quinta-feira, 24 de outubro de 2019
O que La Bombonera tem a ver com a "América Latrina"
A expressão "América Latrina", salvo engano, foi cunhada ou popularizada pelo jornalista Franz Paul Heilborn, mais conhecido como Paulo Francis. O termo remete à cloaca do mundo. Sugere países endividados, pobres, corruptos, dominados por uma elite soberba e mesquinha.
"América Latrina" vai além. Indica países de insuperável baixo-estima, dominados culturalmente. Nada de criativo parece sair dali. O Iphone nunca poderia ter sido inventado nesses países de língua espanhola e portuguesa. Não há um Vale do Silício inteligente. Desde que o Prêmio Nobel foi criado em 1901, 15 latino-americanos conquistaram a láurea. Seis deles, em Literatura. Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha dominam a premiação.
Nesse submundo de países, submetidos à miséria por elites gananciosas e governantes corruptos, uma luz reverberava na escuridão. Era o futebol. Ao vencer três Copas do Mundo em 1958, 1962 e 1970, o Brasil virou o "país do futebol". Havia miseráveis. Os muito pobres. Mas pelo menos o mundo se rendia ao Brasil, diante de Pelé, Garrincha, Rivellino, Gerson, Jairzinho e outros craques. Era a nossa "volta por cima".
A saúde não funcionava. O tranporte era uma droga. A educação não ensinava. Sem moradia, milhões viviam como ratos em edificações insalubres. Matava-se adoidado. Ninguém tinha segurança. Mas, pelo menos, a gente era bom em futebol.
O brasileiro não conseguia criar um Iphone. Só que a criatividade, com que ele manejava a bola dos gramados do mundo, era invejada e aplaudida por todos. Até pelos derrotados. Em 1958, depois de vencer a Suécia, em sua casa, por incríveis 5 a 2, com direito a gol de chapéu de Pelé, a Seleção deu a volta olímpica, sendo festejada de pé por suecos encantados com o brilho e a sabedoria estrelar do "escrete de ouro".
Veio o título de 1994, sem graça, com predomínio do medo e da retranca. Veio o pentacampeonato, graças à genialidade dos três "Rs", Ronaldo Fenômeno, Rivaldo e Ronaldinho. E aí o mundo acabou para a gente em 2014. Uma frase virou fantasmagórica. Dizia: "Gol da Alemanha". Sete vezes repetida."Gol da Alemanha". Um pesadelo, uma humilhação mundial. Deixamos de ser o "país do futebol" e nos transformamos em saco de pancada. "Gol da Alemanha".
A performance nos gramados escondeu o lado sujo do futebol brasileiro. Gangues de criminosos criaram torcidas organizadas e passaram a espancar torcedores de times adversários. Houve emboscadas e assassinatos. Times tradicionais passaram a dever impostos, não pagar fornecedores e mergulharam no caminho da semifalência. Pobre, Portuguesa de Desportos...
O pior estava lá em cima. No âmbito da cartolagem. Teve ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol preso e condenado por corrupção. Não aqui no Brasil. José Maria Marin, filhote dileto da Ditadura Militar, foi limpar chão de cadeia nos Estados Unidos. No Brasil, a gente costumava acalentar os corruptos. Eles faziam parte do tecido social. Eram como o pó sobre os móveis. Apesar da Lava Jato, muitos analistas duvidam que a cartolagem corrupta possa ser enjaulada.
A nossa rendição aconteceu, em São Paulo, quando a Polícia Militar obrigou que os enfrentamentos ocorram com torcida única. Corintianos e palmeirenses, por absoluta falta de cidadania, estão proibidos de assistir a jogos de futebol lado a lado. Se deixarmos que eles fiquem juntos, vão se matar. Por isso, quando os dois times se enfrentam, só pode ter a participação de uma única torcida. Isso vale para outros times e outras torcidas. É a submissão total. Estamos de joelhos diante dos violentos. Eles nos venceram.
O futebol ganhou novas, belas e modernas arenas. O torcedor deixou de ser tão maltratado. No passado, lembro de banheiros entupidos, quebrados, com fezes espalhadas pelo chão, paredes e até no teto. O chão imundo, inundado de urina. As filas para comprar ingresso, com gente se socando. Esse cenário de horror parece ter ficado para trás.
Ainda há muito para ser feito na "América Latrina". A seminfinal entre Boca Junior e River Plate, felizmente, desta vez, não teve ocorrência policial, com ônibus que transportava jogadores, sendo emboscado pelos bandidos rivais. O jogo da semifinal, disputado nesta terça-feira, 22 de outubro, no estádio La Bombonera, foi vencido pelo Boca por 1 a 0, placar insuficiente para avançar na competição. Foi um jogo feio, amarrado, sem lances de brilhantismo. No placar agregado, juntando as duas partidas da semifinal, o River venceu por 2 a 1, e vai à final contra o Flamengo.
Por um mecanismo que desconheço seu funcionamento, comentaristas analisaram a participação da torcida do Boca não poupando adjetivos. "Maravilhosa". "Sensacional". "Emocionante". "Incrível". "Contagiante". Para um marciano, o que se viu ali foi um festival de má educação. O campo foi alvo de papel picado, transformando-se em uma gigantesca lata de lixo. O jogo deveria começar às 21h30. Só que não. Demorou 15 minutos para uns pobres coitados, armados de sopradores, conseguissem empurrar aquela papelada para fora das quatro linhas. Mesmo assim, o gramado não ficou inteiramente limpo. A bola branca se confundia com os milhares de papéis brancos, esvoaçando sobre as quatro linhas. O público não sabia direito o que era bola e o que era papel.
Desculpe, essa manifestação da torcida não é "maravilhosa", não é "sensacional", nem "emocionante". Chama-se atraso de vida. Chama-se de volta ao passado. Ninguém pode gostar daquela sujeira de papel, que atrapalha o jogo e confunde o telespectador. Por que a Conmebol não proíbe? Por que não interdita para sempre esse estádio velho e alquebrado do Boca Juniors? É um lugar sujo, mal-cheiroso, cheio de falhas estruturais, com cimento se desfazendo.
Quando eu jogava bola no campo de várzea do Rubens Salles, tinha mais espaço para bater o escanteio do que esse lugar estreito e superado, chamado La Bombonera. O jogador recua dois passos, toma distância e leva um tapa na orelha, antes de bater o escanteio. Dizem que em espanhol "bombonera" significa caixa de bombom. Só se for chocolate embolorado.
Até quando a "América Latrina" vai ser assim? Esse lugar meio selvagem, pouco inteligente, subdesenvolvido. Será tão difícil assim chegarmos no limite mínimo da civilidade e nos transformarmos em América dos latinos, com muito orgulho, sim senhor?
E ontem, quarta-feira, 23 de outubro, assisti ao Flamengo, destruindo o futebol superado de Renato Gaúcho e companhia gremista. "A maior derrota do Grêmio na história da Libertadores". Cinco a zero que poderiam ser multiplicados por dois. O time do Flamengo, dirigido por um técnico português, redescobria o futebol espetáculo. Não tinha papel picado no gramado. Parecia o Brasil de Telê Santana, de 1982, antes do desastre do Sarriá. Mas esse é um assunto para uma outra postagem.
Um abraço.
terça-feira, 22 de outubro de 2019
Não se chora sobre óleo derramado
É louvável o esforço dos nordestinos em limpar suas praias. É lamentável o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, reclamar que o Green Peace não está limpando as praias. Ministro, é sua obrigação cuidar do meio ambiente brasileiro. É para isso que o senhor está no cargo. Arregace as mangas e vá trabalhar.
