então, o telefone toca e eu atendo:

"O sr. Isaac dos Santos, por favor..."

Nessa hora, decido tomar uma atitude. É atitude dessas de filme, em que o roteiro muda de repente. O detetive que investigava o crime, na verdade, era o próprio criminoso.

Pronto, é assim que se faz.

Fui ao cartório e mandei o cartorário registrar meu novo nome:

"Isaac dos Santos".

Fui para casa, feliz da vida, com o novo registro de nascimento em mãos. Agora, eu não era mais eu. Era Isaac dos Santos, recém-nascido

Aguardei ansiosamente a ligação. Roía as unhas de nervoso. Não via a hora de atender o aparelho e dizer com voz de tenor:

"Bom dia, sim, sou Isaac dos Santos. Em que posso ajudá-la?" 

Para o meu desespero, o telefone não tocava. Passou uma semana, duas...Era uma espera angustiante.

Então, uma manhã de outono ensolarada, finalmente, toca o telefone. Corro para atender.

"Alô..." - diz a moça robótica do telemarketing de cobrança.
"Quer falar com Isaac dos Santos? Sou eu mesmo."
"Não, senhor. Gostaria de falar com a dona Glória..."

Desliguei o telefone, sabendo que minha próxima atitude radical seria muito mais complicada. 



sábado, 4 de abril de 2020

Série sobre Freud mistura desinformação com oportunismo


Pobre Sigmund Freud (1856-1939)! Se você cair na bobagem de assistir à série sobre ele, em cartaz na Netflix, produzida por três moleques (Marvin Kren, Benjamin Hessler e Stefan Brunner) vai achar que o criador da psicanálise era um drogado, pilantra, que transava com suas pacientes, e trabalhava meio período ajudando a polícia capturar serial-killers.

É inacreditável que as Freud Foundations, tanto as sediadas na Áustria como nos EUA, permitissem que essa série sensacionalista e oportunista passasse batida. Por muito menos, nos anos 1980, a Fundação Kurt Weill proibiu a exibição de uma peça encenada pelo grupo brasileiro Ornitorrinco, em Nova York. Os absurdos da montagem tupiniquim eram tantos e tão grotescos que a Fundação Weill perdeu a paciência com Cacá Rosset e companhia.

A série Freud é tão mal-intencionada que mistura acontecimentos reais com roteiro de sujas intenções. Freud, vivido por Georg Friedrich, que fisicamente é a cara de Freud quando moço (as semelhanças se encerram aí), está iniciando a carreira em 1886, na Viena, sob o domínio do Império Austro-Húngaro. Ele mora em um apartamento mal-assombrado, erguido sobre as cinzas do Teatro Ring, que pegou fogo em 1881 e deixou 384 mortos. 

É verdade. Freud morou mesmo nesse local, logo depois de se formar e fazer um estágio na França, onde descobriu uma nova forma de tratar os doentes mentais com o médico Jean-Martin Charcot (1825-1893). Charcot hipnotizava seus pacientes, para fazer aflorar traumas que poderiam ter levado o doente a enlouquecer. Só que o inquilino Freud nunca se queixou de fenômenos extrassensoriais como pianos que tocam sozinhos ou gritos apavorantes de almas penadas. 

O Freud da série não paga aluguel. Foge do senhorio. É um caloteiro, que usa cocaína no ritmo do drogadito da Cracolândia e que passa as noites em botecos, com o amigo, médico e escritor Arthur Schnitzler (1862-1931). 

Schnitzler e Freud, na realidade, nunca foram amigos de copo, nem dividiram mesas de boteco. Em uma de suas correspondências, datada de 1922, Freud confessava que havia resistido ser apresentado ao escritor, porque sentia que Schnitzler seria "seu duplo". Ou seja, ambos (Freud e Schnitzler) investigavam o abismo do inconsciente. Schnitzler em suas obras (De olhos bem fechados, virou até filme sob a batuta de Stanley Kubrick) e Freud deixando seus pacientes à vontade no divã e ouvindo seus sonhos e desejos mais profundos.

Em uma dessas noitadas malucas, drogado e bêbado, Freud conhece a médium Fleur Salomé. Aí surge outra imbricação picareta. Na vida de Freud, tinha mesmo uma Salomé. Ela se chamava Lou Andreas-Salomé (1861-1937). Mulher atraente, admirava Freud e era autora e psicanalista. Nenhuma das vários biografias de Freud (Ernest Jones e Peter Gay, só para citar dois biógrafos acima de qualquer suspeita) observa qualquer intimidade entre Freud e Andreas-Salomé. Os dois trocavam cartas. Eram afetuosos, mas nada de ir para cama.

Na série, Salomé (interpretada por Ella Rumpf) é uma médium, que vive com a família de nobres húngaros, os Szápary. Os Szápary existiram de fato, mas a série mostra a matriarca da família com discutíveis superpoderes. É só ela encostar a mão no sujeito, para dominá-lo. Imediatamente, o coitado entra em um estado hipnótico capaz de fazer qualquer estupidez. Inclusive, saltar do andar mais alto do prédio.

