segunda-feira, 9 de março de 2020

Em busca de Catherine

Catherine Prevot

Todos os meus amigos que fumavam morreram ou contraíram câncer. Sem exceção. Catherine fumava muito. Se não me falha a memória, Gitanes. O mesmo pacote azulado que "suicidou" Serge Gainsbourg. A primeira vez que vi Catherine ela estava com um cigarro na mão, na fila do restaurante universitário de Nancy, ao lado do então marido Jorge Bedoya, estudante colombiano. 

Isso aconteceu em setembro de 1981. Tempo nublado, chuvoso. Deprimente. Como eu e minha mulher Jussara tínhamos ido parar em Nancy, interior da França, é uma história excêntrica, quase inacreditável. Depois de viver um ano na Inglaterra, decidimos conhecer a França. Éramos recém-casados, sem filhos, com muita vontade de acelerar fundo na vida. 

A estada na Inglaterra tinha sido vantajosa. Nós dois trabalhávamos e conseguimos encher uma caixa com libras esterlinas. Era dinheiro que não acabava mais. Eu trabalhava em um hotel familiar, fazendo um pouco de tudo. E a Jussara arrumou emprego em um escritório de contabilidade. 

Decididos a cair na estrada, encerramos o "estágio" inglês. Embarcamos para a França, onde demos com os burros n'água, expressão preferida de um conhecido que havia sido tropeiro, em outra existência. Nossa caixa cheia de dinheiro começou a esvaziar perigosamente. Estávamos em Paris, morando em uma residência estudantil. Não havia emprego. Não havia perspectiva de sobrevivência. Conhecendo a cidade, lembro que fomos visitar a famosa Sorbonne, que, durante a Revolução de 1968, ocupada pelos estudantes em revolta, "escorregava-se em sêmen". 

Entramos na universidade, no anfiteatro Durkheim, e não sei por que senti que voltaria para lá em circunstâncias melhores. Até comentei com a Jussara: "Ainda vou estudar aqui".

Decidimos tentar a sorte em um balneário, Boulogne-sur-mer, mas vimos que não ia dar certo.

Fizemos, então, uma coisa maluca. Algo que a gente deve ter visto em algum filme. Estendemos o mapa da França no chão e jogamos uma moeda de um franco para o ar. Onde ela caísse, era para lá que iríamos. 

E não é que a moeda de um franco caiu justamente em Nancy...Leste do território francês, próxima de Estrasburgo. Ninguém tinha me falado de Nancy. Nem sabia que essa cidade existia. E foi pra lá que fomos. De trem bala. A 400 quilômetros por hora. "Voa, fumaça. Corre, cerca. Muita força, muita força, muita força..." Éramos jovens, doidos.

Em Nancy, corremos para a universidade, onde havia dormitórios e, por uma quantia singela, pudemos nos abrigar das intempéries. Chovia em Nancy. Deus meu, como chovia em Nancy. Era fim de agosto, fim do verão, e já fazia um frio medonho. Imagine em dezembro? Meio do inverno?

A primeira providência que tomamos foi a de nos matricular na universidade. Na época, era grátis. Faríamos um curso de francês e teríamos várias vantagens, concedidas a estudantes, como, por exemplo, comer, quase, de graça no restaurante universitário. 

Outro problema a resolver era o alojamento. Por enquanto, ficávamos no dormitório da universidade. "Mulher de um lado e homem do outro", explicou a funcionária. Mesmo casados, a gente não podia ficar no mesmo quarto. Era o regulamento. A gente não obedecia, é claro. 

Em frente ao quarto da minha mulher, moravam duas estudantes espanholas que tocavam o tempo todo Julio Iglesias. "Às vezes, tu, às vezes, eu, brigamos antes, e depois...". Elas eram simpáticas, gente boa, ficamos amigos delas. Apesar de Julio Iglesias na vitrola.

Precisávamos, pela ordem, arrumar um emprego e também um lugar para morar. Nada muito complicado. Principalmente, se você está em um país que não é seu, sem saber a língua, nem os costumes, nem coisa alguma. A chance de dar tudo errado eu diria que está para uns 99 por cento. Então, nessa hora, aparece um cara chamado Alfredo. 

Chileno, ele havia saído de seu país na esteira do golpe militar que havia derrubado o presidente Salvador Allende. Alfredo era um mistério. Diziam que havia lutado na Nicarágua e em El Salvador. Podia ou não ser verdade. 

Quando soube de nossa situação, Alfredo resolveu - parcialmente - um problema. Ele nos alojou em um apartamento de um casal, que estava de férias. "Vocês ficam lá. Quando eles retornarem em setembro, a gente dá um jeito". 

O apartamento era bem ajeitado, simpático, com um pôster azul e vermelho de uma réplica de Toulouse Lautrec ("Aristide Bruant dans son cabaret"). 

Quando setembro chegou, o casal também retornou a Nancy. Estávamos na fila do restaurante universitário, quando minha mulher apontou e disse: "Eles são os donos do apartamento", reconhecendo-os das fotografias espalhadas pela casa.

Catherine Prevot fumava na fila do restaurante. Nós nos aproximamos e dissemos na cara de pau: "Nós estamos morando na casa de vocês". A amizade surgiu de forma instantânea. Catherine e Jussara ficaram muito amigas. Andavam pra cima e pra baixo de Nancy. Iam ao mercado. Catherine apresentava a cidade e criticava os moradores de Nancy, "uma cidade conservadora e burguesa até o último fio de cabelo". 

Graças à Catherine, conseguimos alugar um apartamento em Malzéville, na rua Sadi Carnot, 42. Ela foi nossa fiadora e nos ajudou com a mudança. O apartamento em Malzéville ficava no que eles chamam de "chambre de bonne" (quarto da empregada). Era no terceiro andar e a janela situava-se no alto, virada para o céu. Uma claraboia. 

Em Nancy, descobri, havia burgueses que poderiam arrumar vaga de vilão em algum filme. Lembro que eu e Jussara estávamos retornando da aula na universidade, quando vimos um rapaz empilhando móveis velhos no jardim de uma casa. Me aproximei da cerca e pedi para ele: "Por favor, você poderia nos dar essa cadeira que está em cima da pilha. Nós estamos precisando."

De fato, em nosso minúsculo apartamento, faltava uma cadeira. O rapaz, com perfil de árabe, pegou a cadeira e levou até nós. No meio do caminho, apareceu o burguês vilão de filme. Grisalho, enfiado em um terno de lã, sapatos de cromo alemão, luvas e gravata com um alfinete que representava alguma legião direitista, ele arrancou a cadeira da mão do árabe. Devolveu-a à pilha e botou fogo em tudo. Viu as chamas crescerem por trás de seus óculos vilanescos de armação quadricular.

Quando relatamos esse episódio para Alfredo, ele nos disse que havia somente dois tipos de franceses: os muito legais e os nazistas. Catherine e a família pertenciam à primeira categoria, é claro. Um dia, lembro que estava no carro de um irmão de Catherine, quando ele parou o veículo e ofereceu carona para alguém que estava com sacolas pesadas. Achei que o sujeito fosse conhecido dele, mas não. Eram solidários ao extremo.   

Meu primeiro e único emprego na França foi o de participar da coleta de uvas na região de Champagne. Quem devia ir no grupo de estudantes era o Alfredo, mas ele deu a vaga para mim, que precisava, desesperadamente, de dinheiro. Segui para a fazenda com um grupo de amigos colombianos, entre eles, o marido de Catherine, Jorge Bedoya.  

Jussara ficou em Nancy. Catherine ajudava a arrumar o apartamento de Malzéville e conseguiu até que a Jussara desfilasse para um loja de departamentos na cidade, ganhando uma grana razoável.

Na época, eu era vegetariano. Precisávamos de receitas, fáceis de fazer e de bom preço. Catherine comprou um caderno, de capa amarela, e ficou uma manhã e uma tarde passando receitas. Ela escrevia em francês e na página posterior Jussara traduzia para o português. 

Graças a esse caderno fantástico, tive meu primeiro contato com a culinária francesa. Aprendi a fazer molho béarnaise, "sauce béchamel", "caviar d´aubergines", "pommes de terre et gruyère rápé", "champignons à la muscade". E tantas outras. Receitas que até hoje encantam familiares e amigos. 

Nossa aventura francesa acabaria meses depois, quando Jussara engravidou. Decidimos voltar ao Brasil. 

