terça-feira, 23 de outubro de 2018

"Palavras, palavras, nada mais que palavras"



A cinco dias do pleito mais importante da história desse País e não é que Marina Silva lembra de declarar apoio "ao professor Haddad". Pronto. Começou a grande virada. Com o 1 milhão de votos que Marina teve no primeiro turno, o candidato petista pode ficar tranquilo. Só precisa agora arrumar outros 17 milhões de votos para empatar com ele. O timing da Marina é excelente. Ela podia também ter esperado até sexta-feira. Ficava um pouco mais em cima da hora. 

O filho dele diz que é fácil fechar o Supremo. "Basta um cabo e um soldado."  Depois, vem o pai e pede desculpas públicas. Escreve cartinha para o "diretor da escola". Um vexame. Coitado do Brasil. Pobres de nós.

Por algum motivo que desconheço, repórteres e âncoras de TV e rádio usam a palavra recorde com acento na proparoxítona - "récorde". Só que a prosódia ensina que recorde é paroxítona, com acento invisível no "o". Pode isso, Arnaldo? 

"Palavras, palavras..." diria Shakespeare. Em jornalismo, havia palavras malditas, que você não podia sequer pensar nelas. Era proibido. O articulista Paulo Francis (pseudônimo de Franz Paul Trannin da Matta Heilbornvolta e meia, gostava de contar a história de uma palavra maldita. Crítico teatral do jornal Diário Carioca, Francis empregou o termo "via de regra". O texto retornou voando em sua direção, com uma anotação em vermelho vivo: "Via de regra é boceta". Francis conta que nunca mais escreveu via de regra.

Eu era editor do caderno de Variedades no Diário Popular e um crítico de arte gostava de usar a expressão "por outro lado".  O então diretor de Redação Miranda Jordão me chamou no aquário, que era aquela sala toda envidraçada onde ficavam as chefias dos jornais. Texto do crítico na mão, muito irritado, apoplético, com a educação que lhe era característica, Miranda Jordão me disse: "Por outro lado é bunda". Passaram-se trinta anos para eu voltar a escrever "por outro lado". 

Era assim naqueles tempos...Você podia passar na rua e testemunhar um infeliz se atirando do Viaduto do Chá e não podia noticiar o ocorrido. Suicídio era palavra proibida e sobre o qual não se podia noticiar. Hoje, a cada 45 minutos um brasileiro se suicida e, com exceção de setembro amarelo, quando a gente lê uma ou outra matéria a respeito, ainda não se fala no assunto.

Nosocômio, genitor/genitora, féretro, esposa/esposo, falecer...eram proibidas. Há uns cinco anos, estive em um canal de TV, que transmitia notícias pela internet. A equipe de jornalismo era rarefeita, como oxigênio no pico Everest. Para compensar a falta de pessoal, os jornalistas dessa TV roubavam as notícias das agências e, para não dar na vista, trocavam as palavras. Por exemplo, a notícia da agência dizia: "A mãe permaneceu o tempo todo ao lado do caixão do filho." O jornalista da TV pela internet alterava para: "A genitora ficou o tempo todo ao lado do féretro do filho". Foi a primeira e última vez que vi alguém usar "genitora", em um texto jornalístico.

Pelo menos uma boa notícia: faltam três dias para acabar a propaganda eleitoral obrigatória nas rádios e TVs. Não sei você, mas me sinto mal com tanto ódio transbordando, sendo vomitado em cima da gente. O estado é muito presente na vida da gente. Por que sou obrigado a aguentar essa chatice insuportável? Tem outras maneiras de o eleitor se informar. Me sinto aquele pato ou ganso, que fica com um funil enfiado na boca, pra engolir comida à força e ter o fígado dilatado, para a produção de foie gras. O estado brasileiro me obriga a votar. Não quero ser obrigado a nada. Mas lá vou eu, no domingo, me enfiar na fila. Entregar o título, entregar outro documento, porque só o título não serve. Eles precisam de outro documento que mostre a minha cara. Tenho que apertar aqueles botões. Aguentar a cara do sujeito me encarando dentro da "cabine indevassável"...Lá fora, o Brasil miserável, favelado, sem saúde, sem transporte, sem esperança. As coisas começam a mudar, quando o estado começa a se tornar presente onde interessa e não onde não é chamado.      

Nos Estados Unidos, a loteria vai pagar um prêmio de 6 bilhões de reais. Se eu ganhasse toda essa dinheirama, ia realizar o grande sonho da minha vida. Comprava um caminhão e ia puxar soja lá no Mato Grosso do Sul. Eita nóis.



quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Disputa em São Paulo será definida pelo photochart


As pesquisas de intenção de voto indicam empate técnico entre os dois candidatos da situação ao governo de São Paulo. João Doria (PSDB) e Márcio França (PSB) correm "cabeça a cabeça", rumo ao photochart (no turfe, quando dois cavalos chegam praticamente juntos, somente uma prova fotográfica é capaz de deduzir quem venceu a corrida). Parece que vão disputar voto a voto até o dia 28. Quem gosta de filme de suspense tem um prato de pipoca cheio pela frente. 

Em São Paulo, capital, Doria come o pão que satã amassou. Sessenta e três por cento dos eleitores afirmam que vão votar em Márcio França e 53% disseram que não votariam em Doria nem que a vaca tussa.  A capital não perdoa o fato de Doria ter prometido que ficaria até o final do mandato e, depois de 15 meses, ter se mandado rumo a voos mais altos. A capital quer punir o arrivismo político.

Interessante é que Doria é situação e Márcio França é o governador em pleno exercício do cargo. Ou seja não existe um oposicionista de fato. É claro que Doria tenta colar no candidato ele e atirar a cruz do PT sobre o cangote de Márcio França, mas tudo indica que até agora a iniciativa não foi bem-sucedida. 

Quem prefere outro tipo de suspense, longe da briga eleitoral, o filme Thelma, dirigido pelo dinamarquês Joachin Trier, é uma boa opção, disponível pela Netflix. 

A história se passa em Oslo (Noruega). Uma garota entra na faculdade. Sai de sua cidadezinha, lá no fim do mundo, e vai para a capital. Os críticos apontam semelhanças entre Thelma e Carrie, a estranha

Não sei que água os escandinavos tomam, mas, seja o que for, eles se transformaram em mestres na produção de thrillers. Na literatura, autores como Stieg Larsson, Henning Mankell, Jo Nesbo - só para citar três - são expoentes do gênero. Larsson é autor da trilogia Millenium. Mankell, morto recentemente de câncer, foi o criador do célebre inspetor Kurt Wallander, que também ganhou série pela Netflix.

