segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Baile Funk de Paraisópolis é autoritário e perverso


A Favela de Paraisópolis é um lugar estranho. Algumas ruas levam a lugar algum. Devem ter sido imaginadas pelo arquiteto da miséria e do descalabro urbano. O tráfego de veículos percorre vielas sinuosas, estreitas e que, às vezes, são subitamente interrompidas por um caminhão de entregas que perdeu-se na tentativa de fazer uma conversão sem volta. Em frente ao comércio local, há caixotes de madeira empilhados e espalhados para ninguém estacionar. Carros, motos, carroças estão parados nos dois lados da rua estreita. Só por um milagre para passar incólume entre eles. 

Sabe a Prefeitura de São Paulo? Essa instituição que tem fiscais que multam um puxadinho na Vila Madalena ou caem em cima daquele comerciante que precisa de um alvará? Então, essa Prefeitura não existe em Paraisópolis. Nada ali parece ter sido feito para funcionar. É tudo apertado, estreito, pobre, miserável, inviável. A Prefeitura não aparece por lá. Não manda fiscais. Não elabora um plano urbanístico. A Prefeitura é omissa, porque é muito mais fácil ser omisso do que participativo.

Talvez a única instituição que dê as caras em Paraisópolis, aquele vespeiro dominado pelo tráfico, seja a Polícia Militar. A missão da PM é complicada. Tenta ordenar a desordem. E a desordem, em Paraisópolis, é implacável. 

Famosa pelo batidão, pelo pancadão, pelo tal do Baile Funk, os 80 mil moradores da Favela de Paraisópolis são reféns desse grupo que todas as semanas - repito todas as semanas - decreta estado de insônia totalitário. Sexta, sábado e domingo, os infelizes moradores desta favela da zona sul da capital estão proibidos de dormir. A ordem que lhes é dada - e tem de ser obedecida - é: "Vocês não vão dormir". Freddy Krueger ficaria sem ocupação.

Então, desesperados, reféns da miséria que os condenou àquele lugar remoto, medonho e abandonado, o que os pobres cidadãos fazem? Ligam para o 190, o telefone da Polícia Militar.

"Alô, por favor, eu não consigo dormir. Estou aqui na Favela de Paraisópolis. É um barulho insuportável. Trabalhei a semana toda. Vocês poderiam mandar uma viatura para cá?"

A PM aparece na favela e verifica que tem 5 mil, 10 mil, 30 mil pessoas, participando de uma festa pública. A PM tenta reprimir. É recebida com garrafadas, cusparadas, pedras e até chumbo grosso. A PM reage com energia, tenta pôr ordem na bagunça, mas a bagunça domina, impera. É a supremacia do caos.

Os "organizadores" do pancadão são anônimos. A gente não sabe quem são. Qual é o perfil desses promotores do infortúnio alheio?  São jovens? Maduros? Pertencem a alguma facção criminosa? Quanto eles lucram com esses "bailes"? Seria essa a sua principal fonte de renda?

Não se sabe. Parece não haver trabalho de inteligência da polícia. É tudo cercado por uma neblina de incertezas. O que se tem certeza é que, no próximo final de semana, os 80 mil moradores da Favela de Paraisópolis, novamente, serão proibidos de descansar, porque o autoritarismo perverso dos "organizadores" fala mais alto do que a lei, a ordem, a Justiça.

O pancadão reúne todos os elementos do desrespeito legal. É uma festa sem alvará, sem licença, sem nada. Realiza-se ao ar livre, azucrinando a vida da vizinhança. Menores podem frequentá-la? Podem, sim. Entrem e fiquem à vontade. Ali, naquele canto, tem maconha, cocaína e ecstasy. Sirvam-se. Façam bom proveito. Depois, vocês farão sexo aqui no meio da rua, sem camisinha, para engravidar e daqui a alguns anos serão suas filhas e filhos que estarão aqui na bagunça. 

Aqui, é um mundo à parte. O mundo lá fora não serve para nós. Por isso, criamos essa cidadela da putaria. Aqui vale tudo. Estupro de vulnerável? Vale. Uso de drogas lícitas e ilícitas e drogas que ainda serão inventadas? Vale.

Dizem que vem gente do interior de São Paulo, da Baixada Santista, de municípios próximos à capital para participar do pancadão. Na melhor das hipóteses, é uma garotada que quer se divertir e se entregar a prazeres baratos e possíveis. 

Só que, sinto muito, não dá para isso ser feito no meio da rua. Não dá para a gente aceitar na boa o descalabro legal. Se a perturbação da ordem vale para mim, que moro em outro bairro, também deveria valer para o "organizador" do caos da Favela de Paraisópolis.

É hora do poder público fazer a sua parte. Deixar a omissão para trás e agir. A primeira tarefa a ser feita, é transformar a Favela de Paraisópolis em um bairro decente, com ruas largas, calçadas, praças, áreas verdes e tudo aquilo que qualquer cidadão paulistano teria direito. Ruas largas o suficiente para o tráfego do Corpo de Bombeiros e ambulâncias. Ruas largas o suficiente para a gente não sentir aquela sensação de claustrofobia, que deixa pessoas presas dentro de seus veículos, porque as ruas foram interditadas para o pancadão e só será permitido sair no outro dia, pela manhã, se os "organizadores" permitirem. 

Morreram oito meninos e uma menina neste fim de semana. Todos os holofotes voltam-se para a Polícia Militar, que teria agido "fora das normas". E os "organizadores" agiram dentro das normas? Quem são? Onde se escondem? Quem é essa canalha anônima? Perguntas que espero ver respondidas nos próximos dias.

E os pais ou "responsáveis" agiram "dentro das normas"?
- Pai, mãe, vou sair.
- Onde você vai, filho?
- Vou para o pancadão, onde tem droga e sexo à vontade. O lugar é assediado pela Polícia Militar que, volta e meia, troca tiros com os bandidos.
- Ah, beleza, filho. Divirta-se. Não se esqueça de levar um casaquinho, que, mais tarde, pode esfriar.


          

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Filme sul-coreano "Parasita" discute desigualdade social


Estreou em São Paulo o filme Parasita, do diretor Bong Joon-ho. Em Cannes (França), a produção levou a Palma de Ouro. Foi a primeira vez que um filme sul-coreano ganhou esse prêmio, com o voto unânime do júri. Parasita é uma paulada em nosso discernimento. Mistura drama, comédia, desgraça, paixão, miséria, ostentação, sexo na mesma embalagem. E, principalmente, põe em discussão a desigualdade social.  

O pai, a mãe e os dois filhos vivem como ratos. Moram em um porão. Ganham a vida, montando caixas de pizzas. Os quatro são competentes. O rapaz e a garota, inteligentes. O pai é trabalhador e a mãe uma boa administradora de casa. Mas a família vive de subempregos, à margem, em um buraco social. A vida começa a melhorar quando o rapaz arruma emprego como professor particular de uma adolescente milionária. Aos poucos, todos os integrantes da família conseguem emprego na casa.

A família pobre é unida. Atua como um único bloco, eliminando outros funcionários para ocupar seus lugares. Recorre a golpes desonestos, sem dor na consciência. O importante é sobreviver, no melhor darwinismo social. São insetos rastejantes, se esgueirando pelo esgoto, alimentando-se das sobras.