Durante muito tempo, Jussara e Catherine trocaram cartas. Na época, não havia e-mail, nem skype. Com o passar dos meses e anos, Catherine desapareceu de nossa bússola. 

Dez anos depois, ganhei uma bolsa para fazer doutorado na Sorbonne. Entrei comovido no anfiteatro Durkheim, como se estivesse pagando uma promessa feita a mim mesmo. 

Durante nossa estada em Paris, entre 1991 e 1992, Jussara tentou localizar Catherine. Na época, havia na França um sistema de comunicação, pré-internet, que se chamava minitel. Encontramos algumas Catherines Prevot, menos a "verdadeira". Catherine havia desaparecido. 

Jussara sempre comentava: "Como será que ela está? Será que teve filhos? Será que continua casada com o Jorge. E os irmãos dela? E os pais?"

De volta ao Brasil, com a chegada da internet em 1995, tentamos localizá-la. Mas nada feito. Em 1998, fui cobrir a Copa do Mundo, disputada na França, e Jussara me pediu para tentar achar Catherine. 

Cansei de procurar Catherine no Orange, que era um sistema de telecomunicação francês (espécie de Vivo), mas sem resultado.

Já nos anos 2000 lembro que a gente achou uma Catherine Prevot em Nancy. Ligamos para ela e quem nos atendeu foi uma senhora com voz de sono, alguém que estava dormindo profundamente, e nos garantiu que "não", ela "não era a Catherine Prevot" que estávamos procurando. 

Nessa última década (2010-2020), quando havíamos desistido de encontrar Catherine Prevot, recebi um convite para participar de um site de ex-alunos da Universidade de Nancy. Entre os ex-alunos havia uma Catherine Prevot, que não morava mais na França. Essa Catherine era comerciante e havia se radicado em Náuplia, na Grécia, desde 1990. Ela dizia no site "Copains d'avant", que ia, de vez em quando, a Nancy, onde tinha um irmão que ainda morava lá. Os pais haviam se mudado para Aspet, 100 quilômetros ao sul de Toulouse. 

Enviei e-mail para essa Catherine, ex-aluna da Universidade de Nancy. Enviei o e-mail mais para desencanar. Tinha quase certeza que não era a nossa amiga. 

A resposta nos encheu de alegria. Era a "nossa" Catherine. Finalmente, nossa busca havia chegado ao fim. Catherine lembrava-se de nós e queria rever sua amiga, Jussara. Justamente, nessa época, Jussara não morava em São Paulo. Ela estava no interior, em um local onde não havia internet. 

Como eu ia toda sexta-feira para lá, marquei o encontro com Catherine para o sábado de manhã. Lembro de ter chegado de viagem e comentei com a Jussara: "Sabe quem eu encontrei? Catherine..." Ela custou a acreditar. Ficou radiante, feliz com a oportunidade de rever a amiga "desaparecida". "Mas tem certeza que era mesmo a Catherine?" Fomos dormir ansiosos, torcendo para o dia seguinte chegar depressa.

No sábado cedo, fomos até uma cidade maior, onde havia uma lan house. Na hora definida, fizemos o contato pelo skype e Catherine Prevot, a verdadeira, apareceu na nossa frente. Usava um lenço na cabeça. Não tinha mais cabelos. Nem muito tempo de vida pela frente. Havíamos conseguido reencontrar Catherine Prevot. Pena que tivesse sido muito tarde para todos nós.  

"À la recherche de Catherine"

Tous mes amis qui fumaient sont morts ou ont contracté un cancer. Sans exception. Catherine fumait beaucoup. Si ma mémoire est bonne, des Gitanes. Le même paquet bleuté qui a "suicidé" Serge Gainsbourg. La première fois que j'ai vu Catherine, elle avait une cigarette à la main, dans la file du restaurant universitaire de Nancy, à côté de son mari de l'époque, Jorge Bedoya, un étudiant colombien.

Cela s'est passé en septembre 1981. Temps nuageux, pluvieux. Déprimant. Comment ma femme Jussara et moi nous étions retrouvés à Nancy, dans l'intérieur de la France, est une histoire excentrique, presque incroyable. Après avoir vécu un an en Angleterre, nous avions décidé de découvrir la France. Nous étions jeunes mariés, sans enfants, avec une grande envie de foncer dans la vie. 

Notre séjour en Angleterre avait été avantageux. Nous travaillions tous les deux et avions réussi à remplir une boîte de livres sterling. C'était de l'argent qui ne finissait plus. Je travaillais dans un hôtel familial, faisant un peu de tout. Et Jussara avait trouvé un emploi dans un bureau de comptabilité.

Décidés à prendre la route, nous avons mis fin à notre "stage" anglais. Nous avons embarqué pour la France, où nous avons donné avec les ânes dans l'eau, expression préférée d'un ami qui avait été muletier, dans une autre existence. Notre boîte pleine d'argent a commencé à se vider dangereusement. Nous étions à Paris, vivant dans une résidence étudiante. Il n'y avait pas de travail. Il n'y avait aucune perspective de survie. En visitant la ville, je me souviens que nous sommes allés voir la célèbre Sorbonne, qui, pendant la Révolution de 1968, occupée par les étudiants en révolte, "glissait dans le sperme".

Nous sommes entrés dans l'université, dans l'amphithéâtre Durkheim, et je ne sais pas pourquoi j'ai senti que je reviendrais là dans de meilleures circonstances. J'ai même dit à Jussara : "Je vais encore étudier ici".

Nous avons décidé de tenter notre chance dans une station balnéaire, Boulogne-sur-mer, mais nous avons vu que cela ne marcherait pas.

Nous avons alors fait quelque chose de fou. Quelque chose que nous avions dû voir dans un film. Nous avons étalé la carte de France sur le sol et lancé une pièce d'un franc en l'air. Où elle tomberait, c'est là que nous irions. 

Et la pièce d'un franc est tombée juste sur Nancy... À l'est du territoire français, près de Strasbourg. Personne ne m'avait parlé de Nancy. Je ne savais même pas que cette ville existait. Et c'est là que nous sommes allés. En train à grande vitesse. À 400 kilomètres à l'heure. "Vole, fumée. Cours, clôture. Beaucoup de force, beaucoup de force, beaucoup de force..." Nous étions jeunes, fous.À Nancy, nous avons couru à l'université, où il y avait des dortoirs et, pour une somme modique, nous avons pu nous abriter des intempéries. Il pleuvait à Nancy. Mon Dieu, comme il pleuvait à Nancy. C'était fin août, fin de l'été, et il faisait déjà un froid terrible. Imaginez en décembre ? Au milieu de l'hiver ?La première chose que nous avons faite a été de nous inscrire à l'université. À l'époque, c'était gratuit. Nous ferions un cours de français et aurions plusieurs avantages, accordés aux étudiants, comme, par exemple, manger presque gratuitement au restaurant universitaire.

Un autre problème à résoudre était le logement. Pour l'instant, nous restions dans le dortoir de l'université. "Femme d'un côté et homme de l'autre", expliqua l'employée. Même mariés, nous ne pouvions pas rester dans la même chambre. C'était le règlement. Nous ne l'obéissions pas, bien sûr. En face de la chambre de ma femme, vivaient deux étudiantes espagnoles qui passaient tout leur temps à écouter Julio Iglesias. "Parfois toi, parfois moi, nous nous disputons avant, et après...". Elles étaient sympathiques, de bonnes personnes, nous sommes devenus amis avec elles. Malgré Julio Iglesias sur le tourne-disque.

Nous devions, par ordre, trouver un emploi et aussi un endroit où vivre. Rien de trop compliqué. Surtout si vous êtes dans un pays qui n'est pas le vôtre, sans connaître la langue, ni les coutumes, ni rien. La chance que tout aille mal, je dirais que c'est environ 99 %. C'est alors qu'un gars nommé Alfredo est apparu.Chilien, il avait quitté son pays dans le sillage du coup d'État militaire qui avait renversé le président Salvador Allende. 

Alfredo était un mystère. On disait qu'il avait combattu au Nicaragua et au Salvador. Cela pouvait être vrai ou non. Quand il a su notre situation, Alfredo a résolu - partiellement - un problème. Il nous a logés dans un appartement d'un couple, qui était en vacances. "Vous restez là. Quand ils reviendront en septembre, on trouvera une solution". 

L'appartement était bien arrangé, sympathique, avec une affiche bleue et rouge d'une réplique de Toulouse Lautrec ("Aristide Bruant dans son cabaret"). Quand septembre est arrivé, le couple est également revenu à Nancy. Nous étions dans la file du restaurant universitaire, quand ma femme a pointé et dit : "Ce sont les propriétaires de l'appartement", les reconnaissant des photos dispersées dans la maison. 