 Em Thelma, o público é mergulhado na atração que a garota vinda do interior (Thelma) sente pela colega de turma (Anja). Thelma foi criada por uma família religiosa. Não bebe, não fuma. As pulsões - principalmente, as homossexuais - devem ser reprimidas. Thelma apaixona-se, mas não pode concretizar o desejo. O prazer lhe é vedado pela religiosidade castradora. 

Lá no século passado, Freud ensinava que, quando você é reprimido, o desejo se transforma em perversão.

O filme tem cenas tocantes: Thelma deitada ao lado de sua paixão, incapaz de tocar um fio de cabelo da amada; Thelma chorando de desejo... Mas não serei eu o estraga prazeres (o spoiler, para os mais moderninhos). Assista e depois me conte.

Outro thriller digno de nota, também exibido pela Netflix, é Trapped. Uma aldeia na Islândia fica isolada pela neve, enquanto um policial tenta descobrir o autor de um crime (um tronco humano, sem cabeça e membros é encontrado). São dez episódios que você assiste sem cruzar as pernas. Hipnótico. Outra hora falo mais sobre Trapped.    

Anúncio: "Perdeu-se uma camisa de força. Recompensa-se bem a quem achar" - Olavo de Carvalho (Richmond, Virgina, Estados Unidos). 

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Se eu fosse ele, não participaria de debate


A última ficha do PT para virar o jogo é o debate. Em tom de desespero, o partido vem martelando a necessidade de se fazer um debate entre os dois candidatos, que disputam o segundo turno. 

O PT sabe que o candidato ele é despreparado, nunca dirigiu um empório que seja, atrapalha-se nas questões econômicas (foi risível a tentativa dele de explicar a desigualdade salarial entre homens e mulheres). Ele tem tudo a perder. 

Se eu fosse ele, não participaria do debate. Com uma larga vantagem de 16 milhões de votos - de acordo com as pesquisas de intenção de voto - ele está muito próximo de botar a mão na faixa. Por que colocar a vitória em risco nesse momento? 

Debates são decisivos. Lula aprendeu isso em 1989, quando enfrentou Collor, Boni, Armando Nogueira, Rede Globo, naquela famosa edição, que veio para derrubar a subida meteórica do petista nas pesquisas. Em outro debate histórico, Kennedy se saiu melhor sobre Nixon, em 1960, e venceu a eleição.

A 11 dias da eleição, o que resta ao PT para tentar virar o jogo? Com tanta desvantagem, nem a Liga da Justiça, com Batman, Super-Homem, Mulher Maravilha et caterva parecem capazes de mudar a história. O quadro é sombrio. A derrota aproxima-se inexorável e lá iremos nós rumo a um futuro, provavelmente, muito pior que o presente.

Levar o povo para as ruas é uma proposta tentadora. O problema é que isso foi feito no primeiro turno - com a famosa passeata das mulheres em 26 estados do País - e o resultado foi nulo. Quem iria votar nele não se deixou influenciar pelas moças, que - segundo BBC e Folha -  eram da "elite de esquerda". 

A maioria dos eleitores é, manifestamente, antipetista. Esse é o fator decisivo. Se o Coringa ou Lex Luthor estivessem no segundo turno contra o candidato do PT, eles teriam a preferência desse tipo de eleitorado. Não importa que ele seja machista, homofóbico, pró-ditadura, racista, pró-tortura, a favor do fechamento do Congresso. A única coisa que parece importar é que ele não é do PT. Odete Roitman sairia vencedora.  

O Partido dos Trabalhadores errou nesta eleição. Errou muito. A primeira bobagem foi lançar Lula candidato à Presidência. Até os habitantes do exoplaneta HD 164595 sabiam que Lula seria impedido pela Justiça de participar do pleito. Aliás, foi para impedi-lo de participar das eleições que a Justiça partidária o colocou na cadeia. Lula está preso por causa de um apartamento que nunca foi dele e onde ele nunca morou.

Enquanto o PT apostava em Lula, o tempo corria. As demais candidaturas seguiam seu caminho natural. Quando Haddad entrou na disputa, já não havia mais tempo. Não para vencer a eleição, mas para tornar o resultado menos vexatório. Pouco conhecido, alguns desinformados o chamavam de "Andrade". "Vou votar no Andrade."

Onze dias passam depressa. Vai ser difícil convencer 16 milhões de eleitores. Quem sabe uma nova e redentora manifestação. A maior manifestação da história desse País, uma nova e vitoriosa Coluna Prestes, um novo Dia D...

Se fosse dramaturgo e me coubesse tirar o candidato ele da corrida presidencial, só veria uma saída nesse momento dramático. O Deus Ex Machina. Como no teatro grego, deus baixaria em uma grua. Agarraria firmemente ele, o conduziria aos confins do universo e o atiraria bem longe, lá por onde andam as pedras verdes do extinto planeta Kripton.




   
           

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Vivemos em um mundo antigo


O Brasil perdeu-se na antiguidade. Quem "sintoniza" as redes sociais percebe que comunismo e nazismo pertencem à ordem do dia. É como se estivéssemos na República de Weimar (1919-1933). Não passa um dia sem que eu receba mensagem pregando o "anticomunismo". Só a vitória do candidato X vai nos livrar do comunismo. Quem é contra o candidato X é tachado de "comunista". Os opositores do candidato X proclamam que estão diante do nazismo de Hitler, do fascismo de Mussolini. 

Tudo velho, tudo arcaico, bossa velha. O Brasil não avança. Patina. Perde-se em conceitos ultrapassados, em palavras velhas. Não se chega ao século 21. 

Até agora, a violência matou 30 mil pessoas no Brasil. A violência não é uma estatística. É nossa vizinha. Há um mês, assaltaram o mercadinho, perto de casa, e tentaram sequestrar um morador. Ele resistiu e foi nocauteado a coronhadas. Há 15 dias, um parente teve o carro roubado, quando ia lecionar em uma faculdade do bairro da Mooca, em São Paulo. Outra pessoa próxima de nossa família ficou coberta de cacos de vidro, depois que um ladrão estourou a janela de seu carro para roubar o celular. Até o final do ano, devem morrer 50 mil brasileiros. Posso ser um deles. Você, leitor, pode virar estatística. É um Vietnã por ano.  

Nem um eremita solitário, vivendo no Brasil, estaria a salvo desse pesadelo cotidiano, que é a violência, cada vez mais presente, cada vez mais assustadora.

Quando o cidadão se sente impotente, diante de uma situação sobre a qual não tem qualquer proteção, busca refúgio em um discurso que prega a violência contra a violência. Exige-se a força bruta, a ordem imposta a qualquer custo, a repressão. Elege-se com 264 mil votos a policial militar que matou o bandido a tiros, diante da escola. 