Freud e Salomé consomem cocaína. Transam adoidado, mesmo Salomé sendo paciente de Freud e estar sob seus cuidados médicos. Onde fica a ética de médico-paciente? Afundou-se no esgoto de ideias dos criadores dessa produção meia boca.

Surge em cena o mentor de Freud, o médico Josef Breuer que também começou a investigar as profundezas do inconsciente, mas pisou no freio, diante do desafio que a repressão sexual representava na época. Freud foi além e criou a psicanálise, desvinculando-se, mais tarde, de Breuer. Na produção, um Breuer idoso e sábio mostra-se preocupado com um Freud inseguro, desacreditado, viciado em drogas, humilhado pelos colegas da clínica psiquiátrica de Theodor Meynert. No início de sua carreira médica, Freud fez mesmo um estágio - não remunerado - na clínica de Meynert, apresentado pelos roteiristas como um vilão presunçoso e arrogante.

A série tem muito sangue. Rituais sanguinolentos incompreensíveis. Uma mistura doidivanas de psicanálise, com mediunidade, feitiçaria, rituais de matança e sabe-se lá mais que outra barbaridade. 

Se alguém quiser conhecer a importância de Freud, suas descobertas fundamentais (Complexo de Édipo, interpretação dos sonhos, divisão do inconsciente, atos falhos como forma de manifestação do reprimido, entre tantas outras), por favor, não assista esta série. 

Em relação à cocaína, não embarque no sensacionalismo. No final do século 19, novas drogas para atenuar a dor estavam sendo pesquisadas. Uma delas era a cocaína. Freud chegou a usar a droga experimentalmente. Numa carta endereçada àquela que seria sua futura esposa, a jovem Martha, afirmou que a droga a estimularia favoravelmente. O mais importante biógrafo de Freud - Ernest Jones - relatou este e outros episódios, em que mostrava o criador da psicanálise como um pesquisador sério, em busca de aliviar o sofrimento. Muito longe do psicodélico amalucado da série.

Freud é talvez um dos últimos expoentes do iluminismo. Coube a Copérnico e Galileu mostrarem que a Terra era apenas um pequeno planeta de um sistema solar, orbitando em torno do Sol. A Terra deixava de ser plana e centro do universo, para ser rebaixada a planetinha sem qualquer importância sideral. Veio Charles Darwin e jogou mais água na fervura religiosa. Os homo sapiens eram singulares primos dos macacos, com os quais dividiam 99 por cento de DNA. Freud surgiu em cena no crepúsculo do século 19 para dizer que os humanos tinham um inconsciente sobre o qual não tinham qualquer domínio. Pedra de cal no homem todo poderoso, suposto "filho de Deus".

Freud escreveu livros fundamentais: A interpretação dos sonhos, Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, O caso Schereber, O ego e o id, O mal-estar na civilização, só para citar alguns. Em Três ensaios...muita bobagem que ainda é falada sobre sexo - principalmente sobre homossexualismo - desceria pelo ralo se a pessoa tivesse lido essa obra, lançada em 1905. 
  
Quer aproveitar melhor a quarentena? Por que não descobrir o universo freudiano? A maior parte (talvez a totalidade) de suas obras está disponível, gratuitamente, on line. Deixe um pouco a Netflix e besteiras como essa série Freud de lado e mergulhe fundo no divã de Freud. Vai ser uma experiência reveladora. 









domingo, 29 de março de 2020

A solidão criativa

Eleven AM, Edward Hopper, 1926

Edward Hopper (1882-1967) retratou a solidão na América. Como poucos. Seus quadros mostram pessoas isoladas em quartos, varandas, lanchonetes. As telas têm cores fortes. As pessoas retratadas parecem olhar para o espaço vazio. Seus quadros sugerem uma solidão dolorida, insuportável. 

Gregório Gruber (1951- ) faz o mesmo com São Paulo. Suas telas reivindicam uma São Paulo vazia, destituída de gente e movimento. Uma cidade quase romântica, com ruas molhadas de garoa, luzes pouco agressivas. Bem diferente da São Paulo real, suja esburacada, repleta de sem-tetos, usuários de drogas e milhões de pessoas circulando sem parar, dia e noite.


Gregório Gruber, óleo sobre tela 600x407

Esses dois artistas plásticos têm a solidão como tema. Algo que a maioria das pessoas parece ver como ameaça latente. Em meio à quarentena que as autoridades sanitárias nos impuseram, por causa do coronavírus, as redes sociais (sempre as redes sociais!) indicam mal-estar na solidão. 

Os vídeos e mensagens que se recebe nos grupos (familiares e profissionais) mostram gente desesperada. Eles xingam. Falam palavrões. Alguns gritam. Exibem situações constrangedoras. O nível dessas publicações é grotesco. Muitos sugerem que o relacionamento com a mulher chegou ao limite. Um deles mostra uma mulher amarrada, enquanto o marido se diverte jogando games.