Catherine Prevot fumait dans la file du restaurant. Nous nous sommes approchés et avons dit sans gêne : "Nous vivons chez vous". L'amitié est née instantanément. Catherine et Jussara sont devenues très amies. Elles allaient partout à Nancy. Elles allaient au marché. Catherine présentait la ville et critiquait les habitants de Nancy, "une ville conservatrice et bourgeoise jusqu'au dernier cheveu". Grâce à Catherine, nous avons réussi à louer un appartement à Malzéville, au 42 rue Sadi Carnot. Elle a été notre garante et nous a aidés avec le déménagement. L'appartement à Malzéville était ce qu'ils appellent une "chambre de bonne" (chambre de domestique). 

C'était au troisième étage et la fenêtre était en haut, face au ciel. Une lucarne. À Nancy, j'ai découvert qu'il y avait des bourgeois qui pourraient jouer les méchants dans un film. Je me souviens que Jussara et moi revenions de l'université, quand nous avons vu un garçon empiler de vieux meubles dans le jardin d'une maison. Je me suis approché de la clôture et lui ai demandé : "S'il vous plaît, pourriez-vous nous donner cette chaise qui est sur le tas. Nous en avons besoin." 

En effet, dans notre minuscule appartement, il manquait une chaise. Le garçon, de profil arabe, a pris la chaise et nous l'a apportée. En chemin, est apparu le bourgeois méchant de film. Gris, en costume de laine, chaussures en cuir allemand, gants et cravate avec une épingle représentant une légion de droite, il a arraché la chaise des mains de l'Arabe. Il l'a remise sur le tas et y a mis le feu. Il a vu les flammes grandir derrière ses lunettes méchantes à monture carrée. 

Quand nous avons raconté cet épisode à Alfredo, il nous a dit qu'il n'y avait que deux types de Français : les très sympas et les nazis. Catherine et sa famille appartenaient à la première catégorie, bien sûr. Un jour, je me souviens que j'étais dans la voiture d'un frère de Catherine, quand il a arrêté le véhicule et a proposé un lift à quelqu'un qui portait des sacs lourds. Je pensais que c'était un de ses amis, mais non. Ils étaient solidaires à l'extrême. Mon premier et seul emploi en France a été de participer à la récolte des raisins dans la région de Champagne. Celui qui devait aller dans le groupe d'étudiants était Alfredo, mais il m'a donné la place, moi qui avais désespérément besoin d'argent. Je suis parti pour la ferme avec un groupe d'amis colombiens, parmi eux, le mari de Catherine, Jorge Bedoya. Jussara est restée à Nancy. Catherine aidait à arranger l'appartement de Malzéville et a même réussi à faire défiler Jussara pour un grand magasin de la ville, gagnant une somme raisonnable.À l'époque, j'étais végétarien. Nous avions besoin de recettes, faciles à faire et à bon prix. 

Catherine a acheté un cahier, à couverture jaune, et a passé une matinée et un après-midi à écrire des recettes. Elle écrivait en français et sur la page suivante Jussara traduisait en portugais. Grâce à ce cahier fantastique, j'ai eu mon premier contact avec la cuisine française. 

J'ai appris à faire de la sauce béarnaise, de la "sauce béchamel", du "caviar d'aubergines", des "pommes de terre et gruyère râpé", des "champignons à la muscade". Et tant d'autres. Des recettes qui enchantent encore aujourd'hui la famille et les amis. Notre aventure française a pris fin quelques mois plus tard, quand Jussara est tombée enceinte. Nous avons décidé de retourner au Brésil.Pendant longtemps, Jussara et Catherine ont échangé des lettres. À l'époque, il n'y avait pas d'e-mail, ni de skype. 

Au fil des mois et des années, Catherine a disparu de notre radar. Dix ans plus tard, j'ai obtenu une bourse pour faire un doctorat à la Sorbonne. Je suis entré ému dans l'amphithéâtre Durkheim, comme si je tenais une promesse faite à moi-même. Pendant notre séjour à Paris, entre 1991 et 1992, Jussara a essayé de localiser Catherine. À l'époque, il y avait en France un système de communication, pré-internet, appelé minitel. Nous avons trouvé quelques Catherine Prevot, mais pas la "vraie". Catherine avait disparu. 

Jussara commentait toujours : "Comment va-t-elle ? A-t-elle eu des enfants ? Est-elle toujours mariée à Jorge. Et ses frères ? Et ses parents ?" De retour au Brésil, avec l'arrivée d'internet en 1995, nous avons essayé de la localiser. Mais rien. En 1998, j'ai couvert la Coupe du Monde, disputée en France, et Jussara m'a demandé d'essayer de trouver Catherine. J'en ai eu marre de chercher Catherine sur Orange, qui était un système de télécommunication français (une sorte de Vivo), mais sans résultat. Déjà dans les années 2000, je me souviens que nous avons trouvé une Catherine Prevot à Nancy. Nous l'avons appelée et c'est une dame avec une voix ensommeillée, quelqu'un qui dormait profondément, qui nous a répondu et nous a assuré que "non", elle "n'était pas la Catherine Prevot" que nous cherchions. 

Dans cette dernière décennie (2010-2020), quand nous avions abandonné l'espoir de retrouver Catherine Prevot, j'ai reçu une invitation pour participer à un site d'anciens élèves de l'Université de Nancy. Parmi les anciens élèves, il y avait une Catherine Prevot, qui ne vivait plus en France. Cette Catherine était commerçante et s'était installée à Nauplie, en Grèce, depuis 1990. Elle disait sur le site "Copains d'avant" qu'elle allait, de temps en temps, à Nancy, où elle avait un frère qui y vivait encore. Ses parents avaient déménagé à Aspet, à 100 kilomètres au sud de Toulouse. 

J'ai envoyé un e-mail à cette Catherine, ancienne élève de l'Université de Nancy. J'ai envoyé l'e-mail plus pour me libérer l'esprit. J'étais presque sûr que ce n'était pas notre amie.La réponse nous a remplis de joie. C'était "notre" Catherine. Enfin, notre recherche avait abouti. Catherine se souvenait de nous et voulait revoir son amie, Jussara. Justement, à cette époque, Jussara ne vivait pas à São Paulo. Elle était à l'intérieur, dans un endroit où il n'y avait pas d'internet. Comme j'allais là-bas tous les vendredis, j'ai fixé le rendez-vous avec Catherine pour le samedi matin. Je me souviens être arrivé de voyage et avoir dit à Jussara : "Tu sais qui j'ai trouvé ? Catherine..." Elle a eu du mal à le croire. Elle était radieuse, heureuse de l'opportunité de revoir l'amie "disparue". "Mais es-tu sûr que c'était vraiment Catherine ?" 

Nous sommes allés nous coucher anxieux, espérant que le lendemain arriverait vite. Le samedi matin, nous sommes allés dans une ville plus grande, où il y avait un cybercafé. 

À l'heure définie, nous avons établi le contact par skype et Catherine Prevot, la vraie, est apparue devant nous. Elle portait un foulard sur la tête. Elle n'avait plus de cheveux. Ni beaucoup de temps à vivre. Nous avions réussi à retrouver Catherine Prevot. Dommage que ce soit trop tard pour nous tous.
       

 




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Por trás do ódio, uma grande reportagem


"Ela queria dar o furo. Ela queria dar o furo", disse o presidente Jair Bolsonaro, enquanto as pessoas em volta riam, divertidas. "Ela", no caso, é a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo. Dez dias antes do segundo turno da eleição presidencial, Patrícia publicou a reportagem "Empresários bancam campanha contra o PT pelo WhatsApp"
 https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml.

A matéria esclarecia que um grupo de empresários entrava de sola a favor do então candidato Jair Bolsonaro, disseminando fake news e atropelando a legislação eleitoral que proibia apoio financeiro de empresas a candidatos. 

Os contratos das empresas, participantes do lobby pró-capitão, chegavam até a 12 milhões de reais. Entre os empresários que tinham aderido à metralhadora digital, estava o senhor Luciano Hang, proprietário das lojas Havan, aquela rede que usa réplicas gigantes da Estátua da Liberdade, numa clara apologia ao cafona. 

O furo de reportagem não impediu a vitória de Bolsonaro, nem sua candidatura foi anulada pela Justiça Eleitoral. Livre, leve e solto, Bolsonaro conquistou 56 milhões de votos e chegou à Presidência da República. 