De um lado, o eleitor tem um candidato que se assemelha a uma "segunda Dilma", sustentado por um partido que não fez autocrítica, que não reconheceu seus erros. "Um partido que não foi humilde", como disse ontem o irmão de Ciro Gomes, o senador eleito e ex-governador do Ceará, Cid Gomes. Mesmo sem ter culpa no cartório, esse candidato, essa "segunda Dilma", representa os desmandos corruptos do Petrolão, do Mensalão. É uma sombra indesejada que o persegue. É uma cruz. É o que lhe quebra as pernas nas intenções de voto. 

Foi uma aposta errada do presidente Lula, que - é sempre bom lembrar - cumpre uma pena injusta, por causa de um apartamento onde nunca morou, nem nunca foi dele. 

Lula deveria ter optado por Ciro Gomes, que as pesquisas apontavam como o "cavalo vencedor" no segundo turno. 

Na realidade, o PT deveria se submeter a um rebranding, que é uma palavra enjoada pra dizer que, se você não mudar, perece. 
   
De outro lado do ringue político, apresenta-se o candidato do "prendo e arrebento", no melhor estilo daqueles generais, que ocuparam indevidamente a Presidência do Brasil, entre 1964 e 1985. É um sujeito sem qualquer experiência administrativa. Nunca dirigiu um empório de bairro. Nunca torneou um parafuso. Viveu os últimos 27 anos como parlamentar e teve a "sorte" de ser esfaqueado, durante a campanha, o que lhe deu o impulso necessário para arrancar firme rumo à vitória no segundo turno.

Nos países mais felizes do mundo, você pode ir ao mercadinho da esquina que dificilmente será recebido a coronhadas. Vive-se bem e de forma saudável. A renda é alta. Os menos favorecidos da Finlândia recebem apoio social do governo, sem que haja gritaria - dos mais favorecidos e elegantes - contra o Bolsa Família finlandês. As pessoas se sentem livres. Elas confiam em seus governantes e nas instituições. Nos países mais felizes do mundo, quando você para com o carro no farol, não vêm aquela multidão esfarrapada, pedindo o direito de sobreviver a mais um dia.

Fernando Gabeira disse uma vez (talvez em seu principal livro O que é isso, companheiro) que foi preciso muito esforço e uma incompetência sem limites para transformar um paraíso de recursos naturais, como era o Brasil, nesse buraco sem saída.

A violência não se resolve na base do "prendo e arrebento". Durante a Ditadura Militar, a violência era semelhante, com os mesmos casos, as mesmas mortes. Durante a redemocratização, o falecido Notícias Populares foi alvo de censura da Promotoria Pública por colocar em sua primeira página os trucidados do dia.  "Os presuntos", como se dizia no jargão policial da época.

Nos países mais felizes do mundo, os registros de violência são quase invisíveis. Não porque seus eleitores elegeram um capitão da reserva, mas por terem cuidado bem de seus cidadãos, por terem investido em educação, em saúde, em bem-aventurança. Coitado do Brasil. Pobres de nós.           

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A briga pelo governo do Estado


"Nunca produziu um parafuso. Foi lobista a vida toda", disse outro dia o candidato derrotado à Presidência, Ciro Gomes, sobre João Doria. 

Filho do deputado e publicitário baiano João Agripino da Costa Doria Neto (criador do Dia das Mães e do Dia dos Namorados), João Doria errou ao assinar aquele compromisso de que iria cumprir os quatro anos do mandato de prefeito. 

Nem esquentou a cadeira e Doria saiu correndo em busca do governo do Estado. Atropelou seu mentor - o então governador Geraldo Alckmin - e faltou pouco para concorrer à Presidência. Deixou aquela impressão de arrivista, o cara que quer vencer a qualquer preço.  

Doria disse que iria cumprir o mandato de prefeito até o final. Fez questão de ratificar a promessa diante do jornalista Gilberto Dimenstein, do site Catraca Livre. Mas não cumpriu o prometido. Agora, é vítima do pugilato da campanha eleitoral que o chama de "mentiroso". 

A própria figura de Doria causa estranhamento. Aquelas rugas de expressão, que pessoas da idade dele têm na testa, desapareceram. Doria tem o rosto liso, "plastificado". Seria obra do botox? Aos 61 anos, o cabelo de Doria é pretinho, sem um único fio branco, como o de um garoto de 18 anos. Tudo bem, a gente entende a vaidade, mas é um rosto, com tanta produção, que não inspira confiança. Fica aquele estereótipo de "coxinha", de "playboy", "forever young", que não faz bem a ninguém. 

A gestão de Doria na Prefeitura foi ruim? Não, ao contrário. No pouco tempo que sentou na cadeira de prefeito, Doria fez ações interessantes, como a reforma da avenida 23 de Maio, que era o paraíso dos pichadores, e se transformou em uma artéria verdejante. Atacou com firmeza a Cracolândia. Buscou reduzir as filas de exames médicos.

Analistas políticos diziam, à época, que o então governador Alckmin teria fechado acordo para Márcio França ser o candidato indicado pelo PSDB ao governo do Estado. Doria teria atropelado Alckmin e correu por fora, conseguindo vencer a convenção tucana. Doria saiu correndo em busca de cargos políticos mais elevados. Pegou mal.

O cenário atual é preocupante para o PSDB. Depois de 24 anos no poder, os tucanos, por causa da ambição de Doria, podem perder São Paulo. Sem esquecer da derrota retumbante de Alckmin durante a corrida presidencial.

O "desconhecido" Márcio França tem a seu favor a percepção de que é o "novo". Ao contrário de Doria, França não esconde os cabelos brancos, nem as rugas de seus 55 anos. Nos debates, bateu de frente com Doria e se saiu melhor. Na greve dos caminhoneiros, enquanto o pessoal de Temer fechava "acordos" com líderes sem liderados, França localizou as lideranças de fato e conseguiu avanços consideráveis, em um cenário que beirava o caos no abastecimento. À frente do governo do Estado, França tem se mantido discreto. 

Há cinco dias, o candidato Paulo Skaff, que ficou fora do segundo turno por pouco mais de 70 mil votos, declarou seu apoio a Márcio França. Se os 4 milhões e 200 mil votos dados a Skaff reverterem em benefício de França, a derrota de Doria será estrondosa.

Na presidência da Fiesp, Skaff fez campanha pelo impeachment de Dilma. Transformou o prédio da Federação das Indústrias em comitê golpista. Colocou o pato amarelo nas ruas. Usou o sistema "S" (Sesc, Senai, Sesi, Senac) para se promover politicamente. 