Dentro da casa dos ricos, eles vão usufruir, temporariamente, de prazeres, até então, inacessíveis. Comem e bebem com fartura. Aproveitam a maciez das camas dos patrões. Deleitam-se com a majestosa vista de um jardim interno gramado, graciosamente iluminado e banhado por uma chuva bem-vinda numa noite de calor intenso.

Do lado dos milionários, o provedor é um industrial que sente nojo do cheiro dos pobres. "Essa gente que usa metrô.". A mulher dele é, absolutamente, incompetente. Só presta para ir às compras. O menino rico é malcriado, mimado e domina os pais. A garota, sonhadora, bobinha, apaixona-se pelo rapaz pobre.

O filme provoca a dúvida: quem é o verdadeiro parasita? Os miseráveis que conseguem uma brecha e invadem o castelo dos ricos; ou os ricos, que sugam a energia dos pobres, para a realização de tarefas ordinárias, como cozinhar, lavar roupa, dirigir o carro, ir ao mercado e manter a casa limpa?      

Candidato ao Oscar, Parasita venceria fácil se a estatueta fosse entregue em outro país. Nos Estados Unidos, de Donald Trump, o filme pode ser considerado "comunista" e corre o risco de ficar fora da premiação. Aliás, no Brasil, da família 01, 02 e 03, Parasita também corre o risco de virar "comunista".




   

sábado, 9 de novembro de 2019

O PT saiu da cadeia junto com Lula



A saída do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ontem da prisão, em Curitiba (PR), foi apoteótica. Teve discurso, homenagens, abraços, beijos e felicitações mil. Não foi só Lula que saiu da cadeia. O PT, também. 

Houve reparação de uma injustiça. Na quinta-feira, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por 6 votos a 5 que a Constituição deve ser respeitada. Em seu artigo 5º, a Constituição ordena que a prisão só deve ocorrer depois de "trânsito em julgado". Significa que, enquanto houver instância jurídica a ser percorrida, o acusado não pode ser preso.

A Lava Jato atropelou a Constituição. Prendeu opositores. Guardou Lula na cadeia, para não participar da eleição de 2018. Mesmo debaixo de uma avalanche sempiterna de acusações, com a mídia oficial descendo o cacete, Lula venceria o pleito. A solução foi enquadrá-lo. Em abril de 2018, com voto decisivo da então presidente do STF, Cármen Lúcia, foi negado habeas corpus a Lula. Pouco depois, o líder do Partido dos Trabalhadores seria preso e levado à "República de Curitiba".

A prisão de Lula foi uma excrescência jurídica. Não havia provas contra ele. Veja o que diz o então "comandante supremo" da Lava Jato, Deltan Dallagnol, a um grupo de WhatsApp, antes de apresentar o power point, que ligaria todas as flechas da corrupção a Lula:

“Falarão que estamos acusando com base em notícia de jornal e indícios frágeis… então é um item que é bom que esteja bem amarrado. Fora esse item, até agora tenho receio da ligação entre petrobras e o enriquecimento, e depois que me falaram to com receio da história do apto… São pontos em que temos que ter as respostas ajustadas e na ponta da língua”    


Graças à Vaza Jato, perpetrada pelo site The Intercept Brasil, ficamos sabendo aquilo que já imaginávamos. Não havia mesmo provas factuais contra Lula. Era um movimento político para "quebrar as pernas" do ex-presidente. 

Tem o outro lado. O artigo 5º precisa ser modificado. Não dá mais para suportar a impunidade. Político corrupto tem de ir pra cadeia. Esse "trânsito em julgado" é um atraso de vida. Quem tinha bons advogados, como era o caso de Paulo Maluf, corrupto sacramentado, nunca ia preso. Recorria aqui. Recorria acolá. E ficava livre, leve e solto até o processo prescrever. 

Se a Lava Jato não conseguiu encontrar o "batom na cueca", expressão preferida do inesquecível Ricardo Boechat, isso não significa que não havia corrupção no governo petista. No primeiro mandato de Lula na Presidência, o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, subornava parlamentares para aprovar projetos, no esquema chamado de Mensalão. Depois, viria o PetrolãoMilhões de recursos da Petrobras foram desviados. Foi tanta grana que quase quebrou a Petrobras

O esquema - descoberto pela Lava Jato de Dallagnol, Sergio Moro & cia. - revirava as entranhas da corrupção política. Empresários pagavam propina a políticos. Conseguiam faturar milhões em obras. E devolviam essas facilidades, repassando recursos para os partidos. Recursos públicos eram drenados e voavam para o exterior, graças a uma bem orquestrada indústria de doleiros. Na cara dura, políticos ligavam para empresários e pediam dinheiro. O ex-presidenciável Aécio Neves foi pilhado em uma gravação, com o pires na mão, querendo 2 milhões de reais.    

A Lava Jato buscou os holofotes e os encontrou. Do dia para noite, procuradores e juízes anônimos viraram celebridades. A mídia oficial transformou esse pessoal da toga e terno cinza de pastor evangélico nos heróis da resistência. Os políticos - praticamente todos eles, sem exceção - eram os bandidos da história.

No meio desse torvelinho, a pobre presidente Dilma Roussef foi derrubada. Graças a um problema contábil, chamado de "pedalada", dois advogados - o circunspecto Miguel Reale Jr. e a psicodélica Janaína Paschoal - abriram processo de impeachment, que ganhou sinal verde do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Dilma desceu a ladeira do Palácio do Planalto. Depois, seria a vez do corrupto Cunha cair em desgraça e ser enjaulado. 

Enquanto ocorriam as prisões de políticos, empresários, empreiteiros, doleiros, o vai e vem de advogados aos tribunais, para libertar os corruptos, ganhava ares de romaria perdida, em que os fiéis andam milhares de quilômetros e, ao chegar ao destino, não encontram mais o santo no lugar devido.

Os advogados de defesa nunca tinham visto nada parecido. A Lava Jato prendia e não soltava. Para isso, os procuradores se transformaram em Batman, na comparação feliz do jornalista da direita conservadora Reinaldo Azevedo. Batman e bandidos têm muito em comum. Todos atropelam a lei. Batman combate os criminosos, sem se importar com direitos civis e constitucionais. O juiz Sergio Moro comandava os procuradores da Lava Jato, dando dicas, fazendo sugestões, sendo tudo, menos um juiz imparcial. 

Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão, baseado em "convicção". Não havia o "batom na cueca". Apenas a convicção de que Lula era corrupto. A mídia oficial delirou. Moro ganhou as manchetes. No maniqueísmo de ocasião, os petistas eram bandidos e os justiceiros de toga, os mocinhos.

Como prêmio pelos bons serviços prestados, Moro foi guindado, no início deste ano, a ministro da Justiça do governo Jair Bolsonaro. Eleito na esteira do ódio ao PT, Bolsonaro obteve 57 milhões de votos. 89 milhões de eleitores não votaram nele. 47 milhões preferiram o candidato petista, Fernando Haddad, apoiado por Lula. E 42 milhões decidiram não votar em ninguém, enojados com tanta corrupção política.

 Veio a Vaza Jato, do The Intercept Brasil, e a opinião pública entendeu que a Lei maior, a Constituição, havia sido desrespeitada pelos "heróis" da Lava Jato. Imensamente felizes com a fama súbita, os procuradores lavajatistas faturavam os tubos em palestras bem remuneradas. 