Grande parte apela aos palavrões, algo que parece ter se matizado não só entre aqueles de baixa instrução como entre os diplomados. Fala-se muito palavrão no Brasil. Virou norma linguística. Usar o palavrão é uma forma agressiva de se manifestar. Agride-se o ouvinte.

É um momento difícil esse que estamos vivendo. Faltam lideranças políticas. Jornalistas são ameaçados. Postagens contra as instituições (câmaras alta e baixa, assembleias) tornam-se rotineiras. O tratamento é de choque: "canalhas", são assim chamados os ministros do STF e políticos em geral. Todos eles. Nem Noé e suas filhas escapam.

O presidente age como um doido varrido, mandando as pessoas saírem do isolamento, enquanto as autoridades do resto do mundo insistem para se manter a quarentena, como única forma viável de evitar a contaminação e, consequentemente, supurar as nossas frágeis e maltratadas estruturas de saúde pública. 

Assim, precisamos ficar em casa. Recolhidos dentro de nós mesmos. Para não enlouquecer - porque ninguém parece estar preparado para viver consigo mesmo - vamos buscar abrigo na TV, em videogames, nas rádios, nos computadores, na música. As séries e filmes da Netflix (TV por streaming, novidade recente) transformam-se em boias salva-vidas.

Alguns raros recorrem aos livros. Sobre essa possibilidade, Laura Bacellar, que comanda o blog Escreva seu livro, produziu um texto sugestivo (https://www.escrevaseulivro.com.br/escritores-brasileiros-desconhecidos/), saindo em defesa do autor desconhecido. Quem é o autor desconhecido? É aquele coitado que, depois de passar por tantas decepções, conseguiu um dia ter seu livro finalmente publicado. Ela pede para os leitores deixarem os clássicos de lado - pelo menos por um tempo - e se arriscarem pela trilha dos autores desconhecidos. 

Veja o que Laura Bacellar diz: "Escolha um/a escritor/a pelo assunto da obra, pela capa, pelo som do sobrenome e embarque numa aventura de exploração. Deixe para lá esse esnobismo chato de só mencionar autores de sucesso e pontue suas conversas com  desconhecidos peculiares, esquisitos, diferentes".

O movimento em defesa do escritor brasileiro desconhecido tem pouca chance de dar certo. Os leitores estão se liquefazendo nas mídias digitais. Nenhum texto com mais de 120 toques deverá sobreviver no futuro. Quem costuma escrever no Facebook, se ultrapassa o limite de meia dúzia de linhas, ganha o carimbo de "textão". Algo a ser evitado. Perigo imediato à vista. 

Assim, em meio à quarentena, sem as 4.215 páginas do clássico de Marcel Proust; sem as milhares de páginas não lidas dos autores brasileiros desconhecidos, alguns encontram conforto na cozinha. Fazem doces e salgados. Relembram as receitas da vovó, engordando seus parceiros como porcos para o abate.

Ernest Hemingway (1899-1961) disse, certa vez, que "escrever bem é levar uma vida solitária; um escritor realiza sua obra na solidão". Como muitos não são escritores (essa espécie a caminho da extinção), resta saber como conviver com a solidão. 

Protagonistas célebres de obras religiosas encontraram seu destino na solidão. Os católicos acreditam que Jesus se afastou dos homens e das cidades e se enveredou pelo deserto. Na solidão, ele foi tentado pelo diabo, ficou 40 dias e quarenta noites sem comer, nem beber, para, enfim, entender qual era sua missão na terra e iniciar sua pregação. 

Para as religiões orientais, a solidão não é inimiga, mas parceira para a redescoberta espiritual. Ao meditar solitariamente, dizem os budistas, você encontra a paz e a serenidade que a agitação e a balbúrdia da cidade destroem.

Religiões à parte, essa solidão que nos foi imposta por um vírus devastador poderia ser bem aproveitada. Temos muito tempo pela frente e nenhum compromisso lá fora. Nas casas onde haja excesso de crianças e parentes, amontoados às vezes em único cômodo, a solidão talvez seja até o paraíso a ser alcançado. 

Em outra realidade, o Brasil tem 30 milhões de habitantes, vivendo solitariamente. Deve ser difícil para esse pessoal conviver com a própria solidão, sem poder ir à padaria, passear com o cachorro, visitar um museu ou uma livraria. Para os que gostam de ler, o computador é parceiro e, por exemplo, abre caminho para as 4.215 páginas de Em busca do tempo perdidodisponíveis gratuitamente em PDF, se algum solitário ousar se aventurar 

Pessoalmente, estou me dando bem com a quarentena. Tenho cozinhado bastante (atividade que me dá um prazer imenso). Tenho escrito (nada muito sério, prometo, só para passar o tempo). Vejo filmes e séries interessantes. Estou finalizando O legado de Humboldt, de Saul Bellow. Estou em paz comigo mesmo e com a chuva que agora bate inclemente sobre as telhas, espalhando um som agradável naquele martelar característico. A chuva satura o ar de umidade e cheiro de terra molhada. Ideal para a gente tirar uma soneca, que é o que eu vou fazer agora.