Não se sabe se foi iniciativa de Skaff, o fato é que a placa em homenagem a Osmar Rodrigues Cruz, fundador do Teatro Popular do Sesi, foi retirada da sala de espetáculos. Atitude, no mínimo, antipática, para não dizer injusta.

  

    

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Saudades de Stieg Larsson


Não sei você, mas sinto saudades de alguns livros e de determinados autores. Stieg Larsson, por exemplo, sinto uma saudades tremenda dele. Quando meu ex-sócio, James Capelli, me deu de presente de Natal Os homens que não amavam as mulheres, passei aquele final de ano hipnotizado pela trama, criada pelo autor sueco. 

Larsson era um mestre em imaginar enredos de suspense, com personagens que a gente podia tocar com a nossa imaginação. Li toda a série Millenium (A rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo; A rainha no palácio das correntes de ar - em português de Portugal fica tudo muito estranho). Amei cada linha. Não conseguia parar de ler. 

O quarto livro da série, escrito por um jornalista, contratado pela editora de Larsson, A garota na teia de aranha, foi um momento de constrangimento editorial. Depois da morte de Larsson, não teria cabimento tentar usar originais incompletos, que ele havia deixado, para produzir um quarto livro. A tentativa teve sabor de ganância. Deixou um cheiro ruim no ar. 

Hoje, neste feriado religioso, estou lendo Anna Karenina. Como aquele personagem de Murakami, estou no capítulo 12 e até agora não me encontrei com Anna Karenina. Em algum momento, ela deve dar as caras. Vamos prosseguir...

Ontem, à noite, véspera do feriado, tive o prazer de ficar quatro horas dentro de um carro. Chovia. Estava no Rodoanel. Diante dos meus olhos, havia milhares de lanternas vermelhas de carros, caminhões, ônibus, kombis, todos estacionados, todos se movendo lentamente. Um percurso que você faria em quarenta minutos, levou quatro horas. 

Ainda bem que o Rodoanel investiu milhões naqueles painéis luminosos, que ficam na entrada da rodovia. Só que, ao invés de o painel informar que a estrada estava parada, as luzes amarelas do anúncio luminoso aconselhavam candidamente que estava chovendo e que era preciso dirigir com cuidado. 

A pergunta que não quer calar: pra que serve o painel luminoso, se não é capaz de informar que a droga da rodovia está parada e você vai se ferrar se optar em seguir naquela direção? É claro que está chovendo. É claro que vou dirigir com cuidado, principalmente, porque a única velocidade possível em um congestionamento monstro é 10 km/h. 

No site de notícias, me deparo com três nomes que não tenho a menor ideia de quem são: Whindersson, Laureta e Ana Paula Renault. Essa Ana Paula seria herdeira do senhor Renault, que produz carros na França e mundo afora? E esse rapaz de nome estranho - Whindersson? Que mãe desnaturada dá o nome de Whindersson para um filho? E essa Laureta...Um mistério. 

Reportagem informa que a Árabia Saudita permitiu que as mulheres dirijam carros. Seria um avanço. Único problema: para ser motorista, é preciso tirar uma carteira de habilitação. E como as mulheres, sob o tacão da religião muçulmana, são proibidas de ficar ao lado de um homem, que não seja o marido ou parente, elas não podem se matricular na auto-escola, porque, evidentemente, o instrutor é homem. Então, elas podem dirigir, mas, na prática, não vão dirigir. Alá não deixa. 

O caso Marielle Franco - sete meses sem solução, sem a prisão dos assassinos - inaugurou uma nova dupla caipira, chamada Os Incompetentes, formada por Raul Jungmann e general interventor Braga Netto.

Tenho visto gravações de gays e lésbicas, reclamando de agressões. Um deles aparece chorando. Sinceramente, vamos deixar de ser vítimas. Vamos pra cima deles. Chega desse discurso de vitimização. Filmes como Milk - a voz da igualdade e Stonewall podem servir de inspiração.

E chega de conversa mole. Vou me encontrar com Anna Karenina. 

Beijos.     


     

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Nada acontece


O gostoso de ficar velho é ter direito às mordomias. Uma delas é poder estacionar o carro na vaga destinada aos idosos. O estacionamento está lotado. Os motoristas desesperados para encontrar uma vaga e aí você - idoso, pé na cova, vetusto, macróbio - encontra a vaga livre, onde se lê escrito no chão: Idoso. Em azul piscina. Com um longevo, meio tortinho, se amparando em uma bengala mambembe, desenhado ao lado da palavra mágica. 

Você, matusalém da vida, vai lá e estaciona. Feliz da vida. É bom ser coroa e encontrar uma vaga no shopping lotado.

Em segundos, aparece, ao seu lado, um segurança de terno preto e gravata vermelha. O homem é careca e tem olhos de aço. Diz que você não pode estacionar ali. O velhote de cabelo branco e artrite nos ossos tira a carteira de identidade e mostra a data de nascimento. É um questão de orgulho: "Sou velho, sim senhor. A maldita vaga é minha. Foi conquistada em 66 anos de amor, ciúme e morte, como nas melhores óperas". 

O segurança diz que vai chamar o Departamento de Trânsito e irá multá-lo. O motivo é simples. Não importa que você seja acabado, corroído e gasto. Não! Não interessa que você possa provar que é um tipo surrado e batido. O que o homem de terno preto e gravata vermelha exige é um cartão. A sua identidade não prova nada. O que lhe dá direito à vaga é um cartão, que precisa ser providenciado pela Secretaria Municipal de Transportes.

E lá vai você, sem vaga, sem cartão, arrastando a sua obsolescência planejada rumo à burocracia dos carimbos, dos selos e dos tabeliões sem alma.  Um dia a vaga ainda será sua...

A vida é curiosa. Sempre acontece alguma coisa. Não tem um dia igual ao outro. A água que passa debaixo da ponte nunca é a mesma, como dizia Heráclito. É claro que você poderia passar sem essas obviedades, no entanto, como eu poderia transpor a história do cartão do idoso para o livro do Haruki Murakami, sem realizar esse sobrevoo? 

Terminei de ler O elefante desaparece e cheguei à conclusão que nada acontece na vida. São vários contos e em nenhum deles morre alguém; Caim não mata Abel; um velho pescador não se ferra tentando pegar um peixe para acabar com a maré de azar de 84 dias; um escriturário infeliz, explorado pela família, não acorda de manhã e se vê transformado em barata. Nada! Os contos de O elefante desaparece parecem uma superfície de um lago sem borbulhas. 

Imagine você, escritor, escrevendo uma série de contos, com vários personagens, várias histórias e nada acontece. Nada!  E, por favor, ao invés de você me chamar de "spoiler", prefira o termo estraga prazeres. É menos anglicista e mais adequado a esse momento verde-amarelo que vivemos. "Anauê!"