Esse foi o furo que ainda hoje provoca a ira da clã Bolsonaro. A repórter mostrou com fatos e evidências que a lei eleitoral foi desrespeitada. Portanto, o presidente deveria ter sua candidatura cassada.  

Hoje, no jogo de duplo sentido, o presidente provoca risos ao sugerir que "furo" seja, talvez, vagina. A repórter queria "dar o furo", ou seja, a vagina...Ao redor, as pessoas caem na gargalhada. É a cultura do botequim, da cafajestada, do baixo nível, da pobreza intelectual deprimente. 

Na prática, o presidente está se referindo ao depoimento de Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário de uma agência de disparos de mensagens. Terça-feira passada, dia 11, ele disse na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que Patrícia, quando fazia o levantamento para a reportagem, insinuou-se sexualmente. "Queria dar o furo".

Pacientemente, a repórter exibiu cópias de conversas, mantidas entre ela e Hans River, em que ficava claro que o rapaz afrobrasileiro de nome anglogermânico é que a havia assediado.

Em 2018, Hans estava em litígio com a empresa disparadora de mensagens e passou para a Folha informações confidenciais, que possibilitaram à repórter produzir a matéria que desmantelou o castelo digital bolsonarista.

Agora, graças à reportagem de Patrícia Campos Mello, a gente sabe que uma rede empresas - entre elas a Yacows - usou o nome e CPF de idosos, nascidos a partir de 1953 (olha eu aí gente!!), para registrar chips de celulares e promover o disparo de mensagens em benefício de determinados políticos, entre eles Jair Bolsonaro.

O incômodo constrangedor espalha-se como fedor de bode. Sob o coro de "fascista", o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) foi à tribuna e mandou as deputadas de partidos rivais a "raspar o sovaco, senão dá um mau cheiro do caramba".

Sua excelência também publicou no Twitter declaração antiga da jornalista, comentando que havia votado no PT. No vídeo em questão Patrícia aconselha jornalistas a jamais comentarem sua intenção de voto. Ela relembra que, em 2013, concedeu entrevista a alunos da PUC e disse ser eleitora do PT. A edição cortou explicações complementares. "E eu virei a putinha do PT", dizia. Veja a publicação: 
https://twitter.com/BolsonaroSP/status/1229771901649801218

Entenda como funciona a lógica bolsonarista. Eles nunca assumem a posição de réus. São sempre acusadores. Acusam sempre. A todo momento. "Fulano é comunista". "Fulana quer dar o furo". "Veja a ideologia dela".

O que os eleitores brasileiros querem saber é muito simples: a série de reportagens da repórter Patrícia Campos Mello provou que a eleição de Bolsonaro teve o apoio de empresas que pagaram os tubos para alavancar a candidatura do PSL à Presidência. Essa prática foi ilegal. Contrariou a Legislação Eleitoral. A CPMI vai comprovar isso? Se comprovar, Bolsonaro será afastado? Há elementos para impeachment?  

Sinceramente, tinha certeza que o governo Bolsonaro seria um pesadelo, mas nunca imaginei que fosse um pesadelo diário, com ataques diários, com crises a cada 24 horas. Não vejo a hora desse horror terminar. O problema é que, na última vez que tive essa mesma sensação, o pesadelo durou 21 anos. 






  

     

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Desculpe, Fernando Meirelles, mas Democracia em vertigem é melhor que Honeyland


Em entrevista ao Roda Viva, o cineasta Fernando Meirelles (Cidade de Deus e Dois Papas) disse que o documentário Honeyland é favorito ao Oscar. Honeyland seria o "grande filme", enquanto o representante brasileiro Democracia em vertigem, da cineasta Petra Costa, não estaria no mesmo patamar. 


 Honeyland, dirigido por Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov, conta a história da apicultora Hatidze Muratova, que vive em uma zona remota da Macedônia, país enfiado entre a Bulgária, Kosovo, Sérvia e Grécia, sem saída para o mar. Hatidze cuida da mãe doente. Tem uma existência solitária, cuidando de suas abelhas e produzindo mel que vai vender na capital Escópia. 


Para realizar Honeyland foram necessárias 400 horas de filmagem, que se arrastaram por três anos. O documentário mostra como a chegada de vizinhos - pai, mãe e uma penca de filhos de todas as idades - vai bagunçar a vida de Hatidze. 


Os novos vizinhos têm um rebanho de vacas e decidem investir na apicultura. O resultado é ecologicamente desastroso. As crianças - obrigadas a trabalhar - viram "pasto" para as abelhas. Eles são picados, inchados e revoltam-se contra os pais, no caso seus "patrões". 


Outras cenas mostram o nascimento de um novilho, arrancado do ventre da vaca por uma criança, que parece ter muito nojo do que está fazendo. São mostradas festas, reuniões locais e a ida de Hatidze à cidade para vender seu mel. 

Honeyland é um filme local. Trabalha na metáfora do frágil equilíbrio ambiental e como os seres humanos são especialistas em dizimar a natureza. Os "atores" são pessoas reais. Não há falas decoradas, nem texto a ser seguido. O filme retrata uma vida miserável de pessoas muito pobres e excluídas. 

Honeyland é um excelente documentário. Mas, peço desculpas a Fernando Meirelles, é menor, em comparação a Democracia em vertigem. 

O filme de Petra Costa não se resume a uma localidade, a um personagem, é amplo, macro. Discute o golpe de direita que derrubou uma presidente eleita. Democracia em vertigem foi selecionado pelo "comunista" The New York Times como um dos melhores filmes do ano. 

Petra Costa, 36 anos, adiciona ao documentário as contradições de sua vida. Ela é neta de um dos fundadores da construtora multinacional Andrade Gutierrez (empresa condenada por corrupção) e filha de pais guerrilheiros, presos e exilados, durante a Ditadura Militar.

Cai Dilma, entra Michel Temer e chega o capitão autoritário, favorável ao armamentismo, aos agrotóxicos, inimigo número 1 dos LGBTs, das reservas indígenas e dos quilombolas.

Com voz de alguém que sente muita dor, Petra encadeia as desgraças da política brasileira, esse buraco sem fundo em que nos encontramos.

Ontem, dando uma banana para o artigo 37 da Constituição, a Secom (Secretaria de Comunicação Social da Presidência) usou o dinheiro público para atacar a cineastra Petra e seu documentário. Chamando criadora e criatura de "anti-Brasil". 

O artigo 37 fala que o governo deve ter "impessoalidade". Não foi o caso da Secom, comandada por Fabio Wajngarten, investigado pela Polícia Federal por "peculato e corrupção passiva".  

No The Guardian, edição de hoje, um articulista menciona que, geralmente, governantes ficam felizes quando uma obra artística, que representa seus países, ganha uma honraria internacional. Não foi o caso do governo Bolsonaro em relação à Democracia em vertigem, menciona o jornal inglês.

Para defender Petra Costa e sua obra, Caetano Veloso e Chico Buarque divulgaram vídeos, falando da importância do filme, disponível pela Netflix. No campo adversário, um enciumado Pedro Bial, que perdeu dez anos de sua longa existência apresentando aquela porcaria de bês ao cubo, disse que Petra é "uma menina querendo dizer para a mamãe dela que fez tudo certinho". 

Estamos nesse cabo de guerra. Para os defensores do governo Bolsonaro, Democracia em vertigem é o inimigo da vez e deve ser ferozmente combatido. Já os 89 milhões, que não votaram no capitão, irão torcer pelo representante brasileiro no Oscar. 

De minha parte, gostaria que Democracia em vertigem levasse a estatueta. Entre outros motivos, porque é um documentário excepcional e representa um soco bem dado no fígado de bolsominions e companhia bela.    
  

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Filme Whisky, Tarantino, Coringa e que tais

Esta é a imagem que vai dar título ao filme

Todos os dias ajoelho e agradeço Reed Hastings e Marc Randolph por terem inventado a Netflix. A TV por streaming nos permite assistir joias como esse filme Whisky. Realizado pelos cineastas uruguaios Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll, em 2004, foi considerado pelos críticos como "o melhor filme latino-americano dos últimos 20 anos". Rebella morreu jovem, aos 32 anos. Suicidou-se e não concluiu o roteiro do que seria seu próximo filme, em parceria com o colega da faculdade Pablo Stoll.