Com a Lava Jato sob escrutínio, os ministros deuses do STF reuniram-se na quinta-feira e fizeram o que se espera deles: preservaram a Constituição. Assim, o famoso artigo 5º acabou prevalecendo e com ele, a libertação de Lula, preso injustamente. 

Dizem que Lula percorrerá novamente o País em uma reedição da "caravana da esperança". Antes disso, o PT - que saiu finalmente da cadeia - pode retornar às atividades. A começar, deveria fazer um mea culpa. É preciso pedir desculpas a seus eleitores, àquela gente ingênua que colocava adesivo da estrela petista na porta de suas casas e pendurava broches na lapela. O PT deve pegar um caixote de madeira, subir nele nas praças das cidades e gritar alto e bom som: 

"Pessoal, o PT errou. O PT permitiu que houvesse corrupção. O PT foi um partido igual aos outros. Nos desculpem. Isso não vai ocorrer novamente.

É isso que os eleitores de Lula esperam que ocorra. Não dá para fingir que nada ocorreu. Porque ocorreu. E o que aconteceu sujou a estrela petista. É preciso limpá-la. Fazer um rebranding da marca. Ano que vem haverá eleições municipais e o PT precisa estar preparado, porque senão vai levar outro cacete monumental das urnas.  

          

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Este crime chamado Justiça

A promotora Carmen Eliza Bastos de Carvalho
E ao lado do deputado Rodrigo Amorim


O filme Este crime chamado Justiça, dirigido por Dino Risi,  tem o título em italiano de In nome del popolo. Foi lançado em 1971. Conta a história de um promotor (interpretado por Ugo Tognazzi) que investiga os crimes de um empresário (Vittorio Gassman), notório poluidor e suspeito de ter espancado a amante até a morte. O promotor visita a casa do empresário e fica chocado com a falta de moralidade da família de milionários. O promotor vai fundo na investigação e conclui que o empresário é inocente. O diário, escrito pela amante, esclarece os fatos. Mesmo assim, disposto a fazer justiça a qualquer preço, o promotor queima o diário e, de posse das provas obtidas até então, manda o empresário para a cadeia. Mesmo sabendo que - desse crime, de assassinato - ele era inocente.

Como repórter, vivi algo parecido. Quando da morte do prefeito Celso Daniel, estive no local onde o prefeito foi arrebatado pela quadrilha do Monstro (Ivan Rodrigues da Silva). Encontrei uma senhora, que morava vizinha ao local onde ocorreu o tiroteio, que testemunhou toda a ação e corroborava a versão de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, que dirigia o veículo, atacado pelos bandidos. 

Levei a informação aos promotores, que investigavam o caso, e eles me disseram que essa testemunha não servia. "Essa é uma testemunha de defesa", disseram. "Não interessa para nós." 

Já naquela época, os promotores faziam "vazamentos seletivos". Passavam a maior parte das informações para uma repórter da Folha. Um dos integrantes dessa força-tarefa era o promotor Roberto Wider Filho, que, recentemente, ganhou a capa da revista Veja, com um novo depoimento  de Marcos Valério, acusando Lula de ter mandado matar Celso Daniel.

Os promotores, que investigavam o arrebatamento e o assassinato do prefeito Celso Daniel, criaram uma linha de investigação paralela que incriminava, sub-repticiamente, o PT (Partido dos Trabalhadores), representado pelo grupo de Sérgio Sombra, do qual faziam parte o empresário Ronan Maria Pinto e Klinger Souza (secretário municipal e vereador de Santo André). Segundo os promotores, Sombra, Ronan e Klinger teriam contratado o bando do Monstro para matar o prefeito e assim continuar com seu plano de extorsão de empresários na Prefeitura de Santo André. 

Essa versão, criada pelos promotores, nunca foi aceita pela Polícia Civil. O ex-delegado Marcos Carneiro Lima, que trabalhou na Divisão Antissequestro, concedeu uma entrevista esclarecedora ao jornal El País, em abril de 2016, falando sobre o caso. Quem adora teorias conspiratórias vai ficar frustrado, depois de ler a matéria: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/02/politica/1459619861_766410.html.

O sequestro do prefeito Celso Daniel começou a ser esclarecido na mesma noite. Uma testemunha que morava na Favela Pantanal estava lavando roupa em seu barraco, quando ouviu dois criminosos, comentando que haviam feito uma bobagem e sequestrado o prefeito de Santo André. Essa testemunha saiu de casa e foi até a Rádio Jovem Pan, onde prestava serviço. Pediu para falar com o presidente da rádio e contou o que tinha ouvido. O empresário ligou imediatamente para o delegado Edson de Santi, do Deic, que dirigiu-se até a favela. De Santi encontrou o cativeiro e localizou uma carteira funcional do prefeito, provando que ele havia estado lá. Os bandidos haviam removido o prefeito e o levado para outro cativeiro, uma chácara na região de Juquitiba. 

Quando o Monstro percebeu que estavam com um problema sério nas mãos, ligou para um dos bandidos, que ouviu a mensagem: "Dá linha no cara", e entendeu que era para fuzilar o prefeito, quando, na realidade, a ordem era para soltá-lo.

Toda essa história me levou a acreditar que alguns promotores estão a serviço de um projeto político, muito mais do que a serviço da Justiça. São promotores e procuradores partidários. Assim como tem jornalista partidário, também tem integrantes do Judiciário a serviço de uma determinada causa política. Isso é grave e tem consequências desastrosas.

A Vaza Jato mostrou que a Lava Jato foi partidária ao prender o ex-presidente Lula sem provas. Lula foi preso para não participar das eleições de 2018. Está encarcerado, por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou. Não sou eu quem diz isso. É o próprio Deltan Dallagnol ao comentar com o então juiz Sergio Moro a falta de robustez de provas, como revelou o site The Intercept Brasil.  

O caso que está hoje na pauta dos jornais é o da promotora carioca Carmen Eliza Bastos de Carvalho. Ela postou fotos em redes sociais, apoiando a candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência. Tem foto dela ao lado do deputado Rodrigo Amorim. Amorim ganhou as manchetes, depois de ter quebrado a placa da rua que homenageava a vereadora Marielle Franco. 

Acredite ou não, a promotora Carmen Eliza integrava força-tarefa que investiga o assassinato da vereadora Marielle. Foi esse mesmo Ministério Público do Rio de Janeiro, da qual faz parte a promotora Carmen, que, em menos de um dia, colheu provas e desmentiu o porteiro do condomínio onde moram Bolsonaro e o miliciano Ronnie Lessa, implicado na morte de Marielle. 

O porteiro havia dito, em depoimento, que um dos suspeitos de assassinar Marielle - Élcio de Queiroz - teria ido visitar Bolsonaro, em 14 de março de 2018. Naquela mesma noite, Marielle seria executada. 

Reportagem do Jornal Nacional trouxe o depoimento do porteiro e mostrou o caderno de visitas do condomínio, que apontava Élcio, indo em direção à casa de número 58, onde mora Bolsonaro. Segundo o porteiro, que observou o carro trafegando dentro do condomínio, Élcio não foi em direção ao número 58 e sim em direção à casa de Ronnie Lessa. O porteiro teria ligado para a casa de Bolsonaro e lhe disseram que estava tudo certo. Não era para ele se preocupar. 