Essa omissão, essa lerdeza do governo federal em se assenhorar do problema parece inerente à atual administração. É um governo lento, sonolento, que parece só acordar quando se faz presente nas redes sociais.
É louvável o esforço dos nordestinos em limpar suas praias, só que não vai adiantar. O desastre ambiental de gigantescas proporções vai afetar a vida marinha e a beleza das praias nordestinas por décadas. Daqui a dez, vinte anos, o turista que visitar uma dessas praias, atingidas pelo óleo, ainda vai sair com a sola do pé suja de piche. São pequenas manchas redondas, meio pretas, meio amareladas. Você demora para limpar. Passa sabão, passa detergente, esfrega, esfrega e a sujeira resiste.
O desespero que se via no rosto da garota sueca ambientalista, de 16 anos, Greta Thunberg na ONU (Organização das Nações Unidas) resume o problema: a falta de responsabilidade e omissão dos governos em encontrar alternativas energéticas serão fatais.
Os humanos ainda usam combustível fóssil. Eles sabem que a queima de petróleo afeta o meio ambiente. Provoca aumento da temperatura global e causa desastre climáticos. Não é conversa mole. Milhares de cientistas provaram que o aumento das temperaturas é real e terá consequências assustadoras. Mesmo assim os humanos continuam usando combustível fóssil. Não é só falta de inteligência, é algo mais profundo e danoso. É a pulsão mórbida de destruição, de que fala Freud.
O Brasil poderia ser um país melhor. Sem carros sujos, sem tanta queimada, sem tanta falta de respeito ambiental. O brasileiro está pouco se lixando que a Amazônia queime. O brasileiro é pobre. É miserável. São 104 milhões que vivem com 413 reais mensais. Esse pessoal está preocupado em comer. Se alguém pagar 50 reais para incendiar a floresta, ele vai pôr fogo no mundo, se preciso for.
Não adianta chorar sobre óleo derramado. Vamos continuar sofrendo com desastres ambientais por dezenas de anos. Essas tragédias irão se repetir. O enredo será sempre igual.
Acompanhe:
- Um navio cargueiro naufraga (ou uma plataforma de retirada de petróleo afunda) e derrama óleo no mar;
- O óleo se espalha e atinge as praias, provocando pânico em pescadores, hoteleiros, ambientalistas e moradores. Eles acionam a mídia;
- Os repórteres desembarcam nos locais atingidos. Farão matérias mostrando animais marinhos mortos; vão entravistar locais para saber de que forma suas vidas serão afetadas; vão tentar conversar com o responsável que irá emitir uma "nota de esclarecimento" ou às vezes nem isso; vão atrás de porta-vozes do governo;
- O governo (federal, estadual, municipal) vai fazer de conta que está ajudando, mas sem muito esforço. A classe política só se esforça mesmo quando precisa preservar suas patentes e privilégios.
O Brasil poderia ser um país melhor, mais limpo, menos tóxico. Só que não. Metade de seus habitantes é miserável. Penso na nossa querida deputada Joice Hasselmann, que ganhou os holofotes da mídia por estar se digladiando nas redes sociais com os filhos do presidente (01, 02 e 03), o que será que ela está fazendo nesse momento para reduzir a desigualdade social no Brasil?
É importante insistir: são 104 milhões de pessoas vivendo com 413 reais por mês. Ontem, no programa Roda Viva, Joice batia os cílios postiços cintilantes, exibia o decote generoso, mas não parecia se preocupar com a desgraça maior brasileira, que é a disparidade de rendimentos.
A mídia também dá pouca atenção para o problema. A gente olha os jornais e os temas em foco parecem tirar nossa atenção para o dano maior, a nossa maior ferida. Fala-se na crise do PSL. Na música, há um conflito entre funkeiros, que eu nunca ouvi falar. Os dados da economia são sorrateiros: dólar acima de 4 reais, cai a arrecadação.
E aí você pega o carro, circula pela cidade e a miséria fica estampada em cada esquina, em cada olhar, na desgraça urbana que são as favelas, feridas de tijolos avermelhados na carne das metrópoles brasileiras.
A gente continua como se nada estivesse acontecendo. Lê o "jornal" virtual e fica sabendo que Wanessa brigou com a mulher de Luciano. E, na periferia, a fábrica não escurece mais o dia, como dizia a música. As fábricas estão fechando. A indústria reduziu a rotação, num movimento de devagar, quase parando.
A gente vai para a praia e sai com os pés sujos de óleo, como se fosse algo inevitável, como se não houvesse solução para as desgraças ambientais. "Bom, não depende da gente. Isso é o governo que vai resolver", você diria. Depende, sim. Só que a gente está muito preocupado com as redes sociais para ir à luta.
Hoje, em Nova York, a gigante Esso (Exxon, para os americanos) está sentada no banco dos réus, acusada de ocultar dados, para seus acionistas, sobre as consequências das mudanças climáticas, em decorrência da queima de óleo combustível de origem fóssil. É um começo.
Aqui no Brasil, ficamos à espera da próxima desgraça. E ela virá, esteja certo disso.
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
O Facebook me faz uma pessoa pior
O Facebook me transforma. Acordo bem disposto, feliz da vida, o sol brilha, os pássaros cantam e aí abro o Facebook. Como na novela de Robert Louis Stevenson, Dr. Jeckyll vai se transformar em Mr. Hyde. A boa disposição vai embora. Minhas mãos começam a se encurvar. As unhas se transformam em garras. Nascem pelos em abundância no meu rosto e no corpo. Nas costas, se eleva uma corcunda. Começo a babar. Virei um monstro.
A postagem mostra um grupo de pessoas, todas suadas, debaixo de sol forte no que parece ser uma casa de periferia. Eles vestem bermudas, camisetas e chinelos. O suor brilha e escorre pelas barrigas. Nem leio o tópico. Já vou sentenciando: "Bando de gordo!". Assim, sem mais nem menos. Sem ser politicamente correto: "Bando de gordo!".
A "linha do tempo", como se chama aquela prática de ir descendo pelas postagens, mostra uma velhinha. Alguém deu um presente para ela. Algo do tipo. Penso na hora: "Velhota antipática". E o pior é que ela parece mesmo antipática. Não é a Dona Benta que vai fazer bolinho coberto com açúcar e canela para a gente. Tem jeito daquela velhinha que, quando aparece o filho pra visitar, ela vai logo dizendo: "Escovou os dentes? Põe uma blusa que está fazendo frio. Essa camisa não combina com você".
Aí vem o pessoal da política. Deus do céu, esses caras são incansáveis. Tem a turma do Bolsonaro que ainda está querendo prender o Lula. Gente, o Lula está preso. Helôôô! O PT perdeu a eleição e vocês ganharam. Comecem a trabalhar. Tirem as pessoas da miséria. Metade do Brasil ganha menos de 500 reais por mês. Não quero mais saber de palanque. Quero que vocês façam qualquer coisa que mude essa desgraceira que o País está mergulhado. As indústrias quebrando. O setor de serviços afundado na crise. Sem dinheiro para educação, sem verba para pesquisa, corte nisso, corte naquilo. E os Alfa continuam comendo lagosta e camarão, andando de carro oficial, com direito a sirene para fugir do trânsito. Os 90 por cento restantes pertencem à casta Épsilon. São os desgraçados de que fala Huxley. Você acha que Huxley exagerava? Se esqueceu que ele previu o nascimento do bebê de proveta em 1931, 47 anos antes do fato real? Exagerava nada, menino.
