terça-feira, 22 de maio de 2018

Depender da Eletropaulo é um choque de realidade



Sábado de manhã. O dia amanhece calmo. Sol fraco, pássaros cantam, cachorros se coçam. A gente toma café, faz planos para o dia, com aquela suposta tranquilidade de quem se acha piloto do futuro. 

Só que, como afirmava o mergulhador Mike Nelson, "o inevitável aconteceu". Do nada, veio um minitufão, um vento fortíssimo que arreganhou janelas, fez voar telhas e derrubou um fio elétrico que liga o poste da Eletropaulo ao poste de casa. 

Começou a chover. As lâmpadas adquiram um brilho solar. Era você acender uma lâmpada e ela explodia. Corremos para tirar tudo o que era possível das tomadas. Chamamos o eletricista que veio pouco depois e constatou o problema: o vento tinha derrubado o fio neutro. Nossa casa inteirinha estava entregue aos 220 volts. "Não acenda lâmpada que ela vai queimar. É preciso chamar a Eletropaulo", avisou o prestador de serviço da Porto Seguro, por sinal, seguradora sempre impecável. 

Ligamos em seguida para a Eletropaulo. A atendente disse que a situação era de emergência e que, por favor, não tocássemos no fio que havia escapado do poste. Eram umas 9h30 do sábado. Pouco antes do almoço, ligamos novamente para a Eletropaulo. Outra atendente e uma nova solicitação da prestadora: "Dá para alcançar o fio solto com a mão?". Não dava, mas se ela quisesse, eu subiria em uma escada dos bombeiros e pegaria o fio à unha porque devo ser um dos muitos idiotas do mundo que, quando veem um fio solto, saem correndo para levar choque. De qualquer forma, ela prevê que o serviço será feito "até as 15h" 

Chega a tarde e nada da Eletropaulo. Ficamos de plantão em casa. Aguardando a chegada da equipe de manutenção. Isso é o bom do capitalismo brasileiro: os serviços públicos foram privatizados, os escolhidos encheram o saco de dinheiro e a população fica assim, com o bico aberto, piando sem parar, que nem filhote de passarinho que a mãe foi morta pelo moleque de estilingue.

Cerca de 17h, liga uma atendente da Eletropaulo. Quer saber se o fio está ao alcance da minha mão. Infelizmente, não, eu digo, bem que eu gostaria de levar um choque de uns 1.200 volts e encerrar essa espera angustiosa. Ela me dá uma má notícia: "O sr. sabe aquela previsão que uma equipe iria até sua casa até as 15h. Pois é, agora, nós não temos mais previsão".

Pouco depois, uma nova ligação. Haveria uma equipe da Eletropaulo por perto, porém, eles não conseguiam achar meu endereço. Deixe de pagar a conta da Eletropaulo e veja se eles não acham direitinho seu endereço para cortar o fornecimento.

Chega a noite. Jantamos melancolicamente à luz de velas. Não há romantismo em saber que sua comida está apodrecendo na geladeira. Não há romantismo em saber que você vai tomar um banho gelado antes de dormir. 

Oito horas da noite, desisto do mundo e vou dormir. Apago imediatamente. Às 23h45, sou sacudido pelo som contínuo e ininterrupto do telefone. Espero um pouco para ver se o desgraçado desiste, mas ele não para. Toca, toca e toca sem parar. Trôpego, com os olhos se recusando a abrir, atendo o telefone. É um rapaz da Eletropaulo. Muito solícito, ele pergunta se a equipe de manutenção veio fazer o serviço. Não, não veio. "Tudo bem, o sr. aguarde que eles vão chegar o mais breve possível". 

Cristo Rei! Esses incompetentes não têm controle? A Central não se comunica com as equipes de campo? E que maldito sem coração liga para a gente às 23h45 para perguntar algo que ele deveria saber? 

Amanhece o dia. Às 6h, ligo novamente para a Eletropaulo. A atendente diz que não vai dizer que o serviço será feito até uma determinada hora, porque isso seria mentir pra mim. "Não temos qualquer previsão", ela afirma categórica, com aquela maldade característica de alguém que madrugou no trampo. 

Minha mulher sonha que estou vendo futebol na TV, enquanto passo roupa. Ela sai cambaleando da cama e leva um choque de realidade: nada de luz, nada de equipe de manutenção. 

É só um maledeto de um fio solto! Um fiozinho só! Imagine o dia que eles precisarem trocar os postes e a fiação da rua?  

Tomamos café. O relógio marca 9h. Estamos há 24h sem luz. Deve ser algum recorde. 

Então, às 10h do domingo acontece o milagre. Chega o caminhão da Eletropaulo, com a equipe que vai nos resgatar do breu, das sombras e das trevas. Pulamos, cantamos de alegria. Festejamos! 

Só que o caminhão passa direto. Não viu a nossa casa. Foi em frente, foi embora...

Saio correndo pela rua...Como o louco Rubião, herdeiro do filósofo Quincas Borba. 

Caríssimo, naquele momento, eu bateria fácil, fácil, o recorde de 100 metros. Pobre Usain Bolt...Fiz aqueles 300 metros que me separavam do caminhão em menos de 8 segundos. Agarrei o bruto. Firmei os calcanhares no chão. E o trouxe arrastado até em casa. 

O fio solto finalmente iria ser reconectado ao poste. Demorou só 26 horas para fazer o serviço. 





segunda-feira, 14 de maio de 2018

"Em nome do silêncio"


Monteiro Lobato escreveu um artigo ("Em nome do silêncio"), que é uma crítica raivosa e ao mesmo tempo bem-humorada sobre o barulho que predomina em São Paulo:

"À nossa Constituição falta um artigo de capital importância, que estabelecesse a paz da inviolabilidade do domicílio e a inviolabilidade dos nossos ouvidos", ele escreve.

"Se um cidadão não tem o direito de penetrar violentamente em casa de outro, porque terá o direito de penetrar no seu aparelho auditivo?", questiona.

"São Paulo é a vítima permanente dum estupro auditivo organizado em sistema. Seus tímpanos não merecem a consideração de ninguém. São uma espécie de casa da Mãe Joana, onde todo sujeito capaz de um som violento,sem a menor cerimônia, deposita a sua contribuição".

Nesse mesmo texto, Lobato fala do Carnaval, quando "bandos de bípedes passam (...) em mangas de camisa, balindo, latindo, mugindo, grunhindo, guinchando, urrando, taralhando, coaxando, crocitando, zurrando, ululando (...)".

Muito distante do politicamente correto, Lobato critica as mulheres com excesso de peso: "Gordas, mamalhudas" (...) esses cetáceos femininos (...) passam irradiando nuvens de espiroquetas pálidos". 

Espiroquetas são bactérias...

Imperdoável, Lobato manda enviar as mulheres obesas aos matadouros, que havia na época na periferia da cidade:

"Quanto ao mulherio não há vacilar a respeito do seu destino: é tangê-las para Osasco. Só assim seremos reintegrados nas incomparáveis delícias do silêncio".

Este artigo (Em nome do silêncio) faz parte do livro "Ideias de Jeca Tatu":
goo.gl/arsYMA

   



quinta-feira, 3 de maio de 2018

A Rede Globo podia sumir do mapa


Faz tanto tempo que a Rede Globo enche o saco que sei lá...Bem que ela podia sumir do mapa. Imagine acordar um dia de manhã, um dia ensolarado e generoso, sem a Rede Globo...

