terça-feira, 4 de junho de 2019

Viagens de motocicleta





Sonhei com a minha tia. Ela usava um vestido azul (não me lembro na vida real de tê-la visto com esse vestido; no dia a dia, ela raramente usava vestido). Estava no fundo de uma sala ou salão. Abriu os braços e nos abraçamos emocionados. Eu e ela dizíamos: “Que saudades! Que saudades!”. Minha tia morreu há muito tempo. Câncer.

Gostava muito da minha tia. Ela tinha uma biblioteca limitada, com algumas coleções (Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, José de Alencar). Os livros, que eu mais gostava, estavam lá no alto. Na parte proibida para menores. Foi naquela prateleira superior que encontrei O Poço da Solidão, de Radcliffe Hall. Edição de 1951 da Livraria José Olympio Editora, tradução de José Geraldo Vieira e uma nota explicativa de Havelock Ellis. 


 A autora de O Poço da Solidão, Radcliffe Hall
Em meia dúzia de linhas, cheio de dedos, Havelock Ellis elogia o estilo da autora, sem mencionar que se trata de um livro sobre uma lésbica.

Também na parte de cima da prateleira, minha tia colocara os livros de Harold Robbins, com tradução de Nelson Rodrigues; Henry Miller (Sexus) e, por uma questão de nacionalidade talvez, Ernest Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram).

Spoonhandle, de Ruth Moore, tinha a capa azul dilacerada, presa por uma fita adesiva. Na tradução em português, chamava-se Capitão do Cabo da Colher. Foi o meu grande livro da adolescência. O futuro estava todo lá: a luta pela preservação, os gananciosos de sempre, os predadores, os parentes ligados à escória. 

        Spoonhandle contava a história de uma colônia de pescadores no Maine e como o lugar ia ser ameaçado pela especulação imobiliária. Dois irmãos pescadores tentavam manter o lugar intacto, enquanto um terceiro irmão, gordo e burocrata, queria fazer dinheiro, matando a natureza. A cena em que o irmão pescador dá um tapa na cara do gordinho é deliciosa. Ruth Moore fez sucesso nos anos 50. Frequentou a lista dos mais vendidos do New York Times. Tentei inúmeras vezes descobrir seu endereço, mas não obtive sucesso. Queria escrever uma carta para ela, falando o quão importante tinha sido seu livro para mim.


Ruth Moore, autora de Spoonhandle

Em 1986, citei Ruth Moore, durante um curso na Fairleigh Dickinson, em Nova York, e os professores não sabiam de quem se tratava (talvez isso explique por que a universidade fosse considerada, anos depois, uma das piores dos EUA). A carta nunca foi escrita. Com o advento da internet, soube que Ruth Moore havia falecido em 1989.  

Freud estava certo. Os sonhos são a realização de um desejo. O problema é que eles são atravessados, veem na forma de reflexo do inconsciente. São tortos, caleidoscópicos. É difícil interpretá-los. Por isso, as pessoas procuram ajuda. Contam seus sonhos para alguém de fora, que ouve, anota e mata a charada.

Li toda a obra de Freud (inclusive a correspondência), por isso, às vezes, consigo decifrar meus sonhos. Sonhei com a minha tia na véspera do aniversário da minha mãe. Obviamente, teria que ligar para ela, cumprimentando-a pelos quase 100 anos de vida. 

 Minha mãe teve uma tarefa difícil na vida, que foi me ter como filho. Aos 17 anos, pus uma mochila nas costas e fui de carona até o Rio Grande do Sul. Meu cabelo era comprido. Usava jeans surrados e lia Demian, de Hermann Hesse, leitura obrigatória de todo mochileiro da época. 

Lembro de chegar na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, e me deparar com uma beleza natural de perder a fala. Caminhava pelas dunas de areia branca, a lagoa limpa e transparente ao fundo, aqui e ali, barraquinhas de ambulantes, vendendo camarões rosa gigantes fritos. 

Caminhei pela ponte Hercílio Luz (hoje, ameaçada de desabar, incapaz de se sustentar por conta própria). Encontrei outros mochileiros na ilha. Florianópolis, na época, era uma cidade pequena, acolhedora, repleta de verde e sombra. 

Anos depois, retornei a Floriá e não reconheci mais a lagoa, nem a cidade. Não havia sinal daquele lugar que eu tinha amado no início dos anos 70. O crescimento imobiliário havia implodido as belezas naturais. Como sempre, a destruição e o dinheiro falaram mais forte.  

Descendo pela BR 101, estacionei em Criciúma, onde fui perseguido por mineiros, roupas e rostos enegrecidos pela extração do carvão, que não gostaram do meu cabelo comprido. 

Lembro deles em cima de uma caminhão mambembe, gritando ofensas. Xinguei de volta. Fiz sinais obscenos. O caminhão parou. Uns 30 mineiros desceram do veículo e me perseguiram por uma estrada de terra esburacada. É claro que eu corri mais rápido, senão não estaria aqui, contando a história. 

Em Porto Alegre, caminhei até a casa de Érico Veríssimo. Parei diante da porta, mas não tive coragem de tocar a campainha. 

Aos 19 anos, comprei uma moto. No verão, acompanhado por um amigo também motociclista, fiz a viagem de volta ao Rio Grande do Sul. Fomos pela BR 116 e também pela BR 101, que eu já conhecia. As motos quebraram. Em meio às tempestades de verão, escapamos de ser atropelados por caminhões gigantes pelo menos umas cem vezes. 

Em casa, minha mãe não conseguia dormir. Varava as madrugadas, assistindo TV, preocupada com o filho motoqueiro. 

Nos anos seguintes, faria várias viagens de motocicleta. A pior delas foi para a Bahia. Chovia sem parar. Lembro de estar parado em uma estrada, um caminho - meio de terra, meio de asfalto - nas proximidades da usina nuclear de Angra dos Reis, quando vi aquele caminhão do tamanho de um prédio de três andares vir se aproximando, chegando cada vez mais perto, tomando conta de tudo até parar a uns dez centímetros da minha perna, com as rodas escorregando na lama. 

O caminhoneiro desceu o vidro. Pôs a cabeça para fora da porta e perguntou se eu não tinha medo de morrer. Estranhamente, não tinha. Era jovem e como todo jovem me achava imortal.

Aos 20 anos, saí da casa de meus pais. Aluguei um quarto em uma casa no bairro de Moema e fui morar sozinho. A casa, um sobrado simpático com jardim na frente, era de um alemão, que viera ao Brasil, depois do fim da 2ª Guerra Mundial. Era viúvo. Morava só. Por isso, alugava os quartos para jovens, como eu. Ele lia livros sobre a Luftwaffe, blitzkrieg, tanques Panzer. Cozinhava repolho e outras barbaridades malcheirosas. 