A Netflix tem uma vantagem sobre a TV por assinatura. Não exibe comerciais. Quando você assina a TV por assinatura, assina também seu atestado de imbecilidade. Além de pagar uma vez, você engole comerciais, que, em tese, não deveriam ser exibidos, porque são os comerciais que pagam a TV aberta. Se você paga pela TV por assinatura, com que direito eles lhe enfiam, goela abaixo, os comerciais? Só mesmo sendo um imbecil para não fazer nada a respeito.

Graças à Netflix também nunca mais assisti a uma novela da Globo.  O único defeito da Netflix é ser conservadora e moralista. Falta na programação a pimenta, o ardido. Quem sabe um dia... Duvido.

Whisky fala de três pessoas que se juntam, em determinado momento da vida, sem ter nada em comum. Bem produzido, roteiro excelente, direção impecável, você mergulha de cabeça na história. O solitário dono de uma fábrica de meias, caindo aos pedaços, precisa se preparar para receber o irmão, que também produz meias, e vive no Brasil. Para não parecer o que é - um velhote ranzinza e solteirão - pede para uma funcionária fazer o papel de sua esposa. A decadente fábrica de meias espelha o seu proprietário: é sombria, áspera e a caminho da esterilidade. Os três seres díspares vão parar no balneário de Piriápolis, fora de temporada, desértico. 

Se você gosta de perseguição de carros, tiroteios, violência sanguinolenta, não assista Whisky. Se você quiser qualidade, roteiro de excelência e interpretação nota dez, veja Whisky.

Por falar em violência, Quentin Tarantino está no pedaço com Era uma vez em Hollywood. Queria saber o que ele quis dizer com essa produção? Tarantino tem um problema psíquico grave. Ele não consegue aceitar a história. Quer mudá-la. Descontente com a Segunda Guerra Mundial, a barbárie dos campos de extermínio, e o nazismo, Tarantino decide matar Hitler no pior filme de guerra (Bastardos inglórios) já produzido pelo cinema. Imagine o Führer, em território inimigo (França), indo a uma exibição teatral em Paris, guardado por DOIS guarda-costas. Somente uma mente infantil para imaginar algo parecido. 

Em Era uma vez..., Tarantino, inconformado com o assassinato brutal de Sharon Tate, revê a história e salva todo mundo do maluco Charles Manson. Freud diria que, assim como os sonhos são a realização de um desejo, Tarantino faz filmes que concretizam, de forma vicária, seus desejos de menino mimado. 

O Coringa foi percebido por incautos como "um filme de esquerda". Sinto muito. Não há nada mais direitista que O Coringa. Se fosse feito um paralelo com Chê Guevara, a gente entenderia melhor por que O Coringa é um filme conservador e de direita. 

Chê era médico, guerrilheiro e viveu a sua vida a serviço dos pobres e explorados. Combateu ditaduras. Ajudou a derrubar Fulgêncio Batista, em Cuba. Participou de lutas semelhantes na África e foi executado na Bolívia no dia 8 de outubro de 1967. Chê Guevara é um legítimo herói da esquerda. Há algo de cristão em sua existência. "Morreu por nós". 

O Coringa é um sujeito maluco, idolatrado pela massa. O herói dos fracos e oprimidos é doido de carteirinha. Como se o filme dissesse: os pobres, os famintos, os miseráveis só podem mesmo idolatrar os loucos. 

O Coringa seria um filme "de esquerda" se seu protagonista fosse um médico, por exemplo, esclarecido e sensível à exploração do capital, capaz de pegar em armas e iniciar uma revolução. Como disse alguém outro dia nas redes sociais: "a cada nova revelação de conquistas econômicas, tropeço em mais gente vivendo na rua". 

Por falar em gente louca, ainda pela Netflix, assisti no dia da estreia ao novo filme de David Lynch, O que Jack fez? São 17 minutos de loucura plena. Lynch é um agente do FBI interrogando o macaco de Ross (Friends), que teria cometido um crime. 

Os dois supostos candidatos ao Oscar pelo Brasil, em 2019, eram Bacurau - indigesto, violento, inverossímil -  e A vida invisível (um amigo me disse ser o filme mais chato desde Lumière. Talvez seja exagero da parte dele).
  
Para encerrar, fica a pergunta: por que será que o Brasil não consegue criar uma geração de cineastas que façam filmes como esse Whisky uruguaio ou o argentino ganhador do Oscar O segredo dos seus olhos, estrelado pelo excepcional Ricardo Darin? Pode ser que o problema seja esse pessoal das comédias. Coisas do tipo Minha mãe é uma peça... Ou, quem sabe, o problema é mesmo o Brasil. A falta de educação, a incapacidade, a omissão, a elite obtusa...Por aí afora. 


      

    

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Rousseau, o Contrato Social e Paraisópolis


Por que a maioria das análises sobre a morte de nove jovens em Paraisópolis mirou apenas a Polícia Militar? Ouvi dezenas de "analistas" discorrendo sobre o episódio, ocorrido na semana passada, e nenhum deles mencionou o óbvio: quem são os organizadores dos "bailes" funk? Como eles se chamam? Onde eles moram? O "baile" seria o ganha-pão deles? 

É estranho ninguém mencionar os responsáveis pelas mortes. Os organizadores são os responsáveis pelo ocorrido. Se eu promovo uma festa em um local inadequado, reúno milhares de pessoas, com objetivo de ganhar dinheiro, é claro que, se houver pânico, pessoas vão morrer.

Se eu for abrir um bar, que terá música ao vivo, tenho certeza que os documentos exigidos pela municipalidade vão ocupar uns dois metros de altura. Vou precisar de alvará de funcionamento, autorização do Corpo de Bombeiros, cópia do Imposto de Renda, IPTU do imóvel, cópia do contrato de locação, CNPJ...Só para citar alguns.

Agora, para organizar um evento na favela, não preciso de nada disso. É só ligar os alto-falantes e que "comece la fiesta". Paraisópolis parece não fazer parte do mundo legal. É um lugar à parte. 

É estranho que, enquanto os corpos dos jovens estavam no chão, aguardando as viaturas do Instituto Médico Legal, os organizadores prosseguiam com a "festa".  Que tipo de gente é essa que não para um evento, com gente morta, com cadáveres espalhados no chão, bem ao lado deles?  Neste sábado, teve "festa" novamente. Os "responsáveis" fizeram um minuto de silêncio e, em seguida, botaram pra quebrar. 

Quando é que a gente vai saber quem são esses organizadores? Quando eles serão penalizados pela Justiça? Sua responsabilidade é a mesma dos proprietários da Boate Kiss, em Santa Maria (RS). Quem faz festa em local inapropriado, com objetivo mercantilista (nada é grátis), coloca em risco a vida dos participantes.  

As discussões sobre o ocorrido em Paraisópolis perdem o foco. Fala-se em racismo. Se os jovens fossem brancos, a polícia não teria partido para cima deles. Será que essa desgraça teria sido motivada por racismo? Não foi racismo. A polícia foi chamada por moradores, que não suportam mais ficar sem dormir três, quatro dias por semana, e interveio para acabar com a arruaça. 

Você pode gostar de funk. Tem gosto pra tudo. Agora, ser obrigado a ouvir de sexta-feira a domingo funk em último volume é tortura. Se ao invés de funk, os "organizadores" colocassem A Primavera de Vivaldi no último volume, uma Primavera ensurdecedora, os reclamos seriam os mesmos. 

A questão que se coloca é muito simples: por que o seu direito de se divertir vale mais que o meu direito de não ouvir a sua música? Eu tenho o direito de morar em Paraisópolis e querer ficar na cama, dormindo, de sexta-feira a domingo, sem ser incomodado pela sua festa. Em que momento a sua diversão suplantou o meu direito de não ser incomodado por você? Quando isso ocorreu e eu nem percebi?

Toda essa confusão remete a Jean-Jaques Rousseau (1712-1778). Quando escreveu o Contrato Social, Rousseau discutia um velho dilema: como preservar a liberdade natural do homem e garantir ao mesmo tempo a segurança e o bem-estar da vida em sociedade? Para Rousseau, a saída era simples: as pessoas deveriam optar por viver na democracia, submetendo-se às leis. Valeria a soberania da coletividade. 

Em Paraisópolis, moram 80 mil pessoas. Parece que a maioria prefere viver em paz, sossegada, sem o pancadão de fim de semana. Por isso, eles pediram a intervenção da polícia. Então, meu caro, organizador do pancadão, o seu direito de incomodar a maioria com música no último volume vai contra o bem-estar da coletividade. Como garante o Contrato Social de Rousseau, você deve se submeter às leis e desligar o som ou ser preso por perturbação da ordem pública.