    


quarta-feira, 10 de outubro de 2018

De virada é mais gostoso


O então candidato Rodrigo Amorim, do PSL, quebrou a placa em homenagem à vereadora Marielle Franco, covardemente assassinada a tiros no Rio de Janeiro, em 14 de março. Por esse ato de vandalismo explícito, esse gesto de ódio, publicado nas redes sociais, Amorim foi premiado pelos eleitores. Amorim foi o candidato a deputado que recebeu mais votos no Rio. Marielle era negra, homossexual e ativista política. Um combo magnético para atrair bolsonaristas do calibre de Amorim. 

Por falar em Marielle, o interventor federal no Rio de Janeiro, general Braga Netto, ainda não conseguiu prender os assassinos de Marielle. O crime aconteceu em março. Estamos em outubro. Por que será que as investigações não caminham? Por que será tão difícil chegar aos assassinos? É só incompetência ou tem algo mais? Com a palavra o ministro da Segurança Pública de Temer, Raul Jungmann. 

Na Band News, o âncora Ricardo Boechat criticou os ataques que Bolsonaro vem sofrendo de acadêmicos e jornalistas do exterior, que acusam o candidato do PSL de ser homofóbico, racista, misógino, pró-ditadura e pró-tortura de presos políticos. Boechat disse que os analistas internacionais têm esquecido do apoio do PT à Venezuela. 

O âncora da Band News citou a presidente do PT, Gleise Hoffmann, que afirmou que a Venezuela é vítima do imperialismo e sofre ofensiva da direita, com o objetivo de desestabilizar o país. Ou seja, o PT apoia a ditadura de Nicolás Maduro e, indiretamente, apoia também os crimes praticados contra dissidentes políticos ao não se posicionar de uma forma mais clara.

Cá entre nós, alguém duvida que os norte-americanos não estejam tentando desestabilizar o governo venezuelano? Alguém põe em dúvida que o regime de Nicolás Maduro sofre interferência direta das forças de direita? 

É claro que a mídia vai usar a presidente do PT para atingir Haddad. Mas existe alguma possibilidade de o Brasil se transformar em uma Venezuela, se Haddad for eleito? O PT esteve 13 anos no poder e não virou Cuba, nem Venezuela. 

Fico ouvindo esses âncoras, como Boechat, tentando caminhar no fio da navalha de uma suposta imparcialidade, e me dá pena deles. Imagine as pressões que não devem sofrer para bater em Chico e Francisco (talvez bem mais em Chico do que no Francisco). Boechat foi militante do PCB. Ou seja, tem a esquerda no DNA. As pessoas mudam. Mudam o corte de cabelo. Mudam o jeito de se vestir, mas as paixões...As paixões continuam sempre lá. Dentro da gente. E vão morrer conosco.

Felizmente, não trabalho na Bandeirantes, nem na Globo, nem na Folha. Pense só no que acontece nos bastidores pré-eleitorais. Dê uma olhada nas pautas. A mídia empresarial foi decisiva para a queda de Dilma. A Globo News cobria exaustivamente as manifestações do MBL. Veio o golpe, a presidente Dilma - eleita democraticamente - foi deposta e a articuladora do impeachment, a professora Janaína Paschoal, premiada com 2 milhões de votos. 

Se antes, eu ia religiosamente à banca de jornais, hoje, isso não é mais possível. Não há mais bancas de jornais. A leitura eletrônica é irritante (sempre aparece um anúncio, um vídeo intrometido). E o pior: não me identifico mais com nenhum veículo. 

Às 6h30 desta quarta-feira, recebo uma mensagem de um amigo de infância. É um comunicado do bolsonarista delegado Francischini, informando "em primeira mão" que as urnas eletrônicas são fajutas. Aviso que a notícia é falsa. Mando uma notícia, informando que o mesmo Francischini havia pago R$ 24 mil para uma empresa, especializada em propagar fake news (boatos). Enfim, é cansativo. 

Por essas e outras, seria delicioso ver Haddad eleito. De virada é sempre mais gostoso.  



  

   



   

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O fantasma do anticomunismo



1989. Entrei na rua Mairinque, na Vila Clementino, para levar meus pais ao colégio eleitoral, que ficava no Liceu Pasteur. Ao estacionar  o carro, avançou em nossa direção um sujeito, soltando fumaça pelas orelhas e nariz. Achei que fosse um guardador de carros, um flanelinha parasita, mas era outro tipo de parasita. Ele nos entregou panfletos, que alertavam para a ameça comunista que pairava sobre o Brasil, caso Lula fosse eleito. "Não vamos deixar o comunismo vencer", ele gritava. "Votem em Collor."

Em 1960, lembro de um primo, anticomunista ferrenho, fazendo campanha pró-Jânio Quadros. Esse primo ia com a sua romiseta para a boca de urna e chamava o opositor de Jânio - Marechal Lott - de "comunista". Acredite, se quiser...

Em 1964, Jango Goulart é deposto. Um presidente eleito democraticamente é tirado do poder pelos militares, porque haveria uma ameaça comunista. Não havia. Jango queria fazer "reformas de base". Ou seja, reduzir as diferenças entre os muito ricos e os miseráveis. Não conseguiu. 

Lula perdeu a eleição, porque a classe média achava que, se eleito, ele transformaria o Brasil em uma Cuba. E, principalmente, por causa da manipulação do debate, feito pelo Boni, pelo Armando Nogueira & Cia. da Rede Globo. 

Lula seria eleito em 2002 ("a esperança venceu o medo"), novamente reeleito em 2006, outra vez eleito em 2010 (desta feita, indicando uma candidata) e ainda uma quarta vez, com a reeleição de Dilma. Nesses 13 anos e meio, até o impeachment, o Brasil não virou Cuba, nem Venezuela. Ao contrário, muita gente ganhou dinheiro, muita gente pobre pôde entrar na universidade, a dívida "impagável" com o FMI foi paga, enfim, foram anos bem-sucedidos, voltados para a redução da miséria e das diferenças sociais.

O Partido dos Trabalhadores, criado por Lula, não é comunista. Ao contrário. Quando Lula almejava criar um partido, nos anos 80, não faltaram sondagens para ele ingressar nos partidos comunistas, como o PCB e o PC do B. No entanto, ele insistiu na criação de um partido, voltado para os trabalhadores, sem se ater à ideologia comunista, que é a estatização completa dos meios de produção, a abolição da propriedade privada e o fim das classes sociais. 

Mesmo não sendo um partido comunista, o PT é alvo frequente dos anticomunistas. "A bandeira do Brasil nunca será vermelha!", eles esbravejam. "Vai pra Cuba!", gritam. O anticomunismo é uma marca de campanha política. É ferro quente sobre o couro.  