Minha mãe não entendia por que eu tinha saído de casa. Uma vez, de manhã, saí correndo para ir trabalhar. Estava atrasado. Enquanto tirava a corrente da moto, ela aparece ao meu lado, chorando, segurando um lencinho. Pedia para eu voltar para casa. Gritei com ela. Pedi para ela sumir da minha vida. Nunca mais me procurar. "Me esqueça", pedi. 

Enfim, não era fácil ser minha mãe. 

Com 30 e poucos anos, uma reviravolta na vida pessoal fez com que eu baixasse na casa da minha mãe às 23h. Não tinha para onde ir. Carregava duas malas com peças de roupa, naquela situação "sem eira nem beira'. 

Lembro do meu pai, com aquele casaco de tweed de sempre, chinelos de estilo franciscano que nunca combinaram com as meias escuras, mexendo no porta-chaves e vindo em minha direção com algo na mão. Ele me entregou a chave de casa e disse: "Seja bem-vindo". Foi um "tapa com luva de pelica", como se dizia no tempo em que as mulheres elegantes usavam luvas. 

Meses depois, aluguei uma casa, próxima de onde moravam meus pais. Era um sobrado confortável, com um jardim minúsculo nos fundos, onde meus filhos, milagrosamente, colhiam morangos.  

Voltando ao sonho, tendo em vista o histórico conturbado mãe-filho, posso imaginar que quem eu gostaria de cumprimentar no aniversário da minha mãe era, na realidade, minha tia. Que está morta. Então, o sonho fez a parte dele, realizando um desejo inconsciente. Freud, como sempre, está de parabéns. 




quinta-feira, 9 de maio de 2019

Governo Bolsonaro padece da síndrome Dunning-Kruger



Zezinho chega da escola e fala para a mãe: "Descobri que sou mais inteligente que a professora". "Por quê?". "Passei de ano e ela continua no mesmo".

Lembrei dessa piada ao ler a notícia que o nosso querido ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), tirou nota zero em sociologia na USP.  

Weintraub não deixa por menos. Confunde o autor Kafka com o prato árabe kafta. Com uma bela caneta Bic, assina o que ele chama de "contingenciamento" e tira 30% da grana das universidades federais. Vai explicar o corte, usando chocolates, e erra ao confundir 30% com 3% (uma tristeza). Paralisa pesquisas. Corta bolsas de estudo. Interrompe mestrados e doutorados. Destrói carreiras. Mata o conhecimento. O governo Bolsonaro é um devastador incêndio cultural de consequências nefastas. 

Um psicoterapeuta freudiano diria que Weintraub está se vingando do mundo acadêmico. Está dando um tapa na cara daqueles velhos professores universitários que lhe deram zero na faculdade. "Cheguei ao poder. Agora, vocês vão ver o que é bom pra tosse".

Não acredito nessa versão. Li toda a obra de Freud e de autores neofreudianos, durante o doutorado, feito na USP com bolsa do CNPq. Graças ao CNPq, pude fazer o que se chama de "bolsa sanduíche" e estudei na Sorbonne, em Paris, tendo como orientador o renomado sociólogo francês Michel Maffesoli.

Nasci em uma família de classe média. Nos anos 60, tínhamos TV, fogão, geladeira e até carro (DKW). Aos 15 anos, a empresa onde meu pai trabalhava faliu e tive de ir à luta. Arrumei emprego em uma adega. Carregava caixas de bebida. Entre 16 e 18 anos, fui pesquisador de um instituto do tipo Ibope, indo de casa em casa, para saber o que os telespectadores tinham assistido na noite anterior. Aos 19, era auxiliar administrativo no Bradesco Vila Mariana.

Nunca parei de trabalhar, nem de estudar. Fiz duas faculdades à noite: letras e jornalismo. Achava meu conhecimento extremamente limitado, por isso fui para a pós-graduação, fazendo mestrado na Universidade Metodista, e posteriormente o doutorado na USP. 

Sem bolsa de estudo, não poderia ter cursado a pós-graduação. Sem bolsa de estudo, não teria feito minha tese Espreme que sai sangue; hoje, felizmente, referência acadêmica na área de comunicações.

Esse pessoal, que ocupou o governo, não está se vingando dos acadêmicos. Como o Zezinho da piada, eles padecem da síndrome de Dunning-Kruger.

Aliás, lendo o jornal, com as últimas notícias do governo - sempre angustiantes - me sinto cercado desse pessoal. 

Os efeitos de Dunning-Kruger parecem se espalhar como as sementes de dente de leão. Na semana passada, assisti a um documentário na Netflix sobre gente que acredita que a Terra seja plana. Os terraplanistas. Outros me param na rua e me explicam que o mundo foi construído em seis dias por um ser superior, o Criador, que descansou no sétimo dia. Tem aqueles que ficam no YouTube e querem me influenciar "digitalmente", vendendo porcarias que eles ganham para veicular. É o famoso jabá normatizado.

Simultaneamente, indiferente aos terraplanistas, um robô chinês planta algodão em solo lunar. E o carro da Tesla já passou pelo planeta Marte.

Estou lendo A Dança do Universo, de Marcelo Gleiser. Ele faz um levantamento interessante sobre o conhecimento humano. Cita os gregos que fundaram a filosofia ocidental, como Tales de Mileto e seus seguidores Anaximandro e Anaxímenes, entre outros. 

Quinhentos anos antes de Cristo, esse pessoal já falava do universo, da evolução das espécies pela água, previam eclipses solares, discorriam sobre o movimento das estrelas, mencionavam  a existência de planetas ("viajantes do espaço", em grego) e ensinavam seus discípulos que toda a matéria era constituída de átomos ("aquilo que não pode ser dividido"). 

Filósofo, matemático, astrônomo, Tales de Mileto fez fortuna, prevendo com um ano de antecipação uma safra recorde de azeitonas. Tales comprou dezenas de prensas e, quando as azeitonas se multiplicaram nas colheitas, ele enriqueceu alugando as prensas para os proprietários de terras. 

Gleiser escreve que "se assumirmos que 'algo' criou 'tudo', caímos em uma regressão infinita; quem criou o 'algo' que criou o 'tudo'?" Ele observa que a necessidade de entender a nossa origem e a do Universo é inerente a todas as culturas. 

Todos os agrupamentos humanos fizeram o que ele chama de "A Pergunta": De onde viemos, que pode se multiplicar em centenas de outras perguntas complementares: estamos sós no Universo? há outras vidas inteligentes em outros mundos? e por aí em diante.

O que estou querendo dizer com esse papo todo é que em determinados momentos da existência humana convivemos com homens e mulheres de inteligência acima da média. Gente que foi atrás de respostas e levou o conhecimento até onde ninguém jamais estivera, parafraseando Jornada nas Estrelas

Ocorre que, na maior parte do tempo, somos obrigados a conviver com gente muito burra, antiquada, ultrapassada, conservadora, tacanha, que faz a sociedade regredir e não avançar. 

Tenho pena daquele rapaz, que quer estudar e precisa de uma bolsa de estudos, e hoje vai dar de cara com a porta dos recursos universitários fechada. 