E tem o pessoal do outro lado, que é contra o Bolsonaro e seus asseclas... É todo dia postando uma bobagem que a Damares falou. O que vocês querem dessa coitada que vê Jesus em goiabeira? Ela vai falar bobagem mesmo. E o ministro da Educação, nota zero em Sociologia, que comete um erro de português por minuto. É o maior índice de erros de português da história, desde Cabral. Tem a história do Queiroz. Onde está o Queiroz? "Vai perguntar para a sua mãe", respondeu o presidente, educadamente. Todo dia alguém pergunta onde está o Queiroz. A Veja já esclareceu: "O Queiroz mora no Morumbi e se trata no Einstein". Só precisa alguém levar a reportagem até a Polícia Federal. O Queiroz tem de explicar direitinho essa história da "rachadinha", que envolve o Flávio "01". Sem falar do Moro, o Batman, que a Vaza Jato transformou em Coringa.
E aquele pessoal que quer causar inveja? Outro dia uma amiga postou: "Estou aqui na Padaria Bella Paulista. Uma delícia!". O monstro que habita em mim, quando entro no Facebook, escreveu, de forma ríspida e malcriada: "Estive aí no domingo. Eles me serviram um croissant, cortado ao meio. Frio e molenga. Na França, o chef da Bella Paulista seria decapitado, por causa desse crime contra o croissant".
Os algoritmos do Facebook, por algum defeito genético, têm certeza que sou um frequentador assíduo de hípicas e que não posso passar um dia sem montar em um cavalinho. Gente, tenho medo de cavalo. Nunca andei a cavalo na vida. Nem sei como se sobe naquilo, que eles chamam de sela. Mesmo assim, todos os dias, não falha um singular dia, o Facebook me manda imagens e vídeos de cavalos. São cavalos felizes, que saltam e pulam e se alimentam regularmente.
Um amigo, que nunca assistiu a uma luta de MMA, nem nunca irá assistir, recebe também diariamente notícias sobre lutadores de MMA. Há algo de podre no reino dos algoritmos, diria Shakespeare, se, quando vivia, houvesse redes sociais.
E as pessoas felizes? Elas estão sempre sorrindo, contentes. O meu monstro olha para elas e grita: "Está rindo do que, babaca? Vai andar de metrô e de trem da CPTM do Doria pra ver o que é bom pra tosse".
Sem falar dos cachorrinhos, dos gatinhos, dos peixinhos, todos eles engraçados, meigos, despertando meu monstro que geme entredentes: "Vou mandar vocês pra China". Esse país asiático, como se sabe, volta e meia, promove festivais de consumo de carne de gato e cachorro.
Então, quando saio da rede social, apago o Facebook, começo a sentir uma metamorfose humanitária. Os pelos que cresceram em profusão desaparecem. As garras viram unhas normais. A corcunda de Quasimodo fica reduzida ao bico de papagaio normal que tenho nas costas. A baba seca. Saio na rua e sorrio para as crianças. Levo meu cachorro passear. Se me pedem informação, trato com carinho e atenção. Aproveito o sol, a chuva, a garoa, o vento. Aceno para os vizinhos. No armazém, brinco com as atendentes.
Então, ao retornar para casa, ao abrir novamente o Facebook, nada poderá evitar o ressurgimento do monstro.
Por falar nisso, por que você não desliga essa m...e vai ler um livro, filhote de Netflix.
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Como o Var veio para atrapalhar o futebol
No dia 27 de junho de 1971, eu estava no Morumbi, assistindo à decisão do Campeonato Paulista, entre São Paulo e Palmeiras. O São Paulo precisava só do empate e abriu o placar no início da partida. Havia 100 mil pessoas no estádio. Naquela época, as torcidas rivais ficavam juntas. No segundo tempo, o atacante do Palmeiras Leivinha fez um gol espetacular de cabeça. A torcida comemorou e o árbitro Armando Marques anulou. Disse que o gol havia sido com a mão. Era estranho, porque para dar a cabeçada na bola, Leivinha jogou os braços para trás. Eu vi. Estava lá. Bem em frente. É claro que havia maracutaia. Para mim, torcedor de futebol, aquilo era uma vergonha. A anulação do gol legítimo, por um árbitro claramente mal-intencionado, me fez gostar menos de futebol. Gostaria de ter quebrado o sigilo bancário de Armando Marques para identificar quanto aquele gol anulado teria custado. O Palmeiras, de Ademir da Guia, Dudu, César Maluco, ficou abalado em campo e o São Paulo sagrou-se campeão paulista naquele ano. Se houvesse o Var (video assistant referee - árbitro assistente de vídeo), o gol seria validado e o Palmeiras provavelmente teria virado o jogo.
Em 1954, a final do Mundial, entre Alemanha Ocidental e Hungria foi disputada em Berna (Suíça). Os alemães venciam por 3 a 2 o então invencível time húngaro, invicto há 32 partidas. No fim do jogo, "no apagar das luzes", Puskás faz o gol do empate. Anulado. Diante de 60 mil torcedores, principalmente alemães, o juiz viu um impedimento inexistente e deu o título mundial aos alemães, premiando o futebol feio e retrancado. Se houvesse Var, a história seria outra.
Em 1962, o Brasil passou no sufoco pela Espanha no Mundial, disputado no Chile. Ganhou por 2 a 1, graças à arbitragem. Nilton Santos derrubou Collar dentro da área e andou uns dois passos para a frente, mostrando que a falta havia sido feita fora da área. Não tinha. Os espanhóis batem a falta e o pobre Puskás (naturalizado espanhol) faz gol de bicicleta. Um gol que levaria o prêmio Puskás de tão bonito que foi. O juiz Bustamante anulou. Hoje, Bustamante seria preso e condenado por corrupção passiva, ativa e absoluta. Naquela época, não havia Var. Se houvesse, o Brasil daria adeus ao bicampeonato mundial.
Em 1966, na final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental, diante de 98 mil pessoas, em Wembley, as duas equipes terminam o tempo normal empatadas em 2 a 2. Vem a prorrogação e Hurst vira, acerta um chute forte, a bola se choca no travessão e bate na linha. O juiz suíço Dienst fica em dúvida. Consulta o bandeirinha russo Bakhramov, que dá o gol. A Inglaterra faria mais um na prorrogação e conquistaria o Mundial de 1966. Se houvesse Var, o gol inglês de Hurst teria sido anulado.
O futebol era assim. Cheio de injustiças, de juízes malandros, de cartolas corruptores, de debates sem fim. O futebol era polêmico. Discutia-se muito. Antes, durante e depois das partidas. As regras eram simples. A gente conhecia todas de cor, igual à tabuada. O juiz ladrão era parte indissociável do futebol. Antes de qualquer coisa, quando aquele cidadão de preto pisava no gramado, a gente se erguia na arquibancada e gritava: "Juiz ladrão!".
Os comentaristas reclamavam muito. Aquele gol que não foi gol, porque a bola não entrou; aquele impedimento que não aconteceu porque o zagueiro dava condição; o pênalti inexistente, que só o juiz viu...Tantos erros, tantas injustiças, tanto choro e rilhar de dentes à toa. Bastava o futebol imitar o tênis, imitar o vôlei. Incorporar à tecnologia ao esporte.
E no sétimo dia surgiu o Var. O juiz de vídeo. Além do árbitro, dos dois bandeirinhas, apareceram mais uma meia dúzia de sujeitos, que ficam olhando imagens de TV, tentando ver o que o juiz não viu. E eles veem...Minha nossa, como essa gente do Var trabalha. Acontece o gol. A torcida grita, comemora, mas o árbitro coloca a mão no ouvido. Para tudo. O gol foi impedido? Alguém resvalou a mão na bola? O árbitro corre em direção à lateral do campo. Olha a sua TV particular e volta para o campo, fazendo aquele sinal odioso, detestável, da televisãozinha imaginária. O gol foi anulado. A torcida rival comemora. O Var é um desmancha prazeres.