Fique em paz. Aproveite a solidão.    




      

segunda-feira, 9 de março de 2020

Em busca de Catherine

Catherine Prevot

Todos os meus amigos que fumavam morreram ou contraíram câncer. Sem exceção. Catherine fumava muito. Se não me falha a memória, Gitanes. O mesmo pacote azulado que "suicidou" Serge Gainsbourg. A primeira vez que vi Catherine ela estava com um cigarro na mão, na fila do restaurante universitário de Nancy, ao lado do então marido Jorge Bedoya, estudante colombiano. 

Isso aconteceu em setembro de 1981. Tempo nublado, chuvoso. Deprimente. Como eu e minha mulher Jussara tínhamos ido parar em Nancy, interior da França, é uma história excêntrica, quase inacreditável. Depois de viver um ano na Inglaterra, decidimos conhecer a França. Éramos recém-casados, sem filhos, com muita vontade de acelerar fundo na vida. 

A estada na Inglaterra tinha sido vantajosa. Nós dois trabalhávamos e conseguimos encher uma caixa com libras esterlinas. Era dinheiro que não acabava mais. Eu trabalhava em um hotel familiar, fazendo um pouco de tudo. E a Jussara arrumou emprego em um escritório de contabilidade. 

Decididos a cair na estrada, encerramos o "estágio" inglês. Embarcamos para a França, onde demos com os burros n'água, expressão preferida de um conhecido que havia sido tropeiro, em outra existência. Nossa caixa cheia de dinheiro começou a esvaziar perigosamente. Estávamos em Paris, morando em uma residência estudantil. Não havia emprego. Não havia perspectiva de sobrevivência. Conhecendo a cidade, lembro que fomos visitar a famosa Sorbonne, que, durante a Revolução de 1968, ocupada pelos estudantes em revolta, "escorregava-se em sêmen". 

Entramos na universidade, no anfiteatro Durkheim, e não sei por que senti que voltaria para lá em circunstâncias melhores. Até comentei com a Jussara: "Ainda vou estudar aqui".

Decidimos tentar a sorte em um balneário, Boulogne-sur-mer, mas vimos que não ia dar certo.

Fizemos, então, uma coisa maluca. Algo que a gente deve ter visto em algum filme. Estendemos o mapa da França no chão e jogamos uma moeda de um franco para o ar. Onde ela caísse, era para lá que iríamos. 

E não é que a moeda de um franco caiu justamente em Nancy...Leste do território francês, próxima de Estrasburgo. Ninguém tinha me falado de Nancy. Nem sabia que essa cidade existia. E foi pra lá que fomos. De trem bala. A 400 quilômetros por hora. "Voa, fumaça. Corre, cerca. Muita força, muita força, muita força..." Éramos jovens, doidos.

Em Nancy, corremos para a universidade, onde havia dormitórios e, por uma quantia singela, pudemos nos abrigar das intempéries. Chovia em Nancy. Deus meu, como chovia em Nancy. Era fim de agosto, fim do verão, e já fazia um frio medonho. Imagine em dezembro? Meio do inverno?

A primeira providência que tomamos foi a de nos matricular na universidade. Na época, era grátis. Faríamos um curso de francês e teríamos várias vantagens, concedidas a estudantes, como, por exemplo, comer, quase, de graça no restaurante universitário. 

Outro problema a resolver era o alojamento. Por enquanto, ficávamos no dormitório da universidade. "Mulher de um lado e homem do outro", explicou a funcionária. Mesmo casados, a gente não podia ficar no mesmo quarto. Era o regulamento. A gente não obedecia, é claro. 

Em frente ao quarto da minha mulher, moravam duas estudantes espanholas que tocavam o tempo todo Julio Iglesias. "Às vezes, tu, às vezes, eu, brigamos antes, e depois...". Elas eram simpáticas, gente boa, ficamos amigos delas. Apesar de Julio Iglesias na vitrola.

Precisávamos, pela ordem, arrumar um emprego e também um lugar para morar. Nada muito complicado. Principalmente, se você está em um país que não é seu, sem saber a língua, nem os costumes, nem coisa alguma. A chance de dar tudo errado eu diria que está para uns 99 por cento. Então, nessa hora, aparece um cara chamado Alfredo. 

Chileno, ele havia saído de seu país na esteira do golpe militar que havia derrubado o presidente Salvador Allende. Alfredo era um mistério. Diziam que havia lutado na Nicarágua e em El Salvador. Podia ou não ser verdade. 

Quando soube de nossa situação, Alfredo resolveu - parcialmente - um problema. Ele nos alojou em um apartamento de um casal, que estava de férias. "Vocês ficam lá. Quando eles retornarem em setembro, a gente dá um jeito". 