Enquanto Weintraub fechava a porta para o conhecimento, na Alemanha, houve o repasse de 160 bilhões de euros para as universidades e pesquisadores.

Para encerrar, felizmente, temos uma boa notícia no Brasil: os nossos amados juízes do STF vão continuar comendo lagosta e tomando champagne. A Justiça liberou a licitação para a compra desses alimentos, sem dúvida, essenciais para o bom funcionamento das togas e paramentos dos deuses que habitam o Supremo.   

   





   

  



  

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Prazer vicário - Por que as séries nos atraem



Foram 10 anos. De 1994 a 2004, Friends esteve em cartaz ao longo de 236 episódios. Hoje, a série ainda pode ser revista no canal pago Warner e na Netflix, além de sites e sabe-se lá mais onde. 

Três rapazes e três moças que vivem no bairro boêmio de Greenwich Village, se encontram e se desencontram em aventuras amorosas hilárias. Eles são simpáticos, jovens e "têm a vida toda pela frente", como se dizia na época da máquina de escrever e do linotipo. 

Um fã do seriado recriou a cafeteria, onde eles se encontram. Outra fã decorou seu apartamento igualzinho ao da personagem Monica. Um terceiro calculou quando dinheiro Chandler emprestou a Joey. Não faltam histórias de fãs que comprovam como a série conquistou público de vários países e idiomas.

Friends é exemplo de série bem-sucedida. É leve. Não discute assuntos escabrosos como política, guerras por causa de petróleo, perseguição a minorias, capitalismo e exploração. 

A pessoa teve um dia péssimo. Enfrentou congestionamento. Descobriu que precisa trocar o pneu do carro. Aquele dinheiro que deveria entrar, não entrou. Apareceu um boleto bandido...  Chegando em casa, o telejornal enfia histórias trágicas para cima do infeliz: rompeu uma barragem e matou 233 pessoas; um prédio pirata, sem alvará, sem nada, desaba e mata 24 moradores; deputados ganham 40 milhões de reais em verbas para apoiar governo; a Catedral Notre-Dame de Paris arde em chamas... "É só notícia ruim", como diz o Zé do Boteco.

Não é preciso continuar sofrendo. Basta sintonizar o canal correto. Aquele que exibe Friends. Por um tempo, o infeliz se sentirá menos infeliz. Vai dar risada, se divertir, achar a vida até suportável. 

É o que se chama de prazer vicário. Você vive - alegrias, tristezas, decepções, paixões, aventuras, frustrações, conquistas, perdas - por meio do outro. 

O segredo de séries bem-sucedidas como Friends é fugir de tudo aquilo que possa nos trazer alguma preocupação. Pode-se até falar em mudanças climáticas, mas em tom de blague, com Phoebe, a pirada do grupo, falando um disparate qualquer. 

Pelo prazer vicário, não é só mercadoria leve, como os produtos oferecidos pelas novelas da Globo, por exemplo, que encantam os telespectadores, desde 1965, quando a emissora estreou sua primeira telenovela, O Ébrio

Muitos personagens de seriados servem também para o público descarregar sentimentos violentos, como em Hannibal, Game of Thrones, Spartacus, Dexter. Ou ainda pulsões sexuais reprimidas que a gente encontra em Eu, tu e ela, Weeds. Orange is the new black.

Essa busca pelo prazer vicário é o que atrai os consumidores de novelas, seriados, filmes. Em que momento tem início essa busca? Desde sempre. É parte da cultura humana. Antes dos livros, os humanos contavam histórias. Passavam sua cultura, sua religiosidade, seus valores para as gerações seguintes por meio da oralidade. Depois, vieram os jornais, os livros e os grandes autores. 

Com a chegada do século 20, a busca pelo prazer vicário sofisticou-se. Era possível acompanhar pelo rádio novelas que antes só estavam disponíveis em jornais ou livros. Quando criança, lembro da minha avó ouvindo uma radionovela, religiosamente, todo final de tarde. A história se passava em uma fazenda. Pelo rádio, ouvia o cavalo trotando se aproximando da casa. O cavalo parava, relinchava. O vaqueiro descia do cavalo, subia dois ou três degraus e batia na porta. Minha avó interagia: "Meu Deus, quem será?". A radionovela terminava às 18h, quando tinha início A hora da ave Maria. Ela rezava e, em seguida, ia para a cozinha preparar o jantar. 

Entraram em cena a TV, a internet, os iphones, as TVs pagas e por streaming, mas aquele antigo desejo, aquele amor antigo pelo prazer vicário não saiu de moda. Continua vivo e forte dentro de nós.      


  



  






terça-feira, 9 de abril de 2019

Os comunistas estão na ordem do dia


Os comunistas estão na moda. Nunca se falou tanto em comunismo e comunistas como agora, em 2019. No século passado, em 1946, durante a Assembleia Constituinte, o Brasil contava com 14 deputados comunistas - entre eles, o escritor baiano Jorge Amado (eleito por São Paulo). 

Luiz Carlos Prestes (1898-1990), senador pelo Partido Comunista Brasileiro, era sua liderança mais carismática e mitológica. Prestes ficaria apenas dois anos no Senado, tendo seus direitos cassados. As eleições de 1946 foram, talvez, o apogeu do PCB, o Partidão, no Brasil.

De lá para cá, o Partidão só tem perdido espaço político. Em outubro do ano passado, os jornais noticiaram que o PCB e o PC do B (Partido Comunista do Brasil) entrariam na "cláusula de barreira". Sem o total de parlamentares eleitos, exigido pela lei eleitoral, ficariam sem tempo na TV e sem a grana do fundo partidário.

Para um observador com recursos parcos de inteligência, isso seria um indicativo que os partidos comunistas registrados no Brasil estariam enfrentando séria crise existencial. 

Mas, para o governo Bolsonaro, os comunistas estão na ordem do dia. Tem comunista em tudo quanto é lugar. "Olha lá, atrás daquela porta...Um comunista escondido". Tem comunista em banco, em grandes empresas. Tem comunista até dono de jornal. Acredite...

O discurso do novo ministro da Educação, Abraham Weintraub (pronuncia-se Vaintraubi), segue nessa linha. Weintraub enxerga comunas em monopólios, instituições financeiras e - pelo que se depreende de sua fala - os esquerdistas estão localizados, principalmente, dentro das grandes empresas jornalísticas. 

Assim, de acordo com Weintraub, João Roberto, José Roberto e Roberto Irineu - filhos herdeiros do poderoso magnata da mídia brasileira Roberto Marinho – seriam “comunistas”, comandando a Rede Globo, tendo um patrimônio de 29 bilhões de dólares, segundo a revista Forbes.

Também seriam “comunistas” Johnny Saad (Bandeirantes), Luiz Frias (Folha de S.Paulo), a família Mesquita (Estadão), a família Sirotsky (Grupo RBS).