No melhor da partida, o Var interrompe os lances. São dois, três, até cinco minutos ou mais de paralisação. Quando o jogo recomeça, a gente nem sabe mais quanto estava, nem quem ia melhor no jogo. É um coitus interruputus. O Var deixou o futebol lento, sem graça, burocrático. Veio para fazer justiça, é verdade, mas acabou com a alegria, com a polêmica.
O pior são as novas regras, que a maior parte dos torcedores desconhece. De um dia para outro, aparece uma regra nova e nem sempre inteligente. Domingo passado, por exemplo. Palmeiras e Internacional empatam em 1 a 1. Aos 40 minutos do segundo tempo, William Bigode, do Palmeiras, disputa a bola com um defensor e o balão resvala em seu braço, O Verdão faz o segundo gol e vira o jogo. Virava o jogo...Entra o Var em cena e o gol é anulado. Tudo por causa da nova regra: se a bola bater no braço do atacante, mesmo que ele não tenha a intenção, mesmo que seu braço esteja grudado ao corpo, mesmo assim, vai ser falta. Caso a mesma bola bata no braço do zagueiro, não vai ser falta, se ele não estiver com os braços distantes do corpo. Ou seja, a nova regra ferra o atacante e tira da reta o rabo do defensor. É uma regra discricionária, a favor da defesa. Os times poderiam começar a escolher atacantes sem braços.
Para fechar essa página, é importante dizer que o Var conseguiu até o impossível. Fazer a gente sentir saudades do erro de arbitragem.
sexta-feira, 13 de setembro de 2019
Machado de Assis, esse chato
Em 1978, comecei a trabalhar em uma empresa jornalística, chamada Proal (Programação e Assessoria Empresarial). Fazíamos house organs, jornais de empresa. A Proal ficava em um sobrado na rua Chuí, travessa da rua do Paraíso, na Aclimação. Ao lado da minha mesa, dominada por uma robusta máquina de escrever Olivetti, sentava-se o então repórter em início de carreira André Singer.
André é filho do ilustre economista Paul Singer (1932-2018), nascido na Áustria e radicado no Brasil. Provavelmente por influência do pai, intelectual respeitado, André amava literatura e foi ele quem me emprestou um volumoso livro de Dostoievsky, intitulado Os Demônios.
A obra antecede a Revolução Russa de 1917. Na prática, revela um clima pré-revolução. Os jovens perdem a paciência com a gerontocracia, que afundava o país, e começam a questionar o sistema. Em uma das cenas capitais de Os Demônios, um velho discursa bobagens, escutado com atenção por outros velhos. Um rapaz, presente na reunião, levanta-se. Pega o velhote pelo nariz e o arrasta pelo salão. Vai de um lado para o outro, puxando o velhote pelo nariz, como se o ancião fosse um boi de carga. Uma espécie de premonição do que estava por vir - a queda dos czares, a vitória dos soviets e a implantação do comunismo. Amei Os Demônios. Até hoje, lembro do André, por causa desse livro.
André amava também Machado de Assis. Era Deus no céu e Machado na terra. Eu tinha feito uma faculdade de Letras e não tinha mais paciência em ouvir alguém falar de Machado de Assis. Desde o colégio, quando era obrigado a ler suas obras, estava saturado de Machado de Assis. Na faculdade, um grupo de alunas fez "o julgamento de Capitu". Tinha advogada de defesa. Tinha promotora acusando. A professora era a juíza. Tudo muito chato. Será que Capitu tinha traído Bentinho?
Além dos muros da faculdade, a escritora Lygia Fagundes Telles defendeu a tese de que Capitu tinha de fato traído Bentinho. Já alunos da Faculdade de Direito do Largo São Francisco absolveram Capitu por "falta de provas". Dá um tempo, gente.
Uma manhã, mal-humorado, ao ouvir André Singer elogiar Machado de Assis, mais uma vez, não aguentei e falei que os livros dele eram chatos. Todos eles. Toda a fornada. Dom Casmurro, O Alienista, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Helena, A Mão e a Luva. Disse que, quando era estudante, abria Machado de Assis e bocejava. A prosa de Machado me dava sono. Era melhor que narcótico. Os personagens de Machado de Assis me faziam dormir. Eram livros catalépticos. Foi um choque de 2 mil volts. Acho que se André tivesse um volume de Memorial de Aires na mão, ele atiraria o volume na minha cabeça.
André sairia da Proal, tempos depois, e nunca mais voltamos a nos encontrar. Anos mais tarde, ele trabalharia na Folha como repórter e chegaria ao poder, a Brasília, ganhando os holofotes como porta-voz do recém-empossado presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa surpresa iconoclástica diante de alguém que não aprecia o texto de Machado de Assis me acompanharia o resto da vida. Perdi amigos, por causa de Machado. Criei desavenças sérias. Fui ameaçado e perseguido. No meu pesadelo recorrente, vejo uma multidão, ostentando livros de Machado de Assis, a me perseguir por ruas mal iluminadas e cobertas por névoa densa.
Talvez a minha bronca com Machado de Assis esteja na obrigatoriedade de lê-lo. Ninguém devia ser obrigado a nada. Na escola, desde criança, somos submetidos a Machado. Fazer resumo de suas obras. Interpretar seus textos. Em minhas lembranças, Capitu, Bentinho, Escobar, Helena, Brás Cubas, Simão Bacamarte são lentos, movimentam-se em câmara lenta. É aquela sensação sonâmbula que deve anteceder ao sono Rem.
Somente na Faculdade de Letras vim conhecer Rubem Fonseca. Foi um desbunde. Fiquei maravilhado com a prosa. Aquele conto Lúcia MacCartney era uma das obras mais modernas, que já havia lido. A linguagem corria solta, serpenteava. Cada parágrafo parecia algo inovador e surpreendente.
Para usar uma expressão comparativa favorita de Heningway, o meu "general" da Literatura Brasileira era Érico Veríssimo. Li toda a obra de Veríssimo, que minha tia guardava em uma estante de madeira, com frente envidraçada. O melhor Veríssimo é Incidente em Antares. Excepcional.
Outro "general" era Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas, Sagarana, são obras de impacto profundo. A hora e a vez de Augusto Matraga, um dos contos de Sagarana, é literatura fina, saborosa, para ser lida e relida.
Entre as autoras - Lygia Fagundes Telles e Carolina de Jesus - são as minhas preferidas. As Meninas, de Lygia, me trazem recordações vivas, a flor da pele.
Gostava de Fernando Sabino, mas ele se tornou antipático ao fazer um livro para uma ex-ministra odiosa da Economia. Nunca mais li Fernando Sabino, por causa do governo Collor. São esses ódios que duram até a eternidade.
Cristóvão Tezza e Caio Fernando Abreu são paixões, relativamente, recentes. O filho eterno, de Tezza, é aquele livro que eu gostaria de ter "fichado" na escola. Tanta coisa a dizer sobre ele. Morangos Mofados, de Caio Fernando Abreu, é delicado, penetrante, uma joia.
Vou desligar. A livraria me espera.
Beijos.
quarta-feira, 11 de setembro de 2019
Revelado: Adorno era o quinto beatle
Em 1963, chovia muito em Liverpool, Inglaterra. Os músicos John Lennon e Paul MacCartney tentavam, com muito esforço, concluir a música She loves you.
Lennon perguntou: "O que vem depois de she loves you?".
"Yeah, yeah, yeah", murmurou Theodor Adorno.
"Brilhante, Teddy, brilhante", exultou MacCartney.
O resto é história.
Tem mais: Adorno não somente era o quinto beatle, como foi ele quem vendeu os direitos autorais dos Beatles para Michael Jackson.