Mas os jovens, coitados dos jovens pobres, o que eles vão fazer sem os bailes? Onde eles vão se divertir? 

Eu fui um jovem pobre também. Trabalhava em uma adega de bebidas e sonhava frequentar os bailes do Círculo Militar, na época o crème de la crème. Lá, tocavam as melhores bandas. As garotas eram deslumbrantes. O lugar era amplo, com decoração luxuosa. Um sonho de consumo. 

Nunca pude frequentar os bailes do Círculo. Para nós, molecada pobre, havia os bailes de garagem. No sábado à noite, alguém arrumava uma vitrola. Espalhava cadeiras e mesas, onde antes havia um carro estacionado, e a gente dançava, de rosto colado, ao som de Johnny Rivers, Do you wanna dance?. O baile terminava antes da meia noite. Íamos na lanchonete mais próxima encerrar a noite, comer hambúrguer com queijo, regado a ketchup, novidade gastronômica naquela época, em 1969.

Paraisópolis, na realidade, é uma sucessão de erros. Está tudo errado. A área era particular e foi invadida. Ou seja, as pessoas não poderiam estar ali. O poder público, lento, foi incapaz de agir. Permitiu - mais uma vez - uma ocupação desordenada, caótica, que transformou aquela área de 10 quilômetros quadrados em um pesadelo urbano. É difícil trafegar pelas ruas. Faltam requisitos mínimos de cidadania. Imagine você ficar doente e a ambulância não conseguir chegar até a sua casa? E se pegar fogo, como já aconteceu outras vezes? Os carros dos bombeiros tinham dificuldade para chegar até o local do fogo, enquanto as chamas devoravam as casas. Em 2016, um incêndio destruiu uma centena de moradias ante o olhar impotente dos bombeiros. 

Enquanto tudo isso acontece a prefeitura, sonolenta, move-se com a lentidão do cágado. Somente hoje foi feita uma reunião entre secretários municipais e lideranças da segunda maior favela da capital. 

O que precisa se feito - e é urgente - me parece também muito óbvio. Aquelas 80 mil pessoas precisam ser cidadãs. O poder público - a começar pela prefeitura - precisa transformar o caos em área urbana habitável, com ruas largas, praças arborizadas, equipamentos públicos decentes. 

-  Ah, mas é tudo ilegal. Aquele terreno é particular. Os invasores precisam ser expulsos.

Isso deveria ter sido feito em 1970, quando meia dúzia de posseiros ocuparam um terreno particular. Agora, com 80 mil pessoas, fica difícil remanejar toda essa gente. A menos que a prefeitura tenha um plano urbanístico arrojado, mirabolante, capaz de utilizar aquelas centenas de prédios abandonados, no centro da cidade, em um projeto urbanístico do século 21. 

Esquece! Isso nunca vai acontecer.        

    

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Baile Funk de Paraisópolis é autoritário e perverso


A Favela de Paraisópolis é um lugar estranho. Algumas ruas levam a lugar algum. Devem ter sido imaginadas pelo arquiteto da miséria e do descalabro urbano. O tráfego de veículos percorre vielas sinuosas, estreitas e que, às vezes, são subitamente interrompidas por um caminhão de entregas que perdeu-se na tentativa de fazer uma conversão sem volta. Em frente ao comércio local, há caixotes de madeira empilhados e espalhados para ninguém estacionar. Carros, motos, carroças estão parados nos dois lados da rua estreita. Só por um milagre para passar incólume entre eles. 

Sabe a Prefeitura de São Paulo? Essa instituição que tem fiscais que multam um puxadinho na Vila Madalena ou caem em cima daquele comerciante que precisa de um alvará? Então, essa Prefeitura não existe em Paraisópolis. Nada ali parece ter sido feito para funcionar. É tudo apertado, estreito, pobre, miserável, inviável. A Prefeitura não aparece por lá. Não manda fiscais. Não elabora um plano urbanístico. A Prefeitura é omissa, porque é muito mais fácil ser omisso do que participativo.

Talvez a única instituição que dê as caras em Paraisópolis, aquele vespeiro dominado pelo tráfico, seja a Polícia Militar. A missão da PM é complicada. Tenta ordenar a desordem. E a desordem, em Paraisópolis, é implacável. 

Famosa pelo batidão, pelo pancadão, pelo tal do Baile Funk, os 80 mil moradores da Favela de Paraisópolis são reféns desse grupo que todas as semanas - repito todas as semanas - decreta estado de insônia totalitário. Sexta, sábado e domingo, os infelizes moradores desta favela da zona sul da capital estão proibidos de dormir. A ordem que lhes é dada - e tem de ser obedecida - é: "Vocês não vão dormir". Freddy Krueger ficaria sem ocupação.

Então, desesperados, reféns da miséria que os condenou àquele lugar remoto, medonho e abandonado, o que os pobres cidadãos fazem? Ligam para o 190, o telefone da Polícia Militar.

"Alô, por favor, eu não consigo dormir. Estou aqui na Favela de Paraisópolis. É um barulho insuportável. Trabalhei a semana toda. Vocês poderiam mandar uma viatura para cá?"

A PM aparece na favela e verifica que tem 5 mil, 10 mil, 30 mil pessoas, participando de uma festa pública. A PM tenta reprimir. É recebida com garrafadas, cusparadas, pedras e até chumbo grosso. A PM reage com energia, tenta pôr ordem na bagunça, mas a bagunça domina, impera. É a supremacia do caos.

Os "organizadores" do pancadão são anônimos. A gente não sabe quem são. Qual é o perfil desses promotores do infortúnio alheio?  São jovens? Maduros? Pertencem a alguma facção criminosa? Quanto eles lucram com esses "bailes"? Seria essa a sua principal fonte de renda?

Não se sabe. Parece não haver trabalho de inteligência da polícia. É tudo cercado por uma neblina de incertezas. O que se tem certeza é que, no próximo final de semana, os 80 mil moradores da Favela de Paraisópolis, novamente, serão proibidos de descansar, porque o autoritarismo perverso dos "organizadores" fala mais alto do que a lei, a ordem, a Justiça.

O pancadão reúne todos os elementos do desrespeito legal. É uma festa sem alvará, sem licença, sem nada. Realiza-se ao ar livre, azucrinando a vida da vizinhança. Menores podem frequentá-la? Podem, sim. Entrem e fiquem à vontade. Ali, naquele canto, tem maconha, cocaína e ecstasy. Sirvam-se. Façam bom proveito. Depois, vocês farão sexo aqui no meio da rua, sem camisinha, para engravidar e daqui a alguns anos serão suas filhas e filhos que estarão aqui na bagunça. 

Aqui, é um mundo à parte. O mundo lá fora não serve para nós. Por isso, criamos essa cidadela da putaria. Aqui vale tudo. Estupro de vulnerável? Vale. Uso de drogas lícitas e ilícitas e drogas que ainda serão inventadas? Vale.

Dizem que vem gente do interior de São Paulo, da Baixada Santista, de municípios próximos à capital para participar do pancadão. Na melhor das hipóteses, é uma garotada que quer se divertir e se entregar a prazeres baratos e possíveis. 

Só que, sinto muito, não dá para isso ser feito no meio da rua. Não dá para a gente aceitar na boa o descalabro legal. Se a perturbação da ordem vale para mim, que moro em outro bairro, também deveria valer para o "organizador" do caos da Favela de Paraisópolis.

É hora do poder público fazer a sua parte. Deixar a omissão para trás e agir. A primeira tarefa a ser feita, é transformar a Favela de Paraisópolis em um bairro decente, com ruas largas, calçadas, praças, áreas verdes e tudo aquilo que qualquer cidadão paulistano teria direito. Ruas largas o suficiente para o tráfego do Corpo de Bombeiros e ambulâncias. Ruas largas o suficiente para a gente não sentir aquela sensação de claustrofobia, que deixa pessoas presas dentro de seus veículos, porque as ruas foram interditadas para o pancadão e só será permitido sair no outro dia, pela manhã, se os "organizadores" permitirem. 

Morreram oito meninos e uma menina neste fim de semana. Todos os holofotes voltam-se para a Polícia Militar, que teria agido "fora das normas". E os "organizadores" agiram dentro das normas? Quem são? Onde se escondem? Quem é essa canalha anônima? Perguntas que espero ver respondidas nos próximos dias.