O comunismo, como se aprende no Ensino Fundamental, é estatizante. Grandes empresas, monopólios, bancos, tudo isso deixa de pertencer a seus sócios, suas famílias, e passa para o controle do governo (comunista). Depois da Revolução Russa, em 1917, não havia mais industriais, banqueiros, fazendeiros. Existia apenas o controle dos meios de produção pelo estado bolchevique.

Seguindo o raciocínio do novo ministro da Educação, as famílias Frias, Marinho, Mesquita, Saad, Sirotsky, fariam parte de um majoritário plano marxista/bolchevique que visaria dar um tiro em seus próprios pés, entregando suas propriedades e suas fortunas de características planetárias para o estado comunista. Assim, eles ficariam de mãos abanando, indo trabalhar, quem sabe, em uma fábrica de automóveis New Trabant.

Faz algum sentido essa ladainha?

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, radicado na Alemanha, onde leciona na Universidade de Berlim, escreve em seu livro Sociedade do Cansaço sobre as enfermidades que marcaram as épocas da humanidade.

Até o século 20, vivia-se o temor das epidemias virais e bacteriológicas. Descobertos os antibióticos, afastados os riscos das pandemias, entramos no século 21 em que prevalecem as doenças neuronais, como depressão, transtorno de déficit de atenção, transtorno de personalidade limítrofe, síndrome de burnout.

“O século passado foi uma época imunológica. Trata-se de uma época na qual se estabeleceu uma divisão nítida entre dentro e fora, amigo e inimigo (...) Mesmo a Guerra Fria seguiu esse esquema imunológico”, escreve Chul Han.

O governo Bolsonaro e seus ministros do calibre de um Weintraub frequentam os anos cinzentos da Guerra Fria. Para eles, os comunistas são o inimigo a ser derrotado. 

Eles continuam imersos na “época imunológica”. Seus discursos são antigos, seus inimigos foram desgastados pelo tempo, sua visão de mundo é velha. Eles pertencem ao século 20. Aos anos 50 do século 20. Ainda não chegaram na Revolução Estudantil de maio de 1968. Não viveram a liberação sexual dos anos 60. É um pessoal que usa um vocabulário secular, ultrapassado.

O Brasil, entra século e sai século, sempre retorna a esse jogo mentiroso. Em 1964, os militares derrubaram o governo João Goulart, em razão da “ameaça comunista”.

Goulart era proprietário rural. Ele faria a Revolução Comunista e entregaria seus 14 mil hectares de terra e suas 30 mil cabeças de gado, que pastavam nos pampas de São Borja (RS), para os bolcheviques tupiniquins?

Em 1989, na primeira eleição para presidente que participou Luiz Inácio Lula da Silva pelo PT, seus adversários o chamavam de “comunista”.

“Não vamos deixar os comunistas vencer”, gritavam os partidários de Fernando Collor de Mello, diante dos colégios eleitorais.

Durante o governo Dilma, lembro de um amigo de infância, apavorado, me informando que vivíamos sob uma “ditadura comunista”.

Até quando vamos aturar tanta ignorância? Não é uma ignorância do não saber, do desconhecer, mas uma ignorância forjada, proposital, que visa a confusão, que cria “inimigos bacteriológicos” e os chama de “comunistas”.

Precisamos de palavras novas. Sinceramente, precisamos também de um novo governo, sem esses discípulos de Olavo maluquete de Carvalho, e por aí afora.


   
      

  

segunda-feira, 25 de março de 2019

É fogo na favela


A última favela a pegar fogo em São Paulo ficava no bairro da Mooca. Os barracos situavam-se na beira do asfalto. Estendiam-se horizontalmente pela rua Pires do Rio até o viaduto Bresser. Um homem morreu e um suspeito de atear o fogo foi preso. 

Pessoas que passavam pelo local comemoraram o incêndio. Buzinavam os carros. Ouviam-se gritos de felicidade. A favela estava em chamas. Finalmente, alguém tinha dado um jeito naquilo. 

Não é fácil você trafegar todo dia pela Radial Leste e dar de cara com aquela monstruosidade urbana. Barracos horrorosos grudados uns aos outros. Gente pobre e miserável se arrastando por ali. Dá uma sensação ruim. Parece que a cidade falhou, que nós, cidadãos, falhamos também em algum momento. 

Por isso, o incêndio foi libertador. Nos livramos daquele entulho urbanístico. Expulsamos, indiretamente, aquele monte de "vagabundos", como gritou alguém que passava de carro pelo local na hora do fogaréu.

Foi um fogo bom. Libertador! Parente, talvez, daquele mesmo fogo que reduziu a cinzas Sodoma e Gomorra, cidades onde, de acordo com a tradição bíblica, "habitava o pecado".

Será que sempre fomos assim? Cínicos? Será que em outros tempos, em outros anos, quem sabe nos anos 50 pré-industrialização, pré-internet, as pessoas que estivessem passando pelo local não teriam parado seus carros e corrido em direção às chamas para tentar ajudar os favelados? 

Onde foi parar a fraternidade, a cortesia, o amor ao próximo? Que gente é essa que comemora morte e destruição? Que raça de desgraçados infelizes estamos produzindo nesse país? Onde esses imbecis estudaram? Quem são seus pais, seus avós? Que herança abjeta é essa? Que DNA podre é esse que produz gente tão insensível e cruel?

A melhor pista para entender a fábrica que vomita esse tipo de gente vem de cima. O governo (em todas as suas esferas) trata mal as pessoas. Não há carinho. Não há empatia. As forças políticas são conservadoras e alinham-se para preservar privilégios. O Brasil é campeão em desigualdade social. O número de pobres cresce. Os salários são ridículos e ninguém parece se importar muito com isso. 

Um dos moradores da favela que pegou fogo disse que ganha R$ 800,00 por mês, como estivador. Ele carrega sacos de cimento para a fábrica que fica ali perto. Por isso, a favela destruída também era chamada de "favela do cimento". 

Como um industrial consegue pagar R$ 800,00 para um trabalhador e dormir bem à noite? O que uma pessoa consegue fazer com R$ 800,00 por mês? Como se vestir, pagar aluguel, comprar comida com essa miséria de salário? 

Para aqueles céticos que dizem que "não tem jeito", que "nada muda", a humanidade coleciona casos de países bem-sucedidos, cujos governos tratam seus cidadãos com muito mais carinho do que as autoridades encasteladas em Brasília, onde mora o verdadeiro Darth Vader.

Tem um país que, desde 1930, quando nasce uma criança, os pais recebem de presente uma bela caixa de papelão, recheada de roupinhas, fraldas, brinquedos, artigos de higiene e livros infantis. 

A caixa é tão boa e resistente que pode ser usada como berço. Nesse mesmo país, a mãe (ou o pai) pode ficar em casa, cuidando do recém-nascido por três anos. Três anos! E o governo paga um salário decente para o pai ou a mãe que for cuidar da criança. 

É um país com índice baixíssimo de corrupção, com empresários empreendedores e inovadores. Várias avaliações o consideram "o melhor do mundo em educação" e um dos países em que "as pessoas são mais felizes". 