Essas sacadas irônicas vêm do jornal The Guardian, em um artigo publicado nesta terça-feira, 10 de setembro, em resposta ao guru do governo Bolsonaro, o maluquete Olavo de Carvalho.
O último "despacho" do guru foi ter afirmado que quem compunha as músicas dos Beatles era o filósofo marxista Theodor Adorno, integrante da prestigiosa Escola de Frankfurt.
Carvalho tem feito declarações polêmicas. Para o guru, o papa Francisco é agente infiltrado da antiga polícia secreta soviética, KGB, extinta em 1991. Os pais não devem vacinar seus filhos, porque "vacinas matam ou endoidam". Olavo de Carvalho também duvida da redondeza do planeta: "Não há nada que rejeite a tese que a Terra é plana". No passado, Carvalho atraiu os holofotes para si ao afirmar que a Pepsi Cola adoçava sua bebida com fetos.
Por sua sabedoria implacável, o astrólogo Olavo de Carvalho foi homenageado pelo governo Bolsonaro, recebendo a Grã-Cruz da Ordem do Rio Branco.
O The Guardian lembra no artigo, que tira sarro do guru, que Adorno, na realidade, não era o quinto beatle. Aliás, Adorno detestava os Beatles. Em entrevista à revista Akzente, em 1965, o filósofo neomarxista dizia que o grupo oferecia técnicas musicais tradicionais "de forma degradada". E que os Beatles propunham um produto cultural "retardado, em termos de seu próprio conteúdo".
Mas, na base da brincadeira, o jornal inglês diz que, se você tocar o Álbum Branco de trás para frente, vai ouvir Adorno dizendo o seguinte:
"O avanço da sociedade burguesa liquida a memória, o tempo, a lembrança como sobras irracionais do passado."
Enquanto a gente discute essas bobagens, vem aí a nova CPMF. Vai ser bom. Vai ser gostoso. Aproveite.
terça-feira, 10 de setembro de 2019
Mais bem ou melhor preparado? Tanto faz, vamos ladeira abaixo mesmo
Vou começar de um jeito bem chato. Relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) ganhou as manchetes hoje. Descobriu-se que o Brasil não investe o suficiente em educação.
Bom, não preciso ler o relatório da OCDE e descobrir que somente 18% dos brasileiros adultos fizeram faculdade. Basta andar na rua. A gente olha as placas dos supermercados e está lá escrito: "Tevelizão em oferta", "tabrete", "seulular", "queijo fudido da Sadia", "pitiça com guaraná".
Na rua, sempre tem uma placa escrita com erro de português. Na porta da venda: "Fui Ao Mossar". Aqui no bairro: "Vendi-ce jelú". No cabeleireiro: "Faça pé e mão e ganhe uma sobrancelha".
Tudo errado. O pior é querer me fazer trocar o melhor pelo mais bem. Deus do céu, como é que podem duas palavras ser melhor do que uma? Cadê o poder da concisão?
O mestre Domingos Paschoal Cegalla me ensinava, quando eu ainda usava calças curtas e suspensórios, que é indiferente usar melhor ou mais bem antes de particípio. Tanto faz. Você usa o que quiser. Não sou eu que estou falando. É o Cegalla. Acredite nele. Lembro de um livro, onde se lia apenas: "Português". E tinha um "P" enorme na capa marrom. Para não deixar dúvida sobre o que se tratava. Era o pezão do professor Cegalla.
O linguista Sousa e Silva garante que é indiferente usar mais bem ou melhor. Já o professor Pasquale Cipro Neto vai buscar exemplos em Machado de Assis: "que ande ele melhor avisado na organização"; e em Alexandre Herculano: "melhor delineadas e vestidas".
Então, quem são os chatos que querem nos obrigar a usar mais bem antes de particípio? O principal deles é o senhor Napoleão Mendes de Almeida. Para ele, não tem conversa. Antes de particípio, é obrigatório usar o mais bem. Duas palavras no lugar de uma. Se fosse prova de jornalismo, estava reprovado.
Enquanto a gente fica debruçado sobre o vernáculo, o tal do relatório da OCDE nos enche de vergonha. Somos um povo sem educação, mal-educado, mas, pelo menos, como mostrou hoje no Twitter um dos filhos do nosso querido presidente, o Brasil comprou caças suecos Grispen por 5 bilhões e 400 milhões de reais.
Não tem giz na sala de aula. Aliás, em muitos lugares, não tem nem sala de aula. A OCDE mostra que o Brasil, entre 48 países pesquisados, é o que paga salários mais baixos a seus professores. Estamos no buraco, com as pesquisas sendo cortadas, graças ao "contingenciamento" que deletou milhões de reais em verbas para a Capes e o CNPq. Mas pelo menos compramos 36 caças suecos. Pode bater palmas para o maluco dançar.
sábado, 31 de agosto de 2019
"Bacurau" é um Tarantino genérico e piorado
Chegou Bacurau! Toquem as trombetas. Estreou o novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Podem desligar as trombetas. Bacurau é um exemplar genérico tarantinesco e bem piorado.
A grande metáfora do filme: nós, os povos miseráveis do Nordeste, precisamos nos unir contra os malfeitores imperialistas. Nesse rol da bandidagem incluem-se os norte-americanos, propriamente ditos, e nós, os moradores aqui do Sudeste brasileiro.
Bacurau tem buracos de roteiro, que são incompreensíveis para um filme premiado em festival internacional. Começa o filme. Chega a um povoado miserável, feio e seco, uma assistente social com uma mala cheia de vacinas e remédios. A gente imagina que essa assistente social terá algum papel preponderante no cenário. Nada disso. A mulher se evapora. Ficamos na expectativa que ela vá fazer algo útil ou surpreendente. Mas não. Os roteiristas simplesmente se esqueceram dela ao longo da história.
O pior é o personagem do prefeito. Ele é odiado pela população. As pessoas se escondem dele, quando o político pisa no lugarejo. Só que, eu, humilde espectador, gostaria de saber por quê. O que ele fez de tão grave para os moradores o detestarem tanto? Será que o crime dele é ser político? Então, todo político precisa ser defenestrado? É esse o recado? Vai saber.
De repente, você acha que já viu esse filme em algum lugar. E viu mesmo. Vai na mesma toada de Jogos Vorazes. Não me venha falar em spoiler. Arrume uma palavra em português, antes de me encher o saco.
Os heróis do filme são os bandidos. Tem um tipo, chamado Lunga, com visual andrógino, unhas pintadas de preto e a calça presa acima do umbigo. Ele é procurado pela Justiça. Deve ser a patrulha da moda que anda atrás dele. Outro criminoso, o Pacote, matou várias pessoas, de maneira covarde, assassinando-as a sangue frio. Os vídeos das execuções dele são reproduzidas em um misto de trio elétrico e carro alegórico para a população local, que assiste à noite, sem ter coisa melhor para fazer naquele fim de mundo. O roteiro dá a Pacote um protagonismo importante. Ele é um executor covarde, mas vai liderar a resistência aos imperialistas. É um assassino com espírito de liderança campesina. Assim, lá vamos nós idolatrar, mais uma vez, o cangaço, Lampião, Maria Bonita e seus derivados.
Aparecem dois representantes do Sul maravilha. No caso, Sudeste maravilha. É um casal. Eles querem ser iguais aos americanos psicopatas. Esses dois são assassinos frios, mas com ligeiro atraso mental. Não conseguem pressentir que estão correndo risco de vida, tratando com malucos armados para uma guerra particular. Os malucos xingam os representantes do Sudeste, dizendo que eles são "latinos", não são brancos como os verdadeiros norte-americanos.