E os pais ou "responsáveis" agiram "dentro das normas"?
- Pai, mãe, vou sair.
- Onde você vai, filho?
- Vou para o pancadão, onde tem droga e sexo à vontade. O lugar é assediado pela Polícia Militar que, volta e meia, troca tiros com os bandidos.
- Ah, beleza, filho. Divirta-se. Não se esqueça de levar um casaquinho, que, mais tarde, pode esfriar.


          

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Filme sul-coreano "Parasita" discute desigualdade social


Estreou em São Paulo o filme Parasita, do diretor Bong Joon-ho. Em Cannes (França), a produção levou a Palma de Ouro. Foi a primeira vez que um filme sul-coreano ganhou esse prêmio, com o voto unânime do júri. Parasita é uma paulada em nosso discernimento. Mistura drama, comédia, desgraça, paixão, miséria, ostentação, sexo na mesma embalagem. E, principalmente, põe em discussão a desigualdade social.  

O pai, a mãe e os dois filhos vivem como ratos. Moram em um porão. Ganham a vida, montando caixas de pizzas. Os quatro são competentes. O rapaz e a garota, inteligentes. O pai é trabalhador e a mãe uma boa administradora de casa. Mas a família vive de subempregos, à margem, em um buraco social. A vida começa a melhorar quando o rapaz arruma emprego como professor particular de uma adolescente milionária. Aos poucos, todos os integrantes da família conseguem emprego na casa.

A família pobre é unida. Atua como um único bloco, eliminando outros funcionários para ocupar seus lugares. Recorre a golpes desonestos, sem dor na consciência. O importante é sobreviver, no melhor darwinismo social. São insetos rastejantes, se esgueirando pelo esgoto, alimentando-se das sobras.

Dentro da casa dos ricos, eles vão usufruir, temporariamente, de prazeres, até então, inacessíveis. Comem e bebem com fartura. Aproveitam a maciez das camas dos patrões. Deleitam-se com a majestosa vista de um jardim interno gramado, graciosamente iluminado e banhado por uma chuva bem-vinda numa noite de calor intenso.

Do lado dos milionários, o provedor é um industrial que sente nojo do cheiro dos pobres. "Essa gente que usa metrô.". A mulher dele é, absolutamente, incompetente. Só presta para ir às compras. O menino rico é malcriado, mimado e domina os pais. A garota, sonhadora, bobinha, apaixona-se pelo rapaz pobre.

O filme provoca a dúvida: quem é o verdadeiro parasita? Os miseráveis que conseguem uma brecha e invadem o castelo dos ricos; ou os ricos, que sugam a energia dos pobres, para a realização de tarefas ordinárias, como cozinhar, lavar roupa, dirigir o carro, ir ao mercado e manter a casa limpa?      

Candidato ao Oscar, Parasita venceria fácil se a estatueta fosse entregue em outro país. Nos Estados Unidos, de Donald Trump, o filme pode ser considerado "comunista" e corre o risco de ficar fora da premiação. Aliás, no Brasil, da família 01, 02 e 03, Parasita também corre o risco de virar "comunista".




   

sábado, 9 de novembro de 2019

O PT saiu da cadeia junto com Lula



A saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem da prisão, em Curitiba (PR), foi apoteótica. Teve discurso, homenagens, abraços, beijos e felicitações mil. Não foi só Lula que saiu da cadeia. O PT, também. 

Houve reparação de uma injustiça. Na quinta-feira, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por 6 votos a 5 que a Constituição deve ser respeitada. Em seu artigo 5º, a Constituição ordena que a prisão só deve ocorrer depois de "trânsito em julgado". Significa que, enquanto houver instância jurídica a ser percorrida, o acusado não pode ser preso.

A Lava Jato atropelou a Constituição. Prendeu opositores. Guardou Lula na cadeia, para não participar da eleição de 2018. Mesmo debaixo de uma avalanche sempiterna de acusações, com a mídia oficial descendo o cacete, Lula venceria o pleito. A solução foi enquadrá-lo. Em abril de 2018, com voto decisivo da então presidente do STF, Cármen Lúcia, foi negado habeas corpus a Lula. Pouco depois, o líder do Partido dos Trabalhadores seria preso e levado à "República de Curitiba".

A prisão de Lula foi uma excrescência jurídica. Não havia provas contra ele. Veja o que diz o então "comandante supremo" da Lava Jato, Deltan Dallagnol, a um grupo de WhatsApp, antes de apresentar o power point, que ligaria todas as flechas da corrupção a Lula:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”    


Graças à Vaza Jato, perpetrada pelo site The Intercept Brasil, ficamos sabendo aquilo que já imaginávamos. Não havia mesmo provas factuais contra Lula. Era um movimento político para "quebrar as pernas" do ex-presidente. 

Tem o outro lado. O artigo 5º precisa ser modificado. Não dá mais para suportar a impunidade. Político corrupto tem de ir pra cadeia. Esse "trânsito em julgado" é um atraso de vida. Quem tinha bons advogados, como era o caso de Paulo Maluf, corrupto sacramentado, nunca ia preso. Recorria aqui. Recorria acolá. E ficava livre, leve e solto até o processo prescrever. 

Se a Lava Jato não conseguiu encontrar o "batom na cueca", expressão preferida do inesquecível Ricardo Boechat, isso não significa que não havia corrupção no governo petista. No primeiro mandato de Lula na Presidência, o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, subornava parlamentares para aprovar projetos, no esquema chamado de Mensalão. Depois, viria o PetrolãoMilhões de recursos da Petrobras foram desviados. Foi tanta grana que quase quebrou a Petrobras

O esquema - descoberto pela Lava Jato de Dallagnol, Sergio Moro & cia. - revirava as entranhas da corrupção política. Empresários pagavam propina a políticos. Conseguiam faturar milhões em obras. E devolviam essas facilidades, repassando recursos para os partidos. Recursos públicos eram drenados e voavam para o exterior, graças a uma bem orquestrada indústria de doleiros. Na cara dura, políticos ligavam para empresários e pediam dinheiro. O ex-presidenciável Aécio Neves foi pilhado em uma gravação, com o pires na mão, querendo 2 milhões de reais.    

A Lava Jato buscou os holofotes e os encontrou. Do dia para noite, procuradores e juízes anônimos viraram celebridades. A mídia oficial transformou esse pessoal da toga e terno cinza de pastor evangélico nos heróis da resistência. Os políticos - praticamente todos eles, sem exceção - eram os bandidos da história.

No meio desse torvelinho, a pobre presidente Dilma Roussef foi derrubada. Graças a um problema contábil, chamado de "pedalada", dois advogados - o circunspecto Miguel Reale Jr. e a psicodélica Janaína Paschoal - abriram processo de impeachment, que ganhou sinal verde do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Dilma desceu a ladeira do Palácio do Planalto. Depois, seria a vez do corrupto Cunha cair em desgraça e ser enjaulado. 

Enquanto ocorriam as prisões de políticos, empresários, empreiteiros, doleiros, o vai e vem de advogados aos tribunais, para libertar os corruptos, ganhava ares de romaria perdida, em que os fiéis andam milhares de quilômetros e, ao chegar ao destino, não encontram mais o santo no lugar devido.

Os advogados de defesa nunca tinham visto nada parecido. A Lava Jato prendia e não soltava. Para isso, os procuradores se transformaram em Batman, na comparação feliz do jornalista da direita conservadora Reinaldo Azevedo. Batman e bandidos têm muito em comum. Todos atropelam a lei. Batman combate os criminosos, sem se importar com direitos civis e constitucionais. O juiz Sergio Moro comandava os procuradores da Lava Jato, dando dicas, fazendo sugestões, sendo tudo, menos um juiz imparcial. 

Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão, baseado em "convicção". Não havia o "batom na cueca". Apenas a convicção de que Lula era corrupto. A mídia oficial delirou. Moro ganhou as manchetes. No maniqueísmo de ocasião, os petistas eram bandidos e os justiceiros de toga, os mocinhos.

Como prêmio pelos bons serviços prestados, Moro foi guindado, no início deste ano, a ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro. Eleito na esteira do ódio ao PT, Bolsonaro obteve 57 milhões de votos. 89 milhões de eleitores não votaram nele. 47 milhões preferiram o candidato petista, Fernando Haddad, apoiado por Lula. E 42 milhões decidiram não votar em ninguém, enojados com tanta corrupção política.