O apartamento era bem ajeitado, simpático, com um pôster azul e vermelho de uma réplica de Toulouse Lautrec ("Aristide Bruant dans son cabaret"). 

Quando setembro chegou, o casal também retornou a Nancy. Estávamos na fila do restaurante universitário, quando minha mulher apontou e disse: "Eles são os donos do apartamento", reconhecendo-os das fotografias espalhadas pela casa.

Catherine Prevot fumava na fila do restaurante. Nós nos aproximamos e dissemos na cara de pau: "Nós estamos morando na casa de vocês". A amizade surgiu de forma instantânea. Catherine e Jussara ficaram muito amigas. Andavam pra cima e pra baixo de Nancy. Iam ao mercado. Catherine apresentava a cidade e criticava os moradores de Nancy, "uma cidade conservadora e burguesa até o último fio de cabelo". 

Graças à Catherine, conseguimos alugar um apartamento em Malzéville, na rua Sadi Carnot, 42. Ela foi nossa fiadora e nos ajudou com a mudança. O apartamento em Malzéville ficava no que eles chamam de "chambre de bonne" (quarto da empregada). Era no terceiro andar e a janela situava-se no alto, virada para o céu. Uma claraboia. 

Em Nancy, descobri, havia burgueses que poderiam arrumar vaga de vilão em algum filme. Lembro que eu e Jussara estávamos retornando da aula na universidade, quando vimos um rapaz empilhando móveis velhos no jardim de uma casa. Me aproximei da cerca e pedi para ele: "Por favor, você poderia nos dar essa cadeira que está em cima da pilha. Nós estamos precisando."

De fato, em nosso minúsculo apartamento, faltava uma cadeira. O rapaz, com perfil de árabe, pegou a cadeira e levou até nós. No meio do caminho, apareceu o burguês vilão de filme. Grisalho, enfiado em um terno de lã, sapatos de cromo alemão, luvas e gravata com um alfinete que representava alguma legião direitista, ele arrancou a cadeira da mão do árabe. Devolveu-a à pilha e botou fogo em tudo. Viu as chamas crescerem por trás de seus óculos vilanescos de armação quadricular.

Quando relatamos esse episódio para Alfredo, ele nos disse que havia somente dois tipos de franceses: os muito legais e os nazistas. Catherine e a família pertenciam à primeira categoria, é claro. Um dia, lembro que estava no carro de um irmão de Catherine, quando ele parou o veículo e ofereceu carona para alguém que estava com sacolas pesadas. Achei que o sujeito fosse conhecido dele, mas não. Eram solidários ao extremo.   

Meu primeiro e único emprego na França foi o de participar da coleta de uvas na região de Champagne. Quem devia ir no grupo de estudantes era o Alfredo, mas ele deu a vaga para mim, que precisava, desesperadamente, de dinheiro. Segui para a fazenda com um grupo de amigos colombianos, entre eles, o marido de Catherine, Jorge Bedoya.  

Jussara ficou em Nancy. Catherine ajudava a arrumar o apartamento de Malzéville e conseguiu até que a Jussara desfilasse para um loja de departamentos na cidade, ganhando uma grana razoável.

Na época, eu era vegetariano. Precisávamos de receitas, fáceis de fazer e de bom preço. Catherine comprou um caderno, de capa amarela, e ficou uma manhã e uma tarde passando receitas. Ela escrevia em francês e na página posterior Jussara traduzia para o português. 

Graças a esse caderno fantástico, tive meu primeiro contato com a culinária francesa. Aprendi a fazer molho béarnaise, "sauce béchamel", "caviar d´aubergines", "pommes de terre et gruyère rápé", "champignons à la muscade". E tantas outras. Receitas que até hoje encantam familiares e amigos. 

Nossa aventura francesa acabaria meses depois, quando Jussara engravidou. Decidimos voltar ao Brasil. 

Durante muito tempo, Jussara e Catherine trocaram cartas. Na época, não havia e-mail, nem skype. Com o passar dos meses e anos, Catherine desapareceu de nossa bússola. 

Dez anos depois, ganhei uma bolsa para fazer doutorado na Sorbonne. Entrei comovido no anfiteatro Durkheim, como se estivesse pagando uma promessa feita a mim mesmo. 

Durante nossa estada em Paris, entre 1991 e 1992, Jussara tentou localizar Catherine. Na época, havia na França um sistema de comunicação, pré-internet, que se chamava minitel. Encontramos algumas Catherines Prevot, menos a "verdadeira". Catherine havia desaparecido. 

Jussara sempre comentava: "Como será que ela está? Será que teve filhos? Será que continua casada com o Jorge. E os irmãos dela? E os pais?"

De volta ao Brasil, com a chegada da internet em 1995, tentamos localizá-la. Mas nada feito. Em 1998, fui cobrir a Copa do Mundo, disputada na França, e Jussara me pediu para tentar achar Catherine. 

Cansei de procurar Catherine no Orange, que era um sistema de telecomunicação francês (espécie de Vivo), mas sem resultado.