Há uns quatro anos, ainda durante os estertores do governo Dilma, reencontrei um amigo de infância muito querido que estava assustado, porque imaginava, em sua ingenuidade, que o Brasil tinha se tornado "um país comunista". Estávamos em um jantar, com outro amigo de infância, que esclareceu didaticamente que o Brasil continuava um país democrático, com as instituições funcionando normalmente. Os bancos ainda eram dos banqueiros; as indústrias estavam nas mãos dos industriais e das multinacionais, haveria eleições normalmente e assim por diante.

Chegamos a 2018. Outra eleição presidencial. E lá vem ele de novo o parasita do anticomunismo. Ele grita, esperneia, publica barbaridades nas redes sociais...O parasita anticomunista é bem-sucedido. As pessoas o escutam. Acreditam nele. Divulgam suas mentiras. Passam adiante. Há uma incapacidade bovina de raciocinar. 

Além da pecha anticomunista, paira sobre os eleitores um desalento, motivado pelos erros cometidos pelo Partido dos Trabalhadores, enquanto exercia o poder. Se o PT era "diferente dos outros", o partido que viria "trazer a ética para a política", as denúncias do Mensalão e do Petrolão indicaram que a ética havia sido esquecida em alguma gaveta do governo Lula.

Quem usava a estrelinha vermelha no peito, quem grudava adesivos do PT na janela de casa e do carro, se sentiu traído, quando as denúncias ocuparam as manchetes da mídia. As corporações empresariais, que dominam os meios de comunicação, bateram firme e forte no governo Dilma até abalar as estruturas e fazer o edifício petista ruir com estrondo. 

Sem cometer nenhum crime no exercício do cargo, Dilma desabou no impeachment, mas ganhou de Lewandowski o direito de ser derrotada na eleição para senadora. 

O PT deveria ter reconhecido seus erros. Deveria ter feito uma autocrítica, mas o partido agiu como se não fosse com ele, como se a pulverização de sua ética fosse um equívoco menor. 

A derrocada do PT trouxe à luz personagens diversos. Surgiu o jornalista partidário, melhor representado por Reinaldo Azevedo, que cunhou o bordão "petralhas". Veio essa professora Janaína Paschoal, que pronunciava discursos no Largo de São Francisco, como se estivesse tomada por algum espírito subterrâneo, e que encontrou um atalho jurídico para o impeachment golpista. Apareceu o jovem Kim Kataguiri, do MBL (Movimento Brasil Livre), bolsista da fundação norte-americana mantida pelos irmãos Koch (fique esperto Monteiro Lobato, 'o petróleo era nosso'). Vieram os juízes e promotores partidários, preocupados em condenar integrantes de legendas específicas e esquecer os demais (Aécio Neves está livre e solto e inacreditavelmente eleito com 100 mil votos). Os eleitores elegeram Janaína e Kataguiri para cargos parlamentares. Articuladores do golpe foram premiados pelas urnas. Para os eleitores, eles teriam agido corretamente em derrubar uma presidenta eleita, para "pôr fim à corrupção". 

Só que a corrupção continuava bem de saúde. O ex-ministro de Temer Geddel Vieira Lima tinha R$ 51 milhões em um apartamento. Aécio Neves pedia R$ 2 milhões a Joesley Batista. E o próprio presidente Temer era acusado de liderar organização criminosa, que teria desviado R$ 587 milhões.

Sem provas efetivas para condenar Lula, o ex-presidente acabou na cadeia por causa de um apartamento, que nunca foi dele e onde ele nunca morou. Sob as acusações de "corrupção passiva" e "lavagem de dinheiro", o juiz Sergio Moro condenou Lula a 12 anos de prisão. Na realidade, a condenação de Lula foi motivada pela suposição de que, quando era presidente, ele teria conhecimento da corrupção que grassava na Petrobrás e que quase levou a petrolífera para o buraco. Prova mesmo - uma escritura, por exemplo - não havia. 

Dia 28 de outubro, um domingo, o Brasil elege seu próximo presidente. O jornal francês Libération, em sua edição de 5 de outubrocolocou a foto de Bolsonaro ocupando toda a primeira página e o texto proclamou: "Racista, homofóbico, misógino, pró-ditadura e mesmo assim ele seduziu o Brasil". 

Então, precisamos escolher entre o candidato de um partido que errou muito, quando esteve no poder, mas mesmo assim trouxe esperança para quem não tinha nenhuma esperança; e outro candidato que vai de encontro a todos os valores democráticos saudáveis, "uma folha seca que vai com o vento e a ventania está forte", como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso sobre Bolsonaro. 

A escolha não é simples, mas, para quem foi em todos aqueles memoráveis atos pela volta das Eleições Diretas, a decisão parece óbvia. Será difícil conquistar corações e mentes, rendidos ao "mito", ao "anticomunismo", mas tem luta que vale a pena ser travada. E esta é, sem dúvida, uma delas.   
         



       

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

À beira do precipício


Quando era criança, passava os fins de semana com meus avós. Eles moravam em um prédio de 12 andares na rua Senador Feijó, centro velho de São Paulo. Meu avô era zelador. O prédio, ocupado por escritórios, fechava às 13h do sábado para só reabrir na segunda-feira cedo. 

Bisbilhoteiro, eu andava pelos corredores sombrios. Ouvia vozes. Saía correndo, com medo dos espíritos (pensando bem, o que um espírito estaria fazendo sábado à tarde em um prédio da rua Senador Feijó?) Era moleque, tinha medo do desconhecido. Meus avós acreditavam na existência das almas e, quase sempre, narravam alguma experiência além da vida, da qual tinham sido testemunhas.

Eu gostava de me arriscar. Uma tarde, decidi subir ao telhado. Havia uma escada de ferro que conduzia à caixa d'água naquilo que seria o 13º pavimento. A caixa d'água era gigantesca. Quem subia até lá podia caminhar sobre ela, andando na laje de cimento. Havia uma tampa, também de cimento, e se você conseguisse arrastá-la um pouco, fazendo um esforço sobre-humano, conseguia ouvir as bombas funcionando lá dentro e puxando a água, que vinha das profundezas da terra.

Além da superfície de cimento, que cobria a caixa d´água, podia ser visto um telhado, recurvado, com seis fileiras de telhas francesas. 

Naquela tarde, subi pela escada de ferro. Tentei ouvir o barulho da água entrando na caixa e fui em direção ao telhado. Trepei na cumeeira e observei as pessoas e os carros em miniatura, passando pela Senador Feijó. 