 Veio a Vaza Jato, do The Intercept Brasil, e a opinião pública entendeu que a Lei maior, a Constituição, havia sido desrespeitada pelos "heróis" da Lava Jato. Imensamente felizes com a fama súbita, os procuradores lavajatistas faturavam os tubos em palestras bem remuneradas. 

Com a Lava Jato sob escrutínio, os ministros deuses do STF reuniram-se na quinta-feira e fizeram o que se espera deles: preservaram a Constituição. Assim, o famoso artigo 5º acabou prevalecendo e com ele, a libertação de Lula, preso injustamente. 

Dizem que Lula percorrerá novamente o País em uma reedição da "caravana da esperança". Antes disso, o PT - que saiu finalmente da cadeia - pode retornar às atividades. A começar, deveria fazer um mea culpa. É preciso pedir desculpas a seus eleitores, àquela gente ingênua que colocava adesivo da estrela petista na porta de suas casas e pendurava broches na lapela. O PT deve pegar um caixote de madeira, subir nele nas praças das cidades e gritar alto e bom som: 

"Pessoal, o PT errou. O PT permitiu que houvesse corrupção. O PT foi um partido igual aos outros. Nos desculpem. Isso não vai ocorrer novamente.

É isso que os eleitores de Lula esperam que ocorra. Não dá para fingir que nada ocorreu. Porque ocorreu. E o que aconteceu sujou a estrela petista. É preciso limpá-la. Fazer um rebranding da marca. Ano que vem haverá eleições municipais e o PT precisa estar preparado, porque senão vai levar outro cacete monumental das urnas.  

          

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Este crime chamado Justiça

A promotora Carmen Eliza Bastos de Carvalho
E ao lado do deputado Rodrigo Amorim


O filme Este crime chamado Justiça, dirigido por Dino Risi,  tem o título em italiano de In nome del popolo. Foi lançado em 1971. Conta a história de um promotor (interpretado por Ugo Tognazzi) que investiga os crimes de um empresário (Vittorio Gassman), notório poluidor e suspeito de ter espancado a amante até a morte. O promotor visita a casa do empresário e fica chocado com a falta de moralidade da família de milionários. O promotor vai fundo na investigação e conclui que o empresário é inocente. O diário, escrito pela amante, esclarece os fatos. Mesmo assim, disposto a fazer justiça a qualquer preço, o promotor queima o diário e, de posse das provas obtidas até então, manda o empresário para a cadeia. Mesmo sabendo que - desse crime, de assassinato - ele era inocente.

Como repórter, vivi algo parecido. Quando da morte do prefeito Celso Daniel, estive no local onde o prefeito foi arrebatado pela quadrilha do Monstro (Ivan Rodrigues da Silva). Encontrei uma senhora, que morava vizinha ao local onde ocorreu o tiroteio, que testemunhou toda a ação e corroborava a versão de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que dirigia o veículo, atacado pelos bandidos. 

Levei a informação aos promotores, que investigavam o caso, e eles me disseram que essa testemunha não servia. "Essa é uma testemunha de defesa", disseram. "Não interessa para nós." 

Já naquela época, os promotores faziam "vazamentos seletivos". Passavam a maior parte das informações para uma repórter da Folha. Um dos integrantes dessa força-tarefa era o promotor Roberto Wider Filho, que, recentemente, ganhou a capa da revista Veja, com um novo depoimento  de Marcos Valério, acusando Lula de ter mandado matar Celso Daniel.

Os promotores, que investigavam o arrebatamento e o assassinato do prefeito Celso Daniel, criaram uma linha de investigação paralela que incriminava, sub-repticiamente, o PT (Partido dos Trabalhadores), representado pelo grupo de Sérgio Sombra, do qual faziam parte o empresário Ronan Maria Pinto e Klinger Souza (secretário municipal e vereador de Santo André). Segundo os promotores, Sombra, Ronan e Klinger teriam contratado o bando do Monstro para matar o prefeito e assim continuar com seu plano de extorsão de empresários na Prefeitura de Santo André. 

Essa versão, criada pelos promotores, nunca foi aceita pela Polícia Civil. O ex-delegado Marcos Carneiro Lima, que trabalhou na Divisão Antissequestro, concedeu uma entrevista esclarecedora ao jornal El País, em abril de 2016, falando sobre o caso. Quem adora teorias conspiratórias vai ficar frustrado, depois de ler a matéria: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/02/politica/1459619861_766410.html.

O sequestro do prefeito Celso Daniel começou a ser esclarecido na mesma noite. Uma testemunha que morava na Favela Pantanal estava lavando roupa em seu barraco, quando ouviu dois criminosos, comentando que haviam feito uma bobagem e sequestrado o prefeito de Santo André. Essa testemunha saiu de casa e foi até a Rádio Jovem Pan, onde prestava serviço. Pediu para falar com o presidente da rádio e contou o que tinha ouvido. O empresário ligou imediatamente para o delegado Edson de Santi, do Deic, que dirigiu-se até a favela. De Santi encontrou o cativeiro e localizou uma carteira funcional do prefeito, provando que ele havia estado lá. Os bandidos haviam removido o prefeito e o levado para outro cativeiro, uma chácara na região de Juquitiba. 

Quando o Monstro percebeu que estavam com um problema sério nas mãos, ligou para um dos bandidos, que ouviu a mensagem: "Dá linha no cara", e entendeu que era para fuzilar o prefeito, quando, na realidade, a ordem era para soltá-lo.

Toda essa história me levou a acreditar que alguns promotores estão a serviço de um projeto político, muito mais do que a serviço da Justiça. São promotores e procuradores partidários. Assim como tem jornalista partidário, também tem integrantes do Judiciário a serviço de uma determinada causa política. Isso é grave e tem consequências desastrosas.

A Vaza Jato mostrou que a Lava Jato foi partidária ao prender o ex-presidente Lula sem provas. Lula foi preso para não participar das eleições de 2018. Está encarcerado, por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou. Não sou eu quem diz isso. É o próprio Deltan Dallagnol ao comentar com o então juiz Sergio Moro a falta de robustez de provas, como revelou o site The Intercept Brasil.  

O caso que está hoje na pauta dos jornais é o da promotora carioca Carmen Eliza Bastos de Carvalho. Ela postou fotos em redes sociais, apoiando a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Tem foto dela ao lado do deputado Rodrigo Amorim. Amorim ganhou as manchetes, depois de ter quebrado a placa da rua que homenageava a vereadora Marielle Franco. 

Acredite ou não, a promotora Carmen Eliza integrava força-tarefa que investiga o assassinato da vereadora Marielle. Foi esse mesmo Ministério Público do Rio de Janeiro, da qual faz parte a promotora Carmen, que, em menos de um dia, colheu provas e desmentiu o porteiro do condomínio onde moram Bolsonaro e o miliciano Ronnie Lessa, implicado na morte de Marielle. 

O porteiro havia dito, em depoimento, que um dos suspeitos de assassinar Marielle - Élcio de Queiroz - teria ido visitar Bolsonaro, em 14 de março de 2018. Naquela mesma noite, Marielle seria executada. 

Reportagem do Jornal Nacional trouxe o depoimento do porteiro e mostrou o caderno de visitas do condomínio, que apontava Élcio, indo em direção à casa de número 58, onde mora Bolsonaro. Segundo o porteiro, que observou o carro trafegando dentro do condomínio, Élcio não foi em direção ao número 58 e sim em direção à casa de Ronnie Lessa. O porteiro teria ligado para a casa de Bolsonaro e lhe disseram que estava tudo certo. Não era para ele se preocupar. 

O MP do Rio de Janeiro foi rápido ao desmentir o porteiro. Mas mostra velocidade de câmara lentíssima, quase parando, ao investigar o caso Fabrício Queiroz. Em dezembro de 2018, o jornal O Estado de S.Paulo trouxe reportagem exclusiva denunciando um esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado estadual (hoje senador) Flávio Bolsonaro. Desde então, o Ministério Público do Rio de Janeiro, do qual faz parte a promotora Carmen (entusiasta declarada de Bolsonaro e cia. bela), não consegue ouvir Queiroz. Não consegue pegar seu depoimento, nem mandar prendê-lo, para averiguação. Até a Revista Veja sabe onde está o Queiroz. Só falta o MP carioca tomar ciência.    

Antes de ser afastada, a promotora Carmen se antecipou e pediu para ficar fora de casos que envolvam a família Bolsonaro. O partidarismo estraga as instituições. Atrapalha o bom jornalismo e é um desastre na Justiça. É tão ou mais corrosivo que a corrupção.

       

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