O MP do Rio de Janeiro foi rápido ao desmentir o porteiro. Mas mostra velocidade de câmara lentíssima, quase parando, ao investigar o caso Fabrício Queiroz. Em dezembro de 2018, o jornal O Estado de S.Paulo trouxe reportagem exclusiva denunciando um esquema de rachadinhas no gabinete do então deputado estadual (hoje senador) Flávio Bolsonaro. Desde então, o Ministério Público do Rio de Janeiro, do qual faz parte a promotora Carmen (entusiasta declarada de Bolsonaro e cia. bela), não consegue ouvir Queiroz. Não consegue pegar seu depoimento, nem mandar prendê-lo, para averiguação. Até a Revista Veja sabe onde está o Queiroz. Só falta o MP carioca tomar ciência.    

Antes de ser afastada, a promotora Carmen se antecipou e pediu para ficar fora de casos que envolvam a família Bolsonaro. O partidarismo estraga as instituições. Atrapalha o bom jornalismo e é um desastre na Justiça. É tão ou mais corrosivo que a corrupção.

       

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

O que La Bombonera tem a ver com a "América Latrina"


A expressão "América Latrina", salvo engano, foi cunhada ou popularizada pelo jornalista Franz Paul Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis. O termo remete à cloaca do mundo. Sugere países endividados, pobres, corruptos, dominados por uma elite soberba e mesquinha. 

"América Latrina" vai além. Indica países de insuperável baixo-estima, dominados culturalmente. Nada de criativo parece sair dali. O Iphone nunca poderia ter sido inventado nesses países de língua espanhola e portuguesa. Não há um Vale do Silício inteligente. Desde que o Prêmio Nobel foi criado em 1901, 15 latino-americanos conquistaram a láurea. Seis deles, em Literatura. Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha dominam a premiação. 

Nesse submundo de países, submetidos à miséria por elites gananciosas e governantes corruptos, uma luz reverberava na escuridão. Era o futebol. Ao vencer três Copas do Mundo em 1958, 1962 e 1970, o Brasil virou o "país do futebol". Havia miseráveis. Os muito pobres. Mas pelo menos o mundo se rendia ao Brasil, diante de Pelé, Garrincha, Rivellino, Gerson, Jairzinho e outros craques. Era a nossa "volta por cima". 

A saúde não funcionava. O tranporte era uma droga. A educação não ensinava. Sem moradia, milhões viviam como ratos em edificações insalubres. Matava-se adoidado. Ninguém tinha segurança. Mas, pelo menos, a gente era bom em futebol. 

O brasileiro não conseguia criar um Iphone. Só que a criatividade, com que ele manejava a bola dos gramados do mundo, era invejada e aplaudida por todos. Até pelos derrotados. Em 1958, depois de vencer a Suécia, em sua casa, por incríveis 5 a 2, com direito a gol de chapéu de Pelé, a Seleção deu a volta olímpica, sendo festejada de pé por suecos encantados com o brilho e a sabedoria estrelar do "escrete de ouro". 

Veio o título de 1994, sem graça, com predomínio do medo e da retranca. Veio o pentacampeonato, graças à genialidade dos três "Rs", Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho. E aí o mundo acabou para a gente em 2014. Uma frase virou fantasmagórica. Dizia: "Gol da Alemanha". Sete vezes repetida."Gol da Alemanha". Um pesadelo, uma humilhação mundial. Deixamos de ser o "país do futebol" e nos transformamos em saco de pancada. "Gol da Alemanha".

A performance nos gramados escondeu o lado sujo do futebol brasileiro. Gangues de criminosos criaram torcidas organizadas e passaram a espancar torcedores de times adversários. Houve emboscadas e assassinatos. Times tradicionais passaram a dever impostos, não pagar fornecedores e mergulharam no caminho da semifalência. Pobre, Portuguesa de Desportos...

O pior estava lá em cima. No âmbito da cartolagem. Teve ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol preso e condenado por corrupção. Não aqui no Brasil. José Maria Marin, filhote dileto da Ditadura Militar, foi limpar chão de cadeia nos Estados Unidos. No Brasil, a gente costumava acalentar os corruptos. Eles faziam parte do tecido social. Eram como o pó sobre os móveis. Apesar da Lava Jato, muitos analistas duvidam que a cartolagem corrupta possa ser enjaulada. 

A nossa rendição aconteceu, em São Paulo, quando a Polícia Militar obrigou que os enfrentamentos ocorram com torcida única. Corintianos e palmeirenses, por absoluta falta de cidadania, estão proibidos de assistir a jogos de futebol lado a lado. Se deixarmos que eles fiquem juntos, vão se matar. Por isso, quando os dois times se enfrentam, só pode ter a participação de uma única torcida. Isso vale para outros times e outras torcidas. É a submissão total. Estamos de joelhos diante dos violentos. Eles nos venceram.

O futebol ganhou novas, belas e modernas arenas. O torcedor deixou de ser tão maltratado. No passado, lembro de banheiros entupidos, quebrados, com fezes espalhadas pelo chão, paredes e até no teto. O chão imundo, inundado de urina. As filas para comprar ingresso, com gente se socando. Esse cenário de horror parece ter ficado para trás. 

Ainda há muito para ser feito na "América Latrina". A seminfinal entre Boca Junior e River Plate, felizmente, desta vez, não teve ocorrência policial, com ônibus que transportava jogadores, sendo emboscado pelos bandidos rivais. O jogo da semifinal, disputado nesta terça-feira, 22 de outubro, no estádio La Bombonera, foi vencido pelo Boca por 1 a 0, placar insuficiente para avançar na competição. Foi um jogo feio, amarrado, sem lances de brilhantismo. No placar agregado, juntando as duas partidas da semifinal, o River venceu por 2 a 1, e vai à final contra o Flamengo.

Por um mecanismo que desconheço seu funcionamento, comentaristas analisaram a participação da torcida do Boca não poupando adjetivos. "Maravilhosa". "Sensacional". "Emocionante". "Incrível". "Contagiante". Para um marciano, o que se viu ali foi um festival de má educação. O campo foi alvo de papel picado, transformando-se em uma gigantesca lata de lixo. O jogo deveria começar às 21h30. Só que não. Demorou 15 minutos para uns pobres coitados, armados de sopradores, conseguissem empurrar aquela papelada para fora das quatro linhas. Mesmo assim, o gramado não ficou inteiramente limpo. A bola branca se confundia com os milhares de papéis brancos, esvoaçando sobre as quatro linhas. O público não sabia direito o que era bola e o que era papel.

Desculpe, essa manifestação da torcida não é "maravilhosa", não é "sensacional", nem "emocionante". Chama-se atraso de vida. Chama-se de volta ao passado. Ninguém pode gostar daquela sujeira de papel, que atrapalha o jogo e confunde o telespectador. Por que a Conmebol não proíbe? Por que não interdita para sempre esse estádio velho e alquebrado do Boca Juniors? É um lugar sujo, mal-cheiroso, cheio de falhas estruturais, com cimento se desfazendo. 