Roberto Marinho, herdeiro de seu pai (Irineu) fundador do jornal O Globo, recebeu a concessão para criar a TV Globo durante o governo Juscelino Kubitschek, em 30 de dezembro de 1957. 

Somente em 1965, durante a Ditadura Militar, que Roberto Marinho decidiu explorar o antigo Canal 4. Pediu dinheiro e tecnologia ao grupo Time-Life, que lhe concedeu um empréstimo milionário e foi em frente. Tornou-se o braço direito eletrônico da Ditadura, seu principal relações públicas, adulando, enaltecendo, viabilizando um regime odioso, que imobilizou o País durante 21 anos. 

O programa Amaral Neto, Repórter mostrava, com brilho e paetês, o milagre brasileiro, construído pelo economista e ministro forte da economia Delfim Netto. (Os inimigos chamavam Amaral Neto de "Amoral Nato".)

No final da Ditadura, depois da "onda milagrosa" dos anos 70, estive em uma localidade de Minas Gerais. O ano era 1982. Em Piedade do Paraopeba, onde fiz pesquisa de campo para uma tese de mestrado, as estradas eram precárias, não havia transporte público decente, as pessoas viviam em um estado de "fome psíquica" (termo bem sacado pelo professor Antonio Candido, em Os Parceiros do Rio Bonito), os moradores do Vale do Paraopeba morriam a caminho do atendimento médico, crianças desmaiavam de fome na sala de aula. A mortalidade infantil atingia números desmoralizantes. E Piedade do Paraopeba ficava a meros 50 quilômetros da capital Belo Horizonte. 

O "dr. Roberto", como era chamado pelos colegas, tinha experiência no apoio a ditaduras. Em 1930, O Globo sustentou solenemente o golpe de Getúlio Vargas. Ambos, Getúlio e o "dr. Roberto" seriam admitidos na Academia Brasileira de Letras, essa curva de rio, onde ficam retidos escombros nacionais, como o autor de Marimbondos de Fogo.

Premiada pelo governo americano por apoiar o american way of life, a Globo fez de tudo um pouco nesses anos. Tentou inviabilizar a eleição de Leonel Brizola ao governo do estado do Rio de Janeiro em 1982, no episódio conhecido como o "Escândalo do Proconsult". (Em 1994, Brizola foi à forra e conseguiu na Justiça que Cid Moreira lesse uma nota durante o Jornal Nacional https://www.youtube.com/watch?v=aKjonfX-qdw)


Em 1984, a Globo ignorou o movimento pelas Diretas Já. Milhares de pessoas reuniam-se em praças, ruas, avenidas, monumentos exigindo a volta das eleições diretas e a Globo fingia que a mobilização não existia. 

Documentos vazados pelo WikiLeaks indicam que, em 1986, a Globo teria repassado à Unesco apenas 10% dos valor arrecadado na campanha Criança é Esperança.  Esse documento foi datado em 15 de setembro de 2006 e divulgado pelo WikiLeaks em 2013. 

Em 1989, na final eleitoral entre Lula x Collor, houve aquele momento do golpe baixo, aquela pancada que se dá nas partes mais doloridas do lutador. Na edição do Jornal Nacional sobre o debate entre os dois candidatos à Presidência, houve a maquiagem que destacou tudo que era a favor de Collor e o que podia ser contra Lula ganhou lente de aumento. Vinte e dois anos depois, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, ex-vice-presidente das Organizações Globo, deu mais detalhes. Disse que Collor foi maquiado para parecer "mais presidenciável". Boni entregou a Collor pastas enormes com papéis (em branco) para parecer que estaria de posse de denúncias graves contra o candidato do Partido dos Trabalhadores.

Em março de 2015, o Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo divulgou a "lista do HSBC", com nomes de brasileiros que tinham contas na Suíça. Segundo o jornalista Fernando Rodrigues, que divulgou a lista no Brasil, tratava-se do "maior escândalo de evasão fiscal e de divisas já revelado no mundo". De acordo com a "lista do HSBC", ficamos sabendo que a viúva do dr. Roberto, dona Lily, tinha 750 mil dólares na Suíça. Outras celebridades da Globo também detinham contas na Suíça: Jô Soares, Maitê Proença, Marília Pera, Claudia Raia, Edson Celulari, Francisco Cuoco. 

 O episódio mais recente envolveu o "golpe branco" que derrubou a presidente Dilma Rousseff. Ao contrário do que fez em 1984, quando ignorou o movimento pelas Diretas Já, a Globo cobriu com parcimônia movimentos direitistas que pediam a queda do governo Dilma. A emissora carioca chegou até a interromper programas esportivos para cobrir manifestações, deixando o microfone aberto para deixar passar gritos e até palavrões contra Dilma. 

As mentiras e "erros" vão se acumulando no repertório Global. O jornal O Globo noticiou que o famoso tríplex do Guarujá tinha "elevador privativo e área gourmet". Precisou o MST invadir o lugar para descobrir que era mentira. O apartamento era meia boca, sem elevador privativo, sem área gourmet. 

O Jornal Nacional - outra vez ele -  noticiava com pompa e circunstância que Joesley Batista havia depositado 150 milhões de dólares nas contas bancárias de Lula e Dilma. Depois, um constrangido William Waak explicou que o dinheiro não estava na conta de Lula nem de Dilma. Waak seria demitido pouco depois - não por esta barriga - mas por ter feito um comentário racista, gravado em áudio.

A principal emissora brasileira é um filme triste. Com muitos vilões, muitos cenários desagradáveis, uma história de desserviço ao País e à sua população. Seria tão bom se a Globo deixasse de existir. Imagine acordar amanhã, um dia ensolarado, e descobrir que a Globo havia desaparecido, sumido para sempre como aquele prédio que desmilinguiu-se na madrugada do Dia do Trabalho.


terça-feira, 1 de maio de 2018

Coisas que odeio - som alto


Devia ter uns quatro anos. Estava na casa dos meus avós, que moravam no Centro velho de São Paulo. Meu avô era zelador de um prédio comercial e vivia no 12º andar, em um apartamento de três quartos, sala ampla, cozinha imensa. A construção era sólida, mas sem os requintes modernos. As janelas eram incapazes de vedar o som que vinha da rua. Se uma tampa de bueiro fosse deslocada e fizesse barulho cada vez que a roda de um carro passasse sobre ela, ouvia-se tudo perfeitamente lá no 12º andar, como se a janela estivesse no rés do chão.

Nessa mesma rua, quase em frente ao prédio em que meu avô era zelador, vivia o jornalista Assis Chateaubriand, fundador dos Diários Associados. Uma das mazelas de Chateaubriand era não conseguir conciliar o sono por causa de uma gafieira que havia na rua Quintino Bocaiúva. Senti na pele (ou nos ouvidos) o drama de Chateaubriand. 

Menino ainda me sentia impotente diante daquele barulho insuportável. Queria dormir, virava na cama, cobria a cabeça com o travesseiro e o barulho vinha em ondas, balançando os vidros das janelas, invadindo o espaço da nossa família. 

Naquela época não sabia, mas a vida inteira seria perturbado pelo som alto que vem do vizinho, do carro que passa na rua, do boteco, de algum lugar remoto...