Ah, sim. O filme tem Sonia Braga. Ela é aquela maluquete, bêbada, suja, irreconhecível com o cabelo sem cor definida e sem qualquer participação no desenrolar da história. Se a personagem dela - chamada Domingas - não existisse, não faria a menor falta. Por que Sonia Braga está em Bacurau? O que ela foi fazer ali, meu deus? Eu que vi Sonia Braga nua, em Hair, bem ali na minha frente no teatro Bela Vista, com o então jovem e talentoso Ney Matogrosso, senti vontade de chorar em vê-la tão deplorável, tão sem razão de ser.
Cuidado quando você for assistir a Bacurau. Tem sangue pra tudo quanto é lado. Leve uma roupa reserva, senão você vai sair com a camisa manchada da sala de exibição. E cuidado com as balas. Voam balas também pra tudo quanto é lugar. É bom se apresentar com colete a prova de balas. Tem personagem com cabeça arrancada. Tem criança assassinada. É um pesadelo, manchado de vermelho.
Se a proposta da produção fosse fazer um libelo contra as armas, o armamentismo, então, deu errado. A ameaça não é derrotada pela inteligência ou argumentação. Quem destrói a ameaça, que paira sobre a cidade, são as armas.
O diretor e roteirista Kleber Mendonça tem dois longas excepcionais em seu currículo: O som ao redor e Aquarius. Não sei que história ele quis contar com esse Bacurau, mas não chegou lá. A gente não sente empatia pelos miseráveis. Não consegue entender os norte-americanos malucos. Kleber Mendonça deveria voltar a fazer filmes brasileiros. Imitar Hollywood não é a praia dele. Aliás, filme brasileiro made in Hollywood nem sempre dá certo. Padilha acertou na mosca com Tropa de Elite, que não é um filme brasileiro, mas hollywoodiano. Enfim, são 131 minutos da mais pura e completa exaustão.
Na sala de exibição, onde assisti Bacurau, estava sendo exibida, na sala vizinha, o novo filme de Tarantino. A versão genérica parece a verdadeira, mas não realiza o efeito prometido. Prefira o Tarantino original. E tenho dito.
terça-feira, 27 de agosto de 2019
A soberania da destruição
Há cerca de uma semana, vivi uma situação aterradora. Eram 15h e o dia virou noite, resultado do acúmulo de nuvens escuras e da fumaça das queimadas, que vinham dos longínquos estados do Norte e Noroeste. Os dias seguintes foram atribulados. Descobriu-se que a Amazônia legal estava em chamas.
Virou cabo de guerra entre apoiadores do presidente "de extrema direita" (como afirmam os jornais franceses) Jair Bolsonaro e seus opositores. Os bolsonaristas gritavam nas redes sociais que "na época do Lula" os incêndios eram muito maiores. E os opositores acusavam Bolsonaro de provocar o desastre ecológico de proporções continentais.
Por que Bolsonaro seria culpado, tornando-se o Nero brasileiro? Ele demitiu um cientista do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), porque os dados de desmatamento eram desagradáveis. Cortou (ou "contingenciou", como ele gosta de dizer) verbas para manter a fiscalização ativa. Atacou o Ibama, os povos indígenas, os quilombolas. Cancelou uma reunião com ministro francês, para cortar cabelo.
A retórica bolsonarista é feroz, agressiva, rancorosa. Sua aversão ao Ibama vem desde a época em que foi multado, em janeiro de 2012, por pescar em área protegida. Três meses após sua posse, Bolsonaro exonerou o fiscal do cargo de chefia. Vingança?
A desgraça amazônica venceu fronteiras. O presidente francês, Emmanuel Macron, acusou Bolsonaro de mentir ao dizer que iria proteger a floresta e, na prática, colaborar com o desastre, por sua omissão em relação às queimadas.
Bolsonaro não gostou e criou um entrevero diplomático com seu homólogo francês. Um imbecil bolsonarista fez um comentário jocoso na rede social sobre a mulher de Macron (que é mais velha que o presidente), comparando-a com a mulher de Bolsonaro, mais jovem e, supostamente, mais desejável. Bolsonaro divertiu-se e comentou: "Não humilha, cara, kkk".
O exército de robôs bolsonaristas dizia que os incêndios eram esparsos. Era tudo exagero dos petistas, dos comunistas, do inimigo vermelho. O fogo não era tão grave assim.
A Nasa (Administração Nacional e Espacial Norte-Americana) apareceu na história, publicando fotos do satélite Modis, que mostrava um cenário de horror, com as queimadas preponderando, junto às rodovias BR 163 e BR 230. As queimadas, segundo a agência espacial, eram as maiores registadas desde 2010.
Reportagem do Fantástico, aquele programa imorrível de domingo na TV Globo, foi até a Amazônia e relatou o que a gente já imaginava: grupos de criminosos tinha ateado fogo na floresta. A matéria mostrava caminhões carregados de madeira circulando, clandestinamente, à noite. A Amazônia, terra de ninguém, queimava. Era saqueada, destruída e não tinha uma única autoridade capaz de fazer valer a lei. Os bandidos construíam até pontes "piratas" para escoar o material roubado - a preciosa madeira arrancada da floresta.
Primeiro, a Alemanha, depois o G7, grupo dos países ricos, ofereceram ajuda, mas Bolsonaro disse que não aceitava o dinheiro. Só toparia receber a grana do G7, se "Macron pedisse desculpas". Sobre o dinheiro da Alemanha, Bolsonaro mandou os alemães usar o dinheiro para reflorestar o país deles.
O foco, neste momento que escrevo, mudou. O discurso bolsonarista insiste na tecla da "soberania". O Brasil é soberano. A Amazônia é nossa e vamos botar fogo nela, enquanto tiver árvore em pé. Ninguém tem nada a ver com isso. Os países ricos, os europeus, não têm que meter o nariz onde não deve.
Quando era jovem, eu tinha um amigo hindu, que achava melhor o Brasil ceder o controle da Amazônia à Europa, porque só assim seria possível salvar a floresta. "Brasileiro não gosta de preservação", ele me dizia.
Ao longo da minha vida, passei poucas e boas, lutando pela preservação. Lembro da briga pela Casa Modernista, de Gregori Warchavchik, em 1982/84. Éramos meia dúzia de voluntaristas, protestando diante do imóvel, que fica na rua Santa Cruz, Vila Mariana. Uma construtora iria derrubar toda a área e construir torres de edifícios no local. Iniciamos o movimento, sofrendo ataques diários do jornalista José Paulo de Andrade, da Rádio Bandeirantes (até hoje, por sinal, ele é contra a preservação da casa). Nós nos reuníamos no salão paroquial da Igreja da Saúde. Juntamos forças. Chegaram mais integrantes. Começamos a fazer manifestações. A construtora entrou com processo contra mim. Fizemos reunião com o então prefeito Mario Covas que me avisou: "Se eu preservar a área, você não venha amanhã me pedir para manter o local. Não tenho dinheiro pra isso". Enfim, depois de muitas reuniões, idas e vindas, de bater em dezenas de portas de autoridades, conseguimos preservar a área, impedindo a construção de mais edifícios, como se São Paulo já não estivesse saturada de tanto prédio. Hoje, a Casa Modernista é um parque e pode ser visitado por quem estiver passeando pelo bairro. Caso raro. Quase inacreditável.
Quando fui morar na Granja Viana, em busca de verde e tranquilidade, vi tanta árvore ser derrubada, ouvi tanto barulho de motosserra, que fiquei anestesiado. Entendi que o brasileiro é assim. Está pouco se lixando para a preservação. Ele quer construir. Matar o verde. Como o meu amigo hindu dizia, brasileiro, realmente, não gosta de natureza.