Quando eu jogava bola no campo de várzea do Rubens Salles, tinha mais espaço para bater o escanteio do que esse lugar estreito e superado, chamado La Bombonera. O jogador recua dois passos, toma distância e leva um tapa na orelha, antes de bater o escanteio. Dizem que em espanhol "bombonera" significa caixa de bombom. Só se for chocolate embolorado. 

Até quando a "América Latrina" vai ser assim? Esse lugar meio selvagem, pouco inteligente, subdesenvolvido. Será tão difícil assim chegarmos no limite mínimo da civilidade e nos transformarmos em América dos latinos, com muito orgulho, sim senhor?

E ontem, quarta-feira, 23 de outubro, assisti ao Flamengo, destruindo o futebol superado de Renato Gaúcho e companhia gremista. "A maior derrota do Grêmio na história da Libertadores". Cinco a zero que poderiam ser multiplicados por dois. O time do Flamengo, dirigido por um técnico português, redescobria o futebol espetáculo. Não tinha papel picado no gramado. Parecia o Brasil de Telê Santana, de 1982, antes do desastre do Sarriá. Mas esse é um assunto para uma outra postagem. 

Um abraço.
     
      

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Não se chora sobre óleo derramado


É louvável o esforço dos nordestinos em limpar suas praias. É lamentável o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reclamar que o Green Peace não está limpando as praias. Ministro, é sua obrigação cuidar do meio ambiente brasileiro. É para isso que o senhor está no cargo. Arregace as mangas e vá trabalhar. 

Essa omissão, essa lerdeza do governo federal em se assenhorar do problema parece inerente à atual administração. É um governo lento, sonolento, que parece só acordar quando se faz presente nas redes sociais. 

É louvável o esforço dos nordestinos em limpar suas praias, só que não vai adiantar. O desastre ambiental de gigantescas proporções vai afetar a vida marinha e a beleza das praias nordestinas por décadas. Daqui a dez, vinte anos, o turista que visitar uma dessas praias, atingidas pelo óleo, ainda vai sair com a sola do pé suja de piche. São pequenas manchas redondas, meio pretas, meio amareladas. Você demora para limpar. Passa sabão, passa detergente, esfrega, esfrega e a sujeira resiste. 

O desespero que se via no rosto da garota sueca ambientalista, de 16 anos, Greta Thunberg na ONU (Organização das Nações Unidas) resume o problema: a falta de responsabilidade e omissão dos governos em encontrar alternativas energéticas serão fatais. 

Os humanos ainda usam combustível fóssil. Eles sabem que a queima de petróleo afeta o meio ambiente. Provoca aumento da temperatura global e causa desastre climáticos. Não é conversa mole. Milhares de cientistas provaram que o aumento das temperaturas é real e terá consequências assustadoras. Mesmo assim os humanos continuam usando combustível fóssil. Não é só falta de inteligência, é algo mais profundo e danoso. É a pulsão mórbida de destruição, de que fala Freud. 

O Brasil poderia ser um país melhor. Sem carros sujos, sem tanta queimada, sem tanta falta de respeito ambiental. O brasileiro está pouco se lixando que a Amazônia queime. O brasileiro é pobre. É miserável. São 104 milhões que vivem com 413 reais mensais. Esse pessoal está preocupado em comer. Se alguém pagar 50 reais para incendiar a floresta, ele vai pôr fogo no mundo, se preciso for. 

Não adianta chorar sobre óleo derramado. Vamos continuar sofrendo com desastres ambientais por dezenas de anos. Essas tragédias irão se repetir. O enredo será sempre igual. 
Acompanhe:

- Um navio cargueiro naufraga (ou uma plataforma de retirada de petróleo afunda) e derrama óleo no mar;

- O óleo se espalha e atinge as praias, provocando pânico em pescadores, hoteleiros, ambientalistas e moradores. Eles acionam a mídia;

- Os repórteres desembarcam nos locais atingidos. Farão matérias mostrando animais marinhos mortos; vão entravistar locais para saber de que forma suas vidas serão afetadas; vão tentar conversar com o responsável que irá emitir uma "nota de esclarecimento" ou às vezes nem isso; vão atrás de porta-vozes do governo;

- O governo (federal, estadual, municipal) vai fazer de conta que está ajudando, mas sem muito esforço. A classe política só se esforça mesmo quando precisa preservar suas patentes e privilégios.   

O Brasil poderia ser um país melhor, mais limpo, menos tóxico. Só que não. Metade de seus habitantes é miserável. Penso na nossa querida deputada Joice Hasselmann, que ganhou os holofotes da mídia por estar se digladiando nas redes sociais com os filhos do presidente (01, 02 e 03), o que será que ela está fazendo nesse momento para reduzir a desigualdade social no Brasil? 

É importante insistir: são 104 milhões de pessoas vivendo com 413 reais por mês.  Ontem, no programa Roda Viva, Joice batia os cílios postiços cintilantes, exibia o decote generoso, mas não parecia se preocupar com a desgraça maior brasileira, que é a disparidade de rendimentos. 

A mídia também dá pouca atenção para o problema. A gente olha os jornais e os temas em foco parecem tirar nossa atenção para o dano maior, a nossa maior ferida. Fala-se na crise do PSL. Na música, há um conflito entre funkeiros, que eu nunca ouvi falar. Os dados da economia são sorrateiros: dólar acima de 4 reais, cai a arrecadação. 

E aí você pega o carro, circula pela cidade e a miséria fica estampada em cada esquina, em cada olhar, na desgraça urbana que são as favelas, feridas de tijolos avermelhados na carne das metrópoles brasileiras. 

A gente continua como se nada estivesse acontecendo. Lê o "jornal" virtual e fica sabendo que Wanessa brigou com a mulher de Luciano. E, na periferia, a fábrica não escurece mais o dia, como dizia a música. As fábricas estão fechando. A indústria reduziu a rotação, num movimento de devagar, quase parando. 

A gente vai para a praia e sai com os pés sujos de óleo, como se fosse algo inevitável, como se não houvesse solução para as desgraças ambientais. "Bom, não depende da gente. Isso é o governo que vai resolver", você diria. Depende, sim. Só que a gente está muito preocupado com as redes sociais para ir à luta. 

Hoje, em Nova York, a gigante Esso (Exxon, para os americanos) está sentada no banco dos réus, acusada de ocultar dados, para seus acionistas, sobre as consequências das mudanças climáticas, em decorrência da queima de óleo combustível de origem fóssil. É um começo. 

Aqui no Brasil, ficamos à espera da próxima desgraça. E ela virá, esteja certo disso. 
  


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O Facebook me faz uma pessoa pior


O Facebook me transforma. Acordo bem disposto, feliz da vida, o sol brilha, os pássaros cantam e aí abro o Facebook. Como na novela de Robert Louis Stevenson, Dr. Jeckyll vai se transformar em Mr. Hyde. A boa disposição vai embora. Minhas mãos começam a se encurvar. As unhas se transformam em garras. Nascem pelos em abundância no meu rosto e no corpo. Nas costas, se eleva uma corcunda. Começo a babar. Virei um monstro. 

A postagem mostra um grupo de pessoas, todas suadas, debaixo de sol forte no que parece ser uma casa de periferia. Eles vestem bermudas, camisetas e chinelos. O suor brilha e escorre pelas barrigas. Nem leio o tópico. Já vou sentenciando: "Bando de gordo!". Assim, sem mais nem menos. Sem ser politicamente correto: "Bando de gordo!".