Já nos anos 2000 lembro que a gente achou uma Catherine Prevot em Nancy. Ligamos para ela e quem nos atendeu foi uma senhora com voz de sono, alguém que estava dormindo profundamente, e nos garantiu que "não", ela "não era a Catherine Prevot" que estávamos procurando. 

Nessa última década (2010-2020), quando havíamos desistido de encontrar Catherine Prevot, recebi um convite para participar de um site de ex-alunos da Universidade de Nancy. Entre os ex-alunos havia uma Catherine Prevot, que não morava mais na França. Essa Catherine era comerciante e havia se radicado em Náuplia, na Grécia, desde 1990. Ela dizia no site "Copains d'avant", que ia, de vez em quando, a Nancy, onde tinha um irmão que ainda morava lá. Os pais haviam se mudado para Aspet, 100 quilômetros ao sul de Toulouse. 

Enviei e-mail para essa Catherine, ex-aluna da Universidade de Nancy. Enviei o e-mail mais para desencanar. Tinha quase certeza que não era a nossa amiga. 

A resposta nos encheu de alegria. Era a "nossa" Catherine. Finalmente, nossa busca havia chegado ao fim. Catherine lembrava-se de nós e queria rever sua amiga, Jussara. Justamente, nessa época, Jussara não morava em São Paulo. Ela estava no interior, em um local onde não havia internet. 

Como eu ia toda sexta-feira para lá, marquei o encontro com Catherine para o sábado de manhã. Lembro de ter chegado de viagem e comentei com a Jussara: "Sabe quem eu encontrei? Catherine..." Ela custou a acreditar. Ficou radiante, feliz com a oportunidade de rever a amiga "desaparecida". "Mas tem certeza que era mesmo a Catherine?" Fomos dormir ansiosos, torcendo para o dia seguinte chegar depressa.

No sábado cedo, fomos até uma cidade maior, onde havia uma lan house. Na hora definida, fizemos o contato pelo skype e Catherine Prevot, a verdadeira, apareceu na nossa frente. Usava um lenço na cabeça. Não tinha mais cabelos. Nem muito tempo de vida pela frente. Havíamos conseguido reencontrar Catherine Prevot. Pena que tivesse sido muito tarde para todos nós.  

"À la recherche de Catherine"

Tous mes amis qui fumaient sont morts ou ont contracté un cancer. Sans exception. Catherine fumait beaucoup. Si ma mémoire est bonne, des Gitanes. Le même paquet bleuté qui a "suicidé" Serge Gainsbourg. La première fois que j'ai vu Catherine, elle avait une cigarette à la main, dans la file du restaurant universitaire de Nancy, à côté de son mari de l'époque, Jorge Bedoya, un étudiant colombien.

Cela s'est passé en septembre 1981. Temps nuageux, pluvieux. Déprimant. Comment ma femme Jussara et moi nous étions retrouvés à Nancy, dans l'intérieur de la France, est une histoire excentrique, presque incroyable. Après avoir vécu un an en Angleterre, nous avions décidé de découvrir la France. Nous étions jeunes mariés, sans enfants, avec une grande envie de foncer dans la vie. 

Notre séjour en Angleterre avait été avantageux. Nous travaillions tous les deux et avions réussi à remplir une boîte de livres sterling. C'était de l'argent qui ne finissait plus. Je travaillais dans un hôtel familial, faisant un peu de tout. Et Jussara avait trouvé un emploi dans un bureau de comptabilité.

Décidés à prendre la route, nous avons mis fin à notre "stage" anglais. Nous avons embarqué pour la France, où nous avons donné avec les ânes dans l'eau, expression préférée d'un ami qui avait été muletier, dans une autre existence. Notre boîte pleine d'argent a commencé à se vider dangereusement. Nous étions à Paris, vivant dans une résidence étudiante. Il n'y avait pas de travail. Il n'y avait aucune perspective de survie. En visitant la ville, je me souviens que nous sommes allés voir la célèbre Sorbonne, qui, pendant la Révolution de 1968, occupée par les étudiants en révolte, "glissait dans le sperme".

Nous sommes entrés dans l'université, dans l'amphithéâtre Durkheim, et je ne sais pas pourquoi j'ai senti que je reviendrais là dans de meilleures circonstances. J'ai même dit à Jussara : "Je vais encore étudier ici".

Nous avons décidé de tenter notre chance dans une station balnéaire, Boulogne-sur-mer, mais nous avons vu que cela ne marcherait pas.

Nous avons alors fait quelque chose de fou. Quelque chose que nous avions dû voir dans un film. Nous avons étalé la carte de France sur le sol et lancé une pièce d'un franc en l'air. Où elle tomberait, c'est là que nous irions. 