É claro que as telhas eram velhas, é claro que eu usava uma sandália, daquelas que as crianças usavam antigamente. O solado liso não freou e despenquei em alta velocidade, rumo ao precipício. 

Senti o corpo gelado, como se tivesse caído e morrido. Na realidade, morri um pouco naquele momento, de tanto medo de mergulhar no vazio. Pensava no sofrimento que causaria aos meus avós, meus pais, minha irmã, minha tia...As pessoas que eu mais amava na vida e que eram tudo para mim. 

No final das telhas, havia uma calha, reforçada, bem resistente, que amparou meus pés. Mesmo assim, senti a calha fraquejar, dar uns estalos. Eu não tinha onde me segurar. As telhas eram muito lisas e pareciam cobertas com um limo escorregadio. Precisava recuar... 

Lentamente, fui me mexendo para trás, só que, às vezes, voltava a escorregar e descer em velocidade em direção à calha. Tirei as sandálias e descalço consegui a firmeza que necessitava para sair do sufoco.

Contei essa história, porque estou me sentindo assim, hoje, a uma semana antes da eleição. Vivi 21 anos sob a Ditadura Militar e foi uma experiência dilacerante. Eles proibiam o acesso a livros, filmes e peças de teatro. Censuravam alguns jornais (a Folha, não). Impediam reuniões. Fechavam sindicatos. Andando pela rua, você era parado, revistado...Uma noite, o militar tirou todos os meus documentos e espalhou sobre o camburão, tentando achar sei lá o quê. A gente vivia debaixo de uma sombra escura, asfixiante. Era um País sem alegria, infeliz, temeroso. O País não andava. Entre 1982 e 1983, fiz uma pesquisa de campo no interior de Minas Gerais e dei de cara com o atraso, a miséria, a pobreza atroz. As crianças desmaiavam de fome na sala de aula. O transporte público era risível. Os muito doentes morriam, enquanto eram transportados para a capital Belo Horizonte. Faltava trabalho, faltavam escolas e oportunidades. O "milagre econômico" do regime militar era um conto de fadas. A miséria estava por todo canto.

Agora, justamente o candidato que apoia a volta a esse pesadelo político, econômico, social, cultural lidera as pesquisas. Seus correlegionários são agressivos, fazem uma campanha brutal, com componentes insuportáveis. Como a maré negra que se incorpora aos pássaros marinhos e crustáceos, sinto o mesmo acontecendo à minha volta. Leio os posts de antigos amigos, participo de conversas com conhecidos próximos e percebo neles um reacionarismo fétido. Como é possível ser contra o Bolsa Família, em um País com 13 milhões de miseráveis? Essa sujeira vai se alastrando, vai se incorporando aos nossos corpos, vai deixando tudo grudento, matando a vida. Me sinto novamente criança, à beira do vazio. Só que o meu desejo agora é sucumbir à queda. Não parece mais valer a pena. 

Sábado passado, as mulheres foram às ruas e marcaram território. Foram belas manifestações, pacíficas, emocionadas, valorizando o novo ideário feminista - contra o machismo, contra o racismo, contra a volta da Ditadura, a favor do aborto e dos LGBTs.

Quem analisa os índices de rejeição percebe que o candidato, que apoia a Ditadura Militar, tem pouca chance de sobreviver ao segundo turno. O problema é que o tecido que forma a sua candidatura vai continuar existindo e se propagando, em metástase, como um câncer. Contra essa gente não há quimioterapia política eficiente.

Então, para que serviu tudo aquilo que fizemos nos anos 1980? O que adiantou ter participado de tantas manifestações, pedindo a volta das Diretas, se eles continuam vivos, ervas daninhas contaminando nosso jardim? 

A democracia fez um bem danado para o País. Em 2012, quando fiz nova pesquisa de campo e retornei àquela comunidade mineira, parecia estar em outro lugar do mundo. Sobravam postos de trabalho, "aqui só não tem emprego quem não quer", me diziam os entrevistados. Os antigos sitiantes haviam prosperado. Havia transporte público decente, escolas e unidades médicas suficientes. Ninguém mais desmaiava de fome.

Só que a democracia não bateu fundo, não fez todo o dever de casa. Era preciso ter tosquiado o capital devidamente. Taxar os rentistas, taxar as grandes fortunas, obrigar esse negócio multimilionário, chamado igreja, a pagar impostos. 

E o banqueiro, com fortuna de 450 milhões de reais, querendo ser presidente? Os bancos demitem pessoal, obrigam o desgraçado que precisa entrar naquele antro a esperar horas e horas na fila, cobram juros escorchantes e nunca faturaram tanto na vida. Perto de casa tem uma agência da Caixa Econômica Federal com um funcionário para atender dezenas de miseráveis, em busca do troco do PIS. Fui perguntar o que estava havendo e aquela mocinha que fica na porta, tentando apagar o incêndio com colher de sobremesa, me disse que a agência tem dois funcionários. "Só que um está de férias."




          

       

segunda-feira, 30 de julho de 2018

O retorno ao DGABC e a morte de Celso Daniel


Retornei ao DGABC (Diário do Grande ABC) em 2002. O jornal era comandado pelo meu amigo e parceiro de reportagens especiais, Irineu Masiero. Cheguei em meio a um cabo de guerra entre as famílias Montecchio e Capuleto. No caso, os Dotto contra os Polesi. Havia uma guerra de liminares, de embates jurídicos, que impediam os diretores até de entrar na sede do jornal. 

Lembro do Irineu, quase que diariamente, alterando o Expediente do Diário. Ora, entrava um diretor; ora ele saía do Expediente. A sensação para nós, funcionários, era a de sempre nessa profissão: sentíamos a firmeza de um prego na areia.

Em 2004, a família Dotto levou a melhor no cabo de guerra, aliando-se ao empresário Ronan Maria Pinto. Segundo investigações, Ronan teria obtido 6 milhões de dólares do banco Schahin para comprar o jornal. O fato é que os Polesi venderam sua parte no Diário e rumaram para Guarulhos, onde assumiram o comando de um jornal daquela cidade.

Na época, uma força tarefa da promotoria investigava a morte do prefeito Celso Daniel, ocorrida em 2002. Segundo os promotores, Ronan, Sérgio Gomes da Silva, o Sombra, e Klinger Luiz de Oliveira Sousa teriam contratado um grupo de criminosos para sequestrar e executar o prefeito, porque ele estaria se opondo ao esquema de corrupção que achacava empresários de ônibus. 

Acompanhei as investigações de perto e essa tese da promotoria nunca bateu com as investigações policiais. A polícia chegou ao cativeiro de Celso Daniel por uma denúncia de uma pessoa que morava na favela Pantanal, onde estavam os criminosos, e ouviu os bandidos comentando que tinham feito uma bobagem ao sequestrar o prefeito de Santo André. 