Cheguei a conclusões preliminares: o som alto é agressivo, invade seu espaço como uma tropa de ocupação, o responsável pelo barulho sabe que está lhe perturbando e seu incômodo é a última preocupação dele. Esse tipo de arruaceiro é egoísta por excelência. A diversão dele prepondera sobre a sua paz. Ele não admite ser chamado a atenção e vê na sua atitude uma falta de "boas maneiras", como se o intruso fosse você, o reclamante. 

Perdi a conta das vezes em que estive em distritos policiais, por causa desses arruaceiros. Morei durante um tempo na casa da minha sogra, no bairro da Mooca, e na rua onde ela vivia, havia uma família desagregada - o pai tinha fugido com outra, a mãe dava suas escapadas noturnas e a casa dessa família ficava entregue aos filhos adolescentes e a um rapaz com seus 20 anos. Esse moço dava festas que duravam três dias. Som no último volume. Um inferno!

Uma noite, chamei a polícia. A atendente no 190 me disse que eu devia ficar na rua aguardando a chegada da viatura policial e que deveria acompanhar os agentes, quando eles fossem bater na casa barulhenta. Naquela época, os policiais militares não sabiam direito como se portar. Pouca gente se queixava de "perturbação da ordem pública", embora já tivesse início aquela fase do tum-tum-tum insuportável, que desaguaria nos bailes funk da periferia e adjacências. 

Para resumir a ópera, lá fomos todos nós para o Distrito Policial, conversar com o dr. delegado. O garoto arruaceiro me olhava indignado. Ele era incapaz de entender que eu e a minha família preferíamos dormir, ao invés de passar a madrugada acordados por causa da música que ele ouvia.

Quando me mudei para a Granja Viana achava que tinha encontrado um lugar bucólico e silencioso. Engano atroz. Uma noite acordei com a maluca da vizinha, cantando karaokê às três da madrugada. Havia sábados de muitas festas e som que estropiava as noites estreladas. Os fins de semana eram regalados a cheiro de carne queimada do churrasco e o tum-tum-tum característico que vinha de todas as latitudes e longitudes. 

Se você tenta se refugiar em um sítio, é muito pior, porque os arruaceiros acham que estão "no mato" e portanto podem estatelar o o som massacrando a ausência plena de razoabilidade. 

É estranho, mas por que cargas d'águas barulhentas o arruaceiro  faz questão de obrigá-lo a ouvir a música que você não quer ouvir? Ele não se contenta em ouvir, ele quer propagar o som, como se fosse o avatar de uma verdade universal. 

Chama-se a polícia. Acompanha-se os agentes. Produzem-se boletins de ocorrência. Arrumam-se testemunhas. O escrivão datilografa. Registra seu testemunho. Pede para você assinar. As ocorrências seguem por vias estreitas e mal faladas dos corredores judiciários. Você liga. A escrivã não se lembra do seu caso. Você insiste e percebe que a Justiça se arrasta sem pressa, sem ser justa. 

Pergunta que não quer calar: E se processássemos também as indústrias que fazem esses aparelhos de som de frequência, timbre e altura desumanos? 

A indústria do tabaco tem sido ré em processos pesados e vem desembolsando muita grana para compensar os danos provocados pelo cigarro. Em 2004, a toda poderosa Philip Morris perdeu um processo histórico no valor de um bilhão de dólares. O mesmo poderia acontecer com a Sony, que faz esses aparelhos de som que alcançam alturas desmesuradas e incompatíveis com a cordialidade possível. Quanto a Sony me deve em indenizações pelas minhas noites mal dormidas, por causa de seus equipamentos incivilizatórios?

Nos Estados Unidos, em alguns estados, se você for pilhado com o som alto, vai desembolsar no ato uma multa dolorida de mil dólares (R$ 3,5 mil). Em outros países, as pessoas "ruidosas" vão em cana mesmo. 

Certa vez, quando morava no interior da França, em Nancy, lembro de ter ido a uma festa de brasileiros em um pequeno apartamento. A gente comeu feijoada (porque brasileiro vivendo fora do Brasil sempre vai comer feijoada) e depois do almoço, depois das caipirinhas inevitáveis, o pessoal tirou os batuques pra fora e começou a produzir aquele som característico de treinamento de escola de samba. Falei para a minha mulher: "vamos sair daqui que o bicho vai pegar". Não demorou 15 minutos e baixou uma equipe da Swat local, levando toda a escola de samba improvisada para falar com o dr. delegado francês. 

O fato é que o mundo é barulhento. É ruidoso demais. O tempo todo. O silêncio hoje é um luxo, ao qual poucos têm acesso. Nos últimos anos, não me lembro de ter passado um único dia - vou insistir nesta informação - um único dia, sem ser obrigado, em algum momento da jornada, a escutar uma música que não gostaria de ouvir.

Enfim, entre Música ao Longe e O Resto é Silêncio - ambos de Érico Veríssimo - adivinhe qual eu prefiro?

Nota de rodapéO rapaz lá da Mooca mudou-se com a família, sem deixar rastros. E a gafieira da rua Quintino Bocaiúva pegou fogo e acabou-se em cinzas. Bem feito!        





    

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Coisas que odeio - filmes que têm perseguição de carros




      Confesso que sou radical. Estou no cinema. Começa cena de perseguição de carro, não tenho dúvida. Levanto e vou embora. Sem discussão. Perseguição de carro é tão manjada, tão manjada, tão insuportável, que chegou ao meu limite.  Quem foge não é o carro perseguido, sou eu. 

     Lembro de uma tarde/noite estava nas proximidades da rua Santo Antônio, Centro de São Paulo. Chovia. O trânsito havia chegado àquele momento da imobilidade desperada. Ninguém andava. Faróis, no amarelo piscante. Motoristas buzinavam por inércia. Passageiros desciam dos ônibus, porque pressentiam que andando chegariam mais rapidamente a seu destino. 

     Joguei o carro em uma travessa e estacionei. Passei por um carro antigo (parecia um velhusco Dodge Dart) que estava ligado com as portas e janelas fechadas. Sem ninguém dentro. O motor funcionava. Sem chaves no contato. Um mistério que até hoje não consegui solucionar. Um senhor olhava pelas janelas, tentando entender o que acontecia. "Cada coisa que a gente vê", ele comentou, quando passei por ele.

    Lembro que atravessei o viaduto Major Quedinho e estava nas proximidades da Biblioteca Mário de Andrade quando a chuva apertou. Entrei na Galeria Metrópole, onde antes havia o Cine Metrópole. Paguei o ingresso e entrei, sem querer saber que filme estavam exibindo. 

     Meio molhado, com o saco cheio por não conseguir chegar em casa, por causa do trânsito, meio faminto, fiquei esperando o início do filme. Quando aquilo começou me dei conta que os céus estavam me castigando de forma implacável. Era um filme novo, Velozes e Furiosos. A droga nem tinha roteiro. Era só carro correndo atrás de carro. Levantei e bati em retirada. Chega um momento da vida em que você reconhece quando foi definitivamente derrotado pelas circunstâncias.

     A minha ojeriza à perseguição de carros vai além. Também não suporto perseguição de naves espaciais, lanchas, bicicletas, motos e trens.

     Filme americano policial repete também uma cena à exaustão. Os agentes chegam ao nome de um suspeito. Alguém levanta o endereço do sujeito e lá vai uma equipe de policiais para capturá-lo. Ficam diante de um prédio decadente, caindo aos pedaços. Os policiais arrombam a porta e o suspeito pula a janela e foge. Começa a perseguição. Geralmente, o policial consegue agarrar o infeliz, depois de tropeçar em latas de lixo, entrar em clubes de strip-tease (com rápida aparição de garotas seminuas, enroscadas em postes de pole dance), saltar sobre cercas...O suspeito é preso. Levado para a delegacia e...Surpresa! Não era ele. 