Como a caríssima leitora deve ter adivinhado, estou falando da Finlândia, país com pouco mais de 5 milhões de habitantes. 

Sabe qual foi a receita para a Finlândia sair da miséria e encabeçar os rankings de melhores em tudo? 

- Igualdade e investimento pesado em educação. 

Enquanto isso, aqui no Brasil, os muito ricos são prisioneiros de condomínios superprotegidos e prédios envidraçados, fazendo o possível para manter a desigualdade social, enquanto contam as horas e os minutos para o avião decolar com destino a Miami. 

"É fogo na favela. Pena que não seja em todas as favelas. Pena que o fogo não aniquile todos os pobres e miseráveis", devia estar pensando aquele tipo cordial, discípulo de Lord Vader, que comemorou a destruição dos casebres dos "vagabundos".  
     

  


segunda-feira, 18 de março de 2019

Prefeituras preguiçosas, concessionárias incompetentes, reestatização e salve-se quem puder

Não sei onde é, mas a minha rua é igual 


Você sabe que está no Brasil ao trafegar pelas ruas de suas cidades. Sobram buracos, espalham-se armadilhas invisíveis, imperam o descaso, a omissão, a ausência do poder público. 

Fico pensando o trabalho que deve dar ser eleito prefeito de algum burgo... 

Precisa fazer campanha, correr atrás de eleitores, pegar criancinha chata no colo, comer coxinha de boteco. Não é para qualquer um. O sujeito tem que ter muita disposição e foco. 

Na primeira semana, eu já desistia. Os eleitos vão em frente. Conseguem os votos necessários. Sentam naquela cadeira, onde está escrito "prefeito" e...

O que será que eles ficam fazendo o dia inteiro?  

No meu dia a dia, sou obrigado a trafegar por ruas e avenidas da região metropolitana de São Paulo, inclusive dentro da própria capital. E todos os dias me pergunto o que esses prefeitos preguiçosos ficam fazendo que não conseguem o mínimo, que é fazer a manutenção das ruas. Se fizessem só isso, já seria uma realização notável.

Não queira estar no meu lugar, caríssima leitora, nem pense em circular de carro por cidades como São Paulo, Carapicuíba, Cotia, São Bernardo, Santo André, Osasco, Diadema. É deprimente topar com tanta irresponsabilidade do poder público. 

Caro prefeito, será tão difícil assim asfaltar uma rua? Tapar buraco? Refazer o asfaltamento? Manter as ruas sinalizadas, iluminadas, adequadas do ponto de vista da cidadania?

São anos e anos convivendo com essa tragédia. Sim, é também uma tragédia você pagar seu IPTU, seu IPVA, e não receber a retribuição mais elementar que é a garantia de trafegar com segurança e tranquilidade. 

Todos os dias caio em buracos. Buracos grandes, imensos, pequenos, médios, de grave e baixa intensidade. Buracos, buracos e buracos... Não é só na época de chuva, não senhora. Os buracos estão ali nas quatro estações do ano. 

Em Sorocaba (SP), moradores têm sinalizado os buracos da cidade com a foto do prefeito José Crespo (DEM), em plaquinhas (ver abaixo).


Em Sorocaba, moradores colocam fotos do prefeito nos buracos

Não adianta falar em privatizar a prefeitura, porque estamos até aqui desses serviços públicos privatizados, que prestam um lamentável serviço à população. 

A Enel (a nova Eletropaulo) é incapaz de manter por uma semana inteira - de domingo a domingo - a luz. Quase todo dia, acontece uma falha, uma queda súbita no fornecimento de energia. 

A CPFL, no interior, é uma bagunça. Você paga a conta e eles mandam avisar que a conta não foi paga. Envia o comprovante e eles não respondem. 

De onde veio tanta gente incompetente assim? 

Veio da privatização, da entrega dos serviços públicos a gente incapaz de fazer o que se espera deles. Na Europa, já se aplica a reestatização, por motivos óbvios: a empresa privada presta um serviço imprestável. 

Trafego também pelo Rodoanel Mario Covas, caríssima leitora. Para ter direito a isso, sou obrigado a pagar pedágio. Na ida e na volta, gasto 11 reais e oitenta centavos para dirigir em ritmo de rally, desviando da buracada. É buraco na ida e buraco na volta. 

As concessionárias (CCR e SPMar), que administram a buraqueira,  não são incomodadas. Os fiscais da Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) estariam dormindo? Basta dar uma volta pelo Rodoanel e constatar a buraqueira, a ausência de serviços elementares de manutenção. 

Vamos enviar despertadores, daqueles antigos que faziam um barulho desgraçado, para acordar a fiscalização da Artesp.  


Acorda, Artesp!!!


Ontem, naquela chuva implacável, achei que o pneu tinha furado. Parei o carro no acostamento e - surpresa - fiquei ensopado até os ossos e os pneus estavam nos conformes. O falso barulho de pneu furado era mesmo o piso defeituoso do Rodoanel. 

Se fosse colocar fotos do governador João Doria (PSDB) em todos os buracos do Rodoanel, acho que ficaria mais barato asfaltar os 172 quilômetros da rodovia. Haja foto do Doria para tanto buraco. 

A rua onde moro na Granja Viana é de terra. Gosto que a rua seja de terra. Durante o verão, não transmite calor como o asfalto. Gosto desse jeito rústico de morar. Só não acho legal a prefeitura não fazer a manutenção das ruas. Quando a situação torna-se limite, com buracos, lama, deixando as vias intransitáveis, é preciso implorar para as "autoridades competentes":

"Por favor, passem uma máquina na nossa rua, que aliás nem é mais rua, é só buraco".  

Como se a gente morasse de graça... 

Aliás, como estamos no mês de março e o carnê do IPTU não veio, acho que a prefeitura entregou os pontos. "Vamos parar de fingir, pessoal. Não temos capacidade de arrumar e iluminar as ruas. Por isso, não vamos mais cobrar IPTU. Fica por conta de vocês agora. Boa sorte".

E salve-se quem puder.  

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Enel abandona seus clientes no escuro

A empresa italiana Enel comprou a Eletropaulo

13 de fevereiro: 11h30. Sala de Audiência de Conciliação. Personagens: o reclamante (eu), a advogada da reclamada (Enel) e a juíza. 
Por que estou nesta sala?
Em 2018, caiu um galho sobre a fiação elétrica da rua onde moro. Minha casa tornou-se uma usina de voltagem enlouquecida. As lâmpadas explodiam. Os fios esquentavam e o meu computador derreteu.
Pedi ressarcimento à Eletropaulo, que não quis pagar o prejuízo. Por isso, entrei com um processo contra a empresa. Em junho do ano passado, a Eletropaulo foi vendida à Enel.

Agora, estamos ali na sala de audiência. A juíza pergunta à advogada da Enel se ela tinha alguma oferta a ser feita, se iria ressarcir meu prejuízo. A advogada diz que não e se cala. O processo vai seguir, sabe Deus até quando. Vamos todos ser intimados novamente. O Processo, de Kafka, sorri para mim.