Et la pièce d'un franc est tombée juste sur Nancy... À l'est du territoire français, près de Strasbourg. Personne ne m'avait parlé de Nancy. Je ne savais même pas que cette ville existait. Et c'est là que nous sommes allés. En train à grande vitesse. À 400 kilomètres à l'heure. "Vole, fumée. Cours, clôture. Beaucoup de force, beaucoup de force, beaucoup de force..." Nous étions jeunes, fous.À Nancy, nous avons couru à l'université, où il y avait des dortoirs et, pour une somme modique, nous avons pu nous abriter des intempéries. Il pleuvait à Nancy. Mon Dieu, comme il pleuvait à Nancy. C'était fin août, fin de l'été, et il faisait déjà un froid terrible. Imaginez en décembre ? Au milieu de l'hiver ?La première chose que nous avons faite a été de nous inscrire à l'université. À l'époque, c'était gratuit. Nous ferions un cours de français et aurions plusieurs avantages, accordés aux étudiants, comme, par exemple, manger presque gratuitement au restaurant universitaire.

Un autre problème à résoudre était le logement. Pour l'instant, nous restions dans le dortoir de l'université. "Femme d'un côté et homme de l'autre", expliqua l'employée. Même mariés, nous ne pouvions pas rester dans la même chambre. C'était le règlement. Nous ne l'obéissions pas, bien sûr. En face de la chambre de ma femme, vivaient deux étudiantes espagnoles qui passaient tout leur temps à écouter Julio Iglesias. "Parfois toi, parfois moi, nous nous disputons avant, et après...". Elles étaient sympathiques, de bonnes personnes, nous sommes devenus amis avec elles. Malgré Julio Iglesias sur le tourne-disque.

Nous devions, par ordre, trouver un emploi et aussi un endroit où vivre. Rien de trop compliqué. Surtout si vous êtes dans un pays qui n'est pas le vôtre, sans connaître la langue, ni les coutumes, ni rien. La chance que tout aille mal, je dirais que c'est environ 99 %. C'est alors qu'un gars nommé Alfredo est apparu.Chilien, il avait quitté son pays dans le sillage du coup d'État militaire qui avait renversé le président Salvador Allende. 

Alfredo était un mystère. On disait qu'il avait combattu au Nicaragua et au Salvador. Cela pouvait être vrai ou non. Quand il a su notre situation, Alfredo a résolu - partiellement - un problème. Il nous a logés dans un appartement d'un couple, qui était en vacances. "Vous restez là. Quand ils reviendront en septembre, on trouvera une solution". 

L'appartement était bien arrangé, sympathique, avec une affiche bleue et rouge d'une réplique de Toulouse Lautrec ("Aristide Bruant dans son cabaret"). Quand septembre est arrivé, le couple est également revenu à Nancy. Nous étions dans la file du restaurant universitaire, quand ma femme a pointé et dit : "Ce sont les propriétaires de l'appartement", les reconnaissant des photos dispersées dans la maison. 

Catherine Prevot fumait dans la file du restaurant. Nous nous sommes approchés et avons dit sans gêne : "Nous vivons chez vous". L'amitié est née instantanément. Catherine et Jussara sont devenues très amies. Elles allaient partout à Nancy. Elles allaient au marché. Catherine présentait la ville et critiquait les habitants de Nancy, "une ville conservatrice et bourgeoise jusqu'au dernier cheveu". Grâce à Catherine, nous avons réussi à louer un appartement à Malzéville, au 42 rue Sadi Carnot. Elle a été notre garante et nous a aidés avec le déménagement. L'appartement à Malzéville était ce qu'ils appellent une "chambre de bonne" (chambre de domestique). 

C'était au troisième étage et la fenêtre était en haut, face au ciel. Une lucarne. À Nancy, j'ai découvert qu'il y avait des bourgeois qui pourraient jouer les méchants dans un film. Je me souviens que Jussara et moi revenions de l'université, quand nous avons vu un garçon empiler de vieux meubles dans le jardin d'une maison. Je me suis approché de la clôture et lui ai demandé : "S'il vous plaît, pourriez-vous nous donner cette chaise qui est sur le tas. Nous en avons besoin." 

En effet, dans notre minuscule appartement, il manquait une chaise. Le garçon, de profil arabe, a pris la chaise et nous l'a apportée. En chemin, est apparu le bourgeois méchant de film. Gris, en costume de laine, chaussures en cuir allemand, gants et cravate avec une épingle représentant une légion de droite, il a arraché la chaise des mains de l'Arabe. Il l'a remise sur le tas et y a mis le feu. Il a vu les flammes grandir derrière ses lunettes méchantes à monture carrée. 

Quand nous avons raconté cet épisode à Alfredo, il nous a dit qu'il n'y avait que deux types de Français : les très sympas et les nazis. Catherine et sa famille appartenaient à la première catégorie, bien sûr. Un jour, je me souviens que j'étais dans la voiture d'un frère de Catherine, quand il a arrêté le véhicule et a proposé un lift à quelqu'un qui portait des sacs lourds. Je pensais que c'était un de ses amis, mais non. Ils étaient solidaires à l'extrême. Mon premier et seul emploi en France a été de participer à la récolte des raisins dans la région de Champagne. Celui qui devait aller dans le groupe d'étudiants était Alfredo, mais il m'a donné la place, moi qui avais désespérément besoin d'argent. Je suis parti pour la ferme avec un groupe d'amis colombiens, parmi eux, le mari de Catherine, Jorge Bedoya. Jussara est restée à Nancy. Catherine aidait à arranger l'appartement de Malzéville et a même réussi à faire défiler Jussara pour un grand magasin de la ville, gagnant une somme raisonnable.À l'époque, j'étais végétarien. Nous avions besoin de recettes, faciles à faire et à bon prix. 