      O pior é ver filmes e séries francesas ou de outros países europeus utilizarem o mesmo recurso desgastado da prisão do suspeito que foge. Imersos em clichês.

     Em filme policial americano, o detetive é divorciado, transa com a suspeita, bebe e fuma, é violento, briga com o parceiro. O chefe dele vai enquadrá-lo e o pobre detetive vai ser obrigado a entregar o distintivo e a arma no meio do episódio. Mesmo assim continuará investigando o crime até resolvê-lo, sendo readmitido com glórias na polícia. Estamos presos para sempre em clichês. 

      
       

      

terça-feira, 24 de abril de 2018

O bairro Vila Clementino nasceu em função do Matadouro




O Matadouro Municipal de Vila Clementino (foto) foi inaugurado oficialmente no dia 5 de janeiro de 1887. O prédio localiza-se no Largo Senador Raul Cardoso, 207, próximo à Avenida Sena Madureira, e foi tombado pelo Patrimônio Histórico Arquitetônico, Artístico e Turístico do Estado em 1983.

Coube ao matadouro uma importante tarefa histórica: serviu como foco de desenvolvimento para uma região ainda não ocupada. Na placa de mármore, que ainda hoje pode ser vista nas paredes do prédio, há a anotação histórica:

“Construído no quatriênio de 1883 a 1887/Presidente da Câmara Dr. Manoel Antonio Dutra Rodrigues/Architecto - Alberto Kuhlmann”

Em 27 de maio de 1885, enquanto o prédio ainda estava sendo construído, um ramal da linha de bonde veio ligar a Estação Vila Mariana ao matadouro. A Vila Mariana era, nesse período, núcleo incipiente com população dispersa em pequenas chácaras, onde o binômio Matadouro-Ferrovia foi decisivo na sua urbanização e povoamento.

A construção do matadouro é um período, considerado pelos arquitetos, como a “segunda construção de São Paulo”. Isto porque o prédio, revestido com tijolos aparentes, marca o fim das construções em taipa de pilão (parede de barro ou de cal e areia, com estacas de tábuas de madeira). Sua inauguração foi um grande acontecimento, com muita pompa, festa e discursos, como relata o Correio Paulistano, de 6 de janeiro de 1887: 


“Realizou-se ontem a inauguração do novo matadouro, sito no arrabalde de Villa Marianna. Às duas da tarde, partiu da Rua Vergueiro um comboio da Companhia Carris de Ferro de Santo Amaro, conduzindo o excelentíssimo presidente da província, vereadores, representantes da imprensa, outras pessoas gradas e uma banda de música, chegando todos ao novo matadouro às três horas e um quarto..."

O memorialista Pedro Masarolo descreve, com riqueza de detalhes, a agitação que tomava conta das ruas do bairro, após a inauguração do matadouro:


 “As boiadas para o corte vinham do Ipiranga e outras da Lapa. As que vinham do Ipiranga eram descarregadas nessa estação e depois, pela Estrada do Vergueiro, Ruas Conde de Irajá e Domingos de Moraes, entravam pela Sena Madureira até as mangueiras (currais), que ficavam próximas ao Matadouro; ali, aguardando o dia do sacrifício”.

A passagem das boiadas pelo bairro era sempre um acontecimento. Os bois, já cansados pela viagem de trem, vinham pela estrada espavoridos como uma avalanche. O povo, ao grito (“a boiada”), corria e se escondia atrás do primeiro cercado que encontrasse à frente ou entrava na primeira porta que achasse aberta.

No meio da boiada, eram comuns bois bravos e muitos casos houve de acidentes com populares. Vinham eles num tropel e, em meio à poeira, os boiadeiros a cavalo de um para outro lado esporeando os animais, gritando e brandindo os chicotes. Este espetáculo dava a impressão de uma legião de demônios saídos do inferno. Os bois que vinham da Lapa também eram trazidos da mesma forma. Ao desembarcar na estação, eram trazidos para os lados do cemitério, e dali seguindo a Estrada das Corujas e os campos do Pedro Criste. Depois de atravessarem a rua Teodoro Sampaio, entravam na estrada do Bibi e depois, pelo Ibirapuera, chegavam às mangueiras (currais).

O prédio do matadouro era uma boa construção para aqueles tempos. Paredes com tijolos à vista, bem assentados e até com arte, davam bom aspecto. As partes internas eram amplas e as instalações de matança mais modernas que as do antigo. Depois do abate, a carne verde era também transportada para o mesmo tendal do Largo São Paulo. Agora, esse transporte era feito de trem até a estação de São Joaquim e, dali então, em carroções apropriados até o tendal. Ao lado do matadouro, pouco tempo depois, foi construído também o curtume, de onde saía um córrego de água sempre tinta de sangue (o córrego do Sapateiro).

Nas imediações e sobre o prédio do matadouro, havia sempre muitos urubus. Como se pode imaginar, em toda aquela área sentia-se o mau cheiro proveniente do matadouro e do curtume. No local do curtume, foi construída agora uma escola do Senai.

O largo em frente ao matadouro (hoje, Senador Raul Cardoso) era bem grande. No meio dele, uma paineira e um bambual. Alguns botequins e ambulantes faziam seu comércio. Ali, se reuniam operários do matadouro e do curtume, com suas roupas com marcas de sangue, facas de trabalho na cintura. Não eram figuras agradáveis à vista. Marchantes, tripeiros, carroceiros e mesmo mulheres e crianças. Cachorros, então, havia ali bandos deles.

Os bois eram sacrificados a golpes de lança na nuca por um magarefe, que ficava no alto de uma plataforma sobre o corredor, para onde os bois eram tangidos. Ali, o animal derreava já sobre um carro que então era transportado para o salão de carneio. O lugar da matança era público, qualquer pessoa podia assistir. Muita gente vinha da cidade beber sangue de boi, pois acreditava-se, então, que pessoas anêmicas ou fracas teriam com aquela prática grandes melhoras, ou poderiam até obter a cura de vez.

Os italianos que se instalaram na Vila Mariana eram quase todos oriundos da Província de Salerno, e mais especificamente daquela parte montanhosa, conhecida por Cilento (...). Todos ou quase todos se entregaram de corpo e alma, seja como donos ou como empregados, ao comércio de miúdos, e passaram a constituir a classe dos tripeiros.

O comércio de miúdos tornou-se um negócio lucrativo. (...) Moradores da época relatam que a violência imperava entre os tripeiros, com muitos crimes sem razão sendo praticados por uma palavra, um mal-entendido, enfim...


A Prefeitura, segundo depoimentos de antigos moradores, interessava-se em civilizar e urbanizar a região. Por esse motivo, cedia os terrenos para que fossem pagos em prazos dilatados, de até 30 anos.

Os primeiros terrenos foram cedidos, no perímetro em que estava centralizado o novo matadouro, para funcionários públicos municipais, como é o caso do major Eleutério Borges de Azevedo Lagoa (hoje, uma das principais artérias do bairro), que era o administrador do matadouro em 1891, e também proprietário de um lote de terreno nas proximidades do prédio recém inaugurado. Outro proprietário de lote também foi homenageado post morten, dando seu nome a uma rua: Leandro Dupré, igualmente funcionário público.