A "linha do tempo", como se chama aquela prática de ir descendo pelas postagens, mostra uma velhinha. Alguém deu um presente para ela. Algo do tipo. Penso na hora: "Velhota antipática". E o pior é que ela parece mesmo antipática. Não é a Dona Benta que vai fazer bolinho coberto com açúcar e canela para a gente. Tem jeito daquela velhinha que, quando aparece o filho pra visitar, ela vai logo dizendo: "Escovou os dentes? Põe uma blusa que está fazendo frio. Essa camisa não combina com você". 

Aí vem o pessoal da política. Deus do céu, esses caras são incansáveis. Tem a turma do Bolsonaro que ainda está querendo prender o Lula. Gente, o Lula está preso. Helôôô! O PT perdeu a eleição e vocês ganharam. Comecem a trabalhar. Tirem as pessoas da miséria. Metade do Brasil ganha menos de 500 reais por mês. Não quero mais saber de palanque. Quero que vocês façam qualquer coisa que mude essa desgraceira que o País está mergulhado. As indústrias quebrando. O setor de serviços afundado na crise. Sem dinheiro para educação, sem verba para pesquisa, corte nisso, corte naquilo. E os Alfa continuam comendo lagosta e camarão, andando de carro oficial, com direito a sirene para fugir do trânsito. Os 90 por cento restantes pertencem à casta Épsilon. São os desgraçados de que fala Huxley. Você acha que Huxley exagerava? Se esqueceu que ele previu o nascimento do bebê de proveta em 1931, 47 anos antes do fato real? Exagerava nada, menino. 

E tem o pessoal do outro lado, que é contra o Bolsonaro e seus asseclas... É todo dia postando uma bobagem que a Damares falou. O que vocês querem dessa coitada que vê Jesus em goiabeira? Ela vai falar bobagem mesmo. E o ministro da Educação, nota zero em Sociologia, que comete um erro de português por minuto. É o maior índice de erros de português da história, desde Cabral. Tem a história do Queiroz. Onde está o Queiroz? "Vai perguntar para a sua mãe", respondeu o presidente, educadamente. Todo dia alguém pergunta onde está o Queiroz. A Veja já esclareceu: "O Queiroz mora no Morumbi e se trata no Einstein". Só precisa alguém levar a reportagem até a  Polícia Federal. O Queiroz tem de explicar direitinho essa história da "rachadinha", que envolve o Flávio "01". Sem falar do Moro, o Batman, que a Vaza Jato transformou em Coringa.

E aquele pessoal que quer causar inveja? Outro dia uma amiga postou: "Estou aqui na Padaria Bella Paulista. Uma delícia!". O monstro que habita em mim, quando entro no Facebook, escreveu, de forma ríspida e malcriada: "Estive aí no domingo. Eles me serviram um croissant, cortado ao meio. Frio e molenga. Na França, o chef da Bella Paulista seria decapitado, por causa desse crime contra o croissant". 

Os algoritmos do Facebook, por algum defeito genético, têm certeza que sou um frequentador assíduo de hípicas e que não posso passar um dia sem montar em um cavalinho. Gente, tenho medo de cavalo. Nunca andei a cavalo na vida. Nem sei como se sobe naquilo, que eles chamam de sela. Mesmo assim, todos os dias, não falha um singular dia, o Facebook me manda imagens e vídeos de cavalos. São cavalos felizes, que saltam e pulam e se alimentam regularmente.

Um amigo, que nunca assistiu a uma luta de MMA, nem nunca irá assistir, recebe também diariamente notícias sobre lutadores de MMA. Há algo de podre no reino dos algoritmos, diria Shakespeare, se, quando vivia, houvesse redes sociais.   

E as pessoas felizes? Elas estão sempre sorrindo, contentes. O meu monstro olha para elas e grita: "Está rindo do que, babaca? Vai andar de metrô e de trem da CPTM do Doria pra ver o que é bom pra tosse".

Sem falar dos cachorrinhos, dos gatinhos, dos peixinhos, todos eles engraçados, meigos, despertando meu monstro que geme entredentes: "Vou mandar vocês pra China". Esse país asiático, como se sabe, volta e meia, promove festivais de consumo de carne de gato e cachorro.  

Então, quando saio da rede social, apago o Facebook, começo a sentir uma metamorfose humanitária. Os pelos que cresceram em profusão desaparecem. As garras viram unhas normais. A corcunda de Quasimodo fica reduzida ao bico de papagaio normal que tenho nas costas. A baba seca. Saio na rua e sorrio para as crianças. Levo meu cachorro passear. Se me pedem informação, trato com carinho e atenção. Aproveito o sol, a chuva, a garoa, o vento. Aceno para os vizinhos. No armazém, brinco com as atendentes. 

Então, ao retornar para casa, ao abrir novamente o Facebook, nada poderá evitar o ressurgimento do monstro. 

Por falar nisso, por que você não desliga essa m...e vai ler um livro, filhote de Netflix.  

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

Como o Var veio para atrapalhar o futebol


No dia 27 de junho de 1971, eu estava no Morumbi, assistindo à decisão do Campeonato Paulista, entre São Paulo e Palmeiras. O São Paulo precisava só do empate e abriu o placar no início da partida. Havia 100 mil pessoas no estádio. Naquela época, as torcidas rivais ficavam juntas. No segundo tempo, o atacante do Palmeiras Leivinha fez um gol espetacular de cabeça. A torcida comemorou e o árbitro Armando Marques anulou. Disse que o gol havia sido com a mão. Era estranho, porque para dar a cabeçada na bola, Leivinha jogou os braços para trás. Eu vi. Estava lá. Bem em frente. É claro que havia maracutaia. Para mim, torcedor de futebol, aquilo era uma vergonha. A anulação do gol legítimo, por um árbitro claramente mal-intencionado, me fez gostar menos de futebol. Gostaria de ter quebrado o sigilo bancário de Armando Marques para identificar quanto aquele gol anulado teria custado. O Palmeiras, de Ademir da Guia, Dudu, César Maluco, ficou abalado em campo e o São Paulo sagrou-se campeão paulista naquele ano. Se houvesse o Var (video assistant referee - árbitro assistente de vídeo), o gol seria validado e o Palmeiras provavelmente teria virado o jogo.

Em 1954, a final do Mundial, entre Alemanha Ocidental e Hungria foi disputada em Berna (Suíça). Os alemães venciam por 3 a 2 o então invencível time húngaro, invicto há 32 partidas. No fim do jogo, "no apagar das luzes", Puskás faz o gol do empate. Anulado. Diante de 60 mil torcedores, principalmente alemães, o juiz viu um impedimento inexistente e deu o título mundial aos alemães, premiando o futebol feio e retrancado. Se houvesse Var, a história seria outra.     

Em 1962, o Brasil passou no sufoco pela Espanha no Mundial, disputado no Chile. Ganhou por 2 a 1, graças à arbitragem. Nilton Santos derrubou Collar dentro da área e andou uns dois passos para a frente, mostrando que a falta havia sido feita fora da área. Não tinha. Os espanhóis batem a falta e o pobre Puskás (naturalizado espanhol) faz gol de bicicleta. Um gol que levaria o prêmio Puskás de tão bonito que foi. O juiz Bustamante anulou. Hoje, Bustamante seria preso e condenado por corrupção passiva, ativa e absoluta. Naquela época, não havia Var. Se houvesse, o Brasil daria adeus ao bicampeonato mundial. 