Onde moro, vivi episódios estressantes, ligados à destruição. Lembro de um sujeito que invadiu um terreno e derrubou todas as árvores. Todas. Não deixou nenhuma em pé. Chamei a Polícia Ambiental. Veio uma viatura. Ficamos ali parados, diante dos dois policiais. O agente perguntou se eles tinham autorização para a derrubada das árvores. "Tenho", o construtor falou. Mostrou um documento que autorizava derrubar três árvores e não as quinze ou vinte que ele havia eliminado do terreno. "Quem cortou as outras árvores?", perguntou o policial. "Não sei", disse o construtor. "Só cortei as três que estavam permitidas". Os policiais devolveram a autorização e foram embora. Saí correndo atrás de um promotor do Meio Ambiente. Nenhuma providência foi tomada. Descobriu-se depois que o terreno em questão havia sido ocupado irregularmente, comprado com documento falso. Um pesadelo!
Então, é só uma questão de tempo. Todas as árvores da Amazônia serão derrubadas, queimadas, saqueadas. Essa é a nossa noção de soberania. Somos soberanos em destruir, queimar, transformar dias em noites.
Durante a construção do condomínio Alphaville da Granja Viana, as motosserras trabalharam dia e noite. A gente ouvia o ruído maldito do motor. É um ganido, um silvo arrepiante, afiado, mortal. Depois, vem o som do tombo, da árvore despencando e se despedaçando no chão.
Nessa época, chegando do trabalho à noite, fui entrar em casa e um animal silvestre, um saruê, cruzou a frente do carro. Ele parecia cansado, andava muito devagar, trôpego. Freei. Ele ficou olhando para mim. Esse saruê era alguém sofrido, desalentado, que havia sido expulso de sua moradia e não tinha mais onde ir. Estava perdido e sem esperança. Assim como eu me sinto hoje, uma semana depois do dia ter se transformado em noite.
terça-feira, 20 de agosto de 2019
A metáfora do dia que virou noite
Eram 15h de segunda-feira, 19 de agosto. Estava na estrada, retornando para São Paulo. Assim, do nada, ficou tudo escuro. Noite fechada. Breu. Liguei o rádio e os apresentadores também se referiam ao fenômeno. Buscavam explicações. Era algo inédito que estava ocorrendo. Inédito e assustador. Parecia o fim dos tempos, como a gente imagina que um dia será o fim da nossa espécie, do planeta, da vida como a conhecemos.
Meteorologistas eram chamados e explicavam que a escuridão era proveniente de dois fatores conjugados: queimadas e uma formação substantiva de nuvens do tipo cumolonimbus, que é aquela nuvem preta, pesada.
Chegando em casa, um pouco mais tarde, entendi que essa história de "o sertão vai virar mar" e o dia que virou noite é uma metáfora da nossa tragédia particular.
Leio agora reportagem que "explica" a noite escura, que desceu ontem sobre São Paulo. Era uma espécie de "corredor aéreo" que trazia a fumaça das queimadas em direção à capital. "Ocorre todos os anos", tranquilizava o título.
Se ocorre todos os anos, então, está na hora de parar de ocorrer. Até quando o brasileiro vai botar fogo na floresta? Provavelmente, nunca, porque a estupidez parece ter emigrado e se estabelecido no Brasil.
Programa de TV alemão Extra 3, do canal ARD, tira sarro do Brasil. Relembra episódios recentes de insustentabilidade: liberação de agrotóxicos; demissão de cientista que comandava o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais); indicação de ministra da Agricultura, Maria Tereza, lobista do agronegócio, apelidada de "musa do veneno"; o presidente Bolsonaro é chamado de "Trump do Samba" e "idiota de Ipanema". A transmissão mostra imagens de árvores nativas sendo derrubadas para plantação de soja e criação de gado.
Neste fim de semana, o Twitter - espécie de rede oficial da guerra digital - trouxe um bate-boca virtual entre o jornalista Gilberto Dimenstein e a líder do governo na Câmara, Joice Hasselmann. Joice era jornalista e foi acusada, em 2015, de plagiar textos de colegas. Ao todo, 23 jornalistas disseram que ela plagiou seus textos.
Irritada com as críticas constantes de Dimenstein, em seu site Catraca Livre, ao governo Bolsonaro, Joice tachou o jornalista de "comunista". Dimenstein pediu provas.
Como a deputada não apresentou qualquer evidência de que Dimenstein seria comuna, ele escreveu um texto, dizendo que, por exemplo, se afirmasse que a deputada seria maconheira, teria de provar. Não bastaria apenas afirmar que ela usava maconha. Era necessário apresentar provas.
Joice Hasselmann não deve ter lido o texto - ou quem sabe não compreendeu o que estava escrito - e atacou o responsável pelo Catraca Livre, chamando-de de "velho" e "verme nojento". A política bolsonarista disse que vai processá-lo e doar o dinheiro da futura indenização para entidades que combatem fake news.
Se levada para os tribunais, será uma briga boa. Joice Hasselmann terá de provar que Dimenstein é comunista, mostrando artigos que ele escreveu ou obtendo uma suposta carteira de filiação dele ao Partido Comunista. Não vai conseguir, porque, quem leu, por vários anos, os artigos de Dimenstein na Folha, quem o ouvia na rádio CBN, sabe que ele nunca foi adepto de regimes absolutistas. Nem fez a apologia de regimes comunistas.
Já Dimenstein não precisará provar que Joice Hasselmann é maconheira, porque, sinceramente, não foi isso que ele escreveu. Quem domina, mais ou menos a arte da leitura, consegue entender o que ele quis representar, com o artigo "E se eu dissesse que Joice Hasselmann é maconheira?".
Essa prática de chamar os opositores do governo Bolsonaro de "comunistas" precisa acabar. Dimenstein agiu corretamente, exigindo provas. É um exemplo que deve ser seguido.
É bom que se diga que não é contra a lei ser comunista. O estado do Maranhão tem um governador, Flávio Dino, do PC do B (Partido Comunista do Brasil). Dino, aliás, foi escolhido "o melhor governador do Brasil". Só que ser contra o governo Bolsonaro não implica necessariamente em ser comunista.
E ontem à noite, às 22h, o programa Roda Viva entrevistou o deputado federal Alexandre Frota, neotucano, expulso recentemente do PSL, o partido do governo Bolsonaro.
Tratado pelo programa com o respeito que se dá a um grande estadista, Frota disse que é "normal" produzir notícias falsas (fake news), durante a campanha eleitoral. "Faz parte do jogo", afirmou o deputado, condenado em vários processos movidos, entre outros, por Chico Buarque, Jean Wyllys e até um juiz.
Como assim? É "normal" mentir? Adulterar informações? Publicar notícias falsas com objetivo de eleger determinado candidato? É igual às queimadas, "que ocorrem sempre"?
Se houve utilização de fake news, para eleger Bolsonaro, o pleito deveria ser cancelado e outra eleição, convocada. Não foi uma eleição justa. Os eleitores foram enganados. Assim não vale. Não é "normal", nem "faz parte do jogo".
A Netflix exibe em seu catálogo de documentários Privacidade Hackeada, que trata do escândalo da Cambridge Analytica, empresa especializada em produzir fake news e eleger determinados candidatos.
A Cambridge Analytica estava por trás da eleição de Trump e também do plebiscito sobre o Brexit na Inglaterra, só para citar duas participações marcantes. Usou 50 milhões de perfis, repassados pelo Facebook.
A jornalista do The Observer, Carole Cadwalladr, é uma das personagens do documentário e diz exatamente isso: eleição na base do fake news é fajuta. O povo foi enganado. Não deveria valer.