Em 1891, quatro anos depois do Matadouro Municipal de Vila Mariana ter sido inaugurado, um grupo de funcionários solicita aumento de vencimentos ao presidente da Câmara Municipal, Clementino de Souza e Castro, que assim se pronunciou: “Indico como solução ao pedido de aumento de ordenado feito por diversos empregados desta intendência, que se defira o pedido, aumentando-se-lhes 15% sobre o que recebem".

O aumento de salário, ao que tudo indica, deixou os funcionários radiantes. Eles prontamente, manifestaram-se, homenageando o presidente da Câmara, solicitando, em um abaixo-assinado, que fosse dado o nome de Clementino ao local, onde tinham seus lotes de terra. 


Em sessão solene, no dia 5 de dezembro de 1891, resolveu-se aprovar a petição:

“Requerimento assinado por cento e vinte sete cidadãos pedindo que seja dado o nome de Vila Clementino à parte da Villa Marianna em que estão situados os lotes de terrenos que lhes foram concedidos”. O Conselho deliberou deferir a petição.

A Vila Clementino apareceu pela primeira vez no mapa em 1897, na Planta Geral da Cidade, organizada pelo intendente de obras Gomes Cardim. Nesta planta, observa-se a mesma delimitação de hoje.


(texto produzido em 1982, publicado pela Prefeitura Municipal de São Paulo, monografia premiada no concurso História dos Bairros de São Paulo)

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Trecho do livro Pancake - um romance água com blush




"O aeroporto Charles-De-Gaulle não é apenas o lugar onde você desembarca de um avião. O meio ambiente multiconstruído, multidimensional, hiper-edificado é a mensagem. Com suas escadas-rolantes gigantes e os túneis de acrílico, os painéis publicitários suntuosos, as grifes se impondo com a ferocidade de um tapa no rosto, a magnitude do espaço construído, o aeroporto Charles-De-Gaulle é um recado claro de que você desembarcou não em uma cidade comum, uma capitalzinha européia qualquer, mas que você está colocando os pés em um território sagrado, você finalmente chegou em Paris.
 Vic moveu-se a bordo de uma sandália dourada básica de salto alto, jeans obscenamente grudados na bunda e nas coxas e camiseta branca básica Hang-ten (aquela dos pezinhos). Gotas de Paloma Picasso nos punhos e atrás do pescoço. Óculos escuros não poderiam faltar, depois de uma viagem mal-dormida. É nessas horas que o supérfluo é essencial.
Nada a falar da viagem. Umas 12 horas de encolhimento, comida pasteurizada, ruído irritante das turbinas e a sensação de que as pernas estavam sempre esbarrando na poltrona dianteira, posicionando-se onde não deveriam estar.
O vizinho de poltrona era...Quem era mesmo? Alguém de paletó cinza e óculos. Usava gravata? O pior que usava. Que cor era a gravata? Eles não se falaram. Houve cumprimentos cordiais no início da viagem. Pedidos de desculpas na hora de levantar para ir ao banheiro. E só.
Nenhum problema na alfândega, principalmente, porque ela saiu por uma porta lateral, longe da vista das autoridades.
É uma dessas ocorrências inexplicáveis. Está certo: ela entregou seu passaporte para um funcionário e ouviu o carimbo bater com força na página esverdeada.
As malas eram muito grandes, muito desajeitadas, largas demais, pesadas demais. Colocou aquilo tudo num carrinho e foi em direção à saída. Procurou o melhor caminho, aquele com menos gente e malas. Desviou de um, desviou de outro, abriu uma porta, passou por um corredor estreito. Abriu outra porta e voilà: o saguão de saída do aeroporto.
Por isso aconteciam tantos atentados. A segurança falha. Vic nem se deu conta, que passou pela alfândega francesa sem ser percebida. Poderia estar transportando armas de destruição em massa, agentes químicos poderosos, sementes malignas, espécies nativas que destruiriam toda a vida vegetal francesa.
Felizmente, para os franceses, suas malas traziam quilos de sapatos, sandálias, moules, vestidos e maquiagem. Havia ali xampu, em quantidade considerável para massagear o couro cabeludo do exército americano; cremes para os pés, para as mãos, para o pescoço, contra as rugas, contra as estrias e a celulite; óleos para endurecer a bunda e amaciar o couro. Não que não houvesse esses produtos na França, mas por que arriscar.
Entrou no táxi e mostrou o endereço, anotado em um papelzinho.
O motorista perguntou qual caminho ela preferia e Vic respondeu: “Le moins cher et le plus vite”. 

Quando chegou na Passage des Fleurs, no 17ºeme, escurecia. As luzes amareladas derramavam-se sobre os prédios cinzentos. A rua era estreita, ladeada por construções de três até cinco andares. Todas pareciam ter um jardim na frente.
Vic desceu. Pagou o taxista. E juntou as malas na frente da casa de número 116.
Olhou a campainha e havia uma meia dúzia de nomes, cada um escrito sob uma tampinha de plástico. Num deles, se lia: “Ferrara, Ângela”.
Vic pressionou o botão.
“Oui?”, disse o aparelho.
“Sou eu, Vic.”
“Estou descendo.”
Vic virou-se e olhou para a rua. “Cristo”, pensou com lágrimas nos olhos. “Estou viva e em Paris.”


segunda-feira, 16 de abril de 2018

Por que a série Merlí é bem-sucedida


     A apresentação começa com uma mosca sobrevoando as páginas de uma aula em preparação. A mosca, no caso, é uma referência a Sócrates, o filósofo que perturbava a sociedade ateniense. Enquanto a mosca vai voando de página em página, toca uma música que parece mesmo um inseto voando próximo da nossa orelha, aquele zumbido irritante. A música que acompanha o sobrevoo da mosca foi escolhida a dedo (ou ouvido). É de um russo Korsakov (1844-1908) e chama-se O voo do besouro.

       Assim tem início a série Merlí, que mostra o dia a dia de um professor de filosofia em uma escola pública de Barcelona (Espanha). Exibida pela TV3 da Catalunha, a série chegou à Netflix e tem encantado educadores brasileiros. Ouvi no mês passado pela Rádio USP o professor Renato Janine Ribeiro mencionar o ensino da filosofia no ensino médio, fazendo referência à Merlí. Meu dileto amigo, o professor e jornalista Arquimedes Pessoni, também mencionou o seriado em um post no Facebook.  Em conversa com amigos, volta e meia, alguém menciona a série, utilizando o termo de varejo "imperdível".

       O roteirista Héctor Lozano disse que baseou-se em um educador que enfrentou problemas semelhantes ao Merlí da ficção. Lozano também usou sua experiência pessoal para construir o personagem Bruno, que é um adolescente homossexual, com dificuldade para viver sua sexualidade. Bruno não consegue "sair do armário", como se diz popularmente no Japão e alhures.

       Merlí, que tem nome parecido com o do mágico, é vivido pelo ator Francesc Orella. A interpretação de Orella fica próxima da perfeição. Em nenhum momento, você vê um ator fazendo o papel de um professor de filosofia. Ele incorpora o personagem e dá um show de interpretação. Os atores adolescentes não ficam atrás. São todos convincentes, capazes de nos fazer mergulhar em suas dores, prazeres, descobertas, aflições e alegrias. É difícil não se emocionar, não se deixar envolver pelo ritmo da história.