Em 1966, na final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, diante de 98 mil pessoas, em Wembley, as duas equipes terminam o tempo normal empatadas em 2 a 2. Vem a prorrogação e Hurst vira, acerta um chute forte, a bola se choca no travessão e bate na linha. O juiz suíço Dienst fica em dúvida. Consulta o bandeirinha russo Bakhramov, que dá o gol. A Inglaterra faria mais um na prorrogação e conquistaria o Mundial de 1966. Se houvesse Var, o gol inglês de Hurst teria sido anulado. 

O futebol era assim. Cheio de injustiças, de juízes malandros, de cartolas corruptores, de debates sem fim. O futebol era polêmico. Discutia-se muito. Antes, durante e depois das partidas. As regras eram simples. A gente conhecia todas de cor, igual à tabuada. O juiz ladrão era parte indissociável do futebol. Antes de qualquer coisa, quando aquele cidadão de preto pisava no gramado, a gente se erguia na arquibancada e gritava: "Juiz ladrão!". 

Os comentaristas reclamavam muito. Aquele gol que não foi gol, porque a bola não entrou; aquele impedimento que não aconteceu porque o zagueiro dava condição; o pênalti inexistente, que só o juiz viu...Tantos erros, tantas injustiças, tanto choro e rilhar de dentes à toa. Bastava o futebol imitar o tênis, imitar o vôlei. Incorporar à tecnologia ao esporte. 

E no sétimo dia surgiu o Var. O juiz de vídeo. Além do árbitro, dos dois bandeirinhas, apareceram mais uma meia dúzia de sujeitos, que ficam olhando imagens de TV, tentando ver o que o juiz não viu. E eles veem...Minha nossa, como essa gente do Var trabalha. Acontece o gol. A torcida grita, comemora, mas o árbitro coloca a mão no ouvido. Para tudo. O gol foi impedido? Alguém resvalou a mão na bola? O árbitro corre em direção à lateral do campo. Olha a sua TV particular e volta para o campo, fazendo aquele sinal odioso, detestável, da televisãozinha imaginária. O gol foi anulado. A torcida rival comemora. O Var é um desmancha prazeres. 

No melhor da partida, o Var interrompe os lances. São dois, três, até cinco minutos ou mais de paralisação. Quando o jogo recomeça, a gente nem sabe mais quanto estava, nem quem ia melhor no jogo. É um coitus interruputus. O Var deixou o futebol lento, sem graça, burocrático. Veio para fazer justiça, é verdade, mas acabou com a alegria, com a polêmica. 

O pior são as novas regras, que a maior parte dos torcedores desconhece. De um dia para  outro, aparece uma regra nova e nem sempre inteligente. Domingo passado, por exemplo. Palmeiras e Internacional empatam em 1 a 1. Aos 40 minutos do segundo tempo, William Bigode, do Palmeiras, disputa a bola com um defensor e o balão resvala em seu braço, O Verdão faz o segundo gol e vira o jogo. Virava o jogo...Entra o Var em cena e o gol é anulado. Tudo por causa da nova regra: se a bola bater no braço do atacante, mesmo que ele não tenha a intenção, mesmo que seu braço esteja grudado ao corpo, mesmo assim, vai ser falta. Caso a mesma bola bata no braço do zagueiro, não vai ser falta, se ele não estiver com os braços distantes do corpo. Ou seja, a nova regra ferra o atacante e tira da reta o rabo do defensor. É uma regra discricionária, a favor da defesa. Os times poderiam começar a escolher atacantes sem braços.

Para fechar essa página, é importante dizer que o Var conseguiu até o impossível. Fazer a gente sentir saudades do erro de arbitragem.        

  

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Machado de Assis, esse chato



Em 1978, comecei a trabalhar em uma empresa jornalística, chamada Proal (Programação e Assessoria Empresarial). Fazíamos house organs, jornais de empresa. A Proal ficava em um sobrado na rua Chuí, travessa da rua do Paraíso, na Aclimação. Ao lado da minha mesa, dominada por uma robusta máquina de escrever Olivetti, sentava-se o então repórter em início de carreira André Singer. 

André é filho do ilustre economista Paul Singer (1932-2018), nascido na Áustria e radicado no Brasil. Provavelmente por influência do pai, intelectual respeitado, André amava literatura e foi ele quem me emprestou um volumoso livro de Dostoievsky, intitulado Os Demônios

A obra antecede a Revolução Russa de 1917. Na prática, revela um clima pré-revolução. Os jovens perdem  a paciência com a gerontocracia, que afundava o país, e começam a questionar o sistema. Em uma das cenas capitais de Os Demônios, um velho discursa bobagens, escutado com atenção por outros velhos. Um rapaz, presente na reunião, levanta-se. Pega o velhote pelo nariz e o arrasta pelo salão. Vai de um lado para o outro, puxando o velhote pelo nariz, como se o ancião fosse um boi de carga. Uma espécie de premonição do que estava por vir - a queda dos czares, a vitória dos soviets e a implantação do comunismo. Amei Os Demônios. Até hoje, lembro do André, por causa desse livro.

André amava também Machado de Assis. Era Deus no céu e Machado na terra. Eu tinha feito uma faculdade de Letras e não tinha mais paciência em ouvir alguém falar de Machado de Assis. Desde o colégio, quando era obrigado a ler suas obras, estava saturado de Machado de Assis. Na faculdade, um grupo de alunas fez "o julgamento de Capitu". Tinha advogada de defesa. Tinha promotora acusando. A professora era a juíza. Tudo muito chato. Será que Capitu tinha traído Bentinho? 

Além dos muros da faculdade, a escritora Lygia Fagundes Telles defendeu a tese de que Capitu tinha de fato traído Bentinho. Já alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco absolveram Capitu por "falta de provas". Dá um tempo, gente. 

Uma manhã, mal-humorado, ao ouvir André Singer elogiar Machado de Assis, mais uma vez, não aguentei e falei que os livros dele eram chatos. Todos eles. Toda a fornada. Dom Casmurro, O Alienista, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Helena, A Mão e a Luva. Disse que, quando era estudante, abria Machado de Assis e bocejava. A prosa de Machado me dava sono. Era melhor que narcótico. Os personagens de Machado de Assis me faziam dormir. Eram livros catalépticos. Foi um choque de 2 mil volts. Acho que se André tivesse um volume de Memorial de Aires na mão, ele atiraria o volume na minha cabeça. 

André sairia da Proal, tempos depois, e nunca mais voltamos a nos encontrar. Anos mais tarde, ele trabalharia na Folha como repórter e chegaria ao poder, a Brasília, ganhando os holofotes como porta-voz do recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva.    

 Essa surpresa iconoclástica diante de alguém que não aprecia o texto de Machado de Assis me acompanharia o resto da vida. Perdi amigos, por causa de Machado. Criei desavenças sérias. Fui ameaçado e perseguido. No meu pesadelo recorrente, vejo uma multidão, ostentando livros de Machado de Assis, a me perseguir por ruas mal iluminadas e cobertas por névoa densa. 