Catherine a acheté un cahier, à couverture jaune, et a passé une matinée et un après-midi à écrire des recettes. Elle écrivait en français et sur la page suivante Jussara traduisait en portugais. Grâce à ce cahier fantastique, j'ai eu mon premier contact avec la cuisine française. 

J'ai appris à faire de la sauce béarnaise, de la "sauce béchamel", du "caviar d'aubergines", des "pommes de terre et gruyère râpé", des "champignons à la muscade". Et tant d'autres. Des recettes qui enchantent encore aujourd'hui la famille et les amis. Notre aventure française a pris fin quelques mois plus tard, quand Jussara est tombée enceinte. Nous avons décidé de retourner au Brésil.Pendant longtemps, Jussara et Catherine ont échangé des lettres. À l'époque, il n'y avait pas d'e-mail, ni de skype. 

Au fil des mois et des années, Catherine a disparu de notre radar. Dix ans plus tard, j'ai obtenu une bourse pour faire un doctorat à la Sorbonne. Je suis entré ému dans l'amphithéâtre Durkheim, comme si je tenais une promesse faite à moi-même. Pendant notre séjour à Paris, entre 1991 et 1992, Jussara a essayé de localiser Catherine. À l'époque, il y avait en France un système de communication, pré-internet, appelé minitel. Nous avons trouvé quelques Catherine Prevot, mais pas la "vraie". Catherine avait disparu. 

Jussara commentait toujours : "Comment va-t-elle ? A-t-elle eu des enfants ? Est-elle toujours mariée à Jorge. Et ses frères ? Et ses parents ?" De retour au Brésil, avec l'arrivée d'internet en 1995, nous avons essayé de la localiser. Mais rien. En 1998, j'ai couvert la Coupe du Monde, disputée en France, et Jussara m'a demandé d'essayer de trouver Catherine. J'en ai eu marre de chercher Catherine sur Orange, qui était un système de télécommunication français (une sorte de Vivo), mais sans résultat. Déjà dans les années 2000, je me souviens que nous avons trouvé une Catherine Prevot à Nancy. Nous l'avons appelée et c'est une dame avec une voix ensommeillée, quelqu'un qui dormait profondément, qui nous a répondu et nous a assuré que "non", elle "n'était pas la Catherine Prevot" que nous cherchions. 

Dans cette dernière décennie (2010-2020), quand nous avions abandonné l'espoir de retrouver Catherine Prevot, j'ai reçu une invitation pour participer à un site d'anciens élèves de l'Université de Nancy. Parmi les anciens élèves, il y avait une Catherine Prevot, qui ne vivait plus en France. Cette Catherine était commerçante et s'était installée à Nauplie, en Grèce, depuis 1990. Elle disait sur le site "Copains d'avant" qu'elle allait, de temps en temps, à Nancy, où elle avait un frère qui y vivait encore. Ses parents avaient déménagé à Aspet, à 100 kilomètres au sud de Toulouse. 

J'ai envoyé un e-mail à cette Catherine, ancienne élève de l'Université de Nancy. J'ai envoyé l'e-mail plus pour me libérer l'esprit. J'étais presque sûr que ce n'était pas notre amie.La réponse nous a remplis de joie. C'était "notre" Catherine. Enfin, notre recherche avait abouti. Catherine se souvenait de nous et voulait revoir son amie, Jussara. Justement, à cette époque, Jussara ne vivait pas à São Paulo. Elle était à l'intérieur, dans un endroit où il n'y avait pas d'internet. Comme j'allais là-bas tous les vendredis, j'ai fixé le rendez-vous avec Catherine pour le samedi matin. Je me souviens être arrivé de voyage et avoir dit à Jussara : "Tu sais qui j'ai trouvé ? Catherine..." Elle a eu du mal à le croire. Elle était radieuse, heureuse de l'opportunité de revoir l'amie "disparue". "Mais es-tu sûr que c'était vraiment Catherine ?" 

Nous sommes allés nous coucher anxieux, espérant que le lendemain arriverait vite. Le samedi matin, nous sommes allés dans une ville plus grande, où il y avait un cybercafé. 

À l'heure définie, nous avons établi le contact par skype et Catherine Prevot, la vraie, est apparue devant nous. Elle portait un foulard sur la tête. Elle n'avait plus de cheveux. Ni beaucoup de temps à vivre. Nous avions réussi à retrouver Catherine Prevot. Dommage que ce soit trop tard pour nous tous.
       

 




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