       A escola pública da Espanha tem poucos alunos na sala de aula. O lugar é limpo. Tem recursos, mas os professores reclamam dos salários baixos, da falta de recursos, do orçamento restrito. A Espanha - país do primeiro mundo - parece longe de uma Dinamarca, de uma Suécia, quando se fala em ensino público. Ainda que, para quem conhece a escola pública brasileira, aquele colégio da série pareça um sonho ambicioso. 
     
      O roteiro de Héctor Lozano aborda problemas contemporâneos e próximos de nossa realidade: desemprego entre os jovens, corrupção na política, falta de recursos para a educação, dificuldade em aceitar a diversidade, drogas, gravidez na adolescência...É um leque amplo, tratado sempre com muito carinho e atenção pelo roteirista. Até a independência da Catalunha não fica de fora.  
          
     Cada seriado tem o nome de um filósofo. Discute-se o tema filosófico que aparece genialmente envolvido pela trama. Sócrates, Platão, Freud, Marx intitulam os episódios. Filósofos atuais não ficam de fora, como Judith Butler e Slavoz Zizek ("não agir, é deixá-los agir"). 

     Judith esteve no ano passado no Brasil e seu seminário foi alvo de ataques neonacionalistas. Eles  acusavam o evento de ser um "simpósio comunista" e a autora foi qualificada, entre outras coisas, de "pedófila". Judith ganhou notoriedade e chamou sobre si o ódio dos conservadores brasileiros ao discutir questões de gênero, categorias "masculina e feminina" e feminismo. 

      Como se vê, a série é muito atual, tendo sido lançada na Espanha em 2015. O professor Merlí está desempregado, foi despejado de casa, é divorciado e vai morar com a mãe, uma atriz idosa, mas ainda paparicada pela crítica e público. Sem colocação no mercado de trabalho, ele se recusa a buscar outra atividade, aguardando a vez de retornar ao ensino. Surge uma vaga em uma escola e lá vai Merlí transformar-se na mosca socrática da sociedade catalã.

      Merlí esquiva-se da burocracia. Enfrenta o poder localizado. Vive filosoficamente questionando a realidade. Não fica restrito à sala de aula, mas leva sua vocação para a rua, para as casas de seus alunos, envolvendo-se em problemas pessoais. Merlí é o cara.

      Comparações com outras séries são inevitáveis. Merlí é muito parecido com Rita, da série dinamarquesa. Ambos os personagens não se enquadram no sistema, mas ambos igualmente são competentes e adorados por seus alunos. Não cabe aqui dizer se Rita é melhor ou pior que Merli. Gostei das duas séries e - como em uma época da minha vida fui professor - me identifiquei com os dois educadores. 

      Ainda sobre séries vou voltar ao tema, porque descobri que assisto a essas mininovelas, desde a minha tenra infância. Rin-tin-tin, O Zorro, Combate, Perdidos no Espaço...Por que será que tanta gente gosta de séries e tantos ficam meio perdidos quando elas terminam? Talvez isso seja tema para uma próxima reflexão. Veremos.

     Grande abraço!


          

     

terça-feira, 10 de abril de 2018

Trecho do livro Complexo de Servo - um romance sobre a submissão


       

1979
        
"O chefe do Departamento Fotográfico chamava-se Lambari. Tinha a pele escamosa, os cabelos como nadadeiras e um olhar viciado, de peixe morto. Na realidade, Lambari era o apelido, mas ninguém o conhecia pelo nome de batismo. Foi o próprio Lambari quem deu um armário enferrujado para Beto guardar suas câmaras e lentes. Lambari ofereceu-lhe também um filme rebobinado, “com umas 30 poses”, e o despachou para São Bernardo.
         “Os milicos vão matar o Lula e fazer uma faxina. Vai ser legal”, avisou Lambari.
         Lula era o apelido de Luiz Inácio da Silva, o líder sindical de São Bernardo. Lambari não tinha ódio ideológico de Lula, ou algo assim parecido. Era apenas o desejo de ver sangue escorrendo.
Era o acontecimento mais importante daquele dia. Por que destinar uma pauta tão preferencial para um iniciante? “Eles querem me queimar, por causa do meu tio”, Beto concluiu. Queriam testá-lo. A bem da verdade, mais provavelmente, fritá-lo.
No instante seguinte, Beto já estava em São Bernardo, sob a cor de chumbo daquela cidade que reunia as principais montadoras do país. No ABC – região formada pelas cidades Santo André, São Bernardo e São Caetano – eram feitos os carros, as peças dos carros e os acessórios. Os operários vinham do Nordeste, principalmente. Moravam em favelas, em casas precárias edificadas sobre áreas invadidas de mananciais. Destruíam as sobras da Mata Atlântica. Viviam nas ventosas dos tentáculos do Monstro.
         Com a responsabilidade esmagando sua cabeça, preocupado com o tio, Beto circulava pelo Paço Municipal de São Bernardo. Eram 14h. O lugar estava cheio de gente. Chegavam notícias confusas: “Lula foi preso”, “Lula está com o prefeito”, “A polícia cercou a casa do Lula”.
         No Teatro Cacilda Becker, a peça em cartaz chamava-se Quando as Máquinas Param.
         Uma coincidência temporal. Há 10 dias, os metalúrgicos mantinham sua greve, enfrentavam a Ditadura Militar com bravura e determinação. Eram um anacronismo histórico. Ressuscitavam a luta de classes, numa época em que ninguém mais acreditava nisso.
         Beto tinha lido na Newsweek que o líder dos metalúrgicos, o Lula, era “o herói da classe operária brasileira”.
         Mas onde estava o Lula?
         Os operários chegavam cada vez em maior número. Tomavam conta da praça. Gritavam em coro: “A greve continua! A greve continua!” e “Lula! Lula! Lula!” Beto encontrava-se no olho do furacão com um filme rebobinado. Tinha chance de fazer umas 30 fotos, sendo que as duas primeiras e as duas últimas quase sempre queimavam em um filme rebobinado. No cômputo geral, eram 26 fotos, apenas.
         Chegavam mais informações desencontradas. Lula tinha sido cassado e o Sindicato dos Metalúrgicos caíra sob intervenção federal.
         Havia 20 mil operários na praça. Vinte mil expressões diferentes e Beto  com um filme rebobinado na máquina. 26 poses. A informação agora era confirmada: Lula tinha sido realmente cassado e o Sindicato dos Metalúrgicos seria ocupado por interventores. A greve poderia acabar naquela tarde.
         Sob o céu de chumbo, chegaram cem peruas C-14 da polícia. Elas rodearam a praça com as sirenes ligadas e as luzes piscando. Vieram também os cavalos, os cães pastores e os caminhões espinha-de-peixe, trazendo a tropa de choque.
         Um helicóptero sobrevoou o Paço Municipal de São Bernardo. Dentro do helicóptero dava para ver um soldado do exército armado de metralhadora.
         Um carro de som servia de palanque. Líderes metalúrgicos diziam que a manifestação era pacífica, que ninguém deveria reagir à provocação.
         A polícia cercava a praça. Um metalúrgico com chapéu da Volks circulava impaciente. Era um cara baixinho, forte, híbrido de índios e negros. Ele andava com o peito estufado, os braços em curva como se fosse uma xícara de duas asas.
         De onde Beto se encontrava, era possível ver os carros de choque Brucutu se aproximando, ao lado dos carros dos bombeiros, dos cavalarianos e dos cães pastores da Polícia Militar.
         A tropa de choque preparava as bombas de gás lacrimogêneo, aprumando os escudos e os cassetetes.
         Os metalúrgicos comprimiam-se, tentando ficar nas proximidades do prédio da Prefeitura. Naquele momento, a polícia já tinha cercado toda a praça. Não havia mais para onde fugir.
         Uma repórter da legendária TV Tupi gravava uma passagem para a sua matéria. Ela explicava que a praça estava cercada, que o ato público ia começar naquele momento e dizia que os metalúrgicos estavam tensos e apreensivos. “Com o cu na mão”, Beto completou, em pensamento.
         A praça tinha um estilo modernoso, repleto de concreto, com esqueletos de árvores e grama encaixados nos vãos do cimento. O céu de chumbo ficou mais escuro. Começou a garoar e a ventar forte. Fazia frio.
         Os uniformes dos policiais eram cinzentos, assim como os prédios em volta.
         Beto fez umas quatro ou cinco fotos dos policiais avançando. Bateu a câmara na cabeça de um operário. O sujeito gritou de dor. Anos e anos fotografando noivos de bolo atrapalham a gente muito mais do que se imagina.
         O vento estava mais forte agora. A garoa descia suja e ácida. Ele limpou a lente com uma flanela. Usava uma capa plástica vermelha, fechada até o pescoço e com um capuz de frade capuchinho sobre a cabeça. Era o chapeuzinho vermelho da fotografia. Um atirador louco, entre os policiais, fatalmente o escolheria como alvo. Era a própria capa do toureiro.
         “Vou tomar um tiro na espinha e ficar aleijado”, Beto pensou.
         O cadáver...Aquela cueca sobressaindo-se...A perda da dignidade e do orgulho...
         Ordens confusas partiam de lideranças esporádicas: “O governador Paulo Maluf, que deu ordem para reprimir a manifestação, vai ser o responsável pelo que ocorrer hoje nessa praça”, gritava o carro de som.
         Os operários berravam: “Abaixo a Ditadura! Abaixo a Ditadura!” E também: “A greve continua! A greve continua!”. E ainda: “Lula! Lula! Lula!”
         A primeira bomba foi disparada. A gritaria generalizou-se. As palavras de ordem foram substituídas por frases partidas:
         “Calma, gente, calma.”
         “Não pisa na moça.”
         “Abaixa a cabeça.”
         “Eles estão disparando contra a gente.”
         “Eles vêm vindo.”
         Beto viu a repórter da TV Tupi falando no microfone e, em seguida, viu uma fumaça na parte debaixo da saia dela. A repórter começou a voar pela praça.
         Ela foi deslocada por uns 10 metros e caiu sentada, ainda segurando o microfone, tentando entender o que tinha acontecido.
         O cinegrafista botou a câmara no chão e começou a enfiar o dedo no ouvido.
         Beto fez umas dez fotos da correria. Os operários tentavam escapar do cerco. As C-14 com as sirenes ligadas entravam na praça. Gente caía, gente era pisoteada.
         O operário com o chapéu da Volks apareceu dentro da câmara de Beto com o rosto ensangüentado.
 “Quebraram a minha cabeça”, ele gritava. Os braços em xícara estavam agora na cabeça, tentando estancar o sangue.
        