Talvez a minha bronca com Machado de Assis esteja na obrigatoriedade de lê-lo. Ninguém devia ser obrigado a nada. Na escola, desde criança, somos submetidos a Machado. Fazer resumo de suas obras. Interpretar seus textos. Em minhas lembranças, Capitu, Bentinho, Escobar, Helena, Brás Cubas, Simão Bacamarte são lentos, movimentam-se em câmara lenta. É aquela sensação sonâmbula que deve anteceder ao sono Rem.

Somente na Faculdade de Letras vim conhecer Rubem Fonseca. Foi um desbunde. Fiquei maravilhado com a prosa. Aquele conto Lúcia MacCartney era uma das obras mais modernas, que já havia lido. A linguagem corria solta, serpenteava. Cada parágrafo parecia algo inovador e surpreendente. 

Para usar uma expressão comparativa favorita de Heningway, o meu "general" da Literatura Brasileira era Érico Veríssimo. Li toda a obra de Veríssimo, que minha tia guardava em uma estante de madeira, com frente envidraçada. O melhor Veríssimo é Incidente em Antares. Excepcional.

Outro "general" era Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas, Sagarana, são obras de impacto profundo. A hora e a vez de Augusto Matraga, um dos contos de Sagarana, é literatura fina, saborosa, para ser lida e relida.    

Entre as autoras - Lygia Fagundes Telles e Carolina de Jesus - são as minhas preferidas. As Meninas, de Lygia, me trazem recordações vivas, a flor da pele. 

Gostava de Fernando Sabino, mas ele se tornou antipático ao fazer um livro para uma ex-ministra odiosa da Economia. Nunca mais li Fernando Sabino, por causa do governo Collor. São esses ódios que duram até a eternidade. 

 Cristóvão Tezza e Caio Fernando Abreu são paixões, relativamente, recentes. O filho eterno, de Tezza, é aquele livro que eu gostaria de ter "fichado" na escola. Tanta coisa a dizer sobre ele. Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, é delicado, penetrante, uma joia.

Vou desligar. A livraria me espera. 
Beijos.        


       

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Revelado: Adorno era o quinto beatle


Em 1963, chovia muito em Liverpool, Inglaterra. Os músicos John Lennon e Paul MacCartney tentavam, com muito esforço, concluir a música She loves you

Lennon perguntou: "O que vem depois de she loves you?".
"Yeah, yeah, yeah", murmurou Theodor Adorno. 
"Brilhante, Teddy, brilhante", exultou MacCartney.
 O resto é história.

Tem mais: Adorno não somente era o quinto beatle, como foi ele quem vendeu os direitos autorais dos Beatles para Michael Jackson.

Essas sacadas irônicas vêm do jornal The Guardian, em um artigo publicado nesta terça-feira, 10 de setembro, em resposta ao guru do governo Bolsonaro, o maluquete Olavo de Carvalho. 

O último "despacho" do guru foi ter afirmado que quem compunha as músicas dos Beatles era o filósofo marxista Theodor Adorno, integrante da prestigiosa Escola de Frankfurt. 

Carvalho tem feito declarações polêmicas. Para o guru, o papa Francisco é agente infiltrado da antiga polícia secreta soviética, KGB, extinta em 1991. Os pais não devem vacinar seus filhos, porque "vacinas matam ou endoidam". Olavo de Carvalho também duvida da redondeza do planeta: "Não há nada que rejeite a tese que a Terra é plana". No passado, Carvalho atraiu os holofotes para si ao afirmar que a Pepsi Cola adoçava sua bebida com fetos.

Por sua sabedoria implacável, o astrólogo Olavo de Carvalho foi homenageado pelo governo Bolsonaro, recebendo a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco.

O The Guardian  lembra no artigo, que tira sarro do guru, que Adorno, na realidade, não era o quinto beatle. Aliás, Adorno detestava os Beatles. Em entrevista à revista Akzente, em 1965, o filósofo neomarxista dizia que o grupo oferecia técnicas musicais tradicionais "de forma degradada". E que os Beatles propunham um produto cultural "retardado, em termos de seu próprio conteúdo".

Mas, na base da brincadeira, o jornal inglês diz que, se você tocar o Álbum Branco de trás para frente, vai ouvir Adorno dizendo o seguinte: 

"O avanço da sociedade burguesa liquida a memória, o tempo, a lembrança como sobras irracionais do passado." 

Enquanto a gente discute essas bobagens, vem aí a nova CPMF. Vai ser bom. Vai ser gostoso. Aproveite.

  


terça-feira, 10 de setembro de 2019

Mais bem ou melhor preparado? Tanto faz, vamos ladeira abaixo mesmo


Vou começar de um jeito bem chato. Relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) ganhou as manchetes hoje. Descobriu-se que o Brasil não investe o suficiente em educação. 

Bom, não preciso ler o relatório da OCDE e descobrir que somente 18% dos brasileiros adultos fizeram faculdade. Basta andar na rua. A gente olha as placas dos supermercados e está lá escrito: "Tevelizão em oferta", "tabrete", "seulular", "queijo fudido da Sadia", "pitiça com guaraná". 

Na rua, sempre tem uma placa escrita com erro de português. Na porta da venda: "Fui Ao Mossar". Aqui no bairro: "Vendi-ce jelú". No cabeleireiro: "Faça pé e mão e ganhe uma sobrancelha". 

Tudo errado. O pior é querer me fazer trocar o melhor pelo mais bem. Deus do céu, como é que podem duas palavras ser melhor do que uma? Cadê o poder da concisão? 

O mestre Domingos Paschoal Cegalla me ensinava, quando eu ainda usava calças curtas e suspensórios, que é indiferente usar melhor ou mais bem antes de particípio. Tanto faz. Você usa o que quiser. Não sou eu que estou falando. É o Cegalla. Acredite nele. Lembro de um livro, onde se lia apenas: "Português". E tinha um "P" enorme na capa marrom. Para não deixar dúvida sobre o que se tratava. Era o pezão do professor Cegalla. 

O linguista Sousa e Silva garante que é indiferente usar mais bem ou melhor. Já o professor Pasquale Cipro Neto vai buscar exemplos em Machado de Assis: "que ande ele melhor avisado na organização"; e em Alexandre Herculano: "melhor delineadas e vestidas".

Então, quem são os chatos que querem nos obrigar a usar mais bem antes de particípio? O principal deles é o senhor Napoleão Mendes de Almeida. Para ele, não tem conversa. Antes de particípio, é obrigatório usar o mais bem. Duas palavras no lugar de uma. Se fosse prova de jornalismo, estava reprovado. 

Enquanto a gente fica debruçado sobre o vernáculo, o tal do relatório da OCDE nos enche de vergonha. Somos um povo sem educação, mal-educado, mas, pelo menos, como mostrou hoje no Twitter um dos filhos do nosso querido presidente, o Brasil comprou caças suecos Grispen por 5 bilhões e 400 milhões de reais. 

Não tem giz na sala de aula. Aliás, em muitos lugares, não tem nem sala de aula. A OCDE mostra que o Brasil, entre 48 países pesquisados, é o que paga salários mais baixos a seus professores. Estamos no buraco, com as pesquisas sendo cortadas, graças ao "contingenciamento" que deletou milhões de reais em verbas para a Capes e o CNPq. Mas pelo menos compramos 36 caças suecos. Pode bater palmas para o maluco dançar.
         

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...