Hoje, dia 20, faz 500 dias que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva está preso. É um aniversário do desmando jurídico. Publicações do site The Intercept mostraram que não havia provas contra Lula de que ele teria recebido o tríplex no Guarujá (SP) como forma de pagamento de propina. Apartamento, aliás, que nunca foi dele e onde ele nunca morou.
As conversas entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato - principalmente Deltan Dallagnol -, vazadas pela Vaza Jato, revelam que havia uma ação política para neutralizar Lula e impedi-lo de participar da eleição de 2018. Lula liderava as pesquisas de intenção de voto, apesar de toda a gritaria da mídia na época, reverberando as acusações da Lava Jato.
O filme Blade Runner se passa em novembro de 2019. Chove muito. O sol não consegue passar pela camada de nuvens escuras. Lançado, em 1985, era uma distopia futurista úmida e fria.
segunda-feira, 5 de agosto de 2019
A coragem de Glenn Greenwald
Autor de livros, jornalista em tempo integral, premiado, inteligente, rápido no gatilho intelectual, Glenn Greenwald, 52 anos, é admirado, principalmente, pela sua coragem.
Casado com o deputado David Miranda, "homossexual assumido" portanto, como se diz no cabeleireiro, Greenwald é um combo de atração do ódio de bolsonaristas e afins.
A série de furos jornalísticos que ele conseguiu com as gravações de promotores da Lava Jato, em conversas íntimas com o então juiz Sergio Moro, expôs ao mundo aquilo que todo brasileiro, ligeiramente informado, já imaginava. Moro não era um juiz imparcial. Ao contrário. Longe disso. Far away.
Moro parecia liderar a operação Lava Jato, ajudando na coleta de provas, orientando investigações, julgando e condenando, mesmo sem as provas necessárias. Como foi o caso do ex-presidente Lula, que está preso por causa de um apartamento no Guarujá, onde ele nunca morou, nem nunca foi dele.
A Lava Jato foi a maior operação do Judiciário brasileiro contra a corrupção. Inegável. O problema é que - como a Vaza Jato de Greenwald mostrou - nem sempre seus protagonistas agiram dentro da lei.
As mensagens secretas entre Moro e o coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, indicam que o Judiciário foi usado para fins políticos. O principal deles: impedir a eleição de Lula, que liderava todas as pesquisas de intenção de voto. Havia ali uma colaboração malcheirosa entre promotores e o juiz.
Na trama para impedir a eleição de Lula, os procuradores, colegas de Deltan, reclamavam dos desvios éticos de Sergio Moro. Havia ainda uma cortina de fumaça (para usar uma expressão nova) que levava os ingênuos a acreditar que a Lava Jato também investigava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Enquanto Moro virava Superhomem, Deltan Dallagnol aproveitava a fama para faturar os tubos com palestras. Em uma dessas palestras, Dallagnol recebeu R$ 33 mil da companhia de tecnologia Neoway. O problema: a Neoway era investigada pela Lava Jato, citada numa delação de Cândido Vaccarezza.
As conversas revelam a preocupação da Lava Jato, com os enroscos legais de um dos filhos do presidente, Flávio Bolsonaro. O ex-assessor de Flávio, Fabrício Queiroz, fez movimentações financeiras suspeitas. Iniciadas as investigações, Queiroz desapareceu e nunca mais foi encontrado.
Seria uma boa se algum jornalista mais atrevido localizasse Queiroz e revelasse o paradeiro dele. Até a deputada Janaína Paschoal gostaria de saber onde foi parar o Queiroz.
Quando ficou sabendo da confusão em que Flávio Bolsonaro estava metido, Moro preferiu nada fazer. Temia, provavelmente, perder o cargo de ministro. Em 21 de julho, o The Intercept publicou outra bomba:
"No dia 8 de dezembro de 2018, Dallagnol postou num grupo de chat no Telegram, chamado Filhos do Januario 3, composto de procuradores da Lava Jato, o link para um reportagem no Uol sobre um depósito de R$ 24 mil feito por Queiroz numa conta em nome da primeira-dama, Michelle Bolsonaro.
"Segundo o texto, a “transação foi apontada como 'atípica' pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e anexado a uma investigação do Ministério Público Federal, na Lava Jato”. 'Queiroz movimentou R$ 1,2 milhão entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017. A comunicação do Coaf não comprova irregularidades, mas indica que os valores movimentados são incompatíveis com o patrimônio e atividade econômica do ex-assessor'”.
O promotor Roberto Pozzobon avaliou: "1) é algo que precisa ser investigado; 2) tem toda a cara de esquema de devolução de parte dos salários como o da Aline Correa que denunciamos ou, pior até, de fantasmas". Aline Correa era deputada pelo PP de Pernambuco, filha do também deputado Pedro Correa, condenado no Mensalão. Aline foi alvo de processo criminal da Lava Jato.
Moro ficou quietinho. A Lava Jato preferiu continuar batendo em Lula e cia. do que enveredar por essa seara de espinhos e maus odores. Queiroz, por falar nele, ainda não deu as caras. Se você, leitor, souber onde ele se encontra, por favor, dê um toque para a gente.
A Vaza Jato de Greenwald teve o mérito de tirar a virgindade ética de Moro e dos promotores da Lava Jato. Não havia ali, necessariamente, busca pela verdade, nem apenas luta contra a corrupção. O alvo era, nitidamente, político. Destruir Lula e o PT. Foram bem-sucedidos.
Não se pode esquecer que as investigações da Lava Jato tiveram o mérito de mostrar um amplo e encardido esquema de corrupção, envolvendo políticos, empreiteiras, funcionários da Petrobras e operadores financeiros. Foram bloqueados 2 bilhões e 400 mil reais e repatriados 745 milhões de reais. Condenadas 159 pessoas.
O PT, como mostra o documentário Democracia em vertigem, precisou se aliar às velhas oligarquias, adotar os mesmos procedimentos, para chegar - e se manter - no poder.
A compra de deputados pelo Mensalão, o escândalo do Petrolão para corromper políticos de vários partidos (PT, PMDB, PP), trouxeram vergonha para aqueles simpatizantes que, nos anos 80, ostentavam com orgulho o broche da estrelinha vermelha.
O PT não inventou a corrupção, mas mergulhou nela. Esmerdeou sua bandeira. Destruiu um dos mais importantes projetos de igualdade econômica, que presenciamos no Brasil, ao permitir que seu flanco fosse aberto para penetração da direita raivosa.
Chegou agora o governo ultraliberal de Jair Bolsonaro para aniquilar direitos adquiridos, destruir sonhos acadêmicos, cortando verbas das universidades federais e bolsas de estudo. O País está paralisado. Imóvel. Afundando, como um elefante doente no lamaçal.
Felizmente, podemos contar com jornalistas do porte de Glenn Greenwald, esse norte-americano, que parece um personagem de Grahan Greene, só que às avessas. Greenwald é um americano intranquilo. Alerta. Pronto a implodir as casamatas da direita beligerante, com seu corajoso site The Intercept.
Se fôssemos contar apenas com a mídia tradicional, muito provavelmente as conversas hackeadas da turma de Moro/Lava Jato jamais chegariam ao nosso conhecimento. Como mostram as pesquisas, o povo brasileiro nunca desconfiou tanto da mídia tradicional como agora. E tem toda razão.
Assinar:
Postagens (Atom)
A primeira travesti do Bois de Boulogne
Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...
-
O filme foi premiador em Cannes A cerimônia de entrega do Oscar acontece no domingo, 15 de março próximo. Espero que o filme “O agente sec...
-
Tiago Leifert está feliz da vida com a Claro e me convidou para ser feliz também; só que não Atualmente, estou no interior de São Paulo. P...