Os fotógrafos casamenteiros jamais acreditariam naquilo.
         Os policiais a cavalo empurraram os metalúrgicos para o meio da praça. A maioria dos operários corria em direção ao prédio da Prefeitura. A passagem era apertada. Não daria vazão para tanta gente.
         Beto encontrou uma grade e passou o braço esquerdo ao redor dela. Ficou ali em cima, empoleirado.
         Sua lente viu vinte homens envoltos por uma nuvem branca, proveniente das bombas. A fuga dos grevistas era desordenada. Os guardas batiam em tudo que se movia. Cavalos, cães e viaturas eram jogados sobre os metalúrgicos.
         O fotógrafo olhou para a repórter da TV e viu que ela ainda não tinha se levantado. O cinegrafista, sentado no chão, esfregava os olhos. Devia estar momentaneamente cego e surdo por causa da bomba.
         Beto saltou do poleiro e foi em busca de uma posição melhor. “Devo ter ainda umas três fotos”, calculou, enquanto corria.
         Um metalúrgico, próximo de Beto, levantou a mão e gritou. Beto parou de correr. Olhou para o operário e virou a cabeça. Havia uma “parede” marrom ao seu lado. O ar foi riscado por um instrumento cortante e um negócio duro bateu com força no rosto do fotógrafo do Jornal Falido.
         Beto viu literalmente estrelas. Uma constelação de pequenos pontos luminosos. Levantou a cabeça e viu o guarda a cavalo ao seu lado. O policial armado com um cassetete gigante.
         Beto gritou:
         “Eu sou jornalista! Não faço greve!”
         O guarda decidiu procurar outra vítima e se afastou com seu cavalo. Beto pegou a flanela no bolso e botou em cima do ferimento. Lembrou-se do sindicalista morto pela manhã, diante da Metalforjado. Andava e repetia: “Eu sou jornalista. Não faço greve”.
 Sangue por todo lado.
         Os homens gastavam todas as bombas. Era uma liquidação. Queima de estoque. O gás lacrimogêneo espalhava-se pelo ar frio, daquele dia sujo.
         A manifestação tinha terminado.
         Beto sentou-se ao lado da repórter. A perna da moça tinha se transformado em uma das chagas de Cristo. Apesar do ferimento, ela continuava trabalhando, escrevia sem parar.
         “O que me fode é saber que os caras vão cortar tudo na edição”, dizia a repórter para o cinegrafista, que não podia ouvi-la, porque ainda esfregava os ouvidos. Beto entrou na Prefeitura. Procurou um banheiro e se lavou. O ferimento era superficial. “Mas dói pra caramba.”
         Preocupado com o corte, o fotógrafo perdia a dimensão do que acabara de presenciar. Aquele tinha sido o maior confronto entre a Ditadura Militar e a classe operária. Uma luta campal. Um massacre. Aquele pessoal esmagado reuniria forças e se aglutinaria em um partido político, que passaria a representar a esquerda, ou o que sobraria dela dez anos depois, quando caísse o Muro de Berlim. Mas o que importava naquele momento era o corte na cabeça.

“Batismo de fogo”, disse Lambari, quando ele chegou no jornal, com o crânio remendado, e o filme rebobinado para ser revelado."

segunda-feira, 19 de março de 2018

No império de gelo


Tocou o telefone. Atendi. Do outro lado da linha, estava o diretor de Redação do Jornal da Tarde, Murilo Felisberto. Eu havia escrito uma extensa reportagem sobre a situação dos trens da CPTM para o Diário do Grande ABC, onde era repórter especial. A matéria chamou a atenção de Murilo que retornava ao JT para tentar "salvar" a publicação. Ele queria conversar comigo e me chamou para uma reunião.

Muita gente sonha com determinadas realizações. Fazer sucesso em um grupo de rock, desfilar para uma grife conhecida, ser consultor financeiro e ganhar muito dinheiro, participar do Esquadrão da Morte, tornar-se atriz de novela, virar político e resolver a vida de familiares próximos e herdeiros secundários. Meu sonho era trabalhar no JT, realizar grandes reportagens e inscrever meu nome na história daquele jornal mítico. Por isso, aquela ligação teve o sabor de uma porta deslumbrante que se abria para mim.