Essa testemunha lavava roupa em seu barraco e compreendeu que ouvira algo que precisava ser transmitido à polícia com extrema urgência. A testemunha trabalhava na Rádio Jovem Pan em serviços gerais. Sem pensar duas vezes, ela saiu da favela. Pegou o ônibus e foi até a Rádio, pedindo para falar com o presidente da emissora. Ele ouviu o que a testemunha lhe narrou e procurou imediatamente o delegado Edson de Santi, que ele conhecia, porque, quando fazia faculdade, de Santi havia trabalhado como locutor da Jovem Pan.

O delegado foi com sua equipe até a favela e entrou no cativeiro, descobrindo a credencial do prefeito, jogada no chão. Celso Daniel não se encontrava mais neste cativeiro. Ele havia sido removido para outro local. 

De Santi levantou rapidamente os responsáveis pelo sequestro e descobriu que se tratava de uma quadrilha, comandada pelo bandido Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro, que havia se "especializado" nesse tipo de sequestro, arrebatando suas vítimas, em carros de luxo. 

Dias depois, o cadáver do prefeito foi descoberto na periférica estrada das Cachoeiras, em Juquitiba. 

Os criminosos foram sendo capturados um a um. Meses depois, quando prendeu o Monstro, em uma favela próxima à Marginal Tietê, o delegado de Santi ouviu o comentário do criminoso: "Puxa, dr., achei que o sr. tinha se esquecido de mim". Na favela, havia um sequestrado, que Monstro mantinha em cativeiro. 

Fui várias vezes à avenida Nossa Senhora da Saúde, onde ocorreu o arrebatamento. Encontrei uma sra. que havia testemunhado toda a ação: os tiros disparados contra a Pajero blindada, Celso Daniel sendo tirado de dentro do veículo, com as pernas dobradas, e depois o seu amigo Sombra gritando na rua, desesperado. 

Quando fui conversar com os promotores sobre essa testemunha, eles me mandaram falar com a defesa. "Esse testemunho só interessa aos advogados", me disse um promotor. Achei estranho, porque, a princípio, achava que a força tarefa devia estar interessada em encontrar a verdade, ouvindo toda e qualquer testemunha. 

A investigação da promotoria incluía cartas comprometedoras, bilhetes, ligações e a participação do bandido Dionísio Aquino Severo, que fugira do presídio "cinematograficamente" a bordo de um helicóptero. 

A tese da promotoria nunca foi comprovada, nem os supostos articuladores do crime foram julgados por isso. O estranho é que a quadrilha de Monstro seria ligada ao PCC e Dionísio estaria ameaçado de morte pelo PCC por pertencer a uma facção rival (CDL - Domando Democrático da Liberdade). 

Como Dionísio e Monstro poderiam estar juntos em uma ação tão importante como o suicídio e assassinato do prefeito, pertencendo a facções rivais?

Os promotores, quando me viam, fechavam a cara. Eu não conseguia nada em off. As reportagens não avançavam. Inúmeras vezes, eu saía da sede do Diário na rua Catequese e atravessava a pé a distância que me separava do Fórum de Santo André, onde ficava o QG da força tarefa. Retornava com as mãos abanando.

Ingenuamente, achava que os promotores davam preferência para os repórteres da Folha e do Estadão, quando, na realidade, eles já sabiam que um dos suspeitos do crime, o empresário Ronan Maria Pinto, havia comprado o jornal. Então, os promotores me viam como um pau mandado de Ronan para tentar descobrir em que pé estavam as investigações. Só que, naquele momento, ninguém na Redação sabia que o jornal havia sido vendido e que o comprador era Ronan.

Conversando com a então editora de política, Denise Gianóglio, disse que não sabia mais o que fazer. A gente estava levando um furo atrás do outro e não conseguíamos avançar. Denise sugeriu que eu fosse procurar um dos promotores da força tarefa, que morava em Santo André, para tentar obter algo dele.

Deviam ser umas nove horas da noite, quando bati na casa do promotor. Ele me atendeu ainda a bordo da camisa e calça e sapato social. Só havia tirado o paletó e a gravata. Cumprimentei a mulher, o filho e ele me convidou para conversar com ele na sala. 

Me acomodei no sofá e saltou ao meu lado um cachorro preto enorme que ficou me encarando, com ar de poucos amigos. 

Conversamos durante uma hora. Não anotei, nem gravei nada do que foi dito. Entre outras coisas, ele me passou a informação de que o elo entre a quadrilha de Monstro e os três suspeitos (Ronan, Sombra e Klinger) seria o "bandido do helicóptero" (Dionísio). Saí de lá com o furo na mão e um gosto amargo sobre o futuro. Ele me revelou que Ronan havia comprado o Diário. E acrescentou: "Avisa o pessoal (entenda-se, a família Dotto), que não tem nada na investigação contra eles".

Entrei no carro da reportagem e cheguei na Redação, balançando, com a notícia da venda do jornal. Nós nos reunimos no aquário, eu, Irineu e Denise. Ela mandou "parar as máquinas". Decidimos como ficariam a manchete e o encaminhamento do texto. A manchete foi algo assim como "Dionísio era o elo". De acordo com a tese da promotoria, é claro. 

Denise e Irineu achavam que a história da compra do jornal era mais um bos muitos boatos que circulavam naquele momento.

Na minha cabeça, a investigação da força tarefa tinha desvios políticos. É o que se chama hoje de "ativismo judicial". Eu achava que havia uma caça às bruxas, promovida pelos promotores peessedebistas, contra o PT. Ainda martelava a voz daquela testemunha, ouvindo os criminosos da Favela Pantanal dizer que tinham feito uma cagada ao sequestrar o prefeito de Santo André. 

No dia seguinte, a manchete do Diário foi sentida pela concorrência. Obrigou a força tarefa a convocar uma coletiva. A sala ficou lotada. Os repórteres tinham cópias da reportagem do Diário. Profissionalmente, esse é um momento em que o profissional mais se orgulha do seu trabalho. Você obtém algo exclusivo. Fica todo cheio de si. 

O problema era aquela informação da venda do jornal. Entre outras matérias que desenvolvia, eu produzia um dossiê sobre Ronan, a pedido da Diretoria do jornal (na verdade, parte da Diretoria). Lembro de ter ido a Embu-Guaçu atrás de um terreno gigantesco que Ronan dava como garantia para obter empréstimos. Não consegui achar o terreno, mas falei com dezenas de pessoas que diziam que "muita gente vem procurar esse terreno que não existe". 

Agora, teria de esquecer o dossiê e começar a procurar emprego...   



A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...