Depois de um ano, a Justiça não foi feita. Não recuperei o dinheiro gasto por incompetência da concessionária de energia. O pior: descobri que a Enel consegue ser pior que a Eletropaulo.  A Enel é uma colecionadora de falhas, de interrupções e presta um serviço precário e incompetente à população.

Leia alguns relatos que peguei aleatoriamente na rede social:

"Quem pode nos ajudar? Às 13h, chegaremos ao terceiro dia sem energia. A resposta da Enel é que estão trabalhando para restabelecer. O problema é local. Trata-se de um disjuntor de poste. Serviço rápido e fácil. Temos cinco protocolos abertos, mas sem efeito, por enquanto".

"Minha mãe mora no quilômetro 28 da Raposo Tavares e está há três dias sem luz. Sem resposta e sem atenção alguma. Não sabemos mais o que fazer".

"Ficamos 18 horas sem energia."

"Fiquei sem energia desde segunda-feira. Descobrimos que a Enel apaga os protocolos do dia. Um descaso total. Entraremos com processo".

"Gente, está ficando ridículo essa nova empresa Enel, que comprou a Eletropaulo. Além da falta constante de energia, que já virou ortina, me encontro hoje há três dia sem luz e sem previsão de retorno".

"É revoltante pagar uma fortuna e se deparar com uma situação dessas".

"Devo ter uns 20 protocolos de reclamação. Toda hora é uma previsão diferente para a normalização da energia. E agora nem previsão de restabelecer a luz eles têm mais".

"É degradante. Estamos largados às traças. Não tem nenhuma autoridade para cobrá-los ou puni-los. A nossa comida estragada na geladeira é o prejuízo só nosso. Pessoas com medicamentos caros, que dependem da geladeira para mantê-los...É lamentável".

"Parte do Distrito de Utinga sem energia elétrica há 24 horas..."

O que diz o governador João Doria a respeito? O que o secretário de Energia do governo do Estado, Marcos Penido, tem a dizer? Por que cargas d´água ninguém cobra Doria e Penido? 

Com a palavra, os batedores de panela...

    
  

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Nem tão ruim, nem extraordinário, Green Book segue a cartilha

Viggo Mortensen e Mahershala Ali são os protagonistas de Green Book
Li artigos demolidores sobre o filme ganhador do Oscar, Green Book. São críticas que buscam muito mais chamar a atenção do leitor para o texto (e indiretamente para seu autor) do que, propriamente, fazer uma análise imparcial do filme. Um crítico qualificou Green Book como "o pior ganhador do Oscar". A maioria foi nessa linha destemperada.

Quem fizer uma análise equilibrada dos ganhadores do Oscar vai entender que estava na cara que o filme iria levar a estatueta. A academia de Hollywood não gosta de surpresas. Costuma seguir a cartilha convencional. Se Conduzindo Miss Daisy ganhou o Oscar em 1990, era mais do que normal que Green Book (um Miss Daisy com o farol invertido) fosse o ganhador. 

Dirigido por Peter Farrely e protagonizado por Viggo Mortensen e Mahershala Ali, Green Book conta a história de um pianista negro que contrata um motorista italianão para conduzi-lo Estados Unidos afora, durante uma turnê. 

Em Conduzindo Miss Daisy, uma senhora tradicional tinha como motorista um negro (o excepcional Morgan Freeman). Como se vê, o roteiro de Green Book fez um 69 com os personagens. 

Green Book está longe de ser um filme chato, que a gente não tem paciência de assistir até o filme, como é o caso de Roma, do mexicano Alfonso Cuarón. 

A direção de Peter Farrely é impecável. A gente nem lembra que Viggo Mortensen é o Aragorn de Senhor dos Anéis. Ele parece mesmo um italianão grosseiro, disposto a encher de porrada alguém que lhe chame de carcamano. 

Mahershala Ali, que se destacou em House of Cards como um consultor arrivista, vai bem na pele do pianista excêntrico, que viaja no banco traseiro do cadilac, com as pernas cobertas por um cobertozinho protetor. 

A reconstituição de época (o filme se passa em 1962) é detalhista, rigorosa e cede até espaço para um merchant sutil do KFC. Nada grosseiro e varejão ao estilo Milton Merchant Neves.

Ao longo dessa vida de filmes e estatuetas, já vi muito abacaxi levando prêmio. Entre Dois Amores, vencedor em 1986, é talvez um dos filmes mais chatos e arrastados que tive o desprazer de assistir, em uma época que estava no papel de crítico de cinema. 

Nesse tempo, passava as tardes em salas escuras, assistindo filme atrás de filme. Era estranho: quando saía da sala, topava com a luminosidade da vida lá fora. Um choque de realidade.

O musical Chicago, ganhador em 2003, também me traz recordações de muita dor e sofrimento. Sabe aquela hora que você não tem mais posição na poltrona do cinema? As pernas doem. Não consegue mais cruzá-las e descruzá-las. O corpo começa a formigar. Os olhos começam a se fechar contra a sua vontade...

Argo, premiado em 2013, dirigido e interpretado por Ben Affleck, é o mais Sessão da Tarde dos ganhadores da geração millennial. Mas nada se compara ao chatíssimo, interminável e claustrofóbico A Forma da Água, que levou a estatueta no ano passado. Este último, felizmente, não precisei assistir até o final.     






  

    

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ainda bem que Roma não levou o Oscar de melhor filme


Sinto antipatia pelo filme Roma, escrito, dirigido e produzido pelo cineasta mexicano Alfonso Cuarón. Já sabia o que me aguardava, quando entrei na Netflix e comecei a assistir este drama sobre uma empregada doméstica de origem indígena, vivendo na casa de uma família de classe média alta, no bairro Colonia Roma, na cidade do México. 

Durante longas duas horas e 15 minutos, acompanhamos a vida de muito trabalho e poucas alegrias da doméstica Cleo, que tem uma relação de irmã mais velha com os filhos de seus patrões. É ela quem cuida das crianças, que conta histórias na hora de dormir e que os acorda de manhã. 

Na prática, Cleo é uma Escrava Isaura, que não ganha o suficiente para se manter (alugar um apartamento, comprar um carro, cursar a faculdade), assim como acontece com grande parte dos trabalhadores brasileiros, sejam eles empregados domésticos ou não.

O filme não permite ao público nenhum tipo de evasão. Tobey Maguire não entrará voando pelo janela, vestido de Homem Aranha, para salvar Cleo. Também Michael Fox e Christopher Lloyd não virão do futuro e não arrombarão a porta da casa, com seu DeLorean, para resgatá-la. Desde o início do filme, a gente pressente que o destino de Cleo será medíocre e inexorável.

Para deixar claro a que veio, o filme é em preto e branco. Remete, é claro, ao neorealismo italiano. Em 1948, Vittorio De Sica dirigiu o filme clássico dessa época - Ladrões de Bicicleta -, que era em preto e branco. Na época, o processo de colorização do celuloide ainda encarecia de maneira proibitiva as produções cinematográficas. 