Cheguei no horário marcado. Entrei na Redação do JT de cabeça erguida e peito estufado. Júlio César atravessando o Rubicão...Entrei no aquário, onde Murilo Felisberto ficava. Estendi a mão para ele e o aperto me pareceu fraco, meio sem vida. Ele me pareceu um homem doente, pálido, extremamente envelhecido. Devia estar com 60 anos, mas parecia ter 20 anos mais. Escolhia fontes tipográficas para a próxima reforma do JT. Essa escolha de fontes nunca chegou a ser concluída, nem houve reforma do JT, que encerraria sua vida nas bancas, posteriormente.

Ele me ofereceu um emprego de repórter especial, com salário maior do que eu recebia no DGABC. Mais do que isso: iria sentar na mesa do grande repórter policial Percival de Souza, que estava de saída do JT para trabalhar na TV Record.

Fui para casa dando pulos de alegria. Literalmente. Socava o ar, como Pelé. Era o ápice da minha carreira. Desde que era adolescente e lia aquelas reportagens sensacionais, via aquela capa célebre do garoto chorando com a derrota do Brasil em 1982 (foto do Domício Pinheiro), sonhava em trabalhar naquele jornal.

Em casa, convoquei a família. Expliquei que iria sair do DGABC, onde era bem tratado, querido e bem remunerado, para enfrentar o desafio de uma casa nova. O pessoal deu sinal verde para a mudança. Todo mundo ficou feliz e exultante. "Que legal! Que bacana!", diziam, sorridentes, felizes da vida.

Os primeiros dias no emprego novo me deram a impressão de estar em uma geladeira. O ambiente era frio. Um lugar gelado. Anos luz daquela Redação deliciosa do Dipo. Quando eu falava, dava impressão de sair da boca vapor condensado, como naquele filme Sexto Sentido, "I see dead people". As pessoas conversavam pouco. Não havia clima de camaradagem. Éramos concorrentes. Um precisava alimentar-se do outro para sobreviver.

O JT vivia dias amargos. Já havia aquela espada de Dâmocles sobre a cabeça do jornal.

De bom, fiquei amigo e parceiro de Marinês Campos, excepcional repórter policial. Conheci também Valdir Sanches, de texto correto e apaixonado pelo bom gosto. Chegamos a ir com nossas famílias em um dos jantares que a mulher de Valdir Sanches preparava em determinadas datas. Era uma casa bem acolhedora, situada em uma bairro tranquilo de Guarulhos, com motivos rústicos e decoração atraente.

Nosso chefe era um sujeito de pele escamosa, de rosto vermelho, tão vermelho que quem não o conhecesse acharia que ele iria sofrer um ataque cardíaco no minuto seguinte. Esse cara fumava o tempo inteiro e eu era obrigado a fazer reunião de pauta, suportando o cigarro queimando a centímetros do nariz.

Entre as matérias que mais gostei de ter produzido nesta época, uma delas contava o dia a dia de funcionários da Carrocinha, serviço emblemático da Prefeitura de São Paulo que recolhe cães sem dono. Entrei dentro do caminhão e acompanhei o trabalho dos "homens da Carrocinha". Era delicioso ver como eles se sentiam policiais e como creditavam aos vira-latas aspectos "humanos". "Esse é cadeeiro velho", comentavam sobre o esperto cão pretinho que se escondia deles e fugia sem ser alcançado pela corda ameaçadora.

Outra reportagem interessante foi feita durante uma transferência de presos perigosos para uma penitenciária de segurança máxima. Durante o trajeto, um motociclista aproximou-se perigosamente do comboio. O policial que estava ao meu lado me deu um revólver 38 e me aconselhou a ficar deitado no chão do veículo. "Se a gente for baleado, você fica deitado e quando alguém colocar a cabeça na janela, você atira", foi o conselho do agente. Felizmente, o motociclista percebeu que estava no lugar errado na hora errada e puxou o carro, quer dizer, a moto.

Com Marinês Campos, fizemos extensas reportagens sobre uma facção criminosa, que o governo estadual dizia não existir. Publicamos o estatuto da facção e até fotos de seus principais líderes. O então governador Geraldo Alckmin desmentia as matérias e dizia que a facção era uma invenção da imprensa. Por essa série de reportagens, o JT foi finalista nacional do Prêmio Esso.

Lembro de ir com Marinês a um almoço com um ex-detento, apelidado de "Tatu". Nosso encontro aconteceu em uma churrascaria na avenida Marquês de São Vicente. "Tatu" era especialista em...
Adivinhe?
Cavar túneis, evidentemente. Ele nos contou histórias inacreditáveis sobre fugas.

Uma de nossas fontes trabalhava em um órgão do governo e detinha conhecimento profundo no "submundo do crime". Lembro de uma reportagem que produzimos, dando conta da fuga de um detento da Casa de Detenção. Informamos que ele fugiria nos próximos dias. Três dias depois, o detento realmente fugiu, escapando por um túnel cavado sob a avenida Cruzeiro do Sul. A manchete foi óbvia: "Fulano fugiu e o JT tinha avisado". 

Todos os dias publicávamos histórias tenebrosas que ocorriam na Casa de Detenção. Foram tantas e tantas reportagens, batendo sem parar na Casa de Detenção que, o governador Geraldo Alckmin convocou a imprensa e afirmou que iria demolir o velho presídio, construído em 1920, com repertório de horrores inesgotável, como aquela execução em massa que matou 111 presos, em 1992.

Em março, eu e Marinês Campos disputamos a final nacional do Prêmio Esso, o principal da imprensa. Uma semana depois, no início de abril, fui chamado pelo chefe escamoso para uma reunião. Achei que seria promovido. Teria o salário dobrado. No entanto, terrível constatação: fui demitido.

A espada de Dâmocles fazia suas vítimas na Redação do JT. Os cortes haviam começado. Aos poucos, o integrante da família Mesquita que ficava em um dos aquários do JT também seria retirado, assim como Murilo Felisberto e o chefe escamoso perderiam o emprego. O JT, de tantas glórias, prêmios e reputação, desapareceria para sempre das bancas.

Lembro que cheguei em casa desesperado. Andava de um lado para o outro sem saber o que fazer. Meu filho estava na escola. Tinha inúmeras obrigações financeiras. Aquele meu castelo de sonhos e realizações tinha desabado com estrondo. Minha mulher me encontrou no quarto, viu meu desespero e sugeriu: "Liga para o Irineu". Ela referia-se ao meu amigo e parceiro de longa data Irineu Masiero que, na época, ocupava o cargo de diretor de Redação do DGABC.

Respirei fundo. Peguei o telefone e disquei o número do Diário. A telefonista atendeu. Pedi para falar com ele. Ela passou a ligação. Tocou uma musiquinha e a voz do Irineu ocupou a linha. Expliquei o que tinha acontecido e a resposta dele foi uma sinfonia de Bach para os meus ouvidos desesperados: "Seja bem-vindo", ele disse.

No dia seguinte mesmo, eu reiniciava minha carreira de repórter especial no DGABC. E nunca mais voltaria a pisar no império de gelo. 
 


 

A primeira travesti do Bois de Boulogne

  Livro conta a história de Paul/Suzanne O escritor Marc Lefrançois ( marc.lef01 ) , autor de "Les grandes criminelles de l'Histoir...