Ladrões de Bicicleta se passa no pós-guerra, em Roma, quando havia milhões de desempregados nas ruas. O protagonista consegue uma colocação de pregador de cartazes. Para manter o emprego, precisa de uma bicicleta. Ele penhora a roupa de cama da família. Arruma uma bicicleta e começa a trabalhar. O veículo é roubado. Ele e o filho iniciam um desesperado perambular pelas ruas da cidade, em busca da bicicleta roubada. O filme é emocionante. Impossível não se sentir tocado pela interpretação dos atores. 

Vittorio De Sica contou certa vez que para filmar a cena final necessitava que o garoto Enzo Staiola chorasse. Sem chance. O menino não chorava. De Sica teve então uma sacada. Escondeu um pacote de cigarros no bolso do paletó do garoto e o acusou de estar fumando em segredo.

Enzo disse que os cigarros não eram dele, que não sabia como o pacote tinha ido parar em sua roupa e...começou a chorar. Sem perder tempo, De Sica ligou as câmeras, os holofotes e gravou a última sequência de Ladrões de Bicicleta. Filme memorável, inesquecível, mesmo sendo em preto e branco. 

Hoje, Enzo iria processar De Sica por assédio moral. 

Talvez a minha antipatia por Roma, de Alfonso Cuarón, seja por essa rastejante vontade de criar empatia pelo sofrimento dos menos favorecidos, dos miseráveis. 

Acontece o mesmo com os filmes de Walter Salles. Refiro-me a Central do Brasil (1998) e Linha de Passe (2008). Linha de Passe, por exemplo, é um filme sobre fracassados. Ninguém ali vai ter sucesso, ninguém conseguirá realizar seus sonhos. A família de Linha de Passe terá 113 minutos para afundar lentamente seu barquinho, submergindo todos no naufrágio previsível.

É possível criar essa mesma empatia pelo destino dos despossuídos usando a evasão, que a gente tanto procura quando vai ao cinema. Woody Allen fez isso em Rosa Púrpura do Cairo

A garçonete pobre, que sustenta o marido grosseiro e incompetente, durante a depressão de 1935, tem raros momentos de felicidade. Um deles é quando está no cinema, assistindo aos filmes B de Hollywood. Seu filme preferido é Rosa Púrpura do Cairo. Ela assiste ao filme tantas vezes, mas tantas vezes, que, em determinado momento, o personagem não aguenta mais, se volta para ela e começa a interagir com a garçonete pobre. Ela terá chance de entrar dentro do seu filme favorito e até se apaixonar pelo protagonista.

Apesar da minha torcida contra, Roma levou três Oscar: melhor direção, melhor fotografia e melhor filme estrangeiro. Com a estatueta na mão, Cuarón fez o que se esperava dele. Discursou em defesa das "70 milhões de empregadas domésticas sem direitos trabalhistas". 

A cerimônia do Oscar é uma das muitas maneiras que Hollywood encontrou para divulgar e promover a venda de seus produtos. Cuarón é uma velho conhecido da casa, tendo sido contratado pela Warner algumas vezes, levando em 2013 o Oscar de melhor direção por Gravidade.

O premiado Roma, de Cuarón, não é um desses filmes que a gente gostaria de rever, de retornar a ele. Quanto terminam as intermináveis duas horas e 15 minutos de sua duração, a gente levanta as mãos aos céus em agradecimento. Terminou. Ainda bem. Dá alívio desligar a TV e a Netflix.

Outro filme que também se chama Roma foi feito por Federico Fellini, em 1972. Este Roma eu, certamente, teria muito prazer em rever. Faz muito tempo que assisti Roma de Fellini no falecido Cine Bijou, que ficava na Praça Roosevelt, centro de São Paulo. Devo ter assistido ao filme de Fellini em 1973, há inacreditáveis 46 anos. Só o vi uma única vez e saí da sala de exibição iluminado. 

Quatro décadas e seis anos depois, lembro, perfeitamente, de várias cenas. O jovem caipira Fellini desembarcando em Roma na estação Termini. Um desfile muito louco de moda para padres, bispos e cardeais. Uma obra subterrânea (provavelmente, devia ser o metrô) encontra um tesouro arqueológico e os afrescos começam a se desfazer em contato com a modernidade. Hippies tomam banho nas fontes milenares romanas. Um congestionamento monstro em meio ao trânsito enlouquecido. A chuva de verão tombando sobre uma movimentada artéria da capital italiana. O bordel antigo com as prostitutas andando de um lado para o outro. A então esposa de Fellini aparece, chegando cansada do trabalho e tentando entrar em casa. O final antológico com as motocicletas - milhares delas - correndo livres e soltas pela Roma, cidade eterna. O filme é monumental, como Fellini o era. 
           

     

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Quando as palavras vão para o passado


Às 7h30, costumo ligar o rádio na frequência 96.9 da BandNews FM. É a hora que o âncora Ricardo Boechat faz seu editorial. Com todas as implicações e vetos que a gente sabe que existem nas grandes mídias, ele costuma usar o mesmo pau para "bater em Chico e Francisco", segundo expressão que gosta de usar. 

Talvez porque sejamos da mesma geração, talvez porque tenhamos vivido experiências semelhantes e suportado, como jornalistas, os horrores da Ditadura Militar,  quase sempre concordo com tudo que ele diz.

Sou uma pessoa introvertida. Não me dou bem diante de um microfone, nem de uma câmera. Por isso, quando Boechat está fazendo seu editorial matutino, é como se fosse ele a minha voz. Gosto do jeito sincero dele. Gosto da pouca paciência que ele tem ao se defrontar com uma declaração descabida ou incompreensível. 

Outro dia, ele confessou que não gosta de escrever. Sente muita dificuldade em produzir textos. Demora muito, por exemplo, para produzir um prefácio. Mas essa dificuldade com a palavra escrita é compensada pela tranquilidade diante da câmera e do microfone. As palavras lhe vêm, normalmente, sem que ele precise se esforçar para isso. É um dom. Um talento natural, que ele explora de maneira inteligente e didática.

Agora, esse texto, escrito no presente, precisa mudar sua temporalidade. As palavras devem ir para o passado. "Gostava do jeito sincero dele", "gostava da pouca paciência"...E isso me causa uma tristeza imensa.

Eram 12h10, quando um ouvinte informou sobre um acidente de helicóptero, que havia ocorrido próximo do Rodoanel. Como uso com frequência essa rodovia, fiquei atento ao desenrolar do noticiário. A aeronave havia caído próximo ao km 7 da Anhanguera. Duas vítimas fatais eram confirmadas...

Entre 1977 e 2005, trabalhei em jornais e revistas. Cobri debates, posses históricas, discursos memoráveis, mas, infelizmente, nunca cheguei a cruzar com Boechat. Não tenho uma história, uma curiosidade para contar sobre ele. Houve apenas e-mails que troquei com ele, sugerindo determinadas coberturas de eventos. Sempre me respondia, como devia fazer com todos os ouvintes que se comunicavam com ele. 

Era seu ouvinte, há pelo menos uns 10 anos. Acredito que, desde 2008/2009, sintonizava a BandNews FM para ouvi-lo. Gostava da forma como ele transformava o rigor jornalístico em algo coloquial e próximo do mortal comum. 

Em suas férias, ao ligar o rádio, sentia falta dele. A manhã não começava bem. A emissora compensava a falta de seu principal âncora, trazendo convidados. Não funcionava. Ele parecia personificar a rádio. 

Certa vez, fui agredido, durante uma cobertura. Foi bem no início da profissão. Era um foca, em busca de holofote. Quando entrei no jornal, o diretor de Redação me deu uma dura: "Jornalista traz a notícia. Jornalista não é a notícia". 

Essa lição guardei comigo até o último dia em que frequentei uma Redação. Hoje, sinto a boca amarga ao me defrontar com a notícia de um jornalista virando notícia da pior maneira possível. 

Leio os textos de colegas de emissoras rivais e a gente percebe que Boechat era uma unanimidade. Respeitado, elogiado, repórter até a medula, ele vivia a profissão intensamente. Era contagiante. 

No meio do noticiário, entre as mensagens de pesar que chegam nos grupos que frequento, só consigo sentir uma aflição egoísta. O que vou fazer amanhã, às 7h30, na hora de ligar o rádio?    

    


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Concessionárias prestam péssimo serviço à população



Sexta-feira, 25 de janeiro. Uma descarga elétrica irrompe dentro de casa e derrete o modem. Ligo imediatamente para a Vivo. A atendente diz que um motoboy irá trazer o modem "em cinco dias úteis". Digo que não posso esperar tanto tempo, que tenho trabalhos para entregar e dependo da internet para a transmissão de dados. Ela ouve e responde: "o motoboy irá levar o modem em cinco dias úteis". A conversa acaba em bate-boca. Eu digo que preciso urgente do modem e ela, como uma máquina ranzinza, repete o bordão: "cinco dias úteis"...Nos próximos dias, a Vivo irá me ligar várias vezes ao dia. Não é uma pessoa, mas uma gravação eletrônica, afirmando que "o problema foi resolvido". Porém, "caso não tenha sido resolvido"...Como assim? Que empresa maluca é essa? Foi ou não foi resolvido? Ligo para a Vivo uma, duas, três, quatro, cinco...Várias vezes...Os atendentes prometem que um técnico irá aparecer entre 8h e 12h do dia seguinte...Terminado o prazo, sem que o técnico tenha dado as caras, ligo novamente para a Vivo. A atendente, parecendo genuinamente surpresa, "o técnico não apareceu?". Ela me pede uma nota para o atendimento...Bem, o atendimento merece nota zero, porque não fui atendido. Estou sem o modem, impedido de trabalhar. Parece uma engrenagem sem controle, ineficiente; lembra um carro desgovernado, sob o comando de um motorista que acabou de ter um enfarte fulminante. À noite, durante o jantar, fico ruminando, como é complicado para o cidadão comum ser refém desse tipo de gente.    Na segunda-feira cedo, ligo para um amigo e ele me traz um modem reserva, instala o equipamento e faz a configuração. A internet passa a funcionar normalmente.E a Vivo? Quando menos se espera, na quarta-feira, aparece o técnico bonachão e instala o modem. Com a Eletropaulo foi pior. Em 2018, caiu um galho sobre a fiação e a energia enviada para dentro de casa era de 220 volts. Você acendia a lâmpada e ela ficava mais clara que o sol até explodir. Uma correria para desligar tudo que podia estar na tomada. A espera pela equipe de reparação levou 28 horas. Quando a energia foi restabelecida, descobri que o computador estava queimado. Entrei com pedido de indenização. A Eletropaulo negou-se a pagar. O caso foi parar no tribunal de pequenas causas. Dia 13 de fevereiro próximo, temos audiência. Um ano e lá vai pedra depois do ocorrido.A Sabesp...Essa Sabesp...Acordei cedo. Entrei no banheiro. Abri a torneira para lavar o rosto e...Nada! Torneira seca. Fiquei que nem um zumbi, imaginando que seria algum problema com a boia ou teria esquecido de pagar a conta e a Sabesp cortara o fornecimento? Ligo para a Sabesp. A atendente diz que o problema é localizado. Apenas na minha casa e que ela irá enviar uma equipe para verificar a origem do problema. Inconformado, pego o carro e vou até o Poupatempo, onde a Sabesp tem uma representação. Lá, me dizem que o problema talvez seja "em todo o bairro". Falo com uma pessoa que mora em São Paulo, ao lado de uma agência grande da Sabesp. Ela vai até lá e vem com uma terceira informação: a Sabesp está realizando uma grande obra na região e vários bairros estavam sem água, há vários dias. A previsão é que o serviço seria normalizado no início da noite. Foi o que de fato ocorreu. Conclui-se que, a exemplo da Vivo, a Sabesp também parece um carro desgovernado. Em nenhum momento, a Sabesp me avisou que iria cortar o fornecimento. Simplesmente, esgotei as reservas das duas caixas d'água até ficar sem uma gota em casa. Um pesadelo! E a Sky...Como se esquecer da Sky...Fiz uma recarga do serviço pré-pago, em uma lotérica, e a Sky entendeu que se tratava de uma assinatura anual. Sem os canais que tinha pago, sem entender o que estava acontecendo, liguei para a Sky e a atendente disse que eu havia comprado uma assinatura anual e que apenas no próximo ano poderia fazer algo a respeito. Com tanta tecnologia, com tanta facilidade, com tudo sendo resolvido em meia dúzia de toques no celular, a Sky nada poderia fazer. "O senhor espera até o ano que vem e depois vem falar com a gente". O comerciante que me vendeu o equipamento pré-pago disse que isso ocorria quase sempre. "Em geral,  a pessoa compra outro aparelho e joga fora o que está comprometido", ele sugeriu.  Reclamei para tudo quanto foi órgão de atendimento ao consumidor. Procurei até a Anatel. Depois de engolir vários sapos, finalmente, a Sky colocou as coisas no eixo. O fato é que essas empresas de atendimento de massa estão completamente perdidas. O consumidor é mal atendido. Os problemas ficam pendentes, como roupas em uma varal abandonado. O cliente paga caro e, quando o serviço é interrompido, não recebe o desconto devido. Se a estatização que havia no passado era um pesadelo, naquela época em que um telefone de linha custava, às vezes, mais caro que um carro seminovo; hoje, com a privatização dos serviços essenciais, fomos mergulhados em uma lixeira profunda. Nos casos mais graves, somos até submersos pelo lamaçal dos desmandos, da imprevidência e do pouco caso dessas empresas bilionárias que, em busca do lucro extorsivo, estão pouco se lixando para os direitos elementares dos consumidores.      
   
